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Há 40 anos, em 27 de Maio de 1977, iniciou-se em Angola uma purga dentro do MPLA que terá resultado em mais de 30.000 vítimas mortais. A cisão no partido então presidido por Agostinho Neto teve repercussões na esquerda portuguesa. A linha mais ortodoxa dentro do PCP lançou um manto de silêncio sobre a barbárie. Outra corrente, hoje sobretudo representada no Bloco de Esquerda, tinha evidente afinidade com muitas das vítimas do massacre: Sita Valles, Nito Alves, José Van Dunem ou Rui Coelho para só citar alguns. É à luz destes factos históricos que deve ser lida a posição de total distanciamentodo do regime agora encabeçado por José Eduardo dos Santos que o Bloco de Esquerda mantém. Mas é então errado que o Bloco adopte uma posição de condenação radical do poder corrupto e manchado de sangue de Luanda? Obviamente que não. Mas vale o que vale. Não encontramos no Bloco a mesma coerência quando se trata de avaliar outros regimes totalitários e violentos de esquerda (sobre os de direita o Bloco tem naturalmente uma posição explícita e faz muito bem). No caso da Venezuela, por exemplo, onde se esperava indignação, temos silêncio. A posição do Bloco sobre Angola não resulta portanto de um imperativo ético enquanto tal, transponível para qualquer outra geografia ou momento onde exista violação das mais elementares liberdades e direitos, mas de uma ferida histórica que continua aberta.

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Amanhã

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.05.17

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Amanhã será dia 27 de Maio. Um amanhã diferente daquele que em tempos foi cantado. Uma data triste para Angola, uma data feita de memórias dolorosas. E porque à dor ninguém escapa, envio daqui um forte e fraterno abraço ao Zé, com votos de que o lançamento seja um sucesso e o seu trabalho útil para as gerações vindouras. Angola continua a precisar de todos. E de ter memória da dor.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 11.11.16

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Angola Amordaçada - A imprensa ao serviço do autoritarismo, de Domingos da Cruz

Investigação

(Edição Guerra & Paz, 2016)

"A presente edição não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico"

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O panegírico de César a Santos

por Pedro Correia, em 19.08.16

Talvez enebriado pela atmosfera de unanimismo reinante no congresso do MPLA, onde - como é costume - não perpassa a mais leve brisa de contestação ao líder, que há 37 anos é também Presidente da República de Angola, Carlos César entusiasmou-se no discurso que ontem dirigiu à reunião magna do partido do poder em Luanda.

"Cumprimento, em meu nome pessoal e em nome do Partido Socialista, de forma especialmente fraterna, o presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos, a figura referencial da história de Angola e da história da emancipação africana", declarou o presidente do PS e líder parlamentar da bancada socialista em São Bento, falando como convidado de honra no congresso.

 

Confesso ter muita curiosidade em saber como reagirá o Bloco de Esquerda a estas empolgadas declarações. Criticará a personalidade cimeira da hierarquia do partido do Governo que os bloquistas apoiam com tanta convicção ou fará de conta que nem a escutou?

Aposto desde já na segunda hipótese, escudada no princípio bíblico "a César o que é de César".

 

A concretizar-se tal cenário, não deixarei de o lamentar. Seria útil que Catarina Martins, a propósito deste panegírico feito por César a Santos, reeditasse as suas solenes proclamações contra o regime angolano. 

"Defendemos cada um dos presos políticos em Angola e lembramos que há presos políticos que não são luso-angolanos, são só angolanos, que estão a a ser torturados pela polícia" , afirmou a porta-voz do BE a 23 de Outubro de 2015. "Respeitarmos Angola, respeitarmos o povo angolano é olharmos de igual para igual e exigirmos que lá, como aqui, haja liberdade", disparou a dirigente bloquista a 27 de Outubro de 2015.

Presos políticos e falta de liberdade sob o mando de "uma figura referencial da história da emancipação africana"? Olhe que não, Catarina, olhe que não.

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Está a ser bonita a festa, pá

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.08.16

Apesar do deputado Hélder Amaral estar "à espera de um “discurso mais empolgado” (eu também), ainda assim pode-se dizer que o brilho conferido pela presença do CDS/PP ao Congresso do MPLA está a ser um sucesso:

 

"Entre os convidados estavam também os bispo da Igreja Tocoísta, D. Afonso Nunes, profetiza Suzeth João, da Igreja Teosófica Espírita, Miraldina Jamba, da UNITA, e Quintino de Moreira, presidente da Aliança Patriótica Nacional, e membros do Corpo Diplomático acreditado em Angola.
Oriundos do estrangeiro estavam 21 convidados, em representação de partidos, com destaque para Domingos Simões Pereira, presidente do PAIGC, e o político português Paulo Portas. Representantes do Partido Comunista da China, Partido do Trabalho da Coreia do Norte, Frelimo, Partido Congolês do Trabalho, Swapo, PGD da Guiné Conacry, Partido Chama Cha Mapinduzi, da Tanzânia, PDP, do Botswana, delegações da RDC, do Partido Revolucionário da Etiópia, da União do Povo da Guiné Conacry, da Organização da Libertação da Palestina (OLP) também marcaram presença. De Portugal apenas o CDS/PP marcou presença na cerimónia de abertura. Até ao fecho desta edição eram aguardados os representantes do Partido Comunista Português, do Partido Social Democrata e do Partido Socialista
."

 

Lamentando o atraso dos restantes partidos portugueses à sessão de abertura do congresso, pese embora a mensagem que o PCP enviou, vê-se que o CDS-PP é o único partido português que continua a fazer "justiça aos retornados do Ultramar" e a pugnar "pela dignificação dos antigos Combatentes no Ultramar".

Espera-se, agora, que depois do congresso a camarada Assunção Cristas agende um bailarico no Caldas com a malta do kuduro e da kizomba, para que se proceda na ocasião ao pagamento das compensações devidas aos espoliados do Ultramar, o qual será feito, em resultado dos mais recentes esforços da diplomacia económica do partido, com o carregamento de t-shirts e bandeirinhas do MPLA que o camarada Amaral vai trazer de Angola. O discurso de abertura será feito pelo camarada Telmo Correia.

A luta continua. O reaccionário do Águalusa que se vá banhar no Cunene.

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Afinidades

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.08.16

"O VII Congresso Ordinário do MPLA, que começou hoje no Centro de Conferência de Belas, em Luanda, não credenciou todos os meios de comunicação social que pretendiam fazer a cobertura do evento. O Rede Angola é um deles.
O processo de credenciamento começou no mês de Maio, a cerca de três meses do congresso, por iniciativa do Departamento de Informação e Propaganda (DIP) do MPLA. Depois do envio (por duas vezes) do nome dos repórteres indicados para o serviço, da entrega de duas fotografias e de uma cópia do Bilhete de Identidade e de várias deslocações à sede do partido, em Luanda, a resposta final veio em forma de silêncio.
Oficialmente, as justificações apresentadas para a falta de credenciamento em tempo útil estão relacionadas com uma eventual dificuldade dos serviços de segurança e da área técnica do partido em despachar o trabalho."

 

A notícia do Rede Angola é apenas um detalhe que, certamente, não ensombrará o fortalecimento das relações entre o CDS-PP e o MPLA, tantos são os pontos em comum que unem os dois partidos. Fico satisfeito que assim seja, pois vejo com bons olhos este convívio fraterno entre dois partidos imbuídos de uma cultura democrática acima de toda e qualquer suspeita.

Apesar disso, pode ser que um dia tenha a sorte de Paulo Portas, Assunção Cristas e Hélder Amaral me explicarem de viva voz quais os pontos em comum entre:

(i) um partido que se reclama de direita, personalista, assente nos valores éticos, sociais e democráticos do humanismo personalista de inspiração cristã, defensor de um Estado que não deve ser o regulador das liberdades sociais, em especial nos domínios da educação, da saúde e da segurança social e que acredita profundamente, entre outras coisas, num regime de liberdades pessoais e cívicas,

e um outro, que derivando directamente do marxismo-leninismo puro e duro, em tempos subserviente a Moscovo e à Cuba de Castro, com os mesmos dirigentes há décadas, a começar pelo número um, se reclama, como escreve em editorial o Jornal de Angola, "o partido dos “camaradas” que está no poder", tendo

(ii) o "Socialismo Democrático como orientação ideológica que melhor corresponde aos interesses do desenvolvimento multilateral do Povo Angolano e como ideologia que defende uma vida digna a partir da plena e racional utilização dos recursos do País", que se reclama de uma "perspectiva política de esquerda dinâmica" e quer "os principais centros de decisão nas mãos de nacionais, devendo o Estado apoiar a criação de uma base económica e empresarial efectivamente detida por angolanos".

 

Tirando o amor aos dólares, o oportunismo, a hipocrisia política, e a mesma tolerância e compreensão para com os beirões que criticam o poder, confesso que não vejo outros pontos de convergência. Mas admito, de novo, que possa estar enganado.

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Oportunidade perdida

por Diogo Noivo, em 03.04.16

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A política é um jogo de percepções e de expectativas. Se bem ou mal, diz-nos o célebre secretário florentino que pouco importa. Foi assim no passado, é assim no presente e tudo indica que será assim no futuro. Por isso, foi errada a postura do PSD e do CDS quando chumbaram o voto de condenação a Angola pela prisão de 17 activistas.

O chumbo foi errado porque PSD e CDS colocaram-se assim, ainda que inadvertidamente, do lado errado do quadro de princípios. Foi errado porque, como aqui se defende, a aprovação do texto do PS não implicava grandes custos políticos. E sobretudo foi errado por ser uma oportunidade perdida. Num momento em que temos um governo apoiado por dois partidos inenarráveis – um que vê em Cuba e na Coreia do Norte regimes respeitáveis e outro que namorou a esquerda abertzale pró-etarra, entre outros movimentos igualmente pouco edificantes –, o PSD e o CDS perderam uma excelente oportunidade para se diferenciarem ainda mais e, dessa forma, adquirirem respeitabilidade extra e capital político reforçado. A continuar assim, PS e BE ainda acabarão como preceptores morais do regime, o que equivale necessariamente a remetê-lo para um lugar sinistro.

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O regime autoritário angolano condenou 17 pessoas por lerem e discutirem um livro. Por cá, após esta condenação, a ousada denúncia do passado revelou-se uma bravata pré-pubescente, agora posta na gaveta. Aliás, relendo o que escreveu o Rui Rocha aqui no DELITO, não é a primeira vez que, a respeito deste assunto, a coragem do Bloco de Esquerda fica em casa. Heróis sim, mas só na oposição. E as causas nobres que se habituem. 

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Agualusa, água límpida

por Rui Rocha, em 25.10.15

O Homem que Perdeu o Respeito do Passado e a Indulgência do Futuro

Nos últimos dias multiplicaram-se um pouco por todo o mundo, de Lisboa à Cidade da Praia, passando por Londres, Paris e Maputo, as manifestações de solidariedade para com os presos políticos angolanos. Fiquei particularmente impressionado com duas cartas dirigidas ao Presidente José Eduardo dos Santos, ambas assinadas por personalidades que estiveram presas por combaterem regimes totalitários. A primeira foi escrita por Alípio de Freitas, um antigo padre português que ajudou a fundar no Brasil, nos anos 60, as famosas Ligas Camponesas e, pouco depois, o movimento Acção Popular. Preso pela ditadura brasileira, em 1970, só seria solto oito anos mais tarde, tendo então ido viver para Moçambique. Alípio de Freitas sempre apoiou o MPLA. Zeca Afonso dedicou-lhe uma canção com o seu nome. A segunda carta foi escrita pela jornalista Diana Andringa, Manuel Macaísta Malheiros, Maria José Pinto Coelho da Silva e Mário Brochado Coelho, presos pela PIDE, também em 1970, por ligações ao MPLA.

Todos estes antigos presos políticos são unânimes a constatar as semelhanças entre o regime que os julgou e condenou e o actual sistema angolano. Todos se surpreendem pelo facto de antigos camaradas, pessoas que, como eles, se bateram pela independência de Angola, pessoas que acreditavam num mundo mais justo e mais livre, estarem agora à frente de um regime tão ou mais odioso quanto aquele que combateram enquanto jovens. Eis a pergunta, velha como o mundo: como é que um jovem idealista, de coração puro, se transforma num tirano?

Se fosse possível trazer aquele José Eduardo dos Santos, na integridade e elegância dos seus vinte anos, desde a vertigem do passado, 1962, até estes nossos dias difíceis, é muito provável que o mesmo fosse visitar Luaty à clínica onde está internado, para o abraçar, e a seguir se suicidasse – matando assim o ditador frio e silencioso em que, entretanto, se transformou.

Os poucos intelectuais que ainda não se envergonham de vir a público defender José Eduardo dos Santos neste desastroso processo dos jovens democratas acusados de tentativa de golpe de Estado, insistem num aspecto básico: o regime angolano não é uma ditadura, e ao invés de organizar manifestações, os jovens, como chegou a afirmar o Presidente da República, deveriam canalizar o seu descontentamento e as suas propostas, organizando-se em partidos políticos. Vou fingir que acredito que eles acreditam neste argumento e, com muita paciência, tentar explicar o óbvio. Nenhum presidente permanece 35 anos no poder, de forma ininterrupta, numa democracia. Ah, dizem os defensores da nossa “democracia”, no caso do José Eduardo dos Santos isso só vale a partir de 1992, ano em que se realizaram as primeiras eleições. A ver se compreendo, então de 1979 a 1992 José Eduardo dos Santos foi um ditador – certo? Espero que pelo menos nesse ponto estejamos todos de acordo. Acontece, porém, que em 1992, José Eduardo dos Santos não ganhou as eleições. Logo, continuou a ser um ditador, desde 1992 até 2008, que foi quando se realizaram as segundas eleições.

Não me recordo de haver na História das democracias nada semelhante. Nem sequer vale a pena falar na forma como decorreram os dois últimos actos eleitorais ou nos mecanismos de concentração de poder entretanto adoptados.

Não, o regime angolano não é uma democracia. Em democracia, por outro lado, os cidadãos podem e devem contestar as práticas governamentais em manifestações, vigílias, e através de quaisquer outros processos não violentos. Mais: a qualidade de uma democracia pode avaliar-se pelo grau de sofisticação da sua sociedade civil, isto é, pelo número de estruturas não partidárias, como ONG, sindicatos, associações profissionais, etc., que intervêm activamente na vida pública do país.

Democracias não são derrubadas através de manifestações. Ditaduras são – e ainda bem. Os verdadeiros democratas não receiam manifestações. Os ditadores sim – e ainda bem.

Lá, no seu palácio, José Eduardo dos Santos está tão assustado que já nem sequer aparece para fazer os discursos da praxe. Tem bons motivos para ter medo. O passado perdeu-lhe o respeito e  futuro inteiro está contra ele.

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Crise de liquidez na banca angolana

por José Maria Gui Pimentel, em 25.04.15

Tem sido pouco noticiada a restrição à transferência de capitais para fora de Angola. Não se trata de uma restrição oficial, mas é o que acaba por acontecer efectivamente: é hoje virtualmente impossível para um particular transferir dinheiro para fora de Angola pelas vias oficiais.

Tudo começou com a recente crise económica, provocada pela queda do preço do petróleo, e que se repercutiu na taxa de câmbio do kwanza, que já está perto dos 110 kwanzas/dólar. Sucede que esta é apenas a taxa oficial, fixada pelo banco central. No mercado paralelo, o dólar é vendido a 170-180 kwanzas, um valor muito superior. Ora, os bancos comerciais são obrigados a converter kwanzas em dólar a uma taxa em torno da oficial, e porventura será este o motivo para recusarem a transferência aos clientes: estariam a perder dinheiro. Por outro lado, a própria liquidez deverá estar bastante apertada, numa altura em que os mercados internacionais se fecham e o banco central deverá dosear a cedência de reservas, elas próprias depauperadas pela crise do petróleo.

Os próximos tempos serão, tudo indica, difíceis para quem confiou no 'sonho angolano'.

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Passos Coelho vai dizer a Angola o mesmo que Merkel diz à Grécia?

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.02.15

Se houver coerência, Passos Coelho e Paulo Portas farão um manguito ao pedido de Angola, aplicando aos angolanos, como bem recordou José Manuel Pureza, os mesmos princípios que quiseram impor aos gregos relativamente à renegociação da dívida. Se o Jornal de Angola diz que os portugueses "enchem os bornais de dinheiro, à custa de Angola", então é altura das elites angolanas comprovarem a veracidade do que foi escrito. Além do mais, estamos a falar de um país que tem petróleo e diamantes, coisa que os gregos não têm, pelo que não há qualquer razão para se voltar a perdoar a má gestão que Angola continua a fazer das suas riquezas.

Duvido é que Passos Coelho tenha coragem de dizer alguma coisa, pois é mais do género forte com os fracos e fraco com os fortes, como se viu pela sua receita interna. Mas os depauperados bolsos dos portugueses, que vão pagar até ao último cêntimo o empréstimo da troika, não têm de também suportar os gastos que as famílias dos generais e empresários angolanos fizeram na Avenida da Liberdade ou na compra de apartamentos no Estoril ou em Cascais, já que em matéria de banca o que compraram foi-lhes oferecido a preços de saldo.

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Esperem pela pancada.

por Luís Menezes Leitão, em 18.12.14

 

Tudo o que se está a passar hoje estava há muito previsto num livro de Samuel Huntington de 1996, denominado O Choque das Civilizações. Nessa obra, o autor denunciava já a força do Ressurgimento Islâmico como nova realidade geopolítica, considerava que existiam várias civilizações no mundo, lideradas cada uma pelo seu Estado dominante, e assegurava que a III Guerra Mundial se iniciaria por um Estado dominante não respeitar a esfera de influência de outro. Curiosamente o Autor previa que a guerra se iniciaria por os Estados Unidos não quererem aceitar a pertença de Taiwan à esfera de influência chinesa. Mas nesse ponto enganou-se: a guerra inicia-se pela subtracção da Ucrânia à esfera de influência russa.

 

Uma das armas dessa guerra que agora está a ser utilizada é a queda do preço do petróleo. Como é óbvio, em face da lei da oferta e da procura, face à actual procura de petróleo, a queda do preço só é possível com um brutal aumento da oferta do produto no mercado. Foi precisamente o que se passou, com a Arábia Saudita a encharcar o mercado de petróleo. Pode parecer um gesto contraproducente para um país produtor, mas numa guerra vale tudo, e relação saudita com os EUA vale mais que uma baixa do preço do petróleo.

 

É evidente que a força económica de países como a Rússia depende de petróleo alto, até porque têm custos de extracção muito mais elevados do que os países do golfo. São assim profundamente afectados e até pode ocorrer o colapso total da economia russa. Pareceria assim que foi uma arma de guerra eficaz. Só que há um problema: os russos têm uma história longa e estão habituados a sofrer em guerras. Entregaram Moscovo em chamas a Napoleão, obrigando-o a recuar, e sofreram vinte milhões de mortos para resistir a Hitler. Não me parece por isso que Putin apareça com a corda ao pescoço a pedir perdão ao Ocidente e a devolver a Crimeia à Ucrânia. Mais facilmente é capaz de se lembrar de carregar no botão, que muita gente parece esquecida de que ainda funciona.

 

Mas a verdade é que nem precisa de o fazer. Toda a gente sabe que o petróleo é um bem finito e já se atingiu o pico da exploração petrolífera. Por isso, desça o que descer agora, o preço do petróleo só pode subir no futuro. É só uma questão de saber aguentar e os russos são um povo que já demonstrou que suporta o que for preciso em defesa da sua pátria.

 

Só que no entretanto vai haver danos colaterais que até podem atingir Portugal. Se a Rússia é afectada com a queda do preço do petróleo, mais afectada é Angola onde o petróleo representa 66% do PIB e 98% das exportações. Já se fala na imediata entrada  de Angola em recessão.  Ora, a crise em Portugal só não foi pior devido ao investimento angolano nos últimos tempos. Uma recessão em Angola terá efeitos dramáticos para o nosso país.

 

Desengane-se por isso quem neste momento se congratula com os resultados desta guerra geoeconómica. Já não estamos nos anos 40 em que Portugal podia assistir do camarote a uma guerra na Europa sem nela se envolver ou ser por ela afectado. Hoje em dia, esperem pela pancada.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 07.09.14

 

 

Angola - Sonho e Pesadelo, de Adolfo Maria

Memória

(edição Colibri, 2ª ed, 2014)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 12.11.13

 

Mais um Dia de Vida -- Angola 1975, de Ryszard Kapuscinski

Reportagem

Tradução de Ana Saldanha

(edição Tinta da China, 2013)

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Outono quente

por Pedro Correia, em 16.10.13

1. Já existe o canal Parlamento. Ainda não existe o canal Conselho de Ministros. Mas já faltou mais: as fugas de informação cirúrgicas tornam-se generalizadas e ganham a emoção de um relato de futebol. O sentido de Estado parece ter emigrado para parte incerta.

 

2. Difundir informações sem fundamento, causando um inconcebível alarme social, não penaliza só uns: penaliza todos.

 

3. Largar más notícias com abundância pelas manchetes da imprensa e pelos comentadores mais próximos enquanto se gere o silêncio: eis todo um programa de acção.

 

4. Bastam dez pessoas aos berros durante cinco minutos: as redes sociais transmutam a berraria em notícia, validada pelos chamados órgãos "de referência", muitos deles cheios de editoriais contra o "populismo". Meio século depois, nunca Marshall McLuhan esteve tão actual: o meio é a mensagem. Que, pelo efeito de banalização, logo se transforma em massagem.

 

5. Cento e cinquenta mil portugueses trabalham em Angola, nosso principal fornecedor de petróleo. Portugal é o maior parceiro comercial de Luanda. Há 8800 exportadoras portuguesas no mercado angolano, por mais que isso incomode certos aprendizes de feiticeiro. A parceria estratégica, que serve os interesses nacionais, devia ficar à margem da luta partidária. Para não desembocar nisto.

 

6. Taxa sobre produtores de electricidade, anunciada com espavento, vai repercutir-se na bolsa do consumidor. Eduardo Catroga, com notável despudor, já tinha avisado.

 

7. Bastam seis meses para a ambição partidária suplantar o espírito de serviço público? Se não é parece.

 

8. A extrema-esquerda em marcha. Abrindo caminho à extrema-direita: não acreditem que acontece só . Como alertava o PCP quando estava no Governo, em 17 de Junho de 1974, "as formas de luta devem ser cuidadosamente examinadas antes de decididas".

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Bon appetit

por Ana Vidal, em 16.10.13

 

Presidente angolano anuncia fim da parceria estratégica com Portugal.

 

O ricochete de uma guerra de mais de uma década, com tudo o que ela implica de distorções, mazelas, ódios e feridas por cicatrizar. A vingança serve-se fria, como sempre, e esta chega em travessa de diamantes. Tudo bem temperado de desprezo e arrogância em partes iguais. Primeiro a tomada de posição, comprando metade do país. Depois a pose, sobranceira e inquestionável, de quem dita as regras.

Bon appetit, Portugal.

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O Jornal de Angola topou-nos. Percebeu que sob esta capa de mesquinhez, provincianismo, razoável queda para o chico-espertismo e mediana trafulhice, somos é realmente vulneráveis à pilhéria. Vai daí, decidiu que a verdadeira luta dos angolanos, muito para lá de nos ficarem com as empresas, deve centrar-se num combate palmo a palmo pelas audiências do Inimigo Público. Daí que, entre outros bonecos com lugar na história que ali vão sendo publicados, esta tirinha de há dias constitua um marco inesquecível nessa batalha sem quartel para derrotar a nossa auto-estima à gargalhada. Tem um piadão esta bicada relativa ao papel dos velhos na nossa economia. Sobretudo se tivermos em conta que a graçola, o sarcasmo, a notinha de superioridade moral, vem de um órgão de comunicação conluiado com uma oligarquia política que conduz há dezenas de anos um país onde a esperança de vida à nasença (51,5) é das mais baixas do mundo  (inferior mesmo à do Níger, último classificado no ìndice de Desenolvimento Humano da ONU de 2012). Com tanta veia humorística é até surpreendente que esse baluarte do jornalismo livre e independente não tenha ainda feito uma graça que ponha em evidência que, sob a notável liderança de José Eduardo dos Santos, o país poucas preocupações terá com pensões de reforma. Aliás, é até muito pouco provável que nas próximas décadas existam velhos em Angola.

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Outra pérola de Angola

por Teresa Ribeiro, em 22.12.12

No site Club-k, que se anuncia como um espaço de notícias angolanas, leio este texto de opinião, assinado por um tal de Nelo de Carvalho. É mais uma prosa de ódio a somar a umas quantas que têm ultimamente circulado por aí. A crise portuguesa está a ser, de facto, uma oportunidade para alguns angolanos expressarem o que lhes vai na alma e para nós percebermos o alcance do seu ressentimento. Que lhes faça bom proveito.

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Escolha o adjectivo mais adequado

por Ana Vidal, em 20.12.12

a) Assustador

b) Revoltante

c) Inacreditável

d) Deprimente

e) Imbecil

f) Patético

g) Outro

h) Todos

 

(para ler o artigo todo, sugiro que grave a imagem para poder aumentá-la)


"Milhares de portugueses desesperados formam diariamente filas intermináveis nos Centros de Emprego e outros largos milhares ainda é noite e lá vão para Alcântara na tentativa esperançosa de conseguir um visto para Angola, a nova Terra da Promissão. O povo português é tradicionalmente um povo pobre, povo de olhar o chão para ver se encontra centavos, tostões ou cêntimos. (...) Então o desesperado alcança a porta e uma luz se abre, chora de alegria pela primeira vez há muito tempo, sai do mundo escuro dos mortos e entra no mundo luminoso da esperança. "

Rui Ramos, Jornal de Angola - 28 de Novembro de 2012

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Cheirinho de alecrim precisa-se

por Ana Lima, em 05.12.12

determinadas notícias que nos fazem lembrar certas músicas:

 

 

  

Mesmo quando a festa é ainda uma miragem...

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Queres o quê?

por Gui Abreu de Lima, em 14.11.12

 

Ir embora. Para onde? Para casa. Mas aqui é a nossa casa Gui. E a outra nossa casa pai? Ficou lá Gui, ficou lá. Então podemos ir no avião pai. Ficou tudo lá Gui.

Emília Tomásia, orgulhosamente cabo-verdiana, dava colo e costas na hora de varrer ou de correr entre as casas e cubatas do Alto Catumbela, um lugarejo erguido para os trabalhadores da Celulose, onde o rio Catumbela tinha duas pontes; a de betão e a de madeira - pedestre, com frestas tão largas que era borra uma criança atravessar. Lá em baixo, na correnteza brava do rio, os jacarés viviam atentos, e a Emília contou que eles imitavam o choro de miúdos, só para apanhar gente.

Tínhamos um clube que exigia cartão de sócio com fotografia, uma grande piscina pública, um recinto para farras memoráveis, a Cooperativa, mercado exclusivo dos colonos, e um colégio. Património respeitável, constituía as Casas 1 e 2, com belos relvados e arbustos, que instalavam os Administradores da fábrica. De resto, pouco mais figurava naquele lugarejo no meio do mato, fundado há umas décadas por brancos da Pátria, além dos hectares e hectares de eucaliptal onde o meu pai passava os dias.
Depois, veio Benguela, cidade maravilhosa. Carros, machimbombos, bicicletas, flores nunca vistas, cachos de dém-dém, gente, mar e ondas, tudo pertences da Praia Morena e do prédio onde calhámos. Coqueiros, acácias, areia, água... e de novo à areia, quente, quente até ao pescoço. Às vezes, todos se estendiam no alcatrão, brancos e pretos, como gatos ao sol. Benguela era os rapazolas das mini-hondas, a bomba de gasolina com uma onça a fazer vezes de cão e a esplanada do Tan-Tan, onde meu pai me esperava no fim das aulas a beber cucas. Na grande escola dos Professores do Posto leccionava minha mãe e lá em casa toda essa classe de pessoas se sentava à mesa de jantar, sacava papéis das malas e ficavam a falar até de madrugada. As coboiadas do Trinitá Insolente, em Benguela, aconteciam debaixo das estrelas, acompanhadas de vozes suplicantes: "cuidaaaado meu, ele vai-te matar!". Cinema Calunga, viagens para lá de minimoke, sempre em pé, cantando hinos promissores e emocionados: "sob a bandeiraaaa do MPLAAA, nós faremos a revoluçãããão". Mas domingos, era missa certa na catedral, reencontrando um ror de gente que sempre combinava grandes convívios, incluindo o Senhor Padre, até a guerra rebentar e parar com toda a dança daquela vida.
Foi-se a cor, o calor, o riso e até o olho vivo da nossa Emília Tomásia, que numa choradeira sem fim embarcou num navio com destino a Cabo Verde, ainda antes de passarmos duas noites num aeroporto cheio de famílias pelo chão que também esperavam um lugar no Jumbo rumo ao desconhecido.

Pai, aqui é frio e as pessoas estão escuras. É outro clima Gui. Lá em Benguela pai, é mais bonito. Mas é aqui que estamos agora Gui. Qualquer dia vamos voltar pai. Talvez Gui.

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Disco Angola

por José Navarro de Andrade, em 02.06.12

Stan Douglas, "Club Versailles, 1974", 2012 

Stan Douglas, "Exodus,1975", 2012

 

Tudo ao contrário do que se diz que é a fotografia.

Os instantâneos (logo verão como vos minto!) são de Stan Douglas, que tende a recuar até à memória dos anos 70, talvez a mais obscura década do séc. XX, na qual não se passou propriamente nada a não ser ter-se acabado tudo, ou seja, as fabulosas promessas afinal miríficas dos golden sixties.

Calhou a Stan Douglas ter dado à costa da adolescência nesses anos, o que para alguém de qualquer parte do mundo, à excepção de Portugal, foi um aborrecimento – até nisto somos ingénuos.

De regressou aos 70s, portanto. E o que há dizer? Tão só duas palavras: disco-sound e Angola. Vai de juntá-las e mostrá-las.

Quanto ao disco façam a experiência de rever Travolta & Bee Gees nas febris noites de Sábado em que o pessoal de Brooklyn ia à Cidade e, caso sobrevivam, contem da vergonha que tiveram, se aquilo vos faz recordar alguma coisa, ou fechem lá a boquinha de espanto (apesar de tudo não foi tão mau como parece...), na hipótese benigna de não terem sofrido tais passagens.

Quanto a Angola, esta Angola, naquele preciso instante, isso fia mais fino. O que sobrou?  Nadíssima e era essa a ideia, os portugueses enfiaram o país em contentores, puseram uma cidade de madeira a flutuar no oceano até Lisboa e… e Luanda ficou deserta. Literalmente. Assim diz Ryszard Kapuściński no seu “Another day of life”, singular reportagem e talvez as únicas memórias de quem ficou para trás.

“Disco Angola” é então o nome e o tema da última exposição de fotografias de Stan Douglas. Olhe bem para elas, é tudo uma encenação, uma reconstrução, uma rememoração. Nada se passou assim a não ser na cabeça dele e diante da máquina dele. Ou melhor: nada se passou assim. Ou melhor: nada se passou. Ou melhor: nada.

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Vozes

por João Carvalho, em 07.03.12

O Governo dos EUA diz que o processo eleitoral em Angola deve garantir que "todas as vozes serão ouvidas". Só falta, portanto, garantir que Luanda ouça a voz de Washington.

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A liberdade depois de Sócrates.

por Luís M. Jorge, em 09.02.12

O leitor julgava que o serviço público de rádio e televisão servia para formar uma opinião pública mais crítica, com mais consciência do que ocorre no mundo? Nada disso. A Antena 1 e a RTP servem para nos aproximar das ditaduras que dão jeito ao GovernoNão se discute a liberdade de imprensa,acrescenta ele. Pois claro que não.

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Rastejar

por Ana Margarida Craveiro, em 24.01.12

A nossa relação com Angola cada vez mais me incomoda. Esta dependência não faz bem a ninguém, por muito que nos ajude no curto-prazo.

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A remar para o mesmo lado, com a Fátima.

por Luís M. Jorge, em 16.01.12

Ainda se lembram do "trabalho notável"? O escândalo, o opróbrio, as profundezas da miséria socialista? Parece que chegou a continuação

 

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Navegar é preciso

por Pedro Correia, em 20.12.11

 

Filho e neto de emigrantes, com familiares espalhados por quatro continentes, aos 25 anos eu próprio emigrei. Tinha emprego em Portugal, tinha aquilo a que hoje se chama uma "carreira" por cá. Mesmo assim, emigrei. Passei dez anos longe do País. Regressei com horizontes mais largos, novos conhecimentos, uma enriquecedora experiência profissional adquirida junto de gente com crenças, culturas e línguas diferentes. Foi uma etapa insubstituível da minha vida que jamais esquecerei. Depois, quando colegas mais jovens confrontados com desafios profissionais além-fronteiras me pediam opinião sobre a opção a tomar, sempre os incentivei a partir também. Alguns confiaram no que lhes disse, nenhum deles lamentou ter feito a mala e demandado outras paragens. A vocação universalista dos portugueses confirma-se nesta constante procura de novos horizontes: somos capazes de edificar o nosso lar em qualquer recanto do mundo.

Por tudo isto, venho acompanhando com perplexidade o debate em curso sobre o novo ciclo de emigração eventualmente aberto aos portugueses. Descendentes não dos que partiram mas dos que ficaram, muitos dos que agora se insurgem contra esta perspectiva eram os mesmos que há meia dúzia de anos recomendavam que Portugal devia receber de braços abertos imigrantes oriundos das mais diversas origens, sugerindo até que esse fluxo migratório permitiria salvaguardar a segurança social pública nacional. Alguns deles foram assistindo nos últimos anos sem um esgar de espanto à contínua partida de compatriotas para Angola, onde já residem mais de 150 mil portugueses. São os mesmos que só agora lamentam o facto de haver jovens prontos a trabalhar a milhares de quilómetros do habitual local de residência de pais e avós. Não entendo a contradição: por que motivo havemos de saudar a imigração e chorar a emigração?

Faz-me impressão esta visão paroquialista do mundo contemporâneo que pretende ver cada povo arrumado no seu reduto. Passos Coelho, por exemplo, anda a ser muito criticado por ter apontado Angola, o Brasil e Timor-Leste como possível destino de alguns portugueses. Esquecem tais críticos que estes países são o que são também porque noutras épocas, já recuadas, houve outros portugueses que lá chegaram.

De qualquer modo, hoje ficámos a saber que o primeiro-ministro só disse o que disse por ter sido questionado, numa entrevista ao Correio da Manhã, sobre um quadro de carência de professores nos países lusófonos. "Passos respondeu a uma pergunta sobre Angola precisar de 15 mil docentes. Confirmou contactos com José Eduardo dos Santos e adiantou que Dilma também falou da necessidade de professores no Brasil. Para quem precisa de emprego, é uma oportunidade, não uma ordem de emigração", esclareceu Armando Esteves Pereira, director-adjunto do CM e um dos autores da entrevista.

Nada mais óbvio: os países lusófonos são um destino natural para qualquer cidadão deste vasto espaço cultural alicerçado no idioma que nos é comum. Porque haveria isso de ser motivo de controvérsia pública? Situar as questões no seu contexto é um dos requisitos básicos para um debate político civilizado e construtivo. O resto é ruído.

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Democracia de Chicoti

por João Carvalho, em 14.09.11

«Temos um país com vários grupos étnicos, com várias sensibilidades políticas e se cada um for para a rua e pegar em alguma coisa? É verdade que vamos aceitar algumas manifestações, mas temos que ter o cuidado de que isso não descambe.» São palavras do ministro angolano Georges Chicoti, de visita a Portugal, a propósito da recente manifestação de alguns jovens em Luanda que foram cercados pela polícia, detidos, identificados e levados a tribunal.

Para Chicoti, há que «consolidar a democracia» e reconhecer que existem «possibilidades para todos os cidadãos apresentarem as suas opiniões»; estão previstas eleições no próximo ano e «os partidos políticos terão direito a participar nessas eleições». Convenhamos que esta condescendência em tom paternalista do ministro das Relações Exteriores é capaz de não traduzir completamente as relações interiores em Angola.

"Um país com várias sensibilidades políticas"? Todo o cuidado é pouco. Onde é que já se viu uma democracia assim, não é?

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Miss Lopes

por João Carvalho, em 13.09.11

 

É angolana e acaba de ser coroada Miss Universo. Leila Lopes vai andar um ano a correr país atrás de país na defesa de causas muito tocantes, conforme a agenda habitual que lhe está destinada. Que tal se algumas dessas causas fossem as do povo angolano e dos jovens manifestantes de Luanda que são cercados pela polícia e levados a julgamento?

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Luanda: o avanço da democracia

por João Carvalho, em 09.09.11

Tal como o nosso Rui Rocha assinalou aqui por baixo, «a polícia angolana fez várias detenções, esta quinta-feira, junto ao tribunal onde estão a ser julgados 21 jovens detidos sábado num protesto contra o presidente angolano». Aguarda-se a todo o momento que venham a ser feitas novas detenções junto à rua do tribunal onde foram detidos jovens que protestavam contra a detenção dos outros jovens detidos no sábado e que estão a ser julgados. Mais tarde, tudo indica que deverão ser feitas mais detenções nas redondezas das ruas onde tiverem sido feitas as detenções daqueles que apoiavam na rua do tribunal os jovens que protestavam contra a detenção dos outros jovens detidos no sábado e que estão a ser julgados. É até provável que venha a haver detenções em casas junto a essas ruas onde tiverem sido feitas as detenções daqueles que apoiavam na rua do tribunal os jovens que protestavam contra a detenção dos outros jovens detidos no sábado e que estão a ser julgados. E assim por diante, nesse desenvolvimento imparável da democracia angolana.

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O regime de Luanda começa a sofrer os primeiros abanões dignos de registo. São, até ver, apenas sinais. A história recente corre, ainda, em favor de José Eduardo dos Santos. Mais de trinta anos de guerra sangrenta estão bem presentes na memória e na carne dos angolanos. Daí que muitos prefiram, de momento, fechar os olhos e a consciência a quanto os rodeia. A paz podre é para estes, apesar de tudo, uma solução aceitável quando comparada com os dias de chumbo da guerra pura e dura. Por isso, não acredito que estes sejam ainda os prenúncios de uma primavera angolana iminente. Por mais um tempo, com mais ou menos sobressaltos, a arraia-miúda dedicar-se-á ao bisness de cada dia e o poder continuará a explorar o business. As usual. Assim, teremos, se não me engano, ainda um par de anos para exercitarmos toda a nossa complacência relativamente a este regime corrupto e autocrático. Essa que impede, inclusivamente, aqueles que se empenharam em encontrar toda a sorte de justificações sociológicas (quando não metafísicas ou até astrológicas) para os acontecimentos de Londres a calarem qualquer sinal de solidariedade relativamente aos manifestantes de Luanda. Ou, acaso, perante tal silêncio, devemos admitir que ali, no Cazenga, na Maianga ou no Sambizanga, existem mais democracia, oportunidades e justiça social do que em Tottenham ou noutros subúrbios das grandes cidades inglesas?

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IPRIS Viewpoints 41

por Paulo Gorjão, em 04.03.11

An unshaken alliance: Angola's stance in the Côte d’Ivoire

Vasco Martins

Angola's reach appears to go beyond its regional scope. Its government was able to extract dividends from UNITA's loss of international influence, by either conserving ties or simply by sponsoring regime change in those countries which supported the latter. Having successfully broadened its contacts, today, almost a decade after the demise of Jonas Savimbi, Angolan foreign policy has grown out of its civil war shell, to become not only a well connected player faithful to its past allies, but also an actor capable of influencing regional powers and even the international community itself.

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Diferenças

por Ana Margarida Craveiro, em 14.02.11

 

No primeiro, o ódio. O ressentimento, a impossibilidade de fazer as pazes com o passado. No segundo, a piedade. A compreensão por quem se deixou levar pela loucura da revolução e da ideologia.

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3 vezes A

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.11.10

A de Angola - Hoje é dia 11 de Novembro. Passa mais um aniversário da independência de Angola. A data não podia passar despercebida, em especial entre nós, depois da magnífica entrevista dada à TSF por Rafael Marques, um homem livre e corajoso que não hesita em dar a cara e o nome em defesa de uma cidadania justa e livre no seu país. Passado o tempo da guerra civil, iniciada a recuperação dos estropiados, e aberta uma nova página na sua história, é tempo de Angola se reabilitar. Em democracia. Não apenas na vertente externa, seja no âmbito da CPLP, das Nações Unidas ou no seio das demais nações africanas. Angola necessita urgentemente de se reabilitar internamente, muito em particular precisa de reabilitar as suas elites dirigentes. Para que o combate à fome e a erradicação da probreza, das doenças e do analfabetismo possa ter um sentido útil e não seja apenas mais uma fachada polida de um regime avesso à crítica e mais dado aos jogos de bastidores da sua diplomacia. Jamais se construirá um Estado justo e equilibrado enquanto a corrupção e o nepotismo continuarem a medrar em cada esquina, no bolso dos generais ou dos antigos combatentes que se aburguesaram protegidos pelas luzes do Futungo de Belas. Angola tem tudo para ser feliz: imenso capital humano, riquezas naturais e alegria. E se assim é, então seria bom que as suas elites dirigentes, a começar pelo seu Presidente, mostrassem que mais importantes do que as palavras são os actos genuínos e sinceros. Talvez que um bom sinal fosse começar por dar uma resposta franca e de rosto humano à carta que a Associação 27 de Maio lhe escreveu. Há gente que continua a sofrer e se o povo de Angola não é insensível a isso, então que os seus dirigentes dêem o sinal. Pode ser já hoje.

 

A de Algarve - Os noticiários e os jornais de hoje sublinham o despedimento colectivo de 336 pessoas na empresa Groundforce. Todas essas pessoas estavam ao serviço no Aeroporto de Faro. Algumas há mais de duas décadas. E sendo compreensíveis as razões avançadas pela administração da empresa, não deixa de ser estranho que só agora se tenha dado pelo colapso iminente e não se tenha anteriormente tomado as medidas que podiam ter evitado este fim. Não conheço o problema da Groundforce em particular. Sei o que todos lêem e ouvem. Mas conheço e tenho a noção da situação extremamente difícil que o Algarve atravessa. Não é só um problema de má gestão crónica de alguns dos seus empresários ou de dificuldades económicas e financeiras de conjuntura. O tecido social da região entrou, há mais de cinco anos, em desagregação, sem que ninguém em Lisboa se tenha dado conta do que se estava a passar. Foi logo a seguir ao Euro. Mesmo aqueles que se arrogam porta-vozes da região e que mais não têm feito do que se promoverem à custa desta, foram incapazes de perceber o que qualquer pessoa que andasse na rua sabia que iria acontecer. O agravamento das condições de segurança foi apenas um primeiro aviso. De nada serviu. Agora que a ministra do Trabalho, confrontada com a verdadeira dimensão da crise laboral e social que o Algarve atravessa, veio dizer que a situação ocorrida na Groundforce vai ser devidamente investigada, seria bom que também se investigassem todas aquelas situações em que as empresas recorreram a outros métodos, mais discretos, para se irem livrando do pessoal efectivo ao seu serviço. Refiro-me a extinções encapotadas de postos de trabalho e a acordos negociados individualmente com os trabalhadores, que os empurraram para o subsídio de desemprego, sendo que em muitos casos esses foram substituídos por outros, contratados a prazo ou a recibos verdes, menos qualificados para as mesmas funções. E, senhora Ministra, se ler estas linhas, há uma coisa que lhe digo: não é aceitável que uma empresa faça um acordo de rescisão amigável com um trabalhador, lhe passe os documentos para que ele se candidate ao subsídio de desemprego, com fundamento na extinção do posto de trabalho, e depois contrate um substituto. E se a ACT sabe que esse foi um expediente usado pelo patrão, não é aceitável que o Estado feche os olhos e faça de conta que a fraude a lei é um expediente legal para alguns continuarem a andar de Porsche enquanto outros não têm dinheiro para pagar a escola dos filhos. Se for necessário mexer na lei, então que se mexa de uma vez por todas e de forma clara, de maneira a que não seja depois necessário fazer um resumo em "português claro" no Diário da República. O português é por natureza claro. As sumidades é que o escurecem. 

 

A de Advogado - O debate que teve lugar no Casino da Figueira da Foz mostrou claramente as clivagens hoje existentes na advocacia portuguesa. O limbo em que a profissão se encontra, algures entre o cobrador de fraque e o paquete para todo o serviço, limbo na qual se tem desprestigiado, desvalorizado e desestruturado, muito por força dos lobbies que coexistem no seu seio e da actuação de um Estado irresponsável, aconselha uma mudança. Faço, pois, aqui e desde já, a minha declaração de interesses. Vou apoiar Fernando Fragoso Marques porque acredito que uma advocacia serena, firme, empenhada, séria e esclarecida vale mais do que mil discursos. Porque continuo a pensar que a advocacia é uma profissão de homens livres e não de assalariados de empresas ou de colegas, actuem eles a título individual ou protegidos por esses empórios especializados na publicação de brochuras coloridas e que de autarquia em autarquia vão angariando clientela, tecendo verdadeiras redes e cimentando o seu poder. Os portugueses merecem uma advocacia à altura das suas tradições de luta e intervenção cívica. E é nos momentos difíceis, nas alturas de maior crise ética e moral, nos momentos em que são desferidos os ataques mais cegos de que há memória à cidadania, ao papel do advogado numa sociedade moderna, à justiça e às magistraturas, ataques que só servem para corroer ainda mais o sistema de justiça, que se vê a fibra de um advogado. É fundamental que haja alguém que seja capaz de olhar na distância, de projectar o futuro. Depois do encontro de ontem na Figueira da Foz dissiparam-se todas as dúvidas. Fragoso Marques chegou-se à frente. É o homem com quem os advogados contam para os liderar num combate que não é apenas pela advocacia e que é cada vez mais um combate pela decência. Porque, como ele diz, a Ordem não pode continuar a perder.      

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Os limites

por Paulo Gorjão, em 10.03.09

De facto, o investimento angolano em Portugal é tímido, mas convém não esquecer que tem precisão cirúrgica. Como salientava ontem Diogo Noivo: "The investment pattern in the past was predominantly oriented from Lisbon to Luanda. In 2007 and 2008, Portuguese investment almost tripled. However, a new trend is emerging. Angola recently made significant investments in Portugal's finance, energy and media sectors -- all of them crucial strategic decision centres. Sonangol, Angola’s national oil company (NOC) is involved in almost all of those ventures, a situation which has been raising some eyebrows in Portugal. At this stage, these investments pose no threat as Sonangol did not achieve any effective sector control with them. (...) Lisbon should not ignore that Angola's current investments are directed towards crucial national decision centres. Since Angola's investment scheme has very close ties with government and state officials, José Eduardo dos Santos' official visit could be a good opportunity to discuss its boundaries" (IPRIS Digest, 9.3.2009: 2).

Algo me diz que não vai ser nesta visita que se discutirão os limites ao investimento angolano em Portugal, mas mais tarde ou mais cedo -- porventura no âmbito da tal parceria estratégica -- a questão terá forçosamente de ser tema de conversa. O diálogo será seguramente difícil.

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O "se" angolano

por João Carvalho, em 10.03.09

Esta primeira visita de Estado de José Eduardo dos Santos a Portugal poderá levantar muitas dúvidas e não há-de faltar quem lhe ponha todos os defeitos, desde a situação de um país em que o Presidente se eterniza no poder até ao afastamento entre Luanda e Lisboa que caracterizou muito tempo as relações bilaterais, passando ainda pelos poucos ou nenhuns privilégios ao investimento português em Angola (ao contrário do que acontece com a maioria dos Estados-membros da CPLP).

Um ponto, porém, deve merecer reflexão aos críticos: o Chefe de Estado angolano vem a Portugal em visita amistosa e, ao que tudo indica, apresenta-se aberto ao diálogo. Se assim for, é preciso que nos lembremos de que Angola é, cada vez mais, um destino preferencial dos portugueses que partem empurrados pela crise internacional e pelo desemprego. E, pelo crescimento potencial de Angola, é também alvo apetecido dos investimentos nacionais.

Perder estes dois aspectos de vista é ignorar os nossos próprios interesses. Porque, se o mundo inteiro entrar em recessão, ninguém ficará espantado se viermos a verificar que Angola será o último país a senti-la e o primeiro a sair dos indicadores negativos. Mesmo assim, nada disso em Angola é inteiramente presumível: só se.

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Parceria estratégica

por Paulo Gorjão, em 10.03.09

Aníbal Cavaco Silva defendeu a criação de uma parceria estratégica entre Angola e Portugal. Nada contra, antes pelo contrário. O problema está nos detalhes. E Angola, para princípio de conversa, o que pensa desta proposta? Depois, para continuar a conversa, importa definir os objectivos e avaliar os meios necessários para a implementar. No meio disto, começam a surgir outras questões: como é que se articula esta parceria estratégica bilateral com a CPLP? E com o Brasil? O Brasil seria o terceiro vértice desta parceria estratégica no Atlântico Sul, certo?

Se não estamos perante uma declaração de circunstância, tudo isto -- e muito mais -- necessitaria de ser devidamente pensado.

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Caminhos trocados

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 09.03.09

O novo império continua a estender os seus tentáculos para a nova colónia.

 

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