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Convidada: HELENA FERRO GOUVEIA

por Pedro Correia, em 24.09.17

 

Merkel, a esfinge

 

Gobbledygook é um neologismo que descreve linguagem obscura ou difícil de compreender. A palavra, inspirada pelo grugulhar do peru, foi criada em 1944 pelo congressista norte-americano Maury Maverick, que estava farto da linguagem indecifrável usada pelo governo e pelos políticos.

Quem tem estado minimamente atento à política alemã sabe que um dos pontos fortes da  chanceler, que há doze anos comanda os desígnios da Alemanha, é a ausência de gobbledygook no seu discurso. Angela Dorothea Merkel é uma mulher não dada a complicações,  terra-a-terra, a quem coube em sorte alguns dos desafios mais complexos da história contemporânea teutónica e europeia. Quando o Muro caiu, a 9 de Novembro de 1989, a física era uma desconhecida, sem ambição política. Ninguém ousaria prever que se tornaria na mulher mais poderosa do mundo e na Mutti, mãezinha, dos alemães.

Pode pensar-se nela como uma maratonista que não desperdiça esforços em sprintes para impressionar a bancada. O que exaspera membros do seu governo, da oposição e alguns líderes europeus.  Angela Merkel não é movida pela ideologia, toma as suas decisões baseada em dados, estatísticas e factos. Convém acentuar a palavra factos. “O meu pai [o pastor luterano luterano Horst Kasner] atribuia muita importância à lógica e à clareza dos argumentos."

Se hoje ela é uma pessoa extraordinariamente controlada e discreta, características que a tornam para muitos estranha, pouco previsível, esfíngica,  isso é resultante de uma vida entre dois mundos, duas Alemanhas. Conhecendo-se a história da divisão alemã entende-se: nada é simples, nada é linear, não há lugar para maniqueísmos. “É muito difícil do ponto de vista actual compreender e tornar compreensível como nós vivíamos. Onde se situavam as fronteiras do compromisso que cada um devia encontrar para si próprio?”

 

Porque não conhecemos Angela Merkel?

Muito da vida de Angela Merkel no lado oriental do Muro de Berlim continua a ser uma incógnita. Já em 1991 o diário Süddeutsche Zeitung perguntava “porque não conhecemos Angela Merkel?”. “Sim, foi uma grande vantagem ter aprendido a manter-me calada nos tempos da RDA. À época foi uma das estratégias de sobrevivência e continua a sê-lo hoje."

Rainer Eppelmann, dissidente do regime da República Democrática Alemã (RDA), conheceu Merkel nos dias seguintes à queda do Muro e recusa apontar-lhe o dedo. “As pessoas, na sua maioria, apenas sussurravam. Nunca diziam o que pensavam, o que sentiam, do que tinham medo. Até hoje, não temos plena consciência do efeito sobre os  indivíduos.” Acrescenta: “para ser fiel às suas esperanças, ambições, crenças e sonhos, era preciso ser-se herói 24 horas por dia. Ninguém consegue.”

A vida da futura chanceler numa ditadura foi tão “normal” quanto possível. Nunca usou roupa da RDA, mas sempre da Alemanha ocidental, por uma razão bem prosaica. “O meu pai tinha um salário baixo. Seiscentos marcos por mês. Não era muito para vestir todos os filhos (…) e a nossa família em Hamburgo enviava-nos roupa.”

“Nunca senti a RDA como meu país natal”, afirmou à fotógrafa alemã Herlinde Koelbl em 1991. “Tenho um espírito relativamente ensolarado e sempre tive a expectativa de que a minha trajectória de vida seria também relativamente ensolarada, a despeito do que acontecesse. Nunca me permiti ser amarga. Sempre me vali da margem de liberdade que a RDA me permitia. […] Não havia sombra sobre a minha infância. E, mais tarde, agi de maneira tal a não me colocar em permanente conflito com o Estado.”

Com um perfil o mais distante possivel do típico político alemão – visite-se a Haus der Geschichte e a galeria dos retratos de presidentes e chanceleres no pós-guerra, todos homens, apenas uma mulher: Angela Merkel –  fez uma carreira vertiginosa,  sem paralelo na Alemanha, tornando-se na líder incontestada da Nação e na chefe de Governo mais antiga da União Europeia. Isto na tripla qualidade de mulher, do Leste, divorciada e sem filhos.

 

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Ter coragem no momento certo

Recuemos no tempo. Durante uma aula de natação, quando tinha 12 anos, Angela Merkel ficou parada na extremidade da prancha de mergulho cerca de 45 minutos antes de reunir a coragem necessária para saltar para a piscina. “Tenho coragem no momento certo. Mas preciso de um considerável tempo de preparação e de pesar todos os riscos.”

Na escola, na universidade, nem colegas, nem professores, apesar da excepcional inteligência, alguma vez viram na recatada Merkel um potencial de liderança. Foi o destino que lhe pregou uma partida ou foi ela que traçou o seu destino?

Contrariamente à maioria dos políticos de primeira linha dos democratas-cristãos, ela não seguiu o caminho tradicional – a filiação na juventude democrata-cristã, envolvimento na política local, construção de redes e contactos. Estava do outro lado do Muro. Como se explica a ascensão do “nada político”, de alguém com um perfil o mais distante possível do clássico, a mulher mais poderosa da Alemanha? Por uma conjugação de qualidades pessoais e de acasos biográficos e de uma constelação histórica ímpar.

O dia determinante para a carreira política de Angela Merkel é 30 de Setembro de 1990, quatro dias antes da reunificação alemã, o dia em que conheceu Helmut Kohl, que seria o seu ídolo, mestre e com quem aprendeu aquilo que os alemães denominam “Willen zur Macht”, o desejo de poder, a mola inicial, o princípio do salto.

Kohl, o historiador, considerava que o Gabinete Federal devia reflectir a nova realidade política alemã. Por isso uma mulher do Leste, jovem, ainda para mais protestante, encaixava-se no puzzle do poder. Por outro lado, o chanceler da reunificação queria rodear-se de pessoas que lhe fossem absolutamente reconhecidas.

O encontro entre Merkel e Kohl não foi obra do acaso, mas aconteceu por iniciativa de Merkel. Dias antes das comemorações da unificação alemã,  decorreu em Hamburgo o congresso de “reunificação” da  União Democrata Cristã  (CDU)  com os movimentos democráticos de raízes cristãs da  antiga RDA. Nesse congresso, Merkel era um dos delegados do Demokratischen Aufbruch. Aproveitando a ocasião, a política pediu a um conhecido para a apresentar a Kohl. Tiveram uma longa conversa, que impressionou positivamente o chanceler. Voltariam a encontrar-se em Bona, nos finais de Novembro, em vésperas das primeiras legislativas da Alemanha reunificada, que se realizaram a 2 de Dezembro. Depois de ler as actas da Stasi relativas a Angela Merkel, limpas, Helmut Kohl convenceu-se de que ela deveria integrar o Governo. Que o novo ministério da Juventude e Condição Feminina fosse quase esvaziado de competências fazia parte dos cálculos do presidente da CDU. O animal político Kohl farejou a substância de que Merkel era feita e queria que ela amadurecesse para outros voos. O que ele não poderia imaginar é que  nove anos  mais tarde a dama faria xeque-mate ao rei.

Num artigo publicado no Frankfurter Allgemeine Zeitung, a 22 de Dezembro de 1999,  com o partido mergulhado na maior profunda crise da sua história em virtude do escândalo em torno do financiamento partidário, Angela Merkel comete “parricídio”.

Sem estados de alma, a  então secretária-geral do partido acusa Kohl de prejudicar a CDU ao silenciar o nome dos doadores que alimentaram a contabilidade paralela dos democratas cristãos. “A credibilidade de Kohl, a credibilidade da CDU e dos partidos políticos estão em jogo”, escreveu na altura. O artigo levaria o ex-chanceler a renunciar à presidência honorária do partido. Os doadores, esses, continuam incógnitos. Wolfgang Schäuble, o eterno príncipe herdeiro de Helmut Kohl, vê-se envolvido no escândalo e a escapar-se-lhe entre os dedos a possibilidade de um dia se tornar chanceler.

Merkel publicou o artigo sem avisar Schäuble, o então presidente da CDU.  Num gesto que combinava virtude protestante com crueldade, a “Mädchen” (menina) de Kohl cortava o cordão umbilical do seu pai político. “Ela espetou a faca nas costas dele e girou duas vezes”, afirma Karl Feldmeyer, jornalista do Frankfurter Allgemeine Zeitung . Foi o momento em, que pela primeira vez, muitos alemães se deram conta da existência de Angela Merkel.

Alguns anos mais tarde, Michael Naumann – que ocupou a pasta da cultura no gabinete do social-democrata Gerhard Schröder –  questionou Helmut Kohl: “O que é ela quer de facto?” “Poder”,  terá a resposta cortante. A um outro amigo, o chanceler da reunificação contou que seu apoio à jovem  Angela Merkel tinha sido o maior erro da sua vida: “enrolei a cobra no braço.”

A jogada de Angela Merkel deu certo. Mergulhados na maior crise da sua história, os democratas-cristãos precisam de alguém imaculado, fora do “sistema Kohl”, alguém insuspeito, alguém de Leste. Empurrada pelas bases como uma Joana d”Arc, Merkel é eleita presidente da CDU, em Abril de 2000, no congresso de Essen, com uma votação “soviética”: 96 por cento.

Seria a primeira mulher a ocupar este cargo num dos dois grandes partidos alemães, como também já havia sido pioneira no de secretária-geral. Na sequência dos remoques do cardeal de Colónia, Joachim Meisner, que considerava pouco edificante a líder de um partido cristão viver em união de facto, casaria, em Dezembro de 2000, na intimidade, com o químico e professor universitário Joachim Saeuer. Ninguém fora informado. Nem os pais de Merkel. Há poucas fotos do casal: as das visitas anuais ao festival de Bayreuth e em algumas cerimónias oficiais. Para ela, a esfera privada é inviolável. Joachim Sauer nunca será um “primeiro-marido”.

 

Da crise a líder do mundo livre

Reforça a imagem de ser feita de gelo com a resposta à crise financeira global e à crise do euro, após o colapso do Lehman Brothers. Torna-se numa figura odiada por um largo sector da opinião pública europeia. Ao seu ritmo de pequenos passos acabaria por ultrapassar as hesitações. “Merkel, que duvidou durante longos meses de que a Grécia conseguisse algum dia assumir a disciplina inerente à participação numa moeda única, acabou por reconhecer que os custos para os outros países da sua saída do euro – resultantes do efeito de contágio – seriam muitíssimo superiores aos benefícios”.

“Se o euro fracassar, fracassa a Europa”, dirá em Outubro de 2011. Enquanto ia acumulando derrotas nas eleições regionais, a chanceler foi somando vitórias nos palcos da crise do euro. Mantendo um discurso pró-Europa, Angela Merkel não abdicou da austeridade e impôs aos seus pares um caderno de encargos da sua lavra. Por momentos, receou-se que a sua paciência com Atenas se esgotasse. Mas não, até aí se manteve firme na convicção europeia. De resto, Merkel não sucumbiu aos que pediam flexibilidade e tempo no combate à crise.

O ano de 2012 será lembrado como o ano em que a moeda única foi salva da implosão a que parecia condenada pela crise da dívida europeia. Foi a decisão da chanceler de manter a Grécia no euro e, mais ainda, de assumir os custos associados que o permitiu fazer.

Ganhou entre os alemães a aura da salvadora do euro a custos mínimos e o cognome de Mutti. O ano de 2012 seria também o ano da afirmação do poder incontornável da Alemanha, da fragilidade da França e da mais evidente e perigosa deriva do Reino Unido em relação à Europa.

Mesmo tendo em consideração todos os riscos políticos que a decisão acarretava, decidiu  abrir, a 4 Setembro de 2015, as fronteiras alemãs a todos os refugiados sírios que queiram procurar refúgio em solo alemão. No dia seguinte chegariam a Munique, de hora a hora, comboios cheios de refugiados. As centenas depressa se tornaram milhares e nos cais vivem-se momentos comoventes. Milhares de alemães trazem brinquedos, vestuário, água, guloseimas.  Dão, eufóricos, as boas vindas. As cenas repetem-se nas estações ferroviárias de Frankfurt am Main e Dortmund.

A maior emergência humanitária desde 1945, a crise dos refugiados transformou aos olhos da opinião pública e publicada a vilã impiedosa numa  heroína global. E transformou para sempre a Alemanha. “A chanceler alemã está do lado certo da história. Num mundo global a solução não é construir muros”, sublinhou Barack Obama.

Em 2015 a revista Time elegeu-a como a personalidade do ano. “Por pedir mais do seu país do que a maioria dos políticos ousaria, por enfrentar de forma firme a tirania, bem como o oportunismo e por oferecer uma liderança moral firme num mundo onde esta é escassa, Angela Merkel é a pessoa do ano da Time”.

No Guardian, o historiador britânico Titmothy Garton Ash, profundo conhecedor da Alemanha, dizia: “A expressão ‘líder do mundo livre’ é normalmente aplicada ao Presidente dos Estados Unidos, e raramente sem ironia. Estou tentado a dizer que a líder do mundo livre é agora Angela Merkel.”

Quem é a chanceler? De onde veio a dama que fez xeque-mate a todos os reis no seu caminho? Como cresceu? De que gosta? Como é a pessoa para além da política? O que a faz mover?

Perguntas que, desde 1991, altura em que Merkel  se tornou pela primeira vez ministra, ocupam jornalistas, analistas e biógrafos. Talvez uma das melhores respostas que encontrei foi a de Bernd Ulrich, no Die Zeit. “Wer ist Merkel? Die Kanzlerin. Was will sie wirklich? Kanzelerin sein.”(Quem é Merkel? A chanceler. O que pretende realmente? Ser chanceler).

 

 

Helena Ferro de Gouveia

(blogue DOMADORA DE CAMALEÕES)

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O discurso de Merkel

por Alexandre Guerra, em 29.05.17

O discurso de Angela Merkel proferido este Domingo num comício para 2500 pessoas em Munique é daqueles que poderá ficar para a História da construção europeia. Não se pode dizer que tenha passado despercebido à imprensa internacional, porque, que se recorde, é a primeira vez que se vê a chanceler alemã a pronunciar-se de uma forma tão assertiva para a necessidade dos europeus contarem com eles próprios e não estarem dependentes dos “aliados” tradicionais, em referências directas aos “afastamentos” dos EUA e do Reino Unido. Ao dizer que a União Europeia tem que “tomar o futuro pelas suas próprias mãos”, Merkel está na prática a assumir que está na hora dos líderes europeus começarem a pensar seriamente na criação de uma efectiva política europeia de defesa e segurança, algo que não existe neste momento. É certo que existem muitas proclamações políticas e alguns mecanismos, mas nada perto daquilo que poderá garantir a defesa física da Europa como um todo perante uma ameaça externa. E nesse ponto é importante não esquecer que a NATO continua a ser a única organização com essa capacidade de resposta, ou seja, com a agilidade de mobilizar forças de diferentes países sob um único “badge” (comando). Em termos de meios militares, a NATO propriamente dita tem uns aviões AWACS (que vão reforçar a sua acção na recolha e partilha de informação entre todos os Estados-membro da Aliança), alguns quartéis-generais e pouco mais, no entanto, tem uma experiência acumulada de décadas, que lhe permite reagir a diferentes ameaças e em diferentes cenários através da interoperacionalidade oleada das forças dos diferentes países colocadas ao serviço NATO. Na prática, a NATO tem sido a estrutura comum da defesa europeia e até há poucos anos o território europeu tinha o exclusivo da sua acção.

 

Não é mentira quando Trump enfatiza o desequilíbrio das contribuições financeiras de cada país aliado para aquela organização. É um facto histórico com origens conhecidas no surgimento da Guerra Fria e que durante muito tempo serviu os propósitos norte-americanos na lógica do sistema bipolar, onde parte da Europa era claramente uma área de influência sob o “guarda-chuva” de Washington. Desde o fim da ameaça do Exército Vermelho sobre a Europa que a discussão sobre a Defesa do Velho Continente tem sido recorrente, nomeadamente ao nível do investimento que é preciso ser feito por cada país. Concomitantemente, várias administrações em Washington têm, ao longo dos anos, lançado avisos à Europa para que começasse a investir mais na Defesa e no orçamento da NATO. Por várias vezes, e sobretudo em momentos de crise, política ou militar, líderes europeus vieram para a praça pública falar entusiasticamente na necessidade da Europa começar a gastar mais na sua Defesa. Chegaram a ser ensaiados alguns projectos comuns, mas que nunca se concretizaram. Por isso, aquilo que Merkel disse no Domingo não é propriamente novo no conteúdo nem na forma. A verdadeira novidade foi ter sido Merkel a dizê-lo, sobretudo no tom particularmente firme em que o disse. É certo que estava influenciada pelo ambiente pouco diplomático provocado por Donald Trump nas cimeiras da NATO e do G7, mas para a chanceler ter assumido uma posição daquele calibre é porque a mesma deverá vir acompanhada de uma política firme nos próximos tempos.

Merkel foi a primeira líder europeia a assumir uma divergência desta magnitude com a administração Trump. Em causa estão valores fundamentais para a Europa, como são as alterações climáticas, mas é preciso não esquecer que, à margem da cimeira da NATO, o Presidente americano tinha ameaçado restringir as importações de carros alemães para os EUA. Nestas coisas da política internacional, e ao contrário do que muita gente possa pensar, as relações pessoais entre líderes podem fazer toda a diferença no adensar ou no desanuviamento de uma potencial situação de escalada político-diplomática. Neste caso, admite-se que a convivência entre os dois, primeiro em Bruxelas e depois em Taormina, não tenha corrido pelo melhor. Acontece. Agora, é preciso que nos corredores da diplomacia sejam encetados esforços no sentido de se manterem os canais de comunicação abertos entre Berlim e Washington, porque, uma coisa é certa: a Europa não está em condições de caminhar sozinha em matéria de Defesa e vai continuar a depender do envolvimento dos EUA na NATO durante muitos e longos anos. Por outro lado, Trump não deve esquecer, nunca, que apesar de todas as diferenças, é com a Europa com quem os EUA partilham os valores basilares da democracia e do liberalismo que norteiam a sua democracia e sociedade. Além disso, Trump também não se deve esquecer de um conceito muito importante e desenvolvido há uns anos por Robert Keohane e Joseph Nye, o da interdependência complexa. E neste aspecto, EUA e Europa estão ligados um ao outro como dois siameses.

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Dois anos é muito tempo

por Pedro Correia, em 25.01.17

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Lembram-se? Faz hoje dois anos. O Syriza venceu por escassa margem a eleição legislativa na Grécia e foi quanto bastou para a Europa mediática - cada vez mais dissociada do pulsar real das sociedades - se erguer em hossanas ao suposto novo Ulisses que resgataria o povo helénico de todas as humilhações.

Por cá, o Jornal de Notícias concedeu uma rara manchete "editorializada" a um tema internacional proclamando: "Grécia - o princípio do fim da austeridade". O Público foi menos sucinto mas ainda mais crédulo no seu título garrafal da primeira página: "Grécia vira a página da austeridade e deixa Europa a fazer contas".

 

Numa interminável cascata verbal, sucediam-se as efusões de júbilo. "Pela Grécia passa a salvação da Europa", celebrava Ana Gomes. "Terminou a austeridade pura e dura na Grécia", sentenciou Freitas do Amaral. "A Grécia renasceu hoje", entusiasmou-se José Castro Caldas. "A Europa vai ter de ceder", ameaçava Nicolau Santos.

O pintor Leonel Moura, fazendo "análise política" pela via da estética, apontou como causa do triunfo eleitoral da esquerda radical grega "a boa imagem de Tsipras, reforçada agora pela de Varoufakis". Boaventura Sousa Santos, do alto da sua cátedra coimbrã, imaginou o líder do Syriza equiparado a Charles de Gaulle em 1944: "A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa." Já Catarina Martins, fiel aos clássicos, optou por parafrasear Marx: "Hoje vira-se uma página na Europa. Hoje começa-se a colocar a austeridade no caixote do lixo."

 

Eram os tempos da tenebrosa "senhora Merkel" que, qual vampira, nos sugava até à última gota de sangue. A mesma que, ao visitar Lisboa, foi crismada de assassina a nazi. "Queríamos queimar a Merkel viva", gritaram vozes num incendiário directo televisivo. Francisco Louçã, com o seu sofisticado vocabulário político, chamava-lhe "assaltante" e "pirata".

Mas as coisas mudaram. A "austeridade" não só não terminou na Grécia como se tornou ainda mais dura e draconiana, com um novo  programa de resgate e um referendo inútil que Tsipras convocou para logo o deitar para o lixo, para utilizar a elegante expressão da líder do Bloco de Esquerda.

O pintor Moura não voltou a pronunciar-se sobre os supostos atributos estéticos do duo Tsipras-Varoufakis, aliás desfeito numa das primeiras curvas do sinuoso caminho da governação que o Syriza tem experimentado. Um partido afinal igual aos outros mal segura as rédeas da governação, numa Europa hoje assolada por um sem-fim de novos problemas - do terrorismo às migrações maciças, passando pelo espectro da sua própria desagregação devido à onda dos populismos emergentes, quase todos de matriz identitária, parentes próximos dos que devastaram o continente noutras épocas, de péssima memória.

 

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 Varoufakui e Tsipras: um duo volatilizado

 

Com o espaço comunitário sob a ameaça da desagregação, na sequência do referendo britânico de Junho passado, e o cenário da tomada do poder por forças extremistas em França ou na Holanda, além da crescente tendência dos europeus de Leste para rejeitarem a política comunitária, sem esquecer as pulsões anti-imigratórias que já se estenderam à península escandinava, ninguém voltou a falar de Tsipras.

Varoufakis volatilizou-se.

A "segunda libertação da Europa" não passou de um sonho de uma noite de Inverno de um simpático sociólogo de Coimbra.

E Merkel tornou-se a última legítima herdeira da sólida aliança entre democratas-cristãos e sociais-democratas que garantiu sete décadas de paz, prosperidade e progresso ao continente europeu. Passou a ser elogiada por muitos que ainda há pouco a detestavam.

Não por acaso, é cada vez mais contestada em casa pelo populismo vociferante, em perfeita identificação com o ar dos tempos.

 

A vitória eleitoral do Syriza aconteceu apenas há dois anos mas parece ter ocorrido há uma eternidade. Comprovando que, quando se fala em política, o nosso planeta parece girar muito mais rapidamente em torno do seu eixo.

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Uma estadista

por Pedro Correia, em 17.11.16

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O ser humano é determinado pelas circunstâncias, como nos ensinou Ortega y Gasset. Penso nisto muitas vezes a propósito da política. Repare-se em Angela Merkel: há menos de dois anos era ridicularizada pelas bempensâncias de turno, que a caricaturavam como uma gauleiter cúpida e bronca. A esquerda radical chic pintava-a com bigodinho hitleriano e umas tantas sumidades chamavam-lhe “senhora Merkel”, com indisfarçável desdém misógino. "Seja mal-vinda a Portugal", proclamaram em uníssono mais de cem figuras cá do burgo quando visitou Lisboa, em Outubro de 2012.

As circunstâncias operaram uma reviravolta nessa cascata de argumentos primários contra a chanceler alemã. Angela Merkel, que agora recebe Barack Obama em Berlim, emerge da endémica crise de identidade europeia como a única interlocutora válida do continente perante os restantes protagonistas da cena política mundial. Henry Kissinger – pioneiro na abertura da diplomacia norte-americana a outras latitudes – declarou em tempos que desconhecia “o número de telefone da Europa”, aludindo à falta de liderança no Velho Continente. Hoje não voltaria a repetir a frase.

 

Diziam com desprezo que ela só pensava em finanças públicas. Mas não vejo ninguém a conduzir a política com tanto acerto no espaço geográfico em que Portugal se insere.

A chanceler germânica deu uma exemplar lição de dignidade aos seus pares ao acolher generosamente em 2015 mais de um milhão de refugiados – grande parte dos quais fugidos das intermináveis guerra civis no Médio Oriente e no Norte de África – enquanto outros responsáveis políticos europeus, de Mariano Rajoy a Vladimir Putin, lhes fechavam as portas. Pôs a sua popularidade interna em risco, sujeitou-se às críticas da direita mais extremista, viu uma força xenófoba ganhar terreno eleitoral, mas não abdicou dos princípios humanitários em que acredita – moldados na genuína democracia-cristã que funcionou durante três décadas como um dos pilares doutrinários da construção europeia.

Já este ano, revelou idêntica dignidade ao enfrentar a gravíssima crise institucional provocada pelo referendo britânico, reafirmando a sua crença no projecto europeu e reforçando os elos de solidariedade com as economias periféricas da UE. E há dias, na mensagem de felicitações que dirigiu ao recém-eleito Presidente norte-americano, prometeu cooperação institucional a Donald Trump sem abdicar dos “valores da democracia, da liberdade, do respeito pela lei e pela dignidade das pessoas” que constituem conquistas civilizacionais sem recuo, como fez questão de sublinhar.

 

Quem lhe lançava farpas e a transformava em objecto de sarcasmo teve de procurar outros alvos.

Admirada por quem já a contestou, criticada por quem já a enalteceu, respeitada por quase todos. Poucos duvidam de que é uma das raras dirigentes contemporâneas com lugar garantido nos livros de História.

Uma estadista.

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Figuras internacionais de 2015

por Pedro Correia, em 02.01.16

   

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ANGELA MERKEL e AUNG SAN SUU KYI

 

Duas mulheres foram eleitas Figuras Internacionais do ano pelo DELITO DE OPINIÃO: a chanceler alemã Angela Merkel (que já tinha sido escolhida em 2010 e 2011) e a Nobel da Paz birmanesa Aung San Suu Kyi.

A primeira, entre outros motivos, por ter enfrentado sectores alargados da opinião pública germânica que se opõem à entrada de refugiados no país: a Alemanha recebeu já cerca de um milhão, liderando de longe os países europeus no acolhimento aos desalojados do Médio Oriente e do Magrebe que fogem a zonas de guerra e à pobreza económica.

A segunda por ter conduzido a sua Liga Nacional para a Democracia a uma indiscutível vitória nas urnas, com 77% dos votos nas legislativas de Novembro, pondo fim a mais de meio século de ditadura militar na Birmânia. Uma luta em que se envolveu sempre por métodos pacíficos e lhe valeu mais de vinte anos em regime de prisão domiciliária.

 

Como é costume nestas votações anuais, as opiniões dividiram-se bastante. Merkel e Aung receberam cinco votos cada dos 23 participantes neste escrutínio, que podiam votar em mais de um nome.

Com três votos ficaram o ex-ministro grego das Finanças, Yannis Varoufakis (de quem muitos já mal se recordam nestes tempos tão voláteis) e Aylan Kurdi, o menino curdo de três anos que morreu por afogamento quando acompanhava o pai, entre outros refugiados oriundos da Síria, em demanda de uma praia turca. A dramática fotografia da criança morta deu a volta ao mundo.

Com dois votos ficou o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, muito mencionado nas notícias do início de 2015 mas que foi perdendo destaque ao longo do ano.

Depois houve votos solitários dispersos por diversas figuras: o Papa Francisco (eleito pelo DELITO nos dois anos anteriores), Barack Obama, Donald Trump, Marine Le Pen, o lider nacionalista polaco Jaroslaw Kaczyński, o refugiado sírio Laith Majid (cuja imagem de lágrimas nos olhos, com o filho ao colo, também deu a volta ao mundo), Nicolas Catinat (assassinado no Bataclan, a 13 de Novembro, depois de ter servido de escudo humano numa atitude heróica) e o Quarteto para o Diálogo Nacional na Tunísia (galardoado com o Nobel da Paz 2015).

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

 

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Merkel de braços abertos.

por Luís Menezes Leitão, em 08.06.15

A fazer lembrar a Música no Coração.

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Herzlichen dank mein lieber Freund.

por Luís Menezes Leitão, em 25.01.15

Leio aqui que Angela Merkel vai homenagear Durão Barroso na próxima segunda-feira em Berlim. Trata-se de uma homenagem mais que merecida. À frente da Comissão Durão Barroso sempre esteve totalmente do lado das posições alemãs e contra os interesses dos países do Sul, incluindo daquele a que pertence. Como bem se escreve neste artigo: "Os dois líderes políticos estiveram juntos na pobreza e na austeridade, no desemprego e no crescimento da Europa, até que o fim do mandato de Durão, em outubro de 2014, os separou". Faz por isso todo o sentido que Merkel condecore Durão Barroso. Já que Cavaco Silva também o tenha feito, é mais difícil de explicar. O legado de Durão Barroso na Europa está à vista com o crescimento dos partidos radicais que ameaçam estilhaçar o projecto europeu. Aposto que, nas suas próprias imortais palavras, hoje vamos começar a ter o caldo entornado.

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Estratégia brilhante.

por Luís Menezes Leitão, em 16.06.14


Tenho que reconhecer que Paulo Bento teve uma estratégia brilhante neste jogo do Mundial de Futebol. Conseguiu demonstrar a Angela Merkel que não só precisamos de um segundo resgate, como vamos precisar de um terceiro e até mesmo de um quarto resgate. Vejam o ar de desespero da senhora perante a evidente má prestação de Portugal em comparação com a da Alemanha. Está encontrada a explicação para o facto de Passos Coelho não se ter querido deslocar ao Brasil e assistir ao jogo. Escapou assim à fúria de Merkel, mas agora ficou tudo esclarecido. Agora só falta perguntar quando é que vem a próxima tranche do dinheiro.

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O juramento de Angela Merkel.

por Luís Menezes Leitão, em 18.12.13

 

Em Portugal havia uma série de gente, desde António José Seguro a Freitas do Amaral, que tinha grande esperança no resultado das eleições alemãs. Sempre achei, pelo conhecimento que tenho da Alemanha em frequentes viagens, que não valia a pena esperar nada dali. Os alemães defendem os seus próprios interesses e Angela Merkel tinha-o feito impecavelmente, pelo que era óbvio que seria reeleita. Mas, mesmo que o não fosse, não haveria nenhum Governo alemão que aceitasse a história de os alemães pagarem as dívidas alheias, que é no fundo o que significam os eurobonds. Não valia a pena, por isso, diabolizar Angela Merkel. Se há alguém que merece críticas é, pelo contrário, Durão Barroso, que foi eleito para defender os interesses gerais da União Europeia e só tem defendido as pretensões alemãs.

 

Se houvesse dúvidas sobre o que é suposto fazerem os chanceleres alemães, elas podem ser desfeitas com a simples audição do juramento de posse do cargo, que consta do vídeo acima: "Ich schwöre, dass ich meine Kraft dem Wohle des deutschen Volkes widmen, seinen Nutzen mehren, Schaden von ihm wenden, das Grundgesetz und die Gesetze des Bundes wahren und verteidigen, meine Pflichten gewissenhaft erfüllen und Gerechtigkeit gegen jedermann üben werde. Ich schwöre es, so wahr mir Gott helfe". Ou seja: "Juro que vou dedicar os meus esforços ao bem do povo alemão, aumentar os seus benefícios, protegê-lo de danos, respeitar e defender a Constituição e as leis da Federação, cumprir conscientemente os meus deveres, e fazer justiça a todos. Juro-o, assim Deus me ajude".

 

Em relação ao povo alemão, Angela Merkel tem sempre cumprido impecavelmente o seu juramento. A pergunta é apenas se não se deveria instituir um juramento semelhante para o Primeiro-Ministro português, naturalmente agora relativo a Portugal. Porque quanto à União Europeia, esqueçam. Neste momento, cada país está por sua conta.

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Revisionismo histórico

por Pedro Correia, em 28.09.13

Ficámos agora a saber, pelo próprio, que Mário Soares nunca ganhou uma eleição legislativa em Portugal.

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Iron Lady

por Pedro Correia, em 22.09.13

Desfeito o mito de que todos os governos em funções perdem eleições na Europa: Angela Merkel vence e convence, com mais oito pontos percentuais do que nas legislativas de 2009. Os "analistas" que confundem desejos com realidades saem derrotados: nenhum deles anteviu este resultado.

Nada de decisivo na Europa se poderá fazer sem Merkel. E muito menos contra ela. O povo alemão assim o quis.

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As eleições alemãs.

por Luís Menezes Leitão, em 14.09.13

 

Por razões profissionais estive na semana passada na Alemanha e pude assistir à campanha eleitoral alemã. Da mesma pude concluir que a aspiração de tantos políticos portugueses de que alguma coisa possa mudar após essas eleições é perfeitamente ridícula. Angela Merkel está de pedra e cal na chancelaria, e não vai alterar um milímetro a política que desenhou para a Europa. Quanto a Peer Steinbrück, já tinha concluido que tinha tantas hipóteses de ser eleito chanceler como o Reichstag de dançar o samba. Mas depois desta entrevista bem pode ir já para casa. Merkel vai ser assim naturalmente reeleita e a única dúvida é se os seus parceiros de coligação, os liberais do FDP, conseguem ou não entrar no parlamento. Mas, com eles ou sem eles, não haverá solução de governo que não tenha Merkel na chancelaria.

 

Verifiquei ainda que o discurso radical contra os países do sul da Europa está a ter grande sucesso na Alemanha. Por todo o lado vi cartazes com frases como esta: "os gregos que paguem sozinhos as suas dívidas". Ou: "os resgates do euro põem em causa as nossas pensões". É espantoso que a opinião pública alemã não se aperceba do que o país já ganhou com a crise do euro. Mas como a política não é racional, é de prever que a prazo termine a paciência dos alemães para continuar a financiar estes resgates.

 

Neste enquadramento, não deixei de achar curioso que Wolfgang Münchau tenha vindo cá sugerir a Portugal que ameace com a saída do euro como estratégia negocial para obter melhores condições para nele permanecer. Acho que se Portugal adoptar essa estratégia o mais provável é do outro lado ouvir: "Excelente ideia! Estávamos mesmo a pensar propor-lhe isso".

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Homem ao mar.

por Luís Menezes Leitão, em 16.05.13

 

Lê-se aqui que os próprios responsáveis germânicos estão agora a ser especialmente críticos perante a política de austeridade seguida pela Comissão Europeia  e pelo seu Presidente Durão Barroso. Parece que, depois do desastre de em Portugal se ter querido ser mais troikista que a troika, agora é Durão Barroso, que se especializou em ser mais germanófilo que os alemães, que vai ser por estes atirado borda fora. O padrão é típico. O mandante dá as ordens e quando as coisas não resultam, o mandatário é que é sacrificado como bode expiatório. Ainda vamos ouvir dizer que Angela Merkel e Wolfgang Schäuble sempre estiveram contra a austeridade e que ela só foi aplicada por exigência de Durão Barroso. Mas este é um justo castigo para uma Comissão Europeia que se esqueceu do seu papel de guardiã dos Tratados e tem sido apenas a voz de Berlim.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 14.11.12

«Houve [em Lisboa, segunda-feira] só um cartaz com o Hitler: não é mau, comparado com outros países que já receberam a chanceler alemã, mas não deixa de ser uma vergonha. Mas bastou esse gesto selvagem (que equivale a dizer que Adolf Hitler era como Angela Merkel) para fazer eco na conferência de imprensa, levando a chanceler a dizer que não se importava.

Não se importa porque é tão desprovido de inteligência ou plausibilidade que não produz efeito nenhum. Há que saber insultar as pessoas. É preciso ser-se burro para responsabilizar a engª Merkel pela nossa situação financeira. Digo engª porque os portugueses, que não se coíbem de tratar os políticos pelos doutores e engenheiros que são, costumam tratá-la por srª Merkel, apesar de ela ser licenciada em Química, como era a engª Thatcher.»

Miguel Esteves Cardoso, no Público

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Vamos agora em directo

por José Navarro de Andrade, em 14.11.12

A intensa e dramática, por vezes eufórica, cobertura informativa da visita da sra. Merkel a Lisboa, apesar da qual continuamos por saber quase tudo a não ser o que não interessa, que o Pedro Correia descreve com o necessário e obsessivo pormenor, não sei porquê, recorda a série da BBC "Broken News".

Não creia o leitor que desconsidero a sua inteligência ao esclarecer que esta série é uma comédia, repito: comédia. É que depois de ontem, ou o humor inglês perdeu a piada, ou a seriedade portuguesa ficou igualzinha ao humor inglês (já disse que era uma comédia?).

Sempre em cima da actualidade e não menos em directo do que a concorrência, o Delito de Opinião, apresenta, em rigoroso exclusivo, um trecho de 10 minutos de "Broken News" - somos tão sérios como os outros.

 

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"Queríamos queimar a Merkel viva"

por Pedro Correia, em 13.11.12

 

Ontem, 17.50, manifestação anti-Merkel junto ao Centro Cultural de Belém.

Reportagem em directo da SIC Notícias. Mostra imagens dos manifestantes: são poucas dezenas, vários estão de cara tapada, alguns envergam máscaras de Carnaval.

 

Diz a jornalista:

- Boa tarde. Os manifestantes mantêm-se aqui neste local. O ambiente está calmo. Não há palavras de protesto neste momento. A única imagem de protesto é esta fogueira que continua a arder aqui no centro dos manifestantes. É uma fogueira feita com os cartazes que foram trazidos para esta manifestação e à volta da qual os manifestantes se juntam neste momento. (...) Vamos tentar perceber quem são estas pessoas que se mantêm aqui junto a este jardim e também a esta fogueira. Ao contrário do que aconteceu durante esta manhã, a esta hora são sobretudo jovens que aqui permanecem. Eu do meu lado esquerdo tenho sobretudo jornalistas.

 

(vira-se para a direita)

 

- Vou tentar falar com este senhor. Muito boa tarde. Diga-me quem é o senhor, porque está aqui e o que o leva a estar até esta hora, aqui, neste jardim de Belém.

- Pois, sou cidadão português, trabalho desde os 14 anos, e independentemente daquilo que faça, tenho 50, trabalho há 36 anos e 'tou a ver tudo aquilo por que trabalhei, não é?, com uma segurança que sempre toda a vida me garantiram e que agora me estão a roubar. Para além disso, 'tou-me a juntar aqui ao resto do pessoal jovem que não tem futuro.

 

(a jornalista tenta falar com alguns jovens, mas viram-lhe a cara)

 

- Há muitos jovens que não querem falar. Esta jovem aqui vai falar comigo... Eu queria só saber o que a traz até aqui e que idade é que tem.

- Tenho 16 anos.

- E vem aqui porquê?

- Porque acho que isto é um...

 

(a jovem ri-se muito e não diz mais nada)

 

A jornalista insiste, com outra pessoa:

- Este jovem. Posso falar consigo e saber o que o traz até aqui?

- As medidas que têm sido impostas ao País... o que temos passado nestes últimos meses.

- E qual é a sua situação? Está a trabalhar? Está desempregado?

- Estou desempregado. Estou a acabar o 12º ano, à procura de emprego e a lutar por um país melhor.

- E lutar por um país melhor é fazê-lo desta forma, acendendo esta fogueira e aproveitando este momento em que vem aqui uma líder internacional?

- Não, não é desta forma.

- Não concorda com este protesto?

- Concordo e não concordo. Há maneiras e maneiras de fazer...

- O que é que não concorda?

- Maneiras agressivas... Nós não temos que picar os polícias nem os polícias têm que nos picar a nós. Nós estamos aqui só para nos manifestarmos, mas não temos que picar os polícias.

- Sente que da parte de alguns dos presentes tem havido esse incentivo à violência?

- Sim, mas não muito. Portugal sempre foi um país pacífico quanto a isso. Essa pergunta nem se faz dentro de Portugal porque em Portugal é tudo muito pacífico.

 

(começam a ouvir-se algumas vozes cantando Grândola, Vila Morena; quatro manifestantes erguem punhos)

 

A jornalista faz um breve ponto da situação:

- E pronto, o ambiente é este e tem sido assim durante toda a tarde. Não há momentos de violência a registar. Aquele que pode ser considerado o maior incidente da tarde terá sido quando estes manifestantes chegaram até este local e retiraram as baias. O Corpo de Intervenção foi obrigado a criar uma linha de segurança precisamente com os próprios agentes, mas desde então não tem havido conflitos com a polícia e também não há detidos a registar e esta fogueira apenas aqui como símbolo desta luta e algumas vozes que se levantam aqui nos jardins de Belém em protesto contra a visita de Angela Merkel e também contra estas medidas de austeridade impostas pelo Governo português.

 

(parecia não haver notícia, mas cinco minutos depois era retomado o directo no mesmo local)

 

De novo a jornalista:

- Vou tentar falar aqui com esta senhora. O que a traz aqui?

- Traz-me aqui a indignação. O estado em que está o nosso país. E os nossos governantes. É isso.

- Mas identifica-se com este protesto? Eu estive aqui durante o dia, notam-se bastantes diferenças entre a manifestação da manhã, com pessoas de mais idade, agora estes mais jovens, alguns de cara tapada. A senhora identifica-se com estes protestos?

- É assim: eu identifico-me porque... derivado à situação em que o nosso país se encontra. Hoje não trabalhei, mas tive que dar uma grande volta porque está tudo cortado.

- Teve dificuldade em chegar até aqui?

- Muita dificuldade. Tive que vir a pé. Demorei imenso tempo.

 

(a câmara foca outra mulher, de óculos escuros apesar de ser já noite, com um grande cartaz onde se lia "Angela Merkel assassina")

 

- A senhora identifica-se com este tipo de protestos, com esta fogueira que se acendeu aqui?

- Esta fogueira é um símbolo porque nós queríamos era queimar a Merkel viva. Portanto a fogueira faz sentido. Nós queríamos era queimá-la viva!

- A senhora trabalha ou está desempregada?

- Trabalho. Trabalho, mas tenho um filho que não tem perspectivas de estudar nem de trabalhar e tenho de ser solidária com aqueles que estão sem emprego e estão a passar fome e na miséria.

 

Eram 18.05. Terminava assim, com este remate incendiário, a reportagem em directo da SIC Notícias no jardim junto ao CCB. Uma reportagem muito impressiva e mais esclarecedora do que prometia. Quinze minutos inolvidáveis de televisão.

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Espelho meu, espelho meu

por Leonor Barros, em 12.11.12

Presumo que sejamos todos belos, esbeltos, magros, sem rugas, jovens e um primor na vestimenta, o supra-sumo do bom gosto. Podem acusar a Merkel de quase tudo, agora este exagero na aparência dela é muito triste. A política não é um concurso de beleza, senão o Passos Coelho não teria aquele cabelo ralo nem o Gaspar aquele semblante de Mr. Bean. 

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Angie: Like a Rolling Stone

por Rui Rocha, em 12.11.12

 

 

 

 

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A angústia do bloguista perante o teclado

por Rui Rocha, em 12.11.12

Chanceler ou chancelerina?

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Diferenças de produtividade

por Rui Rocha, em 12.11.12

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Os portugueses costumam dizer também que “quem come a carne deve roer os ossos”. Ora a Sra. sabe como as dificuldades de Portugal favorecem o seu País. A Alemanha tem hoje uma moeda subavaliada e financia-se a taxas negativas. Nós temos uma moeda sobreavaliada e a nossa economia tem crédito caro e minguado. Não lhe ficava mal partilhar carne com osso. Nós não queremos bife todos os dias, mas temos o legítimo direito a uma “alimentação” saudável para podermos trabalhar e progredir.

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Disse.

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Uma clássica de aeroporto

por Rui Rocha, em 12.11.12

- Origem?

- Berlim.

- Nome?

- Merkel.

- Ocupação?

- Não. Desta vez estou só de visita.

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Como é bom viver no campo

por Leonor Barros, em 11.11.12

O ar é mais puro, o ritmo é outro, posso comprar batatas, limões e ovos orgânicos produzidos num quintal aqui perto e posso, com muita felicidade minha, não ver o video sobre Portugal exibido nos painéis de Lisboa na segunda-feira, amanhã mesmo. Adoro a minha vida de aldeã nestas alturas. E agora um pedido: até terça-feira mantenham-se quietos e caladinhos e deixem se de ideias e de fazer mais videos para a Merkel. Já chega, sim?

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Merkel, a incompreendida

por José Navarro de Andrade, em 09.11.12

caspar david friedrich, 1818.jpg 

Caspar David Friedrich

"Wanderer über dem Nebelmeer", 1817

 

Por esta altura já deveríamos ter percebido qual é o verdadeiro dilema da sra. Merkel.

Decalcada de todos os ministros que vêem o seu governo a dançar com a crise, a principal preocupação da Chanceler é a saúde do sistema financeiro do seu país. “Sistema financeiro” costuma chamar-se, em linguagem de leigo, “bancos”.

Ora preocupar-se mais com os bancos do que com a qualidade de vida da sua classe média, faz com que esta considere que Merkel tenha as prioridades trocadas.

Será esta a primeira razão da sua impopularidade entre os eleitores alemães.

Sucede que estar preocupada com os bancos, implica andar angustiada com o estado de solvência dos devedores. Se estes não pagam, a banca alemã, que tão diligentemente investiu as poupanças dos clientes alemães na compra de dívida soberana de Portugal, Grécia e Espanha, estremece e corre o risco de cair. Isto quer dizer que um escriturário de Hamburgo, um operário de Dortmund, um comerciante de Dresden ou um professor de Munique, cidadãos esforçados e probos, ao ligarem a televisão, são capazes de ver a sra. Merkel mais tempo a falar de Portugal, da Grécia e da Espanha, do que dos problemas que realmente os afectam.

Este interesse pela crise nos países estrangeiros, a ocupar a atenção que devia ser prestada às questões nacionais, é, com toda a probabilidade, a segunda razão por que Merkel é crescentemente impopular no seu país.

Os alemães são egoístas? Não, estão perplexos. Tanto como estariam os portugueses se um grande banco português tivesse investido o aforro dos seus clientes na Guiné-Bissau e agora andasse ó mãe, ó mãe, com a dívida daquele país, e o governo português muito focado nos problemas internos da Guiné-Bissau. Nós não somos como a Guiné-Bissau? Pois não, ela não está no Euro.

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Ursinhos de peluche

por Rui Rocha, em 09.11.12

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A Imperatriz da Europa falou.

por Luís Menezes Leitão, em 03.11.12

 

 

Merkel pede à Europa mais cinco anos de austeridade, para que os investidores possam acreditar que os europeus são capazes de cumprir as suas promessas. Aqui temos o pronunciamento definitivo de quem efectivamente manda na Europa e a demonstração de que os actuais governantes europeus não passam de lacaios do novo poder germânico. Eu só pergunto qual é neste momento o papel da Comissão Europeia e o que anda lá a fazer Durão Barroso? E já agora para que serve o actual Governo português e as suas habituais larachas sobre a data de regresso aos mercados ou a reforma do Estado? O Estado já está reformado e é neste momento um protectorado germânico. Jawöhl!

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Podemos imaginá-la, Penélope, à janela dos seus aposentos. Indagando o horizonte. À espera, sempre esperando o regresso de Ulisses. Ali ciente do desejo do seu pai de que voltasse a casar. Que se tornava mais evidente a cada um dos dias desses vinte anos de ausência. Ali congeminando quantas estratégias fossem possíveis para adiar o momento em que, se notícias de Ulisses não viessem, acabaria por ceder. Ali mesmo engendrara todas as formas de, dizendo que sim, obter na prática um ainda não. Por aquela mesma janela, se quiséssemos, a teríamos visto, de dia, tecendo com total dedicação o sudário de Laerte, pai de Ulisses, cuja conclusão constituía a condição por ela imposta ao seu próprio para casar com qualquer outro. Essa mesma janela por onde, tivéssemos nós cedido ao frémito da curiosidade, a veríamos, a cada noite, desfazendo com a mesma dedicação e um brilho de febre nos olhos, toda a obra que durante o dia tivesse feito. Ali, à janela, descoberto o ardil, imaginara ainda o desafio do arco de Ulisses. A evolução do mecanismo de supervisão bancária europeia, objecto de novo adiamento na passada semana, mostra que podemos imaginar Angela Merkel nessa mesma janela. Ali engendrando quantas formas existem de ir dizendo que sim para, na prática, obter um ainda não. Ali sempre esperando, sempre fiel ao sistema bancário alemão e ao seu projecto político europeu. A situação portuguesa só tem solução por via da solidariedade (outros dirão compaixão) europeia. Se quisermos perceber algo sobre a viabilidade dessa solução, é por essa janela que devemos espreitar. Essa mesma onde vemos Angela Merkel indagando o horizonte.

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Leituras de Verão

por Rui Rocha, em 01.08.12

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Ai a bardina!

por Rui Rocha, em 31.07.12

Enquanto os líderes políticos de certos países do sul da Europa suam as estopinhas para preparar o orçamento para 2013, estando em alguns casos impedidos, inclusivamente, de gozar férias no estrangeiro, Frau Merkel repousa numa estância do Tirol italiano. Depois venham contar-nos histórias sobre a  cigarra e a formiga.

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Descubra as diferenças

por Rui Rocha, em 26.07.12

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Seventy shades of grey

por Rui Rocha, em 17.07.12

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Um coração de manteiga, é o que é

por Rui Rocha, em 13.07.12

 

De acordo com o Welt Online, Frau Merkel, acusada por muitos de ser rígida e inflexível, estará disponível para dar mais tempo à Grécia. Num gesto de surpreendente benevolência, a Chanceler alemã admite prolongar o prazo para os gregos cumprirem as suas obrigações por algumas... semanas. Em todo o caso, não mais de meia dúzia que isto da generosidade tem limites. 

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Merkel e Hollande, hoje em Reims, durante as cerimónias de comemoração dos 50 anos de amizade entre França e Alemanha.

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Machismo bom, machismo mau

por Pedro Correia, em 28.06.12

Ouço, a todo o momento, jornalistas e comentadores referirem-se a Angela Merkel chamando-lhe "senhora Merkel". Como se fosse a Dona Rosa do lugar da hortaliça. Isto podia obedecer a um critério, mas não obedece. Os mesmos jornalistas e os mesmos comentadores não aludem a Barack Obama chamando-lhe "senhor Obama". Nem a Vladimir Putin chamando-lhe "senhor Putin". Nem a Durão Barroso chamando-lhe "senhor Barroso". Nem ao Presidente venezuelano chamando-lhe "senhor Chávez". Nem ao Chefe do Estado angolano chamando-lhe "senhor Santos".

Existe um preconceito óbvio nesta forma de tratamento jornalístico da chanceler germânica. Não certamente por ser alemã, mas por ser mulher. Acho indefensável esta forma de machismo insidioso, aliás com precedentes: quantos de nós não ouvimos apelidar Margaret Thatcher de "senhora Thatcher" com o mesmo suave desdém reservado às mulheres que ousam atingir elevados cargos no universo político?

Confesso não espantar-me por ouvir Mário Soares aludir vezes sem conta à "senhora Merkel" enquanto faz vénias rasgadas ao "Presidente Obama". Todos nos lembramos da forma descortês como se referiu a Nicole Fontaine quando esta o derrotou em 1999 na votação para a presidência do Parlamento Europeu: com mau perder, procurou desvalorizá-la chamando-lhe "dona de casa". Suponho que não tardou a arrepender-se de ter cometido tamanha deselegância.

Já me espanto por ver comentadores e jornalistas muito mais jovens, com idade para serem netos de Soares, falarem do mesmo modo. E o espanto aumenta ainda mais um pouco quando são mulheres a falar desse modo.

Falam, no fundo, como se avalizassem essa inaceitável modalidade de machismo. E o pior é que, na primeira oportunidade, talvez estejam sempre disponíveis para chamar 'machista' a outros.

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Contra a Merkel marchar, marchar!

por André Couto, em 09.06.12

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A Europa está órfã de mãe

por Helena Sacadura Cabral, em 18.05.12

 

 "...Num dia de 1950, Jean Monnet, do país vencedor, foi a Bona encontrar-se com Konrad Adenauer, do país destruído. Monnet, perito em finanças, soube encontrar o tom lírico e sincero para convencer o alemão desconfiado. 

Simples: mostrou-lhe que era coisa mútua. Ontem, o espanhol Rajoy criticava o Banco Central Europeu de só ajudar à beira do abismo - e estava a ser otimista, a alemã Merkel, patroa do BCE, é capaz de esperar mesmo o abismo. E a francesa Christine Lagarde, patroa do FMI, já passa receitas post mortem: a saída da Grécia do euro "deverá ser feita de forma ordenada". Como se eles fossem capazes de ordem em alguma coisa. A esta gente Jean Monnet não teria convencido de nada."

(in "Europa teve pais mas está órfã", crónica de Ferreira Fernandes)

 

De facto, as duas mulheres de quem se fala acima não têm ilustrado o género, quando se trata de tomarem decisões políticas. Mas creio que será o seu lado masculino que se manifesta nessas ocasiões, de tão habituadas que estão a só dialogarem com homens.  É pena!

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O aviso do Olimpo

por Helena Sacadura Cabral, em 16.05.12

No Olimpo, os deuses não se entendiam - cá também não - sobre a visita de Hollande a Angela Merkel. Daí, uma acesa discussão em que o grupo mais fracturante fazia as mais terríveis ameaças.
O empossado Presidente da República, consciente da urgência deste encontro, toma o avião. Mas - há sempre esta adversativa quando o Olimpo não está de acordo -, quando a aeronave seguia viagem, um raio imenso abateu-se sobre ela obrigando-a a recuar e voltar ao aeroporto de partida. Está de ver que o grupo fracturante cumprira a promessa...
Finalmente Hollande pôde seguir viagem e, atrasado, mas ainda no próprio dia de ser empossado, cumprimentar a chanceler.
Hoje tentei perceber através da comunicação social qual o resultado de tanta urgência. Só vi banalidades. Que sim, que ambos concordavam em que a Grécia devia manter-se no euro. Que não, que a austeridade estava a impedir o desenvolvimento. Que talvez sim ou talvez não, se tornava necessário trabalhar em conjunto e ouvir as vozes europeias.
E pronto. A Grécia segue para novas eleições, que sim ou que talvez não, resolvam o assunto. E eu continuo sem perceber a urgência do encontro. Defeito meu, certamente, que ando menos acelerada que a França!

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Para quê tanto afã?!

por Helena Sacadura Cabral, em 15.05.12



François Hollande tomou posse hoje como PR da França e parte de imediato para a Alemanha para se encontrar com Angela Merkel.

Por muito que Hollande diga que leva na bagagem uma nova era no relacionamento entre os dois países, confesso que me causa um certo incómodo a rapidez com que esta viagem se realiza. É que tanta pressa - no próprio dia da tomada de posse... - configura mais subserviência do que o contrário.

Seguramente que Hollande tem bons conselheiros. Mas neste caso não seria preferível que a chanceler alemã viesse cumprimentar o novo PR no seu país? E não sendo assim, o que é que justifica que esta visita não pudesse ser realizada dentro de dias? Será que é a agenda alemã que continua a comandar a vida na França?

Há algo de verdadeiramente bizarro no afã desta deslocação...

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As coisas são o que são

por Pedro Correia, em 13.05.12

Lentamente, a política regressa à Europa. A política que põe teses em confronto e rejeita todo o pensamento unidimensional. A política que fomenta e sedimenta alternativas, recusando rotas "inevitáveis" traçadas de antemão.

Devemos congratular-nos. Este é o cerne da democracia.

A mudança está a acontecer um pouco por toda a União Europeia. Incluindo na poderosa Alemanha de Angela Merkel, onde a União Democrata-Cristã (CDU) registou hoje o pior resultado de sempre na Renânia do Norte-Vestefália, o mais populoso Estado do país, onde se situam cidades como Bona, Colónia e Düsseldorf. As sondagens à boca das urnas apontam para uma clara maioria do Partido Social-Democrata (39%, mais cinco pontos percentuais do que no anterior escrutínio, ocorrido em Outubro de 2010), muito à frente da CDU (26%, menos oito pontos). Os sociais-democratas preparam-se para renovar a nível estadual a coligação com os verdes, que obtiveram 12%, enquanto o Partido Liberal, parceiro de Merkel a nível federal, não conseguiu melhor do que 8,5%.

Em 2005 a CDU alcançara 44,5% neste Estado, o que demonstra até que ponto os democratas-cristãos estão em recuo na Renânia do Norte-Vestefália, um Estado que costuma funcionar como teste seguro das oscilações de voto a nível nacional. Uma tendência que já se vinha desenhando nas eleições estaduais em Hamburgo (Fevereiro de 2011), Baden-Vutemberga (Março de 2011), Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental (Setembro de 2011) e Schleswig-Holstein (há uma semana).

«Estas eleições devem preocupar a chanceler Merkel. O grande declínio do voto nos democratas-cristãos indicam uma forte aversão às propostas do seu partido. Nas sondagens nacionais, ela - em termos pessoais - continua popular, mas o seu partido não», escreve Stephan Evans, analista político da BBC.

As coisas são o que são.

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A Europa a seus pés.

por Luís Menezes Leitão, em 13.05.12

Desde o fim da II Guerra Mundial que não temos um chanceler alemão com o poder na Europa que possui a chancelerina Angela Merkel. Desde que surgiu a crise do euro que todas as instituições da União Europeia se apagaram e o verdadeiro poder na Europa se deslocou totalmente para Berlim. Os portugueses puderam assistir a Sócrates ser chamado a Berlim ou a Passos Coelho levar um puxão de orelhas por ter reprovado o PEC 4. Desde então Passos Coelho está tão disciplinado à ortodoxia germânica que até declara publicamente que Portugal é contra os eurobonds, os quais, apesar de inaceitáveis para a Alemanha, nos seriam altamente favoráveis. E para que não tenhamos sequer ilusões sobre a actual realidade em que estamos, Passos Coelho mandou até abolir o feriado que comemora a independência de Portugal.

No resto da Europa, por muito que os países votem contra as medidas impostas pela Alemanha, os governos acabam por se vergar. A Grécia já foi avisada que, sejam quais forem os resultados eleitorais, nem sonhe em formar um Governo com os partidos opositores da troika. Se o fizer, o dinheiro é cortado no minuto seguinte, caso em que os gregos terão o exemplo vivo do significado da sua expressão kaos. E a França, depois das ridículas bravatas eleitorais do senhor Hollande, assiste agora a este ir, no próprio dia da sua tomada de posse, a Berlim ao beija-mão, num acto de vassalagem inacreditável para um Presidente francês. 

Já se viu assim que as eleições nos restantes países europeus não servem para nada, que a senhora Merkel continua a pôr e dispor como quer na Europa. Curiosamente, no entanto, tem vindo a perder todas as eleições na Alemanha, de que a estrondosa derrota hoje no Nordrhein-Westfallen é o mais recente exemplo. Começa a ser, no entanto, estranho que as eleições regionais alemãs tenham mais peso para o resto da Europa que as eleições nacionais dos restantes países. Se é o Governo alemão que actualmente manda na Europa, não deveriam os restantes europeus ter uma palavra a dizer sobre esse governo?

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Dança, dança.

por Luís M. Jorge, em 10.05.12

A Alemanha adiou a votação do Tratado Orçamental. Os zezinhos da Sra. Merkel bem podem agitar a vesícula.

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Merkel: derrota em três frentes

por Pedro Correia, em 06.05.12

 

Angela Merkel perdeu hoje em três frentes.

Na frente externa, o seu mais fiel parceiro europeu - Nicolas Sarkozy - foi derrotado por François Hollande nas presidenciais francesas. E a Grécia sai das urnas ainda mais fragmentada e ainda mais ingovernável, com um expressivo voto de protesto que penaliza as duas maiores forças políticas pró-europeias e rejeita novas medidas de austeridade impostas por Berlim.

Na frente interna, a chanceler alemã vê a União Democrata-Cristã recuar nas eleições estaduais de Schleswig-Holstein, onde o seu parceiro de coligação se afunda. Depois das derrotas na Renânia do Norte-Vestefália, Hamburgo, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Baden-Vutemberga.

São sinais reveladores. Que devem ser lidos com atenção. Em todas as capitais da União Europeia, onde as forças extremistas, nacionalistas e populistas vão ganhando terreno. Não só em Atenas, não só em Paris. Por uma espécie de lenta implosão das famílias políticas tradicionais, incapazes de escutar a voz da rua.

Sinais que devem fazer meditar seriamente os políticos com responsabilidades governativas. Para que a união não se transforme em desunião e o sonho europeu não naufrague. Só ele possibilitou a paz prolongada na Europa, de longe o continente com maiores cicatrizes de guerra. Como a História nos ensina.

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Qual das araras não pertence ao conjunto?

por Rui Rocha, em 19.04.12

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Estes dias.

por Luís M. Jorge, em 19.04.12

Enquanto o FMI nos tenta meter na cabeça os perigos da austeridade e vai empurrando a retoma portuguesa para 2017 (mas o que são cinco anos?), os nossos Massamá Boys reduzem as indemnizações por despedimento (porque o desemprego não é problema) e esperam que o leitor entregue parte da sua reforma futura aos bons préstimos da banca privada (deu excelentes resultados na crise de 2008). Como se isso não bastasse, a senhora Merkel, encorajada pela performance da economia europeia, vai defender a continuação daquilo-que-nós-sabemos e rejeitar programas de apoio à conjuntura, no próximo fim de semana em Washington. É de prever que a chanceler alemã aproveite o ensejo para dar conselhos de beleza e toilette a Michelle Obama.  A América precisa tanto da sofisticação e elegância luteranas como das suas recomendações económicas.

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Isto começa a ser demais.

por Luís Menezes Leitão, em 09.02.12

 

Depois de Angela Merkel se ter atrevido a opinar publicamente sobre os investimentos que uma região autónoma de Portugal deve fazer, agora surge o alemão Martin Schulz, Presidente do Parlamento Europeu, a criticar Portugal por receber investimentos de Angola, considerando que assim o país caminha para o declínio. Confesso que cada vez tenho menos paciência para aturar esta arrogância teutónica. Que se saiba, quando elegemos governantes cabe-lhes a eles decidir a política económica do país, pela qual respondem perante o seu povo e não perante governantes estrangeiros. Não admira que a Grécia já prefira o desastre a continuar a ceder às exigências do duo Merkozy. Parece evidente o colapso do euro e da própria União Europeia. Mas grande parte da responsabilidade cabe às instituições da União que se apagaram completamente em benefício de dois Estados-Membros que até conseguiram impor aos outros um tratado intergovernamental, à margem dos tratados da União. Durão Barroso tem sérias culpas no que se está a passar. A Comissão Europeia a que preside deveria ser a guardiã dos tratados e parece disposta a assistir impávida e serena à sua destruição.

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Subsídios para o estudo da metonímia

por Rui Rocha, em 08.02.12

O governo regional da Madeira reagiu, através de comunicado, acusando Angela Merkel de ter produzido declarações ignorantes sobre a Madeira.

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Angela Merkel, no Domadora de Camaleões. Seja-se apoiante ou opositor, convém conhecê-la.

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Esclareçam-me sff

por Leonor Barros, em 03.11.11

Além de terem sido elegidos pelos seus próprios povos alguém mais se lembra de ter votado no par de jarras aí em baixo para pôr e dispor dos desígnios da Europa? Pois. Eu também não.

 

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O Diktat da Senhora Merkel.

por Luís Menezes Leitão, em 26.09.11

 

Segundo se refere aqui parece que a Senhora Merkel acha que os países endividados devem ser sujeitos a perdas de soberania de tal forma a que os que "não cumprem os critérios devem ser obrigados a cumprir", exigindo mais uma alteração aos tratados europeus para o efeito. Neste momento, parece que os tratados europeus de tratados já só têm o nome, sendo constantemente substituídos por um verdadeiro Diktat da Senhora Merkel, às vezes isoladamente, outras vezes em parceria com o Senhor Sarkozy. Gostava de saber que perda de soberania maior que aquela que já sofremos ainda nos pode vir a ser exigida. Custa-me assistir ao descalabro da União Europeia a benefício do seu maior Estado-Membro, a Alemanha. Há quem se resigne a isto, e diga que a nova Alemanha tem que mandar na Europa. Mas a Europa deve lembrar-se que não é à Alemanha que deve o seu nome. É à Grécia. 

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