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Contra os populismos radicais

por Rui Rocha, em 23.11.16

Gosto de pensar nas reuniões do CDS como uma espécie de homilías em que a líder apresenta a estratégia e os militantes respondem "o amor de Cristas nos uniu".

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Cartas de amor

por Helena Sacadura Cabral, em 31.10.16
Acabei hoje de ler as cartas de Mitterrand a Anne Pingeot, mãe da sua filha Mazzarine, agora uma mulher de 41 anos. São centenas de epístolas que revelam o lado mais privado do homem que ocupou o mais alto cargo político na França.

A intimidade, quando revelada, tem sempre o duplo efeito de nos fazer participar de algo que não vivemos. E se, neste caso, isso pode ter um lado algo perverso, visto que se trata de um triângulo amoroso, noutras circunstâncias pode ajudar a compreender melhor alguém de quem só conhecemos o lado público.

Anne Pingeot e François Mitterrand apaixonaram-se no começo dos anos sessenta. Nessa altura o político francês tinha 46 anos, era casado e pai de dois filhos, e ela tinha 19. Anne tornar-se-ia - nas próprias palavras de François - não apenas a sua amante, mas a mulher da sua vida. 

Esta relação intensa e de enorme cumplicidade só se tornou pública em 1994, quando a revista Paris Match publicou fotografias do então Presidente da República a sair de um restaurante parisiense com a filha de ambos, Mazarine, nessa altura com 20 anos. Este “escândalo mediático” para a época foi, até então, bem protegido pela comunicação social que o conhecia desde há muito.

E se é verdade que Pingeot terá sofrido pelo silêncio que a rodeou e à sua filha, seguramente que a mulher oficial, Danielle, e os outros filhos não terão sofrido menos, já que chegaram a habitar em lados opostos no Eliseu.

O livro "Lettres à Anne", que saiu há cerca de quinze dias em França, deixou-me uma sensação estranha, que pouco tem que ver com conceitos morais – embora eles existam – mas que tem mais a ver com o homem e o conceito de família que estão por detrás daquelas cartas.

De facto, se esta mulher era assim tão importante, porque é que ele se não divorciou da primeira? Se esta filha foi o fruto desse imenso amor, porquê esconde-la tanto tempo dos olhares públicos? E porque é que todas estas personagens aceitaram desempenhar um papel que apenas Mitterrand impunha? Finalmente, o que leva Anne Pingeot a publicar agora estas missivas, quando o seu amor morreu há vinte anos e a sua rival há cinco?

Estas são para mim as perguntas mais inquietantes. Da resposta a qualquer delas depende, afinal, a ideia que façamos dos diversos intervenientes nesta história.

Que foi uma impressionante história de amor, parece evidente. Mas que tipo de poder tinha este homem para que ela se tenha desenrolado deste modo?!

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O André da Fernanda

por Francisca Prieto, em 06.09.16

Foi-se embora o André da Fernanda. E eu vou lendo mensagens e artigos intercontinentais, escritos por gente séria, impressos em publicações de prestígio a falarem do André da Fernanda. Da sua intransigência enquanto editor. Da sua espada alçada contra o moinho da literatura menor. Da forma como nunca colocou interesses comerciais à frente de boa poesia ou, ainda mais difícil, de grande dramaturgia.

Hoje, por exemplo, o Bernardo Carvalho escreveu um artigo na Folha de S. Paulo que gostaria de ter sido eu a escrever, não só porque acredito que se não existissem editoras como a Cotovia, a oferta de literatura em Portugal seria dolorosamente parca, mas sobretudo, porque gostaria de ter privado mais com ele.

Só o conheci como o André da Fernanda, com o respeito, a admiração e o amor que a Fernanda tinha por ele. Com as suas idiossincrasias e teimosias. Com o seu sentido de humor singular e a sua vontade de fazer o que lhe desse na real gana.

Uma vez resolvemos organizar um sarau de poesia. A Fernanda ofereceu a casa e nós, ingénuas, sugerimos que convidasse o André para participar. Horrorizada, respondeu-nos que era melhor deixá-lo ir jantar fora, que era homem para, ao primeiro verso que falasse de mirtilos, sair porta fora dizendo que era só o que lhe faltava aturar uma coisa daquelas.

Têm uma sintonia, aqueles dois. Mesmo agora. Vêem coisas que nós não vemos e guardam retalhos do quotidiano para trocar à desgarrada, com aquela souplesse que vive inerente à mais fina ironia.

Ficaram-lhes as saudades. Um do outro. E aposto que continuam a coleccionar frases deliciosas para se oferecerem um dia, quando se encontrarem na eternidade.

 

André Jorge.jpg

 

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Amor Vulcânico

por Francisca Prieto, em 04.09.16

Este ano calhou ir aos Açores e passar de esguelha pela ilha do Faial. Fiz questão de visitar o Vulcão dos Capelinhos. Não porque me interesse particularmente por catástrofes naturais, mas porque me lembro de sempre ter ouvido dizer que o meu pai tinha sido um dos operadores de câmara destacados para cobrir o acontecimento. Em 1958, com a RTP a dar os primeiros passos da televisão em Portugal, lá embarcou o pai Zé António nesta aventura, com os parcos recursos que na época existiam.

Consta que foi durante as filmagens que tomou a resolução de casar com a minha mãe, de maneira que a boda se celebrou um ano mais tarde. Depois nascemos nós em escadinha, e ainda hoje permanecem juntos com um companheirismo e sentido de humor invejáveis.

Ora eu sou uma sentimentalona incorrigível, de maneira que, estando nas redondezas, não podia perder a oportunidade de visitar o local onde uma decisão deste calibre tinha sido tomada. Lá fui, com marido e filhos e, apesar da paisagem crua, não consegui deixar de me comover quando vi a minha filha Rita saltitar por entre as pedras com uma fita cor de laranja no cabelo. De alguma maneira, passados quase sessenta anos, dei com uma neta a marcar o amor dos avós, levando um traço de cor a este local de cinzas.

Rita no Vulcão.JPEG

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Trocas na Maternidade

por Francisca Prieto, em 06.05.16

Acabo de desligar o botão do comando da televisão depois de uns lamechíssimos noventa minutos de cinema romântico hollywoodesco no seu melhor. Elas, tão giras que até apetecia pregar-lhes pares de estalos, eles, tão doces que só poderiam ser ficção. Pelo enredo fora, flores para cá e flores para lá, que era dia de São Valentim e a ocasião assim o exigia.

Lá pelo meio da fita, quando já me encontrava em ponto de rebuçado com as almas que se cruzam e se encontram e se beijam e se abraçam, dei comigo a pensar que não há miúda que não se derreta com um belo ramo de rosas a entrar-lhe pela porta.

Lembro-me como se fosse hoje do primeiro com que fui obsequiada. Precisamente a 14 de Fevereiro, de há muitos, muitos anos. Acabei por me casar com o remetente, pelo que não cheguei a ter nova oportunidade de ver uma colega de escritório, em pulgas, a empoleirar-se no meu ombro para conseguir ler o cartão.

É verdade que, quando nasceu o meu primeiro filho, assisti a um excesso floricultor a invadir o quarto da maternidade. Tive até de tomar algumas providências quando o cenário de câmara ardente começou a competir com a criança na demanda de oxigénio. Mas, embora me tenha sentido grata pela atenção, não se repetiu o êxtase de receber, num arrobo de romantismo, um ramo de rosas apaixonadas.

Até que, três anos mais tarde e por ocasião do nascimento do filho número três, naquela fase em que já tinha tido tantos filhos em tão pouco tempo que ninguém fazia ideia de que tinha ido parar à maternidade e muito menos se lembraria de ligar à florista para me mandar o que quer que fosse, me entra pelo quarto um rapaz com uma de jarra túlipas amarelas.

Começo a ver o meu marido muito agitado a chamar o rapaz, a sair do quarto muito apressado, eu agarrada à jarra como gato a bofe a pensar que queria lá saber se eram umas túlipas desmaiadas, que aquelas eram minhas e eram as únicas que me restavam.

Só depois fui esclarecida de que tinha ocorrido um lamentável equívoco. A rapaziada das entregas tinha-se enganado e tinha deixado um ramo de rosas vermelho-luxuriante no consultório da dedicada obstetra (com cartão a condizer) e tinha-me entregue a mim as túlipas amarelas que lhe estavam destinadas.

No dia seguinte, pediram muitas desculpas e entregaram novos ramos no locais correctos, o que quer dizer que lá tive direito às minhas rosas-paixão. Mas o cartão, meu Deus, ainda hoje era capaz de matar para saber o que dizia.

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Uma questão de amor

por Helena Sacadura Cabral, em 20.11.15
Não serei muito ortodoxa nas questões de natureza familiar. Chamo de família a uma multiplicidade de formas de vida que não assentam no tripé pai, mãe, filhos. Sempre assumi essa posição e ainda há bem poucos dias escrevi para a EGOISTA um artigo sobre o assunto. 

Hoje foi aprovada na Assembleia da Republica a adopção de crianças por parte de casais do mesmo sexo. Ela já era possível para apenas um dos membros do casal, o que constituia algo de manifestamente estranho.

Se vivemos num país em que o casamento de pessoas do mesmo sexo é permitido, julgo que será muito mais importante do ponto de vista afectivo que uma criança possa estar rodeada do amor de dois pais ou de duas mães, do que viver institucionalizada sem o amor de ninguém.

Sei que esta posição não é politicamente correcta. Sei, também, que essas crianças irão, eventualmente, afrontar a maldade e a discriminação de outras crianças e, até, dos seus pais. Mas prefiro tudo isso - que um dia elas irão compreender - a uma criança reduzida a um número da Segurança Social a viver num orfanato, ou o que lhe queiram chamar, sem um beijo, um abraço, um colo que a ajudem a sentir-se amada!

Por isto tudo, posso perceber que muita gente que eu conheço possa estar muito feliz, não ignorando que muitos outros se possam sentir indignados. É a vida!

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Incertezas

por Isabel Mouzinho, em 22.06.15

Nunca acreditara realmente que as coisas, todas as coisas, pudessem julgar-se garantidas, ou definitivas, nem na predestinação, ou naquela ideia um pouco pueril de que algures no mundo havia alguém que lhe estaria destinado, uma espécie de alma gémea, conceito que na verdade nunca tinha conseguido entender. O que seria uma "alma gémea"? Soava-lhe sempre à imagem de si ao espelho, algo parecido com "mais do mesmo" e, por isso, profundamente desinteressante.

Acreditava, sim, nos encontros fortuitos e nas almas e corpos que de repente  se aproximam e se fundem no inexplicável que é o amor, na repentina falta de domínio sobre a vontade e na explosão dos sentidos, em momentos perfeitos de desejos à solta e de entrega incondicional e inteira, rendição do corpo e da alma tornadas inevitáveis e urgentes, não deixando querer nem pensar mais nada, porque, em momentos assim, nada mais importa.

Sabia que havia certos olhares a que era impossível dizer não, como sabia que havia feridas que demoram a cicatrizar e recordações que doem para sempre. Conhecia a falta de olhos, de risos e de corpos, e os suores frios de certas febres que se devem a males da alma, mais do que do corpo. Conhecia a amargura e a solidão das noites em que tremia de frio por dentro e a saudade lhe doía demais, quando não sentia no ar o cheiro de um perfume que lhe era familiar, nem  as mãos que desatavam vontades, à deriva pelo seu corpo em sobressalto, descontrolado em arrepios estremecidos de prazer, e em gestos  e palavras transbordantes de ternura.

Mas  sabia, também, que o mundo continuava a girar, que os dias e as noites se sucediam inexoráveis, e às vezes voltava até a sentir o coração a acelerar em alvoroço, como numa paixão de vinte anos, na luz de outros olhares que despertavam vontades súbitas, inesperadas e incertas, fugazes ou duradouras, que  lhe pareciam muito e outras vezes coisa nenhuma, que lhe apetecia provar  em pequenos sorvos, como uma bebida que se vai saboreando devagar, ou beber de um trago, como quem é tomado de assalto pelo desejo de saciedade e de tudo a acontecer de novo como se fosse a primeira vez e a doce inquietação do desejo estivesse de volta, dissolvendo e mantendo incertezas.

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Amores da vida toda

por Isabel Mouzinho, em 16.06.15

Os dias sucediam-se desiguais, entre sossegos e inquietações, sobressaltos e rotinas, ora deixando o tempo fluir sem querer nada que não fosse a liberdade de poder ceder à vontade mais imediata, ora entregando-se ao prazer das horas em que lhe bastava tê-lo perto para lhe parecer que aquele amor haveria de poder resistir a tudo, nos dias em que o seu cheiro e a sua presença lhe faziam crer que tudo estava certo e lhe tomavam conta da vida e lhe voltavam a despertar desejos ocultos que julgava adormecidos no fundo de si, desgastados pelo quotidiano, mas que ainda se reacendiam às vezes, quando ele a olhava com os olhos meigos que só têm os amantes secretos, ou quando ria com o seu riso de menino, que sempre a desarmava e enternecia.

E então tudo lhe fazia sentido de novo; e parecia que as estações e os anos não haviam passado e que o mundo continuava a ser só eles os dois e aquele amor discreto, independente e desmesurado, que mais ninguém conhecia pelo lado de dentro, no arrepio da pele, na sensualidade do toque e no coração a bater descontrolado, nos gestos ardentes, nas horas tempestuosas e serenas de entrega total, paixões à solta e corpos confundidos, sem pudores nem moralismos, no desnorteamento de quem procura através de todos os sentidos conhecer o mapa que indica o caminho do paraíso.

E queria agarrá-lo e apertá-lo contra o peito, cedendo à saudade de só se deixar ir, rendida ao calor daqueles braços bons, dos beijos demorados e intensos, pensando que há amores que são da vida toda e que quando é a sério cabe tudo dentro deles: o amor e a dor, o medo e o prazer, a paz da intimidade e o silêncio de quem se entende só pelos olhos.

O que havia entre eles era uma vida inteira. Eram todos os beijos e todas as lágrimas, os sorrisos e os sonhos que tinham sonhado juntos, os projectos e as promessas, as incertezas e as ausências, os desejos e os desencontros. E os caprichos satisfeitos apenas porque sim. E as palavras, e a força, e o aconchego, e os mimos. E tudo o que só se consegue sentir e se toma nos braços, e se embala devagar, e se quer levar pela vida fora.

Depois passava um avião que a despertava do torpor ainda ensonado que a transportava para longe, virada para dentro do coração, enquanto olhava desatenta o azul do dia a clarear.

E sorria, a pensar que o que quer que fosse a sua vida daí em diante, sempre tão cheia de surpresa e novidade, a felicidade era também o muito e o pouco daquela história bonita, triste, enternecedora e verdadeira, que a marcaria para sempre, como um nó muito apertado, que nunca se desfaz.

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A questão do amor ou o amor em questão

por José Navarro de Andrade, em 15.02.15

Fica então resolvida de vez uma questão que tem afligido a humanidade, o sector euro-caucasiano dela e seus influenciados, pelo menos.

No dia 9 de Janeiro deste ano a escritora e investigadora Mandy Len Catron publicou no NY times o ensaio “To Fall in Love, With Anyone, Do This”, que num piscar de olhos disparou para os oito milhões de visitas, assim provando que correspondia a uma necessidade premente das populações leitoras daquele diário. Não se tratava de uma frivolidade, pois a peça estribava-se num estudo cientificamente académico (ou vice-versa) - cuja inapelável seriedade inscreve-se logo no título: “The Experimental Generation of Interpersonal Closeness: A Procedure and Some Preliminary Findings” - publicado pelo Professor Arthur Aron e sua equipa (de passagem demonstrando que hoje em dia só se pode alegar uma ideia com a caução de um estudo e que há estudos para caucionar tudo). De seguida, num gesto de generosidade e fidúcia, o jornal oferece à puridade uma app que permite a qualquer par de indivíduos apaixonar-se ao fim de 36 perguntas e quatro minutos de jogo do sisudo.

Embora o instinto de defesa nos leve a iludir o facto, todos sabemos que as noções de “amor” e “felicidade”, tal como apaixonadamente as diligenciamos e vivenciamos no nosso dia-a-dia, foram inventadas no séc. XVIII, por poetas que as implantaram na Idade Média (época que eles fantasiaram com inigualável arte), prosseguindo hoje o debate para determinar em que proporção as devemos a Rousseau, a Goethe ou a Byron. Há mais de 200 anos, portanto, ou só há 200 anos…, que andamos com os humores cerebrais atribulados por esta idealização romântica, a qual não deve ser confundida com o amor bíblico de Deus pel@s human@s, embora canonicamente um bocadinho mais por eles do que por elas, ou o amor instintivo e biológico de mãe pelas crias.

Uma das crises mais perturbantes da vida moderna é assistir ao espectáculo de pessoas apoquentadíssimas com os seus sentimentos, prolongando melancolicamente pela vida adulta os avatares da adolescência, fase em que as hormonas e as utopias desarranjam o entendimento. Esta situação é tão comum e preocupante que pelo menos três indústrias (a literária, a musical e a cinematográfica, em suma: toda a cultura) se têm dedicado com persistência e argúcia dissecá-la. Em Portugal apenas a Sra. D. Margarida Rebelo Pinto porfia nesta matéria, com tão pouco sucesso e muito menos resultados financeiros do que os seus congéneres mundiais.

Pois é tudo isto – quase 3 séculos de apaixonado labor, caramba! – que o NY Times e Mandy Len Carter desmobilizam numa penada.

Assim sendo, façamos todos o teste e arrumemos o assunto. Uma coisa é certa: sairá mais barato do que o bilhete para o filme “Anatomia de Grey” que já de si é mais económico que um conjunto de lingerie da Victoria’s Secret.

 

PS – Espero que no dia dos namorados o leitor tenha comprado no comércio local produtos vegetarianos e orgânicos – vê como é simples adquirir um estado de beatitude moral?

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Maria José Nogueira Pinto

por Pedro Correia, em 28.05.14

Uma bela, merecida e comovente homenagem a Maria José Nogueira Pinto, que nos deixou quase há três anos. Feita por quem a conheceu melhor que ninguém. Uma homenagem que é também uma tocante declaração de amor.

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Gosto muito de ti!

por Helena Sacadura Cabral, em 17.04.14

"Deseja-se muita vez a repetição das coisas; deseja-se reviver um momento fugaz, voltar a um gesto falhado ou a uma palavra não pronunciada; esforçamo-nos por recuperar os sons que ficaram na garganta, a carícia que não ousámos fazer, o aperto no peito para sempre desaparecido".

                                   (in umjeitomanso.blogspot.pt)
 
Há muito que defendo que não devemos, nunca, deixar uma palavra por dizer ou um gesto por fazer. Sobretudo, quando se chega ao fim da caminhada é indispensável fazer a chamada revisão geral, para que nada fique em suspenso. 
Mesmo quando fico mais zangada - e zango-me pouco, felizmente - lembro-me disto e a "coisa" torna-se mais suave.
Todavia, aquilo que considero ainda mais importante é dizer, muitas vezes, àqueles que amamos um simples "gosto muito de ti". 
Disse-o àqueles que amei. Continuo a dizê-lo, sempre que me lembro, àqueles que continuo a amar. Mesmo que eles já saibam disso.
E só me entristece não o ter feito muito mais vezes ao meu Pai, já que ao Miguel e à minha Mãe disse-o centenas de vezes.

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Leituras

por Pedro Correia, em 03.02.14

 

«O amor é uma coisa que morre. Uma vez morto, apodrece, mas pode servir de húmus a um novo amor. O amor defunto continua a viver secretamente no novo, de modo que na realidade o amor é imortal.»

Pär Lagerkvist, O Anão (1944), p. 18

Ed. Antígona, 2013. Tradução de João Pedro de Andrade

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Um texto que chega do Brasil

por Patrícia Reis, em 20.12.13

O amor acaba

 

Por Paulo Mendes Campos


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.

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E viva a monarquia!...

por Fernando Sousa, em 07.11.13

Bom dia, princesa, Mem-Martins

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"Se tudo passa..."

por Fernando Sousa, em 04.11.13

 

 

"Se tudo passa, talvez passes por aqui..." Rua do Cuco, Magoito. 

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Leituras

por Pedro Correia, em 29.06.13

 

«Uma pessoa é sempre inocente quando ama, porque regressa sempre à mesma idade emocional, à porta da eterna adolescência. Pura e formosa fui porque desejei e me desejaram. O amor é uma mentira, mas funciona

Rosa Montero, Amantes e Inimigos

Editorial Presença, Lisboa, 1999. Tradução: Maria Bragança

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Um dia de cada vez (1)

por Ana Vidal, em 16.03.13

É estranho como o amor e o ódio se equivalem. Ambos são poderosos filtros que definem as cores com que vemos o mundo. Ambos alimentam, ambos podem ser objectivos de vida ou puros instrumentos de sobrevivência. Igualmente demolidores, por ambos se mata, por ambos se morre.  Nem sempre a opção é simples, nem sempre é possível. Se nunca odiei verdadeiramente ninguém, o mérito não é meu: sempre tive a sorte de poder escolher.

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Por outras palavras

por Pedro Correia, em 08.03.13

 

«Where I'm going, you can't follow. What I've got to do,

you can't be any part of.» (Rick Blaine, Casablanca)

 

A História, a todos os níveis, não se escreve com ses. Mas é possível, com uma simples pergunta, fazermos uma análise contrafactual a uma história de amor para testar a sua solidez. Até que ponto os seus protagonistas sofreriam se perdessem quem amam? Por outras palavras: o amor não se alimenta apenas da felicidade que há, mas da infelicidade que se deseja desesperadamente que não exista.

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a melhor frase do ano

por Patrícia Reis, em 31.12.12

"Adorávamo-nos para além de todas as diferenças. Mais: adorávamo-nos também por causa das nossas diferenças. Cada um de nós procurava no outro a sua parte de maior verdade."

Paulo Portas sobre Miguel Portas (29.4.2012)

 

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Meu amor vou-te deixar

por Gui Abreu de Lima, em 22.11.12

Tão convincente és no abandono e nunca cumpres. Acabas sempre aqui. Sufocado de saudades, a roer queixumes, atraiçoado pela voz maldita que reivindica o que é teu. Só teu, dizes. A posse é a conquista deste vai e vem.

Tão convincente eu no teu abandono que me vence. Na aceitação com que remato o desespero, na persistência que imprimo à esperança, na culpa sacudida docemente dos teus ombros, dos meus. Voamos outra vez.

Tão convincentes somos neste embalo, que a nenhum ocorreu ainda – meu amor, para a alma, cada abandono é sem sentido e o nosso voo perde altura.

 

 

Já só o Amor nos salva.

Sereno ou esgroviado, insano ou bem aprumado, indo e vindo como os ventos, nunca lhe cortem as asas, nem lhe fujam aos tormentos.

Cumprindo a missiva do 'Cão', deixo o meu pedido de contribuição ao José Anjos e ao IzNotMeIzYou para tão bela iniciativa - cantar o Amor, como lhes aprouver, lá na casota do canito.

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Casou!

por Helena Sacadura Cabral, em 05.07.12

 

A televisiva Maria Elisa Domingues, de 62 anos, casou-se, numa cerimónia íntima num luxuoso hotel de Lisboa. A jornalista não estava à espera de voltar a apaixonar-se. Numa altura em que vivia dedicada e babada com a sua neta, foi surpreendida por este grande amor por um advogado americano de 59 anos. O casal conheceu-se há cerca de dois anos em Washington e desde então estão juntos.

Ora aqui está a prova, irrefutável, de que a paixão e o casamento não têm idade... pensará ela! 

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O amor não tem tempo

por Patrícia Reis, em 01.07.12

Com todos os cuidados morriam de amor as moças, muito translúcidas e veias de fora, algumas trigueiras, outras morenas, suspirando por amados com quem não chegavam a trocar uma caricia, às vezes apenas um bilhete escondido, um favor de uma alma portadora. O amor era, então, um jogo, uma sedução e tinha a dose de perigo suficiente para que nada mais tivesse qualquer importância.

Os cientistas dizem que o amor dura cinco anos, na verdade dois, os últimos são uma espécie de exercício de "aguentar" ou de "ser crescido". Posto isto, chegados aos seis anos de casamento e quase dez de relação, a pergunta que se podia fazer seria de índole indiscreta e, porventura, pouco simpática, temerosa, em sobressalto. É bom quando não se fazem perguntas, conclui há muito. Assim como conclui que quando duas pessoas falam muito sobre a relação que têm, a dita cuja já era. Pode ser uma ideia minha, é certo, e cada um vive com as suas ideias e anda para trás e para a frente, diz e contradiz num exercício de condição humana que garante que ser-se coerente uma vida inteira é um enorme acto de desinteligência.

Hoje um adolescente disse-me, com desdém, que não acredita no casamento. Ri-me e respondi:

 

Eu também não acreditava.

 

E o que é isso de acreditar num casamento nos dias que correm? É um risco e uma exigência, é como ter fé e assumir que se tem. Ser cristão é difícil, ser católico, com todas as dúvidas, é uma eterno compilar de questões. Mas ficamos tão sozinhos sem Deus e é tão exigente viver sem esse consolo.

Ficamos também sozinhos por não acreditarmos que o plural composto com outra pessoa possa ser um caminho que precisa de ser tratado com os mesmos preceitos do século XIX. Como sempre, o amor é um problema, uma questão, um mistério, passem os séculos que passarem, leia-se a literatura que se ler. Brindar está em desuso e, a esta hora, é impossível, não tenho como. Seis anos depois de tudo a casa está vazia e não faz mal. Daqui a pouco será distinto. Será, como na vida, uma possibilidade e um mistério.

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Leituras

por Pedro Correia, em 27.05.12

«Nada se sabe verdadeiramente antes de se ter amado.»

Julio Cortázar, Blow-Up e Outras Histórias

Edição Publicações Europa-América, colecção Livros de Bolso Europa-América, nº 394. Tradução: Maria Manuela Fernandes Ferreira.

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Para a Helena, querida Helena

por Patrícia Reis, em 24.04.12

i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
                                  i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)

 

e.e.cummings

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"Elis, amor da minha vida"

por Pedro Correia, em 15.04.12

 

«A partir do momento em que a conheci, todas as minhas músicas foram feitas para ela. Nunca foi diferente. Nossa relação é uma coisa que me arrebata até hoje.» Gilberto Gil

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Amores em balanço

por Ana Vidal, em 14.02.12

O meu contributo para a compreensão do dia que passou:

L'amour platonique est toujours plat... et jamais tonique.

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O estado da arte

por Ana Vidal, em 14.02.12

 

Não deixa de ser revelador do estado da Europa que o dia de hoje, por todo o lado consagrado ao amor com a benção de S. Valentim, seja também o Dia Europeu da Disfunção Eréctil. Só Portugal parece salvar do fiasco a honra do convento, como lembra aqui em baixo a nossa Helena. Por uma vez, pobrezinhos mas... artistas.

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Amor e sexo - surpresa e inveja dos deuses

por José António Abreu, em 18.09.11

Este amor, este amor mortal, foram eles que o criaram, algo que nós não planeámos, previmos ou sancionámos. Como é que não haveria de nos fascinar? Demos-lhes aquela irresistível compulsão no baixo-ventre – Eros e Ananké trabalhando de mãos dadas –, só para que eles superassem a sua repulsa pela carne do outro e se unissem de bom grado, mais do que de bom grado, no acto de procriação, já que, uma vez que os criámos, detestámos a ideia de os deixar perecer, sendo eles, no fim de contas, a nossa obra, para o bem e para o mal, ou, como é muitas vezes o caso, para o mal. Mas, olhem!, vejam o que eles fizeram desta trapalhada do esfreganço. É como se alguém tivesse dado a uma criança birrenta umas quantas aparas de madeira e um balde de lama para ela ficar sossegada e, de imediato, ela tivesse erguido uma catedral, com direito a baptistério, campanário, cata-vento e tudo. No recinto desta consagrada casa, oferecem-se uns aos outros refúgio, desculpam uns aos outros as suas falhas, suores e cheiros, as suas mentiras e subterfúgios e, acima de tudo, a sua inextirpável auto-obsessão. É isto que nos desconcerta, a maneira como fugiram ao nosso controlo e, de alguma maneira, se tornaram livres de se perdoar uns aos outros por tudo aquilo que não são.

 

E do princípio ao fim, a coisa não passa de uma fantasia auto-induzida. O que o meu pai, ansiando pela amor delas, não vê e não admite que lhe digam é que aquilo que o amor ama é precisamente a representação, pois a representação é a única coisa que o amor conhece. Ou nem sequer tanto. Mostrem-me um par em pleno acto e eu mostro-vos dois espelhos, rosados, lisonjeiramente distorcidos, presos num abraço de incompreensão mútua. Eles amam para poderem ver o seus eus em piruetas maravilhosamente reflectidos nos olhos do amado. É a imortalidade que buscam – sim, aquilo de que gostaríamos de nos livrar, eles almejam, ou pelo menos, desejam a ilusão de imortalidade, a sensação de viver para sempre num instante de paixão. Donde as suas cerimónias de entrega e voracidade. Ágape?... Sim, nesse festim eles comem-se uns aos outros, devorando-se mutuamente. E isso, isso é o que grande Zeus cobiça, os seus pequeninos arroubos manufacturados dos quais ele se vê excluído.

 

John Banville, Os Infinitos. Edição Asa, tradução de Tânia Ganho.

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Estatura

por Ana Vidal, em 28.05.11

O que é ser-se realmente GRANDE? É isto.

Bom fim-de-semana.

 

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O amor, por José Rodrigues dos Santos (II)

por António Manuel Venda, em 21.02.09

Desculpem a insistência depois do primeiro post sobre este assunto. Prometo que fico por aqui.

Esperou, por isso, mais uns dias para lhe fazer novas perguntas. Decidiu-se após uma noite em que tinha chovido muito. O dia acordara molhado, com o céu coberto por um manto de bronze gasoso; os telhados gotejavam ritmadamente para os passeios alagados, como se os pingos fossem notas de uma ária, uma suave melodia que fazia da conversa um dueto, ele o tenor e ela o soprano.
O chão estava ensopado, pelo que evitaram a lama acumulada na esquina onde habitualmente se encontravam e cruzaram a rua, contornando as poças de água barrentas e as bostas de bovino espalhadas pelo empedrado.
«Se o teu pai morreu quando eras miúda, vocês vivem de quê?», perguntou Luís quando pisaram terreno mais limpo do outro lado.  
(excerto do romance «A Vida num Sopro»)

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O amor, por José Rodrigues dos Santos

por António Manuel Venda, em 21.02.09

              O carro de bois avançava devagar pela rua, arrastando um carregamento de azeitonas negras, tão reluzentes que pareciam pérolas. O agricultor que conduzia o carro seguia à frente, enérgico e transpirando, as mãos a puxarem a correia que guiava a direcção do animal.

«Uga! Uga!», repetia o homem, incentivando o boi. «Para a frente, vamos! Arriba!»
Uma bosta tombou da traseira do bovino sobre o empedrado da rua com um ploc espalhafatoso. Logo que o carro de bois passou, Luís cruzou para o outro passeio em ziguezague, evitando os excrementos de animais que se acumulavam pela via.
Foi então que a viu.
(excerto do romance «A Vida num Sopro»)

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