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Neve no Algarve

por Rui Rocha, em 19.01.17

neve algarve.jpg 

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Postais de Portugal

por Pedro Correia, em 06.10.14

 

Santa Luzia, sotavento algarvio, 1 de Outubro

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Para encher a barriga

por Pedro Correia, em 29.06.14

 

Manhã muito cedo, já o pescador veio aviado. Traz um carregamento de peixe que vai amanhando e atirando para um grande balde. Com gestos mecânicos e expeditos, serve-se da faca para lhes retirar as vísceras, que deposita ali, nas águas plácidas da ria. As incisões são feitas a bom ritmo e com precisão cirúrgica: não tarda, o balde vai enchendo.

O homem prossegue a tarefa, imperturbável. Está descalço, de pés plantados na ria, calças de ganga arregaçadas. Esquarteja ferreiras e besugos que daqui a poucas horas estarão estendidos nas grelhas.

O sol já se ergueu acima da linha dos telhados, o calor aumenta, a faca prossegue o seu curso na mão direita do homem, seco e tisnado. Há um frenesim de gaivotas em seu redor: disputam as vísceras dos peixes numa atmosfera de solene algazarra. As mais possantes afastam a concorrência à força de bicadas, o alarido de umas depressa atrai as atenções de outras que logo se aproximam.

Mas não parece haver necessidade de lutas: o petisco chega para todas.

 

Da marginal de Cabanas, uma senhora pergunta ao pescador a como lhe vende o peixe. O homem informa-a sem sequer a olhar nem abrandar o ritmo: extrai as entranhas, lava o peixe e atira-o para o balde.

A senhora aproxima-se, interessada, já de nota na mão.

"Eu quero aquele maior para encher a barriga", diz-lhe, apontando com o dedo. O peixe recém-pescado salta do balde para um saco de plástico em poucos segundos. O homem prossegue o seu labor, imperturbável. As gaivotas navegam à sua volta, como se fossem patos num inquieto alvoroço. A senhora regressa à marginal em passo pausado por força conjugada da idade e do calor.

Espreita o saco: o peixe é grande. O almoço de hoje está garantido, amanhã logo se vê.

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 06.08.13

"Uma praga de melgas está a perturbar as férias dos turistas na zona de Armação de Pera, no Algarve. Os insectos surgem normalmente à noite e estão a suscitar queixas quer dos turistas quer dos próprios empresários e comerciantes. Queixas enviadas tanto para as autarquias como para as autoridades da saúde."

Lançamento de uma notícia que hoje preencheu sete minutos do Jornal da Tarde, da RTP

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Tavira, Verão de 2013

por Pedro Correia, em 07.07.13

 

Rolas, andorinhas e pardais, à vez, vêm beber à borda da piscina. O calor é tanto que, mesmo antes de a manhã chegar a meio, só conseguimos estar à sombra: à falta de guarda-sóis, servem as palmeiras, substituindo-as com vantagem. Miúdos de várias nacionalidades, esquecidos por momentos dos gadgets electrónicos, brincam como sempre as crianças brincaram: correm, saltam, riam, jogam à bola, ensaiam movimentos ritmados de natação. "Agarra-te aos pelos do peito do pai", diz alguém. E todos riem.

 

Duas senhoras exercitam a antiquíssima arte da conversa, ao recato da sombra: "Então a sua menina como está?"; "Muito bem, por enquanto muito bem." Tão português, tão cauto e previdente, este "por enquanto"...

Mais adiante, uma jovem abre-se em confidências a uma amiga em tom suficientemente elevado para ser escutada nas proximidades: "Ficou chateado por eu estar na boa com ele..."

Eles e elas aparecem cada vez mais tatuados. Não tatuagens discretas, mas tão espampanantes quanto possível, em tentativas de imitação do jogador Raul Meireles e da sua mulher Ivone, presenças constantes nas páginas da imprensa tablóide. Um dia, não muito distante, haveremos de lembrar esta absurda moda como hoje lembramos os longos cabelos frisados e os bigodes à Obélix dos anos 70, paradigmas da breguice tuga.

 

O calor tudo dissolve: obrigações inadiáveis, ponteiros do relógio, preocupações que sobraram dos meses precedentes. Aguardamos por ele todos os anos - mas desta vez já o ansiávamos com alguma impaciência após a maratona de um Inverno que parecia não ter fim.

Como os primeiros figos do ano - as saudades que eu já tinha deles. Logo à noite, na Noélia, virá para a mesa um arroz de limão com corvina e amêijoas: carne não entra nestes menus algarvios.

Muitos franceses, alguns ingleses e alemães, mas desta vez quase não vejo espanhóis: na vizinha Andaluzia o desemprego já se situa nos 37% e há dois terços de jovens sem trabalho.

Apesar da crise - ou por causa dela - a Olá lançou cinco novos sabores do seu Magnum para este Verão. Falta-me só experimentar um. Até ao momento, o meu favorito é o de merengue e frutos silvestres.

 

 

Basta dar uma olhada em redor para se perceber que o livro electrónico vai ganhando terreno acelerado ao formato tradicional - serve, desde logo, para ocupar menos lugar na mala. Conservador, prefiro a leitura em papel: acabo de ler Amantes e Inimigos, um delicioso volume de contos de Rosa Montero.

Quatro estrangeiros em redor de uma mesa no bar junto à piscina: todos em silêncio, cada qual mergulhado no seu iPad. Dizia o resmungão Nelson Rodrigues, numa das mais saborosas frases que conheço em língua portuguesa: "A televisão matou a janela." Parafraseando o mestre, concluo que a vida virtual vai matando a vida real.

Um brinde desta fresquíssima sangria branca às senhoras que vão praticando a arte da conversa. Elas não sabem, mas são já uma espécie em vias de extinção.

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Cabanas, 28 de Abril

por Pedro Correia, em 28.04.13

 

Pares de andorinhas varrem os ares, em voos vertiginosos, no incessante labor de alimentar as crias. Naturalistas garantem que 41% destas aves que nos são tão familiares extinguiram-se desde 1998, o que é uma excelente notícia para os insectos. Mas estas, na marginal junto à Ria Formosa, teimam em contrariar as estatísticas: regressam todas as Primaveras aos mesmos ninhos, nos mesmos beirais. Já lhes conheci pais e avós desde que frequento estas paragens.

Este é um pequeno paraíso para ornitólogos amadores: melros, poupas e pegas-rabudas esgravatam em liberdade nos jardins; gaivotas imitam patos flutuando nas águas plácidas da ria; garças aproveitam a maré baixa para petiscar em áreas lodosas; pombos arrulham cumprindo o destino que lhes está confiado até aos confins dos tempos, indiferentes ao incessante chilrear dos vizinhos pardais; uma cegonha de asas majestosas eleva-se no céu correspondendo ao suave embalo do vento e mira-nos lá de cima com olímpica indiferença.

À mesa da Noélia, ainda longe das enchentes de Verão, mato saudades das pataniscas de polvo com arroz de coentros. Na mesa ao lado, um jovem casal encomenda ao empregado "duas sopinhas" e uma dose de conquilhas para partilhar: a crise manifesta-se, um pouco por toda a parte, das formas mais imprevistas.

Saio a andar. Gosto de ler placas toponímicas. Passo pela Rua Dr. João Amaral, um deputado de quem fui amigo. Percebemos que estamos a envelhecer quando gente que conhecemos bem desaparece do nosso convívio e reaparece como nome de rua.

Outra placa anuncia a Rua José Luís do Carmo Pereira, um pescador nascido em 1951 e falecido (num naufrágio?) em 2003. Interrogo-me, a propósito: quantas ruas portuguesas terão sido baptizadas com nomes de pescadores?

Mais adiante, junto à sonolenta sede do clube columbófilo, dois velhotes de boné na cabeça discutem futebol com típico sotaque do sotavento algarvio. "O Arbeloa está lesionado mas o Messi não", argumenta um deles. Sinal inequívoco de que o último reduto do patriotismo português - o futebolístico - já foi abalado até aos alicerces nesta era de globalização da bola.

Vejo árvores familiares que catalogo mentalmente: amoreiras, casuarinas, magnólias, araucárias, choupos brancos ainda sem folhas. E vou escutando múltiplos sons de bichos que me devolvem às intermináveis tardes de infância na província: cigarras, grilos, osgas, rãs...

Cabanas, 28 de Abril de 2013: ao contrário do que dizia o outro, devemos regressar sempre aos lugares onde já fomos felizes. Há 16 anos que te conheço, há 16 anos que não resisto a este impulso cíclico de voltar para ti. Amor à primeira vista, amor para sempre.

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De regresso a Tavira

por Pedro Correia, em 06.06.12

 

O Vela 2 - um dos raros restaurantes realmente capazes de transformar o peixe grelhado em genuína arte culinária - transferiu-se para uma aldeia das redondezas. A livraria Quinito - onde comprei tantas obras que me proporcionaram excelentes leituras de Verão - fechou as portas e é hoje um espaço dolorosamente vazio, com placas assinalando que está para arrendar. Há mais de 20 igrejas mas continuam misteriosamente fechadas quase todo o tempo, ao que me dizem não só por falta de fiéis mas também por falta de padres: só uma vez consegui entrar na de São Paulo, na praça Dr. António Padinha, e gostei muito da visita.

Além disso o tempo tem estado nublado. Mas mesmo assim Tavira continua a ser um dos meus destinos de eleição. E nesta época mais ainda, longe das aglomerações turísticas. Há espaço para todos, há tempo para tudo. Para subir ao castelo e de lá desfrutar um panorama incomparável. Para apreciar o restauro do antigo convento das Bernardas. Para comer uma excelente corvina de cebolada no mesmo restaurante de bairro onde faço sempre questão de regressar. Para saborear os melhores sorvetes que conheço, na geladaria do jardim. Para beber um sumo de laranja no Mercado da Ribeira. Para dar um pulo a Cabanas (na foto) e regressar a bordo de um barco-táxi, sulcando a deslumbrante Ria Formosa até às Quatro Águas num velho barco de pesca reconfigurado nestas novas funções.

Há muito cessaram as campanhas do atum - das quais é hoje testemunha viva o arraial Ferreira Neto, agora reconvertido num excelente hotel. Impressiona ver os esqueletos ainda dignos das antigas fábricas conserveiras irremediavelmente encerradas. Restam as salinas. E vai-se fazendo alguma extracção de areia para a construção civil, que neste momento se limita a cumprir serviços mínimos. Cruzamo-nos com uma embarcação que transporta pequenos contentores. "Está ao serviço da câmara, que não deixou abater todos os barcos de pesca", informa o mestre, antigo pescador que também largou a faina.

À nossa esquerda estende-se a ilha de Tavira, onde se situam as mais deslumbrantes praias de areia da Europa - tesouro bem preservado, ao menos este.

Gosto deste refúgio. Necessito dele. Todos temos os nossos portos de abrigo. Eu, afortunado, tenho vários. Este é um dos melhores. Será meu para sempre.

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Contra os estereótipos

por Pedro Correia, em 10.08.11

 

Os jornalistas devem combater os estereótipos sempre que puderem, como dever profissional. Isto não é um princípio expresso no código deontológico dos jornalistas portugueses, que peca por inúmeras omissões, mas devia constar dele sem demora. Julgo, aliás, que os jornalistas já há muito deviam ter adoptado um código deontológico mais vasto e detalhado, que actualize o documento em vigor, aprovado há cerca de 20 anos.

Lembrei-me disto, vejam lá, a propósito do Algarve. Reparem como o Algarve é tratado nos principais órgãos de informação portugueses, incluindo os de serviço público: como um destino de praia para os outros habitantes do País. Não há um Algarve agrícola, não há um Algarve serrano, não há um Algarve fora dos postais ilustrados de sol & mar. Não há um Algarve com os problemas específicos da população que lá vive e lá trabalha, fora do sector turístico na época de Verão. Há quase só um Algarve dos forasteiros que lá vão estender a toalha nuns centímetros de areia.

Ainda neste fim de semana reparei nisto. Lá vimos a enésima reportagem televisiva a caminho de uma praia - que são quase sempre as mesmas, em Vilamoura ou Albufeira - a perguntar aos "banhistas" o que tencionam fazer se o tempo piorar. Ouviram-se, naturalmente, as mais diversas e disparatadas respostas - desde o sujeito que prefere tomar banho de mar à chuva até aos que anseiam pelo céu toldado para poderem arrastar a chinela em centros comerciais.

Há quem chame a isto "informação". Não é o meu caso. Gostava que os jornalistas debatessem esta e outras questões. Infelizmente isso não acontece - por vários motivos, desde logo devido à crescente "proletarização" desta classe profissional. Com jornalistas a trabalhar 12 horas por dia e a ganhar cerca de 700 euros líquidos ao fim de vários anos, sem a mínima perspectiva de progressão na carreira e sob a iminência de um despedimento colectivo ao menor pretexto ou de uma redução unilateral de ordenado, como agora começa a ser moda, que nível de debate e de espírito crítico pode existir numa redacção?

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Assim vai o PSD no Algarve

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.12.10

O sinal já tinha sido dado com a aprovação do orçamento e a posição tomada pelos acólitos de Alberto João Jardim na Assembleia da República.

Passos Coelho quer uma maioria absoluta. As sondagens dizem que ele caminha para lá. O PSD de Cavaco teve a sua dose. O PS de Sócrates também com resultados que me escuso de comentar.

O Presidente da República e actual candidato presidencial tem defendido a existência de maiorias absolutas como garantia de estabilidade e de governabilidade.

Estabilidade e governabilidade são duas coisas que não têm faltado ao PSD/Algarve. E, de facto, os resultados são tudo menos brilhantes, não obstante a forma mandarinal como durante décadas o Dr. Mendes Bota instruiu a sua tropa. Enquanto em Loulé se assinam protocolos de forma "totalmente transparente" com a IKEA, em Faro um ex-presidente de câmara que lá foi posto com o apoio do PSD e deixou a autarquia muito próximo do estado em que hoje se encontra, acusa Macário Correia de ser um "vendedor de ilusões". Ao mesmo tempo, em Albufeira, um presidente do PSD com maioria absoluta vê chumbadas pelo seu próprio partido as propostas que apresenta.

Não sei se teremos em Albufeira mais um caso que acabará como os de Gondomar ou Oeiras, mas se um primeiro-ministro promovesse a aprovação de um diploma pela Assembleia da República, numa situação de maioria absoluta, diploma que fosse depois rejeitado pelo seu próprio partido, que diriam Passos Coelho e Cavaco Silva?

Se são estes os exemplos que o PSD de Passos Coelho consegue dar ao País nesta fase em que ainda tenta chegar ao poder, imaginem o que será quando o Dr. Miguel Relvas começar a negociar o orçamento com o Dr. Alberto João Jardim e a distribuir os tachos que os "jotinhas" aguardam. Maioria absoluta, pois claro. 

  

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3 vezes A

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.11.10

A de Angola - Hoje é dia 11 de Novembro. Passa mais um aniversário da independência de Angola. A data não podia passar despercebida, em especial entre nós, depois da magnífica entrevista dada à TSF por Rafael Marques, um homem livre e corajoso que não hesita em dar a cara e o nome em defesa de uma cidadania justa e livre no seu país. Passado o tempo da guerra civil, iniciada a recuperação dos estropiados, e aberta uma nova página na sua história, é tempo de Angola se reabilitar. Em democracia. Não apenas na vertente externa, seja no âmbito da CPLP, das Nações Unidas ou no seio das demais nações africanas. Angola necessita urgentemente de se reabilitar internamente, muito em particular precisa de reabilitar as suas elites dirigentes. Para que o combate à fome e a erradicação da probreza, das doenças e do analfabetismo possa ter um sentido útil e não seja apenas mais uma fachada polida de um regime avesso à crítica e mais dado aos jogos de bastidores da sua diplomacia. Jamais se construirá um Estado justo e equilibrado enquanto a corrupção e o nepotismo continuarem a medrar em cada esquina, no bolso dos generais ou dos antigos combatentes que se aburguesaram protegidos pelas luzes do Futungo de Belas. Angola tem tudo para ser feliz: imenso capital humano, riquezas naturais e alegria. E se assim é, então seria bom que as suas elites dirigentes, a começar pelo seu Presidente, mostrassem que mais importantes do que as palavras são os actos genuínos e sinceros. Talvez que um bom sinal fosse começar por dar uma resposta franca e de rosto humano à carta que a Associação 27 de Maio lhe escreveu. Há gente que continua a sofrer e se o povo de Angola não é insensível a isso, então que os seus dirigentes dêem o sinal. Pode ser já hoje.

 

A de Algarve - Os noticiários e os jornais de hoje sublinham o despedimento colectivo de 336 pessoas na empresa Groundforce. Todas essas pessoas estavam ao serviço no Aeroporto de Faro. Algumas há mais de duas décadas. E sendo compreensíveis as razões avançadas pela administração da empresa, não deixa de ser estranho que só agora se tenha dado pelo colapso iminente e não se tenha anteriormente tomado as medidas que podiam ter evitado este fim. Não conheço o problema da Groundforce em particular. Sei o que todos lêem e ouvem. Mas conheço e tenho a noção da situação extremamente difícil que o Algarve atravessa. Não é só um problema de má gestão crónica de alguns dos seus empresários ou de dificuldades económicas e financeiras de conjuntura. O tecido social da região entrou, há mais de cinco anos, em desagregação, sem que ninguém em Lisboa se tenha dado conta do que se estava a passar. Foi logo a seguir ao Euro. Mesmo aqueles que se arrogam porta-vozes da região e que mais não têm feito do que se promoverem à custa desta, foram incapazes de perceber o que qualquer pessoa que andasse na rua sabia que iria acontecer. O agravamento das condições de segurança foi apenas um primeiro aviso. De nada serviu. Agora que a ministra do Trabalho, confrontada com a verdadeira dimensão da crise laboral e social que o Algarve atravessa, veio dizer que a situação ocorrida na Groundforce vai ser devidamente investigada, seria bom que também se investigassem todas aquelas situações em que as empresas recorreram a outros métodos, mais discretos, para se irem livrando do pessoal efectivo ao seu serviço. Refiro-me a extinções encapotadas de postos de trabalho e a acordos negociados individualmente com os trabalhadores, que os empurraram para o subsídio de desemprego, sendo que em muitos casos esses foram substituídos por outros, contratados a prazo ou a recibos verdes, menos qualificados para as mesmas funções. E, senhora Ministra, se ler estas linhas, há uma coisa que lhe digo: não é aceitável que uma empresa faça um acordo de rescisão amigável com um trabalhador, lhe passe os documentos para que ele se candidate ao subsídio de desemprego, com fundamento na extinção do posto de trabalho, e depois contrate um substituto. E se a ACT sabe que esse foi um expediente usado pelo patrão, não é aceitável que o Estado feche os olhos e faça de conta que a fraude a lei é um expediente legal para alguns continuarem a andar de Porsche enquanto outros não têm dinheiro para pagar a escola dos filhos. Se for necessário mexer na lei, então que se mexa de uma vez por todas e de forma clara, de maneira a que não seja depois necessário fazer um resumo em "português claro" no Diário da República. O português é por natureza claro. As sumidades é que o escurecem. 

 

A de Advogado - O debate que teve lugar no Casino da Figueira da Foz mostrou claramente as clivagens hoje existentes na advocacia portuguesa. O limbo em que a profissão se encontra, algures entre o cobrador de fraque e o paquete para todo o serviço, limbo na qual se tem desprestigiado, desvalorizado e desestruturado, muito por força dos lobbies que coexistem no seu seio e da actuação de um Estado irresponsável, aconselha uma mudança. Faço, pois, aqui e desde já, a minha declaração de interesses. Vou apoiar Fernando Fragoso Marques porque acredito que uma advocacia serena, firme, empenhada, séria e esclarecida vale mais do que mil discursos. Porque continuo a pensar que a advocacia é uma profissão de homens livres e não de assalariados de empresas ou de colegas, actuem eles a título individual ou protegidos por esses empórios especializados na publicação de brochuras coloridas e que de autarquia em autarquia vão angariando clientela, tecendo verdadeiras redes e cimentando o seu poder. Os portugueses merecem uma advocacia à altura das suas tradições de luta e intervenção cívica. E é nos momentos difíceis, nas alturas de maior crise ética e moral, nos momentos em que são desferidos os ataques mais cegos de que há memória à cidadania, ao papel do advogado numa sociedade moderna, à justiça e às magistraturas, ataques que só servem para corroer ainda mais o sistema de justiça, que se vê a fibra de um advogado. É fundamental que haja alguém que seja capaz de olhar na distância, de projectar o futuro. Depois do encontro de ontem na Figueira da Foz dissiparam-se todas as dúvidas. Fragoso Marques chegou-se à frente. É o homem com quem os advogados contam para os liderar num combate que não é apenas pela advocacia e que é cada vez mais um combate pela decência. Porque, como ele diz, a Ordem não pode continuar a perder.      

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Com o mar em fundo

por Pedro Correia, em 25.07.10

 

- A tia de Cascais, de telemóvel em riste, fala de maneira a que todos a ouçam em redor da piscina: "Já estamos no Algarve... Sim, já estamos no Algarve... no Algarve." À medida que repete a frase, soa cada vez mais a tia.

 

- A morena triste mira-se furtivamente ao espelho e arranca um pêlo das sobrancelhas com uma pinça antes de voltar a mergulhar na leitura do romance de Margarida Rebelo Pinto.

 

- O futebolista angolano tenta impressionar a namorada, uma bonita mestiça, encomendando a bebida mais cara do cardápio: sangria de champanhe. Azar: ela declara não gostar de sangria, nem sequer de champanhe. Mas o que conta é a intenção: a bebida mantém-se quase intacta no jarro enquanto a conversa entre os dois vai aquecendo.

 

- O viciado em fórmula um vira costas à piscina, fixando os olhos no grande ecrã televisivo. Ninguém mais o imita neste gesto: as corridas de bólides deixam o resto da tribo indiferente. A começar pela mulher dele, solitária na esplanada, sem vontade sequer de folhear a Lux.

 

- A loirinha com adesivos na cara explica a alguém, com quem fala ao telemóvel, que a operação plástica "não correu muito bem" e terá de ser repetida. A mãe, que não a larga, olha para ela com ar magoado e enternecido.

 

- Os miúdos alemães jogam com uma bola que por vezes cai à piscina, salpicando a tia com pingos de água. "Don't do that", ralha a melindrosa senhora. Eles não a entendem. E voltam teimosamente ao mesmo. Tem lógica: na Europa, são os alemães a ditar as regras.

 

- O director de jornal chega tarde à piscina, de telemóvel numa mão e um saco do Expresso na outra. Tem um ar preocupado. Parece hesitar se ficará ou não ali instalado debaixo de um guarda-sol. Opta enfim por retirar-se. Lá vai ele, com o saco do Expresso e o ar preocupado.

 

- Um jovem casal-que-não-se-fala: ele senta-se na espreguiçadeira no momento em que ela se levanta, depois levanta-se mal ela regressa. Vão à piscina em momentos alternados como se obedecessem a uma espécie de coreografia muito particular. Estão juntos mas parecem ignorar-se: silenciosamente desencontrados.

 

- No parque infantil, miúdos preparam-se para uma partidinha de futebol. "Eu sou o David Villa", diz um. "Não, eu é que sou o Villa", contesta outro. São portugueses, mas não mencionam Cristiano Ronaldo. Para azar de José Sócrates, não houve golden share no Mundial de futebol.

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Noite de São João

por Pedro Correia, em 23.06.10

 

Fabulosa noite de São João. Tavira inteira parece estar na rua: largas centenas de pessoas concentram-se na Praça da República vendo desfilar as marchas. Habitantes locais, algarvios de outras paragens e turistas das mais diversas proveniências cruzam-se nas rotas amenas destas ruas. Há arraiais, uns mais organizados outros mais espontâneos. Assam-se sardinhas. As esplanadas abarrotam de gente que há meses ansiava por jantar ao ar livre.

Como uns saborosos camarões grelhados num restaurante junto ao rio. Do som da televisão chega-me a voz do primeiro-ministro, que vem agora defender a instalação de portagens nas sete auto-estradas "sem custo para o utilizador" (SCUT). Mas ressalvando que os "residentes" (residentes onde?) e os "utilizadores regulares" (com que regularidade?) ficarão isentos do pagamento, o que tresanda a monumental trapalhada. Trocando por miúdos: mais uma bandeira eleitoral que deu maioria absoluta ao Partido Socialista em 2005 acaba de ser rasgada com a mesma ligeireza e a mesma irresponsabilidade com que foi lançada. A sigla terá forçosamente de mudar: passará a ser CCUT (com custos para o utilizador).

Desinteresso-me rapidamente do telediário, concentrando-me na paisagem que tenho à minha frente. Por mais vezes que aqui venha, não me canso de contemplar este rio, hoje iluminado por uma lua quase cheia. Chega-me ao longe o som dos arraiais que não tarda a sobrepor-se ao da televisão. Os camarões estão óptimos. O Governo é péssimo, mas isso agora não me interessa nada.

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Um jantar em Tavira

por Pedro Correia, em 22.06.10

 

No ponto mais alto de Tavira, junto ao castelo, com uma vista deslumbrante. A tarde vai-se escoando lentamente, ao ritmo deste Verão que tanto tardou a chegar. Gosto de rever as olaias e as oliveiras no largo fronteiro, de ouvir o som dos sinos a assinalar a passagem das horas, de ver o céu riscado pelo labor incessante das andorinhas. Janto na larga varanda debruçada sobre a cidade num dos meus restaurantes de eleição. A Ver Tavira. Entrada: pétalas de tomate confitado com lascas de bacalhau e tapete de massa brick regado com azeite de tomilho. Leio num jornal que a frota automóvel do Estado português aumentou em 1200 veículos entre 2008 e 2009 - excelente exemplo num país em crise. Perante casos como este, como é que o Governo socialista tem autoridade moral para pedir cada vez mais sacrifícios aos portugueses, nomeadamente no plano fiscal?

A noite vai caindo. Chega-me agora à mesa o prato principal: lombinho de tamboril enrolado em bacon confitado servido com camarão e risotto de coentros com molho de caril. Outro jornal informa-me que há já quem, a pretexto da crise, queira reduzir os feriados para o número mínimo (Natal e pouco mais) e questione até as "férias pagas" dos trabalhadores portugueses. Para esta gente, que se proclama de direita, o cenário ideal é o da China, onde o Partido Comunista funciona simultaneamente como entidade patronal e comissão liquidatária de todos os direitos laborais - incluindo o direito à greve e o direito ao sindicalismo independente do poder político. Uma vez mais, os extremos tocam-se.

Mas não há só más notícias nas páginas dos diários portugueses e espanhóis que folheio em férias. Um taxista britânico acaba de receber em herança 300 mil euros de uma velhota sem família recém-falecida num lar. O homem conduziu a senhora diariamente, durante duas décadas - e ela mostrou não ser ingrata, o que nos leva não perder por completo a fé na natureza humana. Parece aquele filme, Driving Miss Daisy. Mas os enredos da vida real ultrapassam tantas vezes os da ficção. Em quantidade e qualidade.

É hora da sobremesa. Bolo de mousse de chocolate com gelado de manga e framboesa. Todas as luzes de Tavira já se acenderam. Confirmo: é uma cidade de um encanto sem par.

 

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Tavira, a minha terra

por Pedro Correia, em 06.03.09

 

Há cidades e vilas portuguesas onde me sinto sempre bem. Viana do Castelo, por exemplo, que há muito pertence ao meu roteiro afectivo. O Fundão, Castelo Branco e Coimbra, onde tenho as minhas raízes mais fundas. Mas também Chaves, Torre de Moncorvo, Amarante, Vila do Conde, Guimarães, Figueira da Foz, Tomar, Óbidos, Sintra, Castelo de Vide, Marvão, Évora, Alcácer do Sal, Mértola, Funchal, Horta.

E ainda Tavira, aonde regresso agora. Quase não se vê um turista: estamos ainda na 'época baixa'. Mas esta cidadezinha é sempre acolhedora. Com os seus largos, os seus jardins, as suas encostas, as suas igrejas, o seu castelo. A "casa de pasto" que anuncia meias doses a 3,5 euros. A Vela 2, onde já comi algum do melhor peixe grelhado que guardo na memória. A livraria Quinito, onde passo sempre para me abastecer de livros - acabo de trazer de lá um de Juan José Millás (O Mundo), outro de Rosa Montero (Instruções para Salvar o Mundo). O cineteatro, onde ontem à noite vi um filme interessantíssimo: A Onda (Die Welle), do alemão Dennis Gansel. O mercado, o rio, a ponte, a magnífica pousada, a geladaria de sempre, os ninhos das andorinhas no edifício do tribunal, os rostos que já me parecem familiares.

Há aqui uma certa doçura de viver que cada vez encontro menos em qualquer outro lugar. É também por isso que venho a Tavira com tanta frequência: apetece-me chamar minha a uma terra como esta.

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Paraíso de golfe

por Jorge Assunção, em 25.02.09

 (por: scotxx)

 

This is not going to be easy -- it's something like the father with 4 beautiful daughters, who is asked, which is his favorite? It's an impossible question to answer. The problem is quite the same on The Algarve -- you have over 30 courses to choose from and there isn't a mediocre one among them. In fact they are all very good and those that aren't, are either excellent or simply, out of this world.

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