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Helmut Kohl (1930-2017)

por Luís Menezes Leitão, em 16.06.17

Depois de Bismarck, Helmut Kohl é seguramente o maior estadista da história alemã. Recebeu um país dividido em dois pela cortina de ferro, com a metade ocidental ainda a expiar a culpa do nazismo, e começou pacientemente a reerguer a Alemanha. Primeiro declarou que a Alemanha ia abandonar a tradicional expiação colectiva, indicando o seu próprio caso pessoal: "Eu tinha 15 anos quando a guerra acabou. Não tenho culpa nenhuma do que se passou lá". Depois foi o primeiro a exigir, após a queda do Muro de Berlim, a imediata reunificação da Alemanha. Enquanto os outros políticos alemães falavam nessa possibilidade como um cenário a longo prazo, e os restantes países europeus o viam como um simples cenário de pesadelo, Kohl exigia uma reunificação imediata. Para a obter, pagou tudo o que lhe pediram por ela. Primeiro, aceitou converter o marco DDR numa paridade 1:1 com o Deutsche Mark, o que fez aumentar enormemente o custo da reunificação. Depois aceitou abandonar o próprio marco a troco do euro, o preço que os parceiros europeus lhe pediram para não se oporem à reunificação, julgando que assim controlavam a Alemanha. Mas o homem que quando atravessou pela primeira vez o muro, proclamou perante a porta de Brandenburgo: "Este é o dia mais feliz da minha vida!", tudo aceitou para devolver à Alemanha o lugar que entendia lhe ser devido na Europa. O estado actual do seu país demonstra bem como ganhou a aposta.

 

Mas Helmut Kohl não era apenas grande em dimensão política, era-o também no excesso de peso que o atormentava, o que encarava com bonomia. Era obrigado a passar as férias de Verão numa clínica de emagrecimento e ao longo do ano ia vestindo fatos de dois tamanhos, um para a altura em que tinha saído da clínica, e outro para quando se aproximava a altura de lá regressar. O seu apetite incontrolável levou a uma história curiosa: Uma vez o seu adversário político Oskar Lafontaine foi atacado por uma louca que o tentou degolar, só por milímetros não lhe atingindo a carótida. Kohl foi informado dessa notícia quando acabava de sair do restaurante onde jantara. A perturbação foi tanta que teve uma quebra de tensão. Como resolveu o problema? Voltou para o restaurante e jantou outra vez.

 

Ironicamente, comentava-se sobre ele que era preferível ter um chanceler alemão que acordava de noite com vontade de assaltar o frigorífico do que de invadir os países vizinhos. Mas essa petite histoire não ficará para a História. Essa só recordará o homem que, através da reunificação alemã, inscreveu o seu nome em letras de ouro na História da Alemanha.

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Uma estadista

por Pedro Correia, em 17.11.16

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O ser humano é determinado pelas circunstâncias, como nos ensinou Ortega y Gasset. Penso nisto muitas vezes a propósito da política. Repare-se em Angela Merkel: há menos de dois anos era ridicularizada pelas bempensâncias de turno, que a caricaturavam como uma gauleiter cúpida e bronca. A esquerda radical chic pintava-a com bigodinho hitleriano e umas tantas sumidades chamavam-lhe “senhora Merkel”, com indisfarçável desdém misógino. "Seja mal-vinda a Portugal", proclamaram em uníssono mais de cem figuras cá do burgo quando visitou Lisboa, em Outubro de 2012.

As circunstâncias operaram uma reviravolta nessa cascata de argumentos primários contra a chanceler alemã. Angela Merkel, que agora recebe Barack Obama em Berlim, emerge da endémica crise de identidade europeia como a única interlocutora válida do continente perante os restantes protagonistas da cena política mundial. Henry Kissinger – pioneiro na abertura da diplomacia norte-americana a outras latitudes – declarou em tempos que desconhecia “o número de telefone da Europa”, aludindo à falta de liderança no Velho Continente. Hoje não voltaria a repetir a frase.

 

Diziam com desprezo que ela só pensava em finanças públicas. Mas não vejo ninguém a conduzir a política com tanto acerto no espaço geográfico em que Portugal se insere.

A chanceler germânica deu uma exemplar lição de dignidade aos seus pares ao acolher generosamente em 2015 mais de um milhão de refugiados – grande parte dos quais fugidos das intermináveis guerra civis no Médio Oriente e no Norte de África – enquanto outros responsáveis políticos europeus, de Mariano Rajoy a Vladimir Putin, lhes fechavam as portas. Pôs a sua popularidade interna em risco, sujeitou-se às críticas da direita mais extremista, viu uma força xenófoba ganhar terreno eleitoral, mas não abdicou dos princípios humanitários em que acredita – moldados na genuína democracia-cristã que funcionou durante três décadas como um dos pilares doutrinários da construção europeia.

Já este ano, revelou idêntica dignidade ao enfrentar a gravíssima crise institucional provocada pelo referendo britânico, reafirmando a sua crença no projecto europeu e reforçando os elos de solidariedade com as economias periféricas da UE. E há dias, na mensagem de felicitações que dirigiu ao recém-eleito Presidente norte-americano, prometeu cooperação institucional a Donald Trump sem abdicar dos “valores da democracia, da liberdade, do respeito pela lei e pela dignidade das pessoas” que constituem conquistas civilizacionais sem recuo, como fez questão de sublinhar.

 

Quem lhe lançava farpas e a transformava em objecto de sarcasmo teve de procurar outros alvos.

Admirada por quem já a contestou, criticada por quem já a enalteceu, respeitada por quase todos. Poucos duvidam de que é uma das raras dirigentes contemporâneas com lugar garantido nos livros de História.

Uma estadista.

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O incendiário.

por Luís Menezes Leitão, em 30.06.16

Na resolução do BES o Estado meteu 3,5 mil milhões de euros, que "emprestou" ao Fundo de Resolução, confiando em que o nosso pujante sistema bancário devolveria o dinheiro. Não só não devolveu nada, como agora o Novo Banco precisa de reforçar o capital em mais 1,4 mil milhões de euros. Como se isto não bastasse, surgiu entretanto a necessidade de resolução do BANIF que custou 3 mil milhões de euros. A isto há que acrescentar as necessidades de recapitalização da CGD que serão no mínimo de 5 mil milhões de euros. 

 

Perante este cenário claro, Schäuble fez uma declaração, que eu até acho simpática, a dizer que Portugal precisa de um novo resgate e que estaria em condições de o ter. A seguir lá lhe puxaram as orelhas, e voltou atrás dizendo que Portugal não vai precisar de qualquer resgate se cumprir as regras europeias que obrigam à consolidação orçamental e à redução do défice. Eu traduzo: Portugal não precisará de resgate se tiver condições para ter um orçamento equilibrado, o que manifestamente não vai ter.

 

Mas entretanto lá surgiu o inevitável João Galamba, a acusar Schäuble de ser incendiário, já que Portugal não precisaria de resgate algum. Só falta agora explicar onde é que vai o país buscar o dinheiro para recapitalizar os bancos. Vai continuar a endividar-se no mercado? Com a dívida que já temos, é a garantia que a breve trecho os mercados se fecham. Vai ligar as rotativas? Enquanto estiver no euro, isso não é possível. É por isso manifesto que o segundo resgate é a única solução. Por isso fariam melhor em ouvir Schäuble, em vez de continuar a viver num mundo de ilusão. Schäuble não pega fogo às finanças da Alemanha, que estão fortes e pujantes. O mesmo já não posso dizer do actual governo português.

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Alemães tipo Schäuble

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.06.16

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"PUMA’s national team jerseys for the EURO 2016 are manufactured in Turkey."

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Ironias da História

por Pedro Correia, em 18.09.15

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Schengen entra em colapso devido à pressão sobre as suas fronteiras externas. Depois da Hungria, da Alemanha e da Áustria, também a Eslovénia e a Croácia suspenderam as regras sobre livre circulação, reforçando o controlo policial das fronteiras.

"A Eslovénia tem a obrigação de proteger a fronteira externa de Schengen", sublinhou o primeiro-ministro esloveno, Miro Cerar, anunciando drásticas restrições à entrada de pessoas oriundas de países não pertencentes à UE.

A Croácia, por sua vez, encerrou ontem sete dos oito postos fronteiriços com a Sérvia após a entrada em território croata de mais de 13 mil cidadãos extra-comunitários em apenas 48 horas. "Não temos condições para receber mais ninguém", advertiu o ministro do Interior, Ranko Ostojic. O chefe do Governo croata, Zoran Milanovic, fala mesmo em "despachá-los".

Eslovenos e croatas - que já suspenderam as ligações ferroviárias - mantêm as forças militares e policiais em estado de alerta. Enquanto dirigentes europeus trocam acusações, nenhuma solução se divisa no horizonte.

A larga maioria dos cidadãos deslocados - muitos dos quais são sírios que já estiveram internados em campos de refugiados na Turquia, no Líbano ou na Jordânia - caminha numa direcção precisa: de leste para oeste, de sul para norte. Interrogados pelos jornalistas acerca do destino que têm em vista, todos dizem uma só palavra: "Alemanha".

Ironias da História: há 80 anos, milhões tentavam fugir da Alemanha. Agora outros tantos sonham chegar lá.

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A saída da Alemanha do euro.

por Luís Menezes Leitão, em 18.07.15

 

Num texto mais abaixo, o Sérgio Almeida Correia cita um autor a defender a saída da Alemanha do euro. Essa hipótese já tem barbas, sendo desde 2013 defendida na Alemanha pelo partido Alternativ für Deutschland. Há, por isso, um forte receio que um dia os alemães se fartem mesmo da irresponsabilidade orçamental dos países do Sul e abandonem o euro.

 

É por isso que para aliviar consciências se sugere que seria bom para o euro a saída da Alemanha, uma vez que levaria a uma depreciação da moeda europeia, que hoje é considerada demasiado forte para os países do Sul. Só que as consequências económicas do Germanexit seriam desastrosas, fazendo o Grexit parecer uma brincadeira de crianças. Basta ver que a Alemanha é a quarta economia do mundo e, se esta abandonasse a zona euro, a moeda perderia o seu principal sustentáculo, desencadeando uma forte apreciação do novo marco e uma inflação geral em toda a zona euro sobrante. Por isso, os restantes países do Norte sairiam também a correr da moeda única, que se transformaria assim na moeda descredibilizada do Sul da Europa, aumentando ainda mais a inflação nessa zona. Enquanto que o Grexit geraria inflação apenas na Grécia, o Germanexit provocaria uma inflação galopante em todos os outros países que permanecessem no euro.

 

Um dia assisti a uma conferência de um professor de economia em Dublin sobre as dificuldades que a Irlanda tinha com o euro, defendendo ele, porém, que, apesar disso, se devia manter na moeda única. Pedi-lhe então que contemplasse a hipótese de ser a Alemanha a decidir abandonar o euro. A resposta dele foi elucidativa. Simplesmente, benzeu-se.

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Em quatro frases

por José António Abreu, em 14.07.15

O governo grego perdeu porque, na vigésima quinta hora e após cinco meses e meio de um comportamento que, fosse o Syriza de direita, teria levado as mentes bem-pensantes do planeta a despejar sobre ele uma chuva de acusações impregnadas de desprezo e salpicadas de impropérios, renegou todas as promessas que jurara cumprir. O governo alemão perdeu porque não somente foi mais uma vez coagido a manter no euro quem recusa comprometer-se com as regras deste, num processo que tenderá a arrastar a economia alemã para uma lógica terceiro-mundista, como tem de arcar com a imagem de polícia mau. Hollande ganhou porque saiu das negociações como o polícia bom e, mesmo forçado a aceitar o dano colateral (menor) de obrigar Syriza e Grécia a meter o socialismo na gaveta (até ver), atingiu o seu objectivo de conservar o destino da Alemanha preso ao da França. Quanto à União Europeia e, em particular, à Zona Euro, aparentemente ganhou (oxalá), provavelmente perdeu.

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"Dr. Brüning assumed office on March 29th, 1930, with a damnosa hereditas in the shape of the Young Plan, which had been negotiated by his predecessors, and the complete absence of any Budget. In view of the continued refusal of the Reichstag to take the financial situation seriously, Dr. Brüning in July, 1930, took the extreme step of advising President von Hindenburg to utilise his power under Article 48 of the Constitution to prorogue the Reichstag. For the subsequent two years the financial policy of Germany has been directed through a series of Emergency Decrees which by means of a system of increased taxation and drastic economy essayed to balance the Budget. Salaries of civil servants were cut to a point of 10 per cent to 13 1/2 per cent, lower than they were during the years 1927-1930, and the salaries of Reichsministers were decreased by 30 per cent. (...) at the beggining of June 1931 the deficit on the Budget was estimated at some £ 47 million. It was at this moment that Dr. Brüning came to London to the Chequers Conference. For some weeks before he had been urgently advised to declare the inability of Germany to meet her Reparations payments even without the ninety days´notice required under the Young Plan. (...) There can be no doubt, however, that both official and public opinion in Germany expected and believed that he would return from England with the approval of the British Government for the declaration of a moratorium, and it was in preparation for this both at home and abroad that President vom Hindenburg´s Manifesto to the German people was issued on June 6th. (...) These burdens of taxation and economy cuts, together with the complete lack of sucess of German´s foreign policy, provided ample grist for the Nazi mills." - John W. Wheeler-Bennett, The German Political Situation - Address given at the Chatham House on June 20th, 1932, International Affairs (Royal Institute of International Affairs 1931-1939), Vol. 11. No. 4 (Jul. 1932), p. 460-472

 

"Debt crises made the major international depression - the world slump of 1929-32 - much more severe and damaged the international political order. The German collapse is a terrifying demonstration of the long-run political as well as economic effect of debt crises. The German central state and the municipalities had borrowed so much that already in 1929 the most conservative and respectable American bankers had become skeptical about German conditions. `The Germans,` J. P. Morgan, Jr., concluded pithily, were fundamentally `second-rate people`, and he stopped his house from lending. (...) In the summer of 1931, a crisis erupted - caused by massive German capital flight and by German fears of political instability. (...) Despite their restraint in the crisis, the foregin banks were blamed for the collapses (a characteristic illustration of the first principle of debt crises: someone else is responsible for them). In 1932 and 1933, it was one of the most appealing parts of the Nazi party´s propaganda campaings that German´s misfortune was the result of a conspiracy of international and Jewish financiers. And after the Nazi seizure of power, the high volume of foreign debt tied into Germany was even used as a weapon of diplomacy. (...) The German case illustrates a second principle of debt crises as well: frozen debt can be used to devastating effect in a sort of blackmail attempt. The more highly indebted a country - and the more hopeless its situation when it comes to repaying debt - the more likely itis to adopt an agressively nationalist stance, and the more likely it is to believe that the fault lies with the creditors, not the debtors: the creditors should be made pay for their past immorality." - Harold James, Deep Red - The International Debt Crisis and Its Historical Precedents, American Scholar, June 1, 1987, pp. 331-341.    

 

Sabe-se o que aconteceu depois. Lausanne não foi a primeira, nem a segunda, nem a última vez que os alemães, a despeito da sua incapacidade, receberam um perdão de dívida. Este acordo mereceu a oposição dos nazis, que queriam a demissão dos negociadores. Esperavam um perdão total da sua dívida e não apenas parcial. Hoje, uma solução que salve o euro, a face da Grécia e dos credores, recolocando os extremistas no seu lugar, parece ser mais premente do que andar a bater no infeliz Tsípras e no Syriza. Mas há quem não veja isso. A Aurora Dourada, Nigel Farage, Mme. Le Pen, os "nacionais-populistas" lusos, todos continuam à espreita de uma oportunidade. Memória curta, para não dizer outra coisa.

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Já se sabe: os alemães não têm sentido de humor

por José António Abreu, em 01.03.15

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O novo hino europeu.

por Luís Menezes Leitão, em 24.02.15

 

Não sei se haverá alguma federação de Estados no mundo que aceite submeter-se aos ditames de um único Estado. Ninguém nos Estados Unidos admitiria que o Estado de Nova Iorque passasse a mandar na União, e muito menos os brasileiros permitiriam que o Estado de São Paulo decidisse assumir a liderança do Brasil. Na Europa, no entanto, assiste-se descaradamente a uma assunção da liderança da União Europeia pela Alemanha, por vezes com o apêndice francês, como se viu em Minsk, o que pelos vistos gera inúmeros apoios. Apenas os pérfidos eurocépticos não aceitam o natural direito da Alemanha a mandar na Europa e escandalizam-se estranhamente com os actos de vassalagem a um Ministro alemão, quando ele está a ser contestado no seu próprio governo. É altura de acabarmos com o horrível eurocepticismo e passar a cantar loas à grande liderança prussiana, tão bem representada por Angela Merkel. Vamos passar todos a entoar a Preußenlied como novo hino europeu: "Wir sind ja Preußen, laßt uns Preußen sein". 

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Da dignidade do Estado.

por Luís Menezes Leitão, em 22.02.15

Há uma coisa que há muito se perdeu em Portugal que é o sentido da dignidade do Estado. Mesmo antes do memorando, quando Sócrates foi chamado a despacho a Berlim por Angela Merkel devido à subida dos juros da dívida portuguesa, fui de opinião que um primeiro-ministro de Portugal não se deveria sujeitar a esse tipo de tratamento. E muito menos me pareceu aceitável que quando Sócrates foi derrubado — a meu ver já tarde porque Passos Coelho insistia obstinadamente em mantê-lo no cargo — a chanceler alemã tivesse o descaramento de ir criticar a decisão do parlamento português no parlamento alemão. Estou por isso muito à vontade para achar inaceitável que, entre duas reuniões do Eurogrupo, a Ministra das Finanças vá prestar vassalagem a Berlim, aceitando que o país seja exibido carinhosamente por Schäuble como exemplo a seguir. O governo pode naturalmente tomar as decisões que entender nas reuniões do Eurogrupo, contra ou a favor da Grécia. Mas já não me parece que o Ministro das Finanças de um Estado soberano deva contribuir para uma clara operação de spin do Ministro das Finanças alemão, na altura em que ele é contestado no seu próprio governo, precisamente pela sua instransigência em relação à Grécia.

 

Portugal segue com absoluto fanatismo uma estratégia que está completamente errada e que só pode trazer o desastre. O Syriza é um partido radical de esquerda, que em caso algum deveria estar à frente de um governo europeu. Se o está, é precisamente devido às constantes humilhações a que foram sujeitos os gregos pela troika, humilhações igualmente praticadas em Portugal, como agora Juncker veio reconhecer, para desgosto dos fanáticos que acham que ainda nos submetemos o suficiente. E nesse aspecto, se esta deriva não for invertida, a situação só pode ficar muito pior. As pessoas que hoje festejam a "hollandização" de Tsipras, devem pensar que a seguir a Hollande virá inevitavelmente Marine Le Pen, assim como um falhanço do Syriza na Grécia atirará o país para as mãos do Aurora Dourada. Numa altura em que a Rússia adopta uma nova atitude expansionista, que ameaça redesenhar o mapa da Europa, continuo a achar que os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo.

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Arrogância e bons sinais

por José António Abreu, em 05.02.15

É provável que Schäuble repita hoje com Varoufakis a demonstração de falta de respeito que teve há um par de anos com Vítor Gaspar, não se levantando da cadeira de rodas para o cumprimentar. Mas Varoufakis até deverá ler no acto um bom sinal, após deixar abundantemente claro durante a campanha eleitoral grega considerar ter os alemães manietados.

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A inapagável palavra Liberdade

por Pedro Correia, em 08.11.14

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«Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.»

 

 

Eu fui lá e vi.

Lembro-me como se fosse hoje. Foi numa manhã fria e cinzenta de Abril, por meados da década de 80. Tinha eu 21 anos e estava em Berlim com três colegas de profissão: a Isabel Stilwell, o Luís Marinho, o Jerónimo Pimentel. Nesse dia fomos ao outro lado. Cruzando o Muro da Vergonha que desde 1961, por imposição dos soviéticos, rasgava a meio a antiga capital do Reich. Como incisão de bisturi na pele, separando bairros da mesma cidade, fracturando ruas dos mesmos bairros, até fragmentando casas das mesmas ruas que permaneceram emparedadas durante aquelas tristes décadas em que Berlim-Ocidental, na certeira definição de John Kennedy, era a fronteira mais avançada do mundo livre.

Cruzámos a linha divisória por via ferroviária, na estação de metropolitano de Friedrichstrasse, após termos sido forçados a trocar marcos ocidentais por marcos orientais artificialmente cotados em paridade pelo regime comunista, à revelia do valor real das moedas, como condição para transpor aquela fronteira artificial na cidade dividida.

Éramos muito poucos a fazer aquele percurso. Quase todos vinham em sentido inverso, de lá para cá. E eram todos velhos, que marchavam num silêncio mais eloquente que mil discursos. A ditadura de Erich Honecker só permitia deslocações de 24 horas a cidadãos aposentados.

 

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Do lado de lá, tudo diferente. A começar pelo muro - na verdade, duas muralhas paralelas (a segunda foi erguida em 1962) separadas por uma extensão de 100 metros, denominada Faixa da Morte pelos berlinenses. Riscado e coberto de grafitos na face virada para Berlim Ocidental, imaculado na metade comunista da cidade, de onde aliás ninguém podia acercar-se dele. Rodeado de redes metálicas electrificadas, implacavelmente resguardado por soldados armados até aos dentes em 302 torres de vigilância dispersas por 66 quilómetros de extensão.

Símbolo sinistro da Guerra Fria.

Símbolo supremo da falência de um sistema que prometia libertar os homens e afinal só os mergulhou na escravidão.

 

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Arrepiava a escassez de transeuntes do lado de lá.

Arrepiava ver as majestosas Portas de Brandemburgo colocadas em terra de ninguém, no termo da Unter der Linden, a maior avenida de Berlim.

Arrepiava o silêncio dominante. Em perfeito contraste com o fervilhante bulício da Berlim ocidental, "burguesa" e "capitalista".

Atravessámos a pé uma larga avenida onde não passavam carros e logo fomos interceptados pelo apito de polícias que acorreram ao nosso encontro exigindo inspecção minuciosa de passaportes. Acabaram por nos deixar prosseguir, mas com um solene aviso: proibido atravessar fora das passadeiras. Mesmo numa avenida onde quase não víamos circular veículos, excepto uns decrépitos Trabants leste-alemães, fontes ambulantes de poluição.

Tínhamos de gastar os marcos orientais, que só ali eram aceites. Era hora de almoço, procurámos algum sítio onde pudéssemos matar a fome. Mas naquela imensidão desértica a oferta turística estava reduzida a quase nada. Depois de muito procurarmos, lá nos enfiámos num sell service na Alexanderplatz, de tabuleiro na mão, a comer umas salsichas envoltas em gordura a preços astronómicos. E sem mais nenhum cliente por perto.

Acabámos por gastar a maior parte do dinheiro num sucedâneo de táxi que nos conduziu pela zona mais monumental de Berlim - que devido a um capricho do destino permaneceu após a II Guerra Mundial sob a tutela soviética da cidade - e numa breve incursão aos arrabaldes, onde havia uns bairros operários de aspecto moderno e finalmente pessoas a circular na rua.

No regresso, ainda entrámos num Armazém do Povo, com vários pisos, na esperança de gastarmos parte do dinheiro que nos sobrara. Mas a esmagadora maioria das prateleiras estava vazia. Não havia clientes, só funcionárias que nos ignoraram olimpicamente.

Trouxe de lá uns postais manhosos. O meu único recuerdo palpável da Berlim comunista.

 

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Foi o meu baptismo do "socialismo real" no segmento oriental da maior cidade germânica, na então denominada República Democrática Alemã - que nada tinha de democrático e tudo tinha de repulsivo logo ao primeiro olhar.

No regresso, enquanto nos cruzávamos novamente no posto fronteiriço com os velhos agora de regresso a casa após fugazes visitas a familiares no Ocidente, sentimo-nos testemunhas privilegiadas da História, no tempo e no espaço.

Mil vezes a caótica, barulhenta, transgressora Berlim Ocidental do que a organizada, vigiada e silenciada Berlim-Leste - a cidade de maior progresso e com maior prosperidade económica do bloco socialista, como rezava a propaganda.

Nos dias imediatos, observei ainda com mais atenção o "muro de protecção antifascista" mandado erguer por Nikita Krutchov "a pedido" do ditador comunista alemão Walter Ulbricht em 13 de Agosto de 1961 para impedir a contínua sangria de alemães de Leste, sobretudo jovens, rumo ao Ocidente. Três milhões e meio tinham escapado nos 15 anos anteriores.

De tantos em tantos metros, levantava-se uma cruz branca em memória de cidadãos do Leste alvejados mortalmente pela implacável guarda fronteiriça comunista ao procurarem fugir da ditadura.

Morreram largas dezenas ou mesmo centenas entre 1962 e 1989.

O primeiro foi um operário de 18 anos chamado Peter Fechter. O último - escassos sete meses antes da queda do muro - foi um estudante de 20 anos chamado Chris Gueffroy.

Só por terem ousado ser livres.

 

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Às vezes não há como ver para descrer.

Eu fui lá e vi.

Faz amanhã 25 anos, festejei com irreprimível alegria a queda do Muro da Vergonha. Festejei-a com os magníficos versos de Paul Éluard com que saudei o fim de outras ditaduras: «E pelo poder de uma palavra / Recomeço a vida / Nasci para te conhecer / Para te chamar // Liberdade.»

Nessa noite inesquecível de 9 de Novembro de 1989, milhares de habitantes de Berlim puderam pela primeira vez transpor a fronteira livres da absurda ameaça de poderem morrer alvejados pelos agentes do Estado. E também com eles, embora a milhares de quilómetros de distância, celebrei essa palavra tantas vezes pervertida e conspurcada na boca e no gesto de ditadores de todos os matizes, de todos os quadrantes, de todas as ideologias.

Uma palavra que não tem fronteiras, barreiras, Muro em Berlim.

A incómoda, imprevisível, inapagável palavra Liberdade.

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O Ouro do Reno

por José Gomes André, em 03.10.14

A minha cidade alemã preferida? O Reno. Se há ainda na Europa um lugar que seja o espelho da civitas romana – o espaço onde os cidadãos se encontravam e praticavam a sua condição de habitantes do Império – esse lugar é o Reno, onde conflui todo o complexo tecido histórico, cultural e social que caracteriza a Alemanha. 

É o Reno que contorna a Floresta Negra e assinala a fronteira com a Suíça e a França, na solarenga e primaveril região de Baden-Württemberg, onde o céu azul, as casas brancas e o azeite são o orgulho das gentes. É o Reno que atravessa os palcos das grandes lutas religiosas – a partir das quais nasceu verdadeiramente a Alemanha como nação – banhando Speyer e Worms, onde o Protestantismo deu os primeiros passos institucionais. É ainda o Reno que irrompe orgulhosamente no Palatinado, onde os romanos encontraram solos ricos, margens firmes e um rio navegável pelo qual fluiria o seu comércio – assim nascendo Mogúncia (Mainz) e Koblenz. E por fim, é o Reno que dá vida aos grandes centros políticos, culturais, intelectuais e financeiros do Oeste alemão, iluminando as de outro modo cinzentas cidades de Bona, Colónia e Düsseldorf.

Nos entretantos, este é o rio de todos os mitos, onde cada monte escarpado conta uma história, onde cada curva acentuada esconde uma tragédia, onde cada pequena vila – orgulhosamente beijando o rio – alberga um herói que Wagner haveria de celebrar. Os castelos que se erguem nas suas margens transportam-nos para antigos romances de cavalaria, com nobres príncipes, belas duquesas e perigosos dragões. Sabemos que Lohengrin nos aguarda, que Rolando chorou aqui, e receamos ainda o poder sedutor do Lorelei. E somos encantados pelas suas assombrosas encostas, o verde das suas margens, o ocre dos telhados que distinguem as incontáveis aldeias por ele banhadas, as centenas de pontes que homens esforçados erigiram ao longo dos séculos – tentando domar um rio que, na verdade, sempre foi insubmisso e rebelde. Como é ainda hoje.

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Imagino a surpresa

por Rui Rocha, em 14.07.14

Dos alemães, hoje, quando acordaram bem cedo para trabalhar e lhes disseram que a Mannschaft venceu o Mundial.

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Luto de três dias decretado no Insurgente

por Rui Rocha, em 03.07.14

Alemanha vai ter salário mínimo de 8,5 euros por hora.

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Objectividade jornalística.

por Luís Menezes Leitão, em 17.06.14
Se há coisa que sempre admirei nos alemães foi a enorme objectividade com que os seus jornais sempre relatam os factos. Veja-se as referências isentas e objectivas ao jogo de ontem na imprensa alemã.

 

Ronaldo hoje somos NÓS que temos a musculatura de vencedores.

Ronaldo, hoje rapamos-te.
Mas a melhor de todas é esta:

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Mundial no sofá (4)

por João André, em 17.06.14

 

Portugal 0 - 4 Alemanha

 

Muito sinceramente não sabia o que escrever. Por alguma coisa quis fazer a minha antevisão ontem, para poder deixar clara a minha capacidade de análise ou, em alternativa, para não poder fugir à evidência de uma antevisão errada.

 

Na minha previsão de equipa titular do lado alemão falhei com Schürrle. Jogou antes Götze. Já no resto parece-me que não me enganei com nada de especial. Özil de facto andou a arrastar os centrais pelo campo fora (fosse à casa de banho e Bruno Alves segui-lo-ia), o segundo golo veio de uma bola parada e Bruno Alves teve a tradicional paragem cerebral que deu o 3-0. Já a falta de apoio a Coentrão deu em alemães a acelerar por aquele flanco como se em trânsito entre Munique e Berlim. Neste aspecto antecipei que Boateng não daria muito apoio, mas não foi bem verdade. Soube subir o suficiente para oferecer mais uma linha de passe e ajudar às triangulações.

 

Portugal até começou bem a meio-campo. Veloso pressionou bem Lahm, Meireles caiu sobre Kroos e Khedira, ainda sem ritmo, não conseguia mudar o rumo. Foi no entanto sol de pouca dura e questão apenas da Alemanha ajustar o estilo de jogo. Kroos descaiu para o meio campo para ajudar a transformar o 4-2-3-1 num 4-3-3-0 e os portugueses perderam completamente o controlo do jogo. Os alemães passaram a ter duas linhas de três jogadores no meio campo que conseguiam fazer triangulações e passes e a mais avançada destas era exímia a correr para as costas da defesa e aproveitar as bolas dos restantes jogadores.

 

O único caminho que Portugal procurava eram as bolas longas para Almeida tocar para Ronaldo e um ou outra iniciativa individual de Nani. Este esteve tão mal nas suas decisões e na sua insistência em jogar individualmente que só abona em favor de Jorge Mendes que tenha renovado no ano passado o contrato com o Manchester United. A lesão de Almeida foi um golpe duro, no entanto. Éder oferece mais movimento e energia, mas luta e ocupa menos os centrais adversários, que era o necessário para dar espaços a Ronaldo.

 

Quando Pepe foi expulso, a descida de Meireles para a defesa não me pareceu opção descabida para o resto do jogo. Sem avançado de referência do lado adversário, colocar um médio nessa posição não seria assim tão má ideia. Além disso, mais um jogador capaz de sair a jogar e colocar uma ou outra bola longa em Ronaldo poderia ter ajudado a manter a chama viva. Só que Portugal tinha a cabeça já no intervalo e não soube manter a concentração. Mais uma vez se provou que Ronaldo não tem líder em campo. Ronaldo é capitão, mas não é aquele líder capaz de manter a equipa focada, como Figo, Fernando Couto ou outros o teriam feito.

 

A segunda parte foi morna. A Alemanha manteve energias e foi ensaiando acções de ataque, tratando o resto do jogo como um treino. Mais que o quarto golo, o pior da segunda parte foi mesmo a lesão de Coentrão, que não tem substituto natural (canhoto) que dê largura ao corredor e ofereça liberdade a Ronaldo. Assumindo que a lesão é daquelas que dá para mês e meio de estaleiro, a melhor opção de Paulo Bento para os outros dois jogos poderá ser enfiar Veloso naquele lado e fazer entrar William Carvalho. André Almeida é voluntarioso e até poderia cumprir o papel no lado direito, mas a falta de pé esquerdo é aqui um problema.

 

Não sei que fará Bento, mas precisa de colocar ordem na equipa. Como não acredito que os alemães façam tanto jeitinho a Klinsmann, é bem possível que duas vitórias cheguem para passar. Muito dependerá da resposta que os jogadores derem a este resultado.

 

Três notas finais:


1. A grande penalidade é discutível, obviamente. Götze deixa-se cair sem que João Pereira tivesse feito muito para isso. Há no entanto puxões do defesa e ao alemão só restou deixar-se cair. Se fosse ao contrário talvez o árbitro não marcasse, mas segundo as regras de beneficiar o atacante, é difícil criticar demasiado o árbitro. Além disso, poderia ter dado o vermelho.


2. Pepe demonstrou uma enorme infantilidade e mereceria que o enfiassem num avião de volta a Portugal. Há 5 ou 10 anos levaria um amarelo e ficaria o assunto resolvido. Hoje em dia os árbitros têm indicação para darem vermelho. Claríssimo. O facto de ser provocado é indiferente.


3. No ecrã onde vi o jogo era difícil dizê-lo, mas fiquei com a sensação que Éder teria sido mesmo travado em falta (não percebi se houve ou não contacto). Um golo não teria mudado nada nesse jogo, mas teria dado outro lustro ao resultado (os alemães talvez abrandassem ainda mais com um satisfatório 3-1) e outra confiança a Ronaldo.

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Um comentário que resume quase tudo

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.06.14

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Mundial no sofá (3)

por João André, em 16.06.14

  

Portugal - Alemanha (antevisão)

 

Ahh, futebol e Alemanha. São 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha. Muda aos 5 e acaba aos 10. Os alemães são uma máquina trituradora. A bola é redonda. Força da técnica contra a técnica da força. Sul contra norte da Europa. Clichés, clichés, clichés...

 

Pronto, já aliviei a coisa. Quem quiser clichés, que use um dos de cima. Na análise abaixo tentarei evitá-los.

 

A forma como o jogo vai ser visto depende enormemente de Cristiano Ronaldo. Tanto nós como os alemães compreendem que ele vai ser a personagem principal do jogo. Nós esperamos que Ronaldo domine a acção, os alemães desejam que ele seja notório pela sua ausência. Desde 2006 que Ronaldo, por uma ou outra razão, não está a 100% numa fase final. A grande questão é se estará a 100% por períodos suficientes dos 90 minutos que Portugal for jogando. Com Ronaldo na equipa, Portugal é a espaços uma equipa que joga com 10 contra 11. Mas vale por vezes a pena.

 

Neste jogo os alemães estão a ser obsequiosos: não vão jogar com o gigante Gomez (que ficou em casa) e que tem o ADN perfeito para fazer estragos aproveitando as falhas de concentração de Bruno Alves. Lahm vai quase de certeza jogar a meio campo, o que significa que Ronaldo não terá que o enfrentar e que os alemães vão jogar para a posse de bola. As laterais serão provavelmente ocupadas por dois centrais, Boateng à direita e Höwedes à esquerda, o que significa que não poderão sobrecarregar o lado esquerdo da defesa portuguesa (Ronaldo não ajuda muito defensivamente, o que expõe Coentrão). No papel, os alemães irão apresentar tácticas que ajudarão os portugueses. Difícil melhor.

 

Por outro lado há qualidade para dar e vender na equipa alemã, mesmo sem alguns jogadores. Os irmãos Bender, Gündogan, Reus ou Gomez provavelmente entrariam de caras na equipa portuguesa, mas os alemães não os têm à disposição. Podolski provavelmente estará no banco, tal como Götze, Schweinsteiger, Draxler e Klose. É ridículo. O ataque poderá passar pela frente de ataque Özil como falso 9 e apoiado por Müller, Kroos e Schürrle. O meio campo terá provavelmente Lahm e Khedira. A Alemanha poderá ter posse de bola de níveis guardiolianos, mas a incisão irá depender em grande parte dos movimentos de Müller e Schürrle vindos das alas e de Özil a fugir aos centrais. Será essencial ter bom posicionamento e não ser traído pelo movimento de Özil e Kroos. Por outro lado, é muito provável que as bolas paradas sejam fundamentais. Com 4 centrais no onze inicial e Kroos a bater as bolas paradas, seria burrice da parte alemã não as aproveitar. Mais importante ainda que os cantos serão os livres indirectos, a aproveitar agressividade excessiva do meio campo português.

 

Portugal terá que optar entre lutar de igual para igual num jogo baseado em posse de bola ou, preferivelmente (do meu ponto de vista), compreender que Ronaldo terá de ser usado em contra-ataque e jogar mais em 4-4-2 com Postiga ou Hugo Almeida a tentar criar espaço para Ronaldo aproveitar. No caso do 4-4-2, poder-se-à começar com Veloso ou Nani no onze inicial. No primeiro caso Veloso cairía sobre a esquerda e Meireles sobre a direita e no segundo Meireles estaria à esquerda e Nani à direita. Nani já jogou como médio direito no passado e pode fazê-lo novamente. William Carvalho e Moutinho terão, claro está, que começar o jogo.

 

Os problemas portugueses estarão nos momentos das substituições (o banco é limitado) e nas bolas aéreas para a zona dos laterais (são baixos e têm opositores directos bons de cabeça). Postiga e Hugo Almeida não duram 90 minutos e terão de ser substituídos, o que queima logo uma substituição. Se Portugal se vir a perder provavelmente não terá forma de ir atrás do resultado.

 

Em resumo: há que aproveitar o contra-ataque (de forma semelhante ao que foi feito com a Suécia), poupar Ronaldo durante os 90 minutos, evitar faltas que ofereçam bolas paradas, e é necessário que os centrais não sejam atraídos pelo movimento de Özil e Kroos (será fundamental ter William Carvalho). Depois, há que deixar Ronaldo correr com espaço em direcção à defesa adversária e dar oportunidade a Moutinho para fazer os seus passes. O jogo será, no mínimo, interessante e poderá ser tacticamente, pelo menos em termos de sistema, semelhante ao Espanha-Holanda. Esperemos que acabe também com uma vitória da equipa mais reactiva.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 01.06.14

 

«O número de eurocépticos, na Alemanha, cresce de dia para dia. Fora do euro! Fora da União Europeia! são os seus "gritos de guerra" e encontram muitos simpatizantes. O pior é que a Alternativa Pela Alemanha está muito conotada com a extrema-direita, embora se desmarque do NPD, o partido neo-nazi.

A CDU, ainda assim, venceu por causa da Merkel, ela é que foi figura de cartaz para as eleições europeias, abafando por completo o cabeça de lista do seu partido, David McAllister (sim, é alemão, mas com raízes escocesas).

É uma catástrofe que a extrema-direita tenha tido tantos votos, em certos países. Sempre me defini como sendo "de direita", mas sou franca: preferia que fossem os partidos da esquerda a face do protesto (quando digo de esquerda, não me refiro a socialistas à la Hollande -- essa anedota feita gente -- ou à la Seguro, mas aos ligados à ideologia comunista). Mal por mal, talvez fosse melhor uma modalidade moderna dos velhos comunistas, esses sim, fariam algo de diferente (penso eu).

A Alemanha, porém, nunca virará à esquerda, dando força à Die Linke (uma espécie de BE), pois está traumatizada com a experiência da RDA. Mas também não acredito que virem à direita como os franceses, porque, nesse aspeto, também estão ainda traumatizados. Muito europeus esquecem que os próprios alemães foram dos mais traumatizados com a era Hitler. Nos últimos tempos, tem-se assistido a uma verdadeira expiação de pecados passados. Descendentes de nazis (alguns ligados ao extermínio dos judeus), filhos, mas principalmente netos, usam a sua profissão de jornalista ou realizador de cinema para expor as vergonhas nazis, mesmo que isso implique aceitar o passado horrendo dos seus pais/avós, passado esse mantido em silêncio pela família. É das tais coisas de que não se fala, que se atiram para debaixo do tapete. Mas há quem não pactue com essa política do silêncio. Desenterram a imúndicie, arejam os armários e sacodem os tapetes. À custa de muito sacrifício, não é fácil aceitar e expor tal passado. Quem consegue admitir: sim o meu pai/avô foi um assassino, dos piores que se pode imaginar?

E há muito quem seja contra essa maneira de denegrir a família. Mas os próprios dizem que não conseguem continuar a viver com tais segredos na alma. Pela verdade! E para que o horror não se repita!

Eu estou com eles e admiro a sua coragem!
Para quando algo do género, no nosso país, envolvendo descendentes dos pides? Quando se resolverão essas pessoas a contar o que passaram à altura da revolução, algumas ainda crianças? Não terá sido fácil. E o segredo mantém-se.»

 

Da nossa leitora Cristina Torrão. A propósito deste meu post.

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Os amigos escolhem-se

por Rui Herbon, em 30.04.14

Há um conflito na Ucrânia que ameaça a paz na Europa e, na passada segunda-feira, o presidente Putin abraçou o ex-chanceler alemão, Gerhard Schröder, que celebrava o seu septuagésimo aniversário em São Petersburgo. É uma bofetada na política externa alemã, um gesto que mancha a conduta de ex-governantes que vendem a sua influência por soldos muito suculentos. Os parentes não se escolhem, mas os amigos sim. Se o ex-governante quer celebrar o seu aniversário com o amigo Putin é livre de fazê-lo. Mas foi chanceler da Alemanha e sabe que esta acção terá uma interpretação política.

Schröder foi contratado pela russa Gazprom poucos meses após deixar a chancelaria. É o chairman da empresa que fornece boa parte da energia consumida pela Ucrânia, Alemanha e outros países da Europa central e de leste. Obteve o lugar pela sua condição de ex-chanceler que, incidentalmente, havia estabelecido as relações amistosas e contratuais com dita empresa.

Os seus correligionários social-democratas estão no governo com Merkel. Deixa-os numa posição muito delicada e podia, nesta ocasião, ter mantido algum distanciamento relativamente a Putin, que tenta alterar o direito internacional nas fronteiras ocidentais russas. Violou as regras do jogo com a anexação da Crimeia e impulsiona a brutalidade dos pró-russos da Ucrânia que pretendem repetir a estratégia na parte oriental do país.

Ninguém pretende um confronto aberto com Putin. Mas que um ex-chanceler europeu se preste a dar credibilidade à política expansionista do líder russo é de todo inaceitável. Schröder pode ganhar muito dinheiro mas perderá credibilidade entre os seus. O destino final dos políticos não pode ser tornarem-se milionários nem continuar a influenciar a vida pública como quando estavam no poder.

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Ucrânia: a irresponsabilidade europeia (III).

por Luís Menezes Leitão, em 11.04.14

 

Este texto do Pedro Correia e este texto do Luís Naves justificam que volte ao assunto do que considero ser a irresponsabilidade europeia na Ucrânia e cujo resultado está à vista de todos. É muito fácil demonizar a Rússia como agressor, mas tal implica esquecer o óbvio: que a União Europeia apoiou um governo de extremistas, formado na Praça Maidan, que incluía partidos fortemente hostis à minoria russa. Ora, era manifesto que esta não deixaria de pedir auxílio a Moscovo e que a Rússia não iria ficar quieta. Basta olhar para o mapa acima para perceber o risco de guerra civil que o golpe poderia causar, ainda mais quando estimulado por uma União Europeia que prometeu mundos e fundos à Ucrânia, os quais não tem para dar a Portugal ou à Grécia.

 

 

A comparação com a II Guerra Mundial, ao contrário do que se afirma é bem elucidativa. O mapa acima demonstra, ao contrário do que se julga, a força com que a Alemanha saiu do tratado de Versalhes. É que anteriormente tinha vários impérios em seu redor, e depois passou a ter pequenos Estados, que facilmente poderia influenciar. Kissinger já uma vez escreveu que o grande erro de Hitler foi ter estado obcecado em travar uma guerra enquanto era novo. Bastar-lhe-ia esperar e conseguiria o domínio alemão na Europa, não por força das armas mas pelo poder económico.

 

Neville Chamberlain sabia perfeitamente disso, e acreditou ingenuamente que Hitler não precisava de uma guerra. Mas fê-lo por razões pragmáticas. Disse pura e simplesmente perante o ataque à Checoslováquia que, por muito que respeitasse a fraqueza de um Estado europeu perante um vizinho forte e poderoso, não podia envolver todo o Império Britânico numa guerra por esse motivo. A Inglaterra não estava disposta a uma guerra por causa da Checoslováquia, mas já estava por causa da Polónia. É assim que a guerra se inicia quando Hitler invade a Polónia, coisa que ele muito estranhou, pois quem queria combater no futuro era a URSS. E a intervenção da França e da Inglaterra na II Guerra foi um desastre, como se viu logo em Dunquerque, que levou a que a França fosse ocupada e logo a seguir a Inglaterra sistematicamente bombardeada. O que provocou a viragem na guerra foi a entrada dos EUA depois de Pearl Harbor e especialmente o ataque de Hitler à Rússia, que na altura pareceu um erro estratégico, mas que constituía o objectivo de Hitler desde o início. 

 

 

Ao contrário do que se refere, quem especialmente ganhou com a II Guerra foi a URSS, como se pode ver pelo mapa acima, que descreve a cortina de ferro de que Churchill se queixava, a qual aliás ainda foi prolongada com a adesão da Jugoslávia e da Albânia ao bloco comunista. A Inglaterra não só não conseguiu a libertação da Polónia, como também teve que dar o Império Britânico como perdido no momento simbólico em perdeu Singapura para o Japão, como Churchill também reconheceu. Já a URSS não cedeu um milímetro de território conquistado, empurrando a Polónia para Ocidente e dividindo a Alemanha. É assim que se dá por decisão dos EUA o ressurgimento alemão. Qualquer pessoa poderia olhar para este mapa e ver que não seria possível parar o avanço russo sem a Alemanha.

 

Quando se inicia a guerra da Coreia, o avanço comunista parecia imparável. Foi parado apenas por MacArthur, que com uma estratégia militar brilhante chegou a tomar Pyongyang. Só que isso desencadeou a entrada da China no conflito e ele viu que não podia derrotar o exército chinês. MacArthur pediu então a Truman para lançar bombas atómicas sobre a China, o que este recusou, por saber que isso implicava uma guerra nuclear com a Rússia. Na altura afirmou que a estratégia americana era limitar a guerra à península da Coreia e que MacArthur era demitido por não concordar com a estratégia. Ficou-se a saber que a URSS e a América travariam guerras ao domicílio mas não um conflito nuclear global. Mais uma estratégia de apaziguamento que não deixou libertar o quinto cavaleiro.

 

A excepção a esta regra era a Europa. Todos sabiam que não se podia ganhar uma guerra convencional na Europa contra o exército soviético, que em 36 horas podia ocupar todo o continente. Por isso ficou estabelecido que qualquer avanço russo teria como consequência uma resposta nuclear. Na altura foi dito que bastava um polícia da Alemanha de Leste perseguir um ladrão em Berlim Oeste, ou um carro de bombeiros do Leste vir ajudar a combater um incêndio em Berlim Oeste, para os EUA responderem com o nuclear. Kruschev dizia que Berlim eram os testículos do Ocidente, já que podia atacar em todo o mundo excepto em Berlim.

 

A queda do muro de Berlim permitiu a reunificação alemã e os governantes alemães, de Kohl a Merkel, não quiseram mais repetir o erro de Hitler. A conquista de influência já não precisava de ser militar, pois podia ser apenas económica. Só que isso podia implicar o desmantelamento de Estados, o que não deixaria de levar à guerra. Foi assim que a Europa, por influência alemã, apoiou a independência da Eslovénia e da Croácia, sabendo-se que a Sérvia iria reclamar os territórios ocupados pelos seus habitantes com uma inevitável guerra civil. Apoiou depois a indepedência do Kosovo, desde sempre um território sérvio, embora esmagadoramente ocupado por albaneses. A Rússia, tradicional aliada da Sérvia, e pela qual tinha travado uma guerra sangrenta em 1914, não reagiu.

 

Mas em 2008 tudo mudou. Quando a Geórgia decidiu pôr em causa a autonomia das suas províncias separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia a Rússia reagiu pela força militar, pelo que era óbvio que não deixaria de o fazer na Ucrânia. Por isso quando a União Europeia, especialmente por influência alemã, decidiu apoiar a colocação na Ucrânia de um governo hostil aos russos, Putin resolveu responder da mesma forma que a União Europeia tinha feito na Jugoslávia: apoiar a secessão de sucessivas regiões da Ucrânia, onde a população russa é considerável. Pelo caminho, propõe-se uma "federação", que depois facilmente se dissolve, como aconteceu na Jugoslávia.

 

É por isso que antes de a União Europeia se ter posto a apoiar golpes e governos extremistas na Ucrânia, devia considerar que a Rússia não é hoje a mesma que aceitou pacificamente o desmembramento da Jugoslávia e da Sérvia. A Rússia de hoje não vai abdicar de ter uma zona de influência própria e não vai aceitar a expansão da União Europeia para Leste. Quanto à União Europeia, o facto de ser um gigante económico não afecta o facto de continuar a ser um anão político, e pior ainda, um anão militar, que ainda por cima deixou de ter o guarda-chuva americano. Como bem escreveu Vasco Pulido Valente, "o Ocidente demonstrou ao mundo inteiro que recusa um novo conflito, na Ucrânia ou no pólo Norte: a América porque, ao fim de uma guerra perdida no Iraque e no Afeganistão, o eleitorado está maciçamente contra uma nova aventura; a Europa porque não tem dinheiro, nem poder militar para ameaçar ninguém (Obama até pediu que a França, a Inglaterra e a Alemanha investissem em armamento um pouco mais do que investem hoje)". Uma vez tive um encontro com um juiz do Supremo Tribunal Americano, que me confessou não acreditar na União Europeia, dizendo que a bandeira europeia só teria significado no dia em que aparecesse alguém disposto a dar o seu sangue por ela. A verdade é que continua a não haver ninguém disposto a esse sacrifício. Eu queria ver aqueles que agora criticam a Rússia pela sua intervenção na Ucrânia dispostos a alistarem-se num exército de defesa da Ucrânia contra a Rússia. No tempo da guerra civil espanhola houve muitos voluntários internacionais que combateram em Espanha. Hoje, não havendo nada disso, era preferível que a União Europeia tivesse algum sentido da realidade. Porque as pífias sanções económicas não assustam ninguém.

 

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Na semana passada foi a greve dos aeroportos alemães a anunciar o cancelamento de voos. Esta semana é a greve de 3 (três) dias dos pilotos  de uma organização chamada “Vereinigung Cockpit” (VC), ou seja, o sindicato respectivo. O resultado são só 3800 (três mil e oitocentos) voos cancelados. A razão da greve, que começa na quarta e terminará sexta-feira, de maneira a que o fim-de-semana seja de arromba, foi a falta de entendimento sobre uma questão tão "corriqueira", imagine-se, como aumentos salariais. E como se isso não bastasse para indispor os passageiros que optaram por viajar nessa companhia aérea, o número de chamadas telefónicas deu-lhes cabo do sistema. Como há dias se soube que os lucros ficaram aquém das expectativas, não havendo perspectiva de a curto prazo serem despedidos alguns dos seus 118.000 trabalhadores - uma ninharia - , dir-se-ia tratar-se de uma companhia aérea da Europa do sul.

Aos que em Portugal pugnam por mais alterações à lei da greve, e que em pleno século XXI ainda se queixam do defunto Conselho da Revolução, ficaria bem que agora dissessem uma palavra sobre o assunto. Quanto mais não fosse, por exemplo, para defenderem uma aproximação da lei da greve nacional, sei lá, à lei colombiana. Todos os que ficaram, e ficarão, em terra compreenderiam a oportunidade da intervenção. E a necessidade de se aumentar esses tesos dos pilotos alemães.

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A lei alemã é que é boa

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.03.14

"As greves em Portugal são só no sector público e particularmente no sector dos transportes"; "A nossa lei da greve é uma lei antiquada, imposta pelo Conselho da Revolução. A greve é fundamental, as pessoas devem ter direito à greve, mas não é por dá cá aquela palha."- Soares dos Santos, Rádio Renascença, 18 de Março de 2014

 

"Lufthansa em Portugal cancela quatro voos devido a greve na Alemanha" - Sic Notícias, 26 de Março de 2014

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A ruína do euro.

por Luís Menezes Leitão, em 07.02.14

 

A visão que existe sobre a moeda europeia no estrangeiro é a de que não só o euro foi mal construído, como os europeus estão a fazer tudo para o destruir. E de facto a destruição do euro é o que parece ser o resultado mais provável da recente decisão do Tribunal Constitucional alemão que decidiu efectuar o reenvio prejudicial para o Tribunal de Justiça da União Europeia para esclarecer se considera a actuação do BCE de compra de dívida em conformidade com os Tratados, adiantando desde já a sua reprovação a essa actuação. Não sei qual será o pior dos resultados que daqui pode advir. Ou o Tribunal de Justiça da União Europeia declara a actuação do BCE em desconformidade com os tratados — e já se sabe que o BCE estará de futuro proibido de qualquer outra intervenção nesta área — ou dá a sua cobertura a essa actuação e o resultado pode ser a futura declaração de inconstitucionalidade dos tratados por contrariedade à constituição alemã. Em qualquer caso, estamos perante uma demonstração de que o Tribunal Constitucional Alemão se leva a sério e é imune a todas e quaisquer pressões. Este pode ser assim o dia da condenação definitiva do euro à ruína. Vamos ver as cenas dos próximos capítulos.

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O declínio francês

por José António Abreu, em 23.01.14
Aviso prévio: No texto que se segue não será abordada a vida amorosa de qualquer presidente francês, por muito normal que seja este e anormal que seja aquela. Em contrapartida, o texto inclui muitas percentagens.

Durante séculos, o Portugal que se imaginava culto ambicionava ser francês. França era o exemplo e a inspiração. Hoje somos bastante mais influenciados pelo universo anglo-saxónico mas a velha ligação ainda tem consequências. Já mencionei isto no blogue um par de vezes mas repito-o: num debate das últimas eleições presidenciais francesas, Hollande referia a cada cinco minutos como a França perdera terreno para a Alemanha; a certa altura, Sarkozy atirou-lhe: «Mas a Alemanha fez há dez anos aquilo que o senhor ainda recusa que se faça em França.» Bingo. Nem por isso Sarkozy venceu as eleições. E, como seria de esperar, desde a eleição de Hollande a França continuou basicamente a fazer o oposto do que a Alemanha fez há mais de uma dúzia de anos (e do que os países nórdicos fizeram há cerca de uma vintena). Os resultados? Comecemos por um número curioso. Se olharmos apenas para o PIB, pouco mudou. Em 2001, o PIB francês representava 73,6% do PIB alemão. Em 2012 (último ano do qual existem estatísticas razoavelmente definitivas), mantinha-se nos 73,1% (com uma ligeira vantagem de oito décimas para o lado da Alemanha, ambos cresceram cerca de 12% nesses onze anos). Por trás do crescimento quase igual, há no entanto diferenças enormes na evolução da competitividade das duas economias. Tome-se o sector automóvel como exemplo. Em 2001, a Renault tinha acabado de comprar uma posição maioritária na Nissan e o grupo PSA começava a multiplicar gamas. Actualmente, a Renault compensa prejuízos com os lucros da Nissan (e da Dacia) e a PSA procura desesperadamente convencer o grupo chinês Dongfeng de que seria um cônjuge útil e leal. Em 2001, na Alemanha que ainda suportava os custos da reunificação e começava  a reformar as leis laborais e o sistema de segurança social, BMW e Daimler iam-se apercebendo de que teriam de deixar cair a ideia de tornar lucrativas Rover e Chrysler, respectivamente. Hoje, as marcas alemãs dominam a Europa e o objectivo do grupo VAG de atingir o número um mundial em 2018 parece não apenas realista como inevitável. Mas talvez seja preferível que nos concentremos nas estatísticas. Em 2001, a partir de uma população representando 72,0% da população alemã, as exportações francesas de bens e serviços representavam 61,1% das exportações alemãs. Em 2012, tendo a população – que aumentou em França e diminuiu ligeiramente na Alemanha – passado para os 77,4% da população alemã, limitavam-se a 46,8% (se excluirmos os serviços, a evolução é ainda mais reveladora: de 56,6% para 40,4%). No que a volume de exportações diz respeito, Hollande poderá até reclamar um prémio (e, se quiser ser justo, partilhá-lo com o antecessor) pela anedota fonética de ter visto a França ser ultrapassada pela Holanda, um país com 26,4% da população francesa. (Por habitante, a Holanda consegue a proeza de exportar mais do dobro da Alemanha: 47,1 versus 20,4 mil dólares, quedando-se a França pelos 12,3 – e Portugal pelos 7,8.) Sem surpresas, a taxa de desemprego acompanhou estes números. Em 2001, era de 8,2% em França e de 7,9% na Alemanha; em 2012, subira para 10,3% em França e descera para 5,5% na Alemanha. Tudo isto – será conveniente relembrar – quando, em percentagem, o PIB francês subiu sensivelmente o mesmo que o alemão (ou que o holandês) nos onze anos desde o fim do euro. Ou seja, a economia francesa, antes ligeiramente menos competitiva do que a alemã, fechou-se sobre si mesma, derivou para sectores não exportadores e em grande medida apoiou-se no Estado (percentualmente, a despesa pública francesa é a mais elevada da zona Euro; entre 2001 e 2012, subiu de 51,7 para 56,7% do PIB enquanto a alemã desceu de 47,6 para 44,7%). No fundo, salvaguardando a diferença de escala, que a torna too big to fail (escrever isto em inglês é provocação suplementar), a França tem exactamente o mesmo tipo de problemas e a mesma mentalidade vigente que Portugal. Permanecer agarrado à ideia da defesa do Estado Social, em vez de o defender efectiva e realisticamente, dá nisto. E as velhas influências demoram a morrer.

Notas

1. Encontra-se implícito mas, de modo a que não restem dúvidas, acrescente-se que dificilmente se poderá culpar o euro pela totalidade dos problemas franceses. As situações de partida não eram assim tão diferentes.

2. Nas exportações, o problema de Portugal nem foi de ter registado uma queda – no período 2001-2012 desceram de 5,0% para 4,9% das alemãs – mas de serem demasiado baixas logo à partida e não ter conseguido fazê-las subir pelo menos ao ritmo da Holanda.

3. Dos quatro países constantes dos gráficos, França e Portugal foram os únicos que nunca apresentaram receitas superiores às despesas durante os vinte e dois anos considerados e foram também os que mais fizeram crescer a diferença entre umas e outras na sequência da crise de 2008 (ver gráfico abaixo).

4. Certas más-línguas poderiam apontar como factor-chave na diferença de capacidade de reforma entre França e Alemanha o facto de, em 2001 como hoje, a fatia da população dependente do Estado (ver despesa pública em relação ao PIB) ser maior em França. Acrescentariam (as tais más-línguas) que os privados protestam menos, têm sindicatos mais disponíveis para estabelecer compromissos e dificilmente conseguem paralisar o país em que vivem.

5. Hollande promete agora aumentar a competitividade da economia francesa através de um alívio da carga fiscal recaindo sobre as empresas, a ser compensado por cortes de cinquenta mil milhões de euros na despesa pública. Veremos se a medida avança. Prova da falta de juízo que grassa em França (e da importância excessiva das aparências que grassa um pouco por todo o lado) é a intenção de criar uma comissão pública para avaliar se as empresas não estão a abusar da benesse.

6. Como os dados das exportações de vários países revelam e ainda que se desconte o efeito da valorização do euro, o tremendo pessimismo que muitos europeus mostram perante os resultados da globalização é exagerado. Sendo difícil, pode continuar-se competitivo pagando salários altos (mesmo em sectores onde tal pareceria improvável; exemplo: mais de 20% das exportações dinamarquesas de bens vêm do sector agro-pecuário). Já o peso do Estado (e, por conseguinte, das prestações sociais pagas por este) não pode continuar a subir ao ritmo a que subiu nas últimas décadas, até por pressões demográficas que apenas uma gigantesca dose de imaginação permitirá atribuir aos chineses ou ao sistema financeiro.

Fontes: Organização Mundial do Comércio para os dados relativos às exportações, Fundo Monetário Internacional (World Economic Outlook Database, Outubro de 2013) para os restantes.

 

(Clicar nas imagens - e depois uma segunda vez - para aceder a versões maiores. O ano de 1991 foi escolhido para permitir obter um retrato da situação na época imediatamente após a reunificação alemã. A Base do FMI não inclui os dados da despesa e da dívida da Holanda para os anos anteriores a 1995.)

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Schadenfreude

por Rui Rocha, em 21.01.14

Que é como quem diz: pimenta na Filarmónica de Hamburgo é refresco

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O juramento de Angela Merkel.

por Luís Menezes Leitão, em 18.12.13

 

Em Portugal havia uma série de gente, desde António José Seguro a Freitas do Amaral, que tinha grande esperança no resultado das eleições alemãs. Sempre achei, pelo conhecimento que tenho da Alemanha em frequentes viagens, que não valia a pena esperar nada dali. Os alemães defendem os seus próprios interesses e Angela Merkel tinha-o feito impecavelmente, pelo que era óbvio que seria reeleita. Mas, mesmo que o não fosse, não haveria nenhum Governo alemão que aceitasse a história de os alemães pagarem as dívidas alheias, que é no fundo o que significam os eurobonds. Não valia a pena, por isso, diabolizar Angela Merkel. Se há alguém que merece críticas é, pelo contrário, Durão Barroso, que foi eleito para defender os interesses gerais da União Europeia e só tem defendido as pretensões alemãs.

 

Se houvesse dúvidas sobre o que é suposto fazerem os chanceleres alemães, elas podem ser desfeitas com a simples audição do juramento de posse do cargo, que consta do vídeo acima: "Ich schwöre, dass ich meine Kraft dem Wohle des deutschen Volkes widmen, seinen Nutzen mehren, Schaden von ihm wenden, das Grundgesetz und die Gesetze des Bundes wahren und verteidigen, meine Pflichten gewissenhaft erfüllen und Gerechtigkeit gegen jedermann üben werde. Ich schwöre es, so wahr mir Gott helfe". Ou seja: "Juro que vou dedicar os meus esforços ao bem do povo alemão, aumentar os seus benefícios, protegê-lo de danos, respeitar e defender a Constituição e as leis da Federação, cumprir conscientemente os meus deveres, e fazer justiça a todos. Juro-o, assim Deus me ajude".

 

Em relação ao povo alemão, Angela Merkel tem sempre cumprido impecavelmente o seu juramento. A pergunta é apenas se não se deveria instituir um juramento semelhante para o Primeiro-Ministro português, naturalmente agora relativo a Portugal. Porque quanto à União Europeia, esqueçam. Neste momento, cada país está por sua conta.

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Problemas de consciência

por José António Abreu, em 05.12.13

A vitória do SPD nas negociações alemãs para a formação de uma coligação governamental não é tanto uma vitória sobre Merkel e a CDU (embora, após uma derrota clara nas urnas, também o seja – e não particularmente democrática) como uma vitória sobre o SPD de Schröder que, há pouco mais de uma década, numa altura em que a Alemanha se esforçava por 'encaixar' os custos combinados da reunificação e da globalização, iniciou as reformas que permitiram o relativo bem-estar actual. Apesar desta pequena ironia, a posição do SPD compreende-se. A esquerda preocupa-se bastante mais com o que deve ser – e, mais ainda, como o que  devia ser – do que com o que pode ser (embora frequentemente apresente consequências negativas, a utopia não deixa de constituir um dos seus encantos). Daqui resulta a tendência para privilegiar o papel do Estado, sobrecarregar a economia com taxas e impostos e recusar concessões no campo dos «direitos adquiridos», ainda que fazê-lo coloque em risco direitos similares em processo de constituição (noutro ponto a favor da esquerda, admita-se que, no momento em que ficar evidente não ser possível ressarci-los, berrará ainda mais alto). Quando, chegadas as épocas de crise (e chegarão sempre, em qualquer tipo de sistema político ou económico), se torna necessário aplicar uma dose de pragmatismo, os partidos de esquerda apanhados no poder experimentam graves problemas de identidade. E assim, logo que a economia o permite, a reacção instintiva dos seus políticos é atacar ferozmente quaisquer indícios de concessões feitas à lógica da direita, ainda que dessas concessões tenham saído excelentes resultados (como claramente saíram no caso alemão). Vistas as coisas por este prisma, não é sequer difícil entender a sanha com que alguns veneráveis socialistas lusitanos atacam as medidas de contenção orçamental e todos os reais e imaginados defensores destas. É uma sanha que pretende apagar o facto de, em tempos – e com excelentes resultados –, terem «metido o socialismo na gaveta».

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A crise e as oportunidades

por João André, em 29.11.13

Um dos momentos mais interessantes de cada nova discussão com colegas - oriundos de outras unidades de negócio - ou com pessoas de outras empresas alemãs é quando chega o momento de dizer que sou português. Quase todos perguntam pela situação em Portugal, lamentam as dificuldades e desejam que passem depressa. Sentimentos genuínos, sem dúvida, tal como o são quando alguém falava sobre a fome no Biafra com um bife no/do lombo.

 

Aquilo que muitas vezes se me depara é outra coisa: acabam quase todos a perguntar se será então um bom local de recrutamento de pessoas, especialmente com formação técnica.

 

De uma penada vejo um certo tipo de mentalidade: uma cristã preocupação pelo sofrimento no mundo e um muito prático aproveitamento das oportunidades geradas. Pedro Passos Coelho tinha de facto razão: a crise e o desemprego são oportunidades. Para os outros países.

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Moda Outono/Inverno em Berlim

por Pedro Correia, em 17.10.13

Alemanha volta a ser governada com Bloco Central: um contributo para antecipar o guião político de Cavaco Silva em 2014.

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Comentários às eleições alemãs

por João André, em 23.09.13

Apesar de viver na Alemanha, decidi não falar neste tema. Segui mal a campanha e tinha consciência que independentemente de quaisquer surepresas, o resultado em termos de políticas seria o mesmo.

 

Seja como for, dois comentários e um aparte:

Do ponto de vista individualista, as eleições foram boas para mim.

Do ponto de vista colectivo, as eleições poderiam ser melhores (mas não muito, que o SPD não diferia assim tanto da CDU) mas tive pena pela queda dos Verdes.

 

Na sexta-feira vi um comício do FPD com o (ainda) ministro dos negócios estrangeiros. Pouco concorrido. É o que dá não aprenderem connosco e não levarem o Quim Barreiros nem distribuirem frigoríficos.

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Eleições na Alemanha

por Rui Rocha, em 23.09.13

Mudaram algumas moscas mas a Merkel é a mesma.

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Iron Lady

por Pedro Correia, em 22.09.13

Desfeito o mito de que todos os governos em funções perdem eleições na Europa: Angela Merkel vence e convence, com mais oito pontos percentuais do que nas legislativas de 2009. Os "analistas" que confundem desejos com realidades saem derrotados: nenhum deles anteviu este resultado.

Nada de decisivo na Europa se poderá fazer sem Merkel. E muito menos contra ela. O povo alemão assim o quis.

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As eleições alemãs.

por Luís Menezes Leitão, em 14.09.13

 

Por razões profissionais estive na semana passada na Alemanha e pude assistir à campanha eleitoral alemã. Da mesma pude concluir que a aspiração de tantos políticos portugueses de que alguma coisa possa mudar após essas eleições é perfeitamente ridícula. Angela Merkel está de pedra e cal na chancelaria, e não vai alterar um milímetro a política que desenhou para a Europa. Quanto a Peer Steinbrück, já tinha concluido que tinha tantas hipóteses de ser eleito chanceler como o Reichstag de dançar o samba. Mas depois desta entrevista bem pode ir já para casa. Merkel vai ser assim naturalmente reeleita e a única dúvida é se os seus parceiros de coligação, os liberais do FDP, conseguem ou não entrar no parlamento. Mas, com eles ou sem eles, não haverá solução de governo que não tenha Merkel na chancelaria.

 

Verifiquei ainda que o discurso radical contra os países do sul da Europa está a ter grande sucesso na Alemanha. Por todo o lado vi cartazes com frases como esta: "os gregos que paguem sozinhos as suas dívidas". Ou: "os resgates do euro põem em causa as nossas pensões". É espantoso que a opinião pública alemã não se aperceba do que o país já ganhou com a crise do euro. Mas como a política não é racional, é de prever que a prazo termine a paciência dos alemães para continuar a financiar estes resgates.

 

Neste enquadramento, não deixei de achar curioso que Wolfgang Münchau tenha vindo cá sugerir a Portugal que ameace com a saída do euro como estratégia negocial para obter melhores condições para nele permanecer. Acho que se Portugal adoptar essa estratégia o mais provável é do outro lado ouvir: "Excelente ideia! Estávamos mesmo a pensar propor-lhe isso".

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Coincidências

por João André, em 02.07.13

Há duas semanas, a Economist publicou um trabalho especial sobre a Alemanha. Num dos artigos falava da falta de mão de obra, especialmente qualificada, que grassa no país. Também referido foi o facto de as empresas alemãs, com mais do que uma mãozinha do(s) governo(s), estarem a importar cada vez mais essa mão de obra dos países do sul da Europa. Que coincidência isto suceder em pleno período de crise (especialmente) do sul da Europa.

 

Como não tenho jeito para a subtileza, adiciono aquilo que me foi confidenciado por uma pessoa amiga que trabalha no Parlamento Europeu há já bastante tempo: um dos objectivos para a austeridade brutal era mesmo o de levar os jovens qualificados a abandonar o seu país e a seguirem para os países que estão na mesma situação da Alemanha. É que os imigrantes da Turquia, Marrocos, África, Ásia ou semelhantes são excessivamente diferentes culturalmente, têm religiões diferentes e não vêm sempre muito qualificados. É mais simples importar os outros que já são europeus.

 

Teoria da conspiração? Talvez. Vindo de quem veio, dou mais credibilidade à ideia do que noutras situações. Tem buracos, como é óbvio, mas quanto mais penso nisso, mais me parece ter lógica. Aliás, pensando bem, estou para ver se o próximo quadro qualificado a aterrar na Alemanha não será um antigo ministro das finanças para inaugurar o seu novo gabinete na  Willy-Brandt-Platz em Frankfurt am Main.

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Podes começar a chorar, Angela Merkel!

por Rui Rocha, em 08.06.13

- Gaspar diz que foi o mau tempo que afectou o investimento.

 

- Alemanha devastada pelas maiores cheias dos últimos anos.

 

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No domingo passado distraí-me e acabei assistindo aos comentários do Professor Marcelo na TVI (*). A dada altura, ele explicou-nos (a nós, telespectadores, e a uma embevecida Judite de Sousa) que os resultados das eleições italianas, parecendo originar um problema de difícil resolução, revelar-se-ão afinal muito positivos, na medida em que obrigarão Angela Merkel a prestar atenção às reivindicações dos países do Sul. Segundo o Professor Marcelo, os alemães não ligam peva (o termo é meu mas o sentido é dele) à Grécia, nem a Portugal, nem sequer à Espanha, mas respeitam a Itália e sabem que esta lhes pode causar um montão de problemas bicudos (a expressão é minha mas o sentido é dele). Minutos depois, escalpelizando já o tema da alteração das condições dos empréstimos europeus a Portugal e à Irlanda, o Professor Marcelo anunciou que, obviamente, os prazos serão alargados e a curva de pagamentos suavizada mas que não se pode avançar demasiado depressa por necessidade de desenhar formas que, disfarçando a cedência dos governos dos países credores, evitem alienar os seus cidadãos e permitam as aprovações parlamentares necessárias. Referiu explicitamente a Alemanha e o jogo de cintura a que Angela Merkel, em pleno ano de eleições, se vê forçada.

Sendo que o Professor Marcelo – desculpe lá, Professor; almas gémeas na paixão pelo ténis, eu até gosto de si – não fez mais do que expressar o que muitos pensam, tudo isto é bonito e de uma coerência inatacável. Ora recapitulemos. Em Itália, castigam-se os políticos por terem ignorado a vontade popular; em Portugal, onde acusações idênticas aos políticos nacionais são às dúzias por hora, aplaude-se – diz-se que é a democracia a funcionar e, num glorioso corolário, exige-se que o governo alemão aprenda a lição e altere o rumo, ainda que contra a vontade dos cidadãos alemães. Em simultâneo, na Alemanha o governo parece utilizar subterfúgios para executar políticas que não corresponderão à vontade popular; em Portugal, com reservas porque continua a dar jeito ter a quem apontar o dedo, aplaude-se – diz-se que já não era sem tempo e exige-se mais. Convenhamos: a começar no PM que sonha ser PR, gostamos da democracia quando ela se molda às nossas tendências para a realpolitik.

 

(*) Pergunto-me sempre se ele teria atingido níveis de fama e respeito similares com um primeiro nome mais comum (tipo António, Carlos ou João) ou fora de moda e, por isso mesmo, ligeiramente incongruente (tipo Anacleto, Barnabé ou Frutuoso). Imagine-se Judite de Sousa dizendo: «É altura do comentário semanal do Professor Anacleto. Boa noite, Professor Anacleto. Que livros nos traz esta semana?»

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Die Frau mit langem Schatten

por José António Abreu, em 11.11.12

Nos primeiros anos da existência do euro (e com isto quero dizer desde a segunda metade da década de noventa, mesmo antes de ele circular sob a forma de notas e moedas), a Alemanha viu o investimento deslocar-se para Sul (bem como para Leste, mas deixemos isso para outra oportunidade), área geográfica onde os níveis de rentabilidade eram muito superiores e o risco (conforme famosas declarações de Vítor Constâncio) parecia igual. Ainda às voltas com os custos da reunificação, vendo o investimento escapar, confrontada com uma evolução demográfica assustadora e com um comércio onde a China ameaçava dar cartas, a Alemanha implementou reformas – não radicais mas significativas. Por exemplo, reviu a lei laboral e das prestações de desemprego (as famosas leis Hartz, com destaque para a Hartz IV) e alterou o sistema de segurança social, introduzindo, para além de mudanças nas fórmulas de cálculo, um sistema complementar privado e um aumento progressivo da idade da reforma para os 67 anos. Entretanto, os países do sul aplicavam o influxo de capitais em imobiliário, consumo e dívida pública. Quando a crise financeira de 2008 levou primeiro os países europeus a agravar o frenesim despesista e, logo a seguir, expôs o esquema de Ponzi a que se dedicavam há anos (e que muitos ainda hoje desejam prolongar), a Alemanha, não passando ao lado da crise (desde logo por causa dos bancos mas também porque, apesar das reformas, a economia alemã tinha – e tem – falhas), transformou-se num refúgio, vendo regressar os capitais e passando a financiar-se a juros pouco acima de zero. Naturalmente, transformou-se também no mau da fita.

 

Angela Merkel, que nos visita amanhã, foi quase irrelevante no meio de tudo isto. Em 2009 e 2010 deixou que Sócrates, Zapatero, Papandreou e Berlusconi utilizassem notas de euro como se fossem produtos descartáveis (mas, ei, a Alemanha não pode mandar nos restantes, certo?) e, depois, fez o que qualquer outro líder alemão teria feito. Para a Alemanha, como para a Finlândia, para a Holanda ou para a Áustria, era crucial que o euro permanecesse uma moeda forte (foi com base em moeda forte que enriqueceram) e isso implicava garantir que os países em dificuldades aplicavam um travão ao investimento não produtivo e faziam as reformas eternamente adiadas. Ter-se-ia dispensado a faceta punitiva, que hoje se revela prejudicial, mas mesmo essa deve ser compreendida: para um alemão, descobrir que a Grécia tinha aldrabado as contas para aceder ao euro; que vários países haviam aproveitado as taxas de juro reduzidas a que o euro lhes dera acesso para gastar desalmadamente; que, ao contrário do que sucedera na Alemanha, não haviam levado a cabo quaisquer reformas de fundo; para um alemão, como para qualquer pessoa de qualquer outra nacionalidade se colocada perante idêntico cenário, a vontade de aplicar um castigo surgiu instintivamente – e compreensivelmente.

 

Hoje, Merkel está presa entre uma União Europeia que ameaça colapsar e uma política que, a prazo, poderá arrastar a Alemanha para os eternos ciclos de desvalorização-inflação em que os países do Sul são exímios (e nos quais, depois da traumática experiência da década de vinte do século passado, os alemães juraram nunca mais cair). Dentro do euro, Merkel apenas dispõe de três vias: forçar uma austeridade a todo o custo que se revelará contraproducente mesmo para a própria Alemanha, amenizar a austeridade à medida (mas apenas à medida) que forem sendo implementadas reformas de fundo nos países em dificuldades (coisa que está a acontecer muito devagar, se é que está a acontecer de todo), ou aceitar pagar a conta, esquecendo a lição de Weimar. Sendo que, antes de mais, Merkel responde aos alemães, os quais não desejam o bailout e a julgarão dentro de menos de um ano. Aliás, para quem anda por aí a clamar que um governo eleito há dezassete meses perdeu legitimidade por já não reflectir a opinião popular, a política do governo alemão, alinhada com a vontade popular, devia merecer apreço. Pelo contrário, parece ser tão ou mais ofensiva.

 

Mas talvez a parte mais interessante e delicada do problema seja simbólica e não económica. Na ópera Die Frau ohne Schatten (A Mulher sem Sombra), do alemão Richard Strauss, a personagem principal é uma imperatriz presa entre dois mundos, o humano e o dos espíritos, denunciada como não totalmente humana pela falta de sombra. Merkel (que aprecia ópera mas, segundo creio – no que parece ser um pré-requisito para qualquer líder alemão –, prefere Wagner a Strauss) está também presa entre dois mundos (o da responsabilidade orçamental com uma moeda forte e o do laxismo com uma moeda fraca) mas carrega, pelo contrário, uma sombra demasiado longa: a sombra das duas guerras mundiais e das atrocidades do nazismo. Foi para a diminuir que a Alemanha prescindiu do marco e ligou o seu futuro ao de países cronicamente irresponsáveis (poucos alemães, incluindo políticos, desejavam a mudança*), é talvez em parte para a diminuir que se esforça por permanecer no euro. Tudo em vão. A sombra do passado continua a recair sobre os alemães (e continuará durante décadas, sempre que algo correr mal na Europa), tornando-os um pouco menos que humanos. Como provavelmente amanhã muitos cartazes não deixarão de mostrar.

 


* Circunstância que deveria pelo menos abalar as teorias da conspiração segundo as quais a Alemanha procura mais uma vez conquistar a Europa, desta feita sem recurso à força militar.

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Como é bom viver no campo

por Leonor Barros, em 11.11.12

O ar é mais puro, o ritmo é outro, posso comprar batatas, limões e ovos orgânicos produzidos num quintal aqui perto e posso, com muita felicidade minha, não ver o video sobre Portugal exibido nos painéis de Lisboa na segunda-feira, amanhã mesmo. Adoro a minha vida de aldeã nestas alturas. E agora um pedido: até terça-feira mantenham-se quietos e caladinhos e deixem se de ideias e de fazer mais videos para a Merkel. Já chega, sim?

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Ich bin ein Berliner.

por Luís Menezes Leitão, em 11.11.12

Sinceramente não sei como qualificar este vídeo. É a todos os títulos revoltante. Em primeiro lugar a manipulação óbvia, como o  dizer que a idade da reforma na Alemanha é de 61,7 anos, quando é de 67 anos,  ou fazer referência à tributação de Portugal no Orçamento para 2013, que ainda não foi aplicada, ou à eliminação de feriados em Portugal que só vigora no próximo ano. Depois a tentativa de responsabilizar a Alemanha pelos gastos disparatados que fizemos, como os submarinos, a rede de carros eléctricos, ou os estádios do Euro 2004, a pretexto de que foram contratados alemães para o efeito. Os fornecedores têm alguma culpa do endividamento em que caem os seus compradores? Depois temos a comparação disparatada entre a queda do muro de Berlim e a presente situação em Portugal, que só faz lembrar aos alemães quanto lhes custou a integração da RDA. E, por último, o estilo subserviente do filme como se fazer palhaçadas tornasse os nossos credores mais complacentes.

 

Se este filme passasse na Alemanha, acho que os alemães ficariam com uma ideia ainda pior de Portugal do que a que já têm. Eu pelo menos fiquei. Foi por isso um favor que nos fizeram que o vídeo não tivesse passado. Há certas pessoas em Portugal que no meio da tragédia ainda conseguem praticar a farsa.

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Depois de comprar a Lucasfilm, Disney admite contratar Rebelo de Sousa e Moita de Deus.

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Se é para dizer aos alemães que trabalhamos mais horas que eles, dou graças por não ter sido autorizado o filme/video/clip na Praça Sony em Berlim. Chega de ridículo.

 

Editado: o filme pode ser visto aqui.

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Deviam ter mandado o Balas e Bolinhos

por Rui Rocha, em 10.11.12


A Alemanha recusou a divulgação no país do vídeo sobre Portugal que o professor Marcelo Rebelo de Sousa anunciou e promoveu.

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Ra(n)ting

por José António Abreu, em 26.07.12

Parte 1

Sobre a lógica da decisão da Moody's

 

1. A decisão da Moody’s de colocar a dívida alemã (juntamente com a holandesa e luxemburguesa) sob vigilância, com perspectiva negativa, não é surpreendente, apenas lógica. A dívida pública alemã encontra-se acima dos 80% e, de uma forma ou de outra (isto é, quer o euro sobreviva, quer não), a Alemanha enfrentará sérias dificuldades nos próximos tempos.

 

2. Tal como a situação se apresenta (países em dificuldades sem capacidade para implementar verdadeiras reformas – e não apenas aumentos de impostos e cortes de salários – e clima pouco propício a ajuda incondicional nos países ainda em situação razoável), não há razão para estar optimista. Se o euro se dividir em duas ou mais moedas, a valorização da nova moeda alemã e o colapso dos mercados nos países do Sul farão com que a economia alemã tenha uma contracção significativa. Apesar de a nova moeda tornar a dívida mais barata, a diminuição de receitas e o aumento de despesas (com subsídios de desemprego, por exemplo) agravará o défice. O que agravará a dívida. Etc.

 

3. Mas ainda que, mal saídos do esforço (longe de consensual) da reunificação, os alemães ficassem subitamente dispostos a apoiar sem reservas os países do Sul, dificilmente a Alemanha teria capacidade para salvar Espanha e Itália.

3.1. Bom, mas talvez não fosse preciso dinheiro real, talvez bastassem garantias de que os alemães estavam dispostos a isso para que os investidores voltassem a acorrer aos leilões de dívida pública dos países do Sul, baixando o nível das taxas de juro. A Alemanha (e os outros países recalcitrantes) apenas teriam, por exemplo, de fazer do BCE um lender of last resort. Pois, talvez chegasse. Ou talvez não. Por um lado, pedir emprestado a dois ou três por cento ainda seria aumentar a dívida acima do crescimento económico previsível nos próximos tempos. Por outro, para funcionar, qualquer garantia precisa de ser credível. E os mercados costumam fazer o teste.

3.2. Se/quando os investidores não acorressem em massa, o BCE teria então de começar a imprimir montes de dinheiro fresco, emprestando-o baratinho aos países em dificuldades. O resultado prático disso seria fazer crescer o esquema de Ponzi em que a economia europeia está transformada (se companhia na desgraça serve de consolo a alguém, várias outras estão em situação parecida). Não há, nos países europeus em dificuldades, forma de extrair crescimento sustentável desse dinheiro: apoiar sectores que cresceram artificialmente (como a construção e o imobiliário) através de incentivos à construção ou à compra de imóveis seria deitar o dinheiro fora; teimar no investimento público quando o nível de infra-estruturas já é excelente, não seria muito melhor (parece, aliás, que Hollande, esse Messias da Europa, começa a percebê-lo – mas felizmente conhece outros métodos infalíveis para vencer a crise, como proibir empresas privadas com prejuízos de despedir trabalhadores); aproveitar o dinheiro para manter satisfeitos os funcionários de sectores públicos pesados e ineficientes geraria apenas o que tem gerado: dívida pública e sectores públicos ainda mais pesados, ineficientes – e difíceis de reformar. Etc., etc., etc. Entretanto, o nível de consumo recuperaria alguma coisa, com efeito positivo na receita pública mas efeito negativo na balança comercial dos países que costumam tê-la precisamente assim: negativa (por exemplo, Portugal, Espanha e França; cliquem no nome do país e depois no indicador balance of trade). E teríamos ainda os riscos de inflação que, mais cedo ou mais tarde, haviam de passar a realidade, levando à perda do poder de compra de todos os cidadãos da zona euro. É verdade que as exportações para fora da zona euro ficariam mais competitivas, o que provavelmente faria a economia alemã sobreaquecer, tornando real o maior pesadelo dos ministros das finanças por lá (na verdade, a cotação actual do euro até já é demasiado baixa para a economia alemã actual). Mas, no fundo, tanta conversa é desnecessária: todos sabemos que os esquemas de Ponzi têm um final desagradável – e tanto mais desagradável quanto mais tempo duram.


 

Parte 2

Sobre outros pontos relacionados com as agências de rating

 

1. As agências de rating seriam irrelevantes se os Estados não estivessem tão dependentes de dinheiro emprestado. Mas que governo faz contas enquanto o rating permanece Triplo A?

 

2. Como ficou evidente na questão do subprime, a verdadeira falha das agências é demorarem demasiado tempo a baixar os ratings. Mas que as acusemos de algo num caso e queiramos o contrário no outro é apenas natural: agora somos accionistas.

 

3. Há quem defenda a criação de novas agências e quem defenda regulação das actuais. Nada tenho contra a primeira hipótese, excepto se estivermos a falar de usar dinheiro público: uma agência ligada a um governo ou a um bloco económico terá tanta credibilidade como uma declaração de Durão Barroso ou Jean-Claude Juncker. Será mais dinheiro deitado fora. A questão da regulação passa por saber quem regularia e com base em que critérios. Mas convém estar ciente de que, se estes fossem objectivos (o défice, a dívida, as perspectivas de crescimento económico, ...), os ratings dos países europeus seriam neste momento… mais ou menos os mesmos. Em alguns casos, piores.

 

4. E daí talvez eu esteja enganado. Talvez outras agências que não as três do costume possam ser mais fiáveis. Relembre-se o que a chinesa Dagong (existirão mecanismos de controlo estatal na China?) fez aos ratings europeus há já dois anos.

 

5. Em teoria, desejamos independência e objectividade; na prática, clamamos por controlo governamental de tudo e de todos. As agências podem parecer servir interesses especulativos e até funcionar mal – mas seria melhor um sistema em que os endividados se auto-avaliassem? E veja-se o caso do BCE. A independência e os objectivos do BCE destinam-se a manter condições estáveis, conhecidas por todos. Para o BCE, não é nem deve ser relevante se existem diferenças de rendimento entre países da zona euro. Essa é uma questão para os governos, que devem enfrentá-la com os instrumentos de que dispõem (subindo ou baixando impostos, aumentando ou diminuindo o peso do Estado, criando ou eliminando mecanismos de protecção social, etc.). E, no entanto, o BCE é criticado diariamente por não ajudar a resolver as dificuldades de alguns países (sendo que, de formas ínvias, até o tem vindo a tentar fazer). Percebe-se: acusar o BCE (ou a chanceler Merkel) é mais fácil para os políticos. Esconde-lhes as incapacidades. E como toda a gente está mais do que disposta a pensar mal dos banqueiros... Ou seja: na verdade, não desejamos mecanismos independentes, para as agências de rating ou para o que quer que seja. Desejamos que nos façam a vontade, em função do que, em cada momento e numa perspectiva de curto prazo, nos parece ser o caminho mais fácil.

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As transferências...

por Helena Sacadura Cabral, em 24.06.12

 

“Devemos transferir mais competências para Bruxelas em domínios políticos importantes, sem que cada Estado nacional possa bloquear decisões”, defende o ministro das Finanças alemão numa entrevista, citada pela AFP.

Pois, pois, dizemos nós!

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As coisas são o que são

por Pedro Correia, em 13.05.12

Lentamente, a política regressa à Europa. A política que põe teses em confronto e rejeita todo o pensamento unidimensional. A política que fomenta e sedimenta alternativas, recusando rotas "inevitáveis" traçadas de antemão.

Devemos congratular-nos. Este é o cerne da democracia.

A mudança está a acontecer um pouco por toda a União Europeia. Incluindo na poderosa Alemanha de Angela Merkel, onde a União Democrata-Cristã (CDU) registou hoje o pior resultado de sempre na Renânia do Norte-Vestefália, o mais populoso Estado do país, onde se situam cidades como Bona, Colónia e Düsseldorf. As sondagens à boca das urnas apontam para uma clara maioria do Partido Social-Democrata (39%, mais cinco pontos percentuais do que no anterior escrutínio, ocorrido em Outubro de 2010), muito à frente da CDU (26%, menos oito pontos). Os sociais-democratas preparam-se para renovar a nível estadual a coligação com os verdes, que obtiveram 12%, enquanto o Partido Liberal, parceiro de Merkel a nível federal, não conseguiu melhor do que 8,5%.

Em 2005 a CDU alcançara 44,5% neste Estado, o que demonstra até que ponto os democratas-cristãos estão em recuo na Renânia do Norte-Vestefália, um Estado que costuma funcionar como teste seguro das oscilações de voto a nível nacional. Uma tendência que já se vinha desenhando nas eleições estaduais em Hamburgo (Fevereiro de 2011), Baden-Vutemberga (Março de 2011), Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental (Setembro de 2011) e Schleswig-Holstein (há uma semana).

«Estas eleições devem preocupar a chanceler Merkel. O grande declínio do voto nos democratas-cristãos indicam uma forte aversão às propostas do seu partido. Nas sondagens nacionais, ela - em termos pessoais - continua popular, mas o seu partido não», escreve Stephan Evans, analista político da BBC.

As coisas são o que são.

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A Europa a seus pés.

por Luís Menezes Leitão, em 13.05.12

Desde o fim da II Guerra Mundial que não temos um chanceler alemão com o poder na Europa que possui a chancelerina Angela Merkel. Desde que surgiu a crise do euro que todas as instituições da União Europeia se apagaram e o verdadeiro poder na Europa se deslocou totalmente para Berlim. Os portugueses puderam assistir a Sócrates ser chamado a Berlim ou a Passos Coelho levar um puxão de orelhas por ter reprovado o PEC 4. Desde então Passos Coelho está tão disciplinado à ortodoxia germânica que até declara publicamente que Portugal é contra os eurobonds, os quais, apesar de inaceitáveis para a Alemanha, nos seriam altamente favoráveis. E para que não tenhamos sequer ilusões sobre a actual realidade em que estamos, Passos Coelho mandou até abolir o feriado que comemora a independência de Portugal.

No resto da Europa, por muito que os países votem contra as medidas impostas pela Alemanha, os governos acabam por se vergar. A Grécia já foi avisada que, sejam quais forem os resultados eleitorais, nem sonhe em formar um Governo com os partidos opositores da troika. Se o fizer, o dinheiro é cortado no minuto seguinte, caso em que os gregos terão o exemplo vivo do significado da sua expressão kaos. E a França, depois das ridículas bravatas eleitorais do senhor Hollande, assiste agora a este ir, no próprio dia da sua tomada de posse, a Berlim ao beija-mão, num acto de vassalagem inacreditável para um Presidente francês. 

Já se viu assim que as eleições nos restantes países europeus não servem para nada, que a senhora Merkel continua a pôr e dispor como quer na Europa. Curiosamente, no entanto, tem vindo a perder todas as eleições na Alemanha, de que a estrondosa derrota hoje no Nordrhein-Westfallen é o mais recente exemplo. Começa a ser, no entanto, estranho que as eleições regionais alemãs tenham mais peso para o resto da Europa que as eleições nacionais dos restantes países. Se é o Governo alemão que actualmente manda na Europa, não deveriam os restantes europeus ter uma palavra a dizer sobre esse governo?

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Dança, dança.

por Luís M. Jorge, em 10.05.12

A Alemanha adiou a votação do Tratado Orçamental. Os zezinhos da Sra. Merkel bem podem agitar a vesícula.

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