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Meu Capitão

por Pedro Correia, em 25.04.15

 

Salgueiro Maia fotografado por Alfredo Cunha (Lisboa, 25 de Abril de 1974)

 

 

Um verdadeiro herói nunca se considera herói.

Cumpre o seu dever não por ser um dever

mas por urgente imperativo de consciência.

Dá o nome

a cara

o peito às balas

e se for preciso a vida

pela causa que crê ser mais justa

entre todas as causas.

 

 

Um verdadeiro herói pensa em si próprio

só depois de pensar nos outros.

Avança sem temor

com a noção exacta

de que joga tudo numa ínfima fracção de tempo:

conforto, carreira, promoções, anonimato.

Ficando a partir daí

exposto ao escárnio imbecil

de todos os cobardes

que nunca dão um passo

fora do perímetro de segurança

mas quando a poeira assenta

logo surgem muito expeditos

a julgar os outros.

A julgar aqueles como tu:

os que arriscam

os que experimentam

os que se atrevem a romper as malhas

de um quotidiano medíocre.

Os que trocam a palavra eu pela palavra nós.

Os que nunca se conformam.

 

 

Um verdadeiro herói

é aquele que deixa a sua impressão digital

nas insondáveis rotas do destino humano.

 

 

Tu ousaste mudar um país.

Não pelo sangue

não pelo ódio

não pela intriga

mas pelo gesto

pelo rasgo

pelo exemplo.

Sabendo como é ténue a fronteira

entre glória e drama

quando alguém irrompe de madrugada

pronto a desafiar os guiões da História.

 

 

Fernando Salgueiro Maia.

Foste um herói

ao comandar a patrulha da alvorada.

Voltaste a ser um herói

quando decidiste retirar-te ao pôr-do-sol

deixando outros pavonear-se sob o clarão dos holofotes.

Recusaste ficar exposto na vitrina.

Recusaste servir de bandeira.

Recusaste ser "vanguarda revolucionária".

Recusaste ser antigo combatente.

Recusaste dar pretextos para dividir.

Tu que foste um poderoso traço de união entre os portugueses

naquelas horas irrepetíveis em que tudo podia acontecer.

 

 

Saíste do palco:

aquela peça já não te dizia respeito.

 

 

E nunca a tua grandeza se revelou tão evidente

como no momento em que abandonaste a ribalta

regressando à condição de homem comum.

Indiferente a ladainhas e louvores.

Longe da multidão

que fugazmente te acenou

na mais límpida de todas as manhãs.

Sem outra medalha além desta:

eternamente graduado no posto

de capitão da liberdade.

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Churchill: um herói do século XX

por Pedro Correia, em 24.01.15

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De entre as figuras que se impuseram no século XX, fosse para o bem ou para o mal, Winston Churchill foi a mais importante para a humanidade, e foi também a mais amável de todas. Não há outra personalidade da qual se possam extrair tantas lições, em especial para a juventude: a tirar partido de uma infância difícil; a aproveitar ao máximo todas as oportunidades, físicas, morais e intelectuais; a ousar em grande, para reforçar o êxito e ultrapassar os inevitáveis fracassos; e a ter ambições elevadas, aplicando-lhes toda a energia e paixão, sem deixar de cultivar a amizade, a generosidade, a compaixão e a elevação moral."

Paul Johnson, Churchill

 

Winston Spencer Churchill, filho de um aristocrata inglês e de uma beldade norte-americana, recebeu notas medíocres como estudante e jamais foi tratado com afecto pelo pai, um indivíduo propenso a depressões. Tinha todos os requisitos para ser considerado uma "criança problemática", de acordo com um jargão agora muito em voga, mas foi o mais bem sucedido político britânico de todos os tempos.

Era, simultaneamente, um homem de reflexão e um homem de acção. Escreveu excelentes obras, como The World Crisis (1923/27) e Aftermath (1929). Os seis volumes das suas memórias sobre a II Guerra Mundial - na qual foi um dos grandes protagonistas -, concluídos em 1951, tinham vendido mais de seis milhões de exemplares só em língua inglesa dois anos mais tarde, quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Pintou mais de 500 quadros - "mais do que muitos pintores chegaram a pintar em toda a vida", como acentuou Paul Johnson na biografia do homem que foi deputado durante 55 anos, ministro (do Interior, da Marinha, das Colónias e das Finanças) durante 31 e primeiro-ministro - em dois mandatos - durante quase nove.

 

Morreu faz hoje meio século, aos 90 anos, após uma vida intensa: combateu como militar em 15 batalhas em quatro continentes (Cuba, Índia, Sudão, África do Sul na guerra dos Boers e Flandres durante a I Guerra Mundial), e recebeu 14 condecorações de guerra. Viu a morte várias vezes à sua frente, mas nunca perdeu a alegria de viver. Publicou quase dez milhões de palavras ("mais do que muitos escritores profissionais publicam ao longo de toda a vida"), teve um casamento feliz que durou 56 anos e terá bebido perto de 20 mil garrafas de champanhe, a sua bebida favorita.

Expressões hoje de uso corrente foram cunhadas ou popularizadas por ele - Médio Oriente, Cortina de Ferro, "sangue, suor e lágrimas". Foi o primeiro político a fazer com os dedos o V da vitória, gesto que quase todos os outros depois dele adoptaram. Era um grande caçador e um viajante infatigável: deu várias vezes a volta ao mundo. Desportista, praticou pólo até aos 53 anos. Não escondia o fascínio pelo cinema. Adorava conduzir e tinha brevet de aviador.

Cometeu muitos erros, mas acertou nas opções essenciais. Como quando levantou a sua voz solitária no Reino Unido contra o avanço das hordas nazis que na década de 30 iam devorando a Europa, país após país. Ou quando criticou sem reservas o seu antecessor, Neville Chamberlain, adepto do "apaziguamento" com Hitler. "Toda a história do mundo teria sido diferente se ele não tivesse assumido o poder em 1940", assinalou ontem o jornalista John Simpson na BBC.

Disfrutava de autoridade natural mas nunca se levou excessivamente a sério: no auge do seu poder, todos os britânicos lhe chamavam Winston.

 

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Se existem figuras exemplares, Churchill foi uma delas. "Era um homem de coragem, que é a mais importante de todas as virtudes, e um homem de fortaleza, que é a companheira da coragem - recursos que são inatos, mas que também podem ser cultivados, e que Churchill cultivou toda a vida", escreveu Paul Johnson na excelente biografia do homem que se bateu quase isolado contra Hitler.

O historiador britânico é um admirador confesso de Churchill, com quem se cruzou uma vez, quando tinha apenas 17 anos. Foi em 1946. O então adolescente perguntou-lhe: "Senhor Churchill, a que atribui o sucesso que teve na vida?" Resposta pronta do político que no ano anterior emergira como um dos vencedores da II Guerra Mundial: "À conservação da energia. Nunca se levante se pode estar sentado, nunca se sente se pode estar deitado."

 

Um liberal de sempre, Churchill nunca se deixou abater pelos desaires e costumava dizer, cheio de razão: "Não há nada mais esgotante do que o ódio."

Na biografia que lhe dedicou (Churchill, Alêtheia, 2010) Johnson prestou justiça àquele que foi talvez o maior tribuno parlamentar do século XX, dotado de uma eloquência que nunca deixou de ser temperada com uma pitada de humor. Mesmo nos momentos mais dramáticos, como sucedeu a 4 de Junho de 1940, ao discursar na Câmara dos Comuns na qualidade de recém-empossado primeiro-ministro, já com Paris ocupada pelas tropas nazis. "Lutaremos nas praias, lutaremos nas pistas de aterragem, lutaremos nos campos e nas cidades, lutaremos nas montanhas. Lutaremos sem jamais nos rendermos", afirmou, numa alocução que se tornou célebre.

Logo acrescentando, num aparte em sotto voce: "E lutaremos com ancinhos e vassouras porque não teremos mais nada."

Winston era assim.

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Uma lição

por Pedro Correia, em 13.01.15

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Na gala em Zurique onde ontem Cristiano Ronaldo recebeu a terceira Bola de Ouro da sua carreira (já tinha sido galardoado em 2008 e 2013), perguntaram-lhe qual foi o melhor golo da sua carreira.

Resposta imediata do nosso campeão: «O próximo.»

Nesta resposta percebe-se bem o que leva Ronaldo a superar todos os obstáculos. Em vez de contemplar o passado, como é hábito entre os portugueses, fixa sempre novos objectivos a conquistar no futuro.

Uma lição para todos nós.

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Faz hoje trinta anos

por Pedro Correia, em 12.08.14

 

Era já madrugada e nós seguimos

quilómetro a quilómetro a corrida

Era já madrugada e nós corríamos

com aquele que levava ao peito as quinas

Era já madrugada e nós não víamos

o loiro Menelau e as belas crinas

dos imbatíveis cavalos do Atrida.

 

Era só Carlos Lopes que nós víamos

e com ele ganhámos a corrida

aquela madrugada e toda a vida.

 

Manuel Alegre

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Futebol é isto

por Pedro Correia, em 24.06.14

 

Ao contrário do que alguns imaginam, o futebol não é só feito de esquemas tácticos, jogadas a régua e esquadro, losangos, bolas paradas e "transições ofensivas". O futebol é sobretudo uma fascinante soma de momentos mágicos que perduram na memória colectiva, ampliam a nossa crença nas potencialidades da espécie humana e demonstram onde é possível chegar quando talento e esforço se conjugam. Momentos como o que ontem testemunhámos ao minuto 36 do Austrália-Espanha: bem servido por Iniesta, David Villa marca um extraordinário golo de calcanhar. O seu 59º jogo pela Roja. E também o último: minutos depois, aos 56', o maior marcador da história da selecção espanhola, goleador máximo do Campeonato da Europa de 2008 e do Campeonato do Mundo de 2010, saía de campo sob um coro de merecidos aplausos. Espanha, prematuramente afastada do Mundial do Brasil, já não tinha nada a ganhar excepto aquele desafio que só contava para cumprir calendário. Mas Villa bateu-se em campo, neste último jogo, como se fosse o primeiro da sua exemplar carreira. Porque queria abandonar a selecção de cabeça levantada.

Era ele que ali estava - mas era mais do que ele, como o homem do leme do poema de Fernando Pessoa: era já também o mito. Um mito vivo, feito de carne e osso. E também de lágrimas, que não conseguiu reprimir ao sentar-se no banco de suplentes. Quem disse que um herói não chora?

Futebol é isto.

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Ainda há heróis

por Pedro Correia, em 04.06.14

 

Chai Ling, com 23 anos, falando aos outros estudantes concentrados em Tiananmen (Primavera de 1989)

 

No coração da remota China muçulmana, a população turcófona continua a ser remetida para guetos nos subúrbios: os melhores empregos e as melhores habitações cabem à etnia han, dominante no conjunto do país. Só existe igualdade na lei, não existe na prática: os uígures são tratados como cidadãos de segunda na sua própria terra. Que crime cometeram? Procurarem manter a identidade cultural, falando a sua língua e professando a sua religião no Estado mais populoso do mundo, onde a norma é esmagar toda a diferença.

Acontece hoje no Xinjiang, acontece há meio século no Tibete, aconteceu em 1989 na própria sede suprema do Império do Meio.

 

Sei bem do que falo. Há um quarto de século, vivi em Macau um dos períodos mais tristes de que me lembro, quando vi esmagar a Primavera com que milhões de chineses haviam sonhado – a Primavera política, após quatro décadas de regime ditatorial, afogada em sangue naquela trágica madrugada em Tiananmen, a Praça da Paz Celestial, que nunca fez tão pouco jus ao seu nome poético. Após mês e meio de protestos pacíficos, iniciados em Abril, com a morte súbita do ex-secretário-geral do Partido Comunista Chinês, o reformista Hu Yaobang, destituído dessas funções em 1987.

Recordo as expressões festivas nos rostos de muitos chineses semanas antes, dias antes, quando toda a esperança parecia possível.

Recordo as figuras dos principais dirigentes estudantis, imagens que galvanizaram toda uma geração – jovens como Wang Dan, Chai Ling e Wuer Kaixi, que viriam a ser perseguidos e forçados ao exílio.

Recordo a euforia popular que rodeou a chegada à capital chinesa em meados de Maio, para uma visita oficial, de Mikhail Gorbatchov, o homem que se preparava para derrubar a cortina de ferro e servia de inspiração ao ansiado derrube da cortina de bambu.

Recordo também a mobilização de uma vasta força repressiva, composta por 300 mil soldados mandatados para estancar a revolta. Recordo a proclamação da lei marcial por Deng Xiaoping (que só viria a ser levantada em Janeiro de 1990) e o afastamento do líder do partido, Zhao Ziyang, acusado de ser excessivamente brando pelos falcões da ditadura e condenado a partir daí à morte civil e à reclusão doméstica com carácter vitalício.

Recordo o silêncio de chumbo nos dias subsequentes ao massacre.

 

 

Recordo sobretudo o impressionante instantâneo daquele homem sem rosto nem nome, de braços nus, enfrentando uma sinistra fileira de tanques, imortalizado pelo clique da máquina fotográfica de Stuart Franklin. Símbolo máximo da dignidade humana perante a força bruta - há 25 anos em Pequim, hoje no Xinjiang que teima em ser diferente.

Quando ouço dizer à minha volta que já não existem heróis, lembro-me sempre daquele homem sem medo. Que outro nome haveremos de dar-lhe senão esse – o de herói?

 

Leitura complementar: Stuart Franklin: how I photographed Tiananmen Square and 'tank man'

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Meu Capitão

por Pedro Correia, em 25.04.14

 Salgueiro Maia fotografado por Alfredo Cunha (Lisboa, 25 de Abril de 1974)

 

Um verdadeiro herói nunca se considera herói. Cumpre o seu dever não por ser um dever mas por urgente imperativo de consciência. Dá o nome, a cara, o peito às balas e se for preciso a vida pela causa que crê ser mais justa entre todas as causas.

Um verdadeiro herói pensa em si próprio só depois de pensar nos outros. Avança sem temor com a noção exacta de que joga tudo numa ínfima fracção de tempo -- conforto, carreira, promoções, anonimato. Ficando a partir daí exposto ao escárnio imbecil de todos os cobardes -- aqueles que nunca dão um passo fora do perímetro de segurança mas quando a poeira assenta logo surgem muito expeditos a julgar os outros. A julgar aqueles como tu: os que arriscam, os que experimentam, os que se atrevem a romper as malhas de um quotidiano medíocre. Os que trocam a palavra eu pela palavra nós. Os que nunca se conformam.

Um verdadeiro herói é aquele que deixa a sua impressão digital nas insondáveis rotas do destino humano. Tu ousaste mudar um país. Não pelo sangue, não pelo ódio, não pela intriga -- mas pelo gesto, pelo rasgo, pelo exemplo. Sabendo como é ténue a fronteira entre glória e drama quando alguém irrompe de madrugada pronto a desafiar os guiões da História.

Foste um herói ao comandar a patrulha da alvorada, Fernando Salgueiro Maia. Voltaste a ser um herói quando decidiste retirar-te ao pôr-do-sol deixando outros pavonear-se sob o clarão dos holofotes. Recusaste ficar exposto na vitrina. Recusaste servir de bandeira. Recusaste ser "vanguarda revolucionária". Recusaste ser antigo combatente. Recusaste dar pretextos para dividir. Tu que foste um poderoso traço de união entre os portugueses naquelas horas irrepetíveis em que tudo podia acontecer.

Saíste do palco: aquela peça já não te dizia respeito.

E nunca a tua grandeza se revelou tão evidente como no momento em que abandonaste a ribalta, regressando à condição de homem comum. Indiferente a ladainhas e louvores. Longe da multidão que fugazmente te acenou na mais límpida de todas as manhãs. Sem outra medalha além desta: eternamente graduado no posto de capitão da liberdade.

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Cristiano Ronaldo

por Pedro Correia, em 06.03.14

 

Mesmo quando integrados num colectivo, não cessamos de procurar a individualidade, aquele que se distingue das massas amorfas. É assim também no desporto, um fenómeno social que vive muito do culto dos heróis.
Devemos congratular-nos por ter nas nossas fileiras um jogador que desequilibra, que ultrapassa a mediania, que se projecta muito para além das fronteiras da terra pobre que o viu nascer, tornando-se uma personalidade conhecida em todo o planeta. Esse jogador é Cristiano Ronaldo, autor de dois dos cinco golos da vitória desta noite de Portugal aos Camarões, no primeiro jogo de preparação para o Mundial do Brasil. Neste desafio tornou-se, aos 29 anos, o maior goleador de sempre da selecção nacional.

 

Um dia todos diremos com orgulho: eu vi-o jogar, ao vivo e a cores, era um futebolista extraordinário.
Saibamos reconhecer isso enquanto ele ainda aí está, no auge da carreira, transbordante de talento e entrega a esta paixão desmedida que se chama futebol.

 

Também aqui

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Para sempre

por Pedro Correia, em 05.12.13

 

"Se estivermos à altura de uma pequena parte do que Mandela é, o mundo será um lugar melhor."

Kofi Annan

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Fala-lhes do sonho, Martin

por Pedro Correia, em 27.08.13

 

Faz amanhã meio século, um reverendo baptista de baixa estatura e vontade inquebrantável, militante anti-racista, pronunciou o segundo melhor discurso que conheço do século XX (tenciono falar do melhor amanhã). Martin Luther King culminou a gigantesca marcha de Washington, que congregou cerca de 250 mil pessoas, com a última de dez intervenções proferidas nas escadarias do Memorial Lincoln - local emblemático por evocar o presidente norte-americano que libertou os EUA da escravatura e pagou com a vida por isso.

Falando perante aquele que era então o mais vasto auditório de sempre no seu país, com as três estações de televisão nacionais transmitindo em directo, King começou o discurso lendo um texto que levava escrito, mas - segundo reza a lenda - quando já havia muitas pessoas a dispersar naquela tarde de 28 de Agosto de 1963, a cantora Mahalia Jackson incentivou-o em voz bem audível: "Fala-lhes do sonho, Martin!"

Ele largou os papéis, passando a falar de improviso. Destes dois momentos conjugados nasceu um discurso extraordinário, pontuado de referências bíblicas (com citações do Salmo 30:5 e do livro de Isaías, 40:4-5) em defesa da igualdade racial e em sonoro protesto contra todos os actos de discriminação de que os cidadãos americanos de raça negra continuavam a ser alvo um século após a guerra civil, sobretudo nos estados do sul governados por caciques do Partido Democrático.

"Sonho que um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos esclavagistas serão capazes de se sentar à mesa da fraternidade. Sonho que um dia até o Mississipi, um estado que sufoca sob o calor desértico da injustiça e da opressão, se transformará num oásis de justiça e liberdade. Sonho que um dia os meus quatro filhos viverão numa nação onde não serão julgados pela cor da pele mas pelo seu carácter", declarou King nesta obra-prima da oratória política, peça essencial para a promulgação da legislação que reconheceria direitos civis a todos os norte-americanos, promulgada dez meses mais tarde pelo presidente Lyndon Johnson.

 

James Reston, um dos mais categorizados jornalistas do New York Times, fez a cobertura do acontecimento, no qual John Kennedy, então inquilino da Casa Branca, chegou a pensar participar antes de ter sido fortemente dissuadido pelos seus conselheiros, receosos de que a marcha pelos direitos raciais degenerasse em tumultos na capital dos Estados Unidos. Mas Reston, com o seu inegável instinto jornalístico, não foi capaz de descortinar a força mobilizadora do discurso do futuro Prémio Nobel da Paz, tendo-lhe reservado um modesto 19º parágrafo na peça de reportagem que o mais influente diário norte-americano dedicou no dia seguinte à memorável manifestação de Washington - prova evidente de que nem sempre o jornalismo está em condições de ser o primeiro rascunho correcto dos livros de História.

Meio século depois, com tantas segregações ainda em vigor - de modo explícito ou implícito - nos mais diversos locais do globo, faz falta uma nova Mahalia Jackson a incentivar: "Fala-lhes do sonho, Martin!" E faz falta, acima de tudo, um novo Luther King, transformando a resistência passiva e a não-violência em poderosos instrumentos de combate cívico em defesa dos direitos humanos, com a sua retórica de profeta iluminado, capaz de mobilizar incontáveis multidões através dos continentes só com o poder da palavra.

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Como se a Lua estivesse de luto

por Pedro Correia, em 26.08.12

 

A infância desaparece-nos definitivamente quando vemos partir os nossos primeiros e mais remotos heróis. Eu cresci num mundo onde alguns me garantiam já não haver heróis. Nada mais disparatado: nunca duvidei que havia heróis e Neil Armstrong - o primeiro homem a pisar a Lua, naquele inesquecível mês de Julho de 1969 - sempre foi um deles. Num certo sentido, foi o herói - assim mesmo, com artigo definido. Não havia nenhum que se lhe equiparasse. Nem haverá. O que restava da minha infância eclipsou-se ontem, com a inesperada morte do astronauta norte-americano que liderou a missão da Apolo XI.

Sinto-me de luto. Era de noite quando me chegou a notícia: procurei a Lua no céu e não a encontrei. Como se ela estivesse de luto também.

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Ainda há heróis

por Pedro Correia, em 23.12.11

Uma imagem para a História: Aleksandr Dubcek e Václav Havel durante a Revolução de Veludo (1989). Foto de Justin Leighton.

 

O século XX ficou marcado, de uma ponta a outra, por demasiadas figuras sinistras -- tiranos, torcionários, carrascos do seu povo e de outros povos. Amarga ironia da história: sabemos muitas vezes com mais facilidade de cor os nomes desses déspotas do que os daqueles -- bem mais raros -- que contribuíram para tornar o mundo melhor.

Um político cujo nome merece a pena ser decorado e recordado pelas gerações futuras é Václav Havel. Dramaturgo, pensador, antigo preso político, fundador e activista da Carta 77, grande figura de referência ética contra o regime imposto em Praga pelos blindados soviéticos em Fevereiro de 1948 e Agosto de 1968, conduziu em 1989 a Revolução de Veludo mobilizando milhões de checos e de eslovacos contra a ditadura comunista. E nesse processo -- tendo a seu lado Aleksandr Dubcek, o malogrado arquitecto do "socialismo de rosto humano" estrangulado pelas tropas do Pacto de Varsóvia com o aplauso do PCP -- demonstrou toda a sua fibra de resistente, toda a sua coragem física e política, toda a sua enorme envergadura moral. Com uma oratória persuasiva e galvanizadora, apelou às melhores energias dos compatriotas que o ajudaram a derrubar a burocracia despótica do "socialismo real" checoslovaco, espécie de estalinismo mitigado, medíocre máquina trituradora de aspirações e sonhos.

Na pátria de Kafka, esta foi uma das revoluções mais bem sucedidas de que há memória. Sem um tiro, sem derramamento de sangue. Graças à enérgica liderança de Havel -- democrata assumido, pacifista convicto, crente na virtude da tolerância como forma de mobilizar vontades e de cativar até os inimigos da liberdade.

Este homem íntegro, vertical, serviu o seu povo como Chefe do Estado e após o cumprimento do mandato presidencial soube regressar da melhor forma à condição de cidadão comum. Que é pouco. Mas que é tudo.

No preciso momento em que escrevo estas linhas decorre o seu funeral em Praga. Confesso: são linhas comovidas. Porque Havel foi uma das figuras da política internacional que mais admirei. Graças a ele, e a alguns outros, posso gabar-me de ter vivido numa época com heróis de carne e osso.

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Um herói chamado Sócrates

por Pedro Correia, em 04.12.11

 

Tiveste jeito, como qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer de nós
(...)
Belarmino:
Quando ao tapete nos levar
a mofina;
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões com jeito
e amadores da má vida

Belarmino, poema de Alexandre O' Neill

 

Houve uma época em que se tornou politicamente correcto proclamar que ninguém tinha heróis. Destacar uma individualidade no meio da massa informe era um luxo burguês, um pecado burguês: o que interessava então era "o colectivo". Felizmente esses tempos foram passando com o virar das modas e o indivíduo dotado de talento singular, irrepetível, insubstituível, recuperou o lugar que lhe é devido nas páginas da História.

Por mim, nunca tive qualquer problema em prestar o meu tributo a figuras que nos mais diversos domínios considerei exemplares. No futebol praticamente ninguém justificou tanto a minha admiração como aquele talentoso médico brasileiro que jogava com uma classe insuperável e deslumbrou o planeta no Mundial de 1982. Dotado de excelente técnica, o capitão dessa equipa fazia passes perfeitos, colocados milimetricamente nos pés dos companheiros. Vários deles surgiam da forma mais inesperada: de calcanhar. E era também um exímio marcador de golos -- sem nunca perder a pose de cavalheiro.

Correram mundo as imagens dos passes de calcanhar de Sócrates na última selecção romântica do desporto-rei, que teve o seu momento mais alto naquele campeonato, disputado em Espanha. Era uma selecção de sonho. Com Falcão, Zico, Eder, Careca, Edinho, Júnior, Serginho, Toninho Cerezo.

Uma selecção derrotada na meia final pela Itália de Paolo Rossi, fria e calculista, que viria a conquistar a taça.

Mas o Brasil caiu de pé, ovacionado por adeptos do futebol de todos os continentes. Fazendo lembrar aqueles versos magníficos que Alexandre O' Neill dedicou a Belarmino Fragoso, efémero campeão nacional de boxe: "Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante / -- e a gente levanta-se, pois pudera, sempre."
Um dos jogadores mais influentes dessa selecção declarou, em jeito de remate: "A coisa mais gostosa era jogar ali, era uma delícia."

Palavras de um homem que encarava o futebol como arte e não como indústria. Era um verdadeiro desportista: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, agora falecido aos 57 anos. Um dos meus heróis não volta a jogar.

Imagem: a selecção brasileira de 1982. Sócrates, com a braçadeira de capitão, é o segundo à esquerda, em baixo.

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O último dia do general De Gaulle

por Pedro Correia, em 09.11.11

 

Aquele parecia ser um dia igual a todos os outros na casa da família De Gaulle desde que o general abandonara o Palácio do Eliseu, ano e meio antes. Um dia de Outono, com as folhas das árvores do bosque que rodeava a mansão La Boisserie já pintadas de castanho dourado. Charles de Gaulle, a poucos dias de completar 80 anos, levantou-se cedo, como sempre sucedia. Saiu do quarto também como sempre fazia, já com o habitual fato escuro, de gravata igualmente escura sobre uma camisa branca. E fez a tradicional caminhada -- sempre em passadas largas, costume que adquirira desde os tempos de jovem, quando frequentava a Academia Militar -- pelo frondoso parque da sua propriedade, situada na aldeia de Colombey-les-Deus-Églises. Um lugarejo perdido no norte de França que o general pôs subitamente no mapa. Ao fim dessa segunda-feira, 9 de Novembro de 1970, o nome daquela aldeia seria pronunciado nos serviços informativos de todo o mundo.
De Gaulle e a mulher, Yvonne, viviam ali em reclusão voluntária após o general ter decidido abandonar a Presidência da República. As glórias mundanas, que sempre depreciou, deram lugar à atmosfera espartana e tranquila de La Boisserie, longe dos flashes dos fotógrafos.

O homem que durante a II Guerra Mundial foi o rosto e a voz da França livre irritou-se ainda naquela manhã ao ler num jornal uma crítica negativa ao seu recém-lançado livro, Mémoires d’ Espoir. E saiu para o seu passeio. Havia vento. Por isso Yvonne não o acompanhou naquela que havia de ser a última caminhada de um homem que parecia infatigável.
Comeu com apetite ao almoço, conversou com um vizinho sobre espécies de árvores que pretendia plantar. Às 18.30 foi à cozinha, onde a mulher combinava com a empregada as ementas da semana, e pediu-lhe um endereço. Caía já a noite. Cumprindo outro ritual, assistiu ao noticiário regional na TV enquanto se entretinha com um naipe de cartas na sua mesa de brídge.
De súbito Yvonne ouviu um grito: “Sinto-me mal! Nas costas...” O maior gigante da política francesa acabava de tombar, fulminado por um aneurisma. Morte súbita, como talvez desejasse este homem de 1,92m que fora duas vezes ferido na I Guerra Mundial, vira Hitler pôr-lhe a cabeça a prémio, fora condenado à pena capital pela justiça fantoche do marechal Pétain e -- já presidente -- escapara quase por milagre a várias tentativas de assassínio, incluindo uma saraivada de tiros contra o seu carro.
De uma grandeza singular em vida, foi-o também no momento em que partia. Primeiro presidente francês católico praticante, quis ser enterrado no humilde cemitério da aldeia, após missa celebrada pelo pároco. Sem honras de Estado. Sem flores nem sermões. Sem a presença dos ilustres da política francesa e mundial, como recordava faz agora um ano a Paris Match, numa excelente edição especial sobre o 40º aniversário da sua morte.

“O sangue seca depressa”, costumava dizer De Gaulle. Mas o exemplo de alguns homens jamais se apaga.

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'Rei' Larry: uma lição de vida

por Pedro Correia, em 05.05.11

 

Tive o privilégio de assistir a uma magistral lição de jornalismo, pronunciada por um dos maiores especialistas da matéria: Larry King, brindado com uma prolongada ovação em pé ao fim da manhã de hoje no Centro de Congressos do Estoril, onde foi o principal orador do dia. O mais célebre entrevistador do planeta, que durante um quarto de século foi o rosto mais conhecido da CNN, mostrou-se igual a si próprio: divertiu-se e divertiu o auditório, comoveu-se e comoveu a plateia neste segundo dia das Conferências do Estoril. Mal chegou, tirou o casaco. "Now I'm feeling at home", declarou, entre risos, enquanto exibia os suspensórios que se tornaram uma das suas imagens de marca. À conversa com Mário Crespo e diversos outros participantes, deixou algumas mensagens que merecem registo. Desde logo, esta: "Nunca sabemos tudo. Só sabemos um bocadinho. Aprendo coisas novas todos os dias." Ele, que deu os primeiros passos no jornalismo em 1957, ainda hoje não entende em pormenor "como se faz a radiotransmissão em apenas um segundo" das suas palavras por todo o mundo.

Larry King trouxe ao Estoril outras mensagens importantes. Esta, por exemplo: "Ninguém aprende nada enquanto está a falar." Nada mais certo. E também esta: "Nunca utilizo o termo eu numa entrevista." Mensagens que bem merecem ser meditadas num país em que tantos narcisos medíocres peroram durante horas a fio à frente dos microfones sem terem verdadeiramente nada a comunicar.

Um momento emocionante? Aquela emissão em que reuniu Yasser Arafat, o rei Hussein da Jordânia e o primeiro-ministro de Israel para discutirem o futuro do Médio Oriente. "Foi um momento de diplomacia internacional", confessa este veterano de 50 mil entrevistas, que mesmo após a retirada dos ecrãs, em Dezembro passado, continua a confessar uma paixão sem limites pela comunicação. "Nunca me aconteceu ficar sem perguntas por fazer´. Quando não há outra, é sempre possível perguntar 'porquê'? Podemos estar o dia inteiro a perguntar porquê."

Estive entre os que o aplaudiram sem reservas. Ontem escutei com gosto Howard Dean e Nouriel Roubini, hoje ouvi igualmente com atenção Francis Fukuyama. E amanhã estarei entre os que assistirão às conferências de Dominique de Villepin e Mohamed ElBaradei: bastaria a presença destas personalidades para justificar o sucesso desta segunda edição das Conferências do Estoril. Mas, para já, nenhuma me tocou tanto como Larry King, este jovem de 77 anos que continua a ser uma pessoa "de uma curiosidade sem limites" e tem como plano de vida "tornar-se a pessoa mais idosa à face da Terra".

Não foi só uma lição de jornalismo: foi também uma lição de vida, 'King' Larry.

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Os nossos heróis estão a partir

por Pedro Correia, em 04.04.10

       

 

Os heróis de milhares de jovens telespectadores de outra época estão a desaparecer com uma rapidez impressionante – o que nos deixa atónitos a todos nós, que os vimos em crianças: nessa altura nunca nos passaria pela cabeça que não fossem imortais.
Começou a 9 de Dezembro, com o desaparecimento de Gene Barry, protagonista de uma série de suspense que fez sucesso no final dos anos 60: O Jogo da Vida. Era um actor que chegou a contracenar com Clark Gable. O seu papel mais conhecido no grande ecrã foi como protagonista d’ A Guerra dos Mundos (1953), filme baseado no romance de H. G. Wells.
Prosseguiu a 24 de Janeiro, com a morte de Parnell Roberts, o último sobrevivente da saga Bonanza, que entusiasmou várias gerações de jovens consumidores de televisão. Era o irmão mais velho da família Cartwright, o mais calmo e ponderado, aquele que vestia sempre de negro por um motivo que nunca percebi mas que, aos olhos dos miúdos que éramos então, só poderia ser sério e grave. Um dia despediu-se da série – ainda hoje a mais popular de sempre, no género western, da TV americana – e rumou a outras paragens. Os episódios de Bonanza nunca mais foram os mesmos.
Agora despedem-se de nós dois outros heróis: Jim Phelps e Daniel Boone. Estes eram os nomes por que nós os conhecíamos, mas na vida real Phelps chamava-se Peter Graves e Boone era Fess Parker.
O primeiro liderava a brigada de elite de Missão Impossível, que conseguia levar sempre a melhor contra as forças do mal naqueles dias cinzentos da Guerra Fria, com Berlim ocupada e o arsenal atómico ao serviço de ideologias em confronto. Ness altura, como espectador assíduo de Missão Impossível, não fazia ideia, mas Graves fora um intérprete de excelentes filmes na década de 50, como O Inferno na Terra (1953), de Billy Wilder, e A Sombra do Caçador (1955), de Charles Laughton.
O segundo era a recriação televisiva de dois míticos heróis norte-americanos: Daniel Boone e também David Crockett - este último que mais tarde viria morrer em Alamo, de John Wayne, um filme que anda injustamente esquecido. Enquanto Phelps/Graves pertencia ao mundo ultra-sofisticado do radar e dos computadores da IBM, Boone/Crockett/Parker pertenciam ao intrépido mundo dos pioneiros que alargaram as fronteiras dos EUA – homem que viviam em cabanas de madeira à beira de lagos e conheciam os trilhos dos bosques como as palmas das mãos. 
Jim Phelps, o mais duro e discreto dos agentes ao serviço do bem, e Daniel Boone, o aventureiro que desafiava todos os perigos da floresta, deixaram-nos inconsoláveis com este súbito adeus à vida. O mundo da nossa infância está a desmoronar-se.

 

Fotos: Fess Parker (David Crockett) e Peter Graves (Jim Phelps)

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Prometeu ao marido, vítima das balas assassinas de Ferdinand Marcos, que prosseguiria a luta por ele e em nome dele. Uma promessa jamais desmentida: a tímida dona de casa, de óculos muito graduados e sem vocação política, viu-se projectada para a ribalta do país, mobilizando multidões gigantescas de filipinos à conquista da liberdade. Corazón Aquino – é dela que falo – esteve para o Extremo Oriente como Vaclav Havel para a Europa de Leste. Com uma diferença digna de registo: enquanto o carismático dramaturgo checo, aureolado com a passagem pelos calabouços do poder comunista, teve oportunidade de fazer um prolongado tirocínio político, Cory ascendeu por um súbito golpe do acaso ao primeiro plano da História numa das mais fantásticas décadas do século XX – aquela que viu desaparecer o maior número de tiranias.

Em duas visitas às Filipinas, já ela era presidente, testemunhei a enorme popularidade de que gozava esta mulher que vestia sempre de amarelo e ostentava um sorriso perpétuo no rosto muito marcado pela ascendência étnica chinesa. Multidões em delírio ovacionavam-na no imenso Parque José Rizal, no coração de Manila. Sempre a seu lado, distinguia-se Jaime Sin, chefe da Igreja Católica e figura fundamental da transição democrática no país mais católico do Oriente. Sem o firme apoio do cardeal, Corazón nunca teria resistido às sucessivas investidas golpistas dos nostálgicos da ditadura que lhe foram abalando o mandato, entre 1986 e 1992.
Ao vê-la em cima do palco, falando com desenvoltura às massas que vibravam mal a viam desenhar com os dedos da mão a letra L, como símbolo de liberdade, poucos acreditariam tratar-se de alguém que nunca foi profissional da política antes de ascender à Presidência. Era também difícil adivinhar estarmos perante uma pessoa que sofria de incurável timidez.
Cory Aquino tinha uma força interior que ultrapassava todos os obstáculos – uma força interior inspirada na promessa feita a Benigno Aquino, o carismático líder da oposição a Marcos, pouco antes de o avião que os transportava dos Estados Unidos ter aterrado no aeroporto de Manila – hoje aeroporto Benigno Aquino – nesse fatídico dia 21 de Agosto de 1983. A canção da vida de Benigno era ‘Impossible Dream’, do musical O Homem de La Mancha. “This is my quest / To follow that star / No matter how hopeless / No matter how far”, diz a letra de Joe Darion, feita lema de vida do casal. Ou, na fabulosa versão em língua portuguesa da mesma canção que Bethânia imortalizou: “Quantas guerras terei de vencer por um pouco de paz?”
Cory honrou a promessa feita: de braços desarmados, travou inúmeras guerras por um pouco de paz. Por isso há hoje milhões de filipinos a chorá-la.
 
Publicado no DN

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Ainda há heróis

por Pedro Correia, em 21.07.09

 

'Buzz' Aldrin, Michael Collins e Neil Armstrong fotografados há poucas horas com Barack Obama na Casa Branca. Faz agora 40 anos, estavam os três na cápsula Apolo 11. E dois deles - Armstrong e Aldrin - desceram ao solo lunar. Um sonho de milénios tornava-se enfim realidade.

 

Foto: agência France-Presse

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