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O pesado manto da desmemória

por Pedro Correia, em 17.01.17

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“Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta dor portuguesa

tão mansa quase vegetal.”

Alexandre O’ Neill

 

Estranho país, este. Matamos os nossos heróis, os nossos ídolos, os nossos astros. Matamo-los pela inveja, pelo ressentimento, pelo cinismo, pelo ódio atávico a quem tem sucesso. Matamo-los, no fim de tudo, pelo esquecimento. É a pior forma de morte cívica – e também aquela que é praticada com maior desenvoltura nos nossos dias. Ignorar o que merece ser enaltecido e valorizado é um crime de lesa-humanidade e lesa-cultura.

Nenhum esquecimento me assombra mais do que o das nossas divas do teatro e do cinema. Mulheres que deslumbraram incontáveis espectadores nas plateias e se apagam na penumbra do ocaso, como se nunca tivessem entusiasmado multidões de adeptos na flor da idade. Mulheres como Milu, Leonor Maia, Laura Alves, Isabel de Castro, Maria Dulce, Maria Eugénia, Madalena Sotto. Sobre elas caiu o pesado manto da desmemória: é a forma habitual que temos neste país de sepultar os nossos melhores quase sempre ainda em vida.

 

Surge agora a notícia da morte de Maria Cabral, que numa França ou numa Itália teria sido venerada sem hesitação por ininterruptas legiões de cinéfilos. Por cá suscitou aplausos inflamados em dois filmes que a impuseram como inconfundível rosto de uma geração – a que ansiava pela liberdade num país ainda a preto e branco.

Dois filmes que se tornaram invisíveis: O Cerco (António da Cunha Telles, 1970) e O Recado (José Fonseca e Costa, 1972). Dois filmes banidos do nosso mercado, olvidados das cinematecas, omitidos pela própria RTP no seu canal memória. Como se contivessem um estigma, como se nos relatassem fragmentos proibidos de uma sociedade que ninguém quer relembrar.

 

Maria Cabral morreu esquecida da pátria que tantos dos seus talentos tem condenado ao desterro, no desfecho de um longo exílio voluntário em Paris. À semelhança de tantas figuras da nossa literatura, da nossa música, do nosso espectáculo, da nossa televisão.

Apagou-se longe como se nunca cá tivesse estado. Como se aquele rosto iluminado por uma prodigiosa fotogenia nunca nos tivesse visitado. Como se aqueles olhos e aqueles lábios e aquela pele jamais tivessem suscitado paixões arrebatadoras a quem os vislumbrou na tela - corpórea beleza, eterna e fugaz como todas as pulsões da vida.

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Tudo explicado

por Rui Rocha, em 20.09.16

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Terapia

por Francisca Prieto, em 15.02.16

Apesar de não costumar assistir a ficção portuguesa, comecei a ver na diagonal a Terapia, na RTP1, por ser amiga de uma das actrizes. Três episódios mais tarde, ainda nem se vislumbrava no ecrã um cabelo da tal amiga, e já estava rendida à série. Ao invés do registo noveleiro a que a televisão portuguesa nos tem habituado, em Terapia assistimos a um registo muito próximo do universo cinematográfico. Com a particularidade de ser um formato que exige excelência do trabalho dos actores, porque é disso que se trata: de dissecar a alma humana até ao seu fio mais descarnado. E ninguém aguentaria assistir a minutos sem fim de texto, em grande plano, se este não fosse muito bem interpretado.

No primeiro episódio, a Soraia Chaves aguenta-se bem, mas num papel ingrato: o de mulher destrambelhada que se faz valer pela sedução (já a tínhamos visto fazer isto, e bem, pelo que não nos caem os queixos).

É no segundo episódio que nos rendemos com um Alex interpretado pelo Nuno Lopes, que nos diverte, ao mesmo tempo que nos esmurra o estômago. E ao longo de todas as terças feiras, a personagem vai ganhando cada vez mais corpo, ao ponto de a dissociarmos do actor. Tão bom, mas tão bom, que é imperdível.

Depois, quando liguei a televisão na primeira quarta feira da série, dei com uma adolescente chamada Catarina Rebelo que me fez entregar os pontos. O raio da miúda é tão bem malcriada que estamos sempre à espera de ver quando é que o Virgílio Castelo perde a paciência.

A minha amiga aparece mais à frente, como mulher do Virgílio Castelo, o psiquiatra de serviço. Primeiro de mansinho, em cenas curtas, mas depois, às sextas feiras, com mais protagonismo, durante as sessões de terapia de casal com a Ana Zannati (impecavelmente igual a si própria, num desempenho tranquilíssimo).

Ora eu estava habituada a ver esta minha amiga noutro tipo de registo. Concretamente no de Manoel de Oliveira, onde fazia de senhora do Douro, ou descia dos céus feita ninfa no meio da guerra colonial, ou então era uma freira, ou até uma rapariga pobre do Raul Brandão, a falar francês pelo filme fora. Sempre tudo muito devagarinho e com olhares enigmáticos.

Sempre bem, sempre em obras de eleição, mas num universo etéreo, como se fosse fora do mundo.

Era-me muito difícil avaliar o seu trabalho de actriz porque ficava invariavelmente desconcertada. Tinha sempre a sensação de que aquela senhora era uma espécie de sósia da minha amiga a quem digo montes de disparates sem qualquer cerimónia, e isto, de alguma maneira, não fazia sentido.
Na sexta feira passada quando a vi, na Terapia, fiquei banzada. Provavelmente porque a personagem se move num universo que me é mais próximo, pela primeira vez consegui olhar para a Leonor actriz sem que fosse através de uma cortina de organza. Deparei-me com uma força extraordinária, que se movimenta pelo texto fora (e que difícil que era o raio do texto e que violenta era a tensão do momento cénico) e que derruba tudo, com uma fluidez irrepreensível e uma linguagem corporal de se lhe tirar o chapéu.

Parabéns à direcção de actores, parabéns aos actores e, se me permitem, uma grande salva de palmas à minha amiga de quem tanto me orgulho.

 

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So long, Maureen

por Pedro Correia, em 24.10.15

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Maureen O' Hara, a fogosa irlandesa que seduziu dois dos maiores mestres do cinema, John Ford e Alfred Hitchcock, materializou-se de filme em filme como uma singular força da natureza. Hitch deu-lhe o estrelato em A Pousada Jamaica (1939), última longa-metragem que rodou em Inglaterra antes de rumar a Hollywood. Ford imortalizou-a numa sucessão de obras-primas, com destaque para  O Vale Era Verde (1941) e O Homem Tranquilo (1952). Nesta última película, repleta de cenas memoráveis, nenhuma se sobrepõe à do longo beijo que lhe rouba um John Wayne totalmente arrebatado por esta ruiva que não se vergava a homem algum.

 

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Tinha uma presença inconfundível no ecrã, onde sobressaía pela sua personalidade intensa e por aquela beleza solene que parecia insuflada por um sopro de eternidade.

Era uma das raras pontes que ainda nos ligavam ao cinema dos primórdios. Contracenou com Henry Fonda, James Stewart, Alec Guinness, Tyrone Power, Errol Flynn, Dana Andrews, Rex Harrison, Charles Laughton, Joel McCrea, John Garfield, Anthony Quinn, Melvyn Douglas, Ray Milland, Robert Young, Clint Eastwood. Conhecia bem Portugal, onde aliás rodou um filme intitulado Lisbon (em que escuta Anita Guerreiro a cantar o clássico Lisboa Antiga).

Retirou-se cedo dos estúdios de Hollywood, no início da década de 70. Ainda faria um filme em 1991 e trabalhou esporadicamente na televisão quando já tinha sido elevada à categoria de mito. Era uma das raras e mais queridas lendas vivas do cinema. Morreu hoje, tranquilamente, aos 95 anos. Deixando-nos a nós, que fomos seus fãs, com vontade de revisitar os seus melhores filmes em sessões contínuas.

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Laura Antonelli

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.06.15

laura antonelli.jpg(28/11/1941 - 22/06/2015)

Confesso que já não me recordo qual terá sido o primeiro filme que vi dela. Sei que vi muitos. Alguns mais do que uma vez, apenas pelo prazer de vê-la, de ouvir a sua voz, de ver o seu sorriso, de admirar a sua beleza. Durante décadas o cinema italiano fez sonhar os adolescentes e os homens de todo o mundo. Pelas mais diversas razões. Mas havia uma verdadeiramente incontornável: a mulher que ele nos dava era o modelo. A mulher. Da Cardinale à Lollobrigida, da Loren à Muti, da Belli à Mangano, sem esquecer a Vitti e a Sandrelli, qualquer uma delas quando aparecia era mais fabulosa do que a outra. Cada filme que surgia era um pretexto para a discussão. Qual a mais bela, qual a mais desejada, qual aquela com que qualquer um de nós viveria a vida inteira numa ilha deserta do Pacífico Sul ou nas andanças do trânsito de Roma. Entre todas havia uma que, não tendo nascido em Itália, mas em Pula, na Croácia, fazia sempre a unanimidade. Fosse pelo olhar, ao mesmo tempo doce, voluptuoso e, de certo modo, perdido no tempo, pelo torneado do seu corpo ou pelo calor da sua voz. Os filmes que víamos nem sempre eram aplaudidos, muitas vezes não passando de comédias palavrosas e barulhentas. Só que todos eles tinham alguma coisa em comum. Ela estava em todo o lado. Nos cartazes dos filmes, nas revistas que chegavam de França ou de Itália, ao lado de Belmondo ou de outro figurão qualquer, na capa da Playboy, nas imagens de Cannes e de Veneza. O filme que talvez a tenha tornado mais conhecida é de um realizador, Salvatore Samperi, que só pelo nome poucos portugueses conhecerão. Malizia (1973) terá sido o filme do deslumbramento, mas antes, durante a década de Sessenta, já tinha dado nas vistas em mais de uma dúzia de filmes. Depois, durante os anos Setenta e Oitenta seria protagonista de mais umas dezenas de filmes e mini-séries de televisão, realizados, entre outros, por homens como Chabrol, Risi, Comencini, Bolognini, Salerno e Visconti (L'innocente, 1976). O seu último filme data de 1991(Malizia 2000). Durante alguns anos enfrentou acusações relacionadas com o tráfico de droga, de que viria a ser ilibada já neste século, e de consumo de estupefaciantes. Depois de ter sido o rosto da beleza e do erotismo do cinema italiano, refugiou-se num pequeno apartamento de uma estância balnear, Ladispoli, situada a pouco mais de três dezenas de quilómetros do centro de Roma. Encontrada por uma empregada doméstica, morreu só, como terá vivido durante muitos anos, sem que se saiba exactamente há quantos dias teria falecido. Sem resposta ficará, uma vez mais, a pergunta de se saber até que ponto a beleza, o sucesso, a fama, o esplendor, as luzes da ribalta, contribuem para vidas infelizes, solitárias, e finais tristes. Para o caso também já não fará qualquer diferença. E para quem um dia se deslumbrou com a Antonelli, ficará sempre a imagem de uma diva tão terrena quanto inacessível. Não era uma mulher como as outras. Nunca foi uma actriz como as outras. Havia qualquer coisa que a tornava diferente das outras, mais real, e não era só a sua elegância ou o seu erotismo. Num cartaz do Condes, na Almirante Reis, quando a vislumbrava do eléctrico a puxar as meias, na fachada do velho Cinema Roma ou na do Monumental, Laura Antonelli foi a imagem mais real do sonho. Da carne em ecrã gigante e sem efeitos especiais. A imagem, digo bem, porque o sonho, esse, permanecerá para sempre. Como sempre foi. E renovar-se-á, eventualmente com outro nome, sob uma outra luz. De geração em geração.

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Bella per sempre

por Pedro Correia, em 20.09.14

 

Icona della bellezza italiana nel mondo, allora come oggi. Il tempo non conta, tanti auguri Sofia.

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Bacall

por José António Abreu, em 13.08.14

Um jogo raro estava a ser jogado, suficientemente bom para uma comédia de Hawks, no qual um realizador está pronto a apaixonar-se pela sua actriz mas mantém a mulher por perto para fingir que não. Quando Bacall e Bogart se apaixonaram, Howard foi apanhado de surpresa. (Bogart tinha quarenta e cinco anos; Bacall tinha vinte.) O realizador disse que o romance deles estava a estragar o filme.

David Thomson, The Big Screen – The Story of the Movies. Edição Farrar Straus and Giroux, tradução minha.

 

Obviamente, não estava. Na adolescência, apesar da minha desesperante falta de jeito para assobiar, To Have and Have Not era o meu filme favorito. Ainda hoje continuará perto do topo (evito fazer esse tipo de listas). Tinha suspense, música, humor e, acima de tudo, Lauren Bacall, envolvida num delicioso jogo de sedução com Humphrey Bogart. Um jogo baseado em olhares (the Bacall look, nascido do nervosismo inicial aquando dos screen tests, que a levou a baixar a cabeça e a rodar os olhos para cima) e frases provocantes, tão inocente pelo padrões actuais mas tão verdadeiro que, como o surpreendido e ligeiramente enamorado Howard Hawks comprovou, extravasou das personagens para os actores, dando origem a uma das relações mais sólidas (ainda que, como qualquer relação, não isenta de tensões) que Hollywood já viu. Depois, ainda com Hawks (um apreciador de mulheres fortes que, no final, faziam o que os homens desejavam) houve The Big Sleep, o filme em que uma morte ficou por explicar (que importa?) e em que ela, apesar de Slim (uma alcunha transferida de Nancy Gross, a mulher de Hawks), encarnou na perfeição uma heroína de Chandler, e depois houve Dark Passage e Key Largo (ao lado de Edward G. Robinson no segundo, ao lado de Bogart em ambos) e mais uma série de filmes onde se destaca How to Marry a Millionaire, contracenando com uma Marylin Monroe pitosga, no tipo de papel que lhe encaixava na perfeição: o de calculista que, após uma série de contratempos (as más intenções sempre mereceram punição no cinema comercial de Hollywood), acaba por revelar um coração mole e é devidamente recompensada pelo destino. Porém, a partir de certa altura, a sua imagem, de inteligência mordaz mas bem intencionada, uma mistura de fragilidade (real) e altivez (nada real no início, talvez um pouco com o avançar dos anos), pode ter sido mais prejudicial do que útil: o que numa jovem é encantador, numa mulher de meia idade é irritante - pelo menos para os produtores cinematográficos. Qualquer que tenha sido a razão, desde a década de 50 Bacall entrou em poucos filmes verdadeiramente dignos de nota, tendo perdido o Óscar de melhor actriz secundária (para Juliette Binoche, por O Paciente Inglês) em 1996 (o filme era The Mirror Has Two Faces, um projecto de Barbra Streisand de que recordo aproximadamente zero).

 

Os tempos áureos de Hollywood, em que os estúdios faziam o que queriam (a Lauren mudaram-lhe desde logo o nome de baptismo, Betty Joan Perske, e obrigaram-na a adoptar um tom de voz mais rouco) viram outras actrizes com personalidade forte. Marlene Dietrich, por exemplo, que disse a Hawks: «Aquilo sou eu há vinte anos»; Louise Brooks, um cometa explosivo ainda nos tempos do cinema mudo; Rosalind Russell, taco a taco com Cary Grant em His Girl Friday (outro filme de Hawks); Tallulah Bankhead, famosa (ou quiçá infame) apesar da carreira essencialmente teatral (Lifeboat, de Hitchcock, será o único filme digno de registo em que participou); Joan Crawford, luminosa em várias obras na década de 30 (rouba todas as cenas a Garbo em Grand Hotel), funérea já na de 50, no Johnny Guitar; e, com talvez mais pontos de contacto com Bacall do que qualquer outra, Katharine Hepburn, firme e mordaz ao ponto da insolência, apaixonada por um colega mais velho (Spencer Tracy), actriz principal de Hawks em Bringing Up Baby, dando réplica a Bogart em A Rainha Africana. (Quando Bogart contraiu cancro do esófago, Hepburn e Tracy foram visita frequente.) Todas belíssimas, todas extraordinárias, mas nenhuma com a conjugação de Bacall: beleza, inteligência, força, fragilidade – e aquela voz treinada para nos encantar. Seja como for, a partir de hoje estão outra vez juntas.

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Bacall 'in excelsis'

por Pedro Correia, em 13.08.14

Tinha um jeito único de olhar. Que lhe vinha de uma timidez profunda: poucos suspeitavam dela, chegando a confundi-la com sobranceria ou arrogância.

Baixava a cabeça e mirava-nos daquela forma, com os olhos em ângulo ascendente. E foi assim fotografada uma e outra vez, milhares de vezes, pelas câmaras que procuravam a sua prodigiosa fotogenia.

 

Era um olhar inconfundível: não houve outro como este no cinema.

 

Lauren Bacall era a última de uma estirpe rara. Vinha de um tempo em que a fama estava longe da banalização hoje tão corrente e transportava ecos dessa época tão distinta da nossa, em que havia um toque de mistério e majestade associado a quem imperava no mundo do espectáculo.

Era uma deusa do celulóide, como Ava Gardner, Rita Hemingway, Gene Tierney, Grace Kelly, Elizabeth Taylor e a eterna Marilyn Monroe. Cada vez que iluminava um pedaço de celulóide produzia em nós, mortais espectadores de osso e carne, o efeito de uma aparição.

Certas pessoas são assim: impõem-se pela sua presença. O cinema, quando não receia ombrear com qualquer outra forma de expressão artística, potencia e amplifica esta aura. Com a vantagem acrescida de ser um repositório excepcional de momentos inapagáveis.

 

Por este motivo teremos sempre Lauren Bacall entre nós. Atirando a Humphrey Bogart -- paixão na tela e na vida -- uma das mais fantásticas deixas de que há memória na Sétima Arte. Foi em To Have and Have Not -- o primeiro filme dela, o primeiro filme deles, rodado em 1944. Chamava-se Slim nessa fita, nome adequado para designar a figura esbelta que nunca deixou de ter.

Slim olhava Bogart, que ali se chamava Steve, daquele jeito único. Confessou muitos anos depois, num livro de memórias, que estava aterrorizada no momento em que rodaram a cena, filmada por Howard Hawks com base num roteiro de William Faulkner inspirado numa novela de Ernest Hemingway.

Tinha apenas 19 anos e ocultava o pânico de estar num plateau cinematográfico, rodeada de celebridades. O que contribuiu para lhe baixar o tom de voz, já grave por natureza. E acentuar a intensidade daquela mirada tão singular e tão expressiva.

Ao vê-la, ninguém a suporia sequer nervosa. Isto ajuda a perceber o fascínio da arte de representar, ao alcance apenas de alguns eleitos.

 

«Sabes assobiar, não sabes, Steve? Basta juntar os lábios... e soprar», disse-lhe Slim/Bacall.

Steve/Bogart ficou preso para sempre àquela voz, àquele olhar só gélido na aparência.

Juntaram os lábios, os corpos, as almas e viveram felizes como nos filmes. Até a morte dele os ter separado.

Hoje bem cedo, tantos anos depois, alguns cinéfilos escutaram um assobio vindo de muito longe. Sinal inequívoco: eles voltaram a encontrar-se.

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Os filmes da minha vida (47)

por Pedro Correia, em 16.02.14

 

SHIRLEY TEMPLE: O TEMPO E O ESPAÇO

À minha mãe

 

"O tempo prevalece sobre o espaço", ensina o Papa Francisco. Costumo pensar que temos uma relação muito mais equívoca com o tempo do que com o espaço: à medida que os anos fluem, sentimos que os ponteiros do relógio e as folhas do calendário aceleram a sua marcha inexorável. 

Mas nem sempre foi assim. Recordo com frequência as longas tardes de meninice, que ainda chegam até mim com o cunho do infindável. Era tudo mais vagaroso então. E sempre soalheiro: não me lembro de um só dia dessa época que não me traga memórias inundadas de sol.

 

Um dos meus prazeres de infância era ver as Tardes de Cinema exibidas ao domingo, na RTP ainda a preto e branco. Nada que se pareça com a de hoje: a estação pública de televisão assumia as funções de cinemateca, proporcionando aos espectadores três ou quatro sessões semanais de clássicos da Sétima Arte.

Quando eu era miúdo, durante o período escolar, só estava autorizado a ver os filmes de domingo. Sempre tive o hábito de fazer listas -- e conservo ainda o inventário de muitas fitas que ia vendo, semana após semana. Mas das primeiras que vi em televisão, na mais remota infância, guardo apenas memórias fugidias. Não tanto das cenas dos filmes, mas da atmosfera que se respirava lá em casa.

A minha mãe, fervorosa cinéfila pertencente à geração que via matinés duplas ao fim de semana e cultivava o cineclubismo, ia-me falando das actrizes e dos actores de que mais gostava, heroínas e galãs do tempo em que ela era menina e moça. Situando-os na época em que se estrearam, narrava-me episódios relacionados com esse período. Episódios do cinema feito vida, episódios da vida feita cinema.

E, para mim, esse acabava por ser um filme dentro do filme.

"Este vi-o em Angola, num cinema ao ar livre... Ainda me lembro do que senti ao ver esta cena pela primeira vez... Os meus actores preferidos eram o Henry Fonda e o James Stewart: olhava-se para eles e percebia-se que eram pessoas em quem podíamos confiar."

 

 

 

O que seria da nossa vida sem tempo -- e sem tempo para contar histórias?

Eu ia absorvendo o que ela me contava enquanto absorvia também as imagens e as falas que me chegavam do ecrã. Vários desses filmes, nunca mais os vi: já então me pareciam muito antigos, pertencentes a uma era em que a Mãe tinha a minha idade e a Avó, mãe dela, estava grávida das minhas tias mais novas.

Shirley Temple era da geração da minha mãe: tinham apenas dois anos de diferença e criaram-se naquela década de 30 em que a menina dos caracóis alourados salvou a 20th Century Fox da ruína e deslumbrou o mundo. Quem era criança nessa década guardou para sempre a sua imagem risonha, incorporando-a naquele panteão íntimo a que remetemos todas as relíquias do passado cristalizadas num presente perpétuo.

O verdadeiro espectáculo, para mim, era ver a Mãe novamente criança revisitando aquelas fitas da Shirley Temple de que nem sequer o nome guardo. Lembro-me dela a sapatear com um mordomo negro, a descer uma enorme escadaria de mansão sulista, abraçada em lágrimas a um avô de ar bondoso. E pouco mais.

 

Com Henry Fonda e John Wayne em Forte Apache (1948)

 

Certas estrelas de Hollywood tornam-se mitos muito cedo e perduram durante décadas de vida verdadeira sempre ocultas na ilusão desse mito. Aconteceu isso com Shirley Temple, que encontrei pela última vez -- adolescente eu, adolescente ela também, com trinta e tantos anos de intervalo entre nós -- em filmes como Desde que Tu Partiste, de John Cromwell (1944) e Forte Apache, de John Ford (1948). Absurdamente jovem ainda, mas excessivamente velha para se manter fiel à imagem infantil que a indústria cinematográfica lhe reservou.

Não podia haver fugas ao guião: Shirley disse adeus ao cinema e ficou eternamente jovem no celulóide, espécie de retrato de Dorian Gray às avessas, num toque mágico de que só o cinema é capaz.

Oito décadas depois da sua fulgurante estreia em Hollywood, quando muitos de nós já a supúnhamos transformada num pedaço de eternidade, chega-nos a notícia de que a sua morte física só agora se consumou. Ela que foi contemporânea do presidente Roosevelt e conheceu o último grande sucesso de bilheteira no ano em que começou a II Guerra Mundial.

 

O tempo prevalece sobre o espaço. Quando soube da notícia regressei por momentos àquela sala, àquele pesado televisor Blaupunkt de válvulas, àquelas imagens a preto e branco, à companhia da minha mãe outra vez muito jovem ensinando-me a gostar de cinema enquanto me explicava sem explicar que um filme é sempre mais que um filme.

Ao ver a Shirley-menina, também ela voltava à meninice. E neste momento em que escrevo o miúdo sou eu só por disso me lembrar também.

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Dez anos sem Katharine Hepburn

por Pedro Correia, em 29.06.13

 

1907-2003

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E um globo de ouro

por Patrícia Reis, em 14.01.13

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Nossos (16)

por Helena Sacadura Cabral, em 13.04.12

 

 Margarida Marinho, uma bela actriz.

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Nossos (11)

por Helena Sacadura Cabral, em 02.04.12



Leonor Silveira, óptima actriz e musa de Manoel de Oliveira

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Nossos (8)

por Helena Sacadura Cabral, em 31.03.12

 

 Beatriz Batarda, uma excelente actriz

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Nossos (3)

por Helena Sacadura Cabral, em 25.03.12

 

A Maria João Bastos é bonita, inteligente e boa actriz

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Nossos (2)

por Helena Sacadura Cabral, em 24.03.12

 

Helena Isabel ainda muito bonita e com classe

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Cada vez melhores(18)

por Helena Sacadura Cabral, em 24.03.12

 

                                                      Juliette Gréco resiste

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Cada vez melhores(17)

por Helena Sacadura Cabral, em 24.03.12

  

Catherine Deneuve já muito operada mas ainda bonita

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Cada vez melhores(16)

por Helena Sacadura Cabral, em 24.03.12

 

Francis Fisher, que viveu anos com Eastwood

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Cada vez melhores(12)

por Helena Sacadura Cabral, em 17.03.12

  

 Candice Bergen, uma mistura de bom senso e de aventura

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Cada vez melhores(11)

por Helena Sacadura Cabral, em 17.03.12

 

 Sofia Loren ainda é uma mulher bonita. Mas eu preferiria que ela se maquilhasse menos.

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Cada vez melhores(10)

por Helena Sacadura Cabral, em 17.03.12

 

Hellen Mirren, outra mulher sem idade

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Cada vez melhores(6)

por Helena Sacadura Cabral, em 10.03.12

 

Meryl Streep tem uma beleza tranquila, que pacifica quem olha para ela.

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Cada vez melhores(5)

por Helena Sacadura Cabral, em 10.03.12

 

Judy Dench não esconde a idade e esse é o seu maior encanto.

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Cada vez melhores(4)

por Helena Sacadura Cabral, em 10.03.12

 

Jane Fonda continua a ser uma mulher sem idade e a enfeitiçar corações

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E tudo o vento levou...(15)

por Helena Sacadura Cabral, em 09.03.12

 

Menos conhecida, Jill Clayburgh representava no meu tempo a mulher que se quer para toda a vida!

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E tudo o vento levou...(14)

por Helena Sacadura Cabral, em 09.03.12

 

 Esta outra também Jennifer, mas Jones, era mais selvagem e não menos bela!

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E tudo o vento levou...(13)

por Helena Sacadura Cabral, em 09.03.12
 
Esta Jennifer O' Neil é uma prenda para um dos nossos comentadores que morria de amores por ela!

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E tudo o vento levou...(9)

por Helena Sacadura Cabral, em 02.03.12

 

Rita que não é Pereira...

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E tudo o vento levou...(8)

por Helena Sacadura Cabral, em 02.03.12

 

Outra Hepburn. Outro tempo...

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E tudo o vento levou...(7)

por Helena Sacadura Cabral, em 02.03.12
 
Mais do que bela!

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