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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 24.03.17

«O Acordo Ortográfico de 1990, em que abundam aberrações de todo o tipo, é mais um dos "monstros" gerados pela governação de Cavaco Silva (o mais famoso dos quais é o da dívida pública). E aqui vão, tão-só, dois exemplos.

O primeiro é o da eliminação arbitrária do uso do hífen. Que me pôs a suspeitar da razão pela qual a expressão "cor-de-rosa" tem hífen e a expressão "cor de laranja" não tem! Terá sido uma profecia política que só agora se consumou, com o traço de união entre o partido cor-de-rosa (PS) e a maioria parlamentar de esquerda que aguenta o governo?! E o partido cor de laranja (PPD-PSD) terá ficado sem hífen porque ameaça desmoronar-se?!

O segundo é o da supressão arbitrária do acento agudo, a provocar situações hilariantes. Veja-se o caso da expressão popular "Alto e pára o baile" (isto é, "stop"). Escrita com acento agudo antes do AO90, passou a escrever-se sem acento agudo - "Alto e para o baile" (isto é, "go") - na grafia do AO90.»

Alfredo Barroso, no i

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 17.03.17

«A degola inocente de consoantes mudas tem originado um caos. Em muitos casos, não respeitando a etimologia também comum a outras línguas (p. ex., actor, factor, sector), permitindo a ambivalência de critérios e o (ab)uso de todo inaceitável do AO (facto, fato; pacto, pato, etc). Já o h no início de uma palavra - a mais muda consoante do nosso alfabeto - subsiste enquanto grafema, dizem os ideólogos do AO, por razões etimológicas. Noutros casos de mudez da consoante, este fundamento não interessa, no h já é decisivo. Haja coerência! Claro que homem sem h seria uma pena impedindo a existência de homens com H grande. E uma hora H, sem o inicial h? seria "Ora O"?»

António Bagão Félix, no Público

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Resistência activa ao aborto ortográfico (125)

por Pedro Correia, em 16.03.17

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«Tenho muito orgulho em escrever, quando preencho o IRS, actor, com c.» 

Jorge Corrula, na revista Caras (25 de Fevereiro)

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Resistência activa ao aborto ortográfico (124)

por Pedro Correia, em 14.03.17

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«Detesto que chamem geringonça a esta maioria. Geringonça é o acordo ortográfico, não é o Governo de esquerda!»

Alfredo Barroso, no Expresso da Meia-Noite da SIC Notícias (10 de Março)

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«Não conheço nenhum escritor de nomeada que seja favorável a este acordo.»

Manuel Alegre

 

Acredito que os portugueses ainda se pronunciarão em referendo sobre o chamado "acordo ortográfico" de 1990, vigente desde 2011 no país oficial mas votado ao desprezo pelo país real. A esmagadora maioria dos portugueses não sabe escrever em acordês nem está interessada nisso.

Enquanto o referendo não se realiza, a opinião sobre o AO90 é emitida pelos nossos escritores - os mais qualificados utentes do idioma de Camões, Vieira, Camilo, Aquilino e Nemésio. Na sua esmagadora maioria, recusam exterminar as supostas consoantes mudas, recusando a ortografia acordística.

Interrogo-me: como é possível impor regras ortográficas que os escritores rejeitam em número tão expressivo?

São autores de várias gerações, diferentes tendências políticas e diversos estilos literários. Mas com este ponto em comum.

Aqui deixo os nomes deles, por ordem alfabética, prometendo alargar a lista à medida que alguém me for assinalando omissões - o que agradeço desde já:

 

Abel Barros Baptista

Abel Neves

Adília Lopes

Adolfo Luxúria Canibal

Afonso Cruz

Afonso Reis Cabral

Agustina Bessa-Luís

Alexandra Lucas Coelho

Alexandre Andrade

Alexandre Borges

Alice Brito

Almeida Faria

A. M. Pires Cabral

Ana Barradas

Ana Casaca

Ana Cássia Rebelo

Ana Cristina Silva

Ana Isabel Buescu

Ana Luísa Amaral

Ana Margarida Carvalho

Ana Marques Gastão

Ana Paula Inácio

Ana Sofia Fonseca

Ana Teresa Pereira

Ana Vidal

Ana Zanatti

André Gago

Anselmo Borges

António Araújo

António Carlos Cortez

António Barahona da Fonseca

António Barreto

António Borges Coelho

António Cabrita

António Costa Santos

António de Macedo

António Emiliano

António Feijó

António Guerreiro

António Lobo Antunes

António Louçã

António Manuel Venda

António Modesto Navarro

António Oliveira e Castro

António Pedro Ribeiro

António Salvado

António Tavares

António Victorino d' Almeida

Armando Silva Carvalho

Arnaldo Saraiva

Artur Anselmo

Artur Portela

Artur Ribeiro

Baptista-Bastos

Beatriz Hierro Lopes

Bernardo Pires de Lima

Bruno Vieira Amaral

Carla Hilário Quevedo

Carlos Campaniço

Carlos Fiolhais

Carlos Loures

Carlos Querido

Casimiro de Brito

Célia Correia Loureiro

César Alexandre Afonso

Clara Pinto Correia

Cláudia R. Sampaio

Cristina Boavida

Cristina Carvalho

Cristina Drios

Daniel Jonas

David Machado

David Marçal

David Soares

Deana Barroqueiro

Desidério Murcho

Diogo Freitas do Amaral

Diogo Ramada Curto

Dulce Garcia

Dulce Maria Cardoso

Eduardo Cintra Torres

Eduardo Lourenço

Eduardo Paz Ferreira

Eduardo Pitta

Ernesto Rodrigues

Eugénia de Vasconcellos

Eugénio Lisboa

Fausta Cardoso Pereira

Fernando Alves

Fernando Alvim

Fernando Correia

Fernando Dacosta

Fernando Echevarria

Fernando Esteves Pinto

Fernando Paulo Baptista

Fernando Pinto do Amaral

Fernando Ribeiro

Fernando Venâncio

Filipa Leal

Filipe Nunes Vicente

Filipe Verde

Francisco Moita Flores

Francisca Prieto

Francisco Salgueiro

Frederico Duarte Carvalho

Frederico Lourenço

Frederico Pedreira

Gabriela Ruivo Trindade

Galopim de Carvalho

Gastão Cruz

Gonçalo Cadilhe

Gonçalo M. Tavares

Helder Guégués

Helder Moura Pereira

Helena Carvalhão Buescu

Helena Malheiro

Helena Sacadura Cabral

Henrique Manuel Bento Fialho

Hélia Correia

Inês Botelho

Inês Dias

Inês Fonseca Santos

Inês Lourenço

Inês Pedrosa

Irene Flunser Pimentel

Isabel A. Ferreira

Isabel da Nóbrega

Isabel Machado

Isabel Pires de Lima

Isabel Valadão

Ivone Mendes da Silva

Jaime Nogueira Pinto

Jaime Oliveira Martins

Jaime Rocha

Joana Stichini Vilela

João Barreiros

João Barrento

João Céu e Silva

João David Pinto Correia

João de Melo

João Lobo Antunes

João Luís Barreto Guimarães

João Miguel Fernandes Jorge

João Morgado

João Paulo Borges Coelho

João Paulo Sousa

João Pedro George

João Pedro Mésseder

João Pedro Marques

João Pereira Coutinho

João Rasteiro

João Reis

João Ricardo Pedro

João Távora

João Tordo

Joaquim Letria

Joaquim Magalhães de Castro

Joaquim Pessoa

Joel Neto 

Jorge Araújo

Jorge Buescu

Jorge Morais Barbosa

Jorge Sousa Braga

José-Alberto Marques

José Alfredo Neto

José António Almeida

José António Barreiros

José Augusto França

José Barata Moura

José do Carmo Francisco

José Fanha

José Gil

José Jorge Letria

José Manuel Mendes

José Manuel Saraiva

José Mário Silva

José Miguel Silva

José Navarro de Andrade

José Pacheco Pereira

José Rentes de Carvalho

José Riço Direitinho

José Viale Moutinho

Júlio Machado Vaz

Laurinda Alves

Lídia Fernandes

Lídia Jorge

Lourenço Pereira Coutinho

Luís Amorim de Sousa

Luís Carmelo

Luís Filipe Borges

Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Silva

Luís Manuel Mateus

Luís Naves

Luís Osório

Luís Quintais

Luísa Costa Gomes

Luísa Ferreira Nunes

Luiz Fagundes Duarte

Manuel Alegre

Manuel Arouca

Manuel da Silva Ramos

Manuel de Freitas

Manuel Gusmão

Manuel Jorge Marmelo

Manuel Marcelino

Manuel Tomás

Manuel Villaverde Cabral

Manuela Bacelar

Marcello Duarte Mathias

Marco Neves

Margarida Acciaiuoli

Margarida de Magalhães Ramalho

Margarida Fonseca Santos

Margarida Palma

Margarida Rebelo Pinto

Maria Alzira Seixo

Maria de Fátima Bonifácio

Maria do Carmo Vieira

Maria do Rosário Pedreira

Maria Elisa Domingues

Maria Filomena Molder

Maria Filomena Mónica

Maria Helena Serôdio

Maria João Avillez

Maria João Lopo de Carvalho

Maria Manuel Viana

Maria Saraiva de Menezes

Maria Teresa Horta

Maria Velho da Costa

Maria Vitalina Leal de Matos

Mariana Inverno

Mário Cláudio

Mário de Carvalho

Mário Zambujal

Marlene Ferraz

Miguel Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Gullander

Miguel Real

Miguel Sousa Tavares

Miguel Tamen

Nádia Carnide Pimenta

Nuno Amado

Nuno Camarneiro

Nuno Costa Santos

Nuno Júdice

Nuno Lobo Antunes

Nuno Markl

Nuno Rogeiro

Octávio dos Santos

Orlando Leite

Patrícia Baltazar

Patrícia Reis

Paula Morão

Paula Veiga

Paulo Assim

Paulo Castilho

Paulo da Costa Domingos

Paulo Guinote

Paulo Moreiras

Paulo Tunhas

Pedro Almeida Vieira

Pedro Barroso

Pedro Braga Falcão

Pedro Chagas Freitas

Pedro Correia

Pedro Eiras

Pedro Guilherme-Moreira

Pedro Lains

Pedro Marta Santos

Pedro Medina Ribeiro

Pedro Mexia

Pedro Paixão

Pedro Rolo Duarte

Pedro Sena-Lino

Pedro Tamen

Porfírio Silva

Possidónio Cachapa

Rafael Augusto

Raquel Nobre Guerra

Raquel Ochoa

Renata Portas

Ricardo Adolfo

Ricardo António Alves

Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Paes Mamede

Rita Ferro

Rodrigo Guedes de Carvalho

Rosa Alice Branco

Rosa Maria Martelo

Rosa Oliveira

Rui Ângelo Araújo

Rui Cardoso Martins

Rui Cóias

Rui Herbon

Rui Manuel Amaral

Rui Miguel Duarte

Rui Pires Cabral

Rui Ramos

Rui Vieira Nery

Rute Silva Correia

Ruy Ventura

Sarah Adamopoulos

Sérgio Godinho

Soledade Martinho Costa

Susana Gaião Mota

Sylvia Beirute

Tatiana Faia

Teolinda Gersão

Teresa Salema Cadete

Teresa Veiga

Tiago Cavaco

Tiago Patrício

Tiago Rebelo

Tiago Salazar

Valério Romão

Valter Hugo Mãe

Viriato Teles

Vasco Gato

Vasco Luís Curado

Vasco Pulido Valente

Vítor Aguiar e Silva

Vítor Oliveira Jorge

Yvette Centeno

 

Texto originalmente publicado a 7 de Maio de 2016.

A lista foi muito ampliada, mencionando agora 325 nomes

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 09.02.17

«O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que rejeita a revisão do acordo ortográfico. E eu rejeito essa forma de rejeição, porque a considero autoritária, arrogante, dogmática e deselegante para com a Academia das Ciências. A Academia, que é, de acordo com a lei, conselheira do Governo em matéria da língua, não foi ouvida nem achada no que diz respeito ao acordo. E limitou-se a apresentar, agora, um conjunto de sugestões indicativas para que se começasse a debater este assunto e para tentar melhorar, se possível, um acordo que nasceu mal, um acordo falhado.

Esta posição do ministro [Augusto Santos Silva], que fala em nome do Governo, revela um grande desprezo por todos aqueles que se têm oposto desde o princípio a este acordo. Desprezo por escritores, por gente das letras, por académicos, por professores e por muitos cidadãos que manifestam a sua oposição a este acordo, que está a fragmentar a língua e a dividir os portugueses. Já nem falo de mim, falo do Vasco Graça Moura, que mostrou de mil e uma maneiras todos os erros deste acordo, que, aliás, considerava inconstitucional. Não conheço nenhum escritor de nomeada que seja favorável a este acordo.»

Manuel Alegre, hoje, no Público

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 29.01.17

«Apesar das sugestões razoáveis que propôs, é lastimável que a nossa Academia das Ciências tivesse aprovado um péssimo acordo ortográfico que não acrescenta nada de bom à nossa História.»

Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, no Correio da Manhã

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Resistência activa ao aborto ortográfico (123)

por Pedro Correia, em 29.01.17

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Évora, Janeiro de 2017

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Resistência activa ao aborto ortográfico (122)

por Pedro Correia, em 16.01.17

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Vinho do Douro Projecto Amizade

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Resistência activa ao aborto ortográfico (121)

por Pedro Correia, em 03.12.16

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Évora, Rua de Chartres

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Resistência activa ao aborto ortográfico (120)

por Pedro Correia, em 01.12.16

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Évora, hoje

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Quando a tolice se torna lei

por Pedro Correia, em 07.11.16

 

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1

O tempo passa e a indispensável reforma do impropriamente chamado “acordo ortográfico” já vai tardando. Reforma destinada a impedir os absurdos que vamos lendo por aí, como a aberrante separação de famílias lexicais que ao abrigo das pseudo-regras acordísticas permitem escrever facto e fator, sectorial e setor, tectónico e teto, característica e caráteregiptólogo e Egito.

Porquê? Apenas porque sim.

“Pronúncia culta”, dizem eles. Sem conseguirem definir o que raio entendem por “pronúncia culta” e qual o critério científico que autoriza sustentar, enquanto trave-mestra do AO90, a imposição de controversos sistemas fonéticos normativos. Eu, que faço questão de me expressar em português correcto, digo eleCtrizante e daCtilógrafa, palavras que – entre tantas outras – vejo sistematicamente mutiladas em legendas de filmes e séries televisivas que aplicam a guilhotina acordística já não às chamadas consoantes mudas mas às próprias consoantes articuladas.

 

2

«A regra da fonética é pura tolice, como facilmente se comprovará. A ser assim, o verbo "Estar" teria de mudar. Ninguém diz, em voz corrente, "estou a almoçar" ou "estás a aprender muito devagar" ou "estamos fechados, volte mais tarde"; diz-se ‘tou, ‘tás, ‘tamos. Se a regra da fonética fosse para valer, teríamos o verbo Tar: Eu tou, Tu tás, ele tá, nós tamos, vós tais, eles tão. Bonito? Há pior. Querem ver como se altera o som de uma palavra pela escrita? Veja-se, por exemplo, "co-adopção". Assim, lê-se "cô (de ‘com’, daí a acentuação do "o") âdóção". Se retirarmos o P, leremos por impulso "cô-adução"; mas se tirarmos o hífen leremos "cuadução", porque nas palavras onde o "co" perdeu vida própria essa é a tendência vocálica dominante.»

Palavras sábias. Do Nuno Pacheco, no Público.

Será possível que ninguém as escute?

 

3

O problema é quando a tolice se torna lei, avalizada com a chancela do Estado português - que devia delegar na comunidade científica a última palavra nesta matéria, como de resto sucede em Espanha ou no Reino Unido, onde nenhum governante se lembrou de alterar a norma ortográfica para acomodá-la ao padrão dominante no México ou nos Estados Unidos, vergado ao peso demográfico destes países. Precisamente ao contrário do que fizeram Cavaco Silva e José Sócrates em 1990 e 2008.

«Um exemplo inglês, que andou por aí muito em voga devido ao nome de um clube. Leicester, como Worcester ou Gloucester, perde na fala o “ce” do meio. Lê-se Leister, Worster, Glouster. Pelo extraordinário acordo português, mudariam de grafia. Só que os ingleses não são loucos e sabem, como também deveríamos saber, que a escrita e a fala são disciplinas distintas», observa ainda o Nuno Pacheco, cheio de razão.

 

4

Em vez de aprendermos com os bons exemplos, como o britânico, nesta matéria não falta quem acelere de asneira em asneira. Como se não fosse suficiente a subordinação da grafia à linguagem oral, verdadeira ou falsa, há agora quem suprima consoantes bem sonoras, como comprovam as agressões diárias aos desgraçados factos e contactos, travestidos de fatos e contatos no cada vez mais analfabeto Diário da República.

Até uma organização intitulada Voluntários de Leitura, que se propõe "desenvolver a literacia e o gosto pela leitura", insere os famigerados "contatos" na sua página digital. Nem o facto de ter beneficiado do prestigiado aval da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e de a sua coordenadora-geral ser Isabel Alçada, ex-ministra da Educação e actual assessora do Presidente da República, impedem o disparate.

 

5

Neste contexto, não admira que até jornais já rendidos ao acordês alterem à la carte alguns dos seus imperativos mais abstrusos, como a abolição do acento agudo que desfaz a homografia entre para e pára.

Quando a tolice se torna lei, desobedecer-lhe é um imperativo cívico.

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Injúria póstuma a Graça Moura

por Pedro Correia, em 29.08.16

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 Foto Nuno Ferreira Santos / Público

 

Mais do que uma desconsideração intelectual, constitui uma injúria que um organismo público como a Imprensa Nacional Casa da Moeda utilize o nome de Vasco Graça Moura para atribuir um  prémio literário destinado a distinguir uma obra forçosamente escrita em acordês.

 

O grande poeta, ensaísta, ficcionista e tradutor já cá não está para zurzir os responsáveis daquela instituição com a verve que todos lhe conhecíamos e a paixão que sempre colocou nesta batalha de ideias. Mas até por isso é dever de todos os seus amigos e admiradores insurgirem-se contra o abuso que constitui a associação de Graça Moura a um prémio que exige a utilização das normas ortográficas que ele sempre combateu.

Não há outra leitura possível do artigo 10.º do regulamento do concurso, escrito na ortografia que o autor de Naufrágio de Sepúlveda abominava: “O autor premiado aceita que a INCM execute uma revisão literária dos originais, na qual sejam eliminadas todas as incorreções [sic] ortográficas ou gramaticais, e resolvidas as inconsistências com as normas de estilo adotadas [sic] para a publicação do Prémio INCM/Vasco Graça Moura.”

Como alertou Octávio dos Santos, num artigo no Público que chamou pela primeira vez a atenção para o caso, a administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, por ele contactada, confirmou por correio electrónico: "O texto vencedor será publicado de acordo com a ortografia do Acordo Ortográfico de 1990."

De resto, a tocante preocupação da INCM pelas "incorreções" [sic] devia começar pela própria redacção deste regulamento: onde se lê "usa" em vez de "sua" no artigo 9.º, n.º1 (curioso lapso, daqueles que em linguagem freudiana costumam merecer o rótulo de acto falhado).

 

Além do inaceitável paternalismo que revela, só lhe faltando vir acompanhado da antiga "menina dos cinco olhos", o artigo 10.º impõe carácter obrigatório à escrita acordística, fazendo tábua rasa dos mais elementares princípios de liberdade intelectual.

Como Octávio dos Santos justamente questionou: "Será possível que na INCM não exista quem conheça e tenha lido o Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos nacional, que também reflecte e replica legislação e jurisprudência internacionais, e que dá inequivocamente a todos os artistas a prerrogativa de utilizarem e de verem respeitada a linguagem que eles quiserem?” 

Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Teixeira de Pascoaes, entre outros escritores que foram firmes adversários da reforma ortográfica de 1911, ficariam liminarmente excluídos deste concurso se por acaso cá estivessem e quisessem concorrer.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 01.08.16

«A aplicação do Acordo Ortográfico [AO] entrou numa dinâmica perversa. Mal informados, desorientados, os utentes refugiam-se no excesso de zelo, cortando consoantes a torto e a direito, em patéticas violações do Acordo em nome do próprio Acordo. De dezenas de casos documentáveis, citem-se atidão, cócix, helicótero, núcias, oção, óvio, rétil, sução, tenológico. Nem faltam as soluções invencivelmente criativas como "os fatos consumados", "em idade proveta", "travagem abruta", "pato com o diabo" (em reedição de Saramago), "catação de investimento",  "o entusiasmo elipsou-se", "a mulher latente". 

E que fazem os procriadores do Acordo? Encolhem os ombros, sorriem distantes, não é com eles. Há-de passar. Hipercorrecções sempre as houve e haverá. Tirando isso o Acordo é um sucesso. Não lhes ouvimos um público e curial "Não foi isto o que quisemos!", como se até isso os humilhasse.

Ao fim de anos e anos de queixas, denúncias, ataques, implorações, os inventores do AO continuam, pois, a festejá-lo. Nunca, porém, a protegê-lo. A sério: jamais se viu defenderem materialmente o seu produto.»

Fernando Venâncio, no Público

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 30.07.16

Ladrões de Bicicletas: um blogue de crescente e merecido sucesso.

 

Oito anos de Ouriquense: merece registo.

 

Uma década de Santa Nostalgia. É obra.

 

Saúdo o Sapo pela nova ferramenta, bem útil a todos os adversários do acordês. E somos muitos.

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Vão-se catar.

por Luís Menezes Leitão, em 24.05.16

Até agora o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa na presidência tem sido um absoluto desastre, não se percebendo para onde quer ir o Presidente. Apesar de ter sido eleito pela Direita, só tem feito o jogo da Esquerda, chegando ao ponto de querer minimizar as péssimas notícias que todos os dias surgem, lançando areia para os olhos dos portugueses. A viagem que fez a Moçambique, onde propôs ser mediador entre o Chefe de Estado do país visitado e um simples guerrilheiro, deve ficar nos anais da História como o maior absurdo diplomático alguma vez praticado por um Presidente, mesmo contando com aquela vez em que uma intervenção de Jorge Sampaio levou a África do Sul a expulsar o embaixador português.

 

Há, porém, um ponto em que Marcelo tomou uma iniciativa louvável: a abolição do acordo ortográfico. É verdade que a intervenção dos talibans do costume, para quem o acordo ortográfico é o mais sagrado de todos os textos religiosos, de uma verdadeira inspiração divina, o fez recuar em toda a linha. Talvez para o castigar pela ousadia, o Diário de Notícias resolveu escrever que o Presidente foi visitar o Conservatório Nacional e comprou um "cato triste". Confesso que ao ler esta notícia, fiquei a pensar a que se referia o texto: ao político romano Catão, o Velho? Ao Kato, o chinês das artes marciais, que costumava acompanhar o Green Hornet? Ou será que o Presidente, cansado do cão que lhe deram os militares, decidira antes comprar um gato?

Mas depois, ao ler o texto, percebi que se falava antes de plantas, portanto o que o Presidente comprou foi um cacto, segundo explicou para não ficar demasiado optimista. Bem precisa o Presidente do tal cacto para perceber os espinhos das políticas que este governo, que tanto tem apoiado, anda a causar todos os dias ao país. E a imagem do cacto é um excelente aviso aos portugueses, que terão na planta, que acumula água no deserto, um exemplo da necessidade de poupança para os tempos negros que se avizinham.

Já em relação àqueles que continuam a querer à força obrigar toda a gente a escrever desta forma absurda, digo simplesmente: vão-se catar.

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Acredito que os portugueses ainda se pronunciarão em referendo sobre o chamado "acordo ortográfico" de 1990, vigente desde 2011 no país oficial mas votado ao desprezo pelo país real. A esmagadora maioria dos portugueses não sabe escrever em acordês nem está interessada nisso.

Enquanto o referendo não se realiza, a opinião sobre o AO90 é emitida pelos nossos escritores - os mais qualificados utentes do idioma de Camões, Vieira, Camilo, Aquilino e Nemésio. Na sua esmagadora maioria, recusam exterminar as supostas consoantes mudas, recusando a ortografia acordística.

Interrogo-me: como é possível impor regras ortográficas que os escritores rejeitam em número tão expressivo?

São autores de várias gerações, diferentes tendências políticas e diversos estilos literários. Mas com este ponto em comum.

Aqui deixo os nomes deles, por ordem alfabética, prometendo alargar a lista à medida que alguém me for assinalando omissões - o que agradeço desde já:

 

Abel Barros Baptista

Abel Neves

Adília Lopes

Afonso Cruz

Afonso Reis Cabral

Agustina Bessa-Luís

Alexandre Borges

Alice Brito

A. M. Pires Cabral

Ana Casaca

Ana Cássia Rebelo

Ana Cristina Silva

Ana Isabel Buescu

Ana Luísa Amaral

Ana Margarida Carvalho

Ana Marques Gastão

Ana Paula Inácio

Ana Teresa Pereira

Ana Vidal

Ana Zanatti

André Gago

António Carlos Cortez

António Barahona da Fonseca

António Barreto

António Borges Coelho

António Cabrita

António Costa Santos

António de Macedo

António Emiliano

António Feijó

António Guerreiro

António Lobo Antunes

António Louçã

António Manuel Venda

António Modesto Navarro

António Salvado

António Tavares

António Victorino d' Almeida

Armando Silva Carvalho

Arnaldo Saraiva

Artur Portela

Baptista-Bastos

Beatriz Hierro Lopes

Bernardo Pires de Lima

Bruno Vieira Amaral

Carla Hilário Quevedo

Carlos Campaniço

Carlos Fiolhais

Carlos Querido

Casimiro de Brito

Célia Correia Loureiro

César Alexandre Afonso

Clara Pinto Correia

Cláudia R. Sampaio

Cristina Carvalho

Daniel Jonas

David Machado

David Soares

Deana Barroqueiro

Desidério Murcho

Diogo Freitas do Amaral

Diogo Ramada Curto

Dulce Maria Cardoso

Eduardo Cintra Torres

Eduardo Lourenço

Eduardo Pitta

Ernesto Rodrigues

Eugénia de Vasconcellos

Eugénio Lisboa

Fausta Cardoso Pereira

Fernando Alvim

Fernando Dacosta

Fernando Echevarria

Fernando Paulo Baptista

Fernando Pinto do Amaral

Fernando Venâncio

Filipa Leal

Filipe Nunes Vicente

Filipe Verde

Francisco Moita Flores

Francisco Salgueiro

Frederico Lourenço

Frederico Pedreira

Gabriela Ruivo Trindade

Gastão Cruz

Gonçalo Cadilhe

Gonçalo M. Tavares

Helena Malheiro

Helena Sacadura Cabral

Henrique Manuel Bento Fialho

Hélia Correia

Inês Botelho

Inês Dias

Inês Fonseca Santos

Inês Lourenço

Inês Pedrosa

Irene Flunser Pimentel

Isabel da Nóbrega

Isabel Pires de Lima

Ivone Mendes da Silva

Jaime Nogueira Pinto

Jaime Rocha

João Barrento

João Céu e Silva

João David Pinto Correia

João de Melo

João Lobo Antunes

João Luís Barreto Guimarães

João Miguel Fernandes Jorge

João Morgado

João Paulo Sousa

João Pedro George

João Pedro Mésseder

João Pedro Marques

João Pereira Coutinho

João Ricardo Pedro

João Tordo

Joaquim Letria

Joaquim Magalhães de Castro

Joaquim Pessoa

Joel Neto 

Jorge Araújo

Jorge Buescu

Jorge Morais Barbosa

Jorge Sousa Braga

José António Barreiros

José Augusto França

José Barata Moura

José do Carmo Francisco

José Fanha

José Gil

José Jorge Letria

José Manuel Saraiva

José Mário Silva

José Miguel Silva

José Navarro de Andrade

José Pacheco Pereira

José Rentes de Carvalho

José Riço Direitinho

José Viale Moutinho

Júlio Machado Vaz

Lídia Jorge

Lourenço Pereira Coutinho

Luís Carmelo

Luís Filipe Castro Mendes

Luís Manuel Mateus

Luís Naves

Luís Quintais

Luísa Costa Gomes

Luísa Ferreira Nunes

Luiz Fagundes Duarte

Manuel Alegre

Manuel Arouca

Manuel da Silva Ramos

Manuel de Freitas

Manuel Gusmão

Manuel Jorge Marmelo

Manuel Tomás

Manuel Villaverde Cabral

Marcello Duarte Mathias

Margarida Acciaiuoli

Margarida Fonseca Santos

Margarida Palma

Margarida Rebelo Pinto

Maria Alzira Seixo

Maria de Fátima Bonifácio

Maria do Carmo Vieira

Maria do Rosário Pedreira

Maria Filomena Molder

Maria Filomena Mónica

Maria Helena Serôdio

Maria João Lopo de Carvalho

Maria Manuel Viana

Maria Saraiva de Menezes

Maria Teresa Horta

Maria Velho da Costa

Maria Vitalina Leal de Matos

Mariana Inverno

Mário Cláudio

Mário de Carvalho

Mário Zambujal

Marlene Ferraz

Miguel Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Gullander

Miguel Real

Miguel Sousa Tavares

Miguel Tamen

Nuno Amado

Nuno Camarneiro

Nuno Costa Santos

Nuno Júdice

Nuno Lobo Antunes

Nuno Markl

Nuno Rogeiro

Octávio dos Santos

Orlando Leite

Patrícia Baltazar

Patrícia Reis

Paula Morão

Paulo Castilho

Paulo da Costa Domingos

Paulo Guinote

Paulo Moreiras

Paulo Tunhas

Pedro Almeida Vieira

Pedro Barroso

Pedro Chagas Freitas

Pedro Eiras

Pedro Guilherme-Moreira

Pedro Marta Santos

Pedro Medina Ribeiro

Pedro Mexia

Pedro Paixão

Pedro Sena-Lino

Pedro Tamen

Porfírio Silva

Possidónio Cachapa

Rafael Augusto

Raquel Nobre Guerra

Raquel Ochoa

Renata Portas

Ricardo Adolfo

Ricardo António Alves

Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Paes Mamede

Rita Ferro

Rodrigo Guedes de Carvalho

Rosa Maria Martelo

Rosa Oliveira

Rui Ângelo Araújo

Rui Cardoso Martins

Rui Cóias

Rui Herbon

Rui Manuel Amaral

Rui Pires Cabral

Rui Ramos

Rui Vieira Nery

Rute Silva Correia

Ruy Ventura

Sarah Adamopoulos

Sérgio Godinho

Soledade Martinho Costa

Susana Gaião Mota

Sylvia Beirute

Tatiana Faia

Teolinda Gersão

Teresa Salema Cadete

Teresa Veiga

Tiago Cavaco

Tiago Patrício

Tiago Rebelo

Tiago Salazar

Valério Romão

Valter Hugo Mãe

Vasco Luís Curado

Vasco Pulido Valente

Vítor Aguiar e Silva

Vítor Oliveira Jorge

Yvette Centeno

 

Texto originalmente publicado a 7 de Maio.

A lista foi muito ampliada, mencionando agora 260 nomes

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Leituras

por Pedro Correia, em 15.05.16

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«Confesso que a nova ortografia me confunde um pouco. Por exemplo: o trema, quando se deve usá-lo? E o acento diferencial? Pêra pera, péla pela, pára para, pêlo pelo, pólo polo. Se alguém me perguntar onde eu vou colocar um troço e eu responder "vou pô-lo aqui" as pessoas vão me entender? Só se eu estiver em Portugal. E o acento circunflexo? E o acento agudo?»

Rubem Fonseca, Axilas & Outras Histórias Indecorosas (2011), pp. 135/136

Ed. Sextante, 2012.

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O país das duas ortografias

por Pedro Correia, em 13.05.16

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«Somos o país das duas ortografias

Fernando Pessoa (1928)

 

Raras vezes tem havido um exemplo que ilustre de forma tão acentuada a diferença entre o país legal e o país real como o pretenso "acordo ortográfico" de 1990. A maioria dos portugueses sente-se de algum modo impelida a aplicá-lo, por força de uma resolução do Conselho de Ministros datada de Janeiro de 2011 que só deveria vincular o Governo e organismos sob a sua dependência, mas quase ninguém surge em sua defesa no espaço público. E os poucos que o fazem submetem o essencial do seu argumentário à lógica do "porque sim". Ou, numa versão ligeiramente mais sofisticada, "o melhor é não mexer porque já está assim".

Acaba de acontecer isso novamente com Henrique Monteiro, que, valha a verdade, sempre se distinguiu pelo seu proselitismo acordístico - de tal forma que se apressou a mandar aplicar o AO90 no Expresso, jornal que então dirigia, com uma rapidez digna de um Usain Bolt, em louvor da suposta era de ouro e mel na ortografia portuguesa enfim unificada. Esquecendo dois pormenores básicos: com Angola, Moçambique e restantes Estados ou territórios lusófonos africanos e asiáticos havia já uma ortografia unificada; com o Brasil essa unificação será sempre inatingível. Porque o que mais nos separa dos brasileiros são diferenças fonéticas, lexicais, de vocabulário e pronúncia.

Se eles andam de carona e nós à boleia, ou preferem apanhar o bonde enquanto nós vamos de eléctrico, ou combatem o cancer e nós o cancro, e escrevem Irã e Cingapura ao que nós chamamos Irão e Singapura, essas diferenças jamais serão esbatidas pelo efeito de uma putativa unicidade ortográfica imposta por uns quantos agentes políticos à revelia da comunidade científica nacional. Muito menos por força de um "acordo" que em vez de esbater diferenças antes as acentua ao pretender alterar a grafia portuguesa de palavras como concepção e recepção, sempre escritas assim pelos brasileiros.

 

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Henrique Monteiro vira agora baterias contra Marcelo Rebelo de Sousa. Pretendendo que o Presidente da República seja alguém que não é: um defensor do AO90. No seu entendimento, o Chefe do Estado só estaria autorizado a pronunciar-se sobre a matéria para aplaudir, como fizeram os seus antecessores Mário Soares e Cavaco Silva, nunca para criticar. Apesar de Marcelo ter sido signatário, logo em 1991, de um primeiro manifesto anti-"acordo" subscrito por 400 personalidades. E de ter publicado no próprio Expresso, mal foi eleito para Belém, um artigo de opinião escrito da forma em que sempre escreveu - sem as regras acordísticas. De resto como acaba de fazer um dos seus antecessores, Jorge Sampaio, num muito publicitado texto de opinião há dias estampado no Público, igualmente na grafia pré-AO90. Desta forma, Sampaio e Marcelo revelam sintonia com a generalidade dos portugueses.

Se o próprio Cavaco, um dos raros entusiastas desta grafia, confessou que continuava a escrever como sempre escreveu, porque não o farão todos quantos discordam dela?

 

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Segundo o ex-director do Expresso, Marcelo "fez muito mal" em intrometer-se na matéria "porque já milhares de crianças aprenderam a escrever de acordo com as novas regras". Curiosamente, não invocou o mesmo argumento quando o Executivo de José Sócrates, através da  Resolução nº 8/2011, datada de 25 de Janeiro de 2011, mandou aplicar as regras acordísticas daí a escassos meses, na abertura do ano lectivo 2011/12.

No mesmo jornal onde Henrique Monteiro escreve, e que há quase dez anos adoptou as normas acordísticas, vários comentadores e colunistas - Miguel Sousa Tavares, Pedro Mexia, Manuel S. Fonseca, Maria Filomena Mónica, José Cutileiro - continuam a escrever no correctíssimo português pré-AO90. E entre as personalidades já galardoadas com o  Prémio Pessoa - que o mesmo Expresso patrocina - figuram destacados opositores ao acordo, como João Lobo Antunes, Manuel Alegre, Mário Cláudio, Irene Pimentel e Eduardo Lourenço. Já para não mencionar os falecidos Herberto Helder e Vasco Graça Moura, que nunca esconderam divergências sérias em relação à ortografia que o professor Malaca Casteleiro e meia dúzia de iluminados conceberam, a reboque de conveniências políticas, em nome da convergência cultural luso-brasileira sem perceberem que nada disso passa pela convenção ortográfica. Como fica demonstrado pelo facto de o AO90 não ter aberto o mercado brasileiro ao livro português, ao contrário do que algumas almas ingénuas imaginavam.

 

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Chama Henrique Monteiro "país de loucos" a Portugal por ainda estar a discutir o AO90 quase 26 anos após o documento ter sido assinado, a 16 de Dezembro de 1990, no Palácio da Ajuda - com o então secretário de Estado da Cultura, Pedro Santana Lopes, como signatário em nome de Portugal. Não lhe ocorre discorrer sobre a principal causa da persistência da polémica: a profunda inconsistência de um "acordo" que é "um descaso político e jurídico", como lhe chamaram em 2012 os professores da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra José de Faria Costa (actual Provedor de Justiça) e Francisco Ferreira de Almeida. Um "acordo" concebido à revelia dos principais pareceres da comunidade científica portuguesa e contra a vontade da  esmagadora maioria dos nossos escritores, utentes qualificados do idioma.

Um deles, o filósofo José Gil, explicou a questão numa síntese notável: "O acordo mutila o pensamento."

Já em 1986 - quando houve uma primeira tentativa, mal sucedida, de impor ao País um "acordo" que mutilava ainda mais consoantes - Sophia de Mello Breyner Andresen, bem ao seu timbre, marcara uma distância poética face ao disparate ortográfico ao dizer que ação, sem o c supostamente mudo, "parecia o nome de um pássaro", como recorda a filósofa e ensaísta Maria Filomena Molder.

Ironia da história: após alguns políticos terem imposto o AO90 aos linguistas, vem agora um dos raros linguistas que o sustentam procurar impô-lo aos políticos, dizendo ao Presidente da República como  deve comportar-se em matéria ortográfica por inerência das funções que hoje desempenha. Não sei em que alínea da nossa lei fundamental se estriba Malaca Casteleiro para justificar tal absurdo. Deve ter frequentado um curso intensivo de Direito Constitucional sem o País saber, atrevendo-se a dar conselhos a um especialista na matéria. Parafraseando o ralhete dirigido por Henrique Monteiro ao Presidente na última edição do Expresso, eu recomendaria ao professor Malaca que "não é da sua competência nem politicamente avisado" agir assim.

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.05.16

"A negligência e a arbitrariedade com que se trata a língua e a escrita são o primeiro sinal da decadência de uma cultura e de uma nação." - Guilherme Valente, Público, 13/05/2016

 

Tenho muitas e antigas discordâncias com o Guilherme Valente, mas no que diz respeito à defesa da língua portuguesa estamos no mesmo barco. Por isso, só posso aconselhar a leitura e a reflexão sobre o que ele escreveu na edição de hoje do Público. 

 

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O Conselho Económico e Social (CES) costuma ser notícia. Ainda hoje o foi, ao anunciar ao País as suas previsões de um débil crescimento do investimento público e de anémica criação de emprego em 2016 devido ao insuficiente aumento das receitas fiscais.

Órgão de consulta do Governo com um presidente escolhido pela Assembleia da República, o CES tem à sua frente um ex-ministro, Luís Filipe Pereira. E já foi dirigido por outros antigos ministros: Nascimento Rodrigues, José Silva Lopes, Alfredo Bruto da Costa e José Silva Peneda. Motivos de sobra para dever estar atento não só às questões económicas e sociais mas também à língua portuguesa, que goza de protecção constitucional. Nunca é de mais recordar o artigo nº 11, n.º 3, da nossa lei fundamental: "A língua oficial [da República Portuguesa] é o Português."

Luís Filipe Pereira não ignora isto. Mas ninguém diria, ao visitar o sítio do CES: abrimos a página principal e deparamos logo com um palavrão: "Contatos".

Assim mesmo, à brasileira, sem respeitar a correcta norma da ortografia portuguesa nem sequer fazer caso do que está contido no chamado "acordo ortográfico" de 1990. Em acordês, convém recordar, "as consoantes c e p são eliminadas em todas as palavras em que não são pronunciadas". Obviamente não é o caso de contacto, palavra em que todas as consoantes são bem sonoras em qualquer das pronúncias portuguesas, independentemente da classe social ou da região do País de quem as pronuncia.

Quando os organismos oficiais são os primeiros a dar estes maus exemplos, distanciando-se da sociedade que pretendem servir, não admira que os erros na escrita da nossa língua se multipliquem por aí. A ausência de regras tornou-se a regra dominante. E tudo isto é encarado com um vago e sonolento encolher de ombros. Como se a língua não fosse nossa. Como se pertencesse a suevos, aborígenes ou patagões.

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.05.16

"O Acordo Ortográfico não é ciência, nem lei, é política. Como política, é prejudicial à nossa cultura a nível nacional e como elemento de política externa é um acto político clamorosamente falhado e cujas consequências do seu falhanço caem essencialmente sobre Portugal. O Presidente teve a coragem de levantar o assunto, convinha agora dar ao seu acto a força da opinião pública." - José Pacheco Pereira, Público, 07/05/2016

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Inverter Pessoa

por João André, em 06.05.16

Reflectindo sobre o post do Pedro, náo posso deixar de pensar que este acordo ortográfico é de facto a verdadeira geringonça do país. Não pela vertente técnica ou científica, sobre a qual não tenho competência para me pronunciar, mas pela vertente política.

 

À partida nada tenho contra uma reforma que elimine as vogais mudas da nossa ortografia. Qualquer reforma que torne a ortografia mais fonética simplificaria a língua sem que a tornasse menos subtil e rica. Não consigo pronunciar-me sobre as dificuldades ou objecções científicas de tal hipotética reforma (o Pedro avança algumas com os casos «Egito"/egípcio, "caráter"/característica ou "setor"/sectorial»), mas é difícil argumentar que uma completa opção pela simplificação da escrita não seria preferível. Pessoalmente teria dificuldade em a adoptar (tal como não adoto esta), pura e simplesmente porque aprendi a escrever a minha língua de uma determinada forma e demorará tempo até que pudesse escrever de forma natural de outra (da mesma forma que muita gente continuou a escrever pharmácia até ao fim da sua vida). As futuras gerações, no entanto, não teriam os mesmos problemas.

 

Só que essa seria uma reforma que teria de ter um aval científico. Na França, a língua é regulamentada por um organismo estatal (ou mandatado pelo Estado, como no passado a Académie Française). Na Alemanha é o Conselho para a Ortografia Alemã que assume o manto de guardiã da língua (ou, pelo menos, da sua ortografia). Em ambos os casos, as reformas promulgadas no passado foram contestadas e alvo de críticas (como provavelmente qualquer reforma o seria). No caso da reforma alemã de 1996, alguns dos aspectos mais polémicos foram retirados após oposição de vários agentes (nomeadamente o - deveria escrever a? - prestigiado Frankfurter Allgemeine Zeitung). Na França, as novas regras receberam oposição mas não foram, em geral, impostas e foi considerado que ambas as versões seriam correctas. A implementação das regras ficou a cargo de cada indivíduo ou organização, sendo as novas regras apenas recomendadas para funcionários públicos.

 

Já o Inglês segue o percurso oposto. É uma língua onde não há uma organização central que regule o seu uso e aplicação e que, como tal, se torna muito mais orgânica e fluida. Poderá dizer-se que neste caso a âncora da língua são as publicações mais veneradas, como o Diccionário da Língua Inglesa de Samuel Johnson, A História do Declínio e Queda do Império Romano de Edward Gibbon, as obras de William Shakespeare ou, fundamental, a Bíblia do Rei James (exemplos que já vi referidos no passado - outros poderiam ser citados). A partir daqui é possível encontrar variações na ortografia entre diversos países (o uso do "s" em Inglaterra e o "z" nos EUA, nomes terminados em "ough" em Inglaterra passam a terminar em "o" nos EUA, etc) mas também diferenças enormes na pronúncia de sons escritos da mesma forma em palavras diferentes ("ough", por exemplo em "tough" e "thorough", é o meu caso preferido).

 

Poderia argumentar-se que a penetração do Inglês demonstra a importância de não acorrentar a língua e a manter plástica, mas eu não subscrevo este ponto. Vejo o domínio do Inglês como o resultado das actuais situações geopolítica, geoestratégica e geoeconómica. No passado o Inglês já tinha demonstrava esta plasticidade e no entanto o domínio de línguas como o italiano, alemão ou françês demonstraram que a importância segue mais linhas sociais que normas (ou ausência delas) científicas.

 

Há ainda no Inglês um risco: ao permitir a sua evolução independente, não demorará a que o Inglês nos EUA seja ininteligível para os ingleses e vice versa (em muitos casos os norte-americanos já demonstram dificuldades em compreender os nativos do Reuno Unido). Mesmo dentro de um país tão vasto como os EUA, a evolução da língua poderá levar ao surgimento de não só dialectos como de línguas distintas.

 

Seja como for, isso estará no futuro. Para um estrangeiro, aprender uma língua como o Inglês é facilitado pela flexibilidade que eliminou elementos mais complexos. Já a normalização da língua como com o Alemão ou Francês, conforta quem a aprenda, por não se defrontar tão facilmente com múltiplas variações.

 

Em qualquer dos caso, há no entanto uma definição clara em favor da auscultação da audiência a quem a reforma (ou sua ausência) se destina. O Alemão e Francês surgiram de esforços escolásticos claros e permitiram ajustes e períodos de ajustamento. O Inglês nunca perdeu o seu carácter transiente e informal.

 

Impôr uma reforma administrativa sem grande lógica ou coerência científica (é o que percebo em relação a este acordo) e não admitir um período de nojo para a sua implementação e teste é o maior pecado que qualquer Estado pode cometer em relação à sua Língua. Pessoa escreveu que a sua pátria era a Língua Portuguesa: o Estado quer inverter a relação, tornando o Estado a pátria do portuguès. Isto, mais que a reforma em si, é o que me move contra o acordo.

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"acordo ortográfico" de 1990, concebido por Cavaco Silva e que José Sócrates mandou ratificar em 2008, surgiu com o propósito de unificar a grafia. Propósito utópico, irrealizável: nunca haverá unidade ortográfica entre os países de língua portuguesa (reparem, por exemplo, como os brasileiros - e só eles - persistem em chamar Cingapura a Singapura).

Não unificou: baralhou ainda mais a ortografia. Passou a haver três normas - a que radica no português europeu com ramificações em Angola, Cabo Verde, Goa, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, a norma brasileira e o modelo híbrido que o AO90 veio introduzir. Híbrido porque nuns casos transformou a nossa ortografia em mero decalque da brasileira enquanto noutros aprofundava as diferenças - como nas palavras recepção, decepçãoexcepcional, introspecçãoexpectativaimperceptível ou espectadores (que alguns aqui no torrão, por motivos que talvez Freud explique, adoram transformar em "espetadores").

 

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Instalou-se portanto uma ortografia à la carte que em vez de clarificar só confundiu. E em vez de democratizar, como seria intenção subsidiária dos esdrúxulos legisladores que pariram este ornitorrinco, gerou uma nova aristocracia do idioma, acentuando as distâncias entre os que o escrevem correctamente - por exemplo, sem quebrar famílias lexicais, como em "Egito"/egípcio, "caráter"/característica ou "setor"/sectorial - e os restantes, que se sentem obrigados a usar o acordês embora discordem dele e na intimidade persistam em escrever como sempre escreveram. Seguindo aliás o insuspeito precedente do próprio Cavaco, principal patrocinador político da coisa.

 

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Quando passo os olhos pelo Observador fico sempre com a noção desta dualidade, ali cultivada com esmero. Nas peças informativas, destinadas ao "povinho", este jornal digital faz questão de nos bombardear com títulos e entradas em acordês: "Moçambique promete desinfetar a casa"; "Portugal já adotou o novo acordo ortográfico"; "Portugal é eletrónico e este filme ensina-lhe isso"; "Onde para a Viatecla?"  Não porque os jornalistas que assinam estas peças necessariamente assim queiram, mas porque existe uma norma interna que tal impõe. Como se a Resolução do Conselho de Ministros assinada em Janeiro de 2011 por Sócrates que tornou obrigatória a aplicação do AO90 apenas ao "Governo e todos os serviços, organismos e entidades sujeitos aos poderes de direcção, superintendência e tutela do Governo", se estendesse afinal aos restantes organismos, públicos e privados - dos tribunais às empresas, das editoras às redacções de jornais.

Já os selectos artigos de opinião dos habituais colunistas do Observador, em nítido contraste, são na grande maioria escritos em português correcto - ou seja, na grafia pré-acordês. Refiro-me por exemplo aos textos de Rui Ramos, Luís Aguiar-Conraria, Laurinda Alves, Paulo de Almeida Sande, Alexandre Homem Cristo, João Carlos Espada, Mário Pinto, Paulo Tunhas, Helena MatosJoão Marques de AlmeidaCarlos Silva e Maria João Avillez.

Upstairs, downstairs: pura dualidade ortográfica introduzida pelo "acordo" que visava unificar o idioma. Passaram a existir os proletários da escrita e os aristocratas da escrita - os primeiros, forçados a aplicar o AO90; os outros, dispensados da sua utilização.

 

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É quanto basta para ilustrar o ridículo deste ornitorrinco legado ao País por Cavaco e Sócrates, que se atreveram a legislar sobre a língua sem conhecimentos sumários da matéria.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 04.05.16

«Num momento em que a diversidade é aquilo que nós defendemos cada vez mais para todas as áreas da sociedade, defender a unicidade para a língua, para a escrita, é um disparate. Não faz o mínimo sentido. O que faz sentido é respeitar as ortografias que vão mudando nos diversos países, respeitar essa evolução e plasmá-la no papel. Não somos todos iguais, somos diferentes. Toda a evolução foi no sentido de divergirmos foneticamente e essa divergência, naturalmente, tem de reflectir-se na escrita.»

Nuno Pacheco, esta tarde, na SIC Notícias

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 03.05.16

«Nunca percebi porque é que havia um acordo ortográfico. A maior língua do mundo, a língua mais falada, que é o inglês, nunca precisou de nenhum acordo ortográfico. Eu acredito na força da língua portuguesa e na sua pluralidade. E a vida real encarregar-se-á de lhe dar o seu próprio caminho. Se quisermos espartilhar a língua num acordo ortográfico, não creio que daí resulte nada de muito positivo. (...) Neste momento não faz sentido manter artificialmente vivo um acordo ortográfico quando três dos países fundamentais ainda não o ratificaram.»

António Vitorino, há pouco, na SIC Notícias

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Dois anos sem o Vasco

por Isabel Mouzinho, em 27.04.16

O Acordo é uma barbaridade, feita inconsiderada e precipitadamente, mantida por obstinação e teimosia, e conducente a um resultado exactamente oposto ao pretendido.

 

(Entrevista ao Expresso. 26.05.2012)

 

Foi neste dia, há dois anos, que o "Príncipe das Letras", como tão justamente lhe chamaram, nos deixou. É sempre cedo demais para ver partir aqueles de quem gostamos, porque mesmo que nos fiquem as palavras e as lembranças, sobra a saudade e um grande buraco vazio que não pode preencher-se.

Hoje, fará muita falta à sua família e amigos mais chegados, naturalmente, mas também ao país e ao mundo; e, acima de tudo, faz falta à língua portuguesa, que tanto e tão bem defendeu, e cuja luta é agora quase só ausência e esquecimento, encolher de ombros, deixar andar.

Ah, a falta que o Vasco (nos) faz...

 

O suporte da música pode ser  a relação

entre um homem e uma mulher, a pauta

dos seus gestos tocando-se, ou dos seus

olhares encontrando-se, ou das suas


vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,

ou dos seus obscuros sinais de entendimento,

crescendo como trepadeiras entre eles.

O suporte da música pode ser uma apetência


dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se

ramifica entre os timbres, os perfumes,

mas é também um ritmo interior, uma parcela

do cosmos, e eles sabem-no, perpassando


por uns frágeis momentos, concentrando

num ponto minúsculo, intensamente luminoso,

que a música, desvendando-se, desdobra,

entre conhecimento e cúmplice harmonia.

 

                                                                 (Vasco Graça Moura)

 

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Resistência activa ao aborto ortográfico (119)

por Pedro Correia, em 24.04.16

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Café com Letras, nova revista de literatura

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Resistência activa ao aborto ortográfico (118)

por Pedro Correia, em 17.04.16

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António Costa

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.03.16

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O Acordo Ortográfico de 1990 Não Está em Vigor, de Carlos Fernandes

(edição Guerra & Paz, 2016)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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Achegas

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.03.16

"Há dias, o Luiz Ruffato dizia ao HM que 'o português de Portugal vai acabar por ser um dialecto do Brasileiro'...

Tenho de discordar. Em termos linguísticos não há dialectos. São línguas. Falava-se em dialecto quando o poder colonial se referia às línguas dos países africanos. Moçambique tem 11 grupos linguísticos, todos de raiz banta, Angola tem tantos outros. Falar em dialectos é uma espécie de menorização dos estatutos linguísticos. Hoje a linguística não vê a questão assim. Não se trata de dialecto absolutamente nenhum. O que vai acontecer são variantes da Língua Portuguesa, aliás já classificadas assim. A variante europeia não é única, porque naquele território tão pequeno, o léxico, alguma sintaxe e até a pronúncia sofrem tantas mutações ... vai haver um português de Moçambique, os linguistas já fazem estudos nesse sentido, em Angola idem... O que o Luiz, se calhar, queria dizer é que pela dimensão geográfica e demográfica, o Brasil é o gigante que é.

 

Neste contexto, que sentido faz um acordo ortográfico?

Não faz muito. O problema da língua não está aí mas na sintaxe. O léxico não é problema porque as línguas são organismos vivos que se inventam a si próprios, depois a literatura gera uma espécie de padrão, a gramática analisa e cria um conjunto de regras que, logo a seguir, podem ser mudadas e são. Não há um proprietário da língua e qualquer Estado que julgue poder legislar a esse nível está absolutamente equivocado."

 

Entrevista do escritor moçambicano Luís Carlos Patraquim a Manuel Nunes (Hojemacau, 23/03/2016)

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 11.03.16

«Não existe uma nova ortografia. Existe, sim, um acordo que destrói a noção mais básica de ortografia, a que vem descrita, com clareza e secura, no relatório académico que antecedeu o acordo de 1945: "não se consentem grafias duplas ou facultativas. Cada palavra da língua portuguesa terá uma grafia única. Não se consideram grafias de uma mesma palavra" (por exemplo: ouro, oiro; louça, loiça; touro, toiro, etc.). Pois a tal "nova ortografia" não só consente como multiplica à exaustão grafias duplas e facultativas. Antes dela, o Brasil tinha uma ortografia. Portugal também. Agora, têm um supermercado de palavras, muitas delas caricatamente deformadas, para usar ao gosto do freguês - o "escrevente".

Ora Marcelo respeitou a ortografia (em vigor, já que nenhuma lei explicitamente a revogou) aprovada em 1945 com bases científicas. O que por aí anda é outra coisa. Chamem-lhe poligrafia, multigrafia, plurigrafia, arbitriografia, o que quiserem. Ortografia é que não. Por isso, se o senhor Presidente quiser poligrafar, poligrafe. Se não quiser, ponha algum tento nisto.»

 

Nuno Pacheco, no Público

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Emudecendo consoantes

por José António Abreu, em 07.03.16

Aprecio Francisco José Viegas. Não apenas os três livros dele que li ou os textos de blogue; também a postura, firme mas serena, de quem ainda sabe degustar as coisas que lhe agradam (imensa gente parece hoje mergulhada num frenesim de prazeres efémeros). Abomino nele a defesa de primeira hora do Acordo Ortográfico. O mesmo Acordo (o exacto Acordo) que o leva a tão depressa clamar contra o «apedrejamento» da Língua Portuguesa como - num texto em tudo o resto sublime - escrever «inteletual».

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Presidenciais (32)

por Pedro Correia, em 22.01.16

Em recente entrevista à SIC Notícias, o primeiro-ministro disse abertamente que não teria tomado a iniciativa de promover o chamado "acordo ortográfico" e lembrou que a ortografia continua a não ser aplicada de modo uniforme pelos países de língua oficial portuguesa, o que aliás basta para anular o suposto mérito do dito (des)acordo.

António Costa é outro resignado - como tinha sido Passos Coelho antes dele. Discorda, mas acha que não deve mexer-se naquilo porque já está. Não dá um passo para defender o que não merece defesa.

 

É, de resto, cada vez mais difícil encontrar algum entusiasta da escrita acordística, como ficou bem patente nesta campanha presidencial. Vários candidatos em liça são declaramente contra o (des)acordo. Basta ler os textos programáticos que divulgaram para perceber isso. Edgar Silva, Henrique Neto, Marisa MatiasPaulo de MoraisSampaio da Nóvoa utilizam a grafia pré-acordística sem rodeios nem complexos. Tal como sucede no site eleitoral de Maria de Belém.

Nas próprias declarações públicas proferidas antes ou durante a campanha ficou bem patente a distância que diversos protagonistas desta corrida presidencial mantêm face às normas contidas no Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90).

 

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"A minha posição é contrária ao novo acordo por considerar que a questão não foi suficientemente discutida na sociedade portuguesa, mas também nos órgãos de poder", afirma Henrique Neto.

"Sou contra. Acho que a língua não muda por decreto. É por isso que continuo a escrever sem as normas do acordo", considera Marisa Matias.

"Sou claramente contra. A língua é que se deve impor às normas e não o contrário. É uma matéria sobre a qual o Parlamento tem de se pronunciar rapidamente e se houver necessidade faz-se um referendo", observa Paulo de Morais.

"Conhecidas que são opiniões divergentes e as reticências de alguns países na sua aplicação, não pode deixar de ser ponderada a necessidade de alterações profundas no processo de elaboração e dos conteúdos do AO90 ou mesmo uma eventual desvinculação de Portugal", conclui Edgar Silva.

"[O acordo] deve ser reavaliado com muita determinação", sustenta Sampaio da Nóvoa.

"Tem de ser feita uma reavaliação do AOLP", defende Maria de Belém.

 

Mesmo Marcelo Rebelo de Sousa, único candidato que revela alguma simpatia pela grafia pseudo-unificada, confessou: "Ainda escrevo como escrevi toda a vida. Não vou mudar."

Chega e sobra para avaliar o grau de popularidade do dito "acordo": quase ninguém consegue vislumbrar a menor vantagem na sua aplicação. Não fosse este um país onde por sistema se pensa uma coisa e se pratica outra, já há muito o AO90 tinha sido revisto ou revogado.

 

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Resistência activa ao aborto ortográfico (117)

por Pedro Correia, em 10.01.16

 

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Revista National Geographic Portugal

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Resistência activa ao aborto ortográfico (116)

por Pedro Correia, em 13.12.15

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Revista Meios & Publicidade

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Resistência activa ao aborto ortográfico (115)

por Pedro Correia, em 12.12.15

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Revista Forbes Portugal

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Resistência activa ao aborto ortográfico (114)

por Pedro Correia, em 06.12.15

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A Tragédia Optimista, em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite (Almada).

[O título da peça foi alvo da tesoura censória do canal público de televisão, que decidiu amputar parte do título em nome da fidelidade cega ao acordês.]

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Resistência activa ao aborto ortográfico (113)

por Pedro Correia, em 28.11.15

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Espectáculos de Filipe La Féria

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Resistência activa ao aborto ortográfico (112)

por Pedro Correia, em 22.11.15

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Manifestação de lesados do BES em Paris (SIC Notícias, 5 de Setembro)

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Resistência activa ao aborto ortográfico (111)

por Pedro Correia, em 21.11.15

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Manifestação popular (canal de notícias da RTP, 5 de Setembro)

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Resistindo ao desejo de gastar seis euros

por José António Abreu, em 23.10.15

Em pé junto ao expositor da Fnac, leio do princípio ao fim a excelente entrevista de Francisco José Viegas a Pedro Mexia incluída no último número da revista Ler. Noto que a revista traz uma segunda entrevista, ao israelita David Grossman, bem como artigos sobre Camilo Castelo Branco (falecido há 125 anos, merecia muito mais atenção do que aquela que recebe), Susan Sontag (alguém que me irrita e fascina em igual medida) e literatura síria (que desconheço em absoluto). Sinto uma enorme vontade de a comprar. Não o faço. Mas ainda reparo que a tiragem já desceu até aos 7 mil exemplares.

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Voto de vencido ou de vencedor?

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.07.15

"Declaração de voto

Fui vencido pelas razões que passo a expor

1 – Antes do mais entendo curiais algumas considerações sobre a vigência do Acordo Ortográfico de 1990 e sua aplicação nos Tribunais aquando dos factos imputados ao recorrente.

1-1- Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados, assinada em 23 de Maio de 1969 e aprovada por Resolução da Assembleia da República n.º 67/2003, de 29 de Maio de 2003, dispõe no n.º 1 do artigo 24.º que “um tratado entra em vigor nos termos e na data nele previstos ou acordados pelos Estados que tenham participado na negociação.”

Outrossim, o n.º 2 do preceito condiciona a entrada em vigor ao consentimento de vinculação “manifestado por todos os Estados que tenham participado na negociação.”

O Decreto do Presidente da República n.º 46/2003 (DR. I-A de 7 de Agosto de 2003) ratificou aquela Convenção formulando uma reserva ao artigo 66.º que, apenas, se refere ao “procedimento de resolução judicial de arbitragem e de conciliação.”

O chamado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é um Tratado Internacional, preparado na Academia de Ciências de Lisboa, entre 6 a 12 de Outubro de 1990, com a participação de sete (7) delegações, assinado em Lisboa em 16 de Dezembro de 1990 e aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 26/91, de 4 de Junho (DR I-A n.º 193) -rectificado pela Rectificação n.º 19/91 de 7 de Novembro (DR I-A n.º 256)- e ratificado pelo Decreto do Presidente da República n.º 43/91, de 23 de Agosto.

Porém, embora tendo, sido negociado por sete (7) Estados naquela data só três (3) tinham procedido à ratificação.

Na versão original previa-se que a entrada em vigor também ficasse condicionada à elaboração do “Vocabulário Ortográfico Comum”, inicialmente prevista para 1 de Janeiro de 1994.

Mas, em 17 de Julho de 1998, foi elaborado na Cidade da Praia o Protocolo Modificativo o qual, alterando a redacção dos artigos 2.º e 3.º, suprimiu essa exigência.

Esse Protocolo (o primeiro) veio a ser ratificado pelo Decreto Presidencial n.º 1/2000, de 28 de Janeiro.

De seguida, e na V Conferência de Chefes de Estado e do Governo da CPLP (S. Tomé e Príncipe de 26 e 27 de Julho de 2004), foi adoptado um Segundo Protocolo Modificativo) aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, de 26 de Julho e, depois, ratificado pelo Decreto do Presidente da República n.º 52/2008, de 29 de Julho).

Este segundo instrumento revogou o artigo 3.º do Acordo Ortográfico que, em sintonia com a Convenção de Viena acima citada, e para além de fixar a data de entrada em vigor em 1 de Janeiro de 1994, impunha para tal o depósito dos “instrumentos de ratificação de todos os Estados junto do governo da República Portuguesa”.

Dispôs, então, a entrada em vigor apenas com o “terceiro depósito de instrumento de ratificação”.

Mais tarde, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011 antecipou em cinco anos o “prazo de transição” para o sistema educativo e em 4 anos 9 meses e 22 dias para a Administração pública e para o Diário da República (DR. I, n.º 17, de 25 de Janeiro de 2011).

Independentemente de abordar a constitucionalidade e a legalidade desta Resolução, o que só sucintamente cabe na economia destes considerandos, é inquestionável que a mesma não se aplica aos Tribunais mas, apenas, e eventualmente, à Administração Pública (cfr., a propósito de toda esta problemática, e v.g., o Parecer do Mestre Ivo Miguel Barroso – “Inconstitucionalidades orgânicas e formais da Resolução do Conselho de Ministros, que mandou aplicar o «Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa» de 1990, à Administração Pública e a todas as publicações no Diário da República, a partir de 1 de Janeiro de 2012, bem como ao sistema educativo [público, particular e cooperativo] a partir de Setembro de 2011. Inconstitucionalidades e ilegalidades «sui generis» do conversor «Lince» e do «Vocabulário Ortográfico do Português», apud O Direito – 2013 I/II 93-179 e III 439-522).

Concluiu, além do mais, este Ilustre Académico:

“I. O prazo de transição de seis anos, previsto no artigo 2.º, n.º 2, do Decreto do Presidente da República n.º 52/2008, de 29 de Julho (que procedeu à ratificação do 2.º Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico), constitui, materialmente, uma reserva, ultrapassando a qualificação de uma mera “declaração interpretativa”.

O prazo de transição não serve juridicamente para promover alterações ao Tratado, “a posteriori”, à margem de uma nova convenção internacional firmada entre os Estados.

II. O Governo procedeu ao depósito da ratificação em 13 de Maio de 2009, tendo, todavia, o aviso de tal ratificação sido publicado em 17 de Setembro de 2010 (através do Aviso do Ministério dos Negócios Estrangeiros n.º 255/2010). Deste modo, o início do prazo de transição começou após a publicação referida, seguida do período supletivo de “vacatio legis” de 5 dias (nos termos da Lei n.º 74/98 (“Lei-formulário”), com alterações posteriores).

Deste modo, o prazo de transição começou em 22 de Setembro de 2010; razão pela qual terminará somente em 22 de Setembro de 2016 (e não em Maio de 2015, completados 6 anos após a data do depósito, diversamente do que tem sido veiculado).” (...)

 

Vale a pena ler o resto do voto de vencido do Conselheiro Sebastião Póvoas.

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O relato da Agência Lusa, transmitido para vários órgãos de comunicação social, entre os quais a TSF, sobre o que se passou com a elaboração da acta relativa à XIV Conferência de Ministros da Justiça da CPLP, designadamente sobre o desacordo final (quem diria!) quanto à sua redacção e a escolha da grafia "oficial", representa, lamentavelmente, bem mais do que aquilo que à primeira vista possa parecer. À partida não está em causa, apenas, uma simples discordância sobre a forma de grafar um termo com um sentido comum a todos os países lusófonos. Uma acta é um documento em que se descreve e regista aquilo que de relevante se passa numa reunião. Em causa está, desde logo, por simples falta de vistas, teimosia, estupidez e ausência de sentido de Estado, digo eu, mais um acto (com "c") de desprezo para com Portugal - leia-se o seu poder político legítimo - por parte dos seus pares na CPLP.

O simples facto de todos os funcionários públicos em geral, os militares, os magistrados e os diplomatas, como servidores públicos que são, serem obrigados a cumprir com todas as instruções que um poder político que não sabe conjugar o verbo haver lhes dita, conformando-se com o que de mais tolo e contra a natureza das coisas lhes é imposto, já de si seria triste. Que numa matéria como a da língua se chegue perante os demais Estados que compõem a CPLP a passar por um tão grande absurdo, sujeitando-se um ministro da Justiça de um Estado soberano desde a Conferência de Zamora, em 1143, a ter de ouvir o que, com toda a razão, lhe foi recordado pelo representante de Angola, assume contornos de humilhação política. Era perfeitamente evitável que Portugal tivesse de passar pela situação de lhe ser recordado que o Acordo Ortográfico não foi ratificado por Angola, também ele um estado soberano lusófono, não podendo por isso mesmo ser utilizado no documento em questão. Esse já não foi um acto de humilhação do País e de desprezo pelo seu poder político. Aí, e isso é que é mais grave, é já a própria língua portuguesa, aquela que recebemos dos que nos precederam e que os angolanos agora defendem, que está a ser objecto de humilhação e chicana com a conivência do Governo português.

A notícia da Lusa não nos diz qual terá sido o papel do representante de Portugal nesta contenda. Nem se ao representante da Guiné-Equatorial, um novo Estado "lusófono" ditado pela mais mercenária e subserviente "diplomacia económica", por algum momento passou pela cabeça apontar a solução castelhana de se utilizar o substantivo feminino "acta" (do latim acta) para resolver a disputa que culminaria com a caricata, mas salvadora solução de compromisso proposta por Cabo Verde e que serviu para evitar maior vergonha, de se usar num texto internacional a grafia do novo Acordo Ortográfico "como base e, em cada caso, a grafia pré-Acordo Ortográfico, entre parêntesis", numa verdadeira salganhada linguística da qual só Portugal sai mal.

Quando numa cimeira entre Estados lusófonos se chega à situação de que a Lusa dá conta, talvez seja este o momento de se voltar a perguntar aos que em Portugal, à viva força e contra todas as evidências, se afadigaram a impor o (des)Acordo Ortográfico de 1990, se a solução a que se chegou não recomenda um apelo à inteligência e ao bom senso, antes que este tipo de danos, que não são colaterais, se multiplique.  Para vergonha de todos os cidadãos que em todo o Mundo se expressam na língua que lhes é mais querida, naquela que lhes revela os afectos, as paixões e as lágrimas da saudade, e que os torna dignos da herança daqueles que, como Vasco Graça Moura ou Maria Lúcia Lepecki, dedicaram toda uma vida a lutar pela divulgação e pela dignidade do único e verdadeiro património que a História nos legou.

Património que ao longo dos séculos permitiu a convivência - e o amor - entre povos das mais diversas origens, ultrapassando as suas minúsculas fronteiras naturais para se enraizar mundo fora sem que para tal se trocassem os substantivos pelas formas verbais. Tudo bem longe da paupérrima visão e dos despachos da casta de amanuenses que há séculos ocupou o Terreiro do Paço, convencida de que a decência e a respeitabilidade de uma nação milenar se compram com euros, submarinos, computadores e bandeiras chinesas na lapela dos casacos.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 22.05.15

«Há dias li que o Acordo Ortográfico tinha passado a ser obrigatório. Assim, de um momento para o outro, passados anos de resistência de tantas pessoas na sociedade portuguesa. Escrevi bastante sobre este tema e a partir de uma certa altura deixei de escrever, não por ter mudado de ideias, mas porque passei a fazer exactamente aquilo que queria, indiferente aos acontecimentos. Em Portugal pratica-se pouco a desobediência silenciosa e há uma tendência para preferir a queixa activa e permanente, que dá muito mais trabalho. A partir de certa altura, como é aliás tão feminino, desliguei. Para mim, o Acordo Ortográfico não existe. Não o quero, não o compreendo e não o sigo. É uma teimosia imposta por quem quer impor à força regras de escrita inúteis, que ainda por cima só trazem confusão e mais erros de português. O que me acontece se continuar a escrever Setembro com maiúscula? Serei multada? Enviem a multa para casa com a referência Multibanco.»

 

Carla Hilário Quevedo, na revista Tabu (do semanário Sol)

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 19.05.15

«Gostei do seu comentário "de bonne guerre". De facto, como não vivo de Acordo à ilharga, com frequência (que falta nos faz o trema, não é?) me foge a tecla para o vício antigo. Escrevo o Verão com maiúscula porque gosto do sol-e-praia (com o Acordo, perdem-se estes hífens), desse tempo de "não fazer a ponta de um chavo", como se diz na minha terra. Já o outono, mês da nostalgia da malta das rimas e do início da chatice da gabardine, esse merece amplamente ser amesquinhado com a minúscula. E, na minha liberdade de cidadão, continuarei muitas vezes a dar deliberados pontapés na gramática nova. Como, por exemplo, a acentuar, orgulhosamente o A (como a porta 10A) na frase "ninguém pára o Sporting". Pode não ser verdade, mas é assim.»

Do nosso leitor Francisco Seixas da Costa. A propósito deste texto do Sérgio de Almeida Correia.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 19.05.15

«A obsessão dos ministros da 5 de Outubro com o acordo ortográfico é incompreensível. Portugal avança compulsiva e orgulhosamente só. Com desvantagens, sem vantagens.»

Paulo Rangel, no Público

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Que não lhe doa a mão porque este combate ainda agora começou

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.05.15

"(...) A vitalidade do nosso português está nos seus grandes escritores, Miranda, Camões, Bernardes, Vieira, Herculano, Camilo, Eça, todos conhecedores do seu Virgílio, do seu Horácio, do seu Ovídio, mesmo do seu escolar Tácito, César ou Salústio. Todos lidos, estimados e estudados no Brasil, que por eles faz muito mais do que nós alguma vez fizemos, por exemplo, com Machado de Assis. E é também por isso, que a maioria dos escritores portugueses contemporâneos recusa o AO, como quase toda a gente que está na escrita e vive pela escrita e é independente da burocracia do Estado. Todos sabem que o português permite todas as rupturas criativas, dos simbolistas ao Sena dos Sonetos a Afrodite Anadiómena — “E, quando prolifarem as sangrárias,/ lambidonai tutílicos anárias,/ tão placitantos como o pedipeste”, — ao “U Omãi Qe Dava Pulus” de Nuno Bragança. Criativamente a nossa língua vernácula suporta e bem tudo, menos que seja institucionalizada com uma ortografia pobre e alheia à sua história.

O futuro do português como língua já está há muito fora do nosso alcance, mas o português que se fala e escreve em Portugal, desse ainda podemos cuidar. É que é em Portugal que o português está em risco, está na defensiva, e o AO é mais uma machadada nessa defesa de último baluarte. É em Portugal que um Big Brother invisível, que se chama sistema educativo, retira todos os anos centenas de palavras do português falado, afastando das escolas os nossos escritores do passado e substituindo-os por textos jornalísticos. É em Portugal que uma linguagem cada vez mais estereotipada domina os media, com a substituição dos argumentos pelos soundbites, matando qualquer forma mais racional e menos sensacional de conversação. É em Portugal que formas guturais de escrita, nos sms e nos 140 caracteres do Twitter, enviados às centenas todos os dias por tudo que é adolescente, ou seja também por muitos adultos, se associa à capacidade de escrever um texto, seja uma mera reclamação a uma descrição de viagem. É neste Portugal que, em vez de se puxar para cima, em nome da cultura e da sua complexidade, em nome da língua e da sua criatividade, em nome da conversação entre nós todos que é a democracia, se puxa para baixo não porque os povos o desejem, mas porque há umas elites que acham que a única pedagogia que existe é a facilidade. (...)" - José Pacheco Pereira, Público, 16/05/2015

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 15.05.15

«O acordo ortográfico tornou-se obrigatório em actos oficiais, o que implicou que deixassem de existir arquitectas, que passaram a arquitetas.»

Manuel Falcão, no Jornal de Negócios

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Evidências de difícil compreensão

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.05.15

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Compreendo que tenha sido por mero lapso e que Francisco Seixas da Costa, de cuja escrita sou um apreciador, estivesse desatento quando trocou o seu "verão" pelo nosso "Verão". Dir-me-ão que é por força do hábito e que com o tempo isso se corrigirá. Acredito que sim, só que, entretanto, como de facto explica o francês Pierre Assémat aos seus leitores, "la merde est en costume sur la plage". 

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