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O local mais espaçoso no Metro de Lisboa

por Diogo Noivo, em 14.02.17

Em Lisboa, ficar em casa é um acto de rebeldia. Exposições modernaças, bares trendy, restaurantes étnicos, arquitectura (ou arquitetura?) desempoeirada, lançamentos de livros de dietas detox, lançamentos de lojas, lançamentos de “conceitos”, enfim, uma canseira de solicitações. Só ao Tejo é que ninguém se lança – já não se fazem portugueses como o Marcelo, o que, pensando bem, não é mau de todo.
Lisboa está na moda, Lisboa é sexy, Lisboa é cosmopolita. Desde que não seja para viver e trabalhar. Sobre as digressões cosmopolitas da capital muito há a dizer, começando pelos “happenings” e pelos “conceitos”, na sua maioria cópias baças daquilo que se faz noutras paragens. No entanto, o drama está no penoso quotidiano.
Regressado de Madrid, onde desta vez vivi cerca de um ano, as diferenças no dia-a-dia são esmagadoras. Na capital espanhola consigo tratar da minha vida usando os transportes públicos, em particular o Metro. Profissionalmente, mesmo que num só dia tivesse de estar em três ou quatro sítios diferentes, o Metro dá abasto. Para as coisas mundanas, como ir ao supermercado, ia a pé. Ao contrário do que sucede em Lisboa, Madrid mantém o comércio local vivo. Em todos os bairros da cidade há supermercados, farmácias, pastelarias, lojas de informática, livrarias, ginásios, cabeleireiros, lojas de roupa, restaurantes, enfim, tudo o que faz falta. Em matéria de acesso à cultura, voltamos aos transportes públicos. Cinema, teatro, livrarias grandes ou especializadas, todos têm uma estação de Metro por perto. Não conheço na cidade de Madrid um único trajecto que se percorra com maior rapidez e conforto de carro do que em transportes públicos. Já em Lisboa conheço vários.
É verdade, as estações de Metro em Madrid são feias, algumas causam mesmo repulsa. Pelo contrário, as de Lisboa são verdadeiras obras de arte. Reconhecida a diferença, importa salientar um aspecto relevante quando falamos de transportes públicos: o Metro de Madrid funciona. O metropolitano da capital espanhola apostou na dimensão e na funcionalidade da rede, a segunda mais extensa na Europa. O de Lisboa apostou na imagem. Em hora de ponta, o intervalo de tempo entre metropolitanos em Madrid ronda os 3 minutos. Em Lisboa, também em hora de ponta, o intervalo de tempo oscila entre os 5 e os 15 minutos, isto quando não temos as célebres “perturbações de linha” – eufemismo para o muito português “desemerdem-se”.
Dir-me-ão que as coisas por Madrid também não são fáceis, ao ponto de ter sido necessária a contratação de empurradores. Certo, mas isso só demonstra o quão eficazes são por lá: Lisboa não tem empurradores, mas devia. O grau de intimidade entre estranhos proporcionado pelo Metro de Lisboa em hora de ponta está à beira de desafiar as noções mais lassas de libertinagem. Mas até nem é mau dar por mim nessa situação. Não porque seja um tipo devasso, mas porque é sinal de que consegui entrar na carruagem. Depois de uns bons 15 minutos de indagações anatómicas mútuas e forçadas, que inevitavelmente levam a comparações, quase sempre desfavoráveis à minha pessoa, lá chegarei ao meu local de trabalho sem grande atraso. Amaçado, com a paciência na reserva, com odores no corpo que não são os meus (por princípio, não me oponho a ter no corpo odores de terceiros, mas ao menos que me paguem um copo primeiro), exausto, mas a horas.
Nada disto parece interessar. O que importa é que a cidade é famosa. E o Metro de Lisboa “é nosso”, novamente público, livre do jugo capitalista previamente autorizado por uma infame concessão a um nefando privado. Se o regresso ao perímetro público traz dificuldades, paciência, é o preço a pagar. Além do valor do passe, claro. Bom, o valor do passe é claro, mas a correspondente factura tem uma tonalidade tão escura que nauseia.
Aqueles que pugnaram por um Metro público, ignorando por completo a sua funcionalidade, eficácia e o serviço prestado aos passageiros, deveriam meter as suas ideias no mesmo sítio onde eu meteria a minha pasta se eles viajassem ao meu lado. Ainda que por definição seja um sítio aconchegado, é mesmo o único local com espaço num Metro lisboeta em hora de ponta.

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Os maus exemplos

por João Campos, em 19.01.17

Imagine que vai a um restaurante jantar com amigos. Senta-se à mesa, escolhe do menu a refeição, engana a fome com pão e manteiga, delicia-se com o prato escolhido e o vinho que o acompanha, e atreve-se ainda a uma sobremesa. No final, quando o empregado de mesa lhe traz a conta, paga e pede uma factura. "Dá jeito para o IRS", comenta de passagem. Ao que o empregado lhe responde que tem todo o direito à factura mas que não lha pode dar ali, no acto do pagamento. Pode, sim, dar-lhe um formulário postal que deverá preencher e enviar pelo correio, solicitando a dita factura. Ou, em alternativa, poderá, "a partir do conforto de sua casa" (diz isto como se estivesse a sugerir o prato do dia), aceder à página Web do restaurante e, após facultar alguns dados e seguir um formulário de sete etapas, e enfim obter a factura. Mas atenção: só poderá fazê-lo uma vez volvidas 48 horas sobre o pagamento, e apenas durante os cinco dias que se seguirem a essas 48 horas. 

"Mas não é obrigatório emitir uma factura se o cliente o solicitar?", pergunta, incrédulo. "É", responde o empregado, sempre a sorrir. "E emitimos. Basta enviar este formulário, ou aceder ao site."

. . .

 

Imagine que se dirige a uma loja de equipamentos electrónicos para comprar um telemóvel. Compara a oferta dos vários fabricantes dentro dos preços que estão ao seu alcance, pondera nas vantagens e desvantagens de uma mão-cheia de modelos, conversa um pouco com a técnica de serviço para esclarecer alguma dúvida, e por fim decide-se pelo aparelho que vai comprar. Dirige-se à caixa para pagar, e ao efectuar o pagamento solicita a factura. Enquanto lhe entrega o talão de pagamento e o recibo da garantia, a empregada diz-lhe que não é possível dar-lhe a factura ali, mas que poderá preencher o formulário que pode encontrar ali ao balcão para solicitar a factura pelo correio ou, em alternativa, poderá aceder à Internet, preencher o formulário de sete etapas que se encontra no site da loja, e descarregar a factura. "Até pode fazê-lo a partir deste telemóvel", graceja, sem no entanto deixar de o alertar que só poderá obter a factura por esta via 48 horas após o pagamento (nunca antes), e apenas durante os cinco dias que se seguem a essas 48 horas. 

"Mas se eu estou a pagar agora, por que motivo não posso ter já a factura?" pergunta, já sem conseguir disfarçar a irritação. 

"Porque o nosso sistema informático não permite a emissão de facturas imediatamente após o pagamento", esclarece a empregada, no tom exacto de quem está a repetir um matra pela enésima vez nos últimos dias. "Por isso poderá fazê-lo pelo correio, ou a partir do conforto de sua casa".

. . .

 

Será perfeitamente normal que o leitor ou a leitora considere qualquer uma das situações acima descritas como absurda. Nestes dias de voragem fiscal da Autoridade Tributária (o nome já é todo um programa), qualquer estabelecimento comercial privado legal que não tenha em funcionamento um sistema de emissão de facturas e que as emita a pedido do cliente teria o Fisco, a ASAE e sabe-se lá que mais Autoridades à perna para o habitual bullying tributário. Nestes tempos em que o Estado incentiva os contribuintes a solicitarem factura por tudo e mais alguma coisa (até podem ganhar prémios, veja-se bem), qualquer estabelecimento que se recuse à emissão da facturinha será decerto falado nas redes sociais pelos piores motivos. No entanto, e como não podia deixar de ser, o mau exemplo vem de cima: se o leitor ou a leitora for utente dos Transportes de Lisboa, que tanto quanto sei ainda é uma empresa pública, não poderá obter uma factura no acto do pagamento, seja este feito nas máquinas automáticas que encontramos nas estações do Metro ou nos balcões de atendimento do Metro ou da Carris: terá de preencher um formulário para solicitar a factura pelo correio, ou aceder a uma página Web, seguir um formulário de sete etapas e descarregar enfim a dita factura (mas só poderá fazê-lo 48 horas após o pagamento, e apenas durante os cinco dias que se seguirem). O motivo, conforme me explicou hoje um funcionário do Metro, é simples: em pleno 2017, ano em que todos transportamos no bolso aparelhos com maior capacidade de processamento do que a nave espacial que levou três astronautas à Lua em 1969, o software das máquinas automáticas e dos balcões de atendimento não está preparado para algo tão básico como... a emissão de facturas.

 

Que o Estado continue a permitir às empresas públicas aquilo que não permite às privadas dificilmente irá surpreender alguém nos dias que correm. O que espanta é que se ache isto normal

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Uma anedota

por Rui Rocha, em 20.04.16

Um tipo chamado Cabrita preocupado com o nome do Cartão de Cidadão é um bocado como aquela anedota do Manuel Merdas que quis mudar para João Merdas.

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Assim feia é que eu gosto de ti

por Pedro Correia, em 28.12.15

- Toma cuidado com os piropos: podem dar-te o passaporte para três anos no chilindró!

- Ficas descansada. Nunca me passaria pela mona gastar o meu dicionário de piropos numa abécula como tu.

- Olha quem fala! Já te viste ao espelho? Caganda frasco me saíste...

- E tu? És mesmum coiro...

- Quem desdenha quer comprar, ó boi-cavalo!

- É isso mesmo. Tens troco, trinca-espinhas?

- Vai-te catar, filho dumaganda égua! O que tu queres sei eu...

- Eheheh. Dá-me pica.

- Dá-te pica o quê, rafeirote?

- Seres tão... feia. Mas assim mesmo é que eu gosto de ti.

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Mundo cão

por Rui Rocha, em 12.12.15
Está em discussão no Parlamento a criminalização do abandono de idosos, com pena de prisão até 2 anos. O PCP e o Bloco votaram contra. Entretanto, o abandono de animais de companhia foi criminalizado em 2014, sendo punido com pena de prisão até 6 meses. Para este efeito, de acordo com a Lei 69/2014, entende-se por animal de companhia qualquer animal detido ou destinado a ser detido por seres humanos, designadamente no seu lar, para seu entretenimento e companhia.  Isto é, em Portugal, hoje, o abandono de um hamster ou de um canário é crime, mas o da avó ou do avô não. E ainda que a legislação agora discutida seja aprovada, o abandono de animais de companhia continuará a ser crime em qualquer circunstância e o de pessoas de idade apenas o será se o abandono ocorrer em hospitais. Isto é, e salvo se forem abandonados em hospitais, os idosos não estarão mais protegidos mesmo com a nova legislação do que os animais para fins de exploração agrícola, pecuária ou agroindustrial (vacas ou ovelhas, por exemplo) que foram excluídos do âmbito de protecção da Lei 69/2014. Vivemos, de facto, num mundo cão.

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Para sermos exactos

por Rui Rocha, em 11.12.15

A rigorosíssima austeridade de 3 semanas decretada pelo governo PS com contornos de forte dramatismo corresponde à cláusula de rescisão de Gaitán. Ou, se quisermos utilizar outra unidade de medida, ao dobro do valor do empréstimo que o amigalhaço Carlos Santos Silva terá feito ao engenheiro Pinto de Sousa.

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Meu lourinho adorado, não sei onde estás. A tua irmã humana imagina-te num sofá mais-que-confortável, em casa de um senhora velhinha chamada Conceição, que te recolheu quando fugiste de casa e te enche de mimos e latinhas gourmet e Catisfactions de salmão, os teus favoritos. Eu quero tanto acreditar na Conceição. Fecho os olhos várias vezes ao dia e tento imaginar-te ainda mais pançudolas a olhar para mim com os teus olhos dourados muito abertos a dizer extá tudo bem mãe, com a voz de bebé que imaginámos teres. Mas depois tenho de fugir com as ideias para outro sítio, porque dói. Terrível e absolutamente. Dói. Desde aquela noite de sexta-feira mudou tudo. O meu coração não se partiu romanticamente em mil pedaços cristalinos. Isso é nos idílicos contos de fadas, e a vida não se sente assim. O meu coração ficou completamente esmagado. Nos primeiros minutos, quando dei pela tua ausência, corri a casa histericamente a repetir o teu nome, corri para a rua e a correr também fiz todas as ruas à volta de casa desesperada, a procurar-te, parecia mover-me por sobrevivência. Sou tua mãe e precisava de encontrar o meu caçula. E quando parei, escorreguei mesmo por uma parede e senti: estava todo esmagado contra as minhas costas, e eu só repetia até ao expoente máximo da incapacidade de respirar o meu bebé, o meu Benny, eu nunca mais vou ver o Benny, Benny, Benny, o meu lourinho, e depois levantava-me com uma lanterna de pilhas e ia calcorrear as mesmas ruas, pôr-me de joelhos para te procurar debaixo dos mesmos carros onde a Nonô e eu já tínhamos procurado e chamado por ti. Não desisti, tive de parar por umas horas.Desde essa noite, Benny, a Nonô passou a dormir na minha cama. Dormimos abraçadas nessa amaldiçoada noite, eu cedi à quantidade gigantesca de lágrimas que me passaram pela pele e a tua irmã ao cansaço e susto. Ver-me desesperada não é pera doce, Benny. Hoje dorme a fazer conchinha comigo, ou deitada com a cara na almofada, como se fosse humana, a cã. A Miss Kitty já lhe impôs respeito e é possível dormirem ambas comigo, desde que eu fique no meio. Lembras-te que dormiste comigo desde a primeira noite que passaste em casa? Eras tão pequenino. Dormias no meu pescoço, do lado direito. Dormias de barriga para cima, desde o primeiro segundo confiaste plenamente em mim. Sempre foste um amor, um tamborzinho ronronante, mesmo quando cresceste enorme, maior que a Nonô, mas sempre com a mesma carinha-laroca de bebé. Procurei-te em todo o lado. Ia sendo assaltada num bairro de segurança duvidosa onde me disseram ter-te visto. Eu e os cartazes e os panfletos que a Dri fez e distribuímos, deixamos este bairro de pantanas. Não houve quem não te procurasse. Não houve quem não me chamasse tendo um gato amarelo à vista, Às três da manhã. Às seis. Às duas da tarde. Fui sempre numa correria desabrida. Nunca eras tu. Mas segurava as lágrimas porque a Nonô ficou deprimida sem ti nas primeiras semanas, e ainda chora quando digo o teu nome. Ligaram-me da Igreja dizendo-me que podias ser tu, morto, debaixo da rampa. Não eras, sei perfeitamente que não.Coração de mãe não se engana, oiço a tua bisavó Luísa a dizer-me durante anos e anos, a dar-me essa garantia. Sei que estás vivo. E soube – porque lá está, coração de mãe não se engana – desde que me apercebi da tua fuga, que não voltaria a ver-te. Foi essa verdade sabida que me esmagou o coração. Que me roubou uns quilos. Que me mantém presa porque sou uma mula teimosa e não quero permitir que essa verdade seja a verdadeira. Mantenho a imagem do cartaz em que peço encarecidamente que me liguem a troco de qualquer milímetro de informação sobre ti, na capa da minha página de Facebook. Como se, enquanto assim for, te mantenhas o meu bebé. Nos últimos dias percebi que tenho de te deixar ser o bebé de quem esteja a tomar conta de ti. Encarecidamente já só peço que te cuidem te adorem te mimem te amem. Andei a fugir deste confronto com as palavras porque só vou em cinco minutos e já mal consigo abrir os olhos de garoupa chorona. Porque sabia que me ia desfazer. Mas não é aquela imagem que nos prende. Eu sou a tua mãe. O próximo idiota que me diga que és um gato, como se isso te diminuísse o estatuto, o amor que te tenho, provocasse uma décalage da tua importância nesta família, prometo que leva um estaladão físico, porque verbais já dei tantos. Eu sou a tua mãe. Tu és o meu caçula lourinho, o meu Benny de Bernardo, o meu leãozinho. Ninguém garante a quem tenha o Caetano dedicado a música, se ao filho se a um amante. Eu cantei-a sempre para ti, enquanto te tinha enroscado no meu colo. Sempre que ouvir essa música, seja realmente tocada ou ouvida apenas na minha cabeça, sei que estás a pensar em mim, filhote. Não vou desistir de ti nunca, de te procurar nunca, de te esperar jamais. Mas tenho de tirar aquele apelo desesperado dali. Tenho de enfrentar a desesperança com todo o colossal amor que te tenho. Tenho de voltar a respirar com a cadência da normalidade cardíaca. Por isso tenho de deixar o coração desencostar-se das costas e reconstruir-se. Nunca me custou tanto perder alguém como me custa ter-te perdido. Porque foi inesperado. Porque te obriguei a prometer que ficavas comigo até aos 20. Porque sou eu a tua mãe Benny. Não de barriga. De coração todo. Porque sou a tua mãe, leãozinho. À tua espera sempre, neste tempo, nesta vida e em todas,

Mãe

 

P.S. O Manuel saiu das nossas vidas. Foi ele que te deixou fugir, apesar de o ter avisado até à exaustão. Não consegui perdoá-lo. Tentei, mas não consegui. Mesmo que só tenha a tua mantinha e a tua taça azul, és biliões de vezes mais importante do que qualquer namorado. Filho é bocado de nós e é para sempre. Homem é bicho que passa, e só fica se a gente quiser. E eu não quis. Hoje vou tirar a tua caixinha da casa de banho. Mas guardá-la, preciosa, se voltares.

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Nem Sócrates nem Luaty Beirão estão em greve de fome.

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Sócrates Beirão

por Rui Rocha, em 24.10.15

Pelo que se ouviu hoje em Vila Velha de Ródão, Sócrates deixou de sentir-se o Mandela lusitano e passou a considerar-se como Luaty. É um gesto de humildade, sobretudo se tivermos em conta que Sócrates sofreu muito mais. Então a partir do momento em que recusou ser libertado com pulseira electrónica, nem se fala. De resto, as coincidências entre os dois casos são surpreendentes. Para não ir mais longe, Sócrates tem, ele próprio, uma costela de beirão.

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É verdade que a emancipação da mulher a masculiniza, desprezando as características femininas, no esforço obsessivo de as provar capazes em jogos de homens.

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Linha directa

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.12.14

Vicki_Michelle_2979705b.jpgAo ler esta notícia do Sol um tipo fica com a convicção de que os responsáveis pela investigação têm uma linha directa com o jornal. E confirma-se que as saídas do aeroporto estavam "bloqueadas" pelos jornalistas. Para evitar estas situações desconfortáveis, tanto para o convidado como para os convivas que o aguardam, o melhor seria o MP criar um cartão VIP para a malta do Sol, da SIC e do Correio da Manhã. Ou então terão de começar a mandar menos convites para estas recepções.

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Rainha por um dia

por Ana Vidal, em 06.08.14

 

Hoje fui tomar um café à Vila, para espairecer e andar um bocado. Nesta altura do ano Sintra é dos turistas, um formigueiro deles a perguntar-nos tudo, a fotografar-nos à porta de casa como se nós, indígenas, fôssemos assim uma espécie de hobbits a sair dos nossos cogumelos com telhas. Mas uma destas, juro, nunca me tinha acontecido. No largo do palácio, entre mil outros turistas, vejo um casal com um filho adolescente, todos de ar ansioso e olhar fixo na escadaria da porta principal. Quando me aproximo, perguntam-me (num castelhano com sotaque) a que horas saem... os reis de Portugal! Ok, estão a brincar, claro... entro na onda e respondo, com o mesmo ar sério, que só aos sábados os reis saem à rua para cumprimentar os seus súbditos. Aproveito e pergunto de onde são: Manizales, Colômbia. Insistem, estão ali à espera para tirar "una foto con los reyes" para levar para casa e mostrar aos pais respectivos, a quem prometeram a façanha. De repente, perante os olhares desolados, percebo que estão a falar a sério. Explico-lhes que tenho imensa pena mas Portugal já não é uma monarquia há mais de um século. E é então que a mulher, mais espevitada e recusando render-se à evidência (temos sempre uma solução de recurso, nós...), pede-me que tire uma fotografia com eles como se fosse... a rainha. Olhem, não sei se me comoveu a delicadeza de não quererem decepcionar dois casais de velhotes lá na Colômbia, ou se me aterrorizou a ideia de represálias (sei lá se eles pertencem a algum cartel de Medellin), só sei que alinhei no disparate: fiz a minha melhor pose aristocrática - queixo levantado, um sorriso meio condescendente e uma mão magnânima sobre o ombro do rapazinho - e lá foram eles com o seu recuerdo real, todos contentes. Voltei para casa com um passo mais elegante, evitando a custo acenar aos passantes e pensando com os meus botões que Luísa de Gusmão tinha toda a razão: mais vale ser rainha por um dia que duquesa toda a vida.

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Maddie

por Helena Sacadura Cabral, em 24.05.14

Ao contrário de Manuel Palito, Maddie não foi encontrada. Desaparecida há sete anos, a história desta menina inglesa trouxe à baila outros desaparecimentos que não foram resolvidos e de que o exemplo mais conhecido é o de João Pedro.
O que me surpreende nesta história não é, claro, a imensa persistência dos pais que não desistiram de a encontrar. O que me surpreende é a sua capacidade de mobilizar as forças policiais do seu país que, ao fim destes anos todos, estão em Portugal para, a expensas britânicas e sob o olhar da polícia nacional, fazerem todas as diligências que forem necessárias para interrogar pessoas e prospectar terrenos no Algarve em busca do corpo.
O caso havia sido, entre nós, encerrado por falta de provas credíveis. Que enorme poder político não têm os McCann para não só conseguirem reabrir o processo, como conseguirem que as autoridades do seu país possam investigar em Portugal?!

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O mundo está mesmo muito perigoso

por Rui Rocha, em 03.05.14

Arábia Saudita critica a situação dos direitos humanos na Noruega.

 

Richard Dawkins converte pessoas ao cristianismo.

 

Participantes em Congresso de Segurança Alimentar sofrem intoxicação.

 

Treinador italiano critica Benfica por ter recorrido a anti-jogo.

 

Passos Coelho defende que aumento de impostos é uma solução mais amiga do crescimento.

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António José Seguro testou uma nova linha de discurso sobre o seu "plano nacional" no encerramento das jornadas parlamentares do PS. Para sustentar o seu objecto de um “novo desenvolvimento” para o país, o líder socialista avançou com a criação de clusters em sectores com elevado potencial de crescimento. (...) E interligando mesmo algumas áreas. Propôs “criar um cluster na Saúde aproveitando os recursos do nosso mar”.

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Questionado sobre a entrevista dada a uma revista do Diário de Notícias, onde refere que há trabalhadores que não fazem "puto", Alberto da Ponte reconheceu que "a metáfora foi um bocadinho exagerada".

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Um doutor entre senhores

por Pedro Correia, em 30.01.14

 

Ouço uma personalidade com presença assídua nos ecrãs televisivos referir-se a várias figuras europeias. É curioso: são todas "senhoras" ou "senhores": os graus académicos -- correctos ou incorrectos -- tão em vigor entre nós desaparecem mal aludimos a gente de além-fronteiras. Mas subitamente a referida personalidade alude ao presidente da Comissão Europeia em termos diferentes dos utilizados para Angela Merkel, Van Rompuy, Mario Draghi, Martin Schultz ou François Hollande -- chamando-lhe "doutor Durão Barroso". Imporia a mais elementar uniformidade de critérios que, no caso de Barroso, o "doutor" desse lugar ao "senhor" reservado para todos os outros. Mas não: mesmo residente em Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia continua a ter direito ao respeitinho lusitano.

Doutor é só ele. Senhores são todos os outros.

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Os perigos do sentido figurado

por Rui Rocha, em 13.01.14

Caro pastor, não leve a mal mas creio que aquela coisa do rebanho e das ovelhas não era para tomar à letra.

 

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Mozer compara Eusébio a Nelson Mandela.

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O mundo é um lugar estranho

por Ana Vidal, em 11.12.13

Pergunta legítima: se este homem não estava a usar linguagem gestual reconhecidamente útil, se não planeou a extraordinária proximidade com a maior concentração de líderes mundiais da actualidade para perpetrar nenhum crime, se não era um fã enlouquecido de famosos a aproveitar uma oportunidade única para sacar autógrafos, se nem sequer aproveitou o microfone para cantar ou fazer reivindicações, o que estava esta alma a fazer ali?????

 

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Burrocracia

por Ana Vidal, em 04.11.13

Duas horas à espera de vez numa conservatória servem para perceber os requintes da novilíngua da burocracia, imposta pela todo-poderosa brigada do politicamente correcto. Por cima do balcão há uma placa onde se lê "Prioridade de atendimento a portadores de deficiência". É justo. Mas fico a saber que a deficiência é uma coisa portátil, pormenor que até hoje me tinha escapado. Resta-me recomendar a todos os deficientes que nunca se esqueçam da sua deficiência em casa, para não terem de esperar muito nas repartições públicas.

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No médio prazo, estaremos todos mortos

por Rui Rocha, em 26.10.13

De acordo com o DN, em menos de dez anos, fumadores ou não, estaremos todos com os pés para a cova:

O tabaco é um dos mais elevados fatores de risco das doenças respiratórias que matam anualmente 12% da população portuguesa e cinco milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a SPP.

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Poirot precisa-se

por Ana Vidal, em 25.10.13

A comunicação social portuguesa no seu melhor:

"Bárbara Guimarães apresentou uma queixa-crime à PSP, no dia 19 de Outubro, por violência doméstica." E, logo a seguir: "Os motivos para o divórcio ainda não são conhecidos."

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Dedicado às piropofóbicas do BE

por Ana Vidal, em 02.09.13

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Tomara que houvesse!

por Helena Sacadura Cabral, em 01.09.13

" Abençoada mãe que deu à luz esta filha"
" Boneca, és colírio para os meus olhos"
" Querida, se não fosse casado, casava-me já contigo"

Aqui ficam três exemplos de piropos, muito do meu tempo, com que o BE pretende acabar, sabe-se lá bem porquê. É claro que há muitos outros jocosos e até ordinários, que dependem do grau de instrução de quem os profere. Mas, por norma, são uma explosão natural de apreço que elogia mais do que ofende.
Num país em que cenas de sexo muito explícito passam diariamente na tv e no cinema - para não referir os computadores -, a qualquer hora, integrando o cardápio da (in)formação televisiva, pública e privada, aquele partido, na actual conjuntura, considera da maior oportunidade, calar a voz dos portugueses que utilizam esta prática latina. Pena que não haja, hoje, um bonito homem no BE, para eu lhe dar um piropo. Oxalá houvesse!
Haja paciência para tanta tolice.

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Foi você que pediu um piropo?

por Ana Vidal, em 30.08.13


O anedotário nacional soma e segue. Agora é a penalização do piropo, como se não houvesse problemas a sério para nos preocuparmos.


Se não quiser ir preso, cavalheiro, modere a linguagem quando passar por uma boazona (perdão, por uma jovem interessante). Nada de sugestões em vernáculo de calceteiro, nada de fantasias culinárias. Se não conseguir mesmo ficar calado, nunca vá mais longe do que isto: "Minha senhora, permita que lhe diga que a acho particularmente bonita. Nos meus sonhos mais ousados, imagino-me a oferecer-lhe um bombom na Versailles".

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Da improbabilidade

por Ana Vidal, em 06.08.13


1. No Canadá, duas crianças dormem tranquilamente no primeiro andar de um prédio em cujo rés-do-chão há uma pet shop. Uma piton de 45Kg escapa-se inexplicavelmente do seu "aquário", infiltra-se no sistema de ar condicionado do prédio, sai no apartamento do primeiro andar, vai até ao quarto das crianças e asfixia ambas até à morte.

2. Na Suécia, uma família composta de pai, mãe grávida e duas crianças, viaja de carro em direcção ao hospital onde a mãe vai dar à luz. A meio do caminho a mãe entra em trabalho de parto e tem a criança no carro em andamento. Com o susto, o pai distrai-se da estrada e o carro despista-se, num aparatoso e violento acidente com inúmeras cambalhotas em que todos são cuspidos e se perdem de vista. Reencontram-se horas depois no dito hospital, abismados e ilesos, incluindo o recém-nascido.

Em ambos os acontecimentos, do final trágico ao final feliz, o mesmo inacreditável grau de improbabilidade. Perante isto, pergunto: à luz de que religião, crença ou filosofia podem estes factos ser explicados? Que deus ou deuses, se algum existe, presidiram a estes destinos? Com que bitola de arbitrariedade e de justiça? Com que misterioso objectivo?
Ou não serão eles simplesmente duas provas de que só o acaso, esse imenso absurdo caprichoso e volátil, é o plasma das nossas vidas?

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Pi-pi. pi-pi. Alô, Claudine? Daqui é o Peix... digo, o Carlos da Maia. Quê?? Não, filha, esse gajo era um chato do caraças (ou será que devia dizer "um chato de galochas"?)... enfim, o que interessa é que eu sou muito mais cool! Olha, liguei só para confirmar o nosso encontro mais logo no Oceanário. Mas tem de ser uma rapidinha, ok? Já sabes como a Dudu é desconfiada e ciumenta. Nem parece minha irmã, caramba. Pensando bem, acho que esta noite vou arrancar-lhe um cabelinho para mandar fazer um teste de ADN... com essa é que ela não conta, olarilas. Vantagens de viver no século 21. Bom, mon petit choux, agora tenho de desligar que ela é capaz de tudo, tem espiões por todo o lado. Até logo. Junto ao lago das morsas, não te esqueças. E vê lá onde estacionas a calèche, que já estou farto de pagar as tuas multas.

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Escala de valores

por Rui Rocha, em 04.02.13

Ora vejamos:

 

a) O Tribunal de Penafiel condenou um soldado da GNR local, já cadastrado e com outros processos pendentes, ao pagamento de uma multa de 560 euros por ter agredido um arrumador de automóveis dentro do posto policial, refere a Lusa.

 

b) Um agente da GNR de Viana do Castelo foi condenado, ontem, a 90 dias de multa, à taxa de seis euros por dia, e ao pagamento de uma indemnização de 750 euros, por uma agressão a uma mulher, num campo de futebol, em Darque.


c) O pontapé no porco que andava fugido na A1, em Alverca, há pouco mais de uma semana, na sequência de um acidente, pode valer uma punição até 120 dias de suspensão e respetiva retenção no salário. Essa é a medida disciplinar mais grave que o militar arrisca, caso o processo de averiguações conduza a um processo disciplinar em que seja condenado.


Temos então que a integridade física de um arrumador vale 560€. A de uma mulher um pouco mais: 540€ de multa mais uma indemnização de 750€. Por seu lado, tendo em conta que o salário mensal de um soldado da GNR pode superar os 1.000€, a integridade física de um porco pode valer mais de 4.000€. Isto é, quatro vezes mais do que a de um arrumador e duas vezes mais do que a de uma mulher. Ou muito me engano, ou chama-se a isto subir na cadeia alimentar.

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O triunfo dos porcos

por Ana Vidal, em 04.02.13

 

- Sr. porco, por favor, importa-se de chegar-se para lá?

- Nem penses nisso, bófia. Estou aqui muito bem.

- Mas é que... está a atrapalhar o trânsito, assim os carros não podem passar. Estamos numa auto-estrada, sabe?

- Quero lá saber. Daqui não saio. E nem te passe pela cabeça usar essa bota, que faço um xinfrim mediático e ainda arriscas quatro meses de salário. O facebook está comigo, ouviste? Quem te avisa, teu amigo é...

- Pronto, nesse caso... vou-me embora, então, desculpe tê-lo perturbado. Boa tarde.

- Vai pela sombra, ó bófia.

 

 - (entredentes) Não perdes pela demora. Havemos de nos encontrar um dia destes na tasca da tia Alice, que à quinta-feira o cozido à portuguesa é um mimo.

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Da obscenidade

por Rui Rocha, em 03.02.13

 

Pelo visto, não se trata já dos efeitos da antropomorfização  nascida com os filmes de Walt Disney. Nem da extensão da tese do bom selvagem aos animais. O que está em causa já não é só perguntar se há gatos siameses maus e responder sempre que não, coitadinhos. Ou ter de aturar uma legião de padres américos que se dedicam a pastorear as almas das lagartixas. Ou os que sabem de cor o nome do Zico para o qual pedem uma segunda oportunidade e não perderam um segundo a dar um nome à criança que morreu com o crânio esmagado. Estamos, ao que parece, um passo à frente. No sentido do abismo. Agora, a luta não é apenas a da igualdade de direitos entre animais e humanos. É, mais do que isso, a da admissão da prevalência do direito à sobrevivência de um animal doméstico sobre o de um qualquer ser humano. Isto é, os animais, ou pelo menos certos animais (o que para o caso tanto vale) um passo à frente e os humanos, ou pelo menos certos humanos (para o caso tanto vale) um passo atrás, quando se posicionam numa escolha fundamental de vida ou de morte. Há perguntas de onde não se regressa. Porque mesmo uma resposta negativa transporta sempre um efeito de legitimação da hipótese formulada, mais que não seja enquanto tal. E em caso algum devemos ser cúmplices da obscenidade.

 

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Exercício de... português?

por Ana Vidal, em 30.01.13

Acabo de ter acesso, através de uma mãe desesperada, a este exercício de português para o 10º ano:

 

«Funcionamento da língua:


1. A coesão* referencial do texto assenta, sobretudo, na co-referência anafórica pronominal que assegura os segmentos do discurso.

1.1. Considerando o referente «eu» (v.3), apresenta:

a) uma catáfora

b) os co-referentes anafóricos pronominais da segunda volta

c) duas elipses.»

 

(*A "coesão" é definida desta forma, para quem tiver dúvidas: «o termo que designa os mecanismos linguísticos de sequencialização que instituem continuidade semântica entre diferentes elementos da superfície textual». Logo, «"coesão referencial" é a interdependência de fragmentos textuais assinalada por co-referentes, dando origem a uma cadeia referencial». Esta açorda linguística vem acompanhada de outros mimos igualmente perceptíveis, tais como: coesão interfásica, temporo-aspectual, co-referência anafórica, coesão lexical, etc. Tudo muito coeso e facílimo, como se vê.)

 

Ainda vou na primeira volta e já estou em estado catafórico. Dou graças aos céus por já não ter filhos (e ainda não ter netos) em idade de precisarem de ajuda com os trabalhos de casa, porque me sentiria pouco mais do que atrasada mental. O drama é, afinal, muito mais extenso do que a imposição de um estúpido e inútil acordo ortográfico. O problema de fundo é que o funcionamento da língua não funciona.

 


 

Adenda: Não resisto a trazer a esta discussão o contributo da grande Natália Correia. É preciso chamar os bois pelos nomes, e poucos o fizeram como ela. Neste caso, as vacas (sagradas?).

 

Língua Mater Dolorosa

 

Tu que foste do Lácio a flor do pinho

dos trovadores a leda a bem-talhada

de oito séculos a cal o pão e o vinho

de Luís Vaz a chama joalhada

 

tu o casulo o vaso o ventre o ninho

e que sôbolos rios pendurada

foste a harpa lunar do peregrino

tu que depois de ti não há mais nada,

 

eis-te bobo da corja coribântica:

a canalha apedreja-te a semântica

e os teus verbos feridos vão de maca.

 

Já na glote és cascalho és malho és míngua,

de brisa barco e bronze foste a língua;

língua serás ainda... mas de vaca.

 

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E por que não exterminá-los?

por Leonor Barros, em 22.01.13

Escondam isto do governo. Não precisamos que ninguém lhes dê mais ideias. 

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Humanidades pessoais

por Ana Vidal, em 17.01.13


Recuso-me a contribuir para alimentar mais esta polémica insana sobre a história do cão que matou o bebé. Este fenómeno de esquizofrenia nacional, que levou milhares de pessoas a assinar petições, cerrar fileiras e destilar ódios em debates com os argumentos mais descabelados, pode ser facilmente explicado pelo estado de frustração e desespero em que andamos. De vez em quando é preciso libertar tensões, e antes esta catarse colectiva em volta de uma notícia de jornal do que sairmos de casa desembestados para matar os vizinhos a rajadas de metralhadora. O que me traz de volta ao tema é uma questão a latere: a malfadada expressão "a pessoa humana", dita e escrita por todo o lado - em bocas e penas insuspeitadas, até - que me encanita como poucas. Alguém me explica (sem recurso a sentidos figurados ou mitologias, por favor) onde é que habita no planeta essa misteriosa espécie que dá pelo nome de "pessoa não humana"?


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Um genocídio mental

por Ana Vidal, em 12.01.13


Uma destas manhãs fui "obrigada" a ver parte do programa da manhã da TVI. No espaço de pouco mais de meia hora registei as seguintes pérolas:
1. Uma florista de bouquets para noivas que se inspira em Confúcio para as suas criações artísticas, explicando: "é um senhor chinês antigo que está agora a vir à tona". Muitas palmas do público.
2. Uma blogger fashionist (ainda estou para perceber o fenómeno, mas o defeito deve ser meu) que se refere às "tendências 2013" em shorts e mini-saias com a gravidade e a reverência com que Vítor Gaspar anuncia outras reduções, bem menos apetitosas. Muitas palmas do público.
3. Um anunciante de produtos naturais de emagrecimento e saúde que oferece como brinde, para compras acima de x euros, "a Bíblia Sagrada, um livro de auto-ajuda". Muitas palmas do público.

Acabar com o serviço público de televisão, por muito insuficiente e criticável que ele seja, é reduzir a esta estupidificação colectiva a oferta televisiva nacional. Ainda tenho esperança - mas eu sou uma optimista, já se vê - de que os responsáveis pelos destinos da RTP2 percebam isto.

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O que é que se segue? Um relatório do Instituto de Reinserção Social conduzido por uma técnica extremosa que conclua pela mais que provável hipótese de ressocialização? Uma análise sociológica que detalhe exaustivamente a relação irrefutável de causalidade entre o comportamento e a pobreza ou a percepção de desigualdade? Um estudo profundo conduzido pelo Eurostat para determinar o índice de Gini específico da população em que o indivíduo está inserido? Uma tese sobre a discriminação e a exclusão social? Um fórum sobre a globalização e os seus efeitos nocivos? Um workshop para rastrear os efeitos da frustração de expectativas promovido por um Observatório qualquer? Um parecer de uma Comissão sobre a responsabilidade da vítima? Ora abóborasTenham vergonha. Que se abata de imediato o estupor do bicho, tal como prevê a lei. E que, a propósito, se reveja o enquadramento jurídico no sentido da proibição total de detenção de raças como pitbull e bull terrier e da penalização severa de quem violar tal disposição. Quem quer conviver com bestas tem o seu habitat natural na selva.

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Uma "força-tarefa" suicida

por Ana Vidal, em 10.12.12

 

Acabo de receber um mail de uma agência literária brasileira (Agência Lis), apresentando os seus serviços em Portugal e convidando autores, ilustradores, revisores e tradutores a tirarem partido deles. Não temos cá no burgo, como é costume em outros países, tradição de agenciamento literário. Enfim, admito que será só uma questão de tempo. Mas... como quer uma agência literária - repito, LITERÁRIA - conseguir convencer alguém com uma apresentação escrita neste português miserável??


"Para a Lis, uma agência literária cumpre dentro do mundo da cultura, e publicação em particular, a função social de levar a autores e editores, tanto nacional como internacionalmente, e para suportar a forma do texto para os leitores. Portanto acompanhar o autor em seu processo criativo e nos envolvemos na divulgação de textos.


Acreditamos na formação de uma força-tarefa composta pela agência, autores, editores e livreiros para os nossos escritores atingir leitores."

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Mais um fim do mundo

por Ana Vidal, em 07.12.12

"Meus caros companheiros australianos, o fim do mundo está a chegar. Afinal, o calendário Maia estava certo. Independentemente se o fim vier com zombies comedores de carne, bestas demoníacas ou o triunfo total do K-Pop, saibam que vou sempre lutar por vocês, até o final".

 

Eis o estranho sentido de humor, ou o ainda mais estranho faro político, da primeira-ministra australiana. Os tempos não estão para brincadeiras deste género, e Julia Gillard parece desconhecer que as pessoas tendem a tomar como certas as notícias catastróficas. Assim como parece desconhecer um antecedente famoso: foi com uma destas graças que Orson Welles aterrorizou a América. O alvoroço tem sido tão grande que a Nasa, depois de milhões de telefonemas e mails desesperados, já teve que desmentir, pública e formalmente, possuir quaisquer informações secretas que confirmem a veracidade da célebre previsão Maia.

 

Por cá, a habitual ignorância confunde os Maias com a Maya, que com toda a certeza não se importa nada com a inesperada publicidade. Mas não é a única a ganhar com a histeria geral: as agências de viagens registam picos nunca vistos de viagens vendidas para o México nesta data, e justificam o boom dizendo que as pessoas querem estar perto dos locais sagrados dos Maias quando chegar o dia D, ou porque acreditam que uma força qualquer as livrará do destino fatal, ou simplesmente porque querem morrer perto deles. Ou talvez, acrescento eu, porque acham que o dinheiro não lhes fará falta nunca mais e, assim-como-assim, sempre ganham uma corzinha nas praias de Cancun para a grande viagem.

 

E la nave va, como diria o sábio Federico.

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Perspiquidade, a receita do sucesso

por Ana Vidal, em 26.11.12

 

Na SIC, uma reportagem denominada "Momentos de Mudança" revela-me o universo dos jovens empreendedores portugueses. Grande destaque para um deles (escapou-me o nome, mas, a avaliar pelo sotaque, é um verdadeiro homem do norte), que conta a sua história de sucesso e dá conselhos aos outros com a absoluta segurança dos vitoriosos. Entre mil chavões - decalcados dos discursos dos gurus Jobbs, Krugman ou Gates e devidamente explicados no esterilizado economês de Silicon Valley - o rapaz pára um momento e aventura-se numa ideia própria, ou, pelo menos, expressa na sua própria língua, para responder a uma pergunta da plateia: "Pá, além de proactivo, polifacetado, hands-on, tás a ver?, tens de ser perspicaz. E a tua perspiquidade tem de se ver logo na universidade".

 

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"A Merkel quis vir a uma segunda-feira porque sabia que à segunda ia ter pouca gente a manifestar-se..."


(Um manifestante, entrevistado por uma jornalista à porta do Palácio de Belém)



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Ich bin ein Berliner.

por Luís Menezes Leitão, em 11.11.12

Sinceramente não sei como qualificar este vídeo. É a todos os títulos revoltante. Em primeiro lugar a manipulação óbvia, como o  dizer que a idade da reforma na Alemanha é de 61,7 anos, quando é de 67 anos,  ou fazer referência à tributação de Portugal no Orçamento para 2013, que ainda não foi aplicada, ou à eliminação de feriados em Portugal que só vigora no próximo ano. Depois a tentativa de responsabilizar a Alemanha pelos gastos disparatados que fizemos, como os submarinos, a rede de carros eléctricos, ou os estádios do Euro 2004, a pretexto de que foram contratados alemães para o efeito. Os fornecedores têm alguma culpa do endividamento em que caem os seus compradores? Depois temos a comparação disparatada entre a queda do muro de Berlim e a presente situação em Portugal, que só faz lembrar aos alemães quanto lhes custou a integração da RDA. E, por último, o estilo subserviente do filme como se fazer palhaçadas tornasse os nossos credores mais complacentes.

 

Se este filme passasse na Alemanha, acho que os alemães ficariam com uma ideia ainda pior de Portugal do que a que já têm. Eu pelo menos fiquei. Foi por isso um favor que nos fizeram que o vídeo não tivesse passado. Há certas pessoas em Portugal que no meio da tragédia ainda conseguem praticar a farsa.

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O banqueiro anarquista.

por Luís Menezes Leitão, em 31.10.12

  

Fernando Ulrich transformou-se num verdadeiro exemplo do banqueiro anarquista de que falava Fernando Pessoa. Defende a liberdade, mas apenas para si próprio. Os banqueiros conseguiram que o seu negócio privado, a banca, esteja completamente excluído da austeridade, e que até a troika tenha cá metido 12.000 milhões de euros para salvar os bancos. Para esse efeito, pode ser necessário cortar salários e pensões, mesmo ao arrepio da Constituição vigente. Isso, no entanto, não impressiona Fernando Ulrich. O Tribunal Constitucional pronuncia-se contra o corte de subsídios? Temos uma ditadura do Tribunal Constitucional, que qualquer banqueiro anarquista tem o dever de combater. Há dúvidas sobre se o país aguenta tanta austeridade? Claro que aguenta. Os bancos é que não podem ficar sem os seus lucros habituais.

 

Se há algo que não faz qualquer sentido é que os bancos sejam o único negócio que nunca pode falir, tendo que ser ajudado pelo Estado. Os bancos conseguiram assim a suprema liberdade. Já os cidadãos tornaram-se escravos do Estado, tendo que pagar em impostos e cortes de salários e pensões a irresponsabilidade dos outros.

 

Pessoa põe estas palavras na boca do banqueiro anarquista: "Eu libertei-me a mim; fiz o meu dever simultaneamente para comigo e para com a liberdade. Por que é que os outros, os meus camaradas, não fizeram o mesmo? Eu não os impedi. Esse é que teria sido o crime, se os tivesse impedido. Mas eu nem sequer os impedi ocultando-lhes o verdadeiro processo anarquista; logo que descobri o processo, disse-o claramente a todos. O próprio processo me impedia de fazer mais. Que mais podia fazer? Compeli-los a seguir o caminho? Mesmo que o pudesse fazer, não o faria, porque seria tirar-lhes a liberdade, e isso era contra os meus princípios anarquistas. Auxiliá-los? Também não podia ser, pela mesma razão. Eu nunca ajudei, nem ajudo, ninguém, porque isso, sendo diminuir a liberdade alheia, é também contra os meus princípios. V. o que me está censurando é eu não ser mais gente que uma pessoa só. Por que me censura o cumprimento do meu dever de libertar, até onde eu o podia cumprir? Por que não os censura antes a eles por não terem cumprido o deles?".

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To be or not to be

por Pedro Correia, em 24.10.12

Otelo Saraiva de Carvalho admitiu em Março fazer "um novo 25 de Abril". Agora, em Outubro, avisa que vem aí "uma nova revolução". Depois de ter dito que "não fazia o 25 de Abril se soubesse como o País ia ficar" e que "precisávamos de um homem com a inteligência do Salazar", devemos considerar-nos satisfeitos por ainda não lhe ter passado pela cabeça anunciar a intenção de fazer um novo 28 de Maio.

 

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A terceira via

por Rui Rocha, em 18.10.12

José Castelo Branco anuncia entrada na política.

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Surprise, surprise

por Ana Vidal, em 11.10.12


É oficial: temos um governo de brincalhões. Adoram pregar-nos sustos só para depois nos poderem dizer: "Ah, ah, estávamos a reinar... vocês não vão morrer, vão só ficar tetraplégicos!".


Cá para mim isto é gente que fez o curso no carnaval da Mealhada.


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O suave milagre

por Ana Vidal, em 08.10.12


E pronto, lá acordou. E com uma notável capacidade de antecipar um futuro longínquo... estou impressionada.

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Queixamo-nos, e com razão, da baixa qualidade do nosso jornalismo actual. Mas há pior. Oh, se há.

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CalaMittoso

por Rui Rocha, em 25.09.12

Mitt Romney indignado por janelas dos aviões não abrirem.

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