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A frase

“Acredito que me queiram afastar de tudo”.

Carlos Alexandre, juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal responsável pela instrução do caso que envolve o antigo primeiro-ministro José Sócrates.

Expresso

17 de Setembro de 2016

 

Post

Este texto de Francisco José Viegas sobre a pobreza da linguagem deve ser lido em conjunto com este sobre o ensino.

 

A semana

Domingo, 11 de Setembro de 2016

Foi um fim-de-semana horrível para Hillary Clinton: num comentário infeliz, a candidata democrata classificou de “deploráveis” os eleitores do seu rival, Donald Trump; horas depois, domingo, quando estava nas cerimónias do 11 de Setembro, em Nova Iorque, a ex-secretária de Estado teve de abandonar o local com evidentes dificuldades de saúde. O comentário sobre os deploráveis foi a melhor demonstração do elitismo de que é acusada pelos detractores; o aparente desmaio foi causado por uma pneumonia, mas a campanha de Trump insinuou que se passa algo de mais complexo; afinal, nos dias anteriores, a candidata democrata dissera ter umas alergias e até brincara, dizendo que tinha alergia ao rival.

Elitismo e suspeitas de problemas de saúde são uma combinação tóxica na campanha, para mais estando Hillary Clinton a deslizar nas sondagens. A vantagem confortável que os democratas tinham há apenas um mês dissipou-se e a eleição será, no mínimo, difícil. Trump avança em todos os Estados que vão decidir a votação de Novembro. As eleições americanas são indirectas, por colégio eleitoral, e cada Estado atribui todos os delegados ao vencedor estadual, nem que seja por um voto: o candidato mais votado a nível nacional pode perder, pelo que as sondagens a nível nacional têm de ser vistas com cautela. Há Estados que votam sempre no mesmo partido, ganhos ou perdidos à partida e nenhum dos candidatos gastará neles muitas munições. A eleição decide-se num pequeno número de votações parciais, nos chamados swing states, cujos maiores são, neste momento, os seguintes: Ohio, Flórida, Carolina do Norte, Virgínia, Pensilvânia, Geórgia e Michigan. É sobretudo nestes campos de batalha que a situação está a mudar depressa a favor de Trump.

 

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016

A entrevista do ministro das Finanças Mário Centeno à CNBC provocou forte reacção em Portugal, com críticas da oposição e textos de opinião contundentes, como este de António Ribeiro Ferreira. Evitar o segundo resgate é de facto a prioridade do governo de António Costa, como seria a prioridade de qualquer outro governo. Se conseguir evitar a derrapagem orçamental, o primeiro-ministro terá ganho a sua arriscada aposta política. Ao alcançar a meta de 2,5% no défice, Costa terá cumprido as promessas eleitorais e, ao mesmo tempo, os compromissos com os credores. O inverso implica a desconfiança das instituições europeias, o fim da notação favorável da dívida, sanções automáticas, subida dos juros. Três ou quatro décimas acima de 2,5% e todo o edifício entra em colapso. A questão estará em saber qual é a fronteira da tolerância.

 

 

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Uma frase:

8 de Setembro de 2016 “Sou o saloio de Mação, com créditos hipotecários, que tem de trabalhar para os pagar, que não tem dinheiro em nome de amigos, não tem contas bancárias em nome de amigos e, até desse ponto de vista, que não tem amigos”.

Carlos Alexandre, juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal responsável pelo caso que envolve José Sócrates

SIC

8 de Setembro de 2016

 

Um post:

A rentrée de Filipe Nunes Vicente, autor sempre atento, sempre lúcido.

 

A semana

Domingo, 4 de Setembro de 2016

A CDU, partido democrata-cristão da chanceler Angela Merkel, sofreu uma derrota estrondosa no pequeno estado de Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental, ficando em terceiro lugar na votação, atrás da Alternativa para a Alemanha, AfD, partido de protesto que está a conquistar largas fatias dos eleitores da direita. Esta formação é recente, começou por ser anti-euro, mas adoptou um discurso anti-imigração que, no último ano, fez triplicar as suas intenções de voto em todo o País. Em Outubro deverá entrar no Bundestag. As sondagens mostram que desde Setembro do ano passado a CDU sofre uma sangria de eleitores a favor da AfD. Isso já era motivo para críticas em voz baixa à actuação da chanceler, sobretudo em relação à imigração, mas as eleições de domingo desencadearam uma discussão mais acesa e há quem se interrogue sobre o futuro da líder alemã. As eleições federais serão em Outubro do próximo ano e Merkel ainda não anunciou se vai tentar um quarto mandato. Este é mais um dado da complexa situação das incertezas ocidentais.

 

Segunda-feira, 5 de Setembro de 2016

O calendário político do próximo ano será no mínimo alucinante, com a ascensão das diversas rebeliões populistas. Há incógnitas em relação às eleições americanas de Novembro e espera-se turbulência nos mercados, sobretudo se Donald Trump subir nas sondagens. A incerteza estende-se aos principais países europeus: a Itália está sob ameaça de uma crise financeira e o governo de Matteo Renzi pode não resistir a um referendo dentro de semanas; a Espanha terá provavelmente a terceira eleição consecutiva em Dezembro, com a possibilidade de novo impasse; em França, aproxima-se o período eleitoral e perfilam-se várias candidaturas populistas; na Holanda, a direita anti-imigração quer referendar a Europa se vencer as eleições de 2017. Os próximos meses terão muitas oportunidades para dúvidas existenciais, nomeadamente a negociação do terceiro resgate da Grécia e o lançamento das negociações do Brexit, algures no início do próximo ano. Estes são apenas riscos políticos, pois no meio de tudo isto há bancos em dificuldades, nervosismo nas bolsas, aumento dos preços de petróleo e os imponderáveis do costume, da Turquia a Vladimir Putin, passando pelos horrores terroristas do Estado Islâmico.

 

 

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Histórias de bloqueios e fracassos

por Luís Naves, em 03.09.16

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Uma frase

“Este é um momento difícil para a UE e nós, que somos a favor da União Europeia e não desistimos, não passamos uma certidão de óbito à UE, nós temos a responsabilidade de trabalhar no sentido de apontar caminhos, encontrar respostas e intervir para que a UE siga em frente”.

Jaime Gama, dirigente do PS, antigo presidente da Assembleia da República

Observador

30 de Agosto de 2016

 

Um post

Leio as crónicas de Pedro Rolo Duarte sempre com imenso prazer. O autor tem um blogue fantástico com o seu nome, mudou agora o grafismo e o resultado ficou ainda mais agradável. Este post explica tudo e inclui uma ‘carta de princípios’ que resume o espírito do bom jornalismo.

 

A Semana

Domingo, 28 de Agosto de 2016

O Partido Popular de Mariano Rajoy e o Ciudadanos de Albert Rivera chegaram a um acordo que visa acabar com o impasse na escolha do novo governo espanhol, mas as expectativas são baixas. Rajoy ficou a seis votos de garantir a maioria e dependerá (nas duas votações que se realizam esta semana) do apoio ou abstenção de outros partidos. Rivera arrisca-se a ser visto como a muleta do PP e pode ser penalizado por um futuro voto útil. As contas da investidura são complexas e apontam para o fracasso da solução de centro-direita, o que implicará dois meses de negociações e alta probabilidade de novas eleições. Contra o conselho de antigos líderes e a vontade do seu eleitorado, o PSOE manteve a oposição a um governo liderado por Rajoy, mas a estratégia do líder socialista, Pedro Sánchez, é de alto risco. Sendo remota a hipótese daquilo a que alguns chamam o Governo Frankenstein (geringonça idêntica à portuguesa, mais independentistas bascos e catalães), a Espanha pode ter uma terceira edição de legislativas em cerca de um ano, o que coloca graves problemas, nomeadamente atraso no orçamento e nas políticas económicas, falta de dinheiro em autonomias dominadas pelos próprios partidos da oposição. O jornal El País sintetizava o dilema dos dois maiores partidos espanhóis: um não tem votos suficientes, o outro não consegue criar uma alternativa. Veremos nos próximos dias, mas a Espanha pode ter entrado num pântano.

 

Segunda-feira, 29 de Agosto de 2016

É uma verdade de La Palisse, que parecia evidente desde que a geringonça foi criada: a Europa é o factor que limita a acção da aliança dos partidos à esquerda, como constatou agora José Manuel Pureza, nesta entrevista. Para o dirigente do Bloco, o cumprimento das regras de Bruxelas obrigará em breve a escolher entre desobediência externa ou ruptura interna. Ninguém com lucidez acredita na hipótese de cumprimento das regras europeias e obediência simultânea ao acordo tripartido. Esta contradição explica que os partidos à esquerda estejam a radicalizar o discurso de contestação à UE, algo que já entrou inclusivamente nas conversas de rua, com muitos cidadãos a acreditarem ingenuamente que a origem dos nossos problemas está numa Europa que se fragmenta. O governo minoritário do PS é pressionado pelos parceiros para desafiar as instituições europeias e seguir uma via distinta da que vigorou em Portugal desde a adesão às comunidade e que não passa, em grande medida, de uma criação do próprio PS. O novo eurocepticismo socialista é instrumental, retórico, pouco convicto, é um ‘não fazemos’ que procura manter o generoso acesso aos fundos comunitários, à livre circulação e mercado único. O caso dos partidos à esquerda do PS tem aspecto diferente: comunistas e bloquistas acreditam que só  fora da UE podem construir uma sociedade socialista.

 

 

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Estranhas Formas de vida

por Luís Naves, em 27.08.16

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Uma frase:

“No que se refere ao Orçamento de Estado para 2017, estamos disponíveis para examinar e propor as soluções que sejam necessárias para repor os direitos perdidos pelo povo português. Tudo aquilo que for negativo e nos empurrar para trás votaremos contra”.

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, explicando que será uma “ilusão” o governo acreditar que é possível ter crescimento económico e respeitar as “imposições e ameaças” da UE.

Diário de Notícias 21 de Agosto de 2016

 

Um post:

Há demasiadas interrogações sobre o caso da reestruturação da Caixa Geral de Depósitos, como se pode ler neste post de Maria Teixeira Alves, em Corta-Fitas. 

 

A semana

Domingo, 21 de Agosto de 2016

Martin Jacques interroga-se neste artigo sobre as consequências da grande crise de 2008, a maior perturbação do capitalismo desde os anos 30 do século passado. O autor britânico escreve sobre o aparente paradoxo do falhanço das ideias neo-liberais não ter ainda produzido uma vaga de ideias contrárias entre as elites intelectuais, que desvalorizam como ‘populismo‘ a vaga de contestação já tão evidente nas democracias avançadas.

A revolução neo-liberal dos anos 70 e 80 do século passado aumentou as desigualdades, permitiu uma onda migratória sem precedentes, reduziu a regulação dos mercados e a dimensão dos aparelhos governamentais. O capital foi beneficiado em relação ao trabalho e o rendimento dos mais pobres estagnou ao longo dos últimos 30 anos. Os ricos ficaram extraordinariamente ricos e, além disso, as taxas de crescimento económico não foram nada de especial. Este período prejudicou os trabalhadores menos qualificados, que foram vítimas da deslocalização dos seus empregos para zonas mais baratas ou que enfrentaram a concorrência dos imigrantes, também pouco qualificados, que aceitavam salários baixos, criando uma pressão que empobreceu o proletariado.

Esta interpretação ajuda a compreender fenómenos populistas como o Brexit ou Donald Trump: o candidato republicano é campeão da classe trabalhadora e contesta acordos comerciais que, até há muito pouco tempo, eram peças fundamentais das crenças políticas da direita. O artigo explica que os movimentos ditos ‘populistas’ estão a atacar o neo-liberalismo, mas também a esquerda europeia, que deixou de defender os trabalhadores: veja-se, por exemplo, a política de imigração, que os partidos de esquerda geralmente apoiaram, embora esta seja prejudicial para os seus eleitores tradicionais. A ideologia da esquerda permanece nos anos 70 e a linguagem é cada vez mais politicamente correcta, ou seja, repleta de eufemismo, evitando as questões essenciais. A mensagem simples, anti-globalização, de movimentos populistas é acompanhada da exigência de controlo sobre as grandes empresas e banca, de limites à imigração.

 

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2016

Alemanha, França e Itália querem liderar a reconstrução do projecto europeu no período pós-Brexit e os líderes destes três países estiveram reunidos na ilha italiana de Ventotene, para preparar a cimeira de Bratislava do próximo mês, onde serão discutidos os problemas mais urgentes da UE: consequências do Brexit, conflito na Síria, crise migratória e relações com Turquia e Rússia. A cimeira entre Hollande, Merkel e Renzi não trouxe ideias novas ou decisões históricas, mas houve uma importante carga simbólica no encontro, pois foi nesta pequena ilha que Alfiero Spinelli escreveu em 1941, com Ernesto Rossi, o famoso Manifesto de Ventotene, documento político que defendia a necessidade de se criar uma Europa federal. Neste texto fundador das comunidades europeias, pretendia-se uma utopia socialista que pudesse responder ao nacionalismo que tinha dominado a década anterior.

A Europa enfrenta os mesmos dilemas do tempo de Spinelli: federalismo ou nacionalismo, capital ou trabalho, como acomodar os interesses dos pequenos países, que dose de social-democracia no consenso político. As lideranças parecem não ter ideias práticas: Jean-Claude Juncker afirmava recentemente em Viena que “as fronteiras [nacionais] são a pior invenção jamais feita pelos políticos”, frase incompreensível para a maioria dos europeus. O federalismo, nos termos em que Juncker o imagina, é uma ideia etérea sem sustentação na vontade do eleitorado. Os líderes das três maiores potências europeias da UE pós-Brexit enfrentam rebeliões populistas e pelo menos dois deles. Hollande e Renzi, correm sério risco de não estarem no poder dentro de poucos meses. Além disso, este trio está dividido em relação ao Tratado Orçamental: dois dos países querem flexibilização das regras, o outro resiste. Mesmo assim, estamos longe da ruptura da aliança europeia.

 

 

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"Nada retoma a forma antiga"

por Luís Naves, em 20.08.16

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Uma frase

“Não faz sentido imaginar isso [coligação com o PS]. António Costa está, e está para durar. Chegou ao poder da forma como chegou. Quem chega ao poder assim, fará tudo para lá continuar. Não tenho nada a ideia de que isto esteja quase a acabar, não vou fazer cenários. No CDS vemo-nos como oposição ao Governo das esquerdas e como parceiros do PSD”.

Assunção Cristas, líder do CDS

18 de Agosto de 2016

Revista Sábado

 

Um post

Francisco Seixas da Costa explica as implicações legais de um caso raro: os dois filhos do embaixador iraquiano espancaram um jovem em território nacional e poderão ficar impunes.

 

A semana

Domingo, 14 de Agosto de 2016

No recomeço da temporada política da oposição, com o tradicional discurso do líder do PSD no Pontal, o mandarinato do comentário não se cansou de sublinhar dois pontos: o PSD anda farto do seu líder e o discurso da oposição é pessimista, faltando-lhe a parte da esperança. Passos devia ter subido ao palanque para dizer que está tudo bem e que o primeiro-ministro é um formidável estadista. Sobre a sua substituição, não se conhece um único facto, mas todos dão isso como adquirido ou inevitável: haverá intrigas, movimentações misteriosas, mas nem sequer se sabe quem se movimenta nos bastidores e quem será o possível substituto. Nenhum dos analistas explica o óbvio, que as sondagens não seriam as mesmas em caso de ruptura da aliança da esquerda e que dificilmente as próximas eleições serão as autárquicas de 2017, nas quais, de facto, o PSD pode levar uma banhada, pelo menos em Lisboa e Porto.

 

Segunda-feira, 15 de Agosto de 2016

O Governo minoritário do PS vai durar dois anos? Pela amostra dos primeiros oito meses, não parece. A economia cresce a metade do ritmo previsto, mas acredita-se numa execução orçamental espectacular. Os parceiros europeus vão fiscalizar as contas de três em três meses e mantêm ameaças de sanções e cortes de fundos, mas a malta da esperança acha que podemos confiar numa negociação favorável. A dívida pública cresceu em vez de diminuir, o Governo recusa aplicar medidas adicionais pedidas por Bruxelas, mas há esperança. As taxas de juro negativas atingem já os bancos alemães, mas espera-se que as políticas do BCE continuem eternamente. Está tudo a correr bem, como acontece no Natal com o peru: o animal dispõe de comida abundante, donos contentes, o peso aumenta, o que poderá correr mal no futuro brilhante que se adivinha?

 

Terça-feira, 16 de Agosto de 2016

Como escreve Jorge Costa, em O Insurgente, a economia portuguesa está presa por um fio. O texto comenta as declarações de um responsável da agência de notação canadiana DBRS, que menciona as dúvidas sobre o crescimento medíocre, a necessidade de meter dinheiro público nos bancos e ainda a incerteza que rodeia a actual situação política. O facto é que na democracia portuguesa nunca existiu um governo minoritário estável, pormenor esquecido em todas as análises políticas que leio na Imprensa. Os comentadores tendem também a subestimar a conjuntura económica: a calamidade social do desemprego desapareceu por inteiro dos radares jornalísticos; o fraco crescimento impede a recuperação da banca e ameaça a receita de impostos; há pressões da Europa no sentido de Portugal fazer as reformas que garantam orçamentos equilibrados e o pagamento da dívida pública, mas ouvimos cada vez mais o argumento da esquerda de que é preciso sair do euro ou renegociar a dívida, única maneira de manter a despesa a crescer mais depressa do que a economia. Restam poucas vozes lúcidas. Uma das excepções é António Barreto, que na sua coluna no DN sublinhava esta semana a pobreza da argumentação da esquerda e o inaturável tom de superioridade moral com que começam todas as discussões. 

 

 

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A árvore e a floresta

por Luís Naves, em 13.08.16

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Uma frase

“Não posso deixar de sublinhar aquilo que tem sido uma redução muito significativa da área ardida quando comparada com os anos anteriores”.

João Matos Fernandes, ministro do Ambiente, falando dos fogos, na véspera do grande incêndio que atingiu a cidade do Funchal.

8 de Agosto de 2016

 

Um post:: No excelente Desvio Colossal, Pedro Romano faz a análise dos últimos dados sobre o emprego.

 

A semana: 

Domingo, 7 de Agosto de 2016

Notícia do Público dava conta que o Banco Central Europeu já está a limitar as compras de dívida portuguesa, provavelmente numa tentativa de esticar ao máximo o período em que fará essas compras. O problema, diz o jornal, é que a autoridade monetária estará a chegar ao limite legal do mecanismo que lhe permite comprar activos. Quais são as implicações desta situação? As taxas de juro das obrigações do tesouro a dez anos estiveram de forma consistente num intervalo entre 3% e 3,5% e a redução das compras mensais do BCE poderá ter um efeito de subida do respectivo valor. Estão igualmente a chegar ao fim outros programas de compras de activos e aparentemente estas medidas de estímulo não tiveram o efeito desejado. Esgota-se assim a pequena janela de oportunidade de que Portugal beneficiou durante dois anos, com juros historicamente baixos. Vem aí um período de dificuldades no financiamento da República.

 

Segunda-feira 8 de Agosto de 2016

Uma invulgar vaga de calor e ventos fortes desencadeou incêndios florestais de grandes dimensões que atingiram zonas habitadas em várias regiões do continente e também na Madeira. Este ano os fogos começaram relativamente tarde, mas atingiram depressa proporções catastróficas. O Inverno húmido também contribuiu para o crescimento de matos que agora, em condições secas, aumentam o combustível florestal.

Os incêndios são um fenómeno recorrente e as vagas de calor ocorrem de forma cada vez mais violenta. Os cientistas afirmam que Portugal será bastante afectado pelas alterações climáticas, passando a ter um clima parecido com o de Marrocos. No futuro, haverá maior número de períodos secos e quentes. A floresta portuguesa já tinha as espécies erradas para o clima que existia nos anos 50 ou 60 do século passado; agora, a floresta existente é ainda mais vulnerável, como sugere a redução progressiva da mancha de pinhais. A demografia rural e a própria sociedade mudaram completamente, os interesses económicos estão montados para este tipo de floresta caótica, com espécies combustíveis, como é caso das resinosas. Perante as alterações de clima que ninguém conseguirá travar, a adaptação urgente será porventura a concentração de subsídios florestais em espécies que resistam melhor aos incêndios. A questão está estudada e há muitos trabalhos sobre o tema, como por exemplo este relatório, com pistas interessantes de leitura.

 

Terça-feira, 9 de Agosto de 2016

Uma verdadeira tempestade de fogo desceu sobre a Madeira. Impulsionada por ventos muitos fortes, após semanas de tempo quente e seco. Os fogos florestais no topo da Ilha assumiram proporções devastadoras e invadiram zonas urbanas do Funchal, destruindo inúmeras casas, desalojando centenas de habitantes, matando pelo menos três pessoas. As televisões mostraram em directo o pânico, a histeria, a coragem doida, o esforço inútil, a confusão e o medo. Os incêndios multiplicavam-se pelos jardins da cidade, numa espécie de guerrilha furiosa, e os meios de combate foram insuficientes. A cidade tinha antes sido atingida por inundações: os dois fenómenos estão ligados: as inundações foram mais destruidoras devido a incêndios anteriores e o ciclo vai repetir-se. Caos urbanístico, regras de construção permissivas, excesso de concentração populacional, um clima agora com mais fenómenos extremos (calor e vento forte ou chuva anormal), a Madeira é provavelmente um pequeno laboratório dos erros de ordenamento misturados com os efeitos das alterações climáticas.

Também houve fogos em várias regiões do continente: Aveiro, Viseu, Viana do Castelo e Leiria. As populações organizaram-se como podiam, usando conhecimentos acumulados em episódios anteriores. Numa impressionante reportagem da televisão, mostrava-se uma aldeia a fazer um contra-fogo: era uma cena dramática, mas estranhamente tranquila. Nos incêndios em Portugal vemos muitas pequenas aldeias cercadas, meios que tardam em chegar e populações que se queixam de abandono. A questão dos incêndios é demasiado antiga, resulta “da natureza” e “das transformações sociais do último século”, como aqui justamente escreveu o historiador Rui Ramos.

O Presidente da República, entretanto, travou à nascença as primeiras tentativas de politizar estas catástrofes. Foi uma intervenção cirúrgica de Marcelo Rebelo de Sousa. Num momento de perfeita lucidez, quarta-feira, na Madeira, Marcelo travou o passo às críticas demagógicas e ao circo mediático que já se estava a montar.

 

 

 

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Não se deixem cair na tentação

por Luís Naves, em 06.08.16

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Uma frase: "Não excluo legislativas antes das autárquicas".

Rui Rio, ex-dirigente do PSD

Diário de Notícia, 6 de Agosto de 2016

 

Um post: Francisco José Viegas escreve aqui sobre a hipocrisia política e elogia as raras vozes que vão remando contra a maré.

 

A semana

Domingo, 30 de Julho de 2016

O País seguiu para férias e, como se toda a gente ouvisse um sinal sonoro, desapareceram de repente os problemas da crise. Tirando os incêndios, que infelizmente fazem parte da paisagem de Verão, chega o tempo das histórias positivas: famosos a banhos, políticos descontraídos, dinheiro a rodos, abundantes trabalhos sazonais e festas de ricos. Subitamente, anda toda a gente feliz e a esquerda radical já não critica como antigamente. Os desempregados desapareceram e nenhum jovem foi forçado a emigrar. As redes sociais descansam umas semanas e não sentiremos o seu veneno e frenesim. No intervalo de Agosto percebe-se melhor como o debate político é uma repetição de mais do mesmo, com umas pitadas de treta.

 

Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016

A campanha eleitoral nos EUA está a tornar-se invulgarmente negativa, mesmo para os padrões americanos. Donald Trump troçou de uma família de origem paquistanesa que perdeu um filho no Iraque e começa a ser penoso assistir às intervenções malévolas do candidato republicano. Ao hostilizar a poderosa instituição dos combatentes e veteranos, Trump escandalizou outro influente sector da sociedade americana. Um incidente igual a este teria liquidado qualquer campanha anterior de um candidato à Casa Branca, em qualquer eleição que não esta. Trump tem sobrevivido às piores controvérsias mas, neste caso, está a sofrer uma queda nas sondagens, com perdas em estados decisivos, não se tratando ainda de uma derrocada. Sendo o candidato fora do sistema, Trump pode dizer o que quiser, mas esta suposta invulnerabilidade talvez não seja mais do que uma ilusão. O Partido Republicano ficou desfeito com a escolha de um candidato que não respeita os seus valores tradicionais. As críticas tornam Trump mais atrevido e os seus apoiantes mais convictos de estarem a ser manipulados por elites financeiras e políticas. Se cair na tentação de continuar este jogo de casino, Trump arrisca-se a uma derrota humilhante. Caso seja eleito, mesmo após atacar tanta gente, o novo presidente será contido pelas restantes instituições da democracia americana, tendo mesmo assim amplas oportunidades para fazer estragos sérios, criar divisões e frustrar aliados. Como escreve Robert Kagan neste artigo há algo de incrivelmente errado com o candidato republicano, que dispara em todas as direcções, como se fosse um pistoleiro do velho oeste em busca de notoriedade: e só diz coisas tremendas, por exemplo, que os Estados Unidos são um país do terceiro mundo, que Hillary Clinton é o diabo.

 

Terça-feira, 2 de Agosto de 2016

Entraram em vigor novas regras para calcular o imposto municipal sobre imóveis (IMI), pago pelos proprietários, e as alterações são delirantes: os imóveis terão um agravamento de imposto em função da exposição solar e em função das vistas, entre outros elementos pouco objectivos, que introduzem componentes discricionárias na avaliação das finanças. Os socialistas responderam à reacção negativa da direita com a habitual agressividade, à qual juntaram argumentos pouco convincentes (que não há nada de novo, que se pretende introduzir justiça): afinal, os imóveis com boas vistas e boa exposição solar já são mais caros, portanto, tendem a pagar mais IMI; a partir de agora, pagam duplamente. Francisco Sarsfield Cabral observa, neste texto: fracassou o plano do governo de estimular o consumo e pôr a economia a crescer mais depressa; resta a via dos impostos.

 

 

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Mundos com regras próprias

por Luís Naves, em 30.07.16

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Frase

“É possível, dentro das regras europeias, gerir um orçamento com o rigor necessário, sem penalizar os rendimentos das pessoas, sem mais cortes nos salários e pensões e sem carregar a economia com impostos”. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, recusando a recomendação da Comissão de aplicar medidas equivalentes a 0,25% do PIB.

SIC, 28 de Julho de 2016

 

post:

A ironia de Rui a, em Blasfémias, aplicada aos exageros patrióticos dos últimos dias.

 

A semana

Domingo, 24 de Julho de 2016

Foram conhecidos mais pormenores sobre o golpe na Turquia. Um artigo do New York Times explicava que, antes dos acontecimentos, os serviços de informação turcos estavam a recolher informação sobre milhares de adeptos do movimento de Fethullah Gulen, o clérigo que Erdogan acusa de ter inspirado a acção militar. A sede dos serviços de informação foi um dos primeiros alvos dos ataques. Sabe-se agora que o regime preparava uma purga destes elementos, que se lançaram no golpe para impedir o seu próprio afastamento da hierarquia militar. A facção gulenista é acusada de se ter infiltrado em todos os sectores da sociedade, sobretudo nas mesquitas, meios de comunicação, magistratura e forças armadas. Segundo o jornal americano, o poder dos gulenistas era enorme, incluindo no sector financeiro, universidades e funcionalismo público. Enfim, estas informações indicam que a purga do movimento Hizmet de Fethullah Gulen vai certamente continuar, o que não deixará de criar profundas divisões na sociedade turca.

 

Segunda-feira, 25 de Julho de 2016

Sequência de quatro atentados na Alemanha em apenas uma semana provocou nova discussão sobre a vaga de refugiados. Num destes ataques, um sírio matou uma mulher grávida e feriu outras duas; outro caso envolveu um refugiado que teve acesso a explosivos (o homem morreu na explosão e deixou quinze pessoas feridas). Os autores destes actos de violência tinham problemas psiquiátricos, mas cresce a irritação em relação à política de imigração do Governo. Para muitos alemães, permitir a vaga de refugiados foi um erro de Angela Merkel. Os partidos populistas, com destaque para Alternativa para a Alemanha, tentarão aproveitar a onda de descontentamento. Há um clima de insegurança em toda a Europa, mas os políticos e os meios de comunicação continuam a desvalorizar o fenómeno, o que apenas reforça a desconfiança popular. O estado de negação tende sempre a agravar o problema.

 

Terça-feira, madrugada de 26 de Julho de 2016

A divulgação de mails comprometedores sobre a parcialidade do comité nacional democrata marcou o primeiro dia da convenção do Partido Democrata, em Filadélfia. É profunda a irritação dos apoiantes de Bernie Sanders e o escândalo pode ter efeitos significativos na campanha de Hillary Clinton. Apesar dos primeiros discursos de unidade, muitos eleitores à esquerda terão relutância em votar numa candidata que vêem como a personificação de um sistema político corrompido. Clinton escolheu um candidato a vice-presidente que a ala liberal do partido considera demasiado conservador. As sondagens indicam crescentes dificuldades em estados onde a vitória dos democratas devia ser mais fácil do que se adivinha. A eventual eleição de Donald Trump seria um sismo sem paralelo na história do país, mas os políticos parecem continuar a subestimar a rebelião do eleitorado. Parafraseando a famosa tirada do marido de Hillary, (‘é a economia, estúpidos’), desta vez grita-se: ‘é o sistema político, estúpidos’.

 

Quarta-feira, 27 de Julho de 2016

A Comissão Europeia optou por propor sanções zero a Portugal e Espanha, em relação ao procedimento por défice excessivo. Terminou em anti-clímax um episódio onde ninguém ficou bem na fotografia. Perante a opinião pública, a direita foi colada (justa ou injustamente) ao desejo de que as coisas corressem mal, mas livrou-se de culpas nas contas de 2015; o Governo fez grande berraria contra os credores europeus e os falcões de Bruxelas, terá por isso dificuldade em explicar as medidas adicionais que aí vêm e, paradoxalmente, mais facilidade em manter a geringonça a funcionar. A Comissão, por seu lado, frustrou os países que querem maior rigor na aplicação dos tratados, provocando irritação em alguns deles. O presidente da comissão, Jean Claude Juncker, parece ter caído num momento de hipocrisia delirante, ao vangloriar-se que o órgão a que preside tem de ser mais ‘político’: quem o elegeu para extravasar as suas competências? A Comissão é um organismo técnico que defende a aplicação dos Tratados.

Enfim, o Governo de António Costa deixou de ter álibis para justificar os problemas que criou nos primeiros seis meses de governação. Culpar o governo anterior passa a ser um pouco absurdo e acusar Bruxelas de inflexibilidade colide de forma demasiado óbvia com os factos. Não há, a partir de agora, qualquer pretexto para demissões, nem mesmo a recomendação de medidas adicionais para aplicar até 15 de Outubro (num valor de 0,25% do PIB, ou 450 milhões de euros). O próximo orçamento será rigoroso, sobretudo se o novo objectivo de défice para 2016 (2,5% do PIB) não for alcançado, mas não haverá mais reversões de reformas. Os partidos que apoiam o Governo assinam por baixo ou entram em ruptura. É irónico, mas a esquerda, que cantou vitória com as sanções zero, está numa curva apertada: se sobreviver até fim do mandato, é porque continuou o ciclo de reformas iniciado no tempo da troika. Recomendo, a propósito do futuro, a leitura deste excelente texto de Rui Ramos.

 

 

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Realidades paralelas

por Luís Naves, em 23.07.16

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A frase:

“Seria uma aventura referendária (...) e por isso inadmissível para o Presidente da República, seja um referendo sobre a pertença à Europa ou um referendo sobre a vinculação a tratados ou pactos celebrados no quadro europeu”.

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República

21 de Julho de 2016

 

O post

Reflexão sobre Donald Trump e a sua imagem nos meios de comunicação, por José Mendonça da Cruz, em Corta Fitas

 

O livro:

Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco

Este romance de 1864 foi escrito após alguns dos melhores livros de Camilo, como Amor de Perdição ou O Bem e o Mal. O narrador (o próprio Camilo, claro) ouve o relato de uma paixão antiga de um fidalgo que reencontra por acaso, anos depois dos factos. É a história de um adultério, de um amor proibido, com os habituais mal-entendidos e desencontros dos amantes. Camilo parece recear o tema e, após algumas divagações moralistas, o amor pecaminoso transforma-se num labirinto de ódios e termina no tal amor de salvação que redime a alma perturbada do protagonista. A personagem de Teodora é um dos modelos de mulher camiliana: nunca percebemos bem a sua motivação, a infidelidade é demasiado conveniente, não percebemos por que razão ela desiste do amante, é demasiado bela, exerce demasiado poder, é a perdedora, torna-se perversa e perigosa. Talvez esta seja apenas a versão do homem que desistiu do amor e Camilo não se interessa pelo que aconteceu à mulher da história. Naturalmente, está lá tudo o resto: a prosa esfuziante, as frases esculpidas, o ritmo que leva tudo à frente, o génio das novelas de Camilo.

 

A semana

Domingo, 17 de Julho de 2016

Excelente artigo no jornal El Pais sobre o crescente movimento de partidos insurgentes na Europa. Não concordo com todas as escolhas (a inclusão do Fidesz húngaro, como se vê na tabela; e, no caso português, falta o PCP), mas é mesmo assim o trabalho mais completo que já vi sobre este tema. A análise tem aspectos interessantes, por exemplo a constante do anti-americanismo ou o número surpreendentemente elevado de formações que contestam a participação dos respectivos países na Aliança Atlântica. Em relação a Portugal, segundo sugere o gráfico, os partidos que cabem neste conceito de rebelião anti-sistema não estão abaixo de 10% da votação, mas na realidade eles rondam 20%, que é provavelmente a média europeia (temos de somar os comunistas e os bloquistas). A média está talvez a subir, não apenas em Portugal, mas nos outros países analisados. Não parece tão acertada a contabilização no caso dos países de leste, onde a insurreição terá a dimensão típica, em redor de um quinto do eleitorado. Independentemente dos exageros ou erros, tudo indica que as próximas eleições europeias vão criar um Parlamento Europeu pouco interessado na fórmula actual. Já este ano veremos cenas dos próximos capítulos na Áustria e no referendo constitucional italiano. Em 2017, teremos novos episódios, com a Frente Nacional, Geert Wilders e a Alternativa para a Alemanha. Serão os grandes testes desta insurreição e já veremos até onde ela irá.

 

Segunda, 18 de Julho de 2016

A propósito do tema anterior, o Observador publicou esta notável entrevista ao historiador e autor britânico Timothy Garton Ash, onde se encontram reflexões sobre o Brexit, Donald Trump e o enorme movimento que poderemos definir como vaga iliberal. A entrevista inclui uma aparente contradição de Garton Ash: por um lado, o autor está convicto da superioridade do sistema liberal; por outro lado, reconhece que o período de globalização que se seguiu à queda do Muro de Berlim provocou grandes descontentamentos. Ash fala também do que viu durante a campanha do referendo britânico, na sua região de Oxford, ao encontrar pessoas zangadas com o sistema, temendo perder empregos para imigrantes de leste e que criticavam os vizinhos: banqueiros, oligarcas russos e milionários chineses. Na mesma cidade, viviam vencedores e perdedores da globalização. A entrevista sugere que no mundo industrializado emerge uma viragem ideológica empurrada pelo descontentamento dos perdedores. Esta transformação está presente em cada uma das notícias que vemos diariamente, dos atentados do jihadismo à convenção republicana nos Estados Unidos, da emergência de insurreições partidárias à votação no referendo britânico. Também parece que alguns liberais estão a cair na mesma ilusão que no passado embalou os defensores de outras ideologias: que o seu sistema era tão perfeito e vantajoso, que seria o fim da história.

 

Terça-feira, 19 de Julho de 2016

A sequência de más notícias na economia começa a ser preocupante. A incerteza em relação à Caixa Geral de Depósitos não faz sentido e o sistema financeiro parece andar sobre gelo fino, a ponto de o FMI ter incluído a pequena banca portuguesa no lote dos problemas que a organização detectou. No sábado passado, o Expresso noticiava que o crédito malparado, em 2015, seria superior a 33 mil milhões de euros, ou quase 13% do total. O mesmo jornal referia que a poupança das famílias foi negativa pela primeira vez no primeiro trimestre de 2016 (a série tem 40 anos), pois os gastos cresceram dez vezes mais do que o orçamento familiar, uma loucura. Em Maio, o saldo da balança corrente foi um dos mais negativos da Europa (940 milhões de euro, na realidade o pior em percentagem de PIB) e é um susto olhar para o gráfico incluído neste post de Mário Amorim Lopes. Em resumo, tudo isto sugere que os políticos deram os sinais errados à população, que houve excesso de optimismo e falsas promessas de que a crise tinha acabado. O essencial do problema está bem explicado neste texto de Sérgio Figueiredo: o crescimento económico é insuficiente. O Governo queria estimular a economia desapertando o cinto, mas a economia abrandou, não há confiança dos investidores e credores, não há poupança, os bancos estão a perder depósitos, as pessoas desataram a consumir e a balança externa degradou-se. A Europa sabe que as contas públicas foram afectadas por erros desnecessários, a política interna exige que esses erros prossigam, isto é como aquelas bebedeiras eufóricas, que já não param até ao momento da ressaca.

 

 

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Semana sangrenta

por Luís Naves, em 16.07.16

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Frase

“Mais injustas do que qualquer sanção são as palavras da dra. Maria Luís Albuquerque”, António Costa, primeiro-ministro, reagindo em Bruxelas à acusação da ex-ministra das Finanças de que o Governo não defendeu o legado recebido. 12 de Julho de 2016

Um post

Suzana Toscano, em Quarta República

Um livro

Pierrot Meu Amigo, de Raymond Queneau

Sentido de humor delirante, diálogos precisos, numa linguagem cheia de invenção; a história é simples e as personagens têm complexidade e um pouco de loucura. O ritmo da prosa é alucinante. Como a França era engraçada. Apesar de ter sido publicado em 1942, este romance não tem referências políticas e mostra uma cultura optimista e alegre, que celebra a vida.    

 

Domingo, 10 de Julho

Portugal venceu a final do campeonato europeu de futebol, num jogo repleto de emoção e drama, com um suplemento de alma que parecia improvável. Fica para a História a imagem das lágrimas de dor e alegria de Ronaldo, fica na nossa memória a tenacidade do seleccionador Fernando Santos, que durante semanas foi vergastado por mil tudólogos. É bem ténue a linha que separa a vitória da humilhação: muitos observadores já afiavamas facas para criticar todos os que deram o litro em campo, incluindo o extraordinário Cristiano Ronaldo. Ironia das ironias, o golo da vitória foi marcado pelo ‘patinho feio‘ da equipa, Éder, aquele que ninguém achava à altura dos nossos longos pergaminhos de derrotas morais. Éder desmentiu os sábios da farinha amparo e ainda nos deu uma vitória que levará anos, talvez décadas, a ser repetida.

 

Segunda-feira, 11 de Julho

Portugal celebrou nas ruas, onde se acumularam multidões eufóricas. Buzinas, cânticos, danças, alegria, o esvoaçar de bandeiras, a explosão da cor no dia quente. Este povo, que as elites tanto subestimam, teve sempre nos momentos de adversidade a mesma coragem e resistência que a sua equipa de futebol mostrou em campo, quando tudo parecia perdido. Neste texto, o historiado Rui Ramos, notou com lucidez que assistimos ao “sequestro da selecção” pelos políticos, espectáculo embaraçoso que teve momentos de algum ridículo e mostrou o “desespero do regime”. Está a tornar-se um hábito: aquilo que a esquerda tanto criticou nos tempos do fascismo, os famosos três F (de fado, futebol e Fátima) são agora uma banalidade praticada pelos mandarins da nova ordem.

 

Terça-feira, 12 de Julho

Portugal ficou sob ameaça de sanções da União Europeia. Negando o óbvio, entre nós prossegue a operação de mistificação da opinião pública. O actual Governo tenta culpar o anterior por não ter cumprido o défice de 2015 e afirma que não fará alterações de política, mas as autoridades europeias exigem medidas. A coligação PSD-CDS desbaratou a oportunidade de sairmos do procedimento por défice excessivo, onde nos encontramos por nunca termos atingido o objectivo de 3% do PIB no défice orçamental, no entanto as sanções não resultam de duas décimas de PIB (o que seria pouco mais de 300 milhões de euros), mas do afastamento continuado da trajectória de redução. O Governo de António Costa adiou pagamentos, subestimou o abrandamento económico e aumentou a despesa. Portugal financia-se nos mercados e estes estão a reagir com crescente desconfiança à reversão das reformas. Perante a ameaça de sanções, o primeiro-ministro terá de escolher entre austeridade e risco de bancarrota; os partidos que o apoiam podem aceitar medidas duras ou avançar para uma ruptura que cortará o PS em pedaços. Isto seria o dilema racional, mas há sempre a hipótese de querer bater o pé à Europa, estratégia que deu tão bons resultados na Grécia.

 

 

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