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Celebrar Agustina

por Inês Pedrosa, em 15.10.16

Agustina Bessa-Luís faz hoje anos. Das saudades que tenho dela, das suas palavras, do seu carinho, daquela sua gargalhada que vale mil bibliotecas, não sei falar, nem vêm ao caso. O melhor presente que se pode oferecer a um escritor é ler os seus livros. Deixo aqui o texto que publiquei no Expresso, em 1999, sobre o romance A Quinta-Essência  (Guimarães,1999), uma das muitas obras-primas que Agustina nos ofereceu.  

Agustina 1.jpg

 

Em que consiste a Quinta-Essência? Agustina dá-nos uma primeira aproximação ao enigma a páginas 67/68: « As mulheres não são pacientes com o amor. São pacientes com tudo e de tudo fazem hábitos. Do amor é que não. Daí que muitas delas deixem de ser honestas e se entreguem a uma forma de criação que é principiar do nada coisas efémeras que nunca acabam. Chama-se a isto a Quinta-Essência, a região do fogo e do amor. Mas é muito raro que alguém possa atingir essa última metamorfose.» Todo o universo agustiniano circula em torno dessa incandescência sobrenatural; este romance, porque se situa em Macau, infinita roleta em que se cruzam Ocidente e Oriente, ilumina de forma particular a demanda dessa espécie de Graal interior.

No aparente lugar do protagonista ( porque em Agustina todos os protagonismos são ilusórias aparências) temos um homem que parte para Macau movido pelo abstracto sentido da vingança: despojado da sua casa, dos seus bens e da sua família pela revolucionária lei das Ocupações, decide, uma década depois, ferir o capitão que a assinara, através da filha ilegítima que o mesmo deixara em Macau. Puro pretexto para fugir à sua própria sombra, que o mesmo é dizer, para se afundar nos abismos dela. Chama-se Pessanha, este homem que gosta de impressionar as mulheres ao ponto de para isso se tornar catedrático em ciências humanas, com a candura cerebral que muitas vezes assiste aos grandes imorais. Chegado a Macau, afasta-se desse seu nome, que substitui pelo outro, de pior historial, de Santos Pastor, de modo a que o fantasma do Pessanha poeta se desimagine dele. Mas Camilo Pessanha sobrevoa o seu destino, entranha-se-lhe na memória da pele à medida que o seu caminho pelas portas da China se torna irreversível.

Na origem dessa irreversibilidade está o amor que se revela a José Carlos Pessanha através de Iluminada, a filha do seu inimigo. Um amor praticamente impossível, a que siara Debra, a pequenina e férrea avó chinesa de Iluminada, concede um breve tempo de floração, para que a vida lhe sobreviva nos ritos das estações. «Sempre é pouco para o amor», diz ela, e pouco mais diz. Nesta frase resume a quinta-essência do encontro de José Carlos e Iluminada.      

«Ela sabia, por tradição muito antiga, que o amor não estava ao alcance dos mortais. Conheciam os ritos do sexo, as paixões que tornam os homens assassinos ou profetas, ou que os levam a viver nos mais áridos desertos. Mas a quinta-essência era-lhes vedada. Se assim não fosse, viviam eternamente, o que é grave infracção às leis que pesam sobre o mar Morto e sobre o qual Satanás tem grande poder.»( p.211).

Não é de sexo que se trata – embora o sexo seja tratado com um desassombro e um rigor de acupunctura, tocando todos os equívocos da sua afirmação actual, incluindo o caso da «descarada e encantadora menina Lewinsky» neste livro especificamente oriental de Agustina – mas da melancolia do conhecimento que o acende.«A quinta-essência, de que os chineses conhecem a cadeia perfeitamente combinada, atribui ao sexo um meio de atingir a divina longevidade. Mas é tão subtil o seu uso e fundamental a sua harmonia, que poucos conseguem obter algo mais do que o prazer.»(pp. 217-218) Trata-se do intratável: o amor, palavra devorada pelo quotidiano mediático da civilização ocidental. Trata-se, por conseguinte, de deslocar a palavra para lhe desocultar a luz afogada e lhe entender a voz, através das frinchas de outra civilização. «A quinta-essência consumava-se na memória do encontro que não é da carne, mas das profundas faculdades da inteligência comum. Nada era mais galante do que o viver tal companhia. E, estando separados, se encontravam no enigma.» (p. 257).

A história de José Carlos e Iluminada desenha-se com sublime delicadeza sobre o manto imenso dos mistérios da História próxima e distante de Portugal e da China, não só porque o jogo das interrogações infinitas amplia os limites e a sapiência do amor, mas sobretudo porque no mundo de Agustina o tempo é o menor dos escultores, o burocrata de serviço às modas que ofuscam para a terrível contemporaneidade da natureza humana, por todos os séculos dos séculos. Já em 1964, a propósito de Os Quatro Rios, Eduardo Lourenço definia a escrita de Agustina Bessa-Luís como «uma tapeçaria, mas dum género especial, aberta». ( in O Tempo e o Modo, nº 22).«”A vida é feita de arrumações de coisas que não são nossas” – pensou Iluminada. Pensamentos que muito antes de nós já comoveram alguém e que estão em toda a parte, no vento, na água, no sol. Uma vez encontrados, a quinta-essência destaca-se como um ponto brilhante no universo e tudo volta ao seu lugar.»( p.248).

 

A Quinta Essência.jpgA expressão aforística, que neste romance atinge um grau de autêntico esplendor, prende-se, não com uma exibição compulsiva de autoridade individual, como certas leituras ligeiras frequentemente sugerem, mas com esta impessoalidade profunda que, como sublinhou Silvina Rodrigues Lopes num dos seus penetrantes estudos sobre a escritora,«(...)produz um pensamento indeterminado, simultaneamente inteligência contagiante, revelação que interfere na formação do leitor, e abertura de múltiplas hipóteses(...)» ( Agustina Bessa Luís – As Hipóteses do Romance, Asa, 1992, p. 30). Sob um estilo aparentemente clássico, a autora estilhaça todas as regras convencionais da criação de personagens e de desenvolvimento da acção: as personagens – em particular os homens - são intrinsecamente virtuais ( imprevisíveis, permeáveis, porosas), a acção deixa-se contaminar pelas múltiplas recriações da memória de acções anteriores, a citação vicia e vigia inconscientemente o tecido íntimo do devir. Como o par de apaixonados deste romance, a escritora pensa sem temor nem repouso no pensável e no impensável, arriscando saltar no escuro todos os muros até hoje estabelecidos. Nesse sentido, Agustina foi post-moderna avant la lettre.

A ousadia deste romance que investiga as semelhanças entre portugueses e chineses, o encontro entre Ocidente e Oriente, prepara-o para atravessar, numa intocável fórmula de beleza, o milénio que vem aí – como O Sonho no Pavilhão Vermelho de Cao Xueqin atravessou o mar do tempo até chegar a Agustina, que fez do autor um onomatopaico e próximo «amigo Joaquim» e da saudade desse sonho oriental a pedra de toque desta portentosa declinação das idades do amor eterno. 

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