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Arrumar a biblioteca (XX)

por Pedro Correia, em 10.10.13

 

Raskolnikov, Jivago e D'Artagnan

 

Cansado, mas satisfeito: os livros estão arrumados. Não todos, mas quase. Por todo o espaço disponível.

Contei-os: são 2233. Tenho mais 394 em casa da minha mãe: 2627 no total.

Reúno à parte todos os que estão assinados pelos respectivos autores. Reproduzo aqui alguns desses autógrafos personalizados. De Jorge Amado, José Saramago, Fernando Namora. Refiro-me só a escritores já desaparecidos. Mas tenho vários outros de autores felizmente vivos.

 

Restam 145 títulos ainda sem lugar -- só cerca de 6% do total. Vou dar alguns, sobretudo os repetidos. Inventarei espaço para os restantes: o essencial está feito.

Tenho a certeza antecipada de que nunca manterei os mesmos livros nas mesmas prateleiras. Saem uns, para leitura ou consulta, logo outros ocupam esses espaços.

E eis que chegam novos títulos. Acabo de comprar mais um, que trago da livraria do Corte Inglés: El Amor de Mí Vida, de Rosa Montero, aqui recomendado pela Ana Vidal. Hoje talvez compre outro: qualquer um de Alice Munro, recém-galardoada com o Nobel.

Não tardarei a lê-los.

 

Encontro livros que não me pertencem: foram-me emprestados em tempos, vou restituí-los aos legítimos proprietários.

Livros tão diversos como Terna é a Noite, de Scott Fitzgerald, El Maquiavel de León, de José García Abad, Palavra Puxa Receita, de Maria de Lourdes Modesto, 15 Meses no Ministério dos Negócios Estrangeiros, de Freitas do Amaral, The Political Writings, de John Dewey.

Penso noutros, que já tive e nunca mais vi: O Vil Metal e Dias da Birmânia, de Orwell; Angústia para o Jantar e Um Homem Não Chora, de Sttau Monteiro; Carta a Fidel Castro, de Arrabal; Poesia II, de José Gomes Ferreira; A Cidade e as Serras, de Eça; O Advogado do Diabo, de Morris West; Três Homens num Bote, de Jerome K. Jerome.

Uns hei-de encontrar, outros talvez não. Os livros estão em movimento perpétuo. Como todos nós, afinal.

 

 

Os livros levam-nos onde nenhum meio de transporte nos conduz. Seja de barco, seja de comboio, seja de avião.

Nos livros viajamos no espaço e no tempo. Conhecemos novos mundos, rasgamos horizontes, galgamos fronteiras reais ou imaginárias, conhecemos uma infinidade de pessoas das mais diversas proveniências.

 

Os livros são os mais fiéis e pacientes companheiros de percurso: nunca nos deixam sós.

Com eles subimos um rio, nas profundezas do Congo, navegando com o capitão Charles Marlow. Perseguimos uma baleia a bordo de um navio comandado pelo obsessivo capitão Ahad. Fazemos a pescaria da nossa vida logo reduzida a quase nada, ombro a ombro com o velho Santiago ao largo de Cuba.

De manhã deambulamos pelas margens do vasto delta do Mississípi com Huckleberry Finn, à tarde tomamos chá num Verão londrino com Clarissa Dalloway e subimos o Chiado com João da Ega, ao pôr do sol jantamos na mansão de Jay Gatsby.

 

Página a página, testemunhamos a paixão desmedida que une Sarah Miles a Maurice Bendrix nos escombros de Londres durante a guerra. Caminhamos com Mersault sob um sol escaldante numa praia argelina ou sentimos o frio trespassar-nos a pele e os ossos no campo de concentração siberiano onde Ivan Denissovitch vegeta.

Com os livros viajamos em calhambeques de camponeses esfomeados como o que levou -- e levará até aos confins dos séculos graças à imortalidade da literatura -- a família de Tom Joad do Oklahoma para a Califórnia.

Seguimos o Malhadinhas pelas veredas sinuosas das serras beirãs.

Brincamos em Salvador como os capitães da areia, que chegam a homens sem nunca ser meninos.

Descemos com outro capitão, chamado Nemo, às profundezas submarinas.

Arrastamo-nos nas sórdidas vielas da Londres vitoriana com Oliver Twist. Ou nas faiscantes festas novaiorquinas onde Holly Golighly brilha para a eternidade.

Exercemos medicina, como Jivago. Ou a advocacia, como Atticus Finch. Ou o jornalismo, como Santiago Zavala, o Zavalita.

Ou fazemos do segredo a nossa profissão, imitando George Smiley.

 

Enquanto leio, chamo-me D' Artagnan e sou um galante capitão ao serviço da rainha. Cavalgo como Ivanhoe à conquista do coração de Lady Rowena. Transfiguro-me em Fabrizio Del Dongo, cruzando-me com Napoleão em Waterloo. E respondo pelo nome de Sandokan quando navego nos mares da Malásia.

Torno-me Winston Smith e vivo num sistema totalitário. Prendem-me e eu, Joseph K, não faço a menor ideia de qual terá sido o motivo -- ter-me-ão confundido com Raskolnikov?

 

Mas mesmo preso eis-me livre nos livros, Phileas Fogg percorrendo o globo em 80 dias, rumando ao planeta do Principezinho.

Matando como Tom Ripley, morrendo como Robert Jordan. Ou como o coronel Aureliano Buendía, recordando perante o pelotão de fuzilamento a tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.

Diletante como Dorian Gray. Solitário como Robinson Crusoe, solidário como Jean Valjean.

Apaixonado à primeira vista, às primeiras letras, por Margarida Dulmo.

 

Mario Vargas Llosa tem razão: fechado um livro, saímos dele "mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos" enquanto regressamos à "constrangida rotina da vida real".

Exactamente como me sinto agora. 

 

E aqui vos deixo, com a inigualável voz de Gisela João.

 

Até sempre.

 

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Arrumar a biblioteca (XIX)

por Pedro Correia, em 09.10.13

 

 

Ava Gardner, Sinatra e Marlon Brando

 

Deixo o melhor para o fim.

São livros sobre uma paixão antiga: o cinema. Uma paixão que sempre relacionei com a literatura.

Livros que, em certos casos, me acompanham há quase 30 anos. Acontece, por exemplo, com The Illustrated Directory of Film Stars, de David Quinlan. Ou Quinlan's Film Directors, do mesmo autor. 

 

Que houve -- e há -- estreitas relações entre a Sétima Arte e a literatura provam-no vários escritores que chegaram a ser críticos de cinema. Graham Greene foi um dos mais prolíficos e famosos, nas revistas The Spectator e Night and Day. Até que viu a carreira de crítico abruptamente interrompida quando a 20th Century Fox lhe moveu uma queixa-crime na sequência de um texto demolidor, na década de 30, sobre um filme de Shirley Temple.

Mas houve muitos outros, de Jorge Luis Borges (Do Cinema, Livros Horizonte) a Vinicius de Moraes (O Cinema de Meus Olhos, Companhia das Letras). O ofício foi também exercido em Portugal por escritores como Fernando Pessoa ou José Régio. E é notória a influência da arte cinematográfica na poesia de Ruy Belo e em romances como Bonecos de Luz, de Romeu Correia, ou O Que Diz Molero, de Dinis Machado.

 

Lembro-me aliás das fascinantes digressões deste último pelo mundo das "fitas", como antigamente se dizia, no seu apartamento da Avenida Sacadura Cabral, em Lisboa. Conversas de que me ficou como recordação um exemplar autografado do Molero, que de vez em quando revisito como se fosse protagonista de um flashback destinado a conduzir-me novamente aos dias cinéfilos dos 80.

Nessa década conheci dois livros da minha vida: Pieces of Time (Nacos de Tempo, Livros Horizonte), colectânea de crónicas sobre cinema escritas por Peter Bogdanovich para a Esquire, e Hitchcock/Truffaut (Dom Quixote), o longo diálogo-entrevista entre dois génios da Sétima Arte logo tornado clássico.

Ambas as obras ensinam-nos a ver o cinema com outros olhos. São livros insubstituíveis na minha biblioteca, tal como os dois volumes que reúnem as inesquecíveis crónicas de João Bénard da Costa que tanto contribuíram para a cultura cinematográfica da geração a que pertenço ao serem inicialmente publicadas no cada vez mais saudoso semanário O Independente. Pensei que andassem perdidos, mas reencontrei-os há dias.

Escrevo estas linhas enquanto Rex Harrison canta como se dissesse (ou diz como se cantasse) I've grown accustomed to her face. Da banda sonora de My Fair Lady, filme muito cá de casa.

 

Reservo pelo menos três prateleiras em duas estantes para livros de cinema -- incluindo uma das mais altas, pois são livros de grande formato. Alguns destes títulos acompanham-me também há longos anos e já fizeram uma longa viagem do Extremo Oriente para a ponta mais ocidental da Europa. Outros fizeram essa viagem a dobrar: de cá para lá, de lá para cá.

Títulos como estes:

- Life Goes to the Movies

- MGM, de Elizabeth Miles Montgomery

- MGM: When the Lion Roars, de Peter Hay

- The Columbia Story, de Clive Hirschhorn

- The Paramount Story, de John Douglas Eames

- Warner Bros., de Thomas G. Aylesworth

- Film Noir, de Alain Silver e Elizabeth Ward

- Oscar A to Z, de Charles Matthews

- Inside Oscar, de Mason Wiley e Damien Bona

- 500 Great Films, de Daniel e Susan Cohen

 

 

E tantos outros, que vou arrumando e enumerando, agora a escutar You Belong to Me, na voz de Jo Stafford. De outra película memorável, que bem gostaria de rever agora: The Last Picture Show, de Peter Bogdanovich (por coincidência falava dele há bocado, livros e filmes são matéria intermutável, inesgotável).

Eis à minha frente o livro-catálogo da Cinemateca, também redigido por Bénard da Costa, sob o lema Como o Cinema era Belo -- deslumbrante lembrança de um dos melhores ciclos de clássicos da Sétima Arte a que assisti até hoje. Kiss Kiss Bang Bang, uma colectânea de Pauline Kael, talvez a mais polémica crítica de cinema de que há memória. 100 Best Films of the Century -- a escolha de outro grande crítico, Barry Norman.

 

Um cineasta que sabe escolher música para os seus filmes é sem dúvida Woody Allen. Ouço a banda sonora de Radio Days, um dos melhores exemplos do que escrevi atrás. Cá está American Patrol, pela orquestra de Glenn Miller; Body & Soul, pelo quarteto de Benny Goodman; In the Mood, clássico entre os clássicos; e If you are but a dream, na voz de um novíssimo Frank Sinatra, quando ainda integrava a orquestra de Tommy Dorsey, onde aprendeu o essencial do seu inconfundível fraseado e da sua espantosa técnica de colocação de voz no diálogo constante com os instrumentos musicais. Ou numa gravação já histórica de With a Song in My Heart, também remontando aos dias áureos da rádio.

Junto os livros de música na sequência imediata dos títulos sobre cinema. Ópera, jazz, clássicos, as biografias de Sinatra, Ella Fitzgerald e Antonio Carlos Jobim. 100 Great Albums of the Sixties, de John Tobler. Noites Tropicais, longa crónica de Nelson Motta que se transformou em delicioso livro de "solos, improvisos e memórias musicais" do Brasil em clave de sol, pois as palavras são como as cerejas. E Chega de Saudade, com todas as histórias que sempre quisemos saber sobre os primórdios da bossa nova e Ruy Castro teve o bom senso e o bom gosto de nos narrar naquele estilo que torna imperdível cada livro seu.

 

 

Falta-me não só o espaço na biblioteca: já me falta também espaço aqui no blogue. Ficará para outra série a digressão pelos livros de música, de pintura e de banda desenhada a que reservo lugares especiais. Tintim e Lucky Luke, por exemplo, ombreiam com as melhores personagens da ficção literária.

 

Mas regresso ainda ao cinema. Para arrumar, já devidamente catalogadas, as biografias. De Marlon Brando, Bette Davis, Steve McQueen, Elizabeth Taylor, George Cukor, Robert Mitchum, Katharine Hepburn. E também as autobiografias. De Ingrid Bergman (My Story), Ava Gardner (A Minha História, da editora brasileira L&PM), Marlene Dietrich (Marlene D.), Brando (Canções que a Minha Mãe me Ensinou). E dois dos livros de memórias que mais me marcaram: A Life, de Elia Kazan, e O Nome Acima do Título, de Frank Capra (com excelente versão portuguesa, das Edições da Cinemateca).

São livros que recomendo a todos quantos mantêm o gosto de se sentar numa sala iluminada pelo ecrã destinado a projectar imagens que guardaremos para sempre.

"Quando se faz cinema não há regras, só pecados. E o pecado cardeal é o tédio." Palavras de mestre Capra.

 

E fico-me com a banda sonora de outro filme da minha vida: Disponível para Amar, de Wong Kar-wai.

 

Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (XVIII)

por Pedro Correia, em 06.10.13

 

Kennedy, Churchill e Fidel Castro

 

A empreitada está quase a chegar ao fim.

Grande parte dos livros já se encontra distribuída pelas prateleiras -- "estacionados" em primeira ou em segunda mão.

Faltava quase só o grupo das obras -- também muito numerosas cá por casa -- de autores estrangeiros fora do domínio da ficção. Ensaio, história, biografias. Também estas encontraram o seu lugar. Ou nas estantes que tenho no corredor ou nas que circundam a divisão a que, com ironia, chamo escritório.

Esporadicamente, ficam acompanhadas por obras de autores nacionais: é o que acontece com The Greek Myths (dois volumes) e a História da Idade Média (cinco volumes), editados pela Folio Society, que decidi manter em amena parceria com os três volumes encadernados da História da Cultura em Portugal, de António José Saraiva, um dos melhores ensaístas portugueses de todos os tempos. Por mim, tudo farei para que nunca seja esquecido. Foi um dos autores que mais me ensinaram a pensar, quando o descobri, ainda na adolescência.

 

Uma parte considerável deste segmento da minha biblioteca é dedicada a livros sobre política e ensaios sobre o mundo contemporâneo. Como O Fim da História e o Último Homem, de Francis Fukuyama. Ou alguns dos mais célebres títulos de Alvin Toffler: O Choque do Futuro, A Terceira Vaga e Guerra e Antiguerra. Entrevistei-o na década de 80, em Lisboa, e guardo um autógrafo dele e da mulher, Heidi, no meu exemplar d' A Terceira Vaga -- termo que ele cunhou e passou a integrar o vocabulário comum um pouco por toda a parte.

Não faltam biografias. Duas de Churchill, por Martin Gilbert e Paul Johnson. Duas de Franco, por Paul Preston e Andrée Bachoud. Outras duas do Rei Juan Carlos, por Preston e Pilar Urbano -- ambas com muito interesse. De Gaulle também a dobrar: por Éric Roussel e pelo filho, o almirante Philippe De Gaulle.

A de Truman, por David McCullough, premiado com o Pulitzer. Hitler, por Ian Kershaw. Deng Xiaoping, por David Bonavia. A extraordinária biografia de Estaline saída da pena de Martin Amis, sob o título Koba, o Terrível.

Fora da política, mas ainda no género biográfico, destaco as obras que Jeffrey Meyers e A. E. Hotchner dedicaram a Ernest Hemingway, e as que Bernard Crick e John Newsinger dedicaram a George Orwell. Sem esquecer a de Albert Camus, por Olivier Todd, a de Victor Hugo, por André Maurois, e a de Jack London, por Irving Stone. Tal como esse livro a todos os títulos notável que é O Anjo Pornográfico, a biografia do grande Nelson Rodrigues, por Ruy Castro.

 

E há, claro, muitas memórias e autobiografias.

Para mim, neste âmbito, nada equivale aos seis volumes das memórias de guerra, de Churchill, que descobri há mais de vinte anos numa livraria da baixa de Hong Kong. Não hesitei um segundo em trazê-los. Figuram entre os livros mais entusiasticamente lidos e sublinhados da minha biblioteca.

 

 

E que mais?

As memórias de Gandhi, Raymond Aron, Norberto Bobbio e Jacques Delors. A extraordinária autobiografia de Françoise Gilot, a única das mulheres de Picasso que o abandonou: Life With Picasso (tenho a edição em inglês) é uma obra-prima do género. Tal como, num âmbito completamente diferente, O III Reich por Dentro, ambígua mea culpa de Albert Speer, o arquitecto e ministro do Armamento de Hitler. Esse pungente documento que é A Confissão, de Artur London, o ministro checo vítima das brutais purgas estalinistas, um dos raros que sobreviveram para narrá-las com conhecimento directo.

Outros: Conversas com Tito, de Milovan Djilas; O Século de Sartre, Bernard-Henri Lévy; alguns ensaios de Jean-François Revel (Nem Marx nem Jesus, A Tentação Totalitária, O Conhecimento Inútil); Rousseau e outros Cinco Inimigos da Liberdade, de Isaiah Berlin; Responsabilidade e Juízo, de Hannah Arendt. Clássicos como O Antigo Regime e a Revolução, de Tocqueville, e A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset.

Sem esquecer esse originalíssimo romance-documento que é Autobiografia de Fidel Castro, escrito por Norberto Fuentes, que foi durante anos um dos colaboradores mais próximos do ditador cubano. Espero escrever mais detalhadamente sobre esta obra um dia destes.

 

Dois temas que sempre me fascinaram, por motivos muito diferentes, são a Guerra Civil de Espanha e os mil dias da presidência de John Kennedy em Washington.

Sobre Espanha, releio com frequência obras como A Guerra Civil de Espanha, de Hugh Thomas, A República Espanhola e a Guerra Civil, de Gabriel Jackson, e A Guerra Civil de Espanha, de Ramon Tamames. O mandato de Kennedy é analisado em livros que também consulto com frequência, como 1960, de David Pietruszka (relato pormenorizado da campanha que conduziu ao posto máximo do poder o 35º presidente dos EUA), The Best and the Brightest, de David Halberstam (sobre as origens da guerra do Vietname, que remontam ao consulado de Kennedy), Irmãos, de David Talbot (sobre a estreitíssima relação entre John e o o irmão Robert, que foi seu braço direito na Casa Branca) e A Face Oculta de Kennedy, de Seymour M. Hersh (sobre os escândalos, visíveis ou invisíveis, desse mandato).

 

 

E há ainda as obras que resultam de investigações jornalísticas ou reúnem reportagens publicadas na imprensa. Têm, por motivos óbvios, lugar privilegiado na minha biblioteca.

Ficam aqui alguns títulos (a lista não é exaustiva, nesta como nas outras matérias):

- A Face da Guerra, de Martha Gellhorn

- Morte no Arrozal, de Peter Scholl-Latour (sobre as três guerras da Indochina entre 1945 e 1980)

- Anatomia de um Instante, de Javier Cercas (sobre a tentativa de golpe de extrema-direita no dia 23 de Fevereiro de 1981 em Espanha)

- From Beirut to Jerusalem, de John Simpson

- Os Maus Rapazes de Bagdad, de Alfonso Rojo

- Revolução 1989 - A Queda do Império Soviético, de Victor Sebestyen

- 102 Minutos, de Jim Dwyer e Kevin Flynn (impressionante relato sobre o 11 de Setembro em Nova Iorque)

 

Tenho praticamente tudo arrumado. Hoje foi ao som da magnífica banda sonora de Cabaret, em sessões contínuas. Com temas excepcionais, como este que aqui vos deixo.

 

Até quarta-feira.

 

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Arrumar a biblioteca (XVII)

por Pedro Correia, em 27.09.13

 

Millôr, Castrim e Vasco Pulido Valente

 

Há pessoas que jamais escrevem num livro: são capazes de o ler de fio a pavio sem lhe fazerem um risco. Comigo é ao contrário: nenhum livro fica por riscar. Sublinho passagens que me parecem importantes, assinalo incongruências, marco sempre gralhas tipográficas ou erros factuais (vício que me ficou de 25 anos a editar e reescrever textos alheios) e até insiro notas de rodapé que caberiam a autores ou tradutores.

Não há livros imaculados. Recentemente, relendo pela terceira vez O Delfim, de José Cardoso Pires, descobri algumas falhas que escaparam ao olhar de vários editores certamente muito atentos.

Eu escrevo nas margens, sempre a lápis. "Dialogo" com o autor -- fazendo perguntas, aplaudindo, indignando-me ou mostrando a minha perplexidade por determinados trechos. É uma das minhas manias enquanto leitor. Julgo que terei começado com O País das Maravilhas, de Vasco Pulido Valente, quando tinha 18 anos. E nunca mais parei.

As anotações são fundamentais para nos permitirem escrever um dia sobre as obras que vamos lendo e sobretudo para conservarmos a memória do que lemos. Nos livros de contos, por exemplo, comecei a atribuir estrelas -- de uma a cinco -- por cada história que ia lendo. A partir de certa altura passei a atribuir essa classificação a todos os livros: não acabo nenhum sem lhe pôr, além da data, as estrelas que a meu ver merecem.

 

Estou para aqui com esta conversa e ainda não vos disse que arrumei hoje os livros de autores portugueses pertencentes a géneros que não se circunscrevem às artes literárias. Livros de ensaio, história, memórias, biografias, colectâneas de artigos publicados nos jornais, textos de blogues transpostos para livros (Pedro Mexia, João Caetano Dias, Paulo Pinto Mascarenhas, João Gonçalves e alguns outros).

São muitos e variados. Desde as obras do grande Oliveira Martins (Portugal Contemporâneo, História de Portugal, História da Civilização Ibérica, Os Filhos de D. João I, A Vida de Nun'Álvares, O Príncipe Perfeito) às de Mário Domingues. Passando por António Sérgio, Vitorino Magalhães Godinho, Orlando Ribeiro, Óscar Lopes, António José Saraiva, José Gil (Portugal, Hoje -- O Medo de Existir), António Barreto e Maria Filomena Mónica. Ou os Textos Filosóficos de Fernando Pessoa.

E muitos mais. A excelente biografia de Salazar escrita por Filipe Ribeiro de Meneses, por exemplo. Outras biografias: Álvaro Cunhal (por Pacheco Pereira), Mário Soares (por Joaquim Vieira), Sá Carneiro (por Miguel Pinheiro), Marcelo Rebelo de Sousa (por Vítor Matos), Aníbal Cavaco Silva (por ele próprio). Os três volumes da imprescindível entrevista-biografia de Soares assinada por Maria João Avillez, também autora de Outras Palavras, Francisco Sá Carneiro: Solidão e Poder e Conversas com Álvaro Cunhal. O ex-líder comunista está igualmente em destaque na obra Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido, do meu amigo João Céu e Silva.

 

E ainda as crónicas jornalísticas de gente tão diversa como Cardoso Pires, Alexandre O'Neill, Fernando Assis Pacheco, José Rodrigues Miguéis, Natália Correia, Ruy Belo, Victor Cunha Rego, João Pereira Coutinho e Mário Castrim (do antigo crítico de televisão do Diário de Lisboa tenho vários, com autógrafos que guardarei sempre como grata recordação das conversas que mantive com ele).

Sem esquecer os brasileiros, excepcionais praticantes deste género jornalístico que é também um género literário: Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Millôr Fernandes.

E também os diários: sou desde sempre leitor atento e entusiasta de diários. Assinados por Miguel Torga, Vergílio Ferreira, José Saramago, João Palma-Ferreira e Marcello Duarte Mathias, só para me manter nos autores portugueses. Ou Josué Montello, entre os brasileiros: "A vida seria uma vulgaridade, com a rotina dos dias e das estações, se não soubéssemos apreciá-la, buscando admirar os seus mistérios e subtilezas", escreve ele no seu Diário da Tarde.

E memórias, também muitas e variadas. De Marcello Caetano, Humberto Delgado, Mário Soares, Freitas do Amaral, Edmundo Pedro, Pires Veloso, Hall Themido, Rui Mateus, Pedro Feytor Pinto, Miguel Urbano Rodrigues. Sem esquecer a magnífica trilogia O Mundo à Minha Procura, de Ruben A, que recomendo a todos quantos gostem de ler.

Cada um já está no seu lugar.

 

Hoje, talvez por estar de chuva, apetece-me ouvir em sessões contínuas a bela partitura de Bernardo Sassetti para Alice, filme de Marco Martins.

 

Até para a semana.

 

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Arrumar a biblioteca (XVI)

por Pedro Correia, em 26.09.13

 

Saint-Exupéry, Naipaul e Lampedusa

 

Dizia alguém que toda a literatura de excelência se resume a uma grande viagem. Desde a Odisseia, de Homero. Embora essa viagem possa ser feita à volta de um quarto. E pode até expandir-se para além do nosso planeta, como antecipou Verne. Ou em vez de ser no espaço, como nos ensinou Proust, pode ocorrer no tempo.

 

Os livros de viagens ocupam uma parte considerável da minha biblioteca. Desde logo, os guias e roteiros -- com os da American Express e da Lonely Planet em maior número. E obras que nos fazem amar uma cidade ainda antes de a conhecermos, de que é exemplo esse fabuloso livrinho de Ruy Castro intitulado Rio de Janeiro -- Carnaval no Fogo.

Como sempre gostei de mapas, antigos e modernos, tenho vários atlas. Conservo até o primeiro que me ofereceram, ainda em miúdo: o Grande Atlas Universal da Verbo.

Aliás o maior livro cá de casa é um atlas -- Comprehensive Atlas of the World, editado pelo Times, de Londres. Maior não pelo número de páginas, apenas 220, mas pela altura: 46 centímetros, o que me obriga a mantê-lo deitado. Posição cómoda para ele mas incómoda para quem gostaria de não o guardar num lugar à parte.

Logo a seguir são os álbuns de viagens, pela sua dimensão, a ocupar maior espaço, exigindo figurar nas prateleiras mais altas. Trago sempre álbuns de todos os países e cidades além-fronteiras por onde tenho passado. Porque as viagens bem sucedidas ampliam-se invariavelmente através dos livros.

Tenho também o hábito de trazer álbuns dos museus que visito no estrangeiro. O Prado, o Louvre, a National Gallery de Londres, o MoMA de Nova Iorque, o Musée d'Orsey, de Paris, o Kunsthistorisches Museum de Viena, o Museu Nacional de Estocolmo...

 

Mas as melhores viagens literárias ocorrem sempre nas páginas dos grandes autores. De avião, em Voo Nocturno, de Saint-Exupéry. De barco, em Tufão, de Conrad. De comboio, com Jack London, em Vagabundos Cruzando a Noite. À boleia, com Jack Kerouac, em Pela Estrada Fora. Ou até de balão, com Júlio Verne.

Verne foi talvez o autor com quem mais viajei. Pelo menos nos seguintes livros, que tenho já devidamente arrumados e catalogados:

- A Carteira do Repórter

- A Estrela do Sul

- A Ilha Misteriosa

- A Mulher do Capitão Branican

- A Volta ao Mundo em 80 Dias

- As Aventuras de Três Russos e Três Ingleses

- As Índias Negras

- Aventuras do Capitão Hateras

- Cinco Semanas em Balão

- Clovis Dardentor

- Da Terra à Lua

- Em Frente da Bandeira

- Miguel Strogoff

- O Bilhete de Lotaria nº 9672

- O Castelo dos Cárpatos

- O Farol do Cabo do Mundo

- O Náufrago do Cynthia

- O Tio Robinson

- O Vulcão de Ouro

- Os Filhos do Capitão Grant

- Os 500 Milhões da Begum

- Um Herói de 15 Anos

- Uma Cidade Flutuante

- Viagem ao Centro da Terra

- Vinte Mil Léguas Submarinas

 

 

Vou a Tânger com Paul Bowles (O Céu que nos Protege), a Amesterdão com John Irving (A Porta no Chão), a Lima com Vargas Llosa (Conversa n' A Catedral), a Barcelona com Vásquez Montalbán (Os Mares do Sul), a Cuba com Hemingway (O Velho e o Mar), a Dominica com Jean Rhys (Vasto Mar de Sargaços), ao Haiti com Greene (Os Comediantes), ao Congo com Naipaul (A Curva do Rio), à África do Sul com Coetzee (Desgraça), à Riviera francesa com Fitzgerald (Terna é a Noite), à Sicília com Lampedusa (O Leopardo), à floresta amazónica com Ferreira de Castro (A Selva), ao sul dos Estados Unidos com Harper Lee (Por Favor não Matem a Cotovia) e Carson McCullers (Coração, Solitário Caçador).

 

Atlas, roteiros de viagens, guias de cidades, álbuns de museus: de tudo isto também se faz uma biblioteca.

 

E agora viajo convosco musicalmente até ao Japão. Ao encontro do inimitável Ryuichi Sakamoto.

 

Sayonara. Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (XV)

por Pedro Correia, em 25.09.13

 

Merkel, Otelo e Salazar

 

Às vezes questiono-me sobre a ironia do destino. Que leva autores de orientações estéticas muito diferentes e quadrantes políticos muito diversos a permanecer lado a lado nas bibliotecas, irmanados na eternidade quando tudo os separou enquanto vivos.

Penso nisto enquanto confiro as lombadas dos livros de escritores portugueses. José Saramago e Ruben A, por exemplo. Tornaram-se vizinhos de prateleira na minha biblioteca onde figuram em lugar de destaque pelo simples motivo de possuir várias obras de ambos e gostar deles enquanto leitor, cada qual a seu modo.

Certamente se conheceram pessoalmente, numa altura em que o meio literário lisboeta era ainda mais pequeno do que é hoje. Eram da mesma geração, separados por ano e meio. Ruben, signo Gémeos, nascido a 26 de Maio de 1920; Saramago, signo Escorpião, nascido a 16 de Novembro de 1922.

Mas, embora ambos detestassem o regime salazarista, seguiram trilhos políticos diferentes. Isso tornou-se mais evidente após o 25 de Abril de 1974: Ruben era social-democrata, Saramago era comunista.

Ignoro se alguma vez tiveram uma polémica pública, mas é inegável que cultivavam estilos literários muito diferentes. Ruben era discípulo directo dos modernistas e foi claramente inspirado na escola surrealista, Saramago provinha da escola neo-realista e manteve-se de algum modo fiel a ela, adaptando-a ao seu estilo muito próprio, mesclado com influências do chamado "realismo mágico" latino-americano.

Personalidades nada confundíveis, mas ligadas afinal pelo longo abraço da literatura.

 

Continuando a observar as prateleiras, observo encontros ainda mais inesperados. Nos livros políticos escritos por autores portugueses, que acabo de reunir noutra estante, um ex-ministro de Salazar encontra-se quase ao lado do principal estratego militar da Revolução dos Cravos -- e ambos a centímetros de Mário Soares e do seu Portugal Amordaçado na histórica edição da Arcádia. Separados apenas, entre eles, por António José Saraiva e o seu Herculano e o Liberalismo em Portugal. De Soares separa-os António Barreto (Tempo de Mudança e Uma Década) e Vasco Pulido Valente (Esta Ditosa Pátria).

E agora reparo que este livro de Pulido Valente está desgarrado: devo juntá-lo às outras obras que tenho do autor (O Poder e o Povo, O País das Maravilhas, Portugal -- Ensaios de História e de Política, Retratos e Auto-Retratos e Um Herói Português).

Reparo também que devo juntar esta obra de Saraiva a outras que tenho dele, nomeadamente o Dicionário Crítico e Maio e a Crise da Civilização Burguesa.

Já os três volumes encadernados da sua História da Cultura em Portugal, que herdei do meu avô, permanecem em justificado lugar à parte.

 

Mantenho um apreço muito especial por estes dois livros escritos por tão irredutíveis adversários políticos. O sexto e último volume de Salazar, que me foi oferecido pelo biógrafo do antigo ditador, e Alvorada em Abril, uma obra muito detalhada e bem escrita sobre a operação que levou ao derrube do Estado Novo e as horas subsequentes ao 25 de Abril -- também oferecida pelo autor. Desde logo, pelo manifesto interesse histórico de ambas. No caso de Salazar trata-se do volume mais relevante pois deriva quase todo do testemunho directo do autor, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1961 e 1970, e revela episódios inéditos, como um Conselho de Ministros em Junho de 1968 no qual o então presidente do Conselho revelou claríssimos sinais de perturbação mental, repetindo tudo quanto dissera na reunião anterior. Mas sobretudo porque os dois exemplares estão autografados. No caso de Otelo, com uma data muito significativa: 25 de Abril de 1984, quando passava uma década exacta desde o derrube do regime de Marcelo Caetano.

 

Tenho algumas dezenas de livros autografados: são estes, compreensivelmente, aqueles de que mais gosto na minha biblioteca. Livros de escritores tão diversos e de épocas tão diferentes como Jorge Amado, Fernando Arrabal, José Saramago, Dinis Machado, Manuel Alegre, Fernando Namora, Couto Viana, Romeu Correia, Modesto Navarro, Manuel António Pina, Adolfo Simões Müller, Mário Castrim, Maria Ondina Braga, Baptista-Bastos, José Augusto Seabra, Clara Pinto Correia, Inês Pedrosa, João Aguiar, João Tordo.

Hei-de falar deste tema com mais algum pormenor, mas por agora troco as arrumações pela leitura dos períodicos, que nunca consegue estar em dia. Sobretudo das publicações estrangeiras, como a revista Veja. Que nesta última edição, em prosa assinada por Mario Sabino, ajuda a explicar o êxito político de Angela Merkel com uma frase clara, concisa e exacta: "No poder desde 2005, ela é difícil de marcar pela oposição, porque se desloca da direita para a esquerda, e vice-versa, sem nunca perder o centro."

 

Tudo isto ao som de Rodrigo Leão. Cinema: um "filme" que ouço sempre com agrado.

 

Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (XIV)

por Pedro Correia, em 24.09.13

 

Amália, Pessoa e Camões

 

Arrumada e distribuída por várias estantes a ficção universal, chega a vez dos autores portugueses. Sendo alguns deles também universais -- de Luís de Camões a José Saramago, passando por Pessoa.

 

Os autores mais representados na minha biblioteca vão figurar em lugar de realce. Os restantes seguirão para o "estacionamento em segunda fila", por ordem alfabética de apelido, como já fiz com os escritores estrangeiros.

Os Lusíadas, que consulto com frequência, permanecem à parte, na sala. Numa das estantes do corredor, alinho as obras de Eça. Perto de Borges e Shakespeare: o nosso melhor romancista de todos os tempos justifica lugar à parte.

Os outros ficam na divisão a que decidi chamar escritório. Com merecidos destaques em prosa e poesia, também em função da quantidade de livros que disponho de cada autor.

Sophia de Mello Breyner, poesia completa. E os seus sublimes Contos Exemplares -- que tenho também em duplicado, como acabo de descobrir. Ruy Belo, poesia completa. Alexandre O'Neill, poesia completa. E a excelente biografia do autor de Um Adeus Português escrita por Maria Antónia Oliveira (Dom Quixote, 2005). A obra inteira de Miguel Torga. O inevitável Pessoa. Saramago, quase todo. Vergílio Ferreira, quase todo. A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino. Barranco de Cegos, de Redol. Os Meninos de Ouro, de Agustina. Os Contos do Gin-Tonic, de Mário-Henrique Leiria.

(E onde pára Mau Tempo no Canal, de Nemésio, que não consigo encontrá-lo?)

 

Hoje, para condizer, só escuto música portuguesa. Incluindo este clássico da nossa diva Simone de Oliveira numa soberba recriação de Wanda Stuart:

 

 

E que mais, em matéria de livros?

Algum Camilo, menos do que gostaria (Amor de Perdição, Eusébio Macário, A Queda de um Anjo, Novelas do Minho, A Filha do Regicida). Os Poemas de Deus e do Diabo, de Régio. A antologia de Eugénio de Andrade editada pela Inova. A Poltrona e outras novelas, de Gedeão.

Régio, Eugénio, Gedeão: três pseudónimos literários. Um dia hei-de escrever sobre a importância dos pseudónimos na nossa literatura (há ainda o Júlio Dinis, o Torga, o Santareno, a Irene Lisboa, o Tomás Kim, o Mário Cláudio e vários outros, já sem falar dos heterónimos de Pessoa).

 

Escuto agora o magnífico Cantar de Emigração, de Adriano Correia de Oliveira: grande poema de Rosalía de Castro, grande melodia de José Niza, grande interpretação deste trovador cuja voz se apagou demasiado cedo. E logo o associo aos versos de Manuel Alegre, que tão bem cantou em temas como Canção Tão Simples. Precisamente quando ponho os livros do poeta de Praça da Canção na prateleira da frente. Bem acompanhado por José Rodrigues Miguéis e Ruben A, dois dos meus prosadores portugueses de eleição.

 

 

Seguem-se outros nomes: José Cardoso Pires, Jorge de Sena, Mário de Carvalho, David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Melo. Tenho um livro de poemas deste último autografado pelo autor: Há uma Rosa na Manhã Agreste.

E autores mais recentes: Pedro Paixão, Gonçalo M. Tavares, Clara Pinto Correia, Francisco José Viegas, Inês Pedrosa, José Luís Peixoto, Maria do Rosário Pedreira, Domingos Amaral, João Tordo, Mafalda Ivo Cruz, o meu amigo Luís Naves, Rui Zink (fica desde já a promessa de o incluir na minha série Grandes Contos).

Em lugar especial ficam também as fotobiografias, de que tanto gosto. José Cardoso Pires, por Inês Pedrosa. Miguel Torga, pela filha, Clara Rocha. Vergílio Ferreira, de Helder Godinho e Serafim Ferreira. O Mundo de Ruben A, de Liberto Cruz, José Brandão e Nicolau Andresen Leitão. O monumental álbum Jorge de Sena. A Voz e as Imagens, editado pela Universidade Nova de Lisboa.

E ainda livros sobre livros e sobre autores de livros. A Geração de 70, de João Gaspar Simões. Camões: Labirintos e Fascínios, de Vítor Manuel de Aguiar e Silva. Terraço Aberto, de David Mourão-Ferreira. Camões e Pessoa, Poetas da Utopia, de Jacinto do Prado Coelho. Dialécticas da Literatura e Fernando Pessoa e C& Heterónima, de Jorge de Sena.

 

David Mourão-Ferreira e Pedro Homem de Melo foram dois dos poetas que Amália mais e melhor cantou. Aqui ficam dois fados dela de que mais gosto. O primeiro com letra de Homem de Melo e música de José Marques do Amaral (melodia que ficou conhecida por 'Marcha do Amaral', como me informa um leitor na caixa de comentários). O segundo com versos de Mourão-Ferreira e música do insubstituível Alain Oulman -- um francês que será nosso para sempre.

 

Até amanhã.

 

    

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Arrumar a biblioteca (XIII)

por Pedro Correia, em 23.09.13

 

Beethoven, Brian Wilson e Chet Baker

 

Ainda há uns quantos caixotes por abrir. Trato disso. E saltam-me logo à vista mais uns livros. Títulos tão diversos como a eterna Ilha do Tesouro, de Stevenson, O Livro da Selva, de Kipling, e um grande ensaio intitulado Macau -- O Pequeníssimo Dragão, de Boaventura de Sousa Santos e Conceição Gomes (livro onde sou citado e que já havia procurado em vão) e o clássico Animal Farm, de Orwell, numa edição com o requinte a que me habituou a Folio Society.

 

Fui sócio da Folio durante uns anos: alguns dos melhores livros que tenho cá em casa chegaram-me por esta via, na sequência das encomendas que ia fazendo para Londres (era obrigatório, nessa época, um número mínimo de aquisições por ano). As edições são de qualidade muito superior às que geralmente encontramos no mercado, embora a preços correspondentes a esse acréscimo de qualidade.

Deixei de ser sócio por motivos de "ajustamento orçamental", como agora se diz, mas alguns dos meus livros de que continuo a gostar mais têm esta marca: The Quiet American, Dubliners, Rebecca, To Kill a Mockingbird, The Mutiny of H. M. S. Bounty, por exemplo. E dois volumes sobre mitologia grega. E cinco sobre a história da Idade Média. E uma excelente biografia de Beethoven.

 

A súbita aparição destes livros obriga-me a inventar novos espaços. Enquanto escuto Medicin Man, de Bobby McFerrin, com temas de cinco estrelas, como este.

Não me resta alternativa, portanto, senão expandir o "estacionamento em segunda fila" a que já tinha aludido antes. E que pode ser ilustrado com o exemplo da fotografia aqui em baixo:

 

 

Ouço agora um CD a que regresso sempre com imenso prazer: Brian Wilson, o disco com nome próprio que assinalou a estreia a solo do genial criador de Pet Sounds. Comprei-o logo no ano do lançamento, em 1988, e tem-me acompanhado mundo fora desde então. Com temas inesquecíveis, como Love and Mercy.

Serve-me de inspiração para a nova etapa desta empreitada a que meti ombros. Uma empreitada interactiva, devo dizer. Por sugestão de uma colega de blogue e de uma leitora, juntei A Louca da Casa, de Rosa Montero, à secção dos livros que falam de livros. Faz todo o sentido: esta obra inclassificável (ensaio? romance?) da excelente escritora espanhola é um dos melhores exemplos que conheço deste subgénero.

"O essencial é que todos esses romancistas, que julgaram em algum momento perder o paraíso, escrevem -- escrevemos -- para tentar recuperá-lo, para restituir aquilo que desapareceu, para lutar contra a decadência e o fim inexorável das coisas", sustenta Rosa Montero nestas páginas destinadas a apaixonar todos os amantes da literatura.

 

Uma síntese perfeita. Que merece banda sonora a condizer.

Aqui a deixo. Para escutar vezes sem conta -- noite fora, vida fora.

Se existe magia na música é precisamente aqui.

 

Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (XII)

por Pedro Correia, em 20.09.13

 

Savater, Tony Bennett e Bénard da Costa

 

Não sei se convosco costuma passar-se o mesmo. Mas comigo acontece. Há certos autores -- que passámos a conhecer por vezes nem nos lembramos onde nem como nem porquê -- que acabam a fazer parte do nosso património pessoal. É assim que os sentimos, é assim que acolhemos cada obra deles. Passam a ser "muito cá de casa", parafraseando a deliciosa expressão tão portuguesa, muito delicada e já muito antiga, que João Bénard da Costa de novo popularizou nas inesquecíveis crónicas que assinava nas décadas de 80 e 90 no semanário O Independente e que foram do melhor que li desde sempre na imprensa portuguesa (por falar nisto: onde param os livros dele, que tantas vezes li e reli, editados pela Assírio & Alvim? Não consigo encontrá-los...)

 

Um dos autores a que me refiro é o professor universitário, filósofo, pensador, romancista e polemista espanhol Fernando Savater. Comecei a lê-lo regularmente no El País, onde assina desde a década de 70 os mais estimulantes textos dados à estampa neste diário, e prolonguei a minha atenção de leitor do jornal para os livros. Que fui comprando um a um, quase sem dar por isso, à medida que apareciam e os encontrava.

Comecei pela recolha de crónicas jornalísticas (e aqui recordo novamente João Bénard), um género literário que devia ser mais cultivado pelas editoras portuguesas. As de Manuel António Pina, reunidas também na Assírio & Alvim, e as de Miguel Esteves Cardoso, com a chancela Porto Editora, são imperdíveis.

Agora que ponho os livros em ordem descubro que tenho dez de Savater. Pelo menos dez (nunca se sabe quando saltará mais algum de um caixote ainda por abrir).

São estes:

 

- A Infância Recuperada (Presença)

- O Conteúdo da Felicidade (Relógio d'Água)

- Livre Mente (Relógio d'Água)

- A Vida Eterna (Dom Quixote)

- O Meu Dicionário Filosófico (Dom Quixote)

- Os Dez Mandamentos no Século XXI (Dom Quixote)

- Ética para um Jovem (Dom Quixote)

- Sobre Viver (Teorema)

- Contra as Pátrias (Fim de Século)

- La Aventura de Pensar (Delbolsillo)

 

Gosto de todos estes livros perpassados de erudição numa linguagem quase coloquial nunca destituída de sentido de humor, uma das características que mais aprecio neste autor.

Mas a obra eleita dele, para mim, é A Infância Recuperada, fabulosa digressão pela literatura juvenil e pela chamada literatura popular, sem sombra de pose universitária. Savater confessa gostar de obras e de autores que levaram muita gente a amar o mundos dos livros à revelia dos cânones instituídos pelos putativos gurus do bom gosto.

E refiro isto para vos confessar que fui reunindo aos poucos um subgénero na minha biblioteca: o dos livros que falam sobre livros. É um pequeno mundo que não cessa de me fascinar.

Agora, que os agrupei, verifico que são mais do que imaginava. Eis alguns deles (em lista ainda provisória):

 

- Os Livros da Minha Vida, de Henry Miller (Antígona)

- Como um Romance, de Daniel Pennac (Asa)

- A Angústia da Influência, de Harold Bloom (Cotovia)

- Como Ler e Porquê, de Harold Bloom (Caminho)

- A Cultura Inculta, de Allan Bloom (Europa-América)

- Intelectuais, de Paul Johnson (Guerra & Paz)

- Dez Livros que Estragaram o Mundo, de Benjamin Wiker (Alêtheia)

- História Abreviada da Literatura Portátil, de Enrique Vila-Matas (Assírio & Alvim)

- Os Livros que Lemos, de Lisa Adams e John Heath (Estrela Polar)

- As Lições dos Mestres, de George Steiner (Gradiva)

- Paixão Intacta, de George Steiner (Relógio d'Água)

- A Biblioteca Privada de Hitler, de Timothy W. Ryback (Civilização)

- Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral (Guerra & Paz)

- A Consciência e o Romance, de David Lodge (Asa)

- Porquê Ler os Clássicos, de Italo Calvino (Teorema)

 

 

Acabo de comprar mais um, já reunido aos restantes: o novíssimo Como Ler um Escritor, de John Freeman, director da revista literária Granta. Com etiqueta Tinta da China.

 

Gosto de ler sobre livros. E estou a gostar de arrumar a biblioteca. Hoje, alternadamente, ao som mais trepidante de Chucho Valdés em Bele Bele en La Habana e mais relaxante de Bill Charlap em Stardust.

Deixo-vos aqui uma faixa deste disco. Com Charlap ao piano e Tony Bennett superlativo. Como sempre.

 

Até segunda-feira.

 

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Arrumar a biblioteca (XI)

por Pedro Correia, em 19.09.13

 

Chico Buarque, Zola e D. Quixote

 

Arrumada enfim toda a ficção estrangeira. Ao som de um disco fabuloso, que abre da melhor maneira: Duetos, de Chico Buarque. Com gente tão diversa como Ana Belén, Dionne Worwick e Nana Caymmi. A faixa de abertura -- versão de Let's do it, Let's Fall in Love, de Cole Porter -- é uma belíssima homenagem à plasticidade da língua portuguesa, que atinge sempre níveis superlativos na pena do criador de Construção e Tanto Mar.

Escutem o dueto entre Chico e Elza Soares nesta tema, intitulado Façamos (Vamos Amar).

 

Excepto nos casos das colecções, como já referi aqui e aqui, espalho os livros de ficção não-portuguesa pelas prateleiras por ordem alfabética dos autores. De Allende (Isabel) a Zola (Émile). Mas o espaço não chega para todos, é escusado pensar nisso. Opto pela solução mais simples: disponho os volumes em duas filas, como é hábito os carros estacionarem nas ruas e avenidas de Lisboa, mesmo neste período de campanha eleitoral. Com uma diferença substancial: os livros "estacionados" em segunda fila ocupam espaço mas não se vêem. Ao contrário dos carros, cada vez mais visíveis. Nenhum autarca consegue acabar com este flagelo.

A "montra" principal dos livros, na estante que ocupa mais espaço, é reservada aos que têm lombadas mais altas. Estão lá, entre vários outros (e da esquerda para a direita, seguindo sempre a ordem alfabética dos apelidos), O Jardim dos Finzi-Contini (Giorgio Bassani), Agosto (Rubem Fonseca), O Bom Soldado (Ford Madox Ford), O Meu Século (Günter Grass), A Porta no Chão (John Irving), Cisnes Selvagens (Jung Chang), Nas Nuvens (Walter Kirn), Mystic River (Dennis Lehane), O Meu Nome é Vermelho (Orhan Pamuk), A Marcha de Raderzky (Joseph Roth) e Na América (Susan Sontag).

Chico e Pablo Milanés cantam Yolanda enquanto eu me interrogo pela enésima vez por que motivo as editoras não imprimirão todas as lombadas com as letras viradas para o mesmo lado.

 

Provavelmente vocês também já pensaram nisto. Passamos o tempo a virar o pescoço de um lado para o outro para conseguir ler os títulos porque não existe critério uniforme. Por vezes não há sequer critério uniforme nos livros pertencentes à mesma colecção, o que é completamente absurdo. Repare-se só na fotografia que aqui deixo, com vários títulos pertencentes à Colecção Ficção Universal, da editora D. Quixote:

 

 

Títulos como Um Espião Perfeito e A Casa da Rússia, de John Le Carré, conseguem ler-se se inclinarmos a cabeça para a esquerda, mas O Nosso Jogo e A Gente de Smiley, do mesmíssimo autor e da mesmíssima chancela editorial, já só se lêem com a cabeça inclinada para a direita.

Acontece isto também, por exemplo, com William Faulkner (Absalão, Absalão -- virar à esquerda; O Som e a Fúria, virar à direita) ou Mario Vargas Llosa (História de Mayta, esquerda; A Guerra do Fim do Mundo, direita).

Ficamos de olhos trocados e com dor no pescoço. Um dia hei-de perguntar a um editor amigo por que motivo não se põe fim a este disparate. 

 

Entretanto mato saudades da voz de Nara Leão, também em dueto com Chico Buarque. Inconfundível.

"Consta nos astros, nos signos, nos búzios / Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás / Serás o meu amor, serás a minha paz. // Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas / Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais / Serás o meu amor, serás a minha paz."

 

Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (X)

por Pedro Correia, em 18.09.13

Júlio Verne, Yourcenar e Colecção Vampiro

 

Começa finalmente a tomar forma a minha nova biblioteca -- arrumada por temas e autores. Mas antes disso, como ontem mencionava aqui, fui espalhando as diversas colecções literárias por várias prateleiras.

Além das já referidas, são estas as principais:

 

Colecção Dois Mundos. Foi durante três décadas a mais destacada colecção de ficcionistas mundiais em Portugal, com a chancela da editora Livros do Brasil. Que proporcionou o contacto dos leitores portugueses com obras como Por Quem os Sinos Dobram (Ernest Hemingway), A Condição Humana (André Malraux), Rua Principal (Sinclair Lewis), Debaixo do Vulcão (Malcolm Lowry), Os Buddenbrook (Thomas Mann), Servidão Humana (Somerset Maugham) e O Homem sem Qualidades (Robert Musil). Tenho 49 (contagem provisória).

 

Colecção Miniatura. Também dos Livros do Brasil, foi precursora dos "livros de bolso" entre nós e deixou igualmente um excelente rasto na divulgação de grandes autores. Com títulos tão marcantes como O Velho e o Mar (Hemingway), O Terceiro Homem (Graham Greene), O Exílio e o Reino (Albert Camus), Bairro Negro (Georges Simenon), Na Minha Morte (William Faulkner), Horizonte Perdido (James Hilton) e O Céu é o Meu Destino (Thornton Wilder). Já reuni 31, mas tenho a certeza de que ainda me aparecerão mais.

 

Colecção Livros de Bolso Europa-América. Muito popular quando foi lançada, no início dos anos 70, foi-se prolongando décadas adiante, sempre com um público fiel. Mesclando autores nacionais e estrangeiros. Com títulos como Esteiros (Soeiro Pereira Gomes), Bel-Ami (Guy de Maupassant), O Médico e o Monstro (Robert Louis Stevenson), O Zero e o Infinito (Arthur Koestler), Lord Jim (Joseph Conrad), O Lobo do Mar (Jack London), Contos (Eça de Queirós), A Honra Perdida de Katharina Blüm (Heinrich Böll) e Coração, Solitário Caçador (Carson McCullers). Contei, para já, 37.

 

Colecção Vampiro. A inconfundível série que espalhou o crime como nenhuma outra nas estantes portuguesas, decana actual das colecções literárias nacionais, lançada em 1947 por Augusto de Souza-Pinto, administrador da editora Livros do Brasil. Com títulos de Agatha Christie, Georges Simenon, Rex Stout, Ellery Queen, S. S. Van Dine, Mickey Spillane, Erle Stanley Gardner, John Dickson Carr, Peter Cheyney, Leslie Charteris e tantos outros. A contagem vai em 87, mas ainda tenho uns quantos espalhados por aí.

 

São demasiadas colecções para mencioná-las todas. A dos Livros RTP. A Colecção Prémio Nobel, lançada há uns anos com manifesto sucesso pelo Diário de Notícias. A Colecção Clube do Crime, da Europa-América. A dos Clássicos do Romance Contemporâneo, da Ulisseia (uma das minhas preferidas, até por dela constar as Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar. A Colecção Ficções, da Relógio d'Água (O Grande Gatsby, Orlando, Pela Estrada Fora, O Retrato de Dorian Gray). A Colecção Unibolso. A Biblioteca Juvenil Dom Quixote (As Aventuras de Robin dos Bosques, As Aventuras de Tom Sawyer, O Cavalo Preto, O Mundo Perdido). A excelente Biblioteca Sábado (O Carteiro de Pablo Neruda, Os Filhos da Meia-Noite, Mancha Humana, A Casa dos Espíritos, L. A. Confidencial, Vasto Mar de Sargaços).

E há, claro, as obras completas dos mais variados autores. A integral de Jorge Luis Borges -- edição imperdível da Teorema. Todo o Torga, no Círculo de Leitores. Agatha Christie do princípio ao fim, com a chancela da Asa. Os empolgantes romances de Júlio Verne, com edição Bertrand, que sempre associarei aos meus anos de infância e adolescência. O imprescindível Nelson Rodrigues, da brasileira Companhia das Letras.

 

Descanso dos livros procurando notícias do mundo da comunicação, nada boas para os canais generalistas portugueses, que se encontram em queda livre, com fugas constantes dos telespectadores para os canais por cabo.

"SIC e TVI vivem a pior fase do século XXI", informa-me a revista Correio da Manhã TV. Em Agosto, o canal de Carnaxide desceu a barreira dos 20 pontos percentuais de audiência média diária (registando 19,3%), enquanto o canal da Media Canal consegue pouco melhor, ficando-se pelos 22,3%.

São números que condizem com os meus hábitos enquanto consumidor de televisão: cada vez vejo menos os canais generalistas. E as pessoas que conheço fazem o mesmo.

Números que deviam acender todos os sinais de alarme junto dos programadores de televisão, aparentemente incapazes de alcançar novos públicos. Mas duvido que alterem a actual rota suicida.

 

Fim das notícias por hoje. Nada como terminar a tarefa diária ao som de uma das músicas da minha vida: a Cavatina, que serve de banda sonora ao inesquecível O Caçador. Aqui interpretada por Christopher Parkening, mestre da guitarra.

 

Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (IX)

por Pedro Correia, em 17.09.13

 

Henry Miller, Oscar Peterson e o Ipiranga

 

Não vale a pena inventar na hora da distribuição dos livros pelas estantes. Separados os autores portugueses dos demais, e afastados os títulos pertencentes às chamadas artes literárias da restante literatura, há no entanto zonas de confluência que merecem prioridade.

São as colecções -- numeradas, em diversos casos -- que aglutinam os mais diversos nomes, géneros e nacionalidades.

Não faz o menor sentido separar estes títulos. Começo portanto por reuni-los: cabe-lhes a primazia na minha biblioteca.

Que colecções são estas?

Começo por aquelas que tenho em maior número. Desde logo a Mil Folhas, lançada em 2003/2004 pelo jornal Público. Cem títulos no total. Falta-me apenas um, o nº 98: O Sorriso aos Pés da Escada/Moloch, de Henry Miller. Cheguei a deslocar-me há uns anos à loja do jornal, então ainda nas Picoas, para adquirir este exemplar mas responderam-me que estava esgotado. Não perdi a esperança de o adquirir, como é evidente. O encanto das colecções é permanecerem incompletas: perdem grande parte do interesse no momento em que as completamos.

 

Segue-se a colecção Ficção Universal, da D. Quixote, que divulgou muitos autores de nomeada (Milan Kundera, Salman Rushdie, Naipaul, Nabokov, Carlos Fuentes, Marguerite Yourcenar e um imenso etc.). É a segunda a ocupar-me mais espaço, embora esteja muito longe de poder completá-la.

Ao contrário do que sucede com a do Público, a da D. Quixote deixou de ter numeração a partir de certa altura (a última que tenho com número é Viver para Contá-la, de García Márquez, o 309 da série; mas A Gente de Smiley, de Le Carré, e A Ignorância, de Kundera, já não ostentavam números nas lombadas).

Disponho, portanto, todos os volumes desta colecção por ordem alfabética dos apelidos dos autores, como sucede em muitas livrarias -- do A de Jorge Amado (Tereza Batista Cansada de Guerra) ao Z de Carlos Ruiz Zafón (O Jogo do Anjo).

Fica assim.

 

Estas são as colecções principais.

Mas há várias outras.

Falarei delas nos próximos dias, não hoje. A Tereza Batista cansou-se da guerra e eu cansei-me da biblioteca por agora. Vou ler a mais recente edição da revista Veja, há muito uma das minhas publicações preferidas.

Começo, como de costume, pela coluna da última página quando é assinada por Roberto Pompeu de Toledo. Que, a propósito da celebração de mais um 7 de Setembro no Brasil, decidiu seguir o curso do Ipiranga a partir da nascente, no Jardim Botânico de São Paulo.

O resultado é surpreendente.

E desta surpresa resulta mais uma excelente crónica. Nada a ver com o mitológico grito do infante D. Pedro, futuro imperador, nem com o primeiro verso do hino nacional brasileiro.

 

Ouço música enquanto leio. Não hinos nem marchas militares, mas a fabulosa dupla formada pelo piano de Oscar Peterson e pelo saxofone tenor de Ben Webster. Em When Your Lover Has Gone, segunda faixa do disco que os reuniu, gravada em Novembro de 1959. Ben Webster Meets Oscar Peterson.

O encontro de dois gigantes.

 

Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (VIII)

por Pedro Correia, em 16.09.13

 

Dylan, Maigret e Vital Moreira

 

Nesta fase, procuro livros um pouco por toda a casa.

E a verdade é que os tenho encontrado nos mais diversos recantos: onze num armário da cozinha, 21 num velho divã, 16 numa gaveta, 49 no fundo de um guarda-fatos.

Ali a Cartuxa de Parma; acolá, Orgulho e Preconceito; adiante, Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (um livro que tanto procurei); na tal gaveta, entre outros, a Autobiografia de Norberto Bobbio e a História dos Estados Unidos desde 1865. E, claro, lá vêm à tona títulos tão diversos como Responsabilidade e Juízo, de Hannah Arendt, A Expansão Quatrocentista Portuguesa, de Vitorino Magalhães Godinho, e a Pena Capital, de Mário Cesariny.

Entre os que estavam entrincheirados na cozinha incluíam-se o Livro de Bem Comer, de José Quitério -- oferta, em dia de aniversário, de um grande amigo de Macau --, e As Boas Receitas de Simenon e Maigret. Estes permanecerão na cozinha, como é evidente. Tal como a sala continuará a dar guarida à Bíblia, a Os Lusíadas, a um exemplar encadernado da Constituição da República Portuguesa anotada e comentada por Vital Moreira e Gomes Canotilho, e ao vetusto Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, grande hoje em dia só no espaço que ocupa.

 

Descubro mais livros repetidos. Luz de Agosto, de William Faulkner, e O Poder e a Glória, de Graham Greene, por exemplo. Mas este último sei porque o tenho a dobrar: o meu velho exemplar da Colecção Dois Mundos estava tão usado e tão gasto -- das leituras, das mudanças, das viagens -- que nem hesitei ao ver num escaparate a mesma obra, da mesma colecção, mas numa impressão nova.

Reparo nas datas que anotei no final: 3 de Abril de 1983 e 30 de Agosto de 2004, no primeiro; 13 de Julho de 2012, no segundo. Três décadas, três leituras do romance, três olhares necessariamente diferentes. Porque nunca lemos o mesmo livro da mesma maneira: a idade, o saber acumulado, as ilusões perdidas e as mais diversas circunstâncias alteram sempre a nossa visão de leitores e a nossa capacidade de valorizar o que ficou escrito.

Nestes casos não consigo desfazer-me do exemplar mais antigo devido aos sublinhados e às anotações que ali deixei. Sublinhados e anotações irrepetíveis.

Sim, porque eu tenho a mania de sublinhar livros. Hei-de falar disso noutro dia, com mais vagar.

 

Todos os discos servem para ir escutando enquanto se faz uma arrumação geral de livros?

Nem por sombras. Avanço com o primeiro exemplo que me vem à cabeça: fazer isto ao som de Bob Dylan dá pouco jeito. Porque Dylan serve para desarrumar, não é uma figura que inspire arrumações. Apesar de um dos livros que aguardam arrumação ser precisamente do inconfundível autor de Blowin' in the Wind.

É o primeiro volume das memórias de Dylan, intitulado Chronicles. Um paperback editado pela Simon & Schuster que em 2004 foi eleito um dos livros do ano por publicações tão diversas como o New York Times, o Washington Post, a Economist e a Rolling Stone, além dos jornais britânicos Guardian e Daily Telegraph.

Abro o volume ao acaso, deparo com o início do terceiro capítulo, intitulado "New Morning": "I had just returned to Woodstock from the Midwest from my father's funeral."

Dylan não sabe só agarrar o ouvinte: sabe também agarrar o leitor. 

 

Mas para arrumar os livros prefiro outro som. Este que agora escuto: a gravação integral da música de Heitor Villa-Lobos para guitarra, com Turíbio Santos como solista.

Deixo-vos um excerto deste fabuloso disco. Dylan pode esperar.

 

Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (VII)

por Pedro Correia, em 13.09.13

 

Kafka, Nixon e Burt Bacharach

 

De ontem para hoje isto alterou-se muito. E a minha estupefacção aumenta.

Porquê?

Porque encontro cada vez mais duplicações nos livros que comecei a distribuir pelas estantes. A um ponto que nunca imaginei.

Vou enumerar algumas das obras que tenho repetidas (a lista, acentuo, está longe de ser exaustiva):

- As Aventuras de Tom Sawyer (Mark Twain)

- Mar Morto (Jorge Amado)

- As Neves do Kilimanjaro (Ernest Hemingway)

- A Peste (Albert Camus)

- O Nome da Rosa (Umberto Eco)

- A Náusea (Jean-Paul Sartre)

- O Som e a Fúria (William Faulkner)

- Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago)

- Morte em Veneza (Thomas Mann)

- As Vinhas da Ira (John Steinbeck)

- O Estrangeiro (Camus)

- O Amante de Lady Chatterley (D. H. Lawrence)

- Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)

- Ficções (Jorge Luis Borges)

- Contos de Natal (Charles Dickens)

- As Torrentes da Primavera (Hemingway)

- O Ano da Morte de Ricardo Reis (Saramago)

- Lolita (Vladimir Nabokov)

- Crime e Castigo (Fédor Dostoievski)

- O Túnel (Ernesto Sabato)

- Um Espião Perfeito (John Le Carré)

- Pequenas Infâmias (Carmen Posadas)

- No Coração das Trevas (Joseph Conrad)

- A Terceira Rosa (Manuel Alegre)

- O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde)

- Pela Estrada Fora (Jack Kerouac)

- Barranco de Cegos (Alves Redol)

- O Americano Tranquilo (Graham Greene)

- Por Favor Não Matem a Cotovia (Harper Lee)

 

Tanto livro. Enquanto ouço Chico Buarque cantando Tanto Mar. Há pouco, Caetano Veloso interpretava Salva Vida com a irmã (do álbum Uns, de 1983). Daqui a pouco estarei a escutar outro CD que reservei para me dar música nesta empreitada: The Look of Love - The Burt Bacharach Collection -- 50 faixas, grande parte delas a justificar nota máxima.

 

 

Em certos casos -- não me perguntem porquê pois sou incapaz de responder -- tenho não dois mas três exemplares da mesma obra, sempre de edições diferentes.

É o que sucede, entre os autores estrangeiros, com 1984 (de George Orwell), O Processo (Franz Kafka), O Velho e o Mar (Ernest Hemingway), O Grande Gatsby (Scott Fitzgerald), Gente de Dublin (James Joyce) e Boneca de Luxo (de Truman Capote; neste caso a mais antiga das edições portuguesas, anterior ao filme de Blake Edwards, intitula-se Ao Começo do Dia, tudo muito diferente do original Breakfast at Tiffany's).

Entre os portugueses, encontro três cópias de O Senhor Ventura (de Miguel Torga) e Húmus (Raul Brandão). Tratando-se também, em qualquer dos casos, de edições diferentes. Um dos exemplares de Húmus, que herdei do avô paterno, é primeira edição -- certamente um dos volumes mais valiosos que tenho cá por casa.

 

O que fazer a estas obras em duplicado e triplicado?

 

Escuto agora uma das minhas canções favoritas deste álbum homenagem a Bacharach -- álbum também duplo, para condizer com os livros. I Say a Little Prayer, imortalizada por Aretha Franklin, a diva do soul.

E troco o escritório pela sala. Para rever uma das mais extraordinárias entrevistas televisivas de todos os tempos: a que David Frost fez em 1977 ao ex-presidente norte-americano Richard Nixon. A SIC Notícias anda a exibi-la, demonstrando pela enésima ver que um operador televisivo privado pode fazer verdadeiro serviço público.

Frost entrevista um derrotado. Nixon ocupou o posto máximo a que um político pode aspirar no planeta: teve tudo ao seu dispor e viu tudo desfazer-se à sua volta, por culpa própria, passando à História como o primeiro chefe da Casa Branca forçado a demitir-se.

Retirado na sua mansão de San Clemente, este Nixon que emerge de sombras kafkianas, na sua mansão de San Clemente, é um homem profundamente amargurado. Tem dinheiro, tem o tempo todo ao seu dispor, joga golfe e viaja para onde quer, mas garante ao entrevistador que só sonha com uma quietude destas quem não sabe realmente o que é a vida. "O que dá sentido à vida são os objectivos, é haver uma meta, uma batalha, uma luta, mesmo que não a ganhemos."

Um excepcional trabalho jornalístico que devia ser matéria obrigatória em todos os cursos de formação de profissionais da comunicação social.

 

E deixo-vos com um dos temas de Burt Bacharach que ouço sempre como se fosse a primeira vez. Tema que integrou a banda sonora de um inesquecível western. Um filme que termina com um dos maiores saltos no abismo de que há memória no cinema -- algo semelhante àquele que selou a fulgurante e malograda carreira de Nixon.

Até segunda-feira.

 

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Arrumar a biblioteca (VI)

por Pedro Correia, em 12.09.13

 

Ripley, Obama e Cole Porter

 

Já estava à espera disto.

À medida que os livros surgem à superfície, vou encontrando vários títulos repetidos. Esta é uma consequência directa de não manter a biblioteca organizada: a partir de certa altura, vai-se comprando sem a noção exacta daquilo que já se tem.

 

Só isto justifica que depare agora com diversos romances e novelas em dose dupla. Desde logo, O Principezinho, de Saint-Exupéry. Mas também Teresa Desqueyroux, de François Mauriac. E Os Nomes, de Don DeLillo. E O Outono em Pequim, de Boris Vian. E Maigret e o Negociante de Vinhos, de Simenon. E O Honorável Espião, de John Le Carré.

É maior ainda a minha surpresa ao encontrar dois exemplares da obra-prima de Patricia Highsmith: O Talentoso Mr. Ripley. A mesma edição, com duas capas diferentes, da Europa-América -- uma anterior ao filme homónimo do malogrado Anthony Minghella, com Matt Damon, outra posterior -- e ambas pavorosas. A surpresa deve-se ao facto de ter comprado o segundo exemplar já depois de ter lido duas vezes este romance, conforme comprovo vendo as anotações que fiz no volume mais antigo: 27 de Agosto de 1993 e 26 de Fevereiro de 2000.

Esta é outra das minhas manias: anotar desde sempre a data -- e por vezes o local -- em que termino a leitura de cada obra. Todos temos as nossas excentricidades relacionadas com livros. Eu tenho várias. Falarei de outras a seu tempo.

 

É frequente isto acontecer-me com obras literárias, mas seria impossível suceder com discos. Tenho centenas, nem sei bem quantos, mas jamais esqueço um só deles mesmo quando estou anos sem o tocar. Um dos que já escutei mais vezes -- arriscaria até elegê-lo campeão das audições cá em casa -- é The Cole Porter Songbook, o duplo disco que uma Ella Fitzgerald em estado de graça gravou em Fevereiro e Março de 1956, nos estúdios da Capitol, em Los Angeles. Assim nasceu um tesouro da música de todos os tempos -- mil vezes imitado, mil vezes saído vitorioso de todas as comparações que alguém possa fazer com algum trabalho do mesmo género, de que foi ilustre precursor.

Sei todas estas canções de cor -- You do Something to Me, You're the Top, So in Love, I've got you under my skin.  Haverá melhor banda sonora para esta tarefa de arrumação e catalogação de livros que pus em marcha?

 

É no entanto já ao som dos Creedence Clearwater Revival -- Susie Q, I put a spell on you, Proud Mary, Bad Moon Rising, Lodi -- que decido enfim não autonomizar os autores brasileiros e espanhóis nas prateleiras, como ontem cheguei a equacionar, acabando afinal por englobá-los no vasto lote dos autores de expressão universal.

Só os portugueses ficam à parte.

Ao fazer isto, sinto-me quase um editor a preparar o alinhamento de um telediário. Mas ao contrário, porque na minha biblioteca a prosa estrangeira suplanta largamente a portuguesa. Já o Telejornal permaneceu ontem quase alheado das chamadas "notícias do mundo", empurradas para o minuto 53 do principal serviço informativo do canal público: foi só então que apareceu o Presidente Barack Obama, Nobel da Paz, falando sobre cenários de guerra na Síria.

Os canais concorrentes não fizeram o noticiário internacional esperar tanto tempo. A Síria foi também a primeira notícia do mundo a ir para o ar no Jornal da Noite da SIC, quando iam decorridos apenas 19 minutos. Enquanto o Jornal das 8, da TVI, aguardou exactamente meia hora para espreitar o que se passa para lá de Vigo e Badajoz.

Este é um dos maiores defeitos do jornalismo português. Continua sem transpor fronteiras. Num planeta em que, graças aos prodígios da tecnologia, as distâncias são cada vez mais curtas.

 

Nos livros, viajamos sempre. E na música também. Podemos ir agora, por exemplo, a Cabo Verde. Escutar Lua, na fabulosa interpretação de Mayra Andrade e Princezito.

"Luâ fika ku mi más um kusinha".

Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (V)

por Pedro Correia, em 11.09.13

  

Norman Mailer, Brian Wilson e Maria de Lurdes Pintasilgo

 

Falava eu ontem aqui de capas de livros. Dando exemplos positivos, como prefiro por natureza e vocação. Mas vale a pena mencionar também casos negativos, mesmo catastróficos, de capas que desvirtuam os livros e são feitas a pensar em tudo menos nos leitores com maior apetência, à partida, para adquirir essas obras.

Certos autores são particularmente massacrados. Reparem nestes dois casos que aqui destaco. De editoras diferentes, mas fustigando o mesmo escritor. Norman Mailer foi brindado com uma execrável capa no primeiro volume da edição portuguesa da sua obra-prima Os Nus e os Mortos, com a chancela das Publicações Europa-América. Mas não recebeu melhor tratamento por parte do Círculo de Leitores, em Os Duros não Dançam. Num caso, letras garrafais e um desenho tosco, nada adequado à letra nem ao espírito da obra; noutro caso, um fotograma de má qualidade do filme, com Isabella Rossellini e Ryan O'Neal, num grafismo rudimentar.

Não cesso de me espantar com este péssimo tratamento editorial dispensado a autores conceituados, com largos milhares de leitores. Costumo dizer que dá o mesmo trabalho fazer mal e fazer bem, mas é muito mais recompensador fazer bem. Mas para fazer bem, valha a verdade, é preciso saber. E alguns não sabem.

É no entanto caso para dizer: se não sabem, aprendam. Vejam, leiam, informem-se, comparem. Estudem as nossas melhores tradições nesta matéria. Ou, pelo menos, atentem em bons exemplos estrangeiros. Deixo aqui duas capas, muito diferentes, em que podem inspirar-se: The First Forty-Nine Stories, de Ernest Hemingway (Arrow Books), e The First World War, de A. J. P. Taylor (Penguin Books). São ambas competentes sem precisarem de ser extraordinárias.

Enquanto escrevo, escuto aquele que considero o melhor disco de música popular anglo-americana de todos os tempos: Pet Sounds, dos Beach Boys. "Wouldn't it be nice if we could wake up / In the morning when the day is new".

 

 

Entro na fase da ordenação dos livros nas prateleiras. Qual o critério a adoptar?

A primeira separação de águas ocorre por nacionalidades. Autores portugueses para um lado, autores estrangeiros para outro.

Os portugueses serão cerca de um terço do total, embora esta percentagem esteja substancialmente reduzida no campo da literatura de ficção. Mais fáceis de arrumar, portanto.

Concentro-me para já nos autores estrangeiros. E volto a traçar nova linha de fronteira: literatura (romance, novela, conto, crónica, poesia, teatro) para um lado, tudo o resto (ensaio, história, biografia, memórias, etc) para outro.

O grosso da coluna é composto por ficção. Nova dúvida: vale a pena estabelecer divisões por idiomas ou nacionalidades?

I know there's an answer, canta Brian Wilson.

 

Dou um exemplo. De autores brasileiros. Tenho obras de figuras tão diversas como Arnaldo Jabor, Autran Dourado, Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque, Clarice Lispector, Erico Veríssimo, Fernando Sabino, Graciliano Ramos, Jorge Amado Josué Montello, Laurentino Gomes, Luís Fernando Veríssimo, Lydia Fagundes Telles, Machado de Assis, Marçal Aquino, Millôr Fernandes, Nélida Piñon, Nelson Motta, Nelson Rodrigues, Patrícia Melo, Raduan Nassar, Rubem Braga, Rubem Fonseca, Ruy Castro e Vinicius de Moraes.

Outro exemplo: autores espanhóis. Vejo por aqui, amontoados entre os restantes, livros de Antonio Muñoz Molina, Benito Pérez Galdós, Camilo José Cela, Carmen Posadas, Enrique Vila-Matas, Federico García Lorca, Fernando Savater, Francisco Umbral, Javier Marías, Juan José Millás, Juan Ramón Jiménez, Manuel Vásquez Montalbán, Manuel Vicent, Maruja Torres, Pérez-Reverte, Rosa Montero e Torrente Ballester. Já para não falar da nossa Rosalía de Castro, alma poética da Galiza.

Separo-os?

Mas, se o fizer, onde incluirei os autores latino-americanos de língua castelhana? Junto aos brasileiros ou colados aos espanhóis? E para onde irá um autor como Vargas Llosa, que tem a dupla nacionalidade (peruana e espanhola)?

Isto das listas dá muito trabalho. E por vezes, se não for tudo bem pensado, dá asneira. Será possível que Maria de Lurdes Pintasilgo -- primeira e até hoje única mulher a chefiar um Governo em Portugal -- não figure na lista elaborada pelo Expresso dos 106 portugueses que mais se destacaram, dos nascidos entre 1922 e 1972, como leio aqui?

 

É o momento de perguntar a vossa opinião. E de ouvir For the Stars, disco que reuniu dois nomes de origens musicais muito diferentes: Anne Sofie Von Otter e Elvis Costello. Nunca me canso de o escutar. Vou partilhar uma das faixas convosco.

 

Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (IV)

por Pedro Correia, em 10.09.13

Billie Holiday, Alexandre O'Neill e Fernando Seara

 

O nosso João Campos costuma chamar a atenção para a perda de qualidade das capas dos livros que vêm sendo editados em Portugal. Está cheio de razão. Lembro-me dos tempos em que as principais editoras confiavam a grandes artistas plásticos a autoria das capas. Almada Negreiros, Bernardo Marques, Maria Keil, Cândido Costa Pinto, Lima de Freitas, Sebastião Rodrigues, Infante do Carmo, Armando Alves, Luís Filipe de Abreu e tantos outros conceberam capas que fizeram história no mercado editorial português.

Artes e letras conjugavam-se de forma perfeita em benefício do leitor.

Esses dias parecem já muito remotos. Quase tão remotos como a voz magoada e dolorida de Billie Holiday, acompanhada pelo fabuloso saxofone de Lester Young em All of Me -- um dos momentos mais marcantes da história da música do século XX. Fixei a data da gravação: 21 de Março de 1941, primeiro dia de Primavera em Nova Iorque. Não por acaso, Frank Sinatra considerou a intérprete de Lady in Satin "a maior influência vocal na música popular norte-americana dos últimos 20 anos". Palavras de 1958.

Figuras trágicas, ela e ele. Morreram estupidamente cedo, com quatro meses de intervalo, em 1959. Lester partiu primeiro, a 15 de Março, com 49 anos; ela foi ter com ele a 17 de Julho, tinha apenas 44 anos.

 

A capa do CD Billie Holiday/Lester Young é banal: uma fotografia dela, ligeiramente desfocada. O mesmo não posso dizer das capas de alguns livros que tenho à minha frente: o João certamente gostará tanto delas como eu. Na parte que me toca, por coincidência ou talvez não, existe uma correspondência directa entre a admiração pelas capas e a devoção pelas obras.

Que livros são?

A Paixão de Martin Eden, de Jack London (editora Civilização). Terna é a Noite, de Scott Fitzgerald (editora Relógio d'Água). O Céu que nos Protege, de Paul Bowles (editora Assírio & Alvim). Fiesta, de Ernest Hemingway (editora Ulisseia). Com excelentes capas assinadas respectivamente por João Aguiar, Fernando Mateus e Luiz Duran. Ignoro apenas quem concebeu a do grande romance de Bowles: falta a indicação na ficha técnica, algo que me parece imperdoável numa editora como a Assírio & Alvim.

 

Ficamos também sem saber, segundo leio na edição de hoje do i, o montante dos cachets televisivos dos dois principais candidatos à corrida autárquica em Lisboa. "Costa e Seara não dizem quanto ganham como comentadores", titula este jornal na primeira página. Transparência sim, ma non troppo. Até porque ambos poderão receber bem mais por aparecerem na TV do que por exercerem funções políticas.

Tudo isto enquanto a Comissão Nacional de Eleições persiste em interferir nos critérios editoriais das empresas televisivas. Com um resultado péssimo já à vista: ao pretender que tudo seja transmitido, objectivo que não poderia ser alcançado nem que as televisões multiplicassem por dez os seus quadros redactoriais, a inútil régua e o inútil esquadro da CNE conseguem apenas que quase nada mereça destaque na campanha que se avizinha. Sucede a quem tem mais olhos que barriga, como costumamos dizer às crianças. Don't be that way, apetece-me recomendar à CNE, adoptando o título do clássico de Benny Goodman, que agora escuto -- extraído do memorável concerto do 40º aniversário da carreira do clarinetista e chefe de orquestra, em Janeiro de 1978, no Carnegie Hall. Um concerto que originou disco duplo, pérola da colecção musical existente cá em casa.

 

Deparo com outro livro com uma capa de que também muito gosto. É uma das obras que mais estimo na minha biblioteca: Poesia Completa 1951/1983 de Alexandre O'Neill. Edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, inserida na colecção Biblioteca de Autores Portugueses -- cara mas imprescindível. Esta é a segunda edição, datada de 1984 (ainda O'Neill vivia, embora já com graves problemas de saúde) e a capa é de Armando Alves, que nos anos 70 foi responsável pelo excelente grafismo da Inova, uma editora com sede no Porto que deixou muito boa memória na vida cultural portuguesa.

Olho este livro e, fazendo uma rápida analogia, questiono-me se Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, teria conhecido o sucesso que conheceu em 1967 -- com mais de seis meses no top de vendas britânico e ainda hoje considerado o melhor disco de sempre pela Rolling Stone -- sem a inovadora, impressionante e irresistível capa de Peter Blake.

 

Estás cheio de razão, meu caro João Campos: nestes casos o hábito faz o monge.

 

Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (III)

por Pedro Correia, em 09.09.13

 

Hemingway, Jobim e Eric Dier

 

Chega enfim o momento de começar a colocar os livros nas prateleiras da estante recém-chegada, adquirida com o fito de contribuir em larga escala para a organização da minha tão dispersa biblioteca.

Apetece-me celebrar este momento com a música adequada. A voz meiga de Norah Jones ajuda a transportar os livros às alturas mais recônditas. "Come away with me in the night / Come away with me / And I will write you a song."

 

Quais os critérios para a arrumação de livros?

Não sei o que acontece convosco. Eu tenho vários, não aplico um critério só. Desde logo, este que surge ilustrado na foto: todos os livros que vou podendo reunir dos meus autores favoritos de ficção universal. Altos ou baixos, gordos ou magros, vivos ou mortos, de esquerda ou de direita.

São estes precisamente os primeiros, o que diz algo sobre os meus gostos. Graham Greene, Jack London, Ernest Hemingway. Amores antigos de um leitor fiel. Alinho-os na prateleira que se encontra mais disponível ao meu olhar imediato. Lembrando horas, dias, semanas e meses felizes da adolescência.

Quando havia todo o tempo do mundo para ler e viver.

 

Danilo Caymmi interpreta Anos Dourados, um dos mais belos temas saídos da inspiradíssima pena de Antonio Carlos Jobim, em disco de homenagem colectiva ao mestre brasileiro, tão célebre como Gershwin e Cole Porter. Não sei se já vos disse que tenho a mania das estatísticas: fazer listas de quase tudo é um dos meus passatempos de eleição.

Greene, London e Hemingway são dos romancistas mais representados na minha biblioteca. Tenho 23 livros do primeiro (incluindo os dois volumes da sua autobiografia, escritos em épocas diferentes), 20 do segundo (mais a célebre biografia que lhe dedicou Irving Stone) e 18 do terceiro (mais quatro biografias dele, muito desiguais, da autoria de Jeffrey Meyers, A. E. Hotchner, G. A. Astre e do seu irmão Leicester).

Outros escritores de que muito gosto, como se confirma pelos títulos de que disponho, são George Orwell, com 13 livros contados até ao momento (acrescidos da biografia que dele escreveu Bernard Crick), e Rubem Fonseca, com 11.

 

Na prateleira de que já vos falei ficam alinhadas as obras de Greene (excepto as da Colecção Dois Mundos, da Livros do Brasil, que ficarão em espaço autónomo, e O Terceiro Homem, que só tenho na Colecção Miniatura, da mesma editora, também com direito a local próprio), todas as de London, algumas de Hemingway (tão dispersas que não consigo confiná-las num só reduto). E dois romances da minha vida: Os Nus e os Mortos (de Norman Mailer) e O Pavilhão dos Cancerosos (de Alexandre Soljenitsine). Mais os cinco livros que possuo do grande Evelyn Waugh: Declínio e Queda (Estampa), Reviver o Passado em Brideshead (Moraes), Um Punhado de Pó (Cotovia), O Ente Querido (Ulisseia) e Black Mischief (Penguin Books).

Olhar estas lombadas é rememorar o prazer de muitas leituras. Mas a minha atenção foge agora para outra prosa, que não deveria qualificar de ficção mas nem sei como classificar. Refiro-me a um título de capa do diário desportivo Record de hoje: "Dier não pensa renovar".

Ó diabo, penso com os meus botões, será que o miúdo luso-britânico -- um dos melhores valores formados na academia do Sporting -- vai abandonar Alvalade? O título assim o sugere.

Nada como abrir a página 4 para tentar esclarecer dúvidas. Parece sugerir algo diferente: "Dier não pensa na renovação". E porque haveria de pensar, se mantém vínculo contratual ao clube até 2016? Desço ao corpo da notícia, cada vez mais distante do título da capa: "Com contrato por mais três épocas, Eric Dier continua tranquilo e sem pensar na hipótese de renovar o vínculo com o Sporting. Não porque o defesa não queira; antes porque a dita renovação só acontecerá, no entender do jogador, mediante condições para as quais acredita que o clube ainda não estará preparado."

 

Há notícias na imprensa portuguesa que baralham mais do que esclarecem. Eis um exemplo muito concreto. Dier -- talentoso defesa com apenas 19 anos -- tem clube, tem contrato, tem vontade de jogar no Sporting, está "tranquilo". Querer encontrar aqui um foco noticioso é confundir os desejos de alguns com a realidade inexistente. Muita água vai correr debaixo das pontes até 2016 -- no futebol e não só. Adivinhar os pensamentos seja de quem for daqui até lá é um exercício de pura especulação. Recomendo aos autores da notícia a leitura de um romance de Waugh que ainda não mencionei: Scoop. Uma poderosa sátira ao jornalismo, actual como nunca.

Águas de Março, na voz de Joyce, já correu na minha aparelhagem de som. Agora escuto o que vou partilhar com vocês: esta grande interpretação do inconfundível Hermeto Pascoal. Um veterano a pensar na renovação, ele sim. Sem desafinar.

 

Até amanhã.

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Arrumar a biblioteca (II)

por Pedro Correia, em 08.09.13

 

Gatsby, Cunhal e o crocante 'grué'

 

Um dos motivos -- senão o principal  -- que me conduziram a esta grande arrumação foi perceber que já não fazia ideia onde estavam os livros, soterrados entre tantos volumes espalhados por quatro divisões, confinados ao interior de gavetas e armários, empilhados numa cama esporadicamente sem uso, muitos ainda guardados em caixotes por abrir.

Apetece-me reler O Grande Gatsby -- onde estará? Não faço ideia: possuo três exemplares, nenhum me aparece. É altura de reler O Leopardo: vou procurá-lo -- mas onde? Busca infrutífera. E como confirmar se já sou proprietário dos Pequenos Contos da Misoginia, de Patricia Highsmith, se tenho tantos livros dela mas todos dispersos? Onde terá ido parar o meu velho exemplar de Mau Tempo no Canal? E o que será feito de Moby Dick, que não o encontro? E aquele livro de Arrabal, que até tinha uma cordial dedicatória do autor?

 

Uma parte começa enfim a ganhar arrumação e ordem enquanto escuto uma balada em que Lennon fala de um bosque na Noruega. Nem de propósito: descubro agora Um Inimigo do Povo, de Ibsen, naquela edição brasileira de bolso que procurei durante meses. Sabia que o tinha, faltava saber onde estava.

A partir de agora começarei a poder responder a perguntas tão simples como quantos livros tenho sobre Salazar (onze contabilizados até agora) ou Álvaro Cunhal (vão quatro até ao momento e cá estaria mais um tomo se José Pacheco Pereira já tivesse publicado o prometido volume ainda em falta da sua biografia do antigo líder comunista).

 

Numa pausa, leio um interessante artigo de três páginas sobre Cunhal na edição de fim de semana do i, jornal que não se publica aos domingos mas faz bem porque a edição de fim de semana costuma ter motivos de leitura para mais de um dia. Simpatizo sobretudo com o suplemento LiV (L de leituras e V de viagens).

A peça sobre o ex-secretário-geral do PCP é assinada por Nuno Ramos de Almeida, que o conheceu pessoalmente e não esconde um certo fascínio pelo político que tantos amores e aversões gerou durante décadas na política portuguesa. A dois meses do centenário do seu nascimento, as edições Avante! acabam de lançar uma fotobiografia de Cunhal, que o Nuno recomenda. Só o preço não é nada recomendável: 22,50 euros.

Passo para o suplemento Fugas, do Público (também de ontem). Duas páginas com loas ao restaurante da Fortaleza do Guincho, "uma experiência gustativa multi-sensorial num registo que convoca o melhor da chamada alta cozinha aliada a uma equipa de gabarito". Quem assina o texto deglutiu o "menu degustação" (80 euros/4 pratos) e assinala que o preço médio por refeição fica ali a cem euros.

Quase me engasgo com a banalíssima tosta de queijo que me serve de almoço ao ler estas linhas e ao saber destes preços: não cesso de me espantar com um certo jornalismo contemporâneo, que rasga as vestes perante a crise nas páginas editoriais e de política enquanto prodigaliza elogios ao luxo no chamado espaço de "lazer", onde a crise fica sempre à porta, os desfavorecidos são ignorados e o culto da ostentação social não parece perturbar o palato e a consciência de quem recomenda preços obscenos. Isto na mesmíssima edição em que, no espaço de opinião, Pacheco Pereira assegura que o "tecido social" em Portugal se rompeu "como nunca tinha sido rompido desde o 25 de Abril".

Encontro um dos exemplares do Gatsby. Das colunas de som chega-me a voz inconfundível de Chico Buarque: "Devagar é que não se vai longe."

 

"A pré-sobremesa quase dispensava o prefixo pois era uma generosa bola de gelado de cereja com um picadinho do fruto na base, e ainda um perfumado morango "maras des bois" de ascendência silvestre. Ao lado, um copinho com caramelo e espuma de café com chocolate. Já nas guloseimas titulares veio o "crocante grué com espuma de fava tonka, cremoso de chocolate Otucan e creme glacé de Amareto", que fazia parte da degustação. Era uma telha cilíndrica de biscoito com o grué (aparas da cápsula que envolve a fava de cacau) caramelizado e a revestir-lhe o exterior. O tubo era preenchido por uma espuma densa de fava tonka (ou cumaru), onde o aroma 'abaunilhado' desta especiaria e as notas de coco faziam o contraponto no conjunto, guarnecido com gelado de Amareto e creme sólido de Otucan, um chocolate gran cru da Venezuela", relata por sua vez, com admirável minúcia e vista para o largo oceano a partir da Fortaleza do Guincho, o crítico gastronómico do Público, aparentemente nada convicto de que o tecido social se rompeu.

Regresso às arrumações pensando o que diria Cunhal de tudo isto. Enquanto cogito, nada melhor do que ouvir Ivan Rebroff na bela canção do século XIX que aqui vos deixo. Intitula-se Olhos Negros. Em russo, claro.

Até amanhã.

 

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Arrumar a biblioteca (I)

por Pedro Correia, em 07.09.13

 

Cristiano Ronaldo, Piazzolla e Beatles

 

Chegou o momento. Aproveito este período de inactividade forçada para concretizar um projecto há muito adiado: pôr em ordem a minha biblioteca. Primeira etapa: desocupar de tralha avulsa a divisão que reservei como escritório e acabou por funcionar como sala de (des)arrumações. Limpar, lavar, desobstruir. Remeter o que não interessa nem faz falta para sacos que terão como destino a reciclagem. Tanto papel inútil vai sendo acumulado ao longo de anos no domicílio de cada um: há que lhe dar sumiço com regularidade não apenas em nome da guerra aos ácaros mas sobretudo da preservação de um espaço vital de dimensão razoável nos metros quadrados que funcionam como nosso reduto íntimo.

Há depois que reunir todos os livros espalhados pela casa neste espaço, que ao fim de poucos dias ressurgirá como novo. Estou apostado nisso. Enquanto meto mãos à obra, com um entusiasmo que a mim próprio surpreende e um caudal de energia que me parece ilimitado, procuro somar o útil ao agradável (algo em que um nativo do signo Gémeos é perito por natureza e vocação), escutando alguns dos meus discos de que mais gosto. Artie Shaw e a sua orquestra na inconfundível interpretação de temas que a celebrizaram, como Begin the Beguine, Frenesi e Stardust. O Concierto para Bandoneón, de Astor Piazzolla propaga-se a seguir por cada recanto deste apartamento inundado do sol que teima em desmentir os negros augúrios dos meteorologistas da treta que há uns meses nos vaticinaram o pior Verão das últimas décadas. Nem de propósito: seguem-se os Animals, que saem das catacumbas dos anos 60 com a sempre rejuvenescida House of the Rising Sun.

A divisão começa a ficar com um aspecto decente, ao fim de horas de intenso labor doméstico, no momento em que John Lennon canta You're going to lose that girl. Canção do álbum (e do filme) Help. Se bem recordo o alinhamento deste disco, que escutei tantas e tantas vezes, vai seguir-se Ticket to Ride.

 

Os livros amontoam-se, em pilhas sucessivas, em certos casos do chão quase até ao tecto. Não faço ideia quantos são neste momento - seguramente já ultrapassaram a barreira dos dois mil. E enquanto escrevo esta frase lembro-me de Cristiano Ronaldo, que ontem ultrapassou o recorde de golos de Eusébio ao serviço da selecção nacional de futebol com três petardos enfiados na baliza da Irlanda do Norte que fizeram calar aqueles pobres imbecis que no acanhado estádio de Belfast procuravam irritá-lo gritando pelo nome de Messi. Coitados: aprenderam da pior maneira que isso motiva ainda mais o campeão formado na academia do Sporting. "Ronaldo vale por três", grita a manchete do diário O Jogo, que atirei para cima do sofá e ainda não abri.

É o que farei a partir deste momento, interrompendo por hoje a empreitada a que meti ombros. Escuto agora outro dos discos de que mais gosto: My Passion for the Piano, de Arturo Sandoval. Faço questão de partilhar convosco uma das minhas faixas preferidas deste álbum: Marianela says goodbye. O vídeo é fraquito, mas foi o melhor que se arranjou.

Até amanhã.

 

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