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Era só o que faltava...

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.12.15

A simples perspectiva de haver coisas nos Açores que reeditam os maus hábitos da Madeira, aproximando a governação socialista da de Alberto João Jardim, tira-me do sério. Com tudo o que já aconteceu seria bom que as coisas ficassem em pratos limpos. Limpos e transparentes. Ninguém está disponível para daqui a uns tempos cobrir os buracos do anticiclone.  

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 21.10.12

 

«Os censos de 2011 dizem que os Açores têm 246.746 habitantes, dizem também que 44.201 têm menos de 14 anos, se considerarmos que a média de nascimentos anual é sensivelmente igual. Poderíamos dizer que com menos de 18 anos existem cerca de 53.673 habitantes, ora retirando os habitantes não votantes à população total teríamos grosso modo o total de inscritos para as eleições, cerca de 193.073. As listas utilizadas para eleições dizem que estavam inscritos 225.112 votantes, podemos assegurar com alguma certeza que existem cerca de 32.000 inscritos a mais nas listas de eleitores. Não sei a quem convém deturpar os valores da abstenção, ou se será só preguiça.»

 
Do nosso leitor João Trabuco. A propósito deste meu texto.

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Açores e comentadores

por José António Abreu, em 15.10.12

Os resultados das eleições nos Açores eram tão previsíveis como hoje nos parece a salivação dos cães de Pavlov. Não me merecem, por isso, grandes comentários. Prefiro centrar-me no que os comentadores nos dizem sobre eles.

 

Dizem muitos, em jeito de descoberta transcendental, que os resultados são um aviso ao governo de Passos Coelho e, considerando a proximidade das autárquicas, ao PSD. O meu coração enche-se de ternura ao ver tanta gente preocupada com os autarcas sociais-democratas. Mas vejamos: o que deveria o governo fazer para ajudar essa excelsa turba a conseguir manter os empregos (tão frágeis nos dias que correm)? Recuar no aumento de impostos? Recuar na dispensa de funcionários públicos? Recuar nos cortes das pensões e dos subsídios? Recuar nos cortes nas empresas públicas? Recuar nos cortes na Saúde? Recuar apenas em algumas dessas medidas mas agravar as restantes? Ou talvez iniciar um braço de ferro com a Troika e dizer-lhe que preferimos não receber o dinheiro, ver os juros da dívida voltar a disparar, as empresas nacionais sem esperança de financiamento, os bancos ainda mais estrangulados e, no limite, sair do euro? Honestamente, eu só gostava que as pessoas fossem claras. Por mim, estou-me nas tintas para os autarcas do PSD. Primeiro, não são substancialmente diferentes dos do PS. Depois – e cá temos um ponto em que o governo devia estar a receber avisos de que não tem feito o suficiente –, acho até que o número de autarcas devia ser muito menor.

 

Uma nota também sobre Carlos César. Ouvi e li opiniões segundo as quais ainda o veremos a desempenhar um papel importante na política de âmbito nacional. Acho muito provável. Apesar de Carlos César não passar de um Alberto João Jardim ligeiramente mais polido, a verdade é que continuamos a preferir a imagem associada aos políticos que “fazem obra”, distribuem benesses e contraem dívidas à daqueles obrigados a corrigir desequilíbrios. As eleições dos Açores – como as da Madeira há um ano – também mostram isso. Mas se os comentadores o notaram, poucos ou nenhum o referiram.

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A lição dos Açores.

por Luís Menezes Leitão, em 15.10.12

 

Estive há dias nos Açores e pude assistir ao desenrolar da campanha. Para mim parecia evidente que Berta Cabral era uma excelente candidata e que o PS estava em situação difícil, desgastado por 16 anos de governação. Tudo apontava assim para uma clara vitória do PSD. Mas a certa altura foi perceptível que as coisas estavam a mudar rapidamente. E a principal causa dessa mudança residia nos sucessivos dislates de Passos Coelho à frente do Governo nacional. Primeiro anunciava a TSU, depois retirava a TSU. Primeiro anunciava o fim da cláusula de salvaguarda no IMI, depois mudava de ideias e já a cláusula de salvaguarda se mantinha. Não contente com isso, na véspera das eleições regionais, anunciou o maior aumento de impostos de que há memória em Portugal. Berta Cabral bem tentou demarcar-se de Passos Coelho, mas já não o conseguiu. É que não há candidato do PSD que possa resistir a tamanha incompetência na chefia do governo do país. Passos Coelho bem disse que se está a lixar para as eleições e já lixou efectivamente o PSD dos Açores. Resta ao PSD nacional, se tiver inteligência política, perceber que, com Passos Coelho à sua frente, será totalmente arrasado nas eleições que se seguirão, podendo ter o mesmo resultado eleitoral que agora teve no Corvo. É por isso evidente que o PSD não pode continuar com Passos Coelho à frente do partido. Que um líder partidário se queira suicidar politicamente, esse é um problema dele. Não me parece é que o partido o deva acompanhar nesse caminho.

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Açores: dez apontamentos eleitorais

por Pedro Correia, em 14.10.12

 

1. Vitória eleitoral categórica do PS nas eleições regionais dos Açores, revalidando a maioria absoluta. Um triunfo pessoal do candidato socialista, Vasco Cordeiro, que assumirá a liderança do Executivo em Ponta Delgada, e também do secretário-geral do PS, António José Seguro, que participou activamente na campanha.

2. Esta foi a primeira vitória de Seguro desde que assumiu o comando dos socialistas a nível nacional. Cumpriu-se um dos melhores cenários eleitorais para o secretário-geral do PS, que assim robustece a sua liderança face às movimentações de possíveis rivais internos. Também por esse motivo esta era uma eleição que Seguro precisava mesmo de ganhar.

3. O resultado de hoje nos Açores constitui igualmente um tributo popular ao mandato do socialista Carlos César, que abandona o poder voluntariamente após 16 anos como presidente do Governo Regional. Esta vitória também lhe pertence pois constitui uma espécie de referendo ao seu desempenho governativo. Fazendo instalar a ideia, simétrica à da Madeira com maioria PSD desde 1976, de que nos Açores é normal que vençam os socialistas.

4. Berta Cabral, a candidata social-democrata, sofre uma pesada derrota. De nada lhe valeu, na recta final da campanha, demarcar-se do Governo de Lisboa fazendo comparações deselegantes com Passos Coelho e chegando a anunciar o voto contra dos deputados açorianos na Assembleia da República contra o Orçamento do Estado ainda sem conhecer o documento.

5. De nada serviu também ao CDS regional o discurso contra a coligação nacional de que faz parte. O partido sofre um recuo eleitoral e vê defraudada a expectativa de ascender ao Governo Regional como parceiro menor dos socialistas.

6. Passos Coelho não participou na campanha, ao contrário do que sucedeu com Paulo Portas, mas esta derrota também deve ser-lhe creditada. Foi a primeira que sofreu desde que assumiu a liderança dos sociais-democratas a nível nacional.

7. As campainhas de alarme terão de soar no PSD: o escrutínio açoriano, claramente influenciado por factores nacionais, indicia resultados tão maus ou piores para o partido nas autárquicas do próximo ano. Passos Coelho assumiu dignamente a derrota mas deve apressar-se a tirar conclusões deste expressivo voto de protesto dos eleitores açorianos.

8. Estranhamente, Berta Cabral não anunciou de imediato a demissão do cargo de presidente do PSD-Açores e a convocação de um congresso extraordinário. Devia tê-lo feito.

9. Carlos Cesar deu um notável exemplo de desprendimento do poder: podia ter-se recandidatado a um novo mandato de quatro anos, mas preferiu encerrar o seu ciclo de intervenção política directa nos Açores. Uma atitude que há muito devia ter sido adoptada na Madeira por Alberto João Jardim.

10. Vale a pena tomar nota: ainda haveremos de ouvir falar muito de César. Desta vez a nível nacional.

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Açores: cinco cenários para Seguro

por Pedro Correia, em 14.10.12

 

Nunca umas eleições regionais nos Açores tiveram tanta importância a nível nacional, como se verá.

Na perspectiva de António José Seguro, deste escrutínio poderão decorrer cinco cenários - do óptimo ao péssimo.

 

Cenário óptimo. O candidato socialista açoriano, Vasco Cordeiro, vence as regionais mas sem maioria absoluta - o que o levará a formar um governo de coligação com o CDS no arquipélago. Situação ideal para o líder do PS por dois motivos: esta coligação teria um potencial de fractura entre os dois partidos que formam governo a nível nacional e poderia servir de balão de ensaio para um futuro Executivo em Lisboa entre socialistas e democratas-cristãos. Este seria também o cenário perfeito para o partido liderado por Paulo Portas, que se confirmaria como força política charneira do regime, ampliando ainda mais a sua capacidade negocial: coligada com o PSD em Lisboa e com o PS em Ponta Delgada.

 

Cenário bom. Vasco Cordeiro triunfa nas urnas, com maioria absoluta. Primeira vitória que Seguro poderá reclamar, enquanto líder do PS, depois de ter perdido as regionais de 2011 na Madeira, onde viu o seu partido ser ultrapassado pelo CDS como segunda força política. Esta vitória funcionaria no entanto, essencialmente, como um plebiscito aos 16 anos do mandato insular de Carlos César, impulsionando a sua carreira futura, desta vez a nível nacional.

 

Cenário ambíguo. O PS revalida a maioria nas urnas mas recuando eleitoralmente, vendo crescer as forças à sua esquerda e não lhe bastando somar deputados aos do CDS para garantir apoio maioritário na Assembleia Legislativa Regional. Teria assim que estabelecer um acordo político com o PSD, espécie de reedição de um bloco central à escala açoriana, aliás já admitido pela líder do PSD-Açores, o que enfraqueceria necessariamente o vigor da sua oposição aos sociais-democratas a nível nacional.

 

Cenário mau. O mesmo cenário, mas com posições invertidas: vitória tangencial do PSD, o que levaria a social-democrata Berta Cabral - que conduziu o essencial da sua campanha nas regionais a demarcar-se de Pedro Passos Coelho, ao ponto de anunciar que os deputados do PSD-Açores em Lisboa votariam por determinação dela contra o Orçamento do Estado ainda sem este documento ser conhecido - a formar um bloco central nos Açores. O PS seria desgraduado: em vez de um presidente do Governo Regional, teria apenas um vice-presidente.

 

Cenário péssimo. O PS perde esta eleição, mas sem possibilidade de ascender ao Governo. Seria a segunda derrota consecutiva de Seguro (após a da Madeira), o que levaria os seus adversários internos a acelerar as movimentações para uma mudança de ciclo no partido a nível nacional. Líderes alternativos não faltam - e estão em boa forma, como demonstraram Francisco Assis na sua intervenção parlamentar em nome do PS no recente debate das moções de censura ao Governo e António Costa, intervindo mais como protagonista político de primeiro plano do que como presidente da câmara de Lisboa nas cerimónias do 5 de Outubro. Falta apenas um bom pretexto para qualquer deles avançar.

 

Esta é, portanto, uma eleição que António José Seguro precisa de ganhar. Mais do que qualquer outra, mais do que qualquer outro.

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As ilhas que eu vejo (11)

por João Carvalho, em 30.09.12

 

São Jorge é uma ilha quase perfeita.

 

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As ilhas que eu vejo (10)

por João Carvalho, em 27.09.12

 

Lembram-se quando havia um pote de ouro na ponta do arco-íris? Bons tempos...Ver a ponta do arco-íris à frente dos olhos já é invulgar.

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Formigas à vista!

por João Carvalho, em 01.09.12

Os Açores começaram a ser achados a partir da ilha de Santa Maria, em 1432? Pode dizer-se que sim, mas os ilhéus das Formigas foram encontrados no ano anterior.

 

 

Quando o Infante D. Henrique designou Gonçalo Velho Cabral para ir em busca das ilhas que, em 1427, o piloto Diogo de Silves encontrara no regresso de uma viagem à Madeira, seguramente não esperava o resultado que teria essa primeira tentativa.

 

História. Gonçalo Velho Cabral, cavaleiro da Ordem de Cristo e comendador do castelo de Almourol, era um experiente navegador da confiança do Infante, já então considerado um homem muito próximo deste. Em 1431, com poucos recursos, D. Henrique sabia que podia contar com a reconhecida capacidade de liderança e experiência de Gonçalo Velho, pelo que decidiu que ele partiria sem problemas apenas com um pequeno barco e uma reduzida tripulação. Tudo indica que, ao todo, a tripulação não excedia uma dezena ou uma dúzia de marinheiros.

No ano seguinte, em 1432, o Infante enviou de novo Gonçalo Velho a caminho dos Açores e ele encontrou as ilhas de Santa Maria e de São Miguel, as duas mais orientais do arquipélago. Mas porque é que, nesse ano de 1431, ele não teria encontrado mais do que os pequenos ilhéus das Formigas, um conjunto de rochedos baixos localizados a norte de Santa Maria?

Calcula-se a frustração do navegador e, no regresso, do Infante. Nem uma das ilhas já antes achadas fôra avistada. Apenas os inabitáveis rochedos.

 

Imaginação. Quando me detenho a reflectir sobre este episódio, ponho-me a imaginar as raivas frequentes e traiçoeiras do Atlântico Norte e os sustos que um punhado de homens teria recebido borda dentro numa pequena embarcação a bater-se contra qualquer tempestade e quase à deriva entre os habituais nevoeiros do oceano.

Em dado momento, abalados e já quase descrentes das suas forças, não teriam esses homens esgotado todo o álcool que levavam a bordo, como que a preparar o que parecia o caminho inevitável para o sono eterno?

É humano e compreensível que assim tivesse sido. Nessas condições, com muito álcool a correr nas veias, quem teria avistado uma ilha ou algo mais do que aqueles rochedos que mal se levantavam do mar bem à frente do barco?

 

Actualidade. Hoje em dia, a verdade é que as Formigas têm uma importância que Gonçalo Velho Cabral não conseguiria adivinhar. O grupo de ilhéus, em que se destaca o perfil invulgar do farol que serve de aviso à navegação, tem sido sucessivamente classificado e confirmado como Reserva Natural e está integrado na Rede Natura 2000.

 

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A sereia da Praia

por João Carvalho, em 15.07.12

Deambulando por este espaço virtual, encontrei por mero acaso uma lenda açoriana um tanto inesperada. Ingenuamente centrada num tema tão infantil como a própria lenda, tem o dom de consagrar a beleza secular do amplo areal branco no nordeste da Terceira, a mais extensa praia em redor de toda a costa, onde foi fundada a cidade da Praia e onde se encontra o porto que serve a ilha. Passemos ao essencial da lenda.

 

 

Noite de Lua cheia. Boiando sobre as sossegadas ondas que docemente vinham acabar-se na areia branca, uma mulher de longos cabelos de ouro parecia ondular ao sabor da água.

O tronco nu era de uma perfeição rara e o rosto tão suavemente belo que um pescador, deslumbrado com a visão, não sentiu qualquer tentação cuja libido pudesse perturbar aquele encanto.

Ela aproximou-se. Quando já estava muito perto, o homem percebeu, cheio de temor, que o seu pescoço estava desfigurado pelo que parecia serem guelras. Mais: o seu corpo, da cintura para baixo, também parecia igual ao de um peixe.

Na aflição de quem julgava ter o diabo ao pé de si, o pescador esconjurou a aparição. Nesse mesmo instante, a mulher, que um qualquer poder maléfico e vingativo devia ter transformado em sereia, voltou à forma humana e perfeita que a sua figura inicialmente sugerira.

Esta lenda não nos conta se os dois se casaram e viveram felizes para sempre, mas podemos imaginar-lhes esse destino ditoso.

Já essa praia merece que a felicidade a contemple. Tão bela ela é que, num mapa dos Açores datado de 1584 – feito pelo cosmógrafo Luís Teixeira no período filipino – o seu nome surge como Plaia Hermosa. Como o mapa foi feito para D. Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal), todas as legendas do mapa aparecem no mesmo castelhano arcaico.

Que a praia é formosa, percebe-se logo à primeira vista. Por isso, dispensa o adjectivo, que nunca foi usado pelos naturais da ilha (a Ilha Terceira), mas houve seguramente boas razões para que o topónimo não se ficasse pelo simples nome de Praia. De resto, eram bem conhecidas todas as praias dos Açores, sem dúvida, pois na legenda que explica o mapa está escrito em latim: «Estas ilhas foram percorridas com a maior diligência, e com todo o cuidado as descreveu o português Luís Teixeira, cosmógrafo da Majestade Real. Ano de Cristo de 1584.»

Trata-se do mesmo autor no mesmo ano desse mapa da Praia, essa que viria um dia a merecer chamar-se Praia da Vitória. Um topónimo bem mais afirmativo do que Praia Formosa. Sem deixar de ser praia e de ser formosa.

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O ilhéu que se partiu

por João Carvalho, em 01.07.12

 

Na ilha Terceira, os ilhéus das Cabras constituem um alvo de polémicas sucessivamente renovadas ao longo de séculos, por causa da sua posse. Hoje em dia, são simplesmente vistos como importante reserva açoriana de espécies protegidas.

Localizados junto à costa sul da Ilha Terceira, na freguesia de Porto Judeu, são os ilhéus maiores do arquipélago. Quem circula pela estrada marginal e olha para eles, parece uma ilhota que acabou de partir-se e se soltou em dois pedaços. De origem vulcânica, estão na verdade divididos há séculos, pelo provável desmantelamento da costa, em resultado da erosão e movimentações tectónicas.

Abrigam eles alguma fauna protegida, como o cagarro e o garajau-comum, além da garça-real, do pilrito-das-praias e do borrelho-de-coleira-interrompida. Juntamente com o cagarro e o garajau, também a gaivota faz parte das aves marinhas que procuram os ilhéus para nidificação.

Em torno dos dois ilhéus encontram-se ainda com frequência pequenos cetáceos, como a toninha-brava, bem como algumas tartarugas.

Em meados do século XVII, os ilhéus das Cabras estão nas mãos de um ramo da conhecida família Canto, nome secular muito respeitado em terras açorianas, assim como na Casa Real no continente.

De geração em geração, de descendente em descendente, as Cabras vão mudando de proprietário, mesmo quando estes estão em Lisboa, em Braga, em Amares, no Porto ou em qualquer outro lugar fora dos Açores onde têm morado.

Com o passar dos séculos, a polémica que vai envolvendo os ilhéus renova-se, ora por razões de direitos, ora por razões de direito público. Actualmente, porém, se são propriedade privada ou pública não parece ser tão importante. Na sua verdura pujante e recorte em falésia, constituem uma reserva natural que todos respeitam e admiram com gosto, porque fazem parte da bela diversidade que o arquipélago em geral oferece e de que a Terceira em particular cuida.

Além do mais, já o celebrado terceirense Vitorino Nemésio se referia aos ilhéus das Cabras como uma espécie de representação dos açorianos, chamando-lhes «a estátua da nossa solidão» (Corsário das Ilhas, 1956). Não poderia haver classificação mais pública e colectiva do que esta. A própria definição de Nemésio é património colectivo.

 

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As ilhas que eu vejo (9)

por João Carvalho, em 30.06.12

 

Cá estou eu a respirar o verde intenso...

 

 

... e a sentir o azul imenso.

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Descrever o tradicional culto dedicado ao Senhor Santo Cristo dos Milagres e a importância da imagem bizantina que atrai tanta gente a Ponta Delgada no quinto domingo depois da Páscoa dia da vistosa procissão que percorre a cidade durante várias horas sobre tapetes de flores — não é o mesmo que recordar a lenda em torno da origem dessa imagem, pretexto para o postal de memórias de hoje.

 

 

O Convento de Nossa Senhora da Conceição da Caloura fica na aldeia da Caloura, em Vale de Cabaços, uma espécie de vale à beira-mar que pertence à bonita freguesia de Água de Pau, localidade disposta em cascata e que integra o belo concelho de Lagoa, na costa sul da ilha de São Miguel.

 

 

Na fachada da capela do Convento da Caloura lê-se Dezembro 1684. Construído sobre rochedos, foi o primeiro convento na ilha, autorizado pelo Papa Paulo III (ou talvez pelo Papa Clemente VII). A autorização papal teria sido acompanhada pela oferta da imagem do Senhor Santo Cristo (Ecce Homo), mas as dúvidas históricas que envolvem o caso são “resolvidas” por outra história, popular e pragmática, como várias vezes acontece.

Diz essa história que as freiras da Caloura andavam tristes com a falta de fé do povo de Água de Pau, visivelmente afastado das coisas da Igreja, por muito que elas rezassem para unir o “rebanho” do Senhor. Ao mesmo tempo, escreviam ao Papa a pedir uma imagem nova para colocarem na ermida e que conseguisse atrair as pessoas.

 

 

Por essa altura, eram frequentes os assaltos de piratas e corsários nas costas açorianas e a zona da Caloura sofria tantos desembarques e pilhagens que acabaria por verificar-se posteriormente a retirada das freiras e da imagem, mudadas então para o Convento de Nossa Senhora da Esperança, em Ponta Delgada, o qual abriga até hoje a Igreja e Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Mas a lenda conta coisa diferente. Conta que, um dia, uma nau foi atacada por piratas ao largo de São Miguel e que os destroços estiveram muito tempo a dar à costa sul. Foi aí que, uma manhã, as freiras viram um caixote a flutuar perto das rochas, de onde parecia emanar uma luz. Desceram à água, puxaram a caixa, abriram-na e deram com um busto de Cristo, cujo rosto apresentava um olhar vivo e uma expressão serena.

Para as religiosas, era um milagre: o Santo Cristo tinha escolhido São Miguel para aportar, onde o povo tinha fama de ser muito crente, e a população de Água de Pau, ao saber da imagem aparecida, cresceu na sua fé. Rapidamente, essa imagem foi também alvo do culto de toda a ilha, de todo o arquipélago, sem tardar a ser admirada por fiéis de tantas outras paragens.

 

 

Actualmente, no quinto domingo após a Páscoa, Ponta Delgada recebe devotos de muitas bandas e parece alargar-se para conseguir receber toda a gente.

 

 

Fotos (de cima para baixo, da esquerda para a direita):

• Caloura e o convento (ao centro, na foto);

• Convento da Caloura e fachada da capela do convento;

• Convento de Nossa Senhora da Esperança (Ponta Delgada)

com iluminações em véspera da procissão;

• O Senhor Santo Cristo em procissão e tapete de flores;

• Vai passar a procissão...

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As ilhas que eu vejo (8)

por João Carvalho, em 01.05.12

 

Com as três largadas de hoje, está aberta a temporada taurina na ilha.

 

 

Os aficionados têm muitas touradas à corda na Terceira até Outubro.

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As ilhas que eu vejo (7)

por João Carvalho, em 28.04.12

 

Tanto verde, tanta cor...

 

 

... e todos os caminhos vão dar ao azul imenso.

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As ilhas que eu vejo (6)

por João Carvalho, em 26.04.12

 

É bom estar de novo nos Açores, ainda que este regresso seja só por uns dias.

 

 

Em breve estarei de volta ao meu velho Porto, mas faz bem à alma vir aqui.

 

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Açoriano, escritor e poeta, Antero de Quental nem chegou a completar 50 anos de vida, mas deixou obra e teve um lugar de destaque na chamada 'Geração de 70', no século XIX das reformas. Doente do foro psiquiátrico, escolheu morrer na terra onde nasceu, mas o País inteiro conhece o seu legado de intelectual e reconhece o seu empenho pelo reformismo.

I

Faz hoje 170 anos que nasceu (18 de Abril de 1842) em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, e foi logo baptizado a 2 de Maio, com o nome de Anthero Tarquínio de Quental, descendente de uma antiga e respeitada família açoriana. O pai, Fernando de Quental (1814–1873), também natural de Ponta Delgada — casado com Ana Guilhermina da Maia (1811–1876), nascida em Setúbal — era um veterano das lutas liberais e tomou parte no desembarque do Mindelo.

Antero começou cedo a aprender francês com o poeta romântico António Feliciano de Castilho. Tinha 10 anos, em 1852, quando se mudou para Lisboa com a mãe e ingressou num colégio, que fechou no ano seguinte e os fez regressar a Ponta Delgada. Entrou no Liceu Açoriano e recebeu lições de inglês com um preceptor britânico conhecido na ilha.

Aos 16 anos, rumou a Coimbra, onde cursou Direito e, ao mesmo tempo, começou a abraçar os ideais socialistas, aí fundando a Sociedade do Raio, agremiação que tinha por objectivo reformar o País através da literatura. Eram os princípios da “revolução intelectual”, a revolução pacífica que devia fazer-se por via das ideias publicadas e divulgadas como fruto da intectualidade.

Viu os seus primeiros sonetos publicados ainda antes de completar 20 anos e, em 1865, publicou as Odes Modernas, influenciado pelo “socialismo experimental” do filósofo francês Pierre-Joseph Proudhon.

II

Esteve na primeira linha da 'Questão Coimbrã', raiz da renovação ideológica do século XIX, movimento de jovens académicos e escritores que assumia ter assimilado novas ideias e que se opunha ao que entendiam ser o academismo vazio da geração anterior de intelectuais, no centro dos quais estava Castilho (que passou a atacá-los por provocarem a revolução intelectual).

A verdade é que a contenda durou, mas dela só sobressaíram as publicações arremessadas por Antero, de um lado, e Castilho, do outro. Em 1866, porém, Antero foi para Lisboa trabalhar como tipógrafo, experiência de vida operária que repetiu nos dois primeiros meses do ano seguinte, durante uma estadia em Paris.

Já em 1868, novamente na capital, formou o Cenáculo, tertúlia de intelectuais que procuravam prolongar em Lisboa aquilo que os movera em Coimbra e que integrou Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão, entre outros.

Fez parte da fundação do Partido Socialista Português e fundou o jornal República com Oliveira Martins, em 1869, e a revista O Pensamento Social com José Fontana, em 1872.

III

Com a morte do pai no ano seguinte, Antero herdou uma fortuna apreciável que lhe permitiu passar a viver dos rendimentos. Em 1874, a tuberculose obrigou-o a descansar, em 1879 mudou-se para o Porto e, em 1886, publicou Sonetos Completos, considerada a sua melhor obra poética.

Entretanto, em 1880, tinha adoptado as duas filhas do seu amigo Germano Meireles, falecido três anos antes, e fora viver para Vila do Conde em 1881, aconselhado pelo médico, onde permaneceu dez anos (com alguns meses pelo meio nos Açores) e que ele próprio considerou o melhor período da sua vida: «Aqui as praias são amplas e belas, e por elas me passeio ou me estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz.» Em Vila do Conde, começaria assim um soneto: «Vozes do mar, das árvores, do vento!»

Em Maio de 1891, voltou para a capital e instalou-se em casa da irmã, Ana de Quental, mas não ficou muito tempo. Sofria de transtorno bipolar, que o levava de momentos de hipomania, hiperactividade e imaginação a estados de depressão, ansiedade e tristeza. A depressão foi-se tornando permanente e depressa achou que não estava bem em Lisboa: em Junho de 1891, decidiu voltar para Ponta Delgada. Pode dizer-se que, depois da primeira fase de juventude descoberta e após a fase da poesia como “voz da revolução”, tinha entrado na fase derradeira da inquietude madura: a poesia metafísica, a busca de um sentido para a existência.

A 11 de Setembro de 1891, sentado no banco de um jardim (ainda hoje assinalado, junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança e paredes meias com o Senhor Santo Cristo dos Milagres), Antero de Quental suicidou-se com dois tiros na boca. Aos 49 anos, quis acabar na terra que o viu nascer e onde procurava sem encontrar, de mão dada com a doença, o sentido da vida. Também quis ter a certeza de que acabava com ela. O segundo tiro era uma garantia de que lhe punha fim e o intervalo entre os dois disparos não o iluminou — uma conclusão que podemos tirar com aparente segurança.

Contudo, não viveu em vão. Afinal, é por isso que continua a ser estudado, lembrado e reflectido. Em 1942, o grande poeta brasileiro Manuel Bandeira escreveria: «Costuma apontar-se o Eça como o modernizador da prosa portuguesa. Basta, porém, a carta Bom Senso e Bom Gosto para provar que se houve reforma da prosa portuguesa, ela já estava evidente no famoso escrito de Antero.»

·  •  Ο  •  · —

Ilustrações

– Manuscritos e assinatura de Antero

Antero (c. 1887)

Retrato a óleo de Antero (Columbano Bordalo Pinheiro, 1889;

Museu do Chiado, Lisboa)

– O banco da morte (Campo de S. Francisco, Ponta Delgada)

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As ilhas que eu vejo (5)

por João Carvalho, em 11.03.12

 

No Faial, a Horta não é apenas uma cidade acolhedora...

 

 

... mas também um estimado porto de abrigo do mundo.

Com o Pico altaneiro lá adiante sempre a zelar.

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Açores: celebração da amizade

por João Carvalho, em 26.01.12

 

A partir da quinta quinta-feira de cada ano, a festa é dos amigos, amigas, compadres e comadres. O mês de Fevereiro costuma, por isso, ser muito animado, mas este ano tudo começa hoje, a última quinta-feira de Janeiro.

 

Temos então o Dia dos Amigos hoje, a que se segue o Dia das Amigas na próxima quinta-feira. Mais recentemente — talvez porque é junto dos amigos que se costuma escolher os padrinhos e madrinhas dos filhos — surgiram ainda o Dia dos Compadres e o Dia das Comadres, nas duas quintas-feiras seguintes.

São estas, pois, as quatro quintas-feiras seguidas que marcam uma época do ano comercialmente adormecida e à qual a celebração da amizade sempre dá alguma animação — pelo menos, no que toca a restaurantes, bares e outros estabelecimentos de diversão nocturna — porventura, também uma ou outra loja de prendas.

Esta tradição açoriana não me parece que tenha paralelo em qualquer outra região do País (se eu estiver enganado não é por mal e os leitores me dirão). Creio que resulta de uma outra tradição do arquipélago – bem mais dramática, esta – que é a forte emigração para as Américas, em busca de melhor vida.

Na verdade, com maior ou menor relevo, celebra-se anualmente a amizade em alguns países sul-americanos, embora em datas diferentes do calendário. É possível que, nos Açores, se tenha procurado uma época útil para movimentar o comércio local, aproveitando também as pessoas para ter um pretexto para conviver e se divertir.

Através de alguns países da América do Sul, não só o Dia da Amizade é comemorado como o facto é até acolhido pelo Rotary International. Há mesmo Rotary Clubs que assinalam a data festiva como o Dia Internacional da Amizade.

Voltando ao arquipélago dos Açores, verifica-se que o Dia dos Amigos e o Dia das Amigas (estes, sobretudo, já que o Dia dos Compadres e o Dia das Comadres, surgindo por arrastamento, são mais fantasiosos e menos tradicionais) são celebrados em todas as ilhas. E como é que são celebrados? Habitualmente, juntam-se grupos maiores ou menores de amigos(as) comuns e marcam-se jantares, que muitas vezes se prolongam noite adiante em bares e que até incluem animadas sessões de strip-tease previamente acordadas.

Deste modo, é pouco frequente encontrar mulheres a jantar fora no Dia dos Amigos, tal como os homens ficam mais por casa no Dia das Amigas. Nas ilhas mais pequenas, os amigos vão para as adegas e tascos já preparados para os receber e, na semana seguinte, é a vez das amigas escolherem este ou aquele restaurante para se divertir.

Nas cidades maiores, existe já o hábito de os restaurantes apresentarem jantares especiais para o efeito, tal como bares com propostas de diversão apropriada. O certo é que as datas não passam despercebidas a ninguém e chegam a ser levadas tão a sério que, ora os amigos, ora as amigas, mesmo quando não saem ou não se encontram, por morarem distantes ou não terem programas comuns, muitos se contactam para desejar mutuamente um bom Dia dos Amigos ou das Amigas.

Tudo isto se passa nos Açores, onde a natureza é amiga das ilhas e é correspondida com igual amizade. Estamos a falar, portanto, de lugares em que esta celebração é, afinal, um elemento constante. Nove ilhas distanciadas e unidas num hino permanente de amizade…

 

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As ilhas que eu vejo (especial)

por João Carvalho, em 17.12.11

 

Se houvesse TGV nos Açores, teria um túnel assim.

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As ilhas que o João vê

por Ana Vidal, em 13.12.11
São estas, João? Então, em sinal de agradecimento e depois do merecido descanso dominical, sugiro que dês agora umas lições de português ao teu amigo Yahvé...

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Um açoriano em Paris – 1

por João Carvalho, em 11.12.11

Compositor e director de orquestra, Francisco de Lacerda nasceu em São Jorge e fez uma brilhante carreira internacional. Anda muito esquecido, mas deixou uma obra musical variada, mesmo que se considere marcada pela sua época, a transição de Oitocentos para Novecentos. Nesse período de ouro da intelectualidade portuguesa, foi determinante para o seu sucesso o longo tempo que viveu em Paris, onde privou com Eça de Queirós. Há cem anos, dirigia os célebres Concertos de Marselha.

 

 

Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda é natural da freguesia da Ribeira Seca, no concelho da Calheta (ilha de São Jorge, Açores), onde nasceu a 11 de Maio de 1869, no seio de uma família influente da mais antiga aristocracia açoriana: filho do político e intelectual autodidacta João Caetano de Sousa e Lacerda e irmão do médico, poeta e político José de Lacerda; os seus antepassados encontram-se entre os primeiros povoadores do arquipélago.

Aos 4 anos, Francisco dá os primeiros passos na música e no piano com o pai. A adolescência, passa-a na ilha Terceira, como aluno do Liceu de Angra do Heroísmo. Concluído o ensino secundário, embarca para o Porto e matricula-se em Medicina, mas não demora a abandonar a faculdade para enveredar definitivamente pela música. Em pouco tempo, muda-se para Lisboa e ingressa no Conservatório Nacional.

Em 1891, com 22 anos, conclui o curso com notas altas e fica no Conservatório Nacional, contratado como professor de piano. Quatro anos depois, obtém uma bolsa do Estado que lhe permite ir aperfeiçoar-se para Paris. Fica aí a morar por vários anos, com uma interrupção em 1899, altura em que regressa às suas raízes em São Jorge e onde aproveita para proceder a uma importante recolha ao nível do folclore musical.

De volta a Paris, Francisco de Lacerda é membro do júri da Exposição Universal de 1900, participando ainda na organização da participação de Portugal no evento.

Já bem sucedido no piano e no órgão, a par da composição, faz em França a sua estreia como maestro. Muito bem recebido na condução de uma orquestra, essa estreia é considerada brilhante e lança-o rapidamente como director de importantes orquestras europeias em grandes concertos, nos anos seguintes. Ao mesmo tempo que vai viajando pela Europa e adquirindo mais conhecimentos, o seu nome passa a fazer parte de reconhecidos festivais e de temporadas musicais. Entre outras iniciativas de grande mérito, funda a Associação dos Concertos Históricos de Nantes, que encabeça de 1905 a 1908.

O apogeu da sua carreira pode balizar-se entre 1902 e 1913. Ou seja: desde que começa a dirigir grandes orquestras e que toma a iniciativa de apresentar obras de compositores praticamente desconhecidos, até ser contratado, na temporada de 1912/13, como director dos Grandes Concertos Clássicos de Marselha (cargo que há-de voltar a ocupar mais tarde, com notável êxito, de 1925 a 1928).

 

FotoFrancisco de Lacerda fotografado em Paris

por Eça de Queirós

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Um açoriano em Paris – 2

por João Carvalho, em 11.12.11

 

Em 1913, Francisco de Lacerda regressa aos Açores por razões de saúde e problemas familiares. Durante oito anos, quase sempre instalado na Fajã da Fragueira, numa casa de Verão meia perdida na costa sul da ilha de São Jorge, pertencente à família, continua a recolha sobre folclore musical que tinha feito antes e dedica-se à composição. «Ou a Fragueira, ou Paris» — desabafa ele então, como que a dizer que opta por cultivar os extremos do tudo-ou-nada. O retiro faz-lhe bem aos sinais da tuberculose diagnosticada.

Novamente em Lisboa, em 1921, funda a Pró-Arte e a Filarmónica de Lisboa, mas sem sucesso. Incompreendido, encontra grande resistência à mudança no meio artístico da capital, que o entristece, e decide voltar para Paris, onde é recebido de braços abertos. Dirige orquestras em grandes audições dos maiores clássicos, que o levam a Marselha, Nantes, Toulouse e Angers.

Deixa França em 1928, de novo com problemas de saúde, e fica a viver em Lisboa, onde organiza a participação musical portuguesa na Exposição Ibero-Americana de Sevilha do ano seguinte. A partir daí, ocupa o tempo a dar continuidade ao estudo do folclore musical nacional e das obras musicais portuguesas antigas.

Francisco de Lacerda morre com 65 anos em Lisboa, a 18 de Julho de 1934, depois de um longo período de tuberculose pulmonar. Da vasta obra que deixa, destacam-se quadros sinfónicos, música de cena e de bailado e peças para órgão, piano, guitarra, trios de cordas e quartetos de cordas.

Desse legado, merecem realce especial as Trovas para voz e piano, um conjunto de 36 peças para canto e piano (algumas delas orquestradas) consideradas notáveis e que dão conta da busca que o autor fizera para reflectir a linguagem musical popular portuguesa em geral e açoriana em particular.

 

 

Francisco de Lacerda está consagrado na toponímia de Lisboa e da sua ilha-natal, na vila das Velas e na vila da Calheta, onde dá o seu nome ao jardim municipal e ao museu de São Jorge.

Tendo vivido numa época pujante de intelectuais (privou com Eça de Queirós, por exemplo), Francisco de Lacerda foi um dos incompreendidos do seu tempo em Portugal, mas encontrou com facilidade o seu percurso e o reconhecimento do seu elevado mérito no estrangeiro. O nosso país foi sempre pródigo nestes casos...

 

 

Fotos:

Fajã da Fragueira (costa sul de São Jorge): a casa de veraneio (em ruínas)

onde Francisco Lacerda se recolheu de 1913 a 1921

Velas: Rua do Maestro Francisco de Lacerda (Galeria de Carlos Pinto)

Calheta: Museu Francisco de Lacerda (museu de São Jorge)

Monumento no Jardim do Maestro Francisco de Lacerda (Calheta),

da autoria de Didier Couto

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As ilhas que eu vejo (4)

por João Carvalho, em 10.12.11

 

A estrada como uma alameda, a ampla lagoa adormecida ao lado, a alma aquecida pelas furnas, o tempo parado ali à mão.

 

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As ilhas que eu vejo (3)

por João Carvalho, em 08.12.11

 

Longe, tão longe de cimeiras em que alguns querem falar mais alto do que os outros para ter mais razão...

 

 

... e tanto, tanto chá para tomar.

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Sabrina, a ilha da discórdia – 1

por João Carvalho, em 04.12.11

A décima ilha açoriana veio à tona há 200 anos, precisamente em meados de 1811. À socapa, os ingleses plantaram-lhe uma bandeira e chamaram-lhe sua. Gerou-se um conflito diplomático, mas o caso resolveu-se no mesmo ano: ainda hoje, dois séculos volvidos, os Açores continuam com nove ilhas.

 

 

Foi exactamente há dois séculos. A Corte portuguesa estava refugiada no Brasil desde 1807, corria em Portugal a Guerra Peninsular (1807–1814). Com a ajuda (interessada e interesseira) dos ingleses, o nosso país sofria desde 1810 a terceira e última das Invasões Francesas, a que procurava resistir (como resistiu).

Logo no início de 1811, foram avistados sinais de emissão de gases no mar, próximos da costa sudoeste da ilha de São Miguel, em frente da Ponta da Ferraria (freguesia dos Ginetes), acompanhados de actividade sísmica. O fenómeno deu mostras de acalmar após umas semanas, ainda antes de terminado o mês de Fevereiro, mas a agitação das profundezas voltou com mais força a partir de Maio. Houve várias casas afectadas nos Ginetes e as falésias e rochas mais elevadas da orla marítima partiram-se e ruíram.

No dia 10 de Junho, a uns dois quilómetros da costa, o sismo gerou uma fortíssima erupção submarina e, poucos dias depois, nascia uma nova ilha ao largo da Ponta da Ferraria. Começou por ser uma ilhota arredondada, que ganhou depressa cerca de dois quilómetros de perímetro e uns 90 metros de altitude no topo, aberta ao centro numa laguna (muito semelhante ao anel do ilhéu de Vila Franca do Campo, também na costa sul de São Miguel).

Por essa altura, passava pelo mar dos Açores o HMS Sabrina, um barco de guerra inglês de três mastros armado com vinte peças de artilharia. (O mesmo veleiro veio a estar destacado na defesa costeira de Portugal e Espanha entre 1812 e 1815, por causa da Guerra Peninsular.)

 

 

A 12 de Junho, com a missão de vigiar possíveis movimentações de forças napoleónicas junto do arquipélago, o Sabrina navegava em torno das ilhas sob o comando do capitão James Tillard, que avistou ao longe uma quantidade de fumo que se soltava das águas e que confundiu com um confronto naval, rumando então ao local. Só com a aproximação é que Tillard deu conta do engano. (Mais tarde, veio a descrever o cenário que encontrou num artigo publicado no anuário Philosophical Transactions of the Royal Society, em 1812, no qual referiu «uma imensa coluna de fumo subindo do oceano» que, nos intervalos das explosões, tinha «o aspecto de uma imensa nuvem circular» que se ia elevavando e distanciando das ondas muito acima do ponto máximo de projecção das cinzas vulcânicas, estendendo-se por força do vento «de forma quase horizontal, gerando relâmpagos e trombas-de-água».)

De longe, o comandante inglês e a sua guarnicão olhavam, estupefactos e incrédulos, o fenómeno que lhes era dado testemunhar. Tillard tomou uma decisão.

 

Fotos — Miradouro e farol da Ponta da Ferraria (Ginetes, São Miguel)

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Sabrina, a ilha da discórdia – 2

por João Carvalho, em 04.12.11

Na manhã do dia 13 de Junho de 1811, o Sabrina fundeou em frente a Ponta Delgada e o seu comandante não perdeu tempo a dirigir-se a terra e a visitar o cônsul inglês residente em São Miguel, William Harding Read, ficando a saber por este dos diversos sismos há tempos sentidos na ilha e que andavam a espalhar o pânico na população e a suscitar rezas e promessas. À noite, a bordo, a imagem que retinha da erupção não o ajudou a conciliar o sono.

A 14, sem vento que lhe permitisse navegar à vela para a zona do novo ilhéu, James Tillard decidiu aproveitar o tempo disponível: voltou a terra, arranjou cavalos e partiu para os Ginetes, onde pôde observar que o fenómeno ainda se desenvolvia com violência.

No dia 15, a tripulação de Tillard conseguiu levar o barco até perto do vulcão, que continuava a aumentar, mantendo-se com vento fraco a uma distância respeitosa. O caso não era para menos e ninguém ousaria correr riscos desnecessários.

Só a 18 é que lograram chegar mais perto da ilha em formação, a cerca de cinco quilómetros, conseguindo ver o topo da cratera e os blocos, as cinzas e o vapor que eram cuspidos. Tillard entendeu então baptizar a ilha, dando-lhe o nome do navio: Sabrina.

 

 

A Sabrina foi desenhada para efeitos de registo no dia seguinte, 19 de Junho, pelo tenente John William Miles, da guarnição do barco. (Esse testemunho está disponível no National Maritime Museum, em Greenwich; o fenómeno interessou estudiosos à época e Charles Darwin também escreveu sobre o assunto.)

Depressa a ilha se elevou de dez metros para vinte metros acima do nível do mar e aparentava ter já um quilómetro de diâmetro. Perante a continuação do tempo desfavorável, o barco regressou a Ponta Delgada. Provavelmente, o capitão Tillard e o cônsul Read aproveitaram dessa vez os dias para planear um desembarque furtivo na ilha que permitisse reclamar a soberania inglesa sobre ela.

Por fim, a actividade do vulcão parou inesperadamente a 4 de Julho. Para as bandas dos Ginetes, a terra deixou de tremer, o que já não acontecia há quase um mês. Com o tempo a favor, Tillard e Read apressaram-se a navegar até à ilha, desembarcaram os dois, hastearam a bandeira inglesa e tomaram formalmente posse dela em nome de Sua Majestade britânica.

 

 

A ilha tinha atingido numas semanas perto de cem metros de altura e, como era de esperar, depressa se desencadeou um conflito diplomático entre Portugal e Inglaterra sobre a sua posse. Porém, com a Casa Real portuguesa estabelecida no refúgio do Rio de Janeiro e os ingleses a proteger o país com vários excessos de poder e regalias abusivas à mistura, os portugueses não estavam nas melhores condições para protestar em posição de força.

Só que a nova ilha açoriana, formada por basaltos ainda por compactar e consolidar, não aguentou a erosão do mar: em Outubro de 1811, a Sabrina mergulhava de regresso às profundezas do oceano, com o peso da bandeira inglesa espetada no corpo, para nunca mais ser vista. Sem terra para reclamar, a diplomacia esqueceu o caso e os Açores continuaram com nove ilhas. Do susto só ficou a memória vaga, porque destes sustos se faz o arquipélago...

 

Ilustrações

O HMS Sabrina, a ilha em formação e a erupção com tromba-de-água
(desenho feito no local pelo tenente John W. Miles a 19 de Junho de 1811)

Aguarela da erupção, com o perfil e a planta da ilha Sabrina por baixo

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As ilhas que eu vejo (2)

por João Carvalho, em 03.12.11

 

Não posso esquecer-me: o nosso Pedro Correia declarou que tomava posse da Lagoa de Santiago logo ao primeiro olhar. Cheio de inveja, mas tenho de registá-la em nome dele.

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As minhas férias nos Açores

por Ana Lima, em 03.12.11
Foi a primeira vez que andei de avião. As quatro horas de voo, feito em avião militar até à Terceira, foram passadas entre a excitação da viagem e a ansiedade de rever o meu pai, em comissão de serviço há cerca de um ano. O passeio em Angra, nesse dia calmo e cheio de sol, não fazia imaginar o tremor da terra três meses depois. Ao fim do dia a viagem para o Faial num avião já com assentos e hospedeiras a servir sumo. Chegada à ilha onde iria passar um mês a surpresa das cores, do bulício do porto e da calma no resto de uma cidade pequena e grande ao mesmo tempo. Da Horta recordo sobretudo a sensação de que estava num mundo à parte. Um mundo com um monte vulcânico em frente que nos acompanhava onde quer que fôssemos. Talvez por isso nunca me perdi. 
De manhã, sozinha, ia à praia. Sempre pelo mesmo caminho. Já conhecia de cor as casas brancas até chegar a Porto Pim. Porto Pim, Porto Pim... É extraordinária a musicalidade deste nome. A praia, com a sua areia escura, esperava-me. A mim e a poucos mais. Nessa altura do ano já fazia algum frio e as águas-vivas abundavam afastando os banhistas. 
À tarde lá vinha ela. A chuva. Estávamos em Setembro e chovia todos os dias. Recordo o cheiro intenso daquela terra molhada como se ele ali fosse diferente. E mesmo não tendo voltado àquelas ilhas tenho a certeza que a memória não me atraiçoa e ele é mesmo diferente. A casa onde passei aquele mês tinha um jardim e o jardim tinha um baloiço. Nunca mais "vivi" numa casa com jardim e com baloiço. Era lá que eu esperava a chuva. Com um livro nas mãos e o rádio ali ao lado. Às vezes a miúda da casa do lado, que tinha mais quatro anos que eu, vinha fazer-me companhia. Trazia um leitor de cassetes. Não sei se tinha mais mas eu só me lembro de uma dos Beatles. A sua favorita era "Hey Jude". Ainda é hoje uma das que mais gosto. Quando a chuva começava a cair corríamos, ora para uma casa ora para outra. E lá ficávamos a ver, da janela, a chuva com o Pico ao fundo. 
Para lá dos passeios na ilha são estes os dias que mais recordo das minhas férias nos Açores. Não tenho uma única fotografia. O rolo tinha ficado mal posto e só em Lisboa percebemos isso. Eu tinha 11 anos. Acho que posso dizer que foram as melhores férias da minha vida.
(Lembrei-me de tudo isto ao ler este post do João Carvalho)

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As ilhas que eu vejo (1)

por João Carvalho, em 01.12.11

 

Com sotaque para ouvir...

 

 

... e muita bruma para sentir.

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A terceira ilha

por João Carvalho, em 27.11.11

A 1 de Abril (é verdade) de 2009, tive de mudar-me para Angra do Heroísmo, transferido para a Terceira por motivos de trabalho. Logo nessa noite tive uma experiência "agitada". Aproveitei o primeiro fim-de-semana para um reconhecimento pelas redondezas e registei então as primeiras impressões, recuperadas para trazer agora aqui.

 

 

Recém-chegado, sou sacudido na primeira madrugada por uma inesperada "comissão de recepção": 4,8 na Escala de Richter. E tinham-me dito que não há agitação nesta terra tranquila! É verdade que ninguém se agitou. Nem eu, não sei explicar porquê. É como se nada de mal pudesse acontecer, mas não sei explicar.

É o primeiro domingo aqui. Abro a porta e sinto o sol brilhante da manhã de Primavera. Não sigo o caminho curto e estreito em cimento do jardim: cruzo deliberadamente a extensão envolvente de relva rumo à garagem, a sentir os sapatos afogados na verdura, enquanto o cheiro do mar a dois passos se junta aos aromas que crescem e o chilrear dos pássaros ensaia o concerto matinal. Paro a olhar para a árvore solitária, a meio da sebe de ibiscos que protege a frente dos olhares alheios: pardais empoleirados aos magotes; saltitantes no relvado, em contraste negro, vários melros e estorninhos partilham comigo o sol ameno.

Deixo o portão e conduzo lentamente pela estrada marginal. Atravesso a quietude da cidade que foi outrora a capital heróica do arquipélago e continua a ser sede do bispado desde tempos remotos. Bispo de Angra e dos Açores — é a designação histórica mantida até hoje.

Já nos arredores, bovinos preguiçosos ruminam lentamente, ao ritmo da natureza que regressa nesta estação do ano. Molduras de basalto negro dividem campos e pastagens em cambiantes infinitos de verde.

De quando em vez, um avião ou um helicóptero quebram o sossego no ar, indicando que há vidas movimentadas noutro ponto afastado da ilha que não pertencem a esta vida serena. A base aérea recorda que estou ligado ao mundo, nestes mares perdidos, mas não cabe no que absorvo.

Sem perder a estrada de vista, deixo o olhar deslocar-se, em intervalos, para lá das duas bermas. As molduras basálticas estendem-se pelas planícies e encostas, entrecortadas por bosques densos de mistérios.

Ainda vou ter de habituar-me a isto, conhecer os cantos, entender o que me rodeia. Mas uma coisa é certa: não faltam boas razões para me sentir bem.

 

 

Não é a primeira ilha em que me instalo para ficar nunca-sei-até-quando: a minha primeira ilha foi a Taipa, em Macau.

Nem sequer é a segunda ilha onde fico: a minha segunda ilha foi São Miguel, que acabo de deixar para trás, já com saudades.

Faço inversão de marcha e regresso a Angra com um dado já adquirido: esta é a minha Terceira...

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Este envolvimento...

por João Carvalho, em 20.11.11

Neste meu regresso à Terceira, fiz escala em São Miguel e passei algumas horas em Ponta Delgada, onde vivi três anos e onde não ia há uns dois anos e meio, desde que me mudei para Angra do Heroísmo. Guardo dentro de mim, sem o esconder, um imenso gosto por São Miguel e pela vida em Ponta Delgada, ainda que a cidade não seja especialmente atraente. Foi assim que me lembrei da primeira crónica que escrevi (com o título deste post) a pedido de uma publicação editada em Lisboa, pouco depois de me ter instalado nos Açores, em 2006. Não resisti a repescá-la.

 

 

Há qualquer coisa indefinida nos Açores que nos envolve. Em especial, na ilha espaçosa de São Miguel, a gente sente algo que está para lá do nosso olhar, do que é palpável, do que temos por óbvio. Somos misteriosamente envolvidos e vamo-nos deixando envolver.

O envolvimento imediato é a natureza. A moldura marítima da ‘ilha verde’ mal serve para conter os imensos cambiantes verdes da paisagem, que oscila entre os tons mais profundos e as manchas mais subtis. Quase temos medo de lhes tocar, para que não se estraguem.

É difícil perceber que há terra por baixo disto tudo, terra mesmo, terra pura, terra mineral, terra dura e terra mole, terra de pedra e terra de pó. É difícil encontrá-la. A terra está ali, tem de estar, mas não se vê. Com excepção de um ou outro cabeço de vegetação parca e rasteira, onde se descobrem os basaltos, tudo o resto é coberto de verde. A vegetação estende-se sem deixar terra à vista: se não é bosque denso, é pastagem ampla; se não é arvoredo, é erva; se não são arbustos de folha perene, são flores coloridas sazonais. Terra? Terra só se adivinha. Não se vê.

Continua a haver mais qualquer coisa. Percebe-se que há carinho. A ilha é lavada e aparada todo o tempo. Grupos de cantoneiros e jardineiros correm diariamente as estradas da ilha: o asfalto é lavado e as bermas são limpas; as águas pluviais, quando chegam para regar a ‘ilha verde’, acompanham livres as descidas das estradas; os homens aparam as ervas pujantes, plantam arbustos, preenchem intervalos; os da frente trabalham com cortadeiras e juntam com instrumentos de cabo os pequenos montes que os de trás recolhem em viaturas. Cantoneiros e jardineiros abraçam a natureza e plantam carinhos.

Mas há mais qualquer coisa. A opinião pública vem aos jornais: aqui, o sinal de trânsito ameaça dobrar-se; ali, aquele muro pequeno foi derrubado e está a desmanchar-se; acolá, aquela árvore precisa de ser podada e reencaminhada para o céu; além, aquela curva da estrada está a receber uns deslizes de terras quando chove. Depois, a gente vai aos lugares e vê que já se compôs: o sinal foi recolocado, o muro foi refeito, a árvore foi cuidada, as terras foram sustidas e a curva foi limpa.

Há mais qualquer coisa. Os sentidos percebem o que se alcança, mas pressente-se algo mais que nos rodeia. A via rápida que contorna Ponta Delgada não tem qualquer designação fria e formal. Não se chama primeira ou segunda circular, nem via de cintura interna ou externa, tão pouco eixo Norte-Sul ou Nascente-Poente. Nas placas avisadoras que a apontam, lê-se o nome que lhe dão: «envolvente».

É poético, é carinhoso. É também um detalhe, é certo. Por isso é ainda mais poético, mais carinhoso. Nunca podia ser simples via rápida: é «envolvente». É assim, em São Miguel: há sempre mais qualquer coisa. É este afago constante que nos envolve...

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Bem visto

por João Carvalho, em 23.10.10

«Visite os Açores com voo incluído» — diz o imaginativo anúncio televisivo. Bem visto. Pode parecer-vos um exagero, mas olhem que não é. Pelo contrário: dá sempre imenso jeito viajar para os Açores de avião. A sério. É a melhor maneira. Vão por mim.

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Uma vitória clara de Cavaco

por Pedro Correia, em 30.07.09

 

Há sete meses, escrevi aqui o seguinte: o novo estatuto dos Açores, tal como saiu da Assembleia da República, está ferido de inconstitucionalidade. Cavaco tem razão: os poderes do Chefe do Estado não podem ser reduzidos ou condicionados por lei ordinária. Só uma revisão constitucional poderia fazê-lo. Sócrates não comprou apenas uma guerra inútil: comprou uma guerra condenada ao fracasso. Político e jurídico. Hoje o Tribunal Constitucional traduziu esta análise política num acórdão que confirmou oito inconstitucionalidades nos 140 artigos daquele estatuto, dando razão ao Presidente da República. Como sempre me pareceu evidente, José Sócrates comprou uma guerra inútil com Cavaco Silva para agradar ao socialista Carlos César, líder do Executivo açoriano. O bom relacionamento institucional e pessoal com Cavaco, que constituía um dos melhores trunfos do primeiro-ministro, degradou-se irremediavelmente devido a este episódio, que em nada confirma as tão propaladas qualidades políticas de Sócrates.

Sucede que os sociais-democratas não podem retirar qualquer aproveitamento deste lamentável episódio. Tal como também sublinhei aqui, se o PS andou mal, o PSD conseguiu andar pior ao não saber traduzir numa posição parlamentar clara o veto político do Presidente. A abstenção social-democrata na votação final do diploma foi mais do que cobardia política: foi um sinal óbvio de incompetência.

Sete meses volvidos, não consigo encontrar outro adjectivo que melhor defina o comportamento do PSD na Assembleia da República.

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Zonas protegidas

por João Carvalho, em 01.02.09

Com o mau tempo de volta, vejo que a marginal da região de Lisboa foi fortemente fustigada. Lembrei-me do Forte de S. Julião, protegido pelo património histórico: se estivesse a morar lá um certo ex-ministro da Defesa, aposto que teria passado a noite na cama bem protegido com uma câmara-de-ar à volta da cintura e flutuadores enrolados no pescoço.

Venham até cá. Está um dia de sol e as temperaturas, como sempre, estão amenas. Nem as zonas protegidas das ilhas não menos protegidas (que integram os núcleos mundiais preservados da biosfera) sofreram alterações. São outlets da natureza...

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