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Portugal, Espanha e o Brexit

por Diogo Noivo, em 30.06.16

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Os portugueses votaram nos partidos que compõem a actual maioria de governo, mas não a validaram nas urnas. Já os espanhóis tiveram esse privilégio. Durante os últimos seis meses, o PSOE, o segundo partido mais votado nas eleições legislativas de Dezembro, tentou repetidamente formar uma maioria de governo com o Podemos e com o Ciudadanos. O objectivo era impedir o Partido Popular, o mais votado, de governar. Meio ano depois, estes partidos submeteram-se novamente ao voto popular e o resultado é claro: PSOE perde votos e mandatos, obtendo o pior resultado de sempre; o Ciudadanos perde votos e mandatos, tornando-se ainda menos relevante; o Podemos, apesar de coligado com a Izquierda Unida, não consegue mais mandatos, perde mais de 1 milhão de votos e falha o lugar de principal força de esquerda. O Partido Popular, inimigo público número 1 para os três partidos que pugnaram por um arranjo parlamentar, reforça a vitória obtida em Dezembro com mais 14 deputados e mais 600 mil votos. Em Espanha, ensaiou-se uma maioria para desalojar o partido mais votado, e os partidos envolvidos nesse empreendimento foram seriamente penalizados. Já o partido que foi impedido de assumir funções saiu mais forte do acto eleitoral. Talvez seja uma coincidência.

 

Terá sido o Brexit?

É impossível determinar com exactidão o efeito real do Brexit nas escolhas feitas pelos eleitores espanhóis. No entanto, os dados sugerem que esse efeito foi marginal. Em primeiro lugar, PSOE e Ciudadanos, dois dos três partidos mais penalizados, têm fortes convicções europeístas e são contrários ao Brexit. Por isso, é pouco plausível que o eleitorado os tenha sancionado por força do “sim” no referendo.

Em segundo lugar, a flutuação de votos em relação às eleições de 20 de Dezembro sugere que os resultados do passado domingo se devem maioritariamente a assuntos internos. Isto é especialmente visível quando olhamos para a coligação entre Podemos e Izquierda Unida, o Unidos Podemos. Com excepção de Barcelona, o Unidos Podemos foi penalizado em todos os municípios onde governa o Podemos, o que indicia eleitores com motivações locais. Subamos agora um degrau na escala político-administrativa e olhemos para as comunidades. Em Madrid, na Catalunha e na Comunidade Valenciana, o Unidos Podemos perdeu os votos que pertenciam à Izquierda Unida, o que sugere um desagrado dos votantes comunistas causado por guerras internas da extrema-esquerda (cada vez mais audíveis). Por último, se o Unidos Podemos fosse prejudicado por causa do seu anti-europeísmo, seria expectável que houvesse uma transferência de votos do UP para partidos defensores da causa europeia (em particular, para o PSOE). No entanto, o número de votos perdidos pelo Unidos Podemos é praticamente igual ao número de novos abstencionistas.

A motivação dos eleitores é diversificada e cheia de subtilezas, logo não existem causas únicas para explicar resultados eleitorais. No entanto, em Espanha, os dados sugerem motivações de política interna. Assim sendo, coincidência ou não, insisto: os três partidos que tentaram desalojar o partido mais votado foram todos penalizados.

 

Bipartidarismo

No que respeita ao bipartidarismo, há semelhanças entre os vizinhos ibéricos. Em Portugal, nas últimas eleições legislativas, a ameaça à hegemonia do PSD e do PS era substancialmente menor do que a ameaça sentida pelos dois principais partidos espanhóis. No entanto, embora com um cenário parlamentar mais fragmentado, PP e PSOE continuam a ser os principais partidos nacionais. A “nova política” chegou a Espanha, mas ainda não se instalou.

À esquerda encontramos mais parecenças: em Portugal como em Espanha, os socialismos e as extremas-esquerdas na oposição não capitalizaram nas urnas o descontentamento popular contra os governos neo-liberais, contra os Executivos que tinham na austeridade uma opção ideológica, contra a direita subserviente a Berlim, contra aqueles que aniquilam o estado social. Era um aproveitamento inevitável, segundo boa parte da imprensa ibérica. Porém, não aconteceu. Haverá nesta pequena península um divórcio entre a opinião pública e a opinião publicada?

 

Pactos de Governo

Tal como em Portugal, a soma dos derrotados em Espanha ultrapassa a barreira da maioria absoluta. Juntos, PSOE, Unidos Podemos e Ciudadanos contam com 188 deputados (são necessários 176 para a maioria absoluta). A aritmética bate certo, mas a política dificilmente a viabilizará. Ciudadanos e Unidos Podemos são incompatíveis e o perfil Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, não se coadunará com cedências de princípios a troco de lugares ou de influência legislativa. Rivera fará exigências que a coligação de extrema-esquerda não poderá cumprir. E vice-versa. Por outro lado, estes últimos seis meses degradaram bastante as relações entre socialistas e podemitas. O acordo entre estas duas forças políticas é teoricamente possível, mas são várias as personalidades de relevo no PSOE que o rejeitam. Vale o que vale, mas o sms enviado por Pablo Iglesias a Pedro Sánchez continua sem resposta – esta terça-feira, na primeira entrevista televisiva depois do acto eleitoral, o líder do Podemos queixou-se do silêncio socialista.

Apesar de derrotados nas urnas, PSOE, Ciudadanos e Unidos Podemos, mantêm o veto a Mariano Rajoy. Em política tudo é possível e 48 horas são uma eternidade que permite vários avanços e recuos. Vão aparecendo sinais de mudança. Mas, para já, as linhas vermelhas são praticamente as mesmas.

 

Principais diferenças de contexto entre Portugal e Espanha

Das várias diferenças entre os cenários políticos de Portugal e de Espanha, três são especialmente significativas: (i) houve maior utilitarismo na esquerda portuguesa; (ii) perante a possibilidade real de integrar um Governo, a extrema-esquerda espanhola viu-se obrigada a apresentar um programa de governo que fosse para além das utopias e dos protestos habituais – e os eleitores do centro ficaram horrorizados com o que viram; (iii) em Espanha houve seis meses de debate e de escrutínio das intenções partidárias, nomeadamente dos propósitos socialistas. Os seis meses de interregno entre escrutínios foram importantes. O eleitorado falou e não ficou tudo na mesma.

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Os blogues não têm que dar notícias. Não estão vinculados a códigos deontológicos. Abreviando, os blogues não são órgãos de comunicação social no sentido estrito do conceito. No entanto, com a série A caminho do 26J, o Delito de Opinião (DO),  ainda que inadvertidamente, acabou por competir com a comunicação social portuguesa.

 

O DO chegou primeiro à notícia sobre a coligação entre Podemos e Izquierda Unida, quando esta era ainda um simples pré-acordo sem designação oficial. Estávamos a 10 de Maio e não tinha ainda iniciado esta série. Escrevi que, em política, dois mais dois não são quatro e expliquei as minhas dúvidas sobre à eficácia eleitoral desta coligação. Mais tarde, quando a união da extrema-esquerda se oficializou, regressei às minhas dúvidas e analisei as hesitações e os problemas existentes no seio do Podemos e da Izquierda Unida, sem nunca esquecer as sondagens que iam marcando o debate político. Naquele momento, dominava a ideia segundo a qual esta coligação fidelizava votos e tinha potencial de crescimento – uma ideia que, de acordo com os responsáveis das empresas de sondagens, esteve na base dos erros de previsão. Tive as minhas dúvidas e não me enganei: a coligação limitou-se a somar os deputados das duas forças políticas que a compõem, e perdeu mais de 1 milhão de votos. Portanto, a união não acrescentou nada, sendo incapaz de alcançar o sorpaso previsto em todas as sondagens. Ainda no que respeita à extrema-esquerda, o DO foi, salvo o erro, o primeiro em Portugal a comentar o novo e encantador amor de Pablo Iglesias pela social-democracia.

 

Em matéria de sondagens, o DO publicou os resultados do CIS antes da generalidade da imprensa portuguesa. Era a última de muitas sondagens a garantir um PSOE ultrapassado pela esquerda. A obliteração dos socialistas às mãos do Unidos Podemos estava então praticamente garantida. Ainda assim, os números foram comentados com a prudência que todas as sondagens recomendam.

 

Aqui no DO comentámos o debate televisivo entre os quatro principais candidatos e, pelo que pude perceber, fizemo-lo antes de qualquer jornal ou televisão portugueses. Com base nessas e noutras declarações partidárias, fizemos um mapa de alianças, uma breve geometria de possíveis pactos de governo. O resultado das eleições alterou seriamente as relações de força entre os partidos, mas a avaliar pelas declarações pós-eleitorais do PSOE, o mapa que aqui apresentámos continua a fazer algum sentido.

 

Na noite eleitoral, apresentámos as sondagens à boca de urna praticamente em simultâneo com a imprensa portuguesa e, com base na cronologia feita pelo Pedro Correia, assinalámos o fracasso das sondagens antes da generalidade das televisões. Aliás, pela leitura que fui fazendo dos jornais online, os seguidores do DO foram os primeiros a ler um comentário à admissão de derrota feita por Iñigo Errejón, número dois do Podemos.

 

Espanha é o único país com o qual Portugal tem fronteira. É o principal destino das nossas exportações e a principal origem das nossas importações. Desconfiamos dos ventos que de lá vêm, mas a verdade é que Espanha está longe de ser irrelevante para Portugal. No DO fez-se o que se pôde para manter os nossos leitores actualizados sobre as eleições legislativas do passado domingo, a primeira vez na História da democracia espanhola em que o país foi forçado a repetir um acto eleitoral. Espero que este A caminho do 26J tenha sido útil. 

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O erro das sondagens em Espanha

por Diogo Noivo, em 27.06.16

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Sondagens à boca das urnas TVE/FORTA e COPE/ABC (imagem El Mundo)

 

A noite de ontem foi uma vitória para o Partido Popular e uma derrota para as sondagens. Não é a primeira vez que as empresas de sondagens falham em Espanha. Porém, os especialistas na matéria contrapõem e dizem que não é bem assim. Segundo eles, uma sondagem é como uma fotografia, um simples retrato de um dado momento. Como os eleitores mudam de opinião, é normal que uma sondagem se possa tornar obsoleta ao fim de alguns dias. Por essa razão, recomendam os especialistas, durante uma campanha eleitoral é importante realizar sondagens de maneira regular e periódica com vista a identificar a evolução da tendência de voto e, consequentemente, a obter uma imagem mais nítida da vontade dos eleitores. As sondagens realizadas pelo El Mundo e pelo El País estariam portanto correctas no momento em que foram realizadas. Tal como estaria correcta a sondagem realizada pelo CIS (que chegou ao Delito de Opinião antes de ter sido anunciada na imprensa portuguesa), o instituto cujos resultados são, em regra, mais fidedignos. O problema é que as sondagens à boca das urnas - feitas mais de 15 dias depois - descreviam um quadro em tudo semelhante. Semelhante e errado. Ou seja, olhando para os resultados finais e tendo presente a imagem dada pelas várias sondagens, uma parte muito significativa dos eleitores mudou de opinião quando já estavam metidos na cabine de voto, ou pura e simplesmente mentiram às empresas de sondagens. O que é pouco plausível.

Quando analisamos as sondagens realizadas à boca das urnas, percebemos que o erro não foi generalizado. Na verdade, apenas existem desvios importantes em dois partidos: No Partido Popular e no Unidos Podemos. Dos nove partidos mais votados, as sondagens enganaram-se em dois. Foi o suficiente.

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Feito o escrutínio dos votos expressos em urna, o debate sobre a fiabilidade das sondagens voltará a estar na ordem do dia. O falhanço das previsões não foi total, mas quase. Ainda que interessante, deixemos essa discussão de lado e olhemos para os resultados finais.

 

O Partido Popular volta a ganhar as eleições e nisso as sondagens acertaram. O que não foram capazes de prever foi a dimensão da vitória: o PP reforça o seu grupo parlamentar com mais 14 deputados. E, em relação ao último acto eleitoral, obtém aproximadamente mais 600 mil votos. Todos os partidos criticavam o PP e todos pediam a demissão de Mariano Rajoy. Mas o PP cresce em votos e em mandatos. Quem almejava a demissão de Mariano Rajoy e sonhava com uma geringonça con salero tem agora a vida muito mais complicada.

 

O PSOE sobrevive ao evitar o sorpaso. Os socialistas mantêm-se no lugar de segunda força política mais votada, o que lhes permite superar as expectativas criadas por todas as sondagens. Porém, o PSOE perde 5 deputados e cerca de 156 mil votos. Como o Pedro Correia aqui comentou, na actual composição do parlamento, a diferença entre o PP e o PSOE é de 33 deputados. Essa diferença passa agora a 52. Se tivermos presente que nas últimas eleições, em Dezembro, o PSOE teve o pior resultado desde 1977, os números saídos destas eleições são dramáticos. Depois de contados os votos, a única vitória do PSOE é manter-se como líder da esquerda. O que é manifestamente pouco.

 

Se o PSOE vence as expectativas, o Unidos Podemos foi vítima delas. O cabeça de lista Pablo Iglesias admitiu que os resultados não são satisfatórios. Acrescentou que pretende privilegiar o diálogo entre as forças políticas progressistas – um diálogo que dinamitou quase diariamente ao longo dos últimos seis meses. Por último, Iglesias disse ter enviado um sms a Pedro Sánchez. Mas não obteve resposta. A união do Podemos com a Izquierda Unida não acrescentou nada: 71 mandatos, a mera soma dos deputados que estas duas forças políticas já tinham. A campanha do Unidos Podemos teve como mote "la sonrisa de un país". No entanto, Pablo Iglesias não sorriu quando falou esta noite ao país.

 

O Ciudadanos perde 8 mandatos, vendo o seu grupo parlamentar reduzir-se de 40 para 32 deputados. O apelo do PP ao voto útil terá funcionado, o que prejudicou o Ciudadanos de Albert Rivera. Este partido não foi determinante nos últimos seis meses e continuará a não sê-lo. Há uns tempos, um bom amigo disse-me que o Ciudadanos é o PRD espanhol. Talvez tenha razão.

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Está a ser uma noite imprópria para cardíacos mas de sonho para quem gosta de política. Com cerca de 81% dos votos escrutinados, o Partido Popular vence as eleições e reforça o seu grupo parlamentar. A dinâmica do voto útil parece ter funcionado: os deputados perdidos pelo Ciudadanos vão todos para o PP. Os representantes do Ciudadanos vão culpando o sistema eleitoral.

O Unidos Podemos, por agora, não ultrapassa o PSOE. A confirmarem-se estes os resultados, Pedro Sánchez, Secretário-Geral dos socialistas, sobrevive. Iñigo Errejón, secretário de política e número dois do Podemos, acabou de fazer uma primeira apreciação do escrutínio. Disse que não são os resultados esperados. Acrescentou que estes números atrasam o processo de mudança em Espanha, isto é, inviabilizam a nova transição que o Podemos tanto ambicionava. Por outras palavras, reconhecem ter ficado aquém dos seus objectivos. A noite será longa.

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Como fui escrevendo aqui na série A caminho do 26J, o sorpaso está praticamente garantido. A extrema-esquerda do Unidos Podemos ultrapassa o PSOE pela esquerda, remetendo os socialistas para um terceiro lugar vexatório, sobretudo se tivermos presente a importância do PSOE nas últimas quatro décadas. A dúvida consiste em saber se, para além de perder em votos, os socialistas perderão também em mandatos. A sondagem à boca das urnas da TVE e uma sondagem da COPE afirmam que sim: os socialistas sofrem uma derrota em toda a linha.

 

Vai aparecendo nos plateaux televisivos uma ideia, cada vez mais comum, segundo a qual os socialistas apoiarão o Unidos Podemos e farão de Pablo Iglesias o novo Presidente de Governo. Parece-me improvável, mas não há antecedente que permita uma extrapolação segura. Nunca o PSOE desceu tanto. E, por isso, nunca um Secretário Geral socialista esteve numa posição eleitoral tão difícil.

 

A participação eleitoral às 14h era semelhante à que se verificou nas eleições anteriores, mas às 18h já era a mais baixa de sempre. Com base nas sondagens e na distribuição de votos por círculo eleitoral, PP e Unidos Podemos beneficiarão da abstenção, e o PSOE sairá prejudicado.

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A caminho do 26J (VII) – Pactos de Governo

por Diogo Noivo, em 25.06.16

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Pela primeira vez na História da democracia espanhola, o país é forçado a repetir eleições. Amanhã, Espanha vai a votos pela segunda vez num espaço de seis meses. Embora os principais líderes partidários garantam que não haverá uma terceira ronda, qualquer análise prudente das sondagens não descarta essa hipótese. Mais uma vez, tudo dependerá dos pactos de governo – ou da falta deles. Com base nas sondagens, mais do que o número de votos, será a vontade dos partidos a decidir se haverá governo – e que tipo de governo será. A pouco menos de vinte e quatro horas das generales não há acordos políticos evidentes. Poucos são os partidos que mostram as cartas e assumem as suas preferências de parcerias políticas, apesar de instados por diversas vezes a abrir o jogo. O mapa das geometrias interpartidárias é difuso, mas podemos resumir a informação conhecida em 6 pontos.

 

1.

O Unidos Podemos é claro: apenas está disponível para celebrar um pacto de governo com o PSOE. Quer fique em segundo lugar – como anunciam as sondagens –, quer fique em terceiro ou em quarto, a formação política capitaneada por Pablo Iglesias só admite associar-se aos socialistas. Iglesias ainda não foi explícito na reivindicação da Presidência de Governo. Mas vai avisando todos os dias que, em política, existem dois princípios indissociáveis: (i) as eleições são ganhas pelo partido que tem mais votos (dissidência ontológica da geringonça portuguesa), uma vez que o PSOE, embora perdendo em votos, pode ainda vencer em mandatos; (ii) não menos importante, a Chefia do Executivo pertencerá a quem reunir mais apoios. Em suma, o Unidos Podemos confia que será a segunda força política mais votada e exige o apoio do PSOE para fazer de Pablo Iglesias o próximo Presidente de Governo de Espanha.

 

2.

O Partido Popular é igualmente claro: vence quem tem mais votos e mais mandatos. Os populares defendem que Espanha precisa de uma grande coligação de governo, isto é, de PP, PSOE e Ciudadanos no Executivo. Celebrar um acordo com o Unidos Podemos nem sob lei marcial. Para o PP, o Unidos Podemos constitui uma ameaça ao amplo consenso constitucional no qual Espanha se alicerça, para além de ser um perigo para a economia, a quarta maior da zona euro.

 

3.

No PSOE as intenções são menos evidentes. O discurso político é óbvio e compreensível: Espanha necessita de mudar e a única alternativa viável está no Partido Socialista Obreiro Espanhol. Até ao lavar dos cestos é vindima e o PSOE dará o tudo por tudo até domingo para evitar que o Unidos Podemos o ultrapasse pela esquerda.

Para os socialistas, dada a enorme polarização eleitoral, assumir preferências de coligação traduzir-se-ia em votos perdidos. No entanto, uma vez que o eleitorado está consciente da importância dos pactos de governo, esta estratégia de esconder o jogo lançou um manto de incerteza (até de suspeição) sobre as reais intenções socialistas, o que está a prejudicar o partido na captação dos votos indecisos. Os eleitores mais à esquerda temem que o PSOE viabilize um governo do PP, enquanto os votantes mais ao centro estão horrorizados com a possibilidade de um pacto PSOE-Unidos Podemos. Pedro Sánchez tenta quadrar o círculo: insiste no veto a Mariano Rajoy, que já não é exactamente um veto ao PP, ao mesmo tempo que massacra Pablo Iglesias, recordando diariamente – e bem – que foi o líder do Podemos quem impediu a criação de um governo progressista de esquerda. Sánchez tem sido violento nas críticas ao cinismo e à ambição de poder de Iglesias. Porém, não foi ainda taxativo na recusa de um acordo com a coligação de extrema-esquerda. Sánchez promete que haverá governo depois de domingo. Visto que o PSOE está obrigado a escolher entre PP e Unidos Podemos, resta saber que tipo de governo sairá do 26J.

 

4.

O Ciudadanos afasta o que considera serem os extremos, ou seja, não apoiará o PP nem o Unidos Podemos. Há, no entanto, um matiz. O veto de Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, à direita termina com a saída de Mariano Rajoy. O PP substitui o seu presidente e há acordo. No entanto, Rivera disse esta semana estar disponível para se sentar com Rajoy e Sánchez depois de domingo, sem nunca recuar no veto ao primeiro. A avaliar pelas sondagens, uma coisa parece certa: sozinho, o Ciudadanos não chega para viabilizar um governo do PP ou do PSOE. O partido não foi determinante nos últimos seis meses e tudo indica que assim continuará.

 

5.

Vistas as posições dos principais partidos, não será abusivo especular sobre a criação de uma frente PSOE-Ciudadanos que exija a demissão de Mariano Rajoy como condição para integrar um governo chefiado pelos populares. Porventura adivinhando esta estratégia, o presidente do PP deixou uma pergunta no ar: "se eu ganho eleições e tenho que sair, os restantes líderes partidários ficam todos no mesmo sítio?". Se esta estratégia PSOE-Ciudadanos for para a frente, alguém terá que se imolar no altar da pátria. E talvez a coisa não se resolva com apenas uma demissão. Caso contrário, e assumindo que as intenções dos principais partidos são para levar a sério, terceiras eleições à vista.

 

6.

Para Espanha, tal como para Portugal, a adesão ao projecto europeu marca fim do processo de transição democrática. Simboliza a criação de um vínculo ao Estado de Direito, de um compromisso com o modelo democrático da Europa Ocidental. Em suma, a adesão à Europa foi uma mensagem enviada por Espanha ao mundo e, no plano interno, a todos aqueles que pugnavam pela manutenção de um Franquismo sem caudillo: o país mudou, as instituições mudaram, há uma nova ordem constitucional e “entrar na Europa” torna o processo de transição democrática irreversível. Dada a importância que a Europa tem para Espanha e, por outro lado, visto que a ordem constitucional constitui um dos elementos centrais no debate político espanhol, o Brexit pode revelar-se um cautionary tale. Isto é, pode assumir a premência de um sinal de alerta. Não que seja suficiente para alterar as intenções de voto, mas talvez baste para alterar as intenções partidárias. PP, PSOE e Ciudadanos, os partidos subscritores da ordem constitucional vigente, podem ver no Brexit um sintoma de um mal sistémico que apele à sua responsabilidade e, consequentemente, facilite acordos de governo que isolem o populismo do Unidos Podemos.

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A caminho do 26J (VI) – A recta final

por Diogo Noivo, em 20.06.16

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Espanha entra hoje na última semana de campanha eleitoral. Mantém-se no horizonte a forte possibilidade de obliteração dos socialistas às mãos do Unidos Podemos. Por essa razão, a coligação de extrema-esquerda aposta tudo no voto útil. O discurso de recta final assenta num quadro eleitoral binário: ou vence o Partido Popular, um partido do “sistema”, da “casta”, dos “corruptos”; ou vence o Unidos Podemos, o projecto da “regeneração”, da “esperança”, da “refundação moral” do regime.

Pelo meio, Pablo Iglesias, líder do Podemos, lançou uma hábil ofensiva à direcção nacional do PSOE. Em conversa com jornalistas, confessou admirar José Luis Rodríguez Zapatero, antigo Primeiro-Ministro e antecessor de Pedro Sánchez na liderança do PSOE. O cabeça de lista do Unidos Podemos alardeou as excelentes relações pessoais que mantém com Zapatero, acrescentando que procura com frequência aconselhamento junto do antigo Presidente de Governo, o “melhor de sempre”, na sua opinião. Com estas declarações, Pablo Iglesias quis reclamar para si o estatuto de viúva política do zapaterismo (se é que tal coisa existe) e, dessa forma, debilitar a direcção nacional do PSOE, já muito fragilizada pelo resultado que obteve nas eleições de 20 de Dezembro e, pior, pelo resultado que sondagens adivinham para o próximo domingo. Os socialistas reagiram com notório enfado. Tentaram virar o discurso de Iglesias, dizendo que se este tem tanto apreço por Zapatero o melhor que tem a fazer é unir-se às fileiras socialistas, sobretudo dado o novo amor de Iglesias pela social-democracia. No entanto, da resposta dos socialistas apenas sobreveio nervosismo e algum desespero. O PSOE está à porta do sepulcro onde já descansam os socialistas gregos do PASOK.

 

O Partido Popular tem a vida facilitada: perante as sondagens, qualquer voto que não vá para o PP é um voto a favor do populismo. A estratégia dos populares consiste então num “a favor” do país, do Estado de Direito Democrático, do quadro constitucional e da Europa. O PP tem o seu eleitorado mobilizado e tudo indica que será novamente o partido mais votado. Tal como o Unidos Podemos, os populares também aproveitam a debilidade dos socialistas: acenam o ramo de oliveira e sugerem um governo de coligação. Esta pode ser a única hipótese de sobrevivência do PSOE – o que, no entanto, dificilmente evitará o fim político de Pedro Sánchez.

 

Já o Ciudadanos combate desde uma posição de equidistância. Foi mais claro do que nunca na recusa a um governo presidido por Rajoy – não votará a favor nem se absterá. Não se trata de um veto ao PP, mas sim ao seu presidente. Albert Rivera e outros altos quadros do Ciudadanos chegaram mesmo a propor putativos substitutos de Mariano Rajoy. Ainda que haja no eleitorado do PP disponibilidade para abdicar do actual líder, quando a sugestão vem de fora o efeito pode ser contraproducente: qualquer militante popular que sugira a mudança de líder será agora visto como membro de uma quinta coluna do Ciudadanos. Para além de continuar implacável na denúncia do populismo do Unidos Podemos, Rivera inovou este fim-de-semana ao abandonar a contemporização com os socialistas do PSOE, acusando-os de cumplicidade com o populismo de Iglesias. De qualquer forma, o Ciudadanos já definiu o preço do seu apoio: a implementação de dez grandes reformas nos primeiros 100 dias de governação.

 

As sondagens afastam por completo a existência de uma maioria absoluta. E, fazendo fé nas previsões de votos e de mandatos por partido, não se antevêem pactos de governo fáceis. Mas a possibilidade de um governo do Unidos Podemos deverá – ou deveria – desbloquear o impasse. Existem sérios riscos associados à governação da extrema-esquerda - riscos que fui referindo aqui no DELITO - e este fim-de-semana o Podemos ofereceu novos motivos de preocupação: Juan Carlos Monedero, co-fundador e bússola ideológica do Podemos, desferiu um importante golpe contra o princípio de separação de poderes.

Em França, os partidos do centro democrático fizeram um cordão sanitário em redor da Frente Nacional para evitar que o partido de Marine Le Pen saísse vitorioso das eleições locais de Dezembro de 2015. Porventura não seria má ideia se o mesmo sucedesse em Espanha, com Podemos e Izquierda Unida remetidos para um bloco de quarentena.

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A caminho do 26J (V) – O debate

por Diogo Noivo, em 14.06.16

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Ontem à noite, Mariano Rajoy (PP), Pedro Sanchez (PSOE), Albert Rivera (Ciudadanos) e Pablo Iglesias (Unidos Podemos) defrontaram-se no primeiro e único debate entre os principais candidatos a Presidente de Governo de Espanha. Os indecisos rondam os 30%, a maior percentagem desde a transição democrática, e a possibilidade de que um dos quatro partidos obtenha a maioria absoluta é tão real como um unicórnio. O cenário político, embora diferente daquele que saiu das eleições de 20 de Dezembro, continua a ser de bloqueio. O debate era, portanto, decisivo. Tentei resumir as 9 páginas de notas e de rabiscos que fui tirando ao longo das duas horas de debate. Eis o resumo possível:

 

1. Unidos Podemos“No soy tu rival, Pedro”

Pablo Iglesias fez valer a posição de segunda força política nacional que lhe foi outorgada pelas sondagens. Tratou o PSOE com condescendência e ignorou o Ciudadanos, conferindo assim a Mariano Rajoy a condição de único adversário. Falou de igual para igual com o Presidente de Governo em funções. De acordo com as sondagens, só um dos dois poderá chefiar o Executivo, uma ideia que Iglesias explorou à saciedade, tanto na forma como no conteúdo. Defendeu-se dos vários ataques que lhe foram dirigidos por Pedro Sánchez, Secretário-Geral do PSOE, com a frase “no soy tu rival, Pedro”, recentrando dessa forma as baterias em Rajoy e no Partido Popular.

Tendo por base o programa eleitoral do Unidos Podemos, um dos moderadores perguntou a Iglesias se ia a Bruxelas com um Orçamento de Estado onde dispara a despesa pública. Iglesias disse que sim. Acrescentou que há outros líderes europeus a fazer o mesmo, entre os quais “el señor Costas (sic), de Portugal”. Portugal esteve no debate uma única vez e foi na qualidade de exemplo respeitável para o Unidos Podemos

 

2. Partido Popular“Governar no es fácil”

Dos quatro candidatos, Mariano Rajoy é o único candidato com experiência governativa. Por essa razão, o presidente dos populares tentou transformá-la num activo. E foi esse o eixo central das suas intervenções.

Enfatizou os números positivos: exportações, criação de emprego, inflação, entre outros. Defendeu-se como pôde em matéria de corrupção, um tema onde chocou bastante com Albert Rivera e Pablo Iglesias. Para Rajoy, a obsessão dos outros partidos com a corrupção no PP é fruto de uma “mentalidade inquisitória”.  

Rajoy foi atacado por todos, mas não perdeu a pose de estadista. A última legislatura mostra que a imutabilidade do presidente do PP é simultaneamente um defeito e uma virtude. Ontem foi uma virtude. E venceu a guerra das expectativas: não foi tão atacado como se esperava, dividindo o pelourinho com Pablo Iglesias – o que beneficiou o presidente dos populares.

 

3. PSOE“Los extremos no lo permitieron”

Pedro Sánchez estava obrigado a atacar. Tinha dois objectivos indissociáveis a cumprir: constituir-se como a única alternativa viável ao PP; e recuperar a liderança da esquerda. A cada objectivo, Sánchez fez corresponder uma mensagem. Em primeiro lugar, disse não ter formado governo porque foi impedido pelos extremos, leia-se pelo PP e pelo Podemos. Ao colocar Rajoy e Iglesias em extremos opostos, Sánchez pretendia tornar-se o representante do centro moderado. Em segundo lugar, e apesar das inúmeras críticas a Iglesias, o fel do líder socialista foi quase todo dirigido a Mariano Rajoy. Isto é, tentou içar-se ao lugar de principal oponente da direita.

Sánchez não trouxe nada de novo, não foi capaz de surpreender e não explicou as poucas propostas que apresentou. Foi incapaz de perturbar Mariano Rajoy, ao contrário do que sucedeu no frente-a-frente para as eleições de 20 de Dezembro.

 

4. Ciudadanos“Frenar el populismo”

Alert Rivera foi impiedoso com Pablo Iglesias. Entre outros ataques, recuperou um tweet do líder do Podemos a respeito da vitória do Syriza na Grécia - "chegou a mudança: primeiro a Grécia, depois Espanha". Ou seja, não fosse alguém esquecer-se, Rivera lembrou sempre que pôde ao eleitorado que Iglesias é populista e radical. 

O presidente do Ciudadanos foi igualmente duro com Mariano Rajoy, mas deu um passo ao lado. Isto é, deixou de ser explícito na exigência de renúncia, dizendo agora que o líder do PP deveria reflectir sobre a sua permanência na liderança do partido. De forma hábil, afirmou que a manutenção de Rajoy contribui para o crescimento do populismo do Podemos. E não se esqueceu de referir uma sondagem recente onde a maioria dos votantes do PP dizem admitir a saída de Rajoy se isso facilitar os acordos de governo.

Albert Rivera dedicou-se demasiado aos soundbites e às intenções oníricas, adquirindo um tom demagógico que é raro nele.

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A caminho do 26J (IV) – última sondagem

por Diogo Noivo, em 09.06.16

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Imagem El País

O Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS), um organismo público e independente cuja função é o estudo científico da sociedade espanhola, publicou hoje uma sondagem sobre as próximas eleições de 26 de Junho. Tal como as demais sondagens, afirma que a coligação Unidos Podemos ultrapassa os socialistas do PSOE, tornando-se desta forma a segunda força política mais votada. O PSOE é então remetido para o difícil – e, no caso, vexatório – lugar de kingmaker. Feitas as contas, e tendo presente que a maioria absoluta se obtém com 176 deputados, o PSOE ver-se-á forçado a escolher entre Mariano Rajoy (PP) e Pablo Iglesias (Unidos Podemos). Se este estudo do CIS se confirmar nas urnas, um dos dois será o próximo Presidente de Governo.

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Nas últimas semanas, Portugal entreteve-se a discutir as origens do fascismo, uma cortesia de José Rodrigues dos Santos que as luminárias doutorais da pátria agradeceram com regozijo e soberba. Espanha tem agora a possibilidade de seguir as pegadas do seu vizinho ibérico: Pablo Iglesias, líder do Podemos, afirmou esta semana que a coligação por ele dirigida é social-democrata. Mais, empenhou-se em demonstrar que a social-democracia é um sucedâneo directo do marxismo. E, para rematar a faena, muniu-se das suas credenciais de professor de ciência política para afirmar que Karl Marx e Friedrich Engels eram social-democratas.

 

Como seria de esperar, Alberto Garzón, Coordenador Federal da Izquierda Unida (IU) e comunista confesso, foi rapidamente cercado por jornalistas interessadíssimos em saber o que pensava ele deste novo amor ideológico do seu parceiro de coligação. “Sinto-me confortável nesta aliança com o Podemos”. A vida em política não é fácil, sobretudo quando se está ao lado de Pablo Iglesias. No entanto, porque a política é um espaço onde impera a eficiência e porque há um PSOE para eliminar, a intelectualidade da IU reuniu-se com a imprensa para matar a polémica com uma cartilha preparada para a ocasião: “El comunismo es una tradición política que nace como escisión teórica y práctica de la socialdemocracia. Por eso, Lenin, Marx y todos los comunistas del siglo XIX eran de partidos socialdemócratas, y hablaban en sus textos como socialdemócratas. Solo que entonces socialdemócrata significada lo que hoy comunismo”.

 

Não me meterei no debate de filosofia política pois temo que a concorrência será mais do que muita. E deixarei a dissonância cognitiva de Iglesias para os psicólogos. Contudo, vale a pena dar uso à ciência política – a ciência social, não o veículo de doutrinação militante que alguns fazem passar por ciência nas universidades. Num ensaio muito recomendável, o cientista político Víctor Lapuente traça o perfil da nova estirpe de populismos que, à esquerda e à direita, tem despontado na Europa. Entre outras características, Lapuente adverte que à mínima oportunidade de conquistar o poder, independentemente do país em causa, os populistas (descritos pelo autor como “xamãs”) deslocam o seu discurso para o centro do espectro ideológico. Isto explica parte os conflitos de Marine Le Pen com o seu pai, fundador da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen. Explica igualmente o desdém que Syriza e Podemos nutrem pela tradicional dicotomia esquerda-direita. A ausência de grilhetas ideológicas declaradas oferece uma liberdade de actuação táctica essencial para o acesso ao poder. Numa referência implícita ao célebre trabalho de Zigmunt Bauman, Víctor Lapuente afirma que estes populismos configuram partidos gasosos, e não líquidos. Há nos novos populismos uma obsessão com a conquista do poder ou, nas palavras de Pablo Iglesias, com “asaltar el cielo”. Resta saber se, perante a nova social-democracia do Podemos, este partido espanhol continuará a ser convidado de honra do Bloco de Esquerda em campanhas eleitorais.

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Seis meses de gestão

Vistos os resultados das eleições de 20 de Dezembro de 2015, todos os partidos se recusaram a celebrar um pacto com o PP ou mesmo a viabilizar a posse de um governo Popular no parlamento – o Ciudadanos chegou a admitir essa hipótese, mas não com Mariano Rajoy na liderança do partido. Aliás, generalizou-se a ideia que Rajoy é “o” problema e que a sua saída facilitaria a resolução do impasse político. A ser verdade, é difícil explicar o como e o porquê de afastar alguém que ganha eleições e que o faz nas condições mais adversas.

 

Sabendo que não dispunha dos apoios necessários para ser investido, Mariano Rajoy recusou a indigitação oferecida pelo Rei Filipe VI. Passou então a bola para o campo da oposição. O resultado foi um impasse político motivado pelas razões que escrevi aqui. As conversações entre PSOE, Ciudadanos e Podemos, e em particular as guerras à esquerda, sequestraram por completo o espaço mediático, o que ofereceu a Mariano Rajoy a possibilidade de não ter que entrar em despesas políticas.

No entanto, os problemas não desapareceram. Os processos judiciais que envolvem militantes do PP tiveram novos desenvolvimentos (todos pouco edificantes) e Mariano Rajoy perdeu um ministro da sua confiança pessoal ao ser revelado que este tivera contas na offshore do Panamá.

 

Chega o mês das eleições. Segundo as sondagens, o PP repete a vitória, embora continue a faltar a maioria que permite governar sem depender de terceiros. Rajoy é mal amado, lidera um partido popular apenas de nome, enfrenta condições extraordinariamente adversas, mas continua a ser o líder mais votado. Haverá uma componente de mistério nestes resultados, mas é possível elencar algumas das razões que explicam os números favoráveis do PP: (i) o eleitorado dos Populares é – junto com o eleitorado do Unidos Podemos – dos mais mobilizados para o acto eleitoral; (ii) o PSOE, adversário tradicional do PP, não acerta com a mensagem e não fixa os seus eleitores; (iii) Rajoy, ainda que sem carisma, é visto como alguém simpático, simples e acessível, o que contrasta com os desvarios de alguns quadros do PP envolvidos em processos judiciais; (iv) o radicalismo do Unidos Podemos parece assustar o centro, votantes que ainda decidem eleições; (v) Rajoy não entrou na arena de insultos e de tensão que caracteriza a pré-campanha, preservando assim uma imagem de serenidade e de sentido de Estado que é útil a quem quer convencer os espanhóis de estar em melhores condições para liderar o país.

 

O tom da campanha

Esta segunda-feira o PP divulgou o seu vídeo de campanha eleitoral. Simples, original, com sentido de humor e com uma mensagem positiva. Numa frase, a ideia é a seguinte: sabemos que somos impopulares, sabemos que uma parte importante do eleitorado está cansada de nós, mas não votem nos outros apenas para nos penalizar pois está em jogo o futuro do país. A frase central, "A Favor", é um apelo à responsabilidade dos cidadãos, mas é igualmente um recado para os partidos da oposição, especificamente para o PSOE e para o Ciudadanos. Ou seja, é um estender de mão a estes dois partidos, convidando-os a abandonar as linhas vermelhas e as acrimónias pessoais.

 

 

Para já, não resultou. Todos continuam com o PP na mira. O Unidos Podemos, cuja razão de ser é o sorpaso ao PSOE e disfarçar a perda de votos sofrida pelo Podemos, esconde estes propósitos inconfessáveis em público sob a capa de desinstalar a direita do poder. O PSOE, acossado pela sua esquerda, tenta conquistar o centro e recuperar alguns dos votos perdidos para o Unidos Podemos, mas sempre defendendo que a mudança só e possível com um governo progressista de esquerda. Ou seja, tem como alvo o PP. O Ciudadanos admite negociar com todos, sendo no entanto taxativo na recusa em chegar a um acordo com Rajoy – Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, chegou a dizer que se estivesse Pablo Casado na liderança do PP tudo seria mais fácil. Mas a campanha ainda vai no adro.

 

[A primeira parte deste texto pode ser lida aqui]

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Mariano Rajoy Brey é um caso raro de sobrevivência política. O seu percurso, sobretudo nos últimos anos, é uma história quase inexplicável de resistência a tudo e a todos (e até a ele próprio). Perdeu duas eleições legislativas consecutivas sem nunca abandonar a liderança do Partido Popular (PP). Depois de oito anos na oposição, obtém uma maioria absoluta e forma governo para ver-se a braços com uma crise internacional, uma crise nacional e uma crise de reputação partidária. Repete a vitória nas legislativas de Dezembro de 2015, embora sem a maioria necessária para formar governo. Passados seis meses de chefia de um Executivo em gestão, Rajoy volta a apresentar-se às eleições generales do próximo dia 26 de Junho.

 

De derrota em derrota…

 

Em 2003, Mariano Rajoy é escolhido para suceder a José Maria Aznar na presidência do Partido Popular e, consequentemente, para assumir o papel de candidato a Presidente de Governo nas eleições legislativas do ano seguinte. À mesa dos mentideros, Rajoy é visto como a consequência da vaidade de Aznar. Zeloso do seu legado político, Aznar terá visto em Rajoy um político tímido e sem carisma. Portanto, alguém que não faria sombra aos oito anos do Executivo “España va bien” por ele liderado. Trate-se ou não de um maquiavelismo mal intencionado de quem conspira nos arrabaldes do poder, a verdade é que suceder a uma figura carismática e forte como Aznar não foi certamente uma tarefa fácil.

Tudo parecia estar de feição para uma vitória do PP nas generales de Março de 2004. Porém, dias antes das eleições, um brutal atentando terrorista, a reacção do PP a esse atentado e a organização de manifestações “espontâneas” contra o governo Popular provocaram um terramoto no sentido do voto dos eleitores. O PP perdeu as eleições para o PSOE de José Luis Rodríguez Zapatero. Rajoy manteve-se na liderança do partido.

Quatro anos mais tarde, em Março de 2008, Rajoy volta a apresentar-se como candidato a Presidente de Governo. Perde novamente as eleições para os socialistas de Zapatero. Rajoy permanece na presidência do PP.

 

…até à vitória aritmética.

 

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Após oito anos de oposição, Mariano Rajoy consegue vencer as eleições de 2011. O PP obtém a maioria absoluta com 186 mandatos (num total de 350) e com 44% dos votos. Mas as razões para festejar rapidamente desapareceram. A crise internacional destapou um conjunto de problemas estruturais do país, em particular no sector imobiliário. Apesar de não ter pedido um programa de resgate formal, o Governo espanhol viu-se obrigado a implementar sérias medidas de austeridade. Como um problema nunca vem só, o espaço público foi invadido por uma torrente de casos de corrupção e de branqueamento de capitais onde estavam envolvidos militantes do PP – um desses casos, porventura o mais célebre, já tem versão cinematográfica. Olhando acriticamente para as notícias, parece não haver no PP um único lugar impoluto: das estruturas nacionais às locais, de militantes de base a altos quadros do partido, nada parece escapar à obscuridade do crime financeiro e do abuso de poder. Pelo contrário, um olhar atento verá que não há uma situação de corrupção endémica, que o PP não é o único partido com problemas com a justiça, e que em muitos dos casos ainda não foi deduzida acusação. Contudo, dos vários partidos, o PP é aquele cuja reputação mais sofre com os sucessivos casos de corrupção e de branqueamento de capitais.  

O contexto político saído destes quatro anos de governação prenunciava uma hecatombe eleitoral sem precedentes. Contra Rajoy jogava ainda o aparecimento de novos partidos, o Podemos e o Ciudadanos, muito críticos do bipartidarismo PP-PSOE, e que foram capazes de mobilizar eleitorado e de demonstrar uma sagacidade invulgar nas suas estratégias de comunicação política. Novos ou velhos, todos os partidos da oposição escolheram o PP como alvo a abater. No dia 20 de Dezembro de 2015, o PP perde votos e mandatos, mas ainda assim é o partido mais votado – o PP obtém 28,72% dos votos, o PSOE 22,01%, o Podemos 21,67% e o Ciudadanos 13,93%.

 

[Publicarei a segunda parte deste texto amanhã]

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A coligação entre Podemos e Izquierda Unida (IU), designada Unidos Podemos, consegue o "sorpaso": a avaliar pelas sondagens, será a segunda força política mais votada nas próximas eleições, ultrapassando os socialistas do PSOE pela esquerda, que são atirados para um pálido terceiro lugar. A pouco menos de um mês do acto eleitoral, as sondagens publicadas pelo El País e pelo El Mundo coincidem e dão ao Unidos Podemos cerca de 24% dos votos.

 

A união entre as duas forças de esquerda não é pacífica, desde logo no seio dos partidos que a constituem. Iñigo Errejón, número dois do Podemos, expressou em público as suas dúvidas, nomeadamente se a união dos dois partidos se traduzirá numa soma dos votos por eles obtidos nas eleições de 20 de Dezembro. Mas mais importante, Errejón acrescentou que o Podemos deve ser um partido transversal. Por outras palavras, deve evitar a tradicional dicotomia esquerda-direita e, à semelhança dos demais populismos que enxameiam a Europa, aferrar-se à lógica novos vs. velhos,  reformadores vs. sistema, “los de arriba vs. los de abajo”. Portanto, Iñigo Errejón teme que a aliança com a IU, aos olhos do eleitorado do Podemos, seja interpretada como uma cedência ao “sistema” e, por outro lado, uma inserção deliberada do Podemos no lado esquerdo do espectro político.

 

Do lado da IU também há dúvidas, embora menos audíveis. Julio Anguita, líder histórico da IU, sempre hesitou bastante a respeito da união com o Podemos. Mas houve um momento em que tudo parecia estar ultrapassado. No evento que oficializou a aliança eleitoral, Anguita deu um abraço emotivo a Pablo Iglesias e chegou a estar prevista a sua entrada nas listas para o parlamento, em lugar não elegível, como figura tutelar que apadrinha a união. No entanto, dias depois, Anguita afastou a possibilidade de fechar a lista do Unidos Podemos em Córdova e não tem participado na pré-campanha. Anguita disse não estar disponível para regressar à política activa, nem de forma simbólica. Observa “con asombro” que, desde que o Podemos propôs a sua integração nas listas “se extiende como un reguero de pólvora la idea de que yo voy a ir en el número seis, cuando nadie desde ese día me ha consultado sobre mi opinión al respecto.”

 

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Perante este quadro, e fazendo fé nas sondagens, o êxito eleitoral do Unidos Podemos é demérito do PSOE. Nas eleições de 20 de Dezembro, depois de quatro anos de políticas de austeridade capitaneadas pelo Partido Popular, o PSOE obteve o pior resultado desde 1977. Passadas as eleições, foi incapaz de formar governo e, segundo as sondagens do El País e do El Mundo, continua a perder votos, agora para o Ciudadanos e para a abstenção. Para rematar o cenário desastroso, note-se que o lugar de segunda força política está em jogo tanto em número de votos, como em mandatos. Para já, é pouco provável que o PSOE seja derrotado pelo Unidos Podemos em mandatos. Por isso, a aliança de esquerda, para além da nova aposta nos sorrisos, avisa diariamente que as eleições são ganhas por quem tem mais votos. O recado é claro. Em suma, o PSOE está há seis meses em maus lençóis e, vendo de fora, parece não saber como resolver o problema.

 

A confirmarem-se os resultados apresentados pelas sondagens, Pedro Sánchez, secretário-geral do PSOE, tem quatro caminhos: (i) viabilizar um governo do PP; (ii) celebrar um acordo pós-eleitoral com o PP para formar governo; (iii) viabilizar um governo do Unidos Podemos; ou (iv) entrar em pacto pós-eleitoral com o Unidos Podemos. O Ciudadanos será uma peça importante no momento em que Sánchez tiver que escolher. Mas seja qual for a opção, o PSOE corre o risco de ser o novo PASOK. E seja qual for a opção, Pedro Sánchez dificilmente permanecerá na liderança do PSOE.

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