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Uns quantos álbuns de 2014 (20)

por José António Abreu, em 24.01.15

 

Abandoned City, de Hauschka. 

 

Cheguei a Hauschka (o alemão Volker Bertelmann) através da violinista Hilary Hahn quando, em 2012, os dois lançaram Silfra, uma dúzia de temas improvisados. Hauschka já lançara vários álbuns por essa altura, incluindo Salon des Amateurs, de 2011, onde Hahn também colaborou. A base da música do alemão é o piano, preparado com vários objectos para lhe modificar o som (à la John Cage, embora Hauschka afirme que desconhecia o trabalho de Cage quando teve a ideia). Tanto Salon des Amateurs como Abandoned City funcionam muito à base de ritmos. As melodias são simples mas os temas adquirem complexidade e sofisticação devido aos efeitos (introduzidos pelos objectos mas também por atrasos e reverberações electrónicas) que, mesmo quando ele não tem convidados (como em Abandoned City), geram um leque de sons que parece impossível terem resultado apenas de um piano. Evocando cidades reais abandonadas na sequência de acidentes ou conflitos (Pripyat, perto de Chernobyl; Agdam, no Azerbeijão), Abandoned City é por vezes melancólico, por vezes ameaçador, por vezes quase dançável. Sendo talvez o trabalho mais depurado de Hauschka, deixa ainda assim no ar a questão de saber até onde será ele capaz de levar o conceito. A resposta, porém, também pode estar no álbum: Who Lived There, um tema suave e melódico, indicia que o alemão possui capacidades criativas suficientes para, se for necessário, dispensar a introdução de bolas e de pedaços de papel no piano.

 

(E pronto. Esta série fica por aqui.)

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Uns quantos álbuns de 2014 (19)

por José António Abreu, em 23.01.15

 

Hozier, de Hozier.

 

Hozier é um irlandês de 24 anos que saltou para a ribalta (primeiro local, depois também no Reino Unido) nos finais de 2013, quando o tema Take Me to Church atingiu o segundo lugar da tabela de singles irlandesa e o respectivo vídeo se tornou viral na internet. Take Me to Church é rock com ligeiro sabor gospel, abordando a relação difícil entre os irlandeses e a Igreja Católica, o vídeo uma denúncia da violência contra os homossexuais, citando especificamente a situação na Rússia. No primeiro álbum, lançado há cerca de quatro meses, Hozier continua a introduzir nuances de blues em temas que conseguem manter-se ligeiramente frágeis (no bom sentido) ainda que por vezes cresçam até soarem a rock de estádio. Extrair optimismo de assuntos difíceis sem tombar em lugares-comuns parece ser uma das capacidades do irlandês.

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Uns quantos álbuns de 2014 (18)

por José António Abreu, em 22.01.15

 

Monuments to an Elegy, dos Smashing Pumpkins.

 

Em várias ocasiões, o ego de Billy Corgan pareceu atingir o tamanho de uma galáxia de dimensão média. Se os primeiros álbuns dos  Smashing Pumpkins (o inicial Gish, que comprei sem ouvir - há duas dúzias de anos, a net era um boato estranho - por recomendação do defunto jornal Sete, o fantástico Siamese Dream, que os pôs no mapa, e o monumental Mellon Collie and the Infinite Sadness, que por instantes os transformou numa das maiores bandas do mundo) justificavam todas as megalomanias, a maioria da música que Corgan (sozinho, com bandas momentâneas ou em nome dos Abóboras) lançou desde então (e em particular desde Machina / The Machines of God, de 2000), não era má mas esquecia-se em dois minutos e trinta e nove segundos (fiz o teste mas não foi fácil porque me esquecia de desligar o cronómetro no mesmo instante em que me esquecia da música). A situação evoluiu com Oceania, o álbum anterior a este, e continua a evoluir com Monuments to an Elegy, um conjunto de nove canções curtas e globalmente melodiosas, onde a raiva (por vezes espalhafatosa) e o desespero (por vezes lamuriento) habituais em Corgan cedem lugar a algo mais parecido com maturidade (ou talvez resignação, que - quem diria - pode afinal ser coisa boa). Não trazendo o que quer que seja de verdadeiramente novo (é rock alternativo baseado em guitarras, com acrescentos de sintetizadores), não indo ficar na história (até porque o rock continua fora de moda), Monuments to an Elegy parece-me o melhor trabalho de Corgan em muitos anos. A única coisa grandiloquente nele é mesmo o título.

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Uns quantos álbuns de 2014 (17)

por José António Abreu, em 21.01.15

 

Nikki Nack, de tUnE-yArDs.

 

tUnE-yArDs é basicamente Merril Garbus, uma ex-marionetista capaz de juntar ritmos aparentemente desconexos de forma tão perfeita como António Lobo Antunes une palavras nos títulos dos seus livros mais recentes. Não obstante já terem decorrido uns meses desde que o álbum foi lançado, ainda estou a tentar decidir de que forma é esta canção (o primeiro single) genial - se pela capacidade de invenção, descomplexidade (música assim merece palavras novas) e ritmo dançável que apresenta, se por constituir a conjugação de sons mais irritante que saiu em 2014. Decidam por vocês mesmos ou - quem sou eu para exigir autonomia às pessoas? - perguntem a quem vos costuma fornecer as opiniões. O resto do álbum segue a mesma linha, sendo quiçá um pouco menos melódico.

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Uns quantos álbuns de 2014 (16)

por José António Abreu, em 20.01.15

 

Rua da Emenda, de António Zambujo.

 

Zambujo classificou este álbum como um ponto de chegada. Percebe-se. Tem um pouco de tudo o que fez no passado, das sonoridades típicas de Portugal (incluindo as do fado onde iniciou a carreira) a sons, ritmos e palavras de muitos outros locais, com destaque para o Brasil, para o Uruguai e para a França (com uma curiosa versão de La Chanson de Prévert, de Gainsbourg, que, admito, ainda não me conquistou por completo). Tem também - coisa sempre louvável e mais rara do que deveria ser - doses saudáveis de humor. O grande desafio de Zambujo poderá estar no próximo: um ponto de chegada, quando esta não é definitiva, pressupõe uma nova partida e um novo percurso. 

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Uns quantos álbuns de 2014 (15)

por José António Abreu, em 19.01.15

 

Everybody Down, de Kate Tempest.

 

Não sou o maior fã mundial do hip-hop, em grande medida porque a raiva e contestação que costumam conferir-lhe sentido tendem a esgotar-se ou a parecer artificiais assim que os projectos obtêm sucesso. Este álbum de Kate Tempest agradou-me por constituir não uma série de queixas ou acusações provindas de quem nasceu (ou quer parecer ter nascido) em ambiente económico difícil mas um conjunto de mini-histórias bem delineadas, assentes em letras inteligentes que procuram muito mais a evocação do que o efeito fácil. No fundo, é tanto um álbum de música como uma obra literária,  facto compreensível quando Tempest também se dedica a escrever poesia (ganhou o prémio Ted Hughes com o poema narrativo Brand New Ancients, que costuma apresentar em espectáculos ao vivo) e peças de teatro. Nesse sentido, perde bastante se ouvido como música de fundo ou enquanto se faz qualquer outra coisa - incluindo ler posts do Delito.

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Uns quantos álbuns de 2014 (14)

por José António Abreu, em 18.01.15

 

 Are We There, de Sharon Van Etten.

 

A carreira de Sharon Van Etten começou quando entregou um CD-R com músicas a Kyp Malone, dos TV on the Radio, e consolidou-se ao gravar Tramp, o álbum de 2012, no estúdio de Aaron Dressler, um dos gémeos (e principal compositor) dos The National. Como referências, seria difícil conseguir melhor. Em Are We There Van Etten justifica-as plenamente, criando sonoridades densas e melancólicas, com uma languidez constantemente ameaçada por vibrações subterrâneas - e pelas letras. Na verdade, se o álbum tem algum defeito, é poder constituir uma dose ligeiramente excessiva de melancolia e desencanto. Seja como for, e respondendo à questão posta no título, se Sharon não está lá, está certamente quase a chegar.

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Uns quantos álbuns de 2014 (13)

por José António Abreu, em 17.01.15

 

Songs of Innocence, dos U2.

 

Bono não se me tornou insuportável na última dúzia de anos porque compensa a imagem de autoproclamado arauto da solidariedade entre nações polvilhando as letras que escreve e canta com lembretes de auto-ironia (em The Miracle: We got […] music so I can exaggerate my pain). A polémica em torno do lançamento de Songs of Innocence interessa-me fundamentalmente por ter dificultado a apreciação honesta dos temas que o compõem. E sobre estes já disse o suficiente. 

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Uns quantos álbuns de 2014 (12)

por José António Abreu, em 16.01.15

 

Corrente, dos Clã.

 

O principal problema dos Clã não é de expressão mas conseguirem manter atractiva a pop inteligente e sofisticada que fazem quando a) já ultrapassaram os vinte anos de carreira (para mais, numa época e numa categoria de música em que a novidade impera), b) já surgiram em múltiplos projectos paralelos que lhes aumentaram a notoriedade mas também fizeram crescer o risco de muita gente se fartar deles, c) vários dos seus temas foram submetidos ao desgaste (o esforço que fiz para não escrever «ignomínia») de servirem de genérico a telenovelas e afins, d) a música é consumida de forma cada vez mais desatenta, circunstância que beneficia temas de subtileza mais limitada que os deles. Passando sobre tudo isto, nenhuma outra banda em Portugal tem conseguido manter consistentemente um nível tão elevado, balanço perfeito entre música ultra-burilada que consegue não soar excessivamente produzida, letras que moldam mas respeitam a língua portuguesa, e extraordinária presença em palco. E depois, claro, há Manuela Azevedo.

 

Gouveia, 2008. Dependendo do preço, posso fotografar casamentos e baptizados.

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Uns quantos álbuns de 2014 (11)

por José António Abreu, em 15.01.15

 

Tough Love, de Jessie Ware.

 

Em 2012, o primeiro álbum de Jessie Ware recebeu excelentes críticas mas não me convenceu por aí além. Estava cheio de temas bem feitos e ambiciosos, com ritmo dançável (à la Beyoncé, digamos), mas, no que me diz respeito, sem o que quer que fosse de verdadeiramente especial.

Em 2014, o segundo álbum de Jessie Ware recebeu críticas menos entusiásticas mas agradou-me bastante. Continuando a ser pop relativamente standard, afigura-se-me mais ponderado e subtil, fugindo a sonoridades e poses grandiloquentes.

O desempate deve acontecer lá para 2016.

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Uns quantos álbuns de 2014 (10)

por José António Abreu, em 14.01.15

 

St. Vincent, de St. Vincent.

 

Annie Clark incomodou muita gente em 2014. Produziu um vídeo tão estilizado e cerebral que mestres zen e especialistas em feng shui ainda estão a reordenar ideias. Respondeu às acusações de ser uma tipa fria e cerebral - a repetição do termo é propositada - com uma actuação no Saturday Night Live que incluiu sons à guitar hero, executados (por uma mulher, valha-nos deus) com passinhos de bebé e expressão impassível (o vídeo acima permite uma ideia, embora aproximada). Cantou - com aquele tom (e pose) de quem percebeu a piada três quartos de hora antes de todos os outros - acerca do momento em que sentiu vontade de se despir em pleno deserto, acabando a fugir nua de uma cascavel (a história foi apresentada como verdadeira - mas será?). Também cantou (em pose e tom similares) a tirada do ano (de acordo com a votação de um membro do Delito de Opinião) : Oh, what an ordinary day, take out the garbage, masturbate... I´m still holding for the laugh. Tudo isto partindo de um álbum a que decidiu não dar outro título que não o seu nome artístico, sabe-se lá se por pretender garantir que tudo o que lá vem são reflexos genuínos de quem ela é na verdade, se por ter chegado à conclusão de que chamar-lhe Actor (como o que lançou em 2009) ou algo parecido se tornou redundante. Quando a pose (para mais, ferozmente inteligente) é mantida em permanência, ainda faz sentido chamar-lhe pose?

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Frase internacional de 2014

por Pedro Correia, em 14.01.15

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«Somos todos americanos.»

Barack Obama

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceu destaque esta frase:

«Os corruptos são um perigo, já que são adoradores de si mesmos.»

Papa Francisco

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Frase nacional de 2013: «Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo.» 

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Uns quantos álbuns de 2014 (9)

por José António Abreu, em 13.01.15

 

Sylvan Esso, dos Sylvan Esso.

 

Sylvan Esso é um duo composto pela cantora folk Amelia Meath, das Mountain Man, e pelo produtor de música electrónica Nick Sanborn. A sonoridade do seu primeiro álbum pende para o lado electrónico da balança mas a voz de Meath, bem como alguns ritmos (mais evidentes no tema de abertura, um daqueles casos em que a primeira reacção tende a ser «WTF?» mas depois não apenas tudo encaixa como parece estranho ter parecido estranho), conferem ao projecto um sabor levemente peculiar que me agrada bastante.

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Uns quantos álbuns de 2014 (8)

por José António Abreu, em 12.01.15

 

A Bunch of Meninos, dos Dead Combo.

 

Podia ter constituído um epifenómeno, com a duração de um par de álbuns. A música podia ter estagnado, não ultrapassando o efeito de novidade. A imagem, elaborada mas altamente irónica e artificial, podia não ter resistido ao desgaste. E, contudo, Tó Trips e Pedro Gonçalves têm conseguido expandir e variar a sua música de modo a não dar espaço a acusações de rentabilização de uma fórmula esgotada, impedindo de caminho que a imagem surja como simples truque de marketing. A Bunch of Meninos segue uma direcção menos claro do que Lusitânia Playboys ou Lisboa Mulata, contendo uma amálgama ainda mais abrangente de fado, western spaghetti, jazz, rock'n'roll, sonoridades mariachi e africanas. Aqui e ali tem bateria e percussões mas, globalmente, parece mais simples e descarnado do que os discos anteriores, sendo por isso menos imediato. Fica a pergunta de sempre - e agora, para onde? -, feita com muito mais curiosidade do que cepticismo.

 

(Porque os temas que ilustram são bastante diferentes, incluo dois vídeos.)

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Uns quantos álbuns de 2014 (7)

por José António Abreu, em 11.01.15

 

The Both, dos The Both.

 

Quando, há pouco mais de um ano, Aimee Mann passou por Portugal, Ted Leo já a acompanhava, fazendo a primeira parte dos concertos. Cantavam mesmo juntos alguns temas desenvolvidos pelos dois, os quais iriam fazer parte de um álbum a lançar em 2014. O álbum saiu e, apesar de ter sido muito pouco publicitado, é talvez o melhor de Aimee em vários anos. A carreira de Ted Leo foi feita à base de sonoridades mais agressivas do que as habituais na música da ex-Till Tuesday e a nota que ele introduz, sem alterar decisivamente o estilo de Mann, confere-lhe não apenas um poder acrescido (conferir o segundo tema, por volta dos 4'45", no mini-concerto acima) mas, curiosamente, também um elevado grau de leveza. Não apenas a conjugação de vozes funciona bem como - era visível em palco e é visível nos videoclips oficiais - existe uma verdadeira cumplicidade entre ambos, baseada numa assinalável - por vezes quase adolescente - dose de humor.

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Uns quantos álbuns de 2014 (6)

por José António Abreu, em 10.01.15

 

LP1, de FKA Twigs. 

 

Quase todas as listas de melhores álbuns do ano que vi foram encimadas por uma de duas obras: Lost in the Dream, dos The War on Drugs, e LP1, de FKA Twings. Ambos me deixaram com sensações contraditórias mas, sensivelmente pelos mesmos motivos que tanta gente pareceu apreciá-lo, Lost in the Dream cansou-me depressa (soa-me a rock clássico com uma pitada de psicadelismo - combinação nada recente - e outra de presunção). O caleidoscópio de sons (onde se inclui a voz, por vezes mecânica, por vezes carnal) erigido pela britânica Tahliah Barnett, no entanto, ainda me deixa a pensar que muito está a escapar-me. E, no que me diz respeito, isso costuma ser uma coisa boa.

 

P. S.: Este é certamente um dos vídeos mais polémicos do ano.

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Uns quantos álbuns de 2014 (5)

por José António Abreu, em 09.01.15

 

Down Where the Spirit Meets the Bone, de Lucinda Williams.

 

Lucinda Williams manteve-se sempre ligeiramente na sombra de outros nomes da country, nunca tendo atingido o estatuto de estrela. A partir de certa altura, esse estatuto também já não seria adequado, uma vez que a música dela se espraiou em direcção aos outros géneros tipicamente americanos. Down Where the Spirit Meets the Bone é um álbum duplo com 20 temas e mais de uma centena de minutos, facto só por si assinalável numa época em que muitos álbuns não atingem os trinta. Não tem propriamente surpresas mas inclui rock clássico, country-soul, blues em que se sente a humidade dos pântanos do Louisiana. E a voz rouca de Lucinda, que nunca foi especialmente forte mas exsuda genuinidade e experiência de vida.

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Uns quantos álbuns de 2014 (4)

por José António Abreu, em 08.01.15

 

 True, de Legendary Tiger Man.

 

Comecemos por uma constatação: o lendário homem-tigre está domesticado. Basta comparar capas e folhetos dos seus álbuns. A nudez feminina (e, num dos casos, dele próprio) desapareceu. Títulos como Fuck Christmas, I Got the Blues foram substituídos por um singelo True, o qual levanta a questão se saber se era então falso o homem-tigre altamente sexuado e ligeiramente demoníaco do passado. Enfim, suponho que aos quarenta e tal anos um tipo tem direito a assentar. Tem direito a tornar-se um homem-gato ou, vá lá, um homem-lince (que os linces até podem ser selvagens mas não assustam ninguém). Felizmente, podemos limitar-nos a ouvir a música - e ela continua excelente, um pedaço dos confins dos Estados Unidos num Portugal fadista.

 

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Capas de outros tempos.

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Uns quantos álbuns de 2014 (3)

por José António Abreu, em 07.01.15

  

The Future's Void, de EMA.

 

Ao segundo álbum, EMA (a americana Erika M. Anderson) continua mergulhada nas questões da identidade num mundo cada vez mais cibernético e impessoal, onde toda a gente cria alias virtuais para esconder a insatisfação da vida real, e onde a privacidade é um conceito cada vez mais difícil de apreender - e de defender. The Future's Void (o título é claro sobre o nível de optimismo de Anderson) inicia-se com um tema que, não se aprofundando a letra, até soa upbeat (e a anos noventa), antes de mergulhar em sonoridades mais densas. A preocupação com a tecnologia, porém, é vista quase sempre a partir de um prisma emocional muito pessoal. Aqui e ali, é como se Anderson não estivesse apenas a cantar sobre assuntos que deviam preocupar toda a gente mas a tentar esconjurar o receio de constituir apenas mais uma peça na engrenagem: makin a living off of takin selfies; is that the way that you want it to be?

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Coisas que valeu a pena ouvir em 2014

por José Navarro de Andrade, em 07.01.15

Só oiço jazz, género que me deixa musicalmente saciado. De vez em quando, se bem orientado, faço tímidas incursões no espesso território da música dita clássica ou oiço na rádio uma canção a que não fico indiferente. Afirmar de modo tão taxativo este meu gosto pelo jazz não me faz especialmente refinado, assim como alguém que radiantemente despeite o jazz não se torna mais irónico. Convém, portanto, não contribuir para essa deplorável forma de arrogância que presume o seu gosto pessoal como mais interessante e inteligente que o de outrem.

Para o leigo ou desinteressado, o jazz é monótono; uma infindável repetição de acordes digressivos em cima de uma base harmónica por vezes insólita, outras vezes modesta. Por ter prescindido da palavra, também parecerá inexpressivo e melodicamente rudimentar. No entanto, esta pequena ilha musical habitada por aficionados grisalhos é um pouco como o nó da gravata: há bastante tempo que não está na moda, mas há muita gente que o faz todos os dias.

Em 2014, tal como noutros anos, produziram-se no jazz gravações de gabarito, mesmo que ninguém esteja em condições de assegurar que daqui a 10 anos ainda sejam recordadas. Tal imprecisão reflete-se nas escolhas dos melhores trabalhos do ano. Rever as diversas e prolíficas listas enunciadas pelos patriarcas da crítica por esse mundo fora, resulta na constatação de que não existem duas selecções iguais, todas fascinantes e nenhuma despropositada. Esta que abaixo se compõe será, assim, mais uma entre tantas, maculada (afinal como as outras…) por um gosto pessoal e por um inapelável alinhamento com o pós-modernismo marsaliano dos anos 80 a que os prosélitos do vanguardismo chamarão de conservador (se não percebeu o significado da frase anterior não se preocupe, é apenas uma private joke jazzística).

(Salvo se o leitor for psicanalista, considere-se a ordem aleatória):

“Road shows, volume 3” de Sonny Rollins, provando que os deuses ainda falam connosco.

“Magic 201”, em que Frank Wess demonstra qualidades equivalentes às do vinho do Porto.

“The art os conversation”, um diálogo que dura há 30 anos entre o pianista Kenny Barron e o contrabaixista Dave Holland – finalmente sós…

“Trip” em que o idiossincrático Tom Harrell (clinicamente esquizofrénico, Harrell só encontra paz mental na música) vai de viagem com o tenor Mark Turner para um lugar que só eles sabem.

“The Imagined savior is far easier to paint” o terceiro passo do trompetista Ambrose Akinmusire confirma-o com o “ai jesus” do actual momento do jazz. Que ele debique noutros géneros musicais (como fez Jason Moran em “All rise”) é caso para se ficar atento ao destino destas direcções.

“Habitat” de Christien Jensen Orchestra. Longe vão os tempos das grandes orquestras de jazz, não há dinheiro para tais aventuras. E no entanto Christine Jensen logrou juntar um ensemble de 20 elementos, prescindiu do clássico swing e obteve uma inigualável textura lírica.

“Quiet Pride: The Elizabeth Catlett Project” de Rufus Reid. Transfigurar esculturas (de Elizabeth Catlett) em música é a conseguida ambição desta obra. Mas o melhor é ouvir como um contrabaixista que sempre foi complementar (o que no jazz não é defeito, apenas modéstia), atinge semelhante grau de requinte e primor aos 70 anos.

“Landmarks” de Brian Blade. Ao terceiro compasso já se sabe de olhos fechados que se está a ouvir Brian Blade. O jazz mais melódico e sentimental dos dias de hoje. Um pouco de doçura só faz mal a diabéticos.

“Mise en Abîme” de Steve Lehman e o seu octeto. Jazz de fusão, mas não dessa dos anos 70. Fusão entre as técnicas de composição espectralistas (faça o favor de ir ver à wiki, porque agora não há tempo para explicar) e electroacústicas, com as harmonias do jazz. Primeiro estranha-se e depois torna-se a estranhar antes que se entranhe. Talvez demasiado cerebral, mas nunca desinteressante.

“The great lakes suite” de Wadada Leo Smith. O freejazz já tem meio século mas ainda julga que é novo. Poucos dos seus mestres resistiram à repetição ad nauseam das dissonâncias e da des-construção, ou seja, ao seu próprio academismo. Como todos os cardeais, Wadada Leo Smith às vezes tem pensamentos heréticos, mesmo que não cheguem para renegar de todo a fé no free – este foi um deles. Quem não for aficionado aproxime-se com cautela.

“Fuzzy logic” de Taylor Haskins. Nem o trompetista é muito conhecido, nem o disco deu muito que falar, mas foi das coisas que me deram mais prazer ouvir em 2014.

Se me perguntarem daqui a meia hora, fornecerei uma lista de certeza diferente, pois não é verdade é que há mais jazz do que orelhas para ouvi-lo todo? Haveria de sair deste mundilho porquê?

(11? Sim, porque haviam de ser 10, ou 12? Ide agora por essa net fora à procura deles.)

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Uns quantos álbuns de 2014 (2)

por José António Abreu, em 06.01.15

 

Unrepentant Geraldines, de Tori Amos.

 

Se Blank Project, de Neneh Cherry, constituiu o regresso do ano, Unrepentant Geraldines foi o melhor regresso à boa forma de 2014. Tori Amos encontrava-se há muito naquele registo simpático em que o adjectivo é mais insulto do que elogio. Unrepentant Geraldines não atinge os píncaros dos álbuns da década de 90 mas recupera parte da simbiose um tudo-nada incongruente entre a voz (em excelente condição) de Tori e os sons que extrai do piano, para além de apresentar letras salpicadas de associações deliciosamente inusitadas (Before you drop another verbal bomb, can I arm myself with Cezanne's 16 shades of blue?), menos focadas no plano sexual do que noutros tempos mas onde se continua a encontrar, para além de várias referências ao universo religioso, a preocupação em analisar as fragilidades e forças de ser mulher, agora menos nova (You say "Get over it; if 50 is the new black, hooray, this could be your lucky day"), mãe há já catorze anos (trouble needs a home, girls, soa a aviso à filha e respectivas amigas), com uma experiência totalmente diferente dos pontos positivos e negativos das relações amorosas (em Wild Ways, o I hate you, I hate you, I do, I hate that you're the one who can make me feel gorgeous with just, just a flick of your finger alterna com I hate you, I hate you, I do, I hate that I turn into a kind, some kind of monster, with just, just a flick of your finger). Em certos momentos (a meio do primeiro tema, por exemplo) Tori nem se importa de voltar a arriscar comparações com Kate Bush (outro regresso de 2014, mas aos palcos). Podia ser embaraçoso, é apenas prova de confiança. 

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Frase nacional de 2014

por Pedro Correia, em 06.01.15

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«Sinto-me mais livre do que nunca.»

José Sócrates

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceram destaque estas frases:

«O BES não faliu. O BES foi forçado a desaparecer.»
Ricardo Salgado

«A vida das pessoas não está melhor mas a do País está muito melhor.»

Luís Montenegro

«Salário de 4.800 euros não permite padrões de vida muito elevados em Lisboa.»

António Marinho Pinto

«Não sou Eça de Queirós.»

Jorge Jesus

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Frase nacional de 2010: «O povo tem de sofrer as crises como o governo as sofre.»

Frase nacional de 2011: «Estou-me marimbando para os nossos credores.»

Frase nacional de 2013: «Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.» 

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Uns quantos álbuns de 2014 (1)

por José António Abreu, em 05.01.15

 

Blank Project, de Neneh Cherry.

 

Comecemos pelo que, para mim, foi o regresso de 2014. Há um par de anos, em colaboração com o trio de jazz The Thing (cuja formação foi inspirada pelo trabalho do trompetista Don Cherry, padrasto de Neneh), Cherry lançara um excelente álbum de música muito pouco comercial (ainda que constituída na maior parte por versões), apropriadamente intitulado The Cherry Thing. Em nome pessoal, contudo, já não apresentava um trabalho desde 1996.

Para quem desejava temas com o imediatismo dos velhos êxitos (Buffalo Stance, Manchild, 7 Seconds), Blank Project terá sido uma desilusão. A jovem do final dos anos 80 e início dos 90 foi substituida por uma mulher madura, com prioridades diferentes e outra forma de colocar os assuntos. O primeiro tema, Across the Water (uma maravilha minimalista, com partes que são mais spoken word do que canção, centrada na perda da mãe e nos receios do que o futuro pode trazer às filhas) é um retrato perfeito do que move Neneh hoje em dia mas, colocado a abrir, é também uma uma forma de evitar ilusões. O resto, sendo até mais «normal», permanece pouco interessado em trajectos óbvios, capazes de conquistar rádios e tops. Nem sequer - e disso tenho pena - os tops dos melhores álbuns do ano.

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Facto internacional de 2014

por Pedro Correia, em 05.01.15

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O TERROR DO "ESTADO ISLÂMICO"

Foi um ano de muitas notícias marcantes a nível mundial. Mas, na opinião dos autores do DELITO (13 votos em 26), nenhuma mereceu tanto destaque como o aparecimento de uma nova organização terrorista, autodenominada "Estado Islâmico", que numa proclamação datada de 29 de Junho de 2014 se afirmou apostada em instaurar um califado mundial. Foi, para nós, o facto internacional do ano.

Sob a bandeira do islamismo radical sunita, esta organização não tardou a espalhar o terror em vastas áreas do Médio Oriente - com destaque para Iraque e Síria - e no leste da Líbia, causando milhares de vítimas entre as minorias étnicas e religiosas A ONU acusa-a de violações sistemáticas dos direitos fundamentais. A Amnistia Internacional aponta-a como responsável de "limpezas étnicas a uma escala inédita" na região.

Durante o segundo semestre do ano, transformou a decapitação de prisioneiros num macabro cartão de visita propiciando chocantes imagens que deram a volta ao mundo, nomeadamente o assassínio dos jornalistas norte-americanos James Foley e Steven Sotloff, do activista pelos direitos humanos britânico David Haines e do guia turístico francês Hervé Gourdel.

Cerca de 60 países estão envolvidos, directa ou indirectamente, no combate a este movimento terrorista que promete causar muito mais vítimas em 2015.

 

O segundo facto internacional de 2014 mais votado foi a guerra na Ucrânia, que se arrastou desde o primeiro trimestre, com Moscovo a estimular o separatismo nas províncias orientais do país. Igual relevo mereceu o descongelamento das relações Cuba-EUA, já muito perto do fim do ano, após mais de cinco décadas de bloqueio diplomático entre Washington e Havana.

anexação da Crimeia pela Rússia foi outro facto que justificou destaque. Havendo ainda votos isolados para a explosão de gás e petróleo de xisto, o bem-sucedido processo eleitoral na Tunísia e o fenómeno dos banhos de água popularizados nas redes sociais durante o Verão.

 

Facto internacional de 2010: revelações da Wikileaks

Facto internacional de 2011: revoltas no mundo árabe

Facto internacional de 2013: guerra civil na Síria

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Três filmes de 2014 (3)

por José António Abreu, em 03.01.15

 

Tracks, de John Curran.

 

Se Só os Amantes Sobrevivem e Debaixo da Pele partem de olhares externos sobre a condição humana (usando um par de vampiros e uma alienígena, respectivamente), Tracks usa a receita mais habitual de seguir as acções de um humano que se sente insatisfeito e desenquadrado, que não sabe o que quer da vida mas sabe que quer algo de diferente. Um humano que resolve tentar encontrar-se através de um desafio aparentemente sem sentido, exigindo isolamento e tenacidade.

Robyn Davidson, a protagonista, é uma pessoa real. Australiana, tem hoje 64 anos. Nos primeiros anos da década de 70 levou uma vida boémia em Sydney. Na de 80 manteve durante alguns anos uma relação com o escritor Salman Rushdie, a quem foi apresentada por Bruce Chatwin. (Pode ser vista nesta featurette sobre o filme, transmitindo uma mensagem adequada a qualquer época e lugar.) Em 1975, farta do contacto humano (pelo menos na forma como o vinha experimentando), mudou-se com o seu cão para Alice Springs, no centro da Austrália, determinada a caminhar os cerca de três mil quilómetros que separam Alice Springs da Costa Oeste australiana. Trabalhou durante dois anos até conseguir arranjar quatro camelos* (três adultos, uma cria) que pudessem apoiá-la na viagem. Escreveu à National Geographic pedindo financiamento em troca de acesso exclusivo ao relato. O «sim» veio com uma condição desagradável: o fotógrafo Rick Smolan encontrar-se-ia com ela em vários pontos ao longo do percurso. Depois da viagem, escreveu um livro que John Curran (realizador de Desencontros, O Véu Pintado e Stone – Ninguém é Inocente) adaptou agora ao cinema.

Há uma diferença fundamental entre, por um lado, Jim Jarmusch e Jonathan Glazer e, por outro, John Curran: para o bem e para o mal, Curran não é um “autor”. Isso evita-lhe toques que poderiam ser acusados de pretensiosismo mas não lhe permite escapar a um ritmo que, embora lento, é bastante mais hollywoodesco do que o de Só os Amantes Sobrevivem ou Debaixo da Pele. Não lhe permite também escapar a vários clichés. E se, considerando o tema, a tendência para mostrar paisagens deslumbrantes (ainda que frequentemente agrestes) até se justifica, a abordagem da relação entre Davidson e Smolan nem por isso. Sendo certo que, em boa medida, é através dela que o processo de (re-)socialização progressiva de Robyn nos é mostrado, a relação “soa” a falso e a evolução de Smolan, de cretino bem-intencionado (ao ponto de ofender a comunidade aborígena, forçando Robyn a efectuar uma alteração ao trajecto previsto) para alguém mais maduro, respeitador de esferas e decisões alheias, é demasiado rápida e esquemática. Mais conseguidas são as cenas em que Robyn estabelece contacto com os membros da comunidade aborígene ou os encontros com turistas (Davidson tornou-se notícia, sendo conhecida como a Camel Lady) e com um motociclista tentando bater um recorde qualquer, que admite nem sequer ter tempo para ver a paisagem. Acima de todos elas, porém, encontram-se as que a mostram sozinha no deserto com o cão e os quatro camelos. (Tracks é um filme que poderá desagradar a quem se irrita com pessoas que parecem preferir animais a humanos.) É aí que os planos metafísico e (extremamente) físico da viagem se impõem. É também aí que o trabalho de Mia Wasikowska surge em todo o esplendor.

Wasikowska (também australiana) vem fazendo escolhas sui generis desde que chamou a atenção como Alice, no filme de Tim Burton. Em Tracks, é inteiramente credível, na forma como lida com os animais, com as consequências físicas da viagem, com os momentos de dúvida, exasperação, dor, apatia, medo e tristeza.

O filme evita alongar-se sobre possíveis motivações. Excepto por uma série de flashbacks que nos levam à infância de Robyn (a mãe suicidou-se quanto ela tinha 11 anos mas o filme não explora demasiado essa perda, parecendo até considerar outra, ocorrida por essa altura, como mais importante), não conhecemos Robyn antes de chegar a Alice Springs. A única alusão aos anos de vida boémia é a visita (insuportável para Robyn) de um grupo de amigos, logo no início do filme. Mesmo assim, talvez tivesse sido preferível nem sequer incluir esses momentos. Ainda que seja a primeira pergunta a sair dos lábios de quase toda a gente confrontada com decisões difíceis de entender, o «porquê» é frequentemente desnecessário. Num momento ou noutro, todos os seres humanos sentem vontade de se afastar de tudo – e em especial dos outros humanos. Interessante é perceber se a viagem funciona como meio de reaproximação.

Tracks é ligeiramente fragmentado e incoerente, por vezes banal. Um realizador mais destemido talvez pudesse ter extraído da história uma obra-prima. Ainda assim, inclui momentos sublimes e, ao contrário de tantos outros filmes, ficou-me na memória. Provavelmente por apelar à minha bem desenvolvida costela de eremita – uma vez que (e ainda que o filme me tenha levado a apreciá-los um pouco mais) fã de camelos não sou.

 

* Os camelos foram introduzidos na Austrália pelo homem. Com o desenvolvimento do automóvel, a sua utilidade desapareceu e muitos foram libertados, multiplicando-se em estado selvagem.

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Facto nacional de 2014

por Pedro Correia, em 03.01.15

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DERROCADA DO GRUPO ESPÍRITO SANTO

O facto nacional do ano - e talvez até da década - foi, para uma clara maioria de membros do DELITO DE OPINIÃO (15 em 26), a derrocada do Grupo Espírito Santo, que tinha Ricardo Salgado como figura de referência. Um facto que representou também o fim da última dinastia familiar na área financeira em Portugal.

Formalizada a 18 de Julho de 2014, a insolvência do GES - que foi notícia um pouco por todo o mundo - abalou não só a banca portuguesa mas também grande parte do tecido empresarial do País, na medida em que o Banco Espírito Santo era o maior financiador das pequenas e médias empresas portuguesas.

O "buraco" superior a mil milhões de euros detectado nas contas do Grupo - que em 2011 havia recusado um empréstimo posto à disposição da banca portuguesa no âmbito da assistência de emergência ao País - forçou a intervenção do Banco de Portugal, que dividiu os activos financeiros do GES em "banco mau" e "banco bom", dando este origem ao Novo Banco, entretanto posto à venda perante o aparente interesse de 17 potenciais compradores.

O caso deu origem a um megaprocesso judicial e a uma comissão parlamentar de inquérito que decorrerá pelo menos ao longo do primeiro trimestre de 2015 na Assembleia da República. Nunca os portugueses acompanharam com tanto interesse um caso ligado à alta finança - na certeza de nos dizer respeito um pouco a todos nós.

 

O segundo facto mais votado do ano, embora a larga distância do primeiro (quatro votos), foi a detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, que irá prolongar-se por 2015. Em terceiro lugar (três votos), a saída da troika e o fim do programa de assistência financeira externa a Portugal.

Houve ainda dois votos na justiça, sem especificação de casos, e votos isolados distribuídos pela mudança de secretário-geral no PS e o aparecimento do jornal digital Observador.

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

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Três filmes de 2014 (2)

por José António Abreu, em 02.01.15

 

Debaixo da Pele, de Jonathan Glazer.

 

O livro de Michel Faber no qual o filme se baseia é excelente. Foi editado em Portugal pela Difel há cerca de uma dúzia de anos e fez-me ler quase tudo o resto escrito por Faber: as novelas The Courage Consort e The Hundred and Ninety-Nine Steps, a recolha de contos The Fahrenheit Twins e o gigantesco romance The Crimson Petal and the White, um Dickens pós-moderno com a linguagem e o sexo que os tempos de Dickens não autorizavam, convertido em honorável mas não excepcional mini-série pela BBC. (Faber publicou um novo romance, The Book of Strange New Things, há cerca de 3 meses mas ainda não o li.)

Se Debaixo da Pele e The Crimson Petal and the White revelavam uma fraqueza em Faber era a dificuldade em encontrar finais à altura do que os precedera. Debaixo da Pele, o filme, não sofre desse mal. Mas é bastante diferente do livro e, no início, isso constituiu um problema. Assistir a adaptações cinematográficas pouco fiéis de livros que se apreciaram é complicado. Glazer transferiu a maioria da acção das highlands escocesas para ruas citadinas. Eliminou as explicações (ainda que Faber também tenha deixado muito à imaginação). Eliminou grande parte de diálogo. Eliminou a terminologia, incluindo os nomes dos alienígenas (à la Anthony Burgess em A Laranja Mecânica, Faber inventou parte de uma linguagem, de que relembro – não tenho o livro comigo – vodsel para «humano», vodissin para «carne humana» e Isserly para o nome da protagonista). Debaixo da Pele, o filme, é abstracto e exigente. Acompanha os passos de uma alienígena (uso «ela» embora não faça muito sentido atribuir-lhe um género só porque assumiu a forma de Scarlett Johanssen) que, transmutada em fêmea humana (atraente mas com um corpo onde algo parece sempre ligeiramente deformado - o que, em tempos de operações plásticas e «correcções» digitais, só o torma mais real), percorre as ruas ao volante de uma carrinha em busca de homens cujo desaparecimento não suscite atenções. A finalidade permanece pouco clara (o livro é muito mais explícito) mas a forma como os domina é uma tremenda metáfora visual para o modo como os homens (os «machos» talvez fosse mais exacto) esquecem tudo o resto perante a promessa de sexo. Debaixo da Pele tem uma Johanssen que não era assim tão sublime desde Lost in Translation mas também tem poucas palavras, pouca acção, imagens estranhas (nas quais a música minimalista e inquietante criada por Mica Levi, dos Micachu & The Shapes, encaixa de forma brilhante), movimentos de câmara ponderados, sem um milímetro de exagero. Houve quem mencionasse Kubrick e existem de facto pontos em comum entre este universo e o de 2001 ou The Shining (também Laranja Mecânica, mas menos). A câmara, os silêncios, o uso da música, a recusa em dar explicações claras. A metafísica do que constitui um ser humano.

Vi Debaixo da Pele em casa mas trata-se de um filme a ver no cinema. Torna-se necessário manter disponibilidade total. Persistir. Entrar no ritmo. Aprender a perceber a alienígena à medida que ela, indiferente e maquinal no início, vai ficando intrigada pela espécie humana. Pela sua (nossa) fragilidade. Pelas suas (nossas) motivações e contradições. Pelos comportamentos e pelas injustiças que advêm das diferenças morfológicas (e, mais especificamente, da dicotomia beleza/fealdade), que se percebe no final não existirem no mundo dela. Pela capacidade para amar e odiar.

Os últimos vinte minutos, quase sem diálogo, são assombrosos. A alienígena corta com o seu mundo e tenta perceber o nosso. Está completamente impreparada para o conseguir e, no entanto, de certa forma vai consegui-lo. Vai perceber que uma das características humanas mais fortes é a aleatoriedade dos comportamentos, mesmo quando nascidos de impulsos similares (neste caso – como tantas vezes –, de índole sexual). Que um ser desamparado e estranho tanto pode encontrar a bondade (a qual, ainda assim, traz consequências) como a violência. Assistir a Debaixo da Pele é como ver um animal selvagem ganhar progressivamente consciência. E pagar o preço inevitável.

 

Nota: João Campos escreveu sobre o filme aqui no Delito em Maio passado.

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Figura internacional de 2014

por Pedro Correia, em 01.01.15

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PAPA FRANCISCO

Pelo segundo ano consecutivo, o líder espiritual do mundo católico foi escolhido pelo DELITO DE OPINIÃO como Figura Internacional de maior destaque.

Com índices de popularidade cada vez mais elevados um pouco por todos os continentes, mesmo junto de quem não comunga da fé cristã, o Papa Francisco manteve-se em foco a propósito de vários temas. Rezou pelas vítimas da violência em Jerusalém. Orou ao lado de clérigos muçulmanos na Mesquita Azul, em Istambul. E recebeu nos Jardins do Vaticano, também para uma oração pela paz, os presidentes de Israel e da Autoridade Palestiniana.

Já perto do fim do ano, dirigiu uma mensagem crítica à Cúria Romana que mereceu repercussão universal. Nessa mensagem, denunciou as "quinze doenças" de que padece o corpo eclesiástico do Vaticano, com destaque para aquilo a que Francisco chama "Alzheimer espiritual" - a perda da memória de Deus, sacrificado à idolatria mundana.

O Sumo Pontífice teve também uma intervenção decisiva no desbloqueamento das relações entre os Estados Unidos e Cuba, congeladas desde 1960. Um facto reconhecido, em simultâneo, pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro, que agradeceram o esforço mediador do Papa.

 

A segunda figura internacional do ano mais votada foi o presidente russo, Vladimir Putin, que em Março esteve em foco ao anexar a península da Crimeia, que era parte integrante do território da Ucrânia desde 1954, e fomentar ao longo do ano o separatismo pró-Moscovo na faixa oriental deste país. Criticado por quase toda a comunidade internacional e alvo de severas sanções económicas, o líder russo terminou 2014 a enfrentar uma gravíssima crise do rublo, que caiu para mínimos históricos registados este século, enquanto a inflação disparava e a fuga de capitais contribuía para uma escalada recessiva no país.

Malala Yousafzai, a adolescente paquistanesa ameaçada de morte pelos talibãs, ficou em terceiro lugar na nossa votação por ter sido distinguida com o Prémio Nobel da Paz 2014, partilhado com o activista indiano Kailash Satyarthi. Com apenas 17 anos, foi a mais jovem galardoada de sempre com o Nobel.

Os restantes votos, isolados, foram distribuídos da seguinte forma: o novo Rei de Espanha, Filipe VI, entronizado em 19 de Junho; Pablo Iglesias, líder da formação política Podemos, que irrompeu com êxito na cena política espanhola, recolhendo um milhão de votos nas eleições europeias e ameaçando implodir o sistema bipartidário; o empresário e filantropo chinês Jack Ma; e a pobreza, não personalizada, à escala universal.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

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Três filmes de 2014 (1)

por José António Abreu, em 01.01.15

Foram os três de que me lembrei mais rapidamente. Isso não faz deles os melhores do ano porque vi relativamente poucos filmes estreados em 2014 (por exemplo, ainda estou para ver Interstellar – referido duas vezes no Delito – e Ida). Nem sequer estou certo de que faça deles os melhores de entre esses poucos. Depois de os escolher, apercebi-me que partilham uma característica: são olhares alienígenas sobre a condição humana – mesmo no caso em que a protagonista pertence à espécie (e até se baseia numa pessoa real).

 

 

Só os Amantes Sobrevivem, de Jim Jarmusch.

 

Jarmusch é pessimista e, com frequência, pretensioso. Esta história de dois vampiros transbordantes de estilo e ennui tinha todos os ingredientes para exasperar. Adam e Eve (pun claramente intended) estão vivos e – não obstante viverem em cidades diferentes no início do filme – apaixonados um pelo outro há centenas de anos. Conheceram poetas, dramaturgos, filósofos. Adam é músico. Chegou a oferecer um adágio a Schubert (que o melhorou). Evitam o contacto com os humanos (a que se referem como zombies) e até com outros vampiros, menos intelectuais, mais impulsivos, simultaneamente mais perigosos (a discrição é fundamental, numa época em que andar por aí a beber sangue humano dá demasiado nas vistas) mas também mais integrados nos tempos actuais. Tempos incultos, de espectáculos básicos e reality shows, que Eve suporta à base de leitura, estoicismo e pragmatismo mas que deprimem Adam profundamente. De entre os poucos vampiros com que se dão, realça-se um idoso Kit Marlowe, o – como poderia ser de outra forma? – verdadeiro autor das peças atribuídas a Shakespeare.

Por atraente que a premissa seja, o filme tem problemas. Um deles está em raramente admitir que na actualidade ainda são produzidas obras culturais dignas de registo. Há uma cena na qual Eve mete livros numa mala e The Infinite Jest, de David Foster Wallace, é claramente visível. Há outra, em Tânger, perto do final, na qual Adam e Eve assistem mesmerizados a um espectáculo da libanesa Yasmin Hamdan. Pouco mais. Outro está na forma glorificada como o passado nos é apresentado. Se o Renascimento e o Iluminismo foram épocas de avanços nos campos político e cultural, não deixaram por isso de ser tempos em que, percentualmente, muito mais gente estava impedida de aceder à cultura (e mesmo à literacia) e vivia sob regimes autoritários altamente classistas. Jarmusch parece assim lamentar o processo de democratização da cultura, por – segundo ele – induzir um decréscimo de qualidade. Trata-se de uma tendência comum em que eu próprio já caí. Mas, ainda que possa ter uma componente de verdade, é simplista.

O que salva o filme? Acima de tudo, o romantismo. A relação intensa, paritária, separada do mundo, entre Adam e Eve. O estilo, também – é mais um Jarmusch nocturno, desolado mas belo, em que os bairros abandonados de Detroit surgem como paradigma da decadência humana e as ruas de Tânger como uma hipótese de comunidade. Os actores, excelentes, ainda que desempenhando papéis que se prestam a tal. Tilda Swinton, Tom Hiddleston, John Hurt e a ubíqua Mia Wasikowska (seis filmes nos últimos dois anos, sendo que abordarei outro no terceiro texto desta mini-série) agarram com unhas e dentes papéis que (nos casos de Swinton, Hiddleston e Hurt) lhes permitem exprimir de forma inteligente e plena de estilo (estes são vampiros tão cool que até dói) a propensão para o pessimismo – para o niilismo, mesmo – que afecta a parte bem pensante da sociedade actual.

Para o espectador (para mim, em todo o caso), Só os Amantes Sobrevivem é um mergulho culposo no prazer do pessimismo e da depressão, em nome da capacidade salvífica da cultura (como elemento verdadeiramente diferenciador do ser humano) e de um romance belíssimo, resistente à passagem dos séculos, que (e será esse o verdadeiro raio de luz do filme) permite acalentar esperanças na existência de uma versão à escala humana, com a duração de algumas décadas.

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Figura nacional de 2014

por Pedro Correia, em 31.12.14

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CARLOS ALEXANDRE

O juiz que está no centro de todas as atenções, à frente dos mais mediáticos processos de instrução criminal, foi a personalidade eleita como Figura Nacional do Ano pelo DELITO DE OPINIÃO, destacando-se claramente das restantes.

Poucos se lembrarão de uma entrevista dada por este discreto magistrado que tem 53 anos e nasceu em Mação. Mas não é possível ignorar o papel que desempenhou em processos que fizeram e continuam a fazer manchetes, com destaque para o dos vistos dourados - que o levou a deter diversos altos funcionários, incluindo o director do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e a secretária-geral do Ministério da Justiça - e o do ex-primeiro-ministro José Sócrates, que conduziu à detenção do antigo chefe do Governo, também por decisão de Carlos Alexandre.

Estes casos surgidos em 2014 deram-lhe particular notoriedade. Mas também lhe trouxeram declarados inimigos. Proença de Carvalho, talvez o mais poderoso advogado português, acusou-o de ser o "herói dos tablóides" e de procurar protagonismo pessoal através do mediatismo dos processos em que intervém. Mário Soares não se coibiu de o criticar abertamente após uma visita a Sócrates no estabelecimento prisional de Évora ao proferir a já célebre frase: «Todo o PS está contra esta bandalheira!»

Com vaias ou aplausos, fica como um dos rostos de uma visível mudança na justiça em Portugal.

 

A segunda figura mais votada pelos 26 autores do DELITO que participaram neste escrutínio foi o banqueiro Ricardo Salgado, que em 2014 deixou de ser o dono disto tudo, como antes lhe chamavam: o grupo empresarial de que era o lider indiscutido ruiu com estrondo este Verão. Em terceiro ficou José Sócrates, que nunca deixou de ser notícia ao longo do ano.

Na quarta posição, ex-aequo, ficaram Cristiano Ronaldo, vencedor da Bota de Ouro e novamente considerado o melhor futebolista do mundo, e Carlos do Carmo, galardoado com um Emmy em 2014.

Houve ainda votos isolados no novo secretário-geral do PS, António Costa, na procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, e no advogado António Marinho Pinto, que emergiu como líder político ao ser eleito deputado europeu, em Maio, fundando mais tarde o Partido Democrático Republicano.

Também o povo português ("que se lixa como o mexilhão") e a figura do corrupto, sem estar personalizada, receberam um voto cada.

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

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O que valeu a pena ver em 2014 - 3/3

por José Navarro de Andrade, em 31.12.14

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Ida antes de ouvir John Coltrane

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 Ida ouvindo John Coltrane

 

Polónia, anos 60, catolicismo (a protagonista é freira), culpa (a tia da protagonista, ex-juíza, condenou inimigos do estado à morte nas purgas vermelhas de 50) e John Coltrane. Se não fosse o último item tudo em “Ida” seria demasiado óbvio à partida, mesmo que à chegada acabássemos por sentir a espada fria do desalento – haverá verões na Polónia? – que corta todo o filme. Planos longos e muito quedos (e tensos), enquadramentos esvaziados de quinquilharia cenográfica e ritmo pouco atribulado, não são meras marcas de estilo – do estilo que se espera das cinematografias outrora “do leste”, hoje da “europa central” – mas uma necessidade dramática. Não havia outra maneira de mostrar nem de transmitir isto. “Isto”, posto em filme contemporâneo, é um formidável ajuste de contas da Polónia com o seu presente, fingindo que se mostra o passado. O tema “Naima” de John Coltrane (“Giant steps”- 1959), posto aqui e posto assim, é o rasgão de luz efémera que por momentos cintila em “Ida”, capaz de alinhar todas as peças no seu lugar e virar o tabuleiro ao contrário – um golpe de génio, tão comedido como a narrativa do filme. Noutras cinematografias prefere-se a auto-punição ou o género sempre-em-festa, ambas formas de não olhar, nem sequer para o umbigo. Chama-se Pawel Pawlikoswski o autor desta pérola.

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Estreou-se neste ano de 2014 mais um troço da extensíssima perquirição de Frederick Wiseman (84 anos de idade) às instituições públicas contemporâneas, que já tem 43 peças. Por junto Wiseman oferece-nos a mais formidável memória futura da nossa civilização – se um dia ela desaparecesse, bastariam os seus filmes para entendê-la. Desta vez escalpela a National Gallery de Londres de maneira mais breve que o habitual, só durante 180 minutos. Se o tivesse visto seria decerto um dos filmes do ano.

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O que valeu a pena ver em 2014 - 2/3

por José Navarro de Andrade, em 30.12.14

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O Washington, o Jefferson e o Franklin da revolução televisiva

 

É possível que o actual apogeu da ficção televisiva constitua o preâmbulo da inexorável falência da indústria audiovisual tal como ela hoje opera, ou seja, segundo o modelo de negócio vigente. Para onde se vai ninguém sabe, onde se está só alguns entendem, aqueles que tomam decisões, quase todas em função de dilemas instantes. Olhando na direcção certa não é difícil verificar que constelação de influências deu azo a que hoje, na(lguma) televisão, se possam ver as mais inquietantes, refinadas e sagazes narrativas, com génio e têmpera de meter o cinema no sapato. Averiguando as audiências televisivas dos EUA (porque as respostas hão-de ser avistadas no terreiro dos mercados, lugar onde estas coisas se tramam, e não nas nuvens institucionais, no seu melhor limitadas a diagnosticar resultados), constata-se que os canais de cabo pago (HBO, Showtime, etc.) lograram uma massa crítica de assinantes que lhes propiciou orçamentos de produção ao nível das estações generalistas. Estribados nesta fartura, irreproduzível noutros territórios, nomeadamente europeus, demandaram à conquista dos segmentos de audiência mais sofisticados, por hábito resilientes à televisão e à sua corrente oferta ficcional. Significa isto que uma sequência de séries impossíveis em canal aberto, como “Sopranos”, “Dexter” Californication”, “The wire” “Generation Kill”, “Six feet under”, “Big love”, “True blood”, “Deadwood”, “Weeds”, “Boardwalk empire” e “Breaking bad”, teve o poder e a virtude de recolher ao redil da televisão espectadores desavindos, que nelas surpreenderam um desafogo de inteligência, irreverência e originalidade, assim alargando a base de clientes de tão selectos canais. Estamos elucidados quanto à “criação de novos públicos”, um mantra muito recitado e pouco acertado – it’s economics, stupid...

Ainda não houve neste século, nem na literatura nem no cinema, personagem com a dimensão comparável à de Walter White (o definitivo Bryan Cranston) de “Breaking Bad” (“Ruptura total”) quer lhe peguemos pela tragédia quer pela farsa. Com a temeridade própria dos desesperados, Walter White arrasta o seu cancro terminal ao longo de 62 horas, perverte toda a ordem estabelecida, seja a familiar, seja a legal, seja a criminal (porque no crime há uma ordem muito estrita) no passo em que eleva o sarcasmo, o farisaísmo e um sentido utilitário dos escrúpulos a patamares inéditos, sobretudo porque nunca resvala para fora das baias do quotidiano e não incorre na fastidiosa panóplia de tons épico, melodramático ou lírico, que habitualmente se usa para enlear o sentimento do espectador.

Tendo Walter White recebido ceptro & coroa de Tony Soprano, quem lhe terá sucedido no trono após a sua esplêndida morte? Ouso denominar Will McAvoy, o anchorman, ou pivô, em português de gema, de “The newsroom” – há condições para afirmar que Jeff Daniels era um actor persistentemente desinteressante até dar a pele por esta personagem.

“The newsroom” é apresentado como “uma criação” de Aaron Sorkin. Estamos assim em face de um ordenamento industrial em que argumentistas (uma bateria deles), realizadores (todos com crédito seguro, nenhum com cartel de auteur), produtores executivos e demais artistas ou colaboradores, subsumem a sua participação criativa à batuta abrangente de Sorkin. Sendo a ficção de cinema americana essencialmente politizada – fenómeno que tanto irrita as facções mais reacionárias dos Republicanos quanto é desapercebida pelos olhares europeus – Sorkin é aquele que melhor converteu a política pura e dura em ficção, com paralelo histórico talvez em I.A.L. Diamond e poucos mais. Do seu palmarés como argumentista avultam “A few good man” (“Uma questão de honra”) obsequiando Jack Nicholson com o melhor momento da sua carreira ao recitar um dos discursos mais ambíguos, desassombrados e desconfortáveis da história do cinema (perfeito anti-Capra); “Charlie Wilson’s war” (“Jogos de poder”), “Moneyball” (“Jogada de risco”), que devia ser de visão obrigatória para qualquer decision maker (pardon my french…) e a série de TV que lhe trouxe popularidade “West wing”. O que singularizar e sublima “The newsroom” será o abandono de qualquer pretensão naturalista, ideia prodigiosa sendo o jornalismo a matéria da série. Sorkin dispensa ostensivamente a credibilidade para ambicionar alguma verdade, pois essa coisa da “credibilidade”, tão diligenciada nas indústrias emparelhadas da informação e da ficção, é erário de burlões, sem o qual seriam incapazes de cultivar a sua arte. Cada episódio constitui-se, assim, num pequeno debate sobre ética, desde os processos de trabalho às relações afectivas. E este plano invejável e impossível de comportamentos revela-se por diálogos e frases de supina perspicácia e gramática; ninguém fala assim, com réplicas súbitas e argutas, com tamanha agilidade verbal e tanta intuição imediata das questões; ninguém discute desta maneira, tão mental e emotiva, sem, no entanto, descair na mesquinhez, na sua típica forma de insulto pessoal; ninguém em “The newsroom” pergunta que horas são ou se o café está quente, todas as palavras são usadas para exprimir estados de alma estratosféricos. “The newsroom” não imita a realidade, mostra-nos o que na realidade deveria passar no íntimo das cabeças jornalísticas em plena posse das suas faculdades. Que o faça de maneira amável com o espectador, sem lhe dar lições de moral nem fazer com ele chantagens emocionais, e de forma delicada com as personagens, permitindo-lhes a dúvida e a incerteza, que é a maneira de não as ajuizar, faz de “The newsroom” um prodígio de escrita e de narrativa, só ao alcance de talentos e recursos incomparáveis.

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O que valeu a pena ver em 2014 - 1/3

por José Navarro de Andrade, em 29.12.14

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Scorsese na cama com os actores

 

Como estreou em 4 de Janeiro deste ano, começo logo por deturpar as regras protocolares do “filme do ano” elegendo “O lobo de Wall Street”, um original de 2013, entre os meus predilectos. Um Scorsese premium sem dúvida.

Tal como os grandes jogadores que sabem envelhecer em campo, Scorsese já não corre como outrora mas continua a imprimir velocidade no jogo. Os movimentos de câmara são agora menos ofegantes, a montagem é menos brusca, apostando não tanto no contraste (aquele espécie de “montagem de atrações” em que cada plano seria a antítese do anterior) como num constante incremento: o que vem a seguir precipita a potência do que ficou para trás; e toda a continuidade do filme já não tem a forma da típica montanha russa de Scorsese, mas faz-se numa espécie de “queda para cima”, em que o clímax coincide com o momento em que tudo e todos se estatelam. A duração das cenas permite entender “O lobo de Wall Street” como um filme de actores – em memória do confuso cinema dos sixties – com as alterosas dificuldades inerentes ao conflito entre uma ampla latitude de planos para especificarem as personagens mas sem qualquer margem para apontamentos digressivos e especulações histriónicas.

Que semelhantes e fatigantes propriedades estejam a cargo de um director de 72 anos e de uma montadora, a infalível Thelmas Schoomaker, de 73 anos, é obra de se lhes tirar o chapéu.

Só na vida real ou num filme de Scorsese poderia ser verosímil a história de um grupo de compinchas de infância, nados e criados num arrabalde proletarizado (Long Island, que no seu melhor será a Costa da Caparica de Nova Iorque…), de gosto e educação duvidosos, impostores e oportunistas, que exploram a cupidez da bolsa de capitais e de caminho comprovam que, nos métodos, haverá pouca diferença entre as gravatas de seda italiana dos correctores de Wall Street e os fatos de treino com grossa corrente de ouro que eles ostentam.

Desde que o calvinista Godard decretou que "os travellings são uma questão moral" ficou óbvio que a amoralidade (bem diferente da imoralidade) é uma perspectiva virtualmente inatingível em cinema. Está nisto o supino talento de Scorsese: gerar uma permanente sensação de alarme em cada enquadramento e em todas sequências, que nos arrasta para um estado de empatia com os escroques e nos suspende o juízo a pontos de darmos connosco do lado errado da ordem pública (sequer poderemos argumentar que seríamos inocent bystanders), emocionalmente envolvidos naquelas trapalhadas. Claro que isto é devastador, para nós, que estávamos tão agarradinhos aos nossos princípios, e para os sujeitos que Scorsese manipula, demonstrados desde o início como objetos à deriva na corrente do capitalismo financeiro, peças soltas da engrenagem, que a entopem e avariam mas não desmantelam – somos todos atirados para fora de pé sem bóia nem natação.

Gosto muito de filmes que se inclinam demasiado, em vias de desabarem a qualquer momento, sempre a pisarem o risco do grotesco e do burlesco – há lá coisa mais complicada em cinema? E esta arte de Scorsese, perfeitamente comandada em “O lobo de Wall Street”, só a vejo aproximada hoje em dia por David O. Russell, realizador dos magníficos e pouco estimados “Guia para um final feliz” (arriscada paráfrase do intraduzível “Silver lining playbook”) e “Golpada Americana”.

Por mim, estou em crer que apenas um jesuíta, e dos muito estufados, seria capaz de atravessar “O lobo de Wall Street” de sobrancelha franzida.

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Doze obras-primas dos museus de França (12)

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.07.14

Um pintor de cabeleira azul segurando a paleta na mão esquerda enquanto o modelo posa. Em rigor, este modelo nunca terá posado, bastando ao pintor a sua proximidade, a sua presença. O modelo era Jacqueline Roque, a última mulher do pintor. Picasso (1881-1973) cruzou-se com aquela com quem viria a casar-se em 1961 por altura do falecimento de Matisse. Quando este morreu Picasso terá dito que dele recebia em testamento os seus modelos, as "odaliscas". Quando casou com Jacqueline o corpo já não tinha a vitalidade e a força da juventude, pelo que o olhar e o pincel do pintor tornam-se nos substitutos da relação carnal. Entre o final de 1962 e 1963 dedicou a Jacqueline uma série de pinturas, entre as quais Le peintre et son modèle dans l'atelier (1963). Nesta fase, Picasso usa pinceladas largas, as cores são mais imprecisas e as formas simplificadas. A este propósito acabaria por confessar um dia: "levei toda a minha vida para saber desenhar como uma criança".  

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Doze obras-primas dos museus de França (10)

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.07.14

 

Apresentado como Still life with a magnolia, esta obra de Henri Matisse (1869-1954) foi pintada em 1941, fazendo parte da colecção do Centro Pompidou. O uso livre da cor como caminho para a expressão da arte está aqui bem presente. A criação da arte através da cor recorrendo a formas simples e lineares que a realçassem. Figura de proa do fauvismo, grande precursor da arte moderna, considerado por alguns o mais francês de todos os pintores do século XX, teria influência decisiva no movimento de pintores abstraccionistas norte-americanos das décadas de cinquenta e sessenta. Mais do que um desenho, a cor seria uma libertação, de certa forma dando corpo a uma ideia que muitos anos depois Picasso retomaria numa outra perspectiva: "é preciso ver toda a vida como quando se era uma criança".  

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Doze obras-primas dos museus de França (9)

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.07.14

A apreensão do instante, a mulher amada levada pelo sonho, pelo silêncio e a melancolia, numa cena de profunda tranquilidade. Pierre Bonnard (1867-1947) deixou-nos aqui a "fotografia" de Marthe Bonnard, que nascera Boursin e depois se tornou Marthe de Méligny antes de acabar Bonnard, e por quem o pintor se apaixonou depois de a ter conhecido em circunstâncias pouco usuais. Pierre salvou Marthe de um acidente de autocarro e rapidamente se perdeu de amores pela mulher que se tornaria a sua musa e com quem casaria em 1925. O quadro, datado deste mesmo ano, faz parte de um conjunto de cerca de mil outros onde ela aparece, alguns deles nus verdadeiramente impressionantes ainda este ano expostos em L’Annonciade, Museu de Saint-Tropez, numa mostra dedicada aos nus que terminou no passado mês de Junho. Para se perceber a influência de Marthe na obra de Pierre Bonnard convém ter presente que o artista pintou cerca de quatro mil telas. Inserido por alguns já no movimento pós-impressionista, Bonard fez parte do chamado grupo de artistas experimentalistas, conhecido por Nabis, palavra derivada do hebraico "nebiim" que significava "profetas". Admiradores de Gauguin, o grupo incluía os nomes de Maurice Denis, Paul Sérusier, Paul Ranson, Édouard Vuillard e Ker Xavier Roussel. Bonnard tornar-se-ia mais tarde no líder do grupo dos intimistas. O corpete vermelho, conhecido como Le corsage rouge, é considerado um dos expoentes da sua versátil obra. O artista pinta a realidade como a sente, já não como ela surge aos seus olhos.   

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Doze obras-primas dos museus de França (8)

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.07.14

Este quadro resulta de uma encomenda ao pintor Charles Le Brun (1619-1690) pelo retratado, que o declarou "o maior pintor de França do século XVII". Nunca um pintor gozou de tamanha resplandecência na história de França. Louis XIV, Roi de France et de Navarre, é a imagem de "L´État c´est moi". O pai morrera em 1643 quando o jovem príncipe tinha apenas 5 anos. Após a morte de Luís XIII foi sua mãe, Ana de Áustria, quem apoiada pelo antigo ministro do Rei, o célebre Cardeal Mazarin, assumiu a regência até que o novo soberano atingisse a maioridade real aos 13 anos. O monarca tinha nesta altura 23 anos. O quadro faz parte da vontade de afirmação do soberano e nele ressalta a armadura com a flor-de-lis e o cordão azul da Ordem dos Cavaleiros do Espírito Santo. A imagem do rei pretende transmitir a marca de um chefe respeitado, corajoso e grandioso, de um homem senhor de si que quer afirmar o seu poder perante os súbditos. O quadro que integra a Colecção do Château de Versailles, por depósito do Museu do Louvre, estará em Macau até 7 de Setembro.

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Doze obras-primas dos museus de França (7)

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.07.14

O ar livre, o jardim, as pessoas tal como elas são em cenas do quotidiano. Tal como Monet, Degas, Sisley ou Pissarro, Auguste Renoir (1841-1919), foi um dos pintores inseridos na corrente do impressionismo. Sendo senhor de uma técnica que combinava o que aprendera no seu anterior ofício de porcelanista com os ensinamentos impressionistas dos seus contemporâneos e os técnicas tradicionais de utilização das tintas, o quadro Le balançoire (1876) é um pedaço da realidade do seu tempo. A imagem aqui reproduzida não permite apreciar a efusão da cor pela tela, o traço rápido do pincel, o branco majestoso do vestido, os rostos límpidos e serenos, os raios de sol que atravessam a copa das árvores e deixam o chão pintalgado. A paz, a serenidade e a tranquilidade libertam-se da tela para nos invadirem e transmitirem uma imensa sensação de doçura, tão bem expressa na imagem da menina junto à árvore.

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Doze obras-primas dos museus de França (6)

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.07.14

Quatro anos depois de ter chegado a Paris, o grande mestre do impressionismo Claude Monet pintou La Rue de Montorgueil à Paris, Fête du 30 Juin de 1878. "Aqui, o ponto de vista e a técnica adoptados pelo pintor são notáveis. No eixo da rua e em altura, representa a totalidade do espectáculo. O alinhamento das fachadas e das bandeiras cria uma perspectiva que guia o olhar ao longe. Para representar a multidão, o céu ou as bandeiras, o pintor aplica sobre a tela diversas pequenas pinceladas de cor. Não existe qualquer linha a formar os contornos ou os detalhes. De perto, tudo parece desintegrado. Mas, observados ao longe, a cor e o contraste recompõem perfeitamente uma impressão da realidade". A rua, como escreveu o pintor, "estava negra de gente" e ele viu uma varanda, a que subiu para pintar.

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Doze obras-primas dos museus de França (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.07.14

Esea quadro de Adolph Ulrick Wertmüller (1751-1811), que faz parte da Colecção do Château de Versailles, está datado de 1788. É considerado um dos mais belos quadros de Marie-Antoinette, Rainha de França, nos seus 33 anos. Apesar de no meu conceito estético e de beleza o modelo ficar muito a desejar, os detalhes do rosto e os olhos, dizem os entendidos, terão sido captados na perfeição, deles emanando todo o seu charme. Mas como o que interessa é a qualidade da obra e o prodígio do traço, da cor e da luz, registe-se que a senhora é apresentada envergando uma jaqueta própria para montar a cavalo de tipo inglês e um chapéu à crioula, sinais do seu interesse pela moda e pelo luxo, que a tornaria tão impopular numa altura em que o seu povo vivia na miséria. Seria executada cinco anos depois.

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Doze obras-primas dos museus de França (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.06.14

Da autoria de Fraçois Boucher, pintor que viveu entre 1703 e 1770, "Diana saindo do banho" foi pintado em 1742 e mostra a deusa, depois de uma caçada e de um banho retemperador, a preparar-se para se arranjar enquanto segura um colar de pérolas. A seu lado uma ninfa que a ajuda. O quadro é todo ele um hino à feminilidade e à beleza da mulher, sendo Diana apresentada em toda a sua graça e sensualidade, em comunhão com a natureza. A luz vem toda da esquerda e a profundidade do azul faz realçar ainda mais a frescura e brancura da pele da deusa e o verde da vegetação. Ao seu lado, no chão, os troféus da caçada.

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Sem favores, sem palavras

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.04.14

Nesta hora, de Newark a Macau, de Lisboa a Maputo, "Somos Eusébio", "Somos Benfica", e não nos arrependemos. 

 

 

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Frases de 2014 (5)

por Pedro Correia, em 25.03.14

«Somos um país bastante corrupto.»

José Silva Lopes, ex-ministro das Finanças

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1914: tão longe e tão perto

por Pedro Correia, em 25.01.14

       

 

Entre os nomes mais obscuros que marcaram o século XX inclui-se o de Gavrilo Princip. Poucos se lembrarão hoje de quem se trata. Era um jovem sérvio residente em Sarajevo, capital da Bósnia ocupada pelo Império Austro-Húngaro. De saúde frágil e pequena estatura, pertencia a uma sociedade secreta eslava denominada Mão Negra. A 28 de Junho de 1914, durante uma visita a Sarajevo do herdeiro da coroa austro-húngara, Francisco Fernando, um capricho do destino colocou o jovem no trajecto do príncipe: Princip disparou vários tiros do seu revólver Browning, matando-o.

Eram os primeiros disparos da I Guerra Mundial -- o mais sangrento conflito de que houve registo até então. Prolongou-se até 1918 -- ano em que Gavrilo Princip morreu de tuberculose numa prisão da Boémia. Para trás ficava um macabro cortejo de 20 milhões de mortos.

Vai fazer cem anos: tão longe e tão perto. Quase nada, numa perspectiva histórica.

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Previsões para 2014

por Teresa Ribeiro, em 31.12.13

Amor: vejo muitos casamentos e muitos divórcios... adiados. Filhos estão fora de questão pelo menos até ao fim do próximo decénio, quando o sol começar a sair da casa das PPP.

 

Saúde: ao longo do ano poderá sofrer de frequentes crises de enxaquecas. Se já está a viver debaixo da ponte, evite expor-se às correntes de demagogia governamental que sopram do arquipélago de S.Bento, que são fonte de tensão muscular, azia e subida dos níveis de açúcar no sangue. A menos que se conte entre os indigentes que são considerados pobrezinhos pelo Estado, procure por todos os meios não adoecer, mas se o não conseguir evitar, peça à avó que lhe ensine uma mezinha, pois não vai ter dinheiro para pagar as taxas moderadoras da assistência hospitalar.

 

Vida profissional: para este ano os astros favorecem todas as actividades ligadas à economia paralela. Se tiver um mba, pire-se. O que é que está cá a fazer?

 

Finanças: não confie na banca, no governo e muito menos nos mercados. Guarde o dinheiro que lhe resta debaixo do colchão. Se tem dívidas ao fisco não as pague, aumente-as até um montante que seja considerado incobrável, que o Estado perdoa-lhe tudo.  

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Para 2014...

por João André, em 30.12.13

Os desejos habituais de um bom ano. Deixo a minha prenda: uma fotografia do ano passado tirada no castelo de Lisboa. É uma recordação de casa no ano em que passei o meu primeiro Natal fora de Portugal.

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E a todos...

por Helena Sacadura Cabral, em 29.12.13

E a todos - autores e comentadores - um 2014 cheio de saúde, são os meus votos pessoais!

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O grão de ervilha e a bola de neve

por Pedro Correia, em 05.12.13

Há muitas incertezas no horizonte. Mas de uma coisa podemos ter a certeza desde já: o próximo ano político vai decorrer em ritmo muito acelerado. Pouco propício, portanto, àqueles políticos que adoram colher benefícios máximos da gestão do silêncio enquanto permanecem mergulhados em dúvidas dignas do príncipe Hamlet, convictos de que os jornais "amigos" não deixarão de desbravar caminho por eles com uma sucessão de não-notícias, capazes de transformar um grão de ervilha numa descomunal bola de neve.

Na não-notícia, como se infere, o não é palavra fundamental. "Beltrano de Tal não desmente que possa avançar para o cargo X, informação que nos foi transmitida por fontes próximas. Beltrano, ao que sabemos, não se tem revisto nas opções políticas de Fulano Y embora opte por não entrar em ruptura com o dito cujo. Os seus mais destacados apoiantes não excluem uma candidatura ao posto de comando embora não haja ainda a certeza de quando e onde e como isso possa suceder."

Fica aceso o rastilho.

O curso habitual destas não-notícias é aquele que todos sabemos: com três canais informativos a emitir durante 24 horas e à míngua de matéria para preencher antena nos intervalos dos desafios de futebol, qualquer pequeno ruído mediático, amplificado por incessantes ecos de hora a hora, ganha os contornos de uma Cavalgada das Valquírias. O grão de ervilha numa coluna matutina de jornal transforma-se na bola de neve a rolar em horário nobre das pantalhas nessa noite.

Este processo, que poderia colher frutos noutros tempos, torna-se inconsequente em anos de acelerado calendário político, como 2014 sem dúvida será. Um ano pouco propício às dúvidas hamletianas de gente sempre tolhida nas teias do seu próprio tacticismo. Quem quiser ir a jogo terá de assumir-se como tal, à esquerda e à direita, sem subterfúgios. Caso contrário, o xadrez político jogar-se-á com as peças que estão no tabuleiro.

As que não estão, estivessem.

 

Imagem: Laurence Olivier em Hamlet (1948)

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