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O dia em que a nossa vida mudou

por Inês Pedrosa, em 11.09.17

Cumprem-se agora dez anos sobre o dia em que o mundo mudou. O massacre aéreo de Manhattan obrigou-nos a todos – a começar pelos americanos – a perceber que vivemos num mundo global e que o mal não acontece só aos outros. Não foi o primeiro nem o último massacre da História da Humanidade – mas foi o primeiro que visou uma civilização. Não nos equivoquemos: o ataque às Torres Gémeas não era dirigido contra os americanos, nem contra os judeus, nem sequer contra o capitalismo. A Arábia Saudita é um exemplo rutilante de como o islamismo radical convive santamente com o mais sofisticado capitalismo. Americanos, judeus ou não, tal como os europeus têm em comum a cultura da liberdade, da igualdade e da democracia –  foi essa cultura que a Al Quaeda pretendeu dizimar, com a matança de civis, que aliás repetiu em menor escala em Madrid, a 11 de Março de 2004.

         O 11 de Setembro tornou impossível a neutralidade; as posições ideológicas que, desde o fim do Muro de Berlim, boiavam num caldo morno de «humanismo» indiferenciado, tornaram-se quentes e vibrantemente opostas. O chamado multiculturalismo sofreu vários processos de filtragem e reflexão: serão todas as culturas de facto equivalentes? Haverá valores universais a defender? Onde ficam os limites da tolerância? Desenvolveu-se uma extensa literatura sobre estes temas, que se repartiu entre a condenação dos perpetradores e a condenação dos Estados Unidos – a literatura do «eles estavam a merecê-las», como me disse alguém com quem cortei relações. Não há forma de sustentar uma conversa quando o interlocutor sustenta que determinados «eles» merecem ser assassinados – ainda por cima, quando os «eles» são indiscriminados. Para muitos de nós, Setembro de 2001 significou uma revisão intensa e dolorosa de afinidades electivas.  

Entendi então com nitidez que há princípios básicos que unem e separam as pessoas, para lá das diferentes visões do mundo e simpatias ou filiações partidárias. A raiz desses princípios é o amor – ou esse particular traço do amor a que se chama compaixão, isto é, partilha da paixão alheia.  Emmanuel Lévinas, cuja obra ecoa cintilantemente sobre o silêncio do horror nazi, define a ética como um «acontecimento», um «desfalecimento do ser em humanidade» através do súbito encontro de um rosto. O rosto inesperadamente humano do inimigo com que esbarramos no campo de batalha, por exemplo. Mas esse encontro ético é uma intermitência, um afluxo de sangue cuja surpresa pode ser – e foi-o, no caso do holocausto dos judeus – antecipadamente extirpada. O que se passou no nazismo como no estalinismo foi a total objectivação do outro. O outro tornou-se, simplesmente, coisa. Coisa que estrebucha, ou sangra ou grita, como um autómato à experiência, nunca como ser humano.

      No século XIX, Tocqueville verificava que «cada um só vê o seu semelhante nos membros da sua casta». No século XXI, observamos que a má-consciência leva muitos a encontrar o seu semelhante apenas e só naqueles que o querem aniquilar. Negar a existência de uma guerra é prolongá-la – e, por mais que se pretenda o contrário, ser conivente com uma das partes. O 11 de Setembro mostrou a diferença entre uma cultura que reconhece a dignidade dos seres humanos e outra que não reconhece senão a sua vontade de mando –  e que não reconhece os outros como seus iguais, nem olha a meios para atingir fins. Não são visões equivalentes: uma é pela vida, outra é pela morte. Há coisas que são barbaramente simples.

 

( crónica publicada no semanário Sol a 9/9/2011)

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Mais inseguros e menos livres

por Pedro Correia, em 11.09.17

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Dezasseis anos depois, a tragédia continua.

Pelo menos mil pessoas já morreram por efeitos secundários dos atentados, nomeadamente a inalação de poeiras e cinzas tóxicas. Outras duas mil terão provavelmente idêntico destino num prazo máximo de cinco anos. E só 1641 despojos mortais das 2753 pessoas assassinadas a 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque foram devidamente identificados: cerca de 40% dos cadáveres nunca foram resgatados.

 

Foi um dia concreto, não uma data abstracta. Por isso quantos o vivemos nos lembramos bem onde estávamos e o que sentimos quanto tudo aconteceu.

Falo por mim: nunca mais conseguirei esquecê-lo. As vidas de muitos de nós mudaram naquela terça-feira. Todos recordamos as emoções que nos assaltaram, a profunda angústia ao observar aquelas imagens terríficas, a impotência perante o terror.

Os atentados quase simultâneos nas Torres Gémeas, no Pentágono e no voo 93 que se despenhou na Pensilvânia tiveram o impacto de uma revolução. Algo de nós ficou ali para sempre, fixado nas imagens daqueles condenados sem remissão.

Cada um deles podia ser qualquer de nós.

 

Depois do 11 de Setembro nada voltou a ser como dantes. É uma data que traça uma linha fronteiriça na história universal: o terror inscrito nos mais banais gestos do nosso quotidiano. Com alguns direitos fundamentais a cederem contínuo terreno de então para cá.

Entre a liberdade e a segurança, a esmagadora maioria das pessoas prefere hoje a segurança. Compreende-se, de algum modo: é o instinto de preservação da espécie a funcionar.

Mas ficámos com o pior de dois mundos: nos últimos dezasseis anos tornámo-nos muito mais inseguros e muito menos livres.

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Recordar o 9/11

por Alexandre Guerra, em 11.09.16

Quinze anos depois, estive a reler aquilo que escrevi ao longo dos dois dias que se seguiram aos atentados do 11 de Setembro (uma Terça-feira) e que seria publicado na edição seguinte do SEMANÁRIO, na Sexta-feira (14). Enquanto editor da secção de Internacional daquele jornal, recordo-me perfeitamente que, na altura dos atentados, estava na redacção (naquele edifício cor-de-rosa no Dafundo cheio de história ligada ao jornalismo), o que me permitiu acompanhar todos os desenvolvimentos desde o início. Depois do choque inicial, foi preciso afastar as emoções, perceber o que estava a passar e perspectivar o que iria acontecer. Foram dias de muito trabalho e confusão, mas um privilégio, porque, foram momentos como aqueles que me fizeram desenvolver a paixão que sempre tive pelo jornalismo.   

 

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Primeira página do SEMANÁRIO de 14 de Setembro de 2001

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