Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Não, isto não pode ser o jornalismo em 2017

por João André, em 13.01.17

Nos últimos dias explodiu uma bomba de Carnaval adiantada nos EUA. O site de notícias Buzzfeed decidiu publicar um relatório, não confirmado, de um espião britânico especialista sobre a Rússia, onde estaria indicado que a Rússia teria material incriminatório sobre Donald Trump e que o poderia usar para influenciar o futuro presidente dos EUA.

 

A razão para o relatório dar este barulho todo está ligada a próprio Trump. É de facto possível vê-lo a cair na "honey trap". E possível imaginá-lo a compremeter outros para aassegurar algumas promessas que fossem para si vantajosas. É possível imaginá-lo como cedendo aos jogos de Putin ou sua entourage. É, portanto, credível nas conclusões.

 

Só que isso por si só não pode ser razão para justificar a publicação do relatório por parte de um meio de comunicação social que quer ser credível. É uma das regras de ouro do jornalismo: verificação independente. Tudo o que seja menos que isso é perseguição, especulação e falta de ética. Mesmo nas páginas de opinião tal documento estaria mal.

 

A primeira emenda da constituição dos EUA protege enormemente a liberdade de imprensa. Por vezes dá a sensação de ser demais, mas no geral os benefícios compensam enormemente os problemas. Isso significa que o site Buzzfeed consegue estar relativamente a salvo, especialmente com a sua indicação que o relatório não tinha confirmação. Só que isso não os deve deixar a alvo da condenação pública. A publicação de tal relatório pode de imediato ser usada para atacar Trump com informação, na melhor das hipóteses incerta, e na pior falsa. Isso não é estratégia de um bom meio de comunicação social. É a estratégia de lixo como o Breitbart "News".

 

O pior foi no entanto a justificação do editor chefe do Buzzfeed, escrevendo aos seus trabalhadores, que é «assim que vemos a função dos jornalistas em 2017». Ou seja, publicação de relatórios não verificados, escrevendo que os americanos podem decidir por si próprios. e sem fazer uma avaliação crítica ou proceder a uma investigação independente. Por outras palavras, o site Buzzfeed está a resumir o trabalho dos repórteres à função de multiplicadores de boatos com um mínimo de comentário paralelo, pouco menos que aquilo que bloggers fazem.

 

É indiferente qual o alvo de tal acção ou quem a comete. O jornalismo não é isto. Isto é o que fazem os sites de clickbait e notícias falsas. Do jornalismo espera-se mais, é por isso que está, sob uma forma ou outra, protegido pela constituição de qualquer estado de direito onde exista liberdade. A minha opinião sobre Trump não se modificou (talvez tenha piorado), mas qualquer pessoa merece um jornalismo correcto. Ao negar tal ao próximo presidente dos EUA, o site Buzzfeed não só se nega a fazê-lo como presta um péssimo serviço ao jornalismo em 2017.

 

PS - como é óbvio não deixarei qualquer link para o relatório.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A ladeira

por João Campos, em 05.08.16

Pode dizer-se muita coisa sobre o caso Rocha Andrade  - Galpgate? -, mas não se poderá dizer que todo o episódio não tem sido educativo no que à vetusta "ética republicana" diz respeito. Como os exemplos vêm, deviam vir, de cima, doravante os portugueses passam a estar mais preparados para lidar com a Autoridade Tributária (não se arranjava designação menos fascista?). Falhou o pagamento do imposto e recebeu a cartinha de multa com o jurozinho respectivo? Peço desculpa, Dona Autoridade, não sabia que isto devia ter sido pago há cinco anos; vou já ali regularizar a coisa e deixe lá isso dos juros, pode ser? Naturalmente, uma vez começada a descida da ladeira, o fundo da encosta é o limite - que é como quem diz, a lição bem pode ser aplicada às outras cabeças da hidra que é o Estado. Pois, Senhora EMEL, não sabia que não podia estacionar em cima da passadeira, mas guarde lá o bloquinho e esse tanganho para as rodas que eu tiro já o carro e fica tudo bem, não é? E como após falhar na curva já só resta mesmo o silvado, Ah, Menina ASAE, não sabia que tinha moscas na sopa, mas deixe-me ir ali ao tacho tirar as outras e a coisa passa.

 

É frequente comentar-se que em Portugal temos os políticos que merecemos; mas após anos e anos de chicos-espertos iletrados a chegarem a deputados e a ministros (a lista seria exaustiva, já que abrange todo o espectro partidário), começo a duvidar desse dizer popular. Que diabo: podemos até ter muitos defeitos, mas no fundo não fizemos mal a ninguém ao ponto de merecer isto. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Código de Conduta

por Rui Rocha, em 04.08.16

Ao que parece, o Ministro Santos Silva acaba de declarar que a conduta de Rocha Andrade e de outros dois Secretários de Estado não merece censura, até porque vão reembolsar a entidade que suportou os custos do passeio. Ao mesmo tempo, promete um Código de Conduta para governantes nos próximos dias. Tendo em conta o padrão ético que os membros do Governo têm vindo a estabelecer, creio que será suficiente um documento simples, com nem meia-dúzia de parágrafos:
1 - Desde que não sejam descobertos, é permitido aos membros do Governo indicar morada no Algarve para receber subsídio de alojamento ainda que tenham residência em Cascais.
2 - Independentemente do respectivo valor, os membros do Governo podem receber benesses, descontos, incentivos, viagens, vales, prendas e o diabo a sete desde que não sejam descobertos.
3 - No caso de serem descobertos, os membros do Governo não serão ainda objecto de qualquer censura ou consequência desde que devolvam ou, quando menos, ameacem devolver a importância correspondente ao benefício obtido.
4 - As regras dos números anteriores deverão ser aplicadas extensivamente ou por analogia a todas as situações em que os membros do Governo assumirem condutas eticamente reprováveis ou em que, genericamente, fizerem merda.
5 - Ahahahah.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

E mais não digo

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.05.15

Podem pensar o que quiserem. E até aplaudir a sua atitude. Porém, não poderia deixar de registar a perfídia que se revela na atitude de quem um dia conta a sua vida familiar nas páginas das revistas cor-de-rosa para num outro dia emitir um comunicado destes, aliás compreensível para qualquer pessoa normal. Afinal, a mesma pessoa que considera que os seus pagamentos à Segurança Social ou ao Fisco são matéria do foro privado, esquecendo-se de que é primeiro-ministro, para acabar, da forma mais espantosa, em antevéspera de eleições e depois de assinar um acordo de coligação, a trair a confiança do sócio que o mantém no poder e a autorizar a publicitação de pormenores de muitíssimo mau gosto sobre a doença da sua própria mulher, não a poupando à exposição pública que antes queria evitar. Outros primeiros-ministros colhidos pelo infortúnio da doença não agiram assim. Nem antes, nem depois. 

O passado que era criticável, e que foi atempadamente por tantos criticado, com inteira razão, tem servido para tudo. Há quem aceite isso. Eu não penso assim. E acrescento que o esforço feito pelos portugueses para se cumprir o programa de ajustamento, tudo aceitando para não se desonrarem ainda mais, não pode servir para justificar o deboche que nesta pré-campanha é oferecido aos portugueses pelo seu primeiro-ministro para ganhar mais uns votos.

Quem ainda ontem criticava os maus exemplos de alguns mamíferos não pode agora ficar calado. Não pode simplesmente dizer Ámen. A não ser que se seja da mesma linhagem. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Promiscuidades

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.04.15

"Mas o que sobressai são as aplicações financeiras que António Varela, que tem uma larga carreira no sector financeiro e foi indicado pela ministra das Finanças para o cargo que actualmente exerce, possui em diferentes bancos. De acordo com o documento, que, como manda a lei, chegou ao Palácio Ratton após a nomeação, o gestor detém 1357 acções do Santander e uma acção do BCP, além de títulos de outras cotadas portuguesas, como a Mota- Engil e a Portugal Telecom. E é ainda dono “de metade”, como o próprio refere, de outras 506.261 acções do BCP, de 37.824 do suíço UBS, de 1253 do Santander Central Hispano, de 110 do Deutsche Bank e de 25 acções preferenciais do Banif (com o valor nominal de 1000 euros).

O portefólio de investimentos do administrador do Banco de Portugal abrange ainda obrigações (dívida) de diferentes entidades, incluindo uma do Santander US, com um valor de 100 mil euros, duas do BCP (avaliadas em 50 mil euros cada), uma do BBVA no mesmo montante e ainda 50 do Banif (a 1000 euros cada). António Varela também é detentor de obrigações de outras empresas, como a EDP ou a Telefónica, tendo investido igualmente em dívida grega.

A carteira declarada ao Tribunal Constitucional estende-se ainda a participações em diversos fundos de investimento, alguns dos quais rela- cionados com a evolução de títulos da banca, de divisas ou de dívidas soberanas. (...)" - Público, 21/04/2015, p. 18

 

Como é possível transmitir uma imagem de seriedade e confiança aos portugueses - já nem falo em garantir a isenção e a independência de actuação e decisão - quando se nomeia para regular quem tem interesses naquilo que regula?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Antologia da memória

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.03.15

E depois há muitos que deviam pagar os seus impostos e não pagam, porque não declaram as suas actividades"

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um homem invulgar

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.15

Em especial nos esquecimentos.

Para quem não tem, nunca teve, um tostão de dívida à sua Caixa de Previdência ou à sua Ordem, mesmo nos meses mais difíceis, não deixa de ser estranho que gente com estes telhados e uma esteira tão obscura - pelos vistos a todos os níveis -  se dedique a gerir a coisa pública e se atreva a falar de ética e de rigor.

Ainda se fosse por receber o salário mínimo nacional ou rendimentos exíguos...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os farsantes são os primeiros a estender o chapéu

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.06.14

"Curiosamente, no mesmo dia em que os deputados da maioria falavam grosso ao TC, desafiando os juízes a "não desertar" e a "não fugir às suas responsabilidades", o[s] mesmo[s] PSD e CDS davam luz verde a que o Parlamento repusesse de imediato, sem margem para dúvidas, os salários dos deputados e dos funcionários parlamentares."

Autoria e outros dados (tags, etc)

"634 mil euros em carros de luxo no Banco de Portugal

Autoridade monetária comprou 17 automóveis topo de gama entre o início de 2013 e fevereiro deste ano."

Autoria e outros dados (tags, etc)

Moralismo

por José Navarro de Andrade, em 04.06.12

Jung Lee, "Bordering North Korea #15", 2005

Um dos sinais mais prementes da decadência portuguesa é o exacerbamento do discurso moralista. Quanto mais nos inclinamos para uma permanente avaliação moral do que é justo ou injusto, mais dissolvemos, deturpamos e descuramos a avaliação ética do que é bom ou mau.

Creio que isto fica exemplarmente descrito no célebre “o síndrome do automobilista lusitano”:

É consensual o princípio ético de que o excesso de velocidade é mau. No entanto quando sou apanhado a infringi-lo, costumo ter duas reações moralistas perante tamanha e tão evidente “injustiça”:

1)     Não estava a correr nenhum risco (o prevaricador interpretará sempre o princípio ético a partir de uma auto-avaliação permissiva e generosa da sua prática pessoal).

2)     Como é possível penalizar-me por este erro, deixando impunes os outros prevaricadores? (decorrente de um dos mais frequentes e sinistros provérbios portugueses: “ou comem todos ou não há moral”).

Ou seja, derramo um par de conceitos morais sobre a circunstância, e é isto o moralismo, em vez de fazer uma ponderação ética sobre o meu comportamento.

Este moralismo em política é evidente através da eufórica e ignóbil frase: “é ladrão, mas tem obra” geralmente utilizada para redimir autarcas.

O moralismo emerge em situações mais discretas e comuns, embora não menos perversas, como por exemplo: “Como é possível fulano ganhar tanto, quando há tanta gente com o salário mínimo?”

Se em abstracto ainda é possível descortinar a bizarria desta frase, aparentemente quando aplicada a casos reais, parece que ela faz sentido. O moralismo é um guisado que mistura tudo, compara o incomparável, a partir do pressuposto que todos deveriam ter uma fatia igual do bolo, por direito inerente. Ora nem o bolo é o mesmo para todos (um futebolista ganha mais que um cirurgião porque trabalha noutro mercado, com outras regras de oferta-procura e outra dinâmica); nem o bolo é estático (há áreas socias mais produtivas ou mais dinâmicas que outras, por isso umas crescem outras diminuem: uma obra de um artista plástico reconhecido tenderá sempre a valer sempre mais que uma tese de doutoramento em literatura do séc. XVIII), nem o contributo de cada um para esse bolo é igual (o mérito, estúpido…).

A popularidade do moralismo deve-se à sua excitação sentimental: é fácil, instantâneo e tende a creditar como virtuosa a pessoa que o vocifera. Ao passo que a ética é friamente racional e analítica, logo contra-intuitiva, pelo que tende a ser vista como uma espécie de cinismo e parece esconder algum interesse, aos olhos severos e zelosos do moralista.

Em 1933 a Alemanha foi varrida por uma vaga moralista: como podiam os capitalistas judeus enriquecer enquanto o povo alemão, cumpridor, trabalhador e probo, vivia tão mal? Como era possível a Alemanha consentir ser tão desgovernada por aquela corja de conservadores e liberais, tão mancomunados com os incompetentes e corruptos social-democratas e que permitiam as ruas entregues aos comunistas?

Bem sabemos o resultado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ao que nós chegámos

por João Carvalho, em 20.09.10

Cada vez somos menos auto-suficientes e mais dependentes do que vem de fora. Agora até importamos óvulos e (pasme-se!) espermatozóides (por falta de produção, supõe-se). Ao que nós chegámos. Que coisa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cada macaco no seu galho

por João Carvalho, em 12.03.10

Uma das críticas mais veementes vulgarmente lançada sobre o jornalismo diz respeito a casos noticiados que não correspondem à verdade ou que foram deturpados de forma grosseira e que, depois, não são corrigidos ou que, quando o são, não merecem relevo igual.

Esta queixa não é apenas comum, como ainda ganha contornos dramáticos quando parte do poder. Imagine-se agora a cena quando estamos perante um poder com particular apetência para dar abrigo aos jornalistas na jaula dos leões, como é decididamente o caso do actual poder executivo.

Acontece que o poder devia preocupar-se sobremaneira com a ética, por ser razoável esperar que o papel de quem conduz sirva sempre de exemplo aos conduzidos. A este propósito, ainda ontem o ministro Teixeira dos Santos teve uma intervenção infelicíssima no Parlamento que foi capaz de gerar um coro de mais do que legítima indignação por parte de todos os deputados da oposição (e seguramente alguns engulhos aos seus pares).

Hoje, ainda há quem se sinta ofendido e manifeste de viva voz que não desiste de esperar por um pedido de desculpas de Teixeira dos Santos pelo que ele afirmou ontem. Não sei se ele o fará ou não, mas sei que, se o fizer, já virá tarde. Tê-lo feito logo a seguir no mesmo lugar e perante os mesmos ouvintes seria dar igual importância ao disparate e ao pedido de desculpa pelo disparate, o que anularia por certo o momento infeliz.

Passado um dia e perdida a ocasião, poderá já não apresentar desculpas, mas jamais será perdoado pela afronta que proferiu. No entanto, se ainda vier a fazê-lo, também parecerá sempre que se sentiu pressionado e que preferiu o pior: corrigir a manchete de um jornal com um texto publicado em corpo minúsculo no fundo de uma página par do interior.

Em suma: o poder nem precisava de ter atenção quando lhe apetece atirar pedras aos outros; bastava-lhe dispensar-se de ter pedras para não se sentir tentado a arremessá-las. Já lhe chega ser poder. E aceitar que cada macaco tem o seu galho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Frase assustadora

por António Manuel Venda, em 06.03.10

«A política é autónoma da ética e a ética é autónoma da política.»

Paulo Rangel, subitamente, no Verão passado

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D