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Das ironias tristes

por José António Abreu, em 08.12.13

Dalai Lama não vai ao funeral de Mandela por recear nova (seria a terceira) recusa de visto por parte do governo sul-africano (sob pressão do governo chinês).

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A esperança em vez do medo

por Pedro Correia, em 08.12.13

 

Estes dias que se têm seguido à morte de Nelson Mandela mostraram-se muito férteis em manifestações de pesar que enaltecem o maior estadista de que há memória no continente africano, embora muitas não o façam pelo motivo mais adequado.

Sim, Mandela foi um admirável resistente a um regime iníquo. Sim, a sua tenacidade e a sua valentia são dignas de profunda admiração. Mas o que o torna superior aos demais, o que o torna realmente diferente de tantos nacionalistas africanos que também não se vergaram e resistiram à iniquidade e à opressão, aquilo que o projectará para sempre na memória colectiva das gerações vindouras é o seu exemplo ímpar de tolerância, reconciliação e diálogo num país que todas as cassandras de turno anteviam mergulhado em sangrentos conflitos étnicos e tribais.

Ao estender a mão fraterna ao inimigo de véspera, Mandela deu a todos os seus contemporâneos disseminados pelo planeta -- tenham a cor de pele, a fé religiosa ou a ideologia que tiverem -- uma extraordinária lição de dignidade humana que transcende épocas, fronteiras ou crenças. Foi uma verdadeira "fonte de inspiração", capaz de nos revelar "aquilo de que o ser humano é capaz quando é guiado pela esperança em vez do medo", como dele disse Barack Obama.

 

Retomo uma ideia já aqui muito bem expressa pela Ana Vidal: qualquer outro, no seu lugar, professaria a Lei de Talião -- o tal "olho por olho" que, como nos ensinou Gandhi, é o meio mais eficaz para tornar o mundo cego. Ele, que tinha mais razões que ninguém para impulsionar actos de vingança, apontou com rara sabedoria um rumo alternativo -- e conseguiu pô-lo em prática, não se confinando ao plano teórico -- durante cinco anos de mandato presidencial na África do Sul em que lançou os alicerces de uma sociedade verdadeiramente multirracial, congregando brancos e negros -- aqueles que agora o choram, unidos num genuíno abraço de pesar.

Um caso único de sucesso em África, o continente de todos os fracassos.

E o seu mérito não termina aí: abdicou voluntariamente do cargo supremo do país após ter cumprido um mandato presidencial, dando assim provas de um notável desapego do poder. Outro facto raríssimo em África.

 

No simples plano da convivência cívica, ao estabelecer pontes com adversários dos mais diversos matizes, Mandela soube ser grande. E único.

É tristemente irónico vê-lo agora enaltecido por todos quantos ignoram deliberadamente o seu exemplo, pregando nas colunas de opinião e no espaço público um exacerbado radicalismo, argamassado no ódio a quem pensa de maneira diferente e no desprezo pelas posições moderadas, racionais e não-extremistas.

Um pouco por toda a parte, neste mundo de múltiplas indignações plasmadas nas redes sociais, vivemos uma espécie de guerra civil de baixa intensidade. Que vê em cada palavra de bondade um sinal de fraqueza. Que faz de cada tribuna uma trincheira de rancor. Que imagina um inimigo oculto em cada divergência. Que transforma cada opinião discordante em casus belli. Que esmaga cada tese contrária com a fúria de um combatente apostado em não recolher prisioneiros nem respeitar convenções de Genebra.

 

Dizem admirar Mandela enquanto ignoram tudo quanto de essencial Mandela nos ensinou.

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"Now is the time"

por jpt, em 26.06.13

 

(Apesar de já ter sido criticado por colocar postais longos aqui boto um texto antigo, lembrando época ainda mais recuada. Colocado no ma-schamba para este tão especial conturbado 25 de Junho, dia da independência de Moçambique. E minha memória de Nelson Mandela, Homem entre os homens. Tem sido bom viver enquanto ele.)

 

 

 “Now is the time”

 

Vi Mandela num comício em Aliwal North, 400 kms distante de onde nos haviam colocado, aquela East London, pequena cidade portuária de boas praias, capital daquele troço de bela terra de brancos encaixado entre os bantustões Ciskei e Transkei, esses planaltos e serras bem mais pedregosos, então destinados, naquele país louco, aos negros, os “originários”, viria eu a aprender depois, noutro local, os “kaffirs” como então já poucos diziam. Era o tempo do “Now is the time”, o até-que-enfim final daquilo, um maldito aquilo. E pairávamos sob o sentimento de estarmos na História, uma alegria contagiante, generalizada, mesmo esfuziante, aliviada do passado, esperançosa do futuro. Também mesclada, e mais até nas pequenas vilas rurais, com a angústia dos alguns que viam acabar o seu pequeno, mesquinho e irrazoável mundo.

 

Naquela missão eleitoral emparelhei com o D., um francês da minha idade, já calejado, vindo directo de anos com a Cruz Vermelha na guerra dos Balcãs. Como éramos os mais novos da equipa, impacientes e com a volúpia de conhecer, enquanto os restantes se deixaram na modorra citadina ficámos nós a acompanhar as actividades políticas no Ciskei e no sul do Transkei, e ainda nas paupérrimas townships vizinhas, enormes antros de miséria que nem no mapa vinham, e algumas das quais carregavam nomes como Frankfurt, Hamburgo ou Berlim, o absurdo extremo, um sarcasmo toponímico. Uma área enorme a cobrir, uma agenda diária frenética.

 

Valeu-nos que havia um acordo implícito com a polícia, na estrada a velocidade dos observadores era irrestrita. E assim vogávamos entre locais, no afã de a todos chegarmos. Eu carregava bastante e o D. ainda era mais louco (lembro-me de adormecer a seu lado a mais de 180 kms por hora. Naquele pequenino VW Citi 1800 que maior prova de confiança se pode pedir a alguém?). Assim trepidante foi a nossa vida nesses três meses.

 

Foi um verdadeiro mergulho no país, tão diferenciado, complexo, ele era, inebriante que estava. E com vislumbres dos seus líderes. No primeiro domingo em East London coube-nos um jantar no very british Rotary Club, com Thabo Mbeki. Suave, dulcíssimo, ali para deixar aos comensais o recado, que se veio a concretizar, do “business as usual”. E logo no dia seguinte um comício nos arredores, um estádio de futebol cheio para ouvir Ramaphosa, então líder da Cosatu (a central sindical do ANC). Radical, um orador implacável – quem diria então que poucos anos depois seria um dos maiores bilionários do país, até dono de ilhas paradisíacas em Moçambique? -  prometendo “casas, trabalho e escolas para todos, já”, algo que, e bastava olhar em volta, era mais do que justo e necessário. Só nos custava, franzir de experiência feito, aquele “já” tão repetido. Mas tão ansiado por quem ouvia – e foi a primeira vez que vi brancos, poucos, meia dúzia de operários, naquele toyi-toyi que tanto assustava outros e tantos, os estabelecidos. Class rules, disse eu para o lado, mas não era bem verdade. Enfim, na época ainda se discutia qual dos dois seria o vice do Mandela, e seu sucessor, e ficámos espantados com tamanha diferença entre ambos.

 

E outros também. Várias sessões com Winnie, então já separada mas ainda mulher do Madiba. Assim vista ao vivo era uma mulher impressionante, lindíssima na sua já idade, um carisma imponente. Se o discurso era radical - quase quase como o daqueles comícios do PAC (Congresso Pan-Africano), então ainda fiéis ao desejo de uma Azânia sob o lema do “one settler, one bullet”, de cujas sessões foram as únicas das quais nos escapulimos, num “não vale a pena”, tão mal recebidos éramos -, bem interessante era ver o número e a postura das tantas mulheres que sempre a rodeavam e acolhiam, nas cidades ou nas pequenas aldeias: gender issues, imensos, os que lhe alimentavam a liderança, uma bandeira própria. E Holomisa, o grande sobrevivente da política sul-africana, que de presidente do Transkei a dissidente do ANC ainda por lá anda. Simpático, a acolher-nos numa montanhosa aldeola. E, subtil, a rodear-nos pelos seus guarda-costas, não nos fosse acontecer algo. Estes, putos, verdadeiros putos, a confundir-nos, vendo-nos com uniforme, logo a mostrarem-nos as armas, à vez, decerto que novas, delas falando, com elas rindo, como se brinquedos recém-recebidos. Nessa sua alegria a desmontarem qualquer cenário de perigo, como os dois bem percebemos. Mas também a transmitirem um tom algo surreal a tudo aquilo. Para mais tendo nós acabados de cair no golpe que derrubou Gkozo, o muito menos hábil presidente do Ciskei, um dia único, rijo, memória por si só, para mais tarde …

 

Um dia ao rossio de King William’s Town veio FW. Chegámos tarde, atrasados por uma outra qualquer acção. Ali encontrámos uma grossa confusão, a praça quadrada cercada com gente até às entradas, uma contra-manifestação ANC, algo que violava o acordo entre partidos, feito para evitar violências. E isto logo pouco tempo depois da mortandade no Bophuthatswana, que começara numa coisa similar. Ficámos os dois estupefactos, lá estavam os nossos colegas EU e tantos outros observadores, atraídos pela visita de De Klerk. Mas estavam saudando os contra-manifestantes, até com “Vs” a la Churchill, com eles aplaudindo, enfileirados, manifestando-se. “Estes gajos são iguais em todo o mundo” terei resmungado no meu francês de então, já desprezando a esquerdalhada inconsequente. Depois fomos lá para o meio, onde mil apoiantes do Partido Nacional, se tanto, brancos, claro, rodeavam o seu líder. Tensos, assustados, angustiados (“a provarem do que fizeram durante décadas”, terei eu usado de novo o meu francês), convictos que aquele cordão policial não lhes protegeria o futuro. Lá nos pusemos perto do palanque, “showing the flag” (melhor dizendo, “showing the caps”), que era para isso que lá estávamos e nos pagavam. Pouco depois FW acabou a arenga, curta, nervosa, naquele contexto, e avançou. Viu-nos, parou e inverteu o caminho para nos cumprimentar, às estrelas em fundo azul da União Europeia. Naquela época o homem era um símbolo também. Para mim um Gorbatchev, até fisicamente parecido, um líder com a coragem de acabar uma tralha enorme e desprezível, a do seu povo. Nisso e por isso um tipo admirável, e foi o que lhe quis expressar naquele aperto de mão, na resposta ao seu agradecimento. Afinal ainda puto, também tenso naquilo tudo, engasguei-me e saiu-me apenas um estuporado “God bless you, sir”. Horas depois, já de cervejas na mão, ressacando um dia intenso, e sabendo-me todo ateu, o D. ria-se, desbragado, daquela minha tirada. “Estava a falar com um boer, pá”, defendia-me eu, acabrunhado, enquanto percorria o meu parco calão francês. O que fui ali gozado. Com alguma razão. Mas não toda.

 

 

 

  

Num desses dias veio nova tarefa. O comício perto de Aliwal North com Mandela, convocado para as 8 da manhã. Mandela é dali, nasceu um pouco mais a norte, no Transkei, mas a sua língua mãe é Xhosa, a língua local. Tornando ainda mais interessante, se tal possível, acompanhá-lo na região, entre a sua gente, se quisermos falar assim, o que vale o que vale, que nunca fez ele alarde de algum xhosismo. Mas ainda assim foi também por isso que lá fomos, tão exultantes, saímos na alvorada, naquele habitual “pata a fundo” para chegar à hora marcada. Para encontrar um estádio de futebol já apinhado, bancadas e relvado, e mais houvesse ... Ali tudo madrugara, para acolher o Madiba. Foram horas na expectativa da sua chegada, era a campanha e decerto que o líder tinha várias sessões no caminho. E nessa espera ali ocorreu festa constante, cânticos múltiplos, grupos corais, das igrejas alguns, outros mais ou menos espontâneos, um corrupio de gente feliz. Nós, estrangeiros, constantemente interpelados, saudados, numa comunhão festiva. Mais espantoso ainda, não havia qualquer produção, nem discursos, nem animadores, nem espectáculos musicais, isso dos profissionais para alegrar ou apenas aquecer o “povo”, como é tão costume pelo mundo todo. Apenas a população esperando o seu candidato, o seu líder, até que enfim, e em festa por isso. Era a minha primeira vez em África, ainda desabituado de muitas coisas, inesperando tantas outras. E toda aquela agitação, superlativa, todo aquele som e cor me deixou fascinado, mesmo que sempre na disciplina do anti-exótico.

 

 

Finalmente, já bem pela tarde dentro, às 4 horas, chegou a caravana. Foi o delírio, mas não aquele delírio do êxtase, espumado, frenético, sim o da alegria, o de receber e partilhar, um cúmulo de comunhão, um “estar juntos” como se disse depois. Quando soou que aí vinha deixei-me de neutralidades, também eu corri, atravessando o estádio, para o receber, a coisa do uniforme fez-me chegar até perto, nisso em definitivo perdendo de vista o tradutor. Mandela apareceu, aquele ar de falso frágil, o sorriso quase enigmático e que nunca consegui definir melhor do que chamando-lhe maroto. Na felicidade alegre do tal “até-que-enfim”, digo, o “Now is the time”, palavra de ordem de então. A população delirante e eu, nós, quase tanto, qual de nós, observadores – e tantos eram, dezenas, chegados nas últimas horas, quantas ongs andavam naquilo … -, não era de Madiba?

 

Mandela cruzou-nos e subiu ao palco, uma apoteose. Junto do seu povo, que o era a maioria do país, mas mais ainda ali, terra de Xhosas, que enchiam aquele terreno, pensei. E discursou. Logo, de imediato, arrepiando-me, verdadeira “pele de galinha” – e ainda hoje, ao escrever isto me acontece. Pois falando em africânder. Ali mesmo, no seu espaço natal, falando “a língua do inimigo”. Foi breve. E no fim pediu desculpa, já em inglês, e disse que queria fazer um resumo, pois ali estavam, estávamos, muitos “amigos estrangeiros”. E disse-nos, a todos os outros repetindo, que ali, África do Sul, era, já era, ia ser, a nação “arco-íris”, a “rainbow nation”. E partiu, para este nosso futuro.

 

Um “healer”, curandeiro laico, sarando o passado, prevenindo o futuro, minha tese que foi parte da conversa no longo regresso desse dia, lento pois comovido. “Amandla” para homens assim. Com a enorme grandeza da generosidade. De fazer futuros.

 

 

 

 

 

 

 

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Elefantes do Mpumalanga

por jpt, em 01.04.13

 

Páscoa na África do Sul. "Deitado abaixo" por uma qualquer maldita gargantite, a pior de que tenho memória adulta. Impediu-me este manso mas magnífico trilho, a do Santuário de Elefantes de Hazyview. Fui apenas cocheiro da princesa e da rainha, e da sua magnífica companhia.

 

 

Voltaram entusiasmados. Radiantes. Eu invejando.

 

 

Esperei-os durante algumas horas, bebericando chá para combater o frio do Mpumalanga. E no seu entusiasmado regresso lembrei-me daqueles que acham o marfim um recurso, e tantos são eles. Pois nada mais são do que pobres. Não sentem. Não pensam. Não aprenderam.

 

 

 

Pois não os ensinaram. Ou, se calhar, não conseguiram aprender. Pois, insisto na minha crença, a virtude ensina-se. Visitem. Nunca é tarde para isto.

 

[As fotografias são do sítio do "Santuário"]

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