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Era bastante previsível...

por Alexandre Guerra, em 13.07.16

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Salva Kiir, um autêntico "cowboy" africano 

 

Cinco anos depois da sua independência, celebrada, diga-se, com grande apoio e entusiasmo dos líderes ocidentais, que, nestas coisas, costumam meter o realismo político de lado ao deixarem-se invadir por um idealismo tolo e irresponsável, o Sudão do Sul é hoje mais um Estado à deriva, com um tecido social retalhado e uma economia de rastos. O país está a saque e refém das vontades e caprichos do suposto "pai" da independência, Salva Kiir, um autêntico "cowboy", que, na boa e velha tradição das lideranças africanas, rapidamente revelou as suas tentações interesseiras e despóticas.

 

Agora, cinco anos depois, a comunidade internacional parece ter acordado para uma realidade que já era evidente muito antes do referendo que levou à independência do Sudão do Sul: embora a sua população seja maioritariamente cristã e animista, contrastando com o cariz muçulmano do Norte, aquele território estava longe de ter as condições estruturais e os recursos políticos para se tornar num país independente. Era óbvio. 

 

Recordo que dias antes do referendo realizado a 9 de Janeiro de 2011, questionei-me se não estaria mais uma guerra civil iminente em África e cheguei a escrever no Diplomata o seguinte: "Estará África na iminência de uma nova guerra civil? Os observadores internacionais no terreno, como o senador John Kerry, presidente do comité dos Negócios Estrangeiros do Senado dos Estados Unidos, acreditam que não. Estão confiantes que o referendo que se realiza no próximo Domingo no Sudão, e que irá decidir se o Sul daquele país se tornará numa nação independente, não terá consequências gravosas, estando neste momento todo o processo a decorrer sem problemas. A CNN, no entanto, e inspirada na longa tradição africana de conflitos internos, colocava as coisas de uma forma mais prática ao dizer que o resultado deste referendo ou institui o mais recente Estado da comunidade internacional ou acaba em guerra civil. Atendendo ao historial do Sudão e ao comportamento da sua cúpula político-militar nos últimos anos, o Diplomata só pode concordar com aquela observação." 

 

Pouco mais de um mês tinha passado sobre o referendo e já se verificavam confrontos fronteiriços entre o Sudão do Sul e o Sudão. E em Março voltei ao assunto para falar dessa personagem "hollywoodesca", Salva Kiir, que iria ser o futuro Presidente a partir de 9 de Julho. E todo o cenário era preocupante, porque Kiir mostrava os sinais de vir a ser um líder que iria infligir grandes danos ao seu país e povo, tendo-se aproveitando da popularidade e carisma do defunto John Garang, antigo líder sudanês, que lutou pela independência da região do Sul e que morreu em 2005 num acidente de helicóptero. Kiir fez parte do círculo próximo de Garang, tendo este sido o grande responsável e inspirador da independência do Sudão do Sul. 

 

A questão é que após a independência e perante a incapacidade de lidar com os problemas internos, Salva Kiir tentou aproveitar os conflitos fronteiriços com Cartum para criar neste o inimigo externo e desviar as atenções da sua governação. Não é por isso de estranhar que menos de um ano após a independência, o já Presidente Kiir assumia claramente o conflito com o Sudão. É certo que os problemas sempre existiram com o regime de Cartum liderado pelo também pouco recomendável, Omar al-Bashir, no entanto, foi no plano interno que a situação mais se deteriorou, como, aliás, seria expectável. 

 

Nstes últimas dias, a violência na capital Juba tornou-se demasiado evidente e a situação bastante ruidosa, obrigando os EUA, através da sua Conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice, a pronunciarem-se com aquelas declarações já habituais, que têm tanto de inócuo como de incompetentes: “Esta violência sem sentido e indesculpável – levada a cabo por quem, mais uma vez, coloca os interesses pessoais acima do bem-estar do seu país e do seu povo – coloca em risco tudo aquilo a que o povo sul-sudanês aspirou nos últimos cinco anos”, disse Rice em comunicado.

 

A verdade é que há muito que Washington podia ter colocado alguma ordem na política do Sudão do Sul, mas não o fez, deixando o caminho aberto para que Kiir e outros fizessem do mais recente país independente o seu "playground" africano.

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Os vassalos do ditador Obiang

por Pedro Correia, em 27.04.16

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Uma das maiores nódoas diplomáticas registadas neste século em Portugal foi o acolhimento que prestámos à Guiné Equatorial como nosso Estado-parceiro na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - apesar de ninguém ali falar português, como se comprova pela própria página oficial do Governo de Malabo, só com versões em castelhano, inglês e francês. O direito de veto que formalmente ainda nos vem reconhecido nos estatutos da CPLP tornou-se letra morta, como este caso infelizmente comprovou.

Alegaram alguns, apesar de tudo, que pelo menos isto ajudaria a abrir o país ao exterior e até a democratizá-lo. Tretas. O generoso tratamento que lhe dispensámos serviu apenas para consolidar o despótico regime de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, o ditador há mais tempo em exercício de funções no planeta. Ascendeu à presidência num sangrento golpe de Estado, a 3 de Agosto de 1979, e nunca mais largou o bastão do poder, que utiliza para vergastar qualquer tímido protesto. Todos quantos se atreveram a criticá-lo pagaram um preço muito elevado. Nuns casos, com a prisão e a tortura. Noutros, com o exílio compulsivo.

 

No domingo, 24 de Abril, Obiang foi novamente "reeleito" por números que dizem tudo acerca do sistema político vigente no país: 99,2% dos votos. E promete prolongar a tirania pelo menos até 2023.

Terceira maior produtora de petróleo da África subsariana, a Guiné Equatorial é também um dos Estados mais corruptos do planeta. Ocupa o 144.º dos 187 lugares no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. Tem o quarto maior índice mundial de mortalidade infantil. A maioria da sua população sobrevive com o equivalente a menos de um dólar por dia.

 

Repito o que  aqui escrevi há dois anos: lamento que sejamos os primeiros a desprezar a lusofonia enquanto prestamos vassalagem a qualquer facínora, desde que tenha muitos barris de petróleo para exportar. A originalidade e a força da CPLP assentariam sempre na base cultural. No idioma comum, na cultura comum cimentada pela unidade linguística. A partir do momento em que o critério dominante se torna a "diplomacia económica", que venham a Turquia, a Indonésia, a Rússia ou a Noruega. E porque não a Arábia Saudita?

 

Sinceramente, é mais do que lamento. É repulsa. E vergonha.

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Cecil

por Helena Sacadura Cabral, em 03.08.15

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Quando a morte de um leão numa caçada se torna objecto de importância maior do que que o drama vivido pelas pessoas que tentam atravessar as águas para buscar terra livre, é porque algo, neste mundo, está muito pior do que se consiga imaginar.

Não duvido que a morte de Cecil, o símbolo felino do Zimbabwe, se revista de aspectos muitíssimo lamentáveis. Mas, confesso - e que me perdoem os defensores dos direitos dos animais -, a sorte dos que fogem do inferno africano ainda continua a preocupar-me muito mais.

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G3 portuguesas matam no Sudão do Sul

por Fernando Sousa, em 27.05.15

Quem é que anda por aí a despachar velhas G3 - velhas mas operacionais - para o Sudão do Sul? Bom, não estou à espera que alguém ponha o dedo no ar, mas que elas apareceram lá, apareceram. Foram descobertas no fim do ano passado pela UNMISS, a missão da ONU no país, mas escaparam aos média aqui. A denúncia está no Jirenna, blogue do jornalista e missionário José Vieira, com oito anos passados na jovem república, há 18 em guerra civil. Foi postada ontem, com o título G3 portuguesas matam no Sudão do Sul,  e remete para factos com datas frescas. Cálculos por alto apontam para pelo menos 50 mil mortos no conflito. O papel de Portugal no comércio mundial de armamento é notícia antiga. Sabemos é pouco sobre ele. Talvez as provas encontradas agora, relatadas pela Small Arms Survey, sirvam para alguma coisa. Na segunda foto são nítidas as letras FMP - Fábrica Militar Portuguesa. Que tal se a Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias se debruçasse um pouco sobre o caso?

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Ruanda 2020

por Rui Herbon, em 14.04.14

Por estes dias cumpriram-se 20 anos sobre o genocídio ruandês. Cerca de 800.000 pessoas da etnia tutsi foram massacradas pelos hutus então no poder. Uma circunstância que teve muito que ver com o processo de colonização europeu. Os hutus povoaram o Ruanda procedentes da região do Chade, quando a população autóctone, os twa, foi deslocada. Eram essencialmente agricultores e distribuíam-se em pequenos reinos. Depois chegaram os tutsi, oriundos da Etiópia. Tratava-se de uma população de pecuários que, com o tempo, se transformaram no grupo dominante. Não era uma etnia muito diferente, como foi usado para justificar a matança de há 20 anos, já que, aparte das suas diferenças de classe, ambos os grupos levavam séculos realizando casamentos entre si, falavam a mesma língua e tinham evidentes semelhanças culturais. Foi com a chegada dos europeus no século XX quando as diferenças se marcaram. De facto, segundo se conta, foram os europeus que dividiram as duas etnias de acordo com o número de cabeça de gado que possuíam: os proprietários de dez ou mais vacas eram associados aos tutsi, enquanto que os outros era classificados de hutus. O desastre humanitário vinha a desenhar-se desde a independência do país em 1957. Por então surgiu o Manifesto Hutu, que exigia liberdade e democracia face à opressão que, segundo parece, era exercida pelos tutsi. Isto levou às importantes revoltas de 1959, que conduziram a um novo governo hutu em 1962, depois de dezenas de milhares de tutsi terem sido assassinados e cerca de 160.000 terem fugido do país. O que se repetiu em 1964, já que uma pessoa de etnia hutu podia matar o seu vizinho tutsi sem nenhum temor de represálias governamentais.

 

Hoje, esquecida a matança de 1994, o Ruanda é o exemplo de uma nova África que abre caminho. Um país que, com o actual presidente, Paul Kagame, pôs em marcha o programa Rwanda Vision 2020, com o objectivo de transformar um país de economia agrícola noutro virado para a sociedade do conhecimento, mantendo o crescimento anual do PIB em redor dos 7% e prevendo no final do período uma população de 16 milhões. Prevê também que o rendimento per capita atinja os 900 dólares (220 em 2000), a taxa de pobreza se reduza para 30% (60% em 2000) e que a esperança média seja de 55 anos, contra 49 em 2000. Pensar-se-á que é muito pouco para o nosso standard. No entanto, será muito em termos relativos, especialmente porque o que se pretende é o salto de uma economia agrícola em muitos casos de susbsitência para uma sociedade de conhecimento, sem ter passado, como nós, pelos estádios intermédios.

 

Trata-se de um fenómeno que, de modo similar, ocorrerá noutros países africanos, com o que tem de novidade histórica e de potencial económico ao longo do presente século, no fim do qual África terá alcançado os 2000 milhões de habitantes, na sua maioria jovens. E é neste esforço que o Ruanda construiu uma torre de vinte pisos – a Kigali City Tower – na sua capital, onde se instalou um hub de alta tecnologia que oferece avançados serviços financeiros. Uma infra-estrutura tecnológica com dezenas de terminais e um sofisticado software fornecido pelo Nasdaq, que vem explicar como de maneira rápida um pequeno país africano sem recursos naturais pôs em marcha uma nova e moderna economia cujos frutos não se farão esperar. Simultaneamente o país está imerso na instalação de uma moderna rede de fibra óptica de mais de mil quilómetros e tem em marcha a instalação de uma infra-estrutura 4G que cobrirá 95% do país. Estes passos transformarão o Ruanda num dos países africanos mais atraentes para os investidores. Seria importante que os empresários e investidores nacionais não reduzissem África aos PALOP e ao Magreb, caso contrário o chamado continente negro pode ser, a médio e longo prazo, uma oportunidade em grande parte perdida.

 

[Imagem: Kigali City Tower Complex]

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Obiang? No, gracias

por Pedro Correia, em 20.02.14

Teodoro Obiang Nguema é um dos homens mais ricos do continente africano, com uma fortuna pessoal avaliada em 600 milhões de dólares. É também aquele que se encontra há mais tempo no poder em África. Dirigente supremo da Guiné Equatorial desde Agosto de 1979, ascendeu ao cargo de Presidente da República num sangrento golpe de Estado que depôs o tio, Francisco Macías Nguema, sob cujo mandato o país -- ex-colónia espanhola, independente desde 1968 -- passou a ser conhecido por "Auschwitz africano".

O primeiro acto de Obiang como senhor absoluto no palácio presidencial de Malabo foi mandar executar o tio após um julgamento fantoche.

 

Apesar das receitas petrolíferas, que têm enriquecido a família do ditador, o país continua mergulhado na miséria. A Guiné Equatorial, que ocupa o terceiro posto do continente na exportação de petróleo, tem o quarto maior índice mundial de mortalidade infantil: cerca de um quinto das crianças guineenses morre antes dos cinco anos (dados da Unicef, referentes a 2009) e 70% dos seus habitantes vive na mais extrema pobreza.

O chamado Partido Democrático da Guiné Equatorial mantém-se, na prática, como partido único desta nação de língua oficial espanhola que nunca conheceu eleições democráticas. O mais recente relatório da Amnistia Internacional sobre o país, em que Obiang acumula as funções de Chefe do Estado e chefe do Governo, não deixa lugar a dúvidas: praticam-se ali detenções arbitrárias e execuções extrajudiciais. Há pelo menos um activista dos direitos humanos desaparecido.

No índice anual de liberdade de imprensa elaborado pelos Repórteres Sem Fronteiras, entre 179 países avaliados, a Guiné Equatorial ocupa o 166º posto (a Finlândia está em primeiro e Portugal no 28º lugar).

 

O Governo português está a ser fortemente pressionado por alguns parceiros da CPLP para desbloquear o veto à entrada da Guiné Equatorial como membro de pleno direito da organização. Não quero crer que tais pressões possam surtir efeito. Se a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa fizer a vontade a Teodoro Obiang confere caução de respeitabilidade a um regime que merece a reprovação generalizada do mundo democrático. E começa, desde logo, por violar as suas bases programáticas. O artigo 5º, nº 1, e) dos seus estatutos estabelece com clareza que a CPLP é regida pelo "primado da Paz, da Democracia, do Estado de Direito, da Boa Governação, dos Direitos Humanos e da Justiça Social" (em iniciais maiúsculas no original). E o número 2 do mesmo artigo reitera este compromisso em termos ainda mais inequívocos: "A CPLP estimulará a cooperação entre os seus membros com o objetivo de promover as práticas democráticas, a boa governação e o respeito pelos Direito Humanos."

Afinal tudo quanto não existe no regime despótico de Malabo. Com uma agravante: Obiang pode dominar a linguagem dos cifrões mas não sabe falar português. Tornar-se-ia o castelhano língua de trabalho da CPLP?

 

Leitura complementar: Este ditador vem a Lisboa (3)

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A esperança em vez do medo

por Pedro Correia, em 08.12.13

 

Estes dias que se têm seguido à morte de Nelson Mandela mostraram-se muito férteis em manifestações de pesar que enaltecem o maior estadista de que há memória no continente africano, embora muitas não o façam pelo motivo mais adequado.

Sim, Mandela foi um admirável resistente a um regime iníquo. Sim, a sua tenacidade e a sua valentia são dignas de profunda admiração. Mas o que o torna superior aos demais, o que o torna realmente diferente de tantos nacionalistas africanos que também não se vergaram e resistiram à iniquidade e à opressão, aquilo que o projectará para sempre na memória colectiva das gerações vindouras é o seu exemplo ímpar de tolerância, reconciliação e diálogo num país que todas as cassandras de turno anteviam mergulhado em sangrentos conflitos étnicos e tribais.

Ao estender a mão fraterna ao inimigo de véspera, Mandela deu a todos os seus contemporâneos disseminados pelo planeta -- tenham a cor de pele, a fé religiosa ou a ideologia que tiverem -- uma extraordinária lição de dignidade humana que transcende épocas, fronteiras ou crenças. Foi uma verdadeira "fonte de inspiração", capaz de nos revelar "aquilo de que o ser humano é capaz quando é guiado pela esperança em vez do medo", como dele disse Barack Obama.

 

Retomo uma ideia já aqui muito bem expressa pela Ana Vidal: qualquer outro, no seu lugar, professaria a Lei de Talião -- o tal "olho por olho" que, como nos ensinou Gandhi, é o meio mais eficaz para tornar o mundo cego. Ele, que tinha mais razões que ninguém para impulsionar actos de vingança, apontou com rara sabedoria um rumo alternativo -- e conseguiu pô-lo em prática, não se confinando ao plano teórico -- durante cinco anos de mandato presidencial na África do Sul em que lançou os alicerces de uma sociedade verdadeiramente multirracial, congregando brancos e negros -- aqueles que agora o choram, unidos num genuíno abraço de pesar.

Um caso único de sucesso em África, o continente de todos os fracassos.

E o seu mérito não termina aí: abdicou voluntariamente do cargo supremo do país após ter cumprido um mandato presidencial, dando assim provas de um notável desapego do poder. Outro facto raríssimo em África.

 

No simples plano da convivência cívica, ao estabelecer pontes com adversários dos mais diversos matizes, Mandela soube ser grande. E único.

É tristemente irónico vê-lo agora enaltecido por todos quantos ignoram deliberadamente o seu exemplo, pregando nas colunas de opinião e no espaço público um exacerbado radicalismo, argamassado no ódio a quem pensa de maneira diferente e no desprezo pelas posições moderadas, racionais e não-extremistas.

Um pouco por toda a parte, neste mundo de múltiplas indignações plasmadas nas redes sociais, vivemos uma espécie de guerra civil de baixa intensidade. Que vê em cada palavra de bondade um sinal de fraqueza. Que faz de cada tribuna uma trincheira de rancor. Que imagina um inimigo oculto em cada divergência. Que transforma cada opinião discordante em casus belli. Que esmaga cada tese contrária com a fúria de um combatente apostado em não recolher prisioneiros nem respeitar convenções de Genebra.

 

Dizem admirar Mandela enquanto ignoram tudo quanto de essencial Mandela nos ensinou.

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Isto é serviço público

por Pedro Correia, em 18.07.12

 

Nelson Mandela - Os caminhos da liberdade: excelente reportagem de uma equipa da RTP encabeçada pelo jornalista António Mateus. No dia em que Nelson Mandela - um dos maiores ícones universais do nosso tempo - festeja 94 anos vale a pena recordar a evolução da África do Sul desde os dias de chumbo do regime racista de P. W. Botha até à actualidade.

António Mateus - que conhece bem a África do Sul, onde foi correspondente durante largos anos - recolhe os testemunhos de dois obreiros desta admirável transformação do mais próspero país do continente africano, anteriormente banido da comunidade internacional, num exemplo de multirracialismo, democracia e liberdade: Desmond Tutu e Frederik de Klerk. Ambos galardoados com o Nobel da Paz - o primeiro em 1984, pelo seu corajoso combate aos esbirros do apartheid, o segundo dez anos depois (em parceria com Mandela) por ter liderado enquanto chefe do Estado o processo de transição, que atingiu um dos seus momentos culminantes na hora da libertação do histórico líder do Congresso Nacional Africano, em Fevereiro de 1990, acompanhada com emoção em todo o mundo.

De Klerk, num depoimento emocionado, diz uma frase carregada de sabedoria: «Não devemos deixar que o futuro seja minado pelas amarguras do passado.»

Os cínicos de serviço, que lançaram os maiores anátemas à Primavera árabe iniciada em 2011 - e já traduzida em eleições na Tunísia, no Egipto e na Líbia - deviam ver com atenção esta reportagem.

Fazia-lhes bem.

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Um ano depois

por Pedro Correia, em 12.02.12

 

Não tenho, naturalmente, uma palavra a retirar ao que escrevi faz agora um ano sobre a revolução egípcia.

Ficam alguns excertos, para avivar memórias:

 

Contra as Cassandras. «No Irão, a clique teocrática não tem motivos para se congratular com as manifestações no Egipto, um país onde 20 milhões de pessoas – cerca de um quarto da população – utilizam regularmente a Internet. No Cairo, por estes dias, foi possível ver muçulmanos e cristãos orar em conjunto. Ali não se queimou uma só bandeira americana nem se gritaram palavras de ódio contra Israel.
O fracasso da “revolução islâmica”, há 32 anos, serve aliás de aviso e de vacina a novos movimentos destinados a destituir ditaduras: podem não saber ao certo por onde vão nem para onde vão, mas todos sabem que não irão por aí.»

 

Contra as bempensâncias. «Uma revolta popular pacífica, ordeira, participadíssima, onde as únicas bandeiras são as nacionais, deita abaixo uma tirania. Sem necessidade de intervenção dos marines norte-americanos, sem líderes "carismáticos", sem partidos ou igrejas a "organizar" as multidões.

Devia ser motivo de congratulação em todo o mundo democrático. Mas não é. Em redutos de opinião, bem entrincheirados nas suas certezas graníticas, analistas derramam por jornais e blogues o seu imenso desdém pela página histórica que acaba de se virar no Cairo.»

 

Contra os saudosistas. «Extraordinário: assume-se a defesa póstuma da ditadura para lançar um vigoroso anátema sobre a democracia que ainda nem começou a ser construída. Como se o mundo árabe sofresse de um atavismo genético que o torna incapaz de conviver ad seculum seculorum com estados de direito e o respeito escrupuloso dos direitos humanos.»

 

Contra as ditaduras. «Todas as ditaduras são más. A de Cuba, a da Coreia do Norte, a do Zimbábue, a do Irão - e a que acaba de ser derrubada no Egipto. Se amanhã a ditadura iraniana caísse, seria um motivo de alegria e de congratulação para todos os democratas. Como o é hoje a queda da ditadura egípcia. Não podemos ser democratas até metade da bacia do Mediterrâneo e 'compreender' a ditadura na outra metade.

 

Contra a demagogia. «Extraordinário Mubarak, tão amigo do Ocidente em geral e tão digno da admiração de Alberto Gonçalves em particular. E extraordinários "estudos de opinião" - não especificados pelo crédulo sociólogo - que "parecem" conjugar liberdade e lapidação no Egipto.

Não conheço nenhum outro pensador mundial capaz de associar um movimento pró-democracia à excisão feminina.»

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Desesperadamente

por Pedro Correia, em 12.08.11

 

Enquanto o mundo acompanhava com emoção a vaga de violência gratuita que varreu várias cidades do Reino Unido, na Somália morria-se de fome perante a indiferença quase generalizada. É um drama que se desenrola a um ritmo constante: 640 mil crianças estão mal nutridas. E já morreram 29 mil com menos de cinco anos.

Enquanto na Europa uns destroem tudo à sua volta em busca de aparelhagem electrónica e vestuário desportivo de marca, milhões de habitantes do continente africano querem simplesmente um pão ou uma tijela de arroz.  Desesperadamente.

Não nos enganemos de perspectiva: é na direcção destes que devemos olhar.

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Os jagunços do ditador líbio

por Pedro Correia, em 20.02.11

 

Financiou o terrorismo internacional. Sob o seu mandato, pelo menos 250 presos políticos "desapareceram" misteriosamente. Os partidos são rigorosamente proibidos no país. A tristemente célebre Lei 71 pune a "dissidência", em casos extremos, com a pena de morte. Agora o ditador há mais tempo em funções no planeta não hesita em virar as armas contra o seu próprio povo para se perpetuar no poder: a tentativa de esmagamento do movimento pró-democracia na Líbia já ali provocou 233 mortos, segundo o Observatório de Direitos Humanos. Muammar Kadhafi, que procura censurar toda a informação, tem no entanto direito a assento oficial na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. Não é preciso mais nada para se avaliar como é urgente a reforma das instituições internacionais e para se perceber a que ponto chegou o descrédito da ONU, que alguns sonham ver como sede de um futuro governo mundial.

Portugal, que em Dezembro de 2007 o recebeu com honras de estadista na lamentável cimeira dos ditadores realizada em Lisboa, mantém um envergonhado e vergonhoso silêncio sobre o massacre de cidadãos líbios às mãos dos jagunços de Kadhafi, como já muito bem o Rui Rocha sublinhou aqui. Um silêncio que não pode prolongar-se. Ser membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas não pode servir só para os habituais rodriguinhos de propaganda interna.

 

Adenda das 00.38: actualizei o número de mortos - de 173 para 233. A fonte é a mesma.

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Este já não prende mais ninguém

por Pedro Correia, em 15.01.11

 

Menos um tirano no activo: a revolta popular que estalou há duas semanas na Tunísia acaba de derrubar o general Ben Ali, que ocupava o palácio presidencial em Tunes desde 1987 e se especializou em organizar eleições fraudulentas em que obtinha sistematicamente 99% dos votos. O seu consulado despótico pertence já ao passado: agora rumo ao exílio, o general não encontra país disposto a dar-lhe guarida - a começar pela dúplice França, que tanto o auxiliou a prolongar-se no poder.

Ben Ali, convém recordar, foi um dos ditadores a quem o Governo português estendeu a passadeira vermelha em Dezembro de 2007, por ocasião da  lamentável cimeira UE-África. Como na altura escrevi, «segundo a Amnistia Internacional, existem centenas de presos de consciência na Tunísia, a pretexto do combate ao terrorismo internacional. As condições de detenção são "cruéis, inumanas e degradantes". Muitos prisioneiros são condenados em "julgamentos injustos", inclusivamente em tribunais militares». Isso não evitou que Cavaco Silva e José Sócrates o tivessem recebido com todas as honras protocolares em Lisboa: as vénias que lhe fizeram constituiram um insulto irreparável aos resistentes tunisinos.

Agora ao menos, para serem coerentes, poderiam ambos oferecer asilo ao ditador em fuga. Na Aldeia da Coelha ou em Vilar de Maçada.

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O herói de ontem é o tirano de hoje

por Pedro Correia, em 16.11.10

 

Em 1978, o político mais admirado e elogiado do continente africano chamava-se Robert Francis Mugabe. Acabara de assinar com o Governo de Margaret Thatcher o acordo de Lancaster House que pôs fim à década e meia do regime racista de Ian Smith na Rodésia, a antiga Rodésia do Sul, e preparava-se para ascender ao poder. No ano seguinte o país tornava-se independente, com o nome de Zimbábue, e Mugabe jurava mantê-lo como o celeiro da África Austral, garantindo a harmonia social e a prosperidade económica dos seus habitantes, de todas as raças. Num continente onde proliferavam os Bokassas, os Mobutus e os Idi Amins, as palavras moderadas de Mugabe soavam a discurso de estadista.

O líder do novo Zimbábue revelava fibra de resistente: permanecera uma década nas prisões de Smith e conduzira uma guerrilha que dobrara o domínio branco de Salisbúria, pondo fim a 90 anos de domínio britânico. Mas prometera estender a mão aos opressores do passado, o que lhe dava uma aura de invulgar grandeza. “Ontem eram meus inimigos, hoje são meus amigos”, disse à comunidade branca no discurso da independência.

Dez anos mais tarde, fez aprovar uma nova Constituição, que lhe permitiu trocar o cargo de primeiro-ministro pelo de Presidente da República, mas o essencial das promessas mantinha-se incólume: Harare continuava a ser capital de um dos mais prósperos países africanos, albergando uma sociedade multirracial. Não faltaram analistas a elogiar o “milagre” do Zimbábue.

 

Quem analisar com atenção o percurso político de Mugabe – um homem de formação católica que se tornou marxista quando estudava Direito numa universidade sul-africana – verifica que os primeiros sinais do ditador em que se tornou eram já detectáveis no início da década de 80, quando ainda merecia os mais rasgados elogios da imprensa internacional, pela forma brutal como esmagou aquele que era então o seu principal adversário político: Joshua Nkomo, líder da União Popular Africana do Zimbábue (Zapu). Nkomo foi, a par de Mugabe, um dos principais resistentes ao regime de Ian Smith. Após a independência, em 1980, integrou o Governo de unidade nacional como ministro do Interior. Menos de dois anos depois, Mugabe acusou-o de conspiração contra o Estado. Foi preso e pelo menos 20 mil dos seus apoiantes no Leste do país acabaram assassinados. A Zapu foi dissolvida e a União Nacional Africana do Zimbábue (Zanu), de Mugabe, tornou-se o partido único.

 

No ano 2000, a máscara caiu de vez. Mugabe lançou uma “reforma agrária – a ocupação pura e simples das propriedades agrícolas dos brancos. Suprimiu toda a oposição. Aboliu o poder judicial independente. Meteu na cadeia opositores, sindicalistas, estudantes e activistas de direitos humanos. Amordaçou a imprensa. E fez mergulhar o país no caos económico: em Outubro de 2008, segundo o Banco Central do Zimbábue, a inflação atingiu 231.000.000%. Milhões de zimbabuanos abandonaram o país para fugir à fome.

As ilusões do passado transformaram-se num interminável pesadelo. “Só Deus pode retirar-me o poder que me concedeu”, proclama Mugabe, hoje com 86 anos – o mais velho dirigente africano. O antigo estadista modelar, invocado outrora como exemplo no continente, é apenas mais um nome a juntar à longa lista de tiranos que vêm destruindo o sonho de uma África próspera, justa e livre.

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Notícias politicamente incorrectas (3)

por Pedro Correia, em 14.09.10

A segunda volta das presidenciais na República da Guiné tornou-se incerta. O escrutínio, previsto para domingo, está ameaçado por um boicote, pela violência e pela desordem política que nos últimos dias se instalou no país.

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Gostava que a morte não fosse assim

por Pedro Correia, em 08.11.09

Birth or Death? There was a Birth, certainly,
We had evidence and no doubt. I had seen birth and death,
But had thought they were different; this Birth was
Hard and bitter agony for us, like Death, our death,
We returned to our places, these Kingdoms,
But no longer at ease here, in the old dispensation,
With an alien people clutching their gods.
I should be glad of another death.

T. S. Eliot

 

Na Somália vigora a lei islâmica, que não perdoa: o adultério é punido com o apedrejamento até à morte. Foi o que aconteceu a Abas Hussein Abidarahman, de 33 anos, executado defronte de 300 pessoas por ter confessado o "crime": a agonia durou sete minutos, como relata a BBC. À mulher foi por enquanto poupada a vida. Motivo: está grávida. A execução só deve ocorrer após o nascimento da criança concebida em "pecado", que será confiada a uns parentes que aceitem tomar conta dela. Queira Alá que não tenha o triste destino dos pais. Ou da menina de 13 anos que morreu também lapidada em Outubro de 2008 em Kismayo, igualmente na Somália, por presumível "adultério". Garantiu o pai que a rapariga fora violada por três soldados, pormenor que o tribunal islâmico terá considerado irrelevante.

Por muito que queiramos fechar os olhos a estes factos, em nome do relativismo cultural, do respeito pelas 'tradições islâmicas' ou do longo cortejo de 'pecados do homem branco' em África que jamais deixam de ser expiados, eles existem. Teimosamente, persistentemente, existem. E conseguem por vezes até ser transformados em notícia, apesar de não ser rara a execução dos mensageiros. E não se passam num tempo remoto, envolto em trevas medievais, algures num inacessível reino de pesadelo: estas violações diárias dos mais elementares direitos da espécie humana ocorrem no mesmo instante e no mesmo planeta em que esgotamos a nossa indignação a clamar contra o milho transgénico ou os animais de circo.

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Yes, you can

por José Gomes André, em 13.07.09

 

As (excelentes) intervenções de Obama em África suscitaram um óptimo texto de Nuno Gouveia, do qual salientaria a seguinte passagem: "Obama pediu aos africanos que parem de se queixar do seu passado colonialista, e da exploração que sofreram pelos europeus. A génese dos problemas africanos está sim, na corrupção e nas suas elites. E Barack Obama foi mais longe, dizendo que a ajuda ocidental deve ser acompanhada pela garantia de boa governação e de boas práticas democráticas. [...] ao contrário daqueles que culpam o Ocidente e o capitalismo, o presidente americano urge os governos africanos a abraçaram um modelo de desenvolvimento económico e social responsável, assente nas instituições democráticas."

Obama está perfeitamente ciente de que a sua Presidência assume importantes contornos simbólicos e que esse facto, mais do que simples curiosidade, pode ser utilizado para operar alterações concretas nas políticas públicas. Naturalmente que não se "decreta" por exemplo o fim do racismo nos EUA, nem o fim da corrupção em África, mas quando um Presidente negro se refere a estes dois temas, as suas palavras têm uma amplitude e um significado reforçados. E ao insistir que, quer os afro-americanos, quer os povos africanos, têm de abandonar a referência sistemática à "exploração do passado", e assumir a sua responsabilidade e lutar pelo seu próprio destino, Obama envia claramente a mensagem certa.

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O drama da Guiné-Bissau

por Pedro Correia, em 12.03.09

 

Cansei-me de ouvir o discurso da nossa responsabilidade histórica perante os morticínios que continuam a cometer-se em África. Três golpes de Estado, um presidente assassinado, três chefes militares abatidos e um primeiro-ministro executado em menos de 35 anos, a Guiné-Bissau em estado de insolvência, uma esperança média de vida baixíssima, o poder nas malhas do narcotráfico internacional - e há ainda quem venha explicar tudo isto com a Conferência de Berlim, de 1885, e a colonização portuguesa. É o caso do João Tunes, uma das pessoas que mais respeito na blogosfera. Os argumentos que invoca merecem-me reflexão. Mas não me convencem. Pela mesma lógica, poderíamos sempre culpabilizar a conferência de Viena, de 1815, que redesenhou o mapa da Europa, como causa da I Guerra Mundial um século depois e as imposições do Tratado de Versalhes, em 1919, como chave de ignição da II Guerra Mundial - e neste caso atenuando desde logo as responsabilidades históricas do impulso totalitário de Adolf Hitler.

Num mundo interdependente, a causa do progresso é a construção de grandes blocos regionais com fronteiras diluídas. João Tunes fala na Conferência de Berlim, mas esquece que os movimentos progressistas que tomaram o poder em África, no final dos anos 50, impuseram como dogma a intocabilidade das fronteiras coloniais, assumindo-as na plenitude. Precisamente na mesma época em que Jean Monnet e outros visionários lançavam os alicerces de uma Europa unida.

A União Europeia como aglutinação voluntária de povos que travaram batalhas milenares é uma causa progressista. A multiplicação de estados "étnicos" nos Balcãs ou a edificação de um País Basco "independente" à força da bomba, tudo em nome do nacionalismo, são causas reaccionárias, que nada deviam ter a ver com a esquerda. Lamento que haja tanta gente de esquerda a dar-lhes caução política, tão equivocada como quando via em Nkrumah ou Sékou Touré, nos anos 60, os estadistas iluminados de uma nova era. Tudo isso era um logro, como aqui já sublinhei.

O drama da Guiné-Bissau não é filho de pai incógnito: tem rostos, tem nomes, tem protagonistas. Quase todos do PAIGC, a força política que durante tanto tempo foi erigida como símbolo da nova África e afinal era apenas uma erupção da África velha. Sei que este é um facto incómodo. Mas é tempo de o deixar escrito com todas as letras.

 

Ler também:

- Guiné-Bissau, um olhar moçambicano. Editorial do jornal Savana, transcrito na Estrada Poeirenta.

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De vanguarda a retaguarda

por Pedro Correia, em 11.03.09

 

Nos dias que correm, nada como a Guiné-Bissau simboliza tão bem as surpreendentes reviravoltas da História. Arvorada durante anos em bandeira do progresso, a "independência" guineense transformou-se num dos maiores logros do nosso tempo. A causa nacionalista, aliás um conceito reaccionário por excelência, mal disfarçava então os velhos demónios xenófobos e tribalistas que não tardaram a soltar-se mal terminou o 'fardo do homem branco' em África. O percurso da "independência" da Guiné-Bissau, hoje presa das redes de narcotráfico internacional, não podia ser mais trágico. Naturalmente, quem há três décadas enaltecia o PAIGC como vanguarda do progresso histórico não tardou a virar-se para outras causas mais apelativas - e hoje é possível ocorrer algo tão impensável como o Presidente Nino Vieira, antigo herói da guerra da "independência", ser assassinado e literalmente esquartejado como um animal no matadouro sem que o facto suscite uma só linha de comoção em blogues habituadíssimos a comover-se com um único tiro disparado na Palestina ou nos Balcãs. Percebe-se porquê: o drama guineense é um tema incómodo para Portugal. Talvez por isso, o Estado português fez-se representar no funeral de Nino - que era chefe do Estado em funções no momento em que foi morto - apenas pelo secretário de Estado Gomes Cravinho. Não podia ser mais gritante o contraste com a classe política que se acotovelava ontem em Lisboa para cumprimentar o Presidente de Angola ou com a comitiva de sete ministros, seis secretários de Estado e 28 empresários que José Sócrates leva a partir de amanhã a Cabo Verde.

Encerrado o ciclo colonial, a República da Guiné-Bissau deixou de ser uma peça no xadrez geopolítico e uma flor na lapela progressista. É quase como se não existisse, aconteça lá o que acontecer. E existirá mesmo?

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O tirano que passeou por Lisboa

por Pedro Correia, em 06.03.09

Há pouco mais de um ano, por ocasião da inútil cimeira UE-África, Lisboa recebeu com pompa e circunstância este senhor, que nunca devia ter sido nosso hóspede, como na altura afirmei aqui. É uma figura nada recomendável - o Tribunal Penal Internacional acaba de lançar um mandado contra ele, acusando-o de crimes contra a humanidade e crimes de guerra. O general Omar al-Bashir - ditador do Sudão, o maior país de África - é o responsável (i)moral pela morte de cerca de 300 mil pessoas no Darfur desde 2003, uma das mais brutais acções de extermínio registadas nos nossos dias.

"Bashir é suspeito (...) de ataques intencionais contra uma parte importante da população do Darfur (...), assassinando, exterminando, violando, torturando e forçando a fuga de um grande número de pessoas, cujas propriedades foram saqueadas", declara o TPI. Outra consequência dramática do morticínio no Darfur: mais de dois milhões de desalojados, a maioria no vizinho Chade.

O tirano sudanês apressou-se a desafiar a ordem do tribunal, que implica a sua detenção em qualquer dos 108 países que reconhecem a jurisdição do TPI. "Haia [onde se situa a sede do tribunal] pode comer o mandado", proclamou o general, apoiado pela União Africana e pela Liga Árabe. E também pela Rússia e pela China, países que não reconhecem a jurisdição do TPI. Inversamente, as organizações internacionais de direitos humanos aplaudem. "As acusações são um sinal forte de que a impunidade deixou de existir", sublinhou Reed Brody, da Human Rights Watch. Ele sabe do que fala. A regra, no mundo "civilizado" em que vivemos é esta: "Quem mata uma pessoa, vai para a cadeia. Quem mata 40, é internado num hospital psiquiátrico. Quem mata 40 mil, ruma a um exílio dourado com uma conta bancária num país estrangeiro."

Bashir é o primeiro chefe de Estado em funções a ser formalmente acusado de crimes contra a humanidade. Nunca o deveríamos ter recebido em Lisboa. Em nome da vítimas do Darfur, contra a cultura da impunidade.

 

Ler também:

- Apanhem o Bashir! De Ana Gomes, na Causa Nossa

- Darfur. Do Daniel Oliveira, no Arrastão

- Eu hoje acordei assim... Da Carla Quevedo, na Bomba Inteligente

- A propósito da acusação do TPI contra Omar al-Bashir... De Alexandre Guerra, n' O Diplomata

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