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Histórias do Novo Mundo (9)

por José Gomes André, em 18.03.09

Como todos os grandes conflitos bélicos, a Guerra Civil Americana está repleta de episódios memoráveis. Um dos meus preferidos refere-se ao encontro dos Generais Grant e Lee, em Appomattox (em Abril de 1865), para discutirem os termos da rendição sulista. Ulysses Grant, o líder do exército nortista, era conhecido pela sua brutalidade e pelo modo temerário com que enfrentara os rebeldes, não raras vezes às custas de milhares de fatalidades. Robert Lee, o grande General sulista, era igualmente uma lenda. Brilhante estratega, obtivera triunfos impensáveis com um número inferior de forças. Sóbrio no trato, recordava o aristocrata virginiano, frugal, mas simultaneamente conspícuo e educado.
A cena é inesquecível. Grant chega atrasado ao mais importante encontro da sua vida. Apresenta-se com uma camisa de cor esbatida e desabotoada, calças corroídas pela guerra e um par de botas vulgar, escondendo-lhe a lama a cor natural. Não trazia esporas, nem espada, nem revólver. O uniforme confundia-se com o de um soldado raso.
Lee esperava-o a um canto da sala. Vestira o seu melhor fato, um uniforme cinzento irrepreensível, perfeitamente engomado, onde se distinguiam as estrelas reluzentes que lhe designavam a alta patente. Trouxera consigo uma espada notável, que se alongava junto ao corpo. O punho, adornado com belas jóias, aguardava o toque aveludado das experientes mãos do general, cobertas com novíssimas luvas esverdeadas. As botas, impecavelmente limpas, possuíam esporas com grandes rosetas.
Apesar de triunfante – e perante o mais célebre inimigo – Grant manifesta uma excepcional deferência para com Lee, que obtém generosas concessões na negociação dos termos de capitulação. Os soldados sulistas não serão acusados de traição e poderão regressar a casa montando os seus cavalos. Seriam imediatamente fornecidos mantimentos àqueles que ainda se encontravam nas linhas de combate. E três dias mais tarde, ao deporem as armas, os soldados revoltosos receberiam ainda honras militares.
Juro que consigo ouvir o general Grant, sussurrando na direcção de Lee: “peço desculpa por tudo isto”. Afinal, a dignidade não é exclusiva dos vencedores.

 

[republicado a partir de um texto que escrevi há dois anos no BPC].

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Histórias do Novo Mundo (8)

por José Gomes André, em 09.03.09

O Senado federal foi criado para funcionar como uma assembleia de elite, que controlaria simultaneamente a acção do Presidente e a legislação oriunda da “popular” Câmara dos Representantes. Nele serviram figuras notáveis da história americana (como Daniel Webster, Henry Clay, George Norris ou JFK) e hoje o Senado continua a fazer jus ao título de “clube mais exclusivo do mundo”. Todavia, nem sempre foi assim. No final do século XIX, o desenvolvimento das máquinas partidárias, dos lóbbies industriais e das pressões financeiras tornaram os senadores reféns de agendas específicas ou de interesses particulares.

Uma das histórias que melhor ilustra como esta câmara de elite deu lugar a uma assembleia corrupta sucedeu quando um jovem senador pediu a um dos seus mais antigos membros, Cushman Davis, que lhe descrevesse brevemente os seus novos colegas. À medida que estes se encaminhavam para os seus lugares, Davis iniciou então uma extraordinária enumeração: “Eis que chega um chacal; um abutre; um cão que gosta de atacar ovelhas; um gorila; um crocodilo; um busardo; uma velha galinha, que não para de cacarejar; um pombo; um peru”. Por fim, ao ver chegar um senador dos novos Estados do Oeste – gordíssimo, ambicioso, insolente e com um ar duvidoso, entrando no Senado de forma arrastada – Davis apontou o dedo na sua direcção e exclamou de forma exaltada: “Um lobo, senhor! Um lobo maldito, faminto, furtivo e cobarde!”.
Ao ler esta descrição, quase tenho vontade de a incluir na série “Passado Presente”, transferindo-a para uma realidade geográfica mais próxima de nós...

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Histórias do Novo Mundo (7)

por José Gomes André, em 04.03.09

A expansão para o Oeste selvagem suscitou reacções ambivalentes no imaginário americano. Havia, por um lado, um entusiasmo associado a essa notável aventura, que prometia glória e fama para quem nela se atrevia a mergulhar. Porém, o confronto com os rigores do clima, a aridez do solo e a desolação da paisagem conferia um travo amargo a essas esperanças.

São pois muitos os relatos de pioneiros desiludidos com a colonização do Oeste, que também nem sempre impressionou os principais responsáveis políticos americanos. Tendo viajado certa vez até perto de Cheyenne, no que é o hoje o Wyoming, o senador Benjamin Wade comentou com um rancheiro local: “Este é um território ruim – um território abandonado por Deus”. “Está enganado, senador”, disse o rancheiro. “É um território muito bom. Apenas lhe falta água e uma sociedade decente”. Ao que Benjamin Wade respondeu: “Pois, é tudo o que falta ao inferno”.

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Histórias do Novo Mundo (6)

por José Gomes André, em 15.02.09

Na arquitectura política norte-americana, um dos cargos mais peculiares é o de Vice-Presidente, a quem cabem duas tarefas: substituir o Presidente em caso de morte ou incapacidade do mesmo; e presidir às sessões do Senado (sem direito de voto a menos que exista um empate). Embora em anos recentes, os Vice-Presidentes tenham assumido alguma preponderância na Casa Branca (servindo como conselheiros do Presidente), a verdade é que se trata de um cargo com pouca ou nenhuma relevância concreta.

Ao longo dos tempos, os protagonistas e os estudiosos da história americana não deixaram de sublinhar esta singular inutilidade. John Adams, o primeiro Vice-Presidente, chamou-lhe “o cargo mais insignificante alguma vez engendrado pela imaginação humana”. O historiador Arthur Schlesinger considerou que o Vice-Presidente tinha apenas "um encargo verdadeiramente sério": "esperar que o Presidente morra”. Mas talvez a declaração mais sintomática e divertida seja a de Thomas Marshall (Vice-Presidente de Woodrow Wilson): “Era uma vez dois irmãos. Um fez-se ao mar. O outro foi eleito Vice-Presidente. A partir daí, nunca mais ninguém ouviu falar deles.”

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Histórias do Novo Mundo (5)

por José Gomes André, em 09.02.09

Erudito cientista, prezado escritor, eminente revolucionário, tipógrafo, polemista, diplomata, Benjamin Franklin foi o verdadeiro self-made man mais de um século antes do termo ter sido inventado. Um dos pontos culminantes da sua vida surgiu quando contava já 81 anos: a participação na Convenção de Filadélfia, onde seria elaborada e aprovada a Constituição federal dos Estados Unidos.

Discursando em várias ocasiões, Franklin manifestava grande preocupação pelo facto de os Estados se recusarem a obter um compromisso quando à natureza do sistema federal. No último dia da Convenção, e ultrapassada essa dificuldade, Franklin confessaria por fim a sua satisfação e ao mesmo tempo as suas esperanças no futuro dos EUA.

À medida que a Constituição era assinada pelos delegados, Franklin referiu-se a uma pintura que se encontrava na sala e confessou a alguns membros: “Tenho olhado [para este desenho] no curso das sessões, sem ser capaz de dizer se se trata de uma aurora ou de um crepúsculo; mas agora, tenho a felicidade de saber que ali se encontra uma alvorada e não um sol poente”. Em seguida, assinou ele próprio o texto constitucional, não evitando que uma lágrima lhe corresse pelo rosto.

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Histórias do Novo Mundo (4)

por José Gomes André, em 02.02.09

Embora republicana na sua matriz, a Revolução Americana sempre sentiu um grande apreço pelo sistema constitucional britânico e pelas tradições inglesas. É disto exemplo uma célebre discussão no Congresso, no início de 1789, a propósito das denominações formais dos titulares de cargos públicos. Na altura, um comité do Senado sugeriu que o Presidente americano fosse designado de “His Highness the President of the United States of America and Protector of the Rights of the Same” (Sua Majestade o Presidente dos Estados Unidos da América e Protector dos seus Direitos).

Embora ridicularizado por muitos congressistas, este título pomposo seria todavia defendido por alguns americanos famosos. Um deles era John Adams, um dos arquitectos da Revolução, mas ainda assim um conhecido admirador do modelo político britânico, que elogiara nos seus escritos. Esta posição mereceu escárnio no seu tempo e Adams não se livraria de uma imagem histórica pouco simpática, que usualmente sublinha a sua predilecção aristocrática e as suas “tendências monárquicas”.
 Um jornal satírico de então, aproveitando o facto de Adams ser um dos homens mais gordos da sua época, chegou mesmo a propor que lhe fosse concedido o seguinte título nobiliárquico: “John Adams, His Roundness”. Intraduzível, meus amigos, intraduzível...

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Histórias do Novo Mundo (3)

por José Gomes André, em 25.01.09

Ao contrário do que exemplos como JFK ou Obama podem sugerir, nem sempre a bonomia caracteriza a conduta dos Presidentes americanos. Na verdade, existem vários casos de figuras irascíveis e francamente turbulentas, como Theodore Roosevelt ou Richard Nixon. Todavia, o mais intratável dos Presidentes dos Estados Unidos terá sido porventura Lyndon Johnson (1963-1969). Desconfiava de tudo e todos, tendo colocado escutas nos escritórios dos seus próprios colaboradores e nas casas-de-banho da Casa Branca. Dirigia reuniões com frequência enquanto defecava na sanita, perante os olhares atónitos do seu staff.

Recebia os convidados em salas privadas, com quatro televisores ligados, e fazia questão de lhes falar a meio metro de distância, intimidando-os com a sua presença altiva e a sua voz grave. Sempre que pretendia convencer um membro do Congresso a votar favoravelmente uma sua proposta, fechava-se a sete chaves com o dito em salas exíguas, das quais saíam apenas quando atingidos os seus objectivos. Este procedimento chegava a durar quatro horas, como nos conta a sua biógrafa Doris Kearns. Numa dada ocasião, quando se preparava para contratar um assessor político, comentou com um seu conselheiro: “Exijo lealdade total. Eu quero que ele me dê um beijo no rabo [“to kiss my ass”] à meia-noite e diga que cheira a rosas. Eu quero a pila [pecker] dele no meu bolso” [Paul Johnson, A History of the American People, p. 890]. Definitivamente, um mestre na fina arte das relações públicas.

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Histórias do Novo Mundo (2)

por José Gomes André, em 18.01.09

A expansão americana para Oeste propiciou o aparecimento de uma cultura aventureira, conciliando o gosto por intrépidas façanhas, o apreço pelo excêntrico e o impulso para gerar novas formas de expressão. Surgiu assim a figura do “declamador”, que combinava talentos oratórios com um espírito audaz e verdadeiramente chico-esperto que fervilhava nos colonizadores do Oeste. Veja-se este discurso de campanha de um candidato no Oregon, em 1858, contagiado por esse espírito barroco, quase grotesco:

 
"Concidadãos, tanto podem tentar secar o oceano Atlântico com uma palhinha ou tirar este pódio de debaixo dos meus pés com um moscardo couraçado, como tentar convencer-me de que não vou ganhar estas eleições. O meu adversário não tem hipótese nenhuma, nem vestígios. Não tem o intelecto de um sável de tamanho normal. Amigos, eu sou uma parelha de bois com dois buldogues debaixo do carro e um balde de alcatrão, sou mesmo. Se há alguém neste lado do mundo debaixo do Sol que me possa bater, que se mostre, estou preparado. Rapazes, eu defendo a águia americana, garras, estrelas, listas e tudo, e aposto os meus botões em como sou capaz de bater quem quer que o negue!" [Daniel Boorstin, Os Americanos, vol. II, p. 289]

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