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Soldados do Califado

por Luís Naves, em 08.01.15

O atentado de Paris contra o jornal satírico Charlie Hebdo foi também um ataque brutal às elites intelectuais francesas. A emoção da frase “somos Charlie” será inconsequente se não for acompanhada de uma reflexão. Os dois primeiros suspeitos do tiroteio chamam-se Cherif e Said Kouachi (à hora a que escrevo ainda não foram capturados). Os dois irmãos franceses de origem magrebina estavam referenciados pelas autoridades policiais, combateram na Síria e, no entanto, estes soldados do Califado regressaram tranquilamente a França, onde aparentemente obtiveram armamento de guerra. A ser verdade, como é que isto foi possível?

O ataque não visou exactamente a liberdade de expressão, pois os terroristas estão-se nas tintas para quem criticar a República ou o presidente Hollande. O ataque foi contra o direito de criticar o Islão, norma que não sabemos exactamente onde começa, embora seja nítido onde acaba. Os dois terroristas simbolizam o desprezo que o Islão radical tem pelo Ocidente, mas também a forma benevolente como a elite intelectual francesa (à excepção porventura de jornais como Charlie) tem tratado esse mesmo Islão radical.

Os intelectuais franceses e europeus continuam a afirmar que não existe um problema de imigração, continuam a achar que a intolerância religiosa dos radicais é uma reacção à crise económica, mas o facto é que as democracias permitiram o crescimento de um tumor que parece ser difícil de extirpar: muitos jovens muçulmanos foram radicalizados por imãs que aproveitaram as amplas liberdades da sociedade francesa, nomeadamente a liberdade religiosa. O desprezo pelos valores do Ocidente fez o resto. A França é o país europeu com mais combatentes na Síria, onde se formou uma espécie de brigada internacional, sobretudo de europeus que vão dedicar as suas vidas, previsivelmente curtas, à destruição do Ocidente.

O Islão radical é uma ideologia fanática com escassas hipóteses de triunfar no mundo, mas a sua ascensão deve-se em grande parte à ingenuidade das elites intelectuais do Ocidente, sempre velozes a condenar uma inquietação popular que é fácil classificar de “xenofobia”. Os movimentos populistas e a extrema-direita têm aproveitado habilmente o conflito social e cultural que decorre no interior dos bairros mais pobres. Quando vivi em França, nos anos 80, já era insuportável a hostilidade dos árabes em relação à população não-muçulmana e ocorreu um fenómeno que os sociólogos da época tinham dificuldade em compreender: os operários, que votavam no PCF, passaram directamente para a Frente Nacional, grupo então associado apenas aos chamados ‘pieds noir’ (retornados da Argélia) e que teve os seus primeiros verdadeiros êxitos nestes anos. Nas décadas seguintes, muitas famílias muçulmanas integraram-se na sociedade francesa, mas uma parte significativa foi radicalizada quase em silêncio e as liberdades republicanas acabaram por ser suprimidas em muitos locais onde a polícia não entra e onde mandam os fanáticos.

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