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Séries do ano (5) - 11.22.63

por Diogo Noivo, em 18.10.16

11.22.63.jpg

 

Tudo começou em Lisboa. Porque foi a capital portuguesa a dar o nome a uma pequena localidade no Maine, nos Estados Unidos da América. Porque no liceu dessa localidade estudou Stephen King, célebre escritor de ficção científica e de histórias de terror, autor de grandes êxitos literários, alguns dos quais adaptados ao cinema com igual sucesso, como The Shining, Carrie, Stand By Me, The Shawshank Redemption e The Green Mile. E finalmente porque King escolheu Lisbon, no Maine, como palco de abertura de 11.22.63.

Esta minissérie, uma adaptação televisiva do livro homónimo, conta a história de Jake Epping (interpretado por James Franco), um professor no liceu Lisbon Falls – a escola onde Stephen King estudou – que viaja no tempo para evitar o assassinato de John Fitzgerald Kennedy. Daí o título: Kennedy é morto, em Dallas, no dia 22 de Novembro de 1963.

Mas comecemos pelo princípio. Al Templeton (Chris Cooper) é o proprietário de um diner onde, num canto esconso, existe um armário que nos leva a 1960, concretamente ao dia 21 de Outubro. Para Al, evitar a morte de Kennedy permitirá, graças ao efeito borboleta, resolver todos os males contemporâneos dos Estados Unidos da América, o que, consequentemente, será uma mais-valia para o mundo. É uma ideia muito discutível, mas, como estamos no domínio da ficção científica, aceita-se. Existem, contudo, dois problemas. Em primeiro lugar, o passado não gosta de ser perturbado e resiste. Em segundo lugar, sempre que se regressa do passado ao presente, o mundo faz reset, tudo volta ao mesmo. Logo, para que as mudanças produzidas no passado tenham um efeito duradouro, o agente de mudança tem que se sacrificar, permanecendo no passado para sempre. Templeton fez a viagem, permaneceu vários anos na década de 1960, mas como o passado penaliza quem o tenta modificar, desenvolve um cancro agressivo que o impede de completar a missão. Convence então o seu amigo de longa data Jake Epping para o substituir e salvar a História. Jake mostra-se reticente, mas Al tem um argumento de peso: independentemente do tempo transcorrido no passado, 3 semanas ou 3 anos, no momento presente passarão apenas 2 minutos – a dinâmica das viagens no tempo, ao bom estilo de Stephen King, fica envolta em mistério.

 

 

Ainda antes de conhecer o portal do tempo, Jake Epping diz aos seus alunos que os detalhes são importantes. Mais do que uma simples fala num guião, a frase é um manifesto. A força de 11.22.63 está precisamente na maneira como apresenta e cuida os detalhes, sobretudo em dois campos. Por um lado, os desafios apresentados pela ideia de viajar no tempo são explorados com perícia. Por outro lado, a série presta muita atenção aos factos históricos e às principais teorias da conspiração que pairam em torno da morte de JFK.

O que começa com o tom paranormal típico de Stephen King transforma-se depois num drama de época, que é simultaneamente um tímido exame à consciência colectiva dos EUA. Evitar a morte de JFK é uma velha fantasia dos liberais norte-americanos. Sem revelar muito, digo apenas que 11.22.63 mostra de forma competente que as coisas não são lineares.

Não há nada de excepcional ou de profundamente original nesta minissérie de 8 episódios. Incluo-a nesta "Séries do ano" por três razões. Em primeiro lugar, sou fã do trabalho de Stephen King e das suas adaptações ao cinema. Portanto, subjectividade assumida. Em segundo lugar, e relacionado com o ponto anterior, a última adaptação de uma obra de King à televisão, Under The Dome, foi um enorme e incontido bocejo. Este 11.22.63 sai beneficiado pois as expectativas – as minhas, pelo menos – eram baixas. Em terceiro e último lugar, a série é competente do ponto de vista narrativo e muito capaz na recriação dos Estados Unidos da América nos anos de 1960. A união entre Stephen King e J.J. Abrams (criador e produtor das séries Lost e Fringe; realizador e produtor dos filmes Super 8 e Star Wars: Episode VII) é solvente.

Contudo, ficou aquém dos propósitos comerciais. 11.22.63 foi a grande aposta da Hulu, uma plataforma de video on demand, propriedade do consórcio formado pela The Walt Disney Company, 21st Century Fox, Comcast e Time Warner. A ideia era fazer sombra à Netflix, o que não aconteceu.

Numa última nota, é curioso que escritores como Stephen King, que nunca tiveram dificuldades em levar os seus livros ao grande ecrã e em conseguir com essas adaptações filmes de enorme sucesso, optem agora pela televisão. São várias as razões possíveis para esta mudança. Permito-me especular: como é patente no caso de The Night Of, o tempo oferecido pelo formato televisivo tem inúmeras vantagens, especialmente relevantes quando se trata de adaptar de um livro. Por outro lado, nos dias de hoje, a qualidade da produção e da fotografia em televisão não pedem meças ao cinema.

 

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2 comentários

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De Pedro Correia a 18.10.2016 às 17:57

Gostei desta série, não só pela forma original como se contorna o tema da conspirativite aguda que ainda assola os EUA a propósito de morte de Kennedy (e de mil outros assuntos), mas sobretudo pelo grande desempenho de James Franco.
Não lhe dou cinco estrelas: julgo que não as merece. Mas destaco o meticuloso trabalho da produção, irrepreensível na reconstituição dos cenários da época - incluindo penteados, vestuário, carros, hábitos, costumes e até a maneira de falar. É particularmente notável o trabalho ao nível dos diálogos para manter o curioso choque cultural entre um viajante do século XXI, com uma linguagem muito mais solta, e o puritano sul norte-americano do início da década de 60.
Nota muito positiva, de qualquer modo.
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De Diogo Noivo a 20.10.2016 às 01:30

Vejo que estamos de acordo. De facto, não foi a série do ano - das que aqui apresentei, acho "The Night Of" a melhor -, mas este 11.22.63 merece uma nota muito positiva.

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