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Séries do ano (4) - Game of Thrones

por Diogo Noivo, em 11.10.16

game-of-thrones.jpg

 

Game of Thrones é o José Sócrates das séries de televisão. Não que seja uma série ensimesmada, irascível, de estrutura ética e comportamento duvidosos (embora isto caracterize boa parte dos personagens de Game of Thrones), mas porque apenas suscita amor e ódio. Não há meio-termo. Contudo, e ao contrário do que sucede no caso do antigo Primeiro-Ministro, quanto mais se vê Game of Thrones mais se gosta.

Fui dos que, após meses de resistência, se converteu – à série, porque a José Sócrates creio que nem sob o efeito de psicotrópicos. Numa primeira abordagem, a série reúne todos os ingredientes que detesto em ficção: ambiente medieval, dragões, armaduras, batalhas épicas, solípedes com fartura, e mais uns quantos artifícios que parecem ter saído da mente de um miúdo pré-adolescente. Vistos os primeiros episódios, desenganei-me e integrei as fileiras da legião de fãs. Game of Thrones é uma série muito bem pensada e escrita, bem produzida, extraordinariamente bem interpretada, e com uma capacidade de prender o espectador quase insuperável.

O universo de Game of Thrones faz-se de um conjunto de reinos e de famílias em competição pelo poder. São ameaçados por perigos externos cuja gravidade, bem vistas as coisas, depende quase em exclusivo da solidez interna de quem é ameaçado. Há guerras de sucessão, umas naturais, outras forçadas. As alianças são tão essenciais quanto voláteis, uma vez que tudo se resume às relações de poder entre as forças em jogo. Na arena política de Game of Thrones, todos sabem que quem pelo poder mata, pelo poder morrerá. É só uma questão de tempo. Abreviando, a série é uma alegoria perfeita da vida política. Sobretudo, da vida em política.

 

Os galardões talvez convençam os cépticos. Os prémios valem o que valem, é certo, mas uma série não se torna a mais premiada na história dos Emmy por mero acaso. Game of Thrones conta já com 38 estatuetas (destronou Frasier), das quais duas são de Melhor Drama Televisivo (conseguidas em 2015 e 2016). Nesta categoria, o recorde está nas quatro estatuetas, um feito alcançado pelas séries Hill Street Blues/Balada de Hill Street, Mad Men e West Wing/Os Homens do Presidente. Game of Thrones tem mais duas temporadas previstas, logo ainda tem possibilidade de entrar nesta galeria de luxo. Caso o palmarés não chegue para persuadir os resistentes, olhemos então para avaliação dada pelas principais plataformas de televisão e cinema: a IMDb atribui à série uma pontuação de 9.5 em 10; a Rotten Tomatos fixa a apreciação em 94%.

A sétima temporada, que estreará no Verão do próximo ano, e a oitava e última temporada serão mais curtas do que as anteriores, com, respectivamente, sete e seis episódios (as temporadas anteriores contaram com 10). Com o fim anunciado, a HBO, a produtora de Game of Thrones, já apresentou uma sucessora: Westworld. Apesar da nova aposta ter argumentos de peso, como Jonathan Nolan (criador de Person of Interest, co-autor dos filmes Memento, The Dark Knight, The Dark Knight Rises e de Interstellar), Anthony Hopkins, Ed Harris e Sidse Babett Knudsen (actriz protagonista na magnífica série dinamarquesa Borgen), não será fácil replicar o fenómeno de audiências e de lealdade dos espectadores a uma série conseguido por Game of Thrones.

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5 comentários

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De João Campos a 11.10.2016 às 20:18

"Numa primeira abordagem, a série reúne todos os ingredientes que detesto em ficção: ambiente medieval, dragões, armaduras, batalhas épicas, solípedes com fartura, e mais uns quantos artifícios que parecem ter saído da mente de um miúdo pré-adolescente."

Ah, o velho preconceito... mas garanto-te que o George R. R. Martin era já bem adulto quando escreveu o primeiro livro da série (como eram o Tolkien, o Pratchett, ou o Pullman - e este ainda é, e que assim se conserve). E não duvides de que o cerne de toda aquela trama não é tanto a intriga política que tanto encanta tanta gente, mas sim os elementos fantásticos que tanta gente despreza. Os dragões, os Caminhantes, a Longa Noite, as profecias enviesadas da Melisandre...

Já agora, a série televisiva, tendo valores de produção altíssimos (é inegável) e actores talentoso e carismáticos, acabou sempre por ficar muito aquém dos livros. Sim, é lugar comum, mas continua a aplicar-se: é perfeitamente possível apreciar ambas as versões daquela história, mas a trama, as personagens, o mundo secundário têm toda uma outra textura nas páginas. A série vai tendo os seus pontos altos e baixos. As temporadas 4, 5 e 6, por exemplo, estiveram claramente em baixo.

Pelo primeiro episódio, "Westworld" pareceu-me muito promissora. Na televisão "de género", foi a estreia que mais me intrigou desde "Sense 8" das Wachowskis (que, pelos vistos, ninguém viu).
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De Diogo Noivo a 11.10.2016 às 20:56

Sabia que podia contar com um comentário teu a esta série, João. ;)

Tens razão, é preconceito. Mas o que fazer? Os gostos são assim, e reconheço que, por mania, não é o meu "cup of tea". Porém, gostos à parte, a série supera tudo e todos pela qualidade narrativa, pelas interpretações, pela produção, e por um longo e extraordinário etc. E não podia estar mais de acordo a respeito dos pontos baixos. Aliás, esta última temporada podia ter-se resumido aos 3 últimos episódios.

Quanto a Sense 8, de acordo novamente. É porventura a série mais original e arrojada que vi este ano. Mas ainda estou na dúvida se devo ou não inclui-la nesta série de posts. Explico-me: algumas interpretações são muito fraquinhas e, por outro lado, ainda que a história seja muito boa, às vezes assume um papel de militância na defesa da agenda fracturante que me parece excessiva. Mas sim, excelente série - mais uma prova do quão bom é o Netflix.

PS - já falta pouco para o regresso de The Walking Dead.
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De João Campos a 11.10.2016 às 21:28

Desisti de "The Walking Dead" há algum tempo já, tanto na banda desenhada como na série. A dada altura, todo aquele nihilismo acaba por cansar - a menos que o Kirkman retire um grande coelho da cartola, a coisa vai andar sempre a bater na mesma tecla. Enfim, fartei-me. Não houve nenhuma série que a substituísse; na banda desenhada passei a comprar "Saga", de Brian K. Vaughn e Fiona Staples, que é assim um "Star Wars" para adultos (leia-se: violento, complexo, moralmente ambíguo e absolutamente espantoso). Um dia destes trago aqui a banda desenhada.

Achei que os méritos de "Sense 8" superaram largamente os seus pontos mais fracos. Como achei que essa "agenda progressiva" que mencionas se fundiu perfeitamente com a trama, sem em algum momento sentir que um elemento estava ao serviço de outro, ou não viesse a série de onde vem (aliás, o tema tem sido "quente" na ficção científica, e tenho lido coisas recentes absolutamente espantosas nesse campo). E deu ainda para confirmar algo que até já sabia: não há muitos realizadores em Hollywood com a mestria visual das Wachowskis.
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De Diogo Noivo a 12.10.2016 às 21:26

Não creio que seja nihilismo, mas sim a exploração de outro “ismo”: o contratualismo, visto à luz de Hobbes, Rousseau e Locke (reconheço que com clara preponderância do primeiro). Tentarei explicar esta tese dentro de semanas. Vamos ver se sou capaz…
Onde acho que o Kirkman falhou, e sem sair da TV, foi em Outcast. O primeiro episódio prometia muito, mas a partir daí foi tudo um enorme bocejo.

E fiquei curioso sobre “Saga”. Vou espreitar. Embora ter a possibilidade de ler um post de um colega de blogue, que é uma autoridade na matéria, fosse uma excelente maneira de me introduzir nesta banda desenhada. Espero que te animes à escrita.

Quanto a Sense 8, e sem querer ser aborrecido, acho que a agenda fracturante estragou um pouco a história. É perfeitamente legítimo usar um filme ou uma série para promover um ponto de vista/fazer propaganda. Aliás, é algo que se agradece (eu, pelo menos). Mas não se pode subordinar a história à agenda que se quer defender. Torna-se tudo demasiado óbvio e compromete-se o estribo narrativo. Pensa em filmes como Philadelphia (1993). Ou pensa em filmes onde a homossexualidade é um tema constante e estruturante, como Worried About the Boy (2010 – bem sei que é um mau filme, mas as minhas referências musicais fazem dele uma obra de culto). Nestes e noutros casos, os autores defendem o que querem defender sem comprometer a história. E acho que Sense 8 às vezes falha nisto. Porém, teria que ser um tolo para não reconhecer a mestria visual das Wachowskis.
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De João Campos a 14.10.2016 às 00:00

Autoridade? Credo. Longe disso. Apenas fã, nada mais :)

Acho que estás a ler demasiado em "The Walking Dead" (pelo menos em relação ao propósito do Robert Kirkman), mas fico a aguardar esse artigo com curiosidade.

Quanto a "Saga", sim, recomendo mesmo muito. Tem-me entretido nos últimos meses. Isso e "The Sandman", do Neil Gaiman, que se não for a melhor banda desenhada já criada é pelo menos a melhor banda desenhada que já li. Mas é mais antiga. A ver se dedico algumas linhas a ambas num destes dias.

Isso que referes a propósito de "Sense 8" resume de alguma forma uma discussão muito actual e muito virulenta que tem decorrido nos últimos anos no interior das comunidades da ficção científica norte-americana. A verdade é que o género está cada vez mais diverso, e tem produzido coisas absolutamente espantosas.

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