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Séries do ano (3) - The Night Of

por Diogo Noivo, em 04.10.16

TheNightOf.jpg

 

“Quando vamos ao cinema levantamos a cabeça; quando vemos televisão, baixamo-la”. Longe vão os tempos em que este aforismo de Jean-Luc Godard fazia algum sentido. A série The Night Of demonstra-o.

The Night Of é uma boa história, contada com calma. O ritmo da acção, que à primeira vista parecerá um convite à narcolepsia, é na verdade um dos aspectos mais fortes da série. O tempo que o formato televisivo oferece, e que falta ao cinema, pelo menos ao comercial, é aproveitado para construir personagens sólidas, para dar profundidade à história, para obrigar o espectador a pensar. 

O primeiro episódio dá-nos um homicídio com um suspeito mais do que provável. A partir daí, The Night Of centra-se na investigação do crime e sobretudo na defesa em tribunal do alegado criminoso, um jovem universitário de ascendência paquistanesa (interpretado por Riz Ahmed). O advogado de defesa, John Stone (uma interpretação brilhante de John Turturro), é uma figura burlesca, ainda que surpreendentemente verosímil, pouco habituada a casos desta envergadura. O papel foi inicialmente pensado para James Gandolfini, o actor principal em The Sopranos, de quem aliás partiu a ideia de fazer esta adaptação da série britânica Criminal Justice. Gandolfini chegou a filmar o episódio piloto, mas o destino interveio e este gigante morreu, vítima de um ataque cardíaco. A HBO pegou então no projecto e decidiu homenagear James Gandolfini atribuindo-lhe os créditos de produtor executivo a título póstumo.

 

Ao não ter pressa em desenrolar a acção, The Night Of permite-se criar e explorar um conjunto de pormenores simbólicos que, como todos os pormenores, são essenciais. Um deles, e para dar um exemplo, remeteu-me para “Burmese Days”, o primeiro livro escrito por George Orwell. O protagonista, John Flory, tem um sinal de nascimento na cara, uma mancha semelhante a uma equimose, que lhe cobre quase todo o lado esquerdo do rosto. É causa de timidez, de auto-repulsa. Quando Flory morre, a mancha desaparece, um fenómeno que Orwell usou para afirmar que a solidão, a dor e os pecados morrem com o corpo. O advogado de defesa em The Night Of não morre (perdoem-me o spoiler, prometo que não há mais), mas o eczema do qual padece serve um propósito narrativo semelhante ao usado por George Orwell.

A crítica recebeu The Night Of com louvores desmedidos e, desta vez, teve razão. A história é boa e bem contada, a fotografia é magistral (muito superior ao que se tem visto no cinema) e as interpretações são na sua maioria irrepreensíveis. Uma série a não perder.

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