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Séries do ano (1) - The Americans

por Diogo Noivo, em 20.09.16

TheAmericans.jpg

 

Graham Greene e John le Carré ensinaram-nos que o bom espião é aquele que passa desapercebido numa rua vazia. Às séries de televisão coloca-se o desafio inverso, o de sobressair num mercado sobrelotado e ruidoso. Infelizmente, The Americans não foi bem sucedida na missão pois recebeu uma atenção do público muito inferior à merecida, de tal forma que o blogue ‘Quinta Temporada’, do El País, a considera digna do rótulo “a melhor série que não estás a ver”.

The Americans relata a vida de Elizabeth (Keri Russel) e Philip Jennings (Matthew Rhys), dois espiões russos casados pelo KGB, que os infiltrou nos Estados Unidos da América em plena Guerra Fria. São membros do Directório S, um programa da espionagem soviética formado por agentes sem cobertura oficial, pessoas que à superfície têm vidas normais e aborrecidas, simples cidadãos americanos na aparência. Passando do pequeno ecrã para o mundo real, a existência deste tipo de espiões foi motivo de alerta nas Forças e Serviços de Segurança norte-americanos durante a Guerra Fria, embora o caso recente da rede de “ilegais” russos detidos em solo americano prove que este tipo de espionagem não é um anacronismo.

 

Regressando a The Americans, se a espionagem e o conflito entre mentalidades soviéticas e o capitalismo geram tensão suficiente para agarrar o espectador, o outro lado da história não lhe fica atrás. A gestão da vida quotidiana, sobretudo no que concerne à relação com os dois filhos, alheios à vida dupla dos pais (algo que não é um delírio criativo), confere uma densidade à série que muito a valoriza. O guião está bem estruturado, com tramas quase sempre bem urdidas, e é exímio ao agregar a ficção ao momento histórico da Guerra Fria, coordenando o desenrolar da acção com factos políticos relevantes da época, mas também com episódios marcantes da cultura popular americana, como por exemplo a exibição do telefilme The Day After (emitido a 20 de Novembro de 1983, pela ABC). É verdade que algumas das ramificações do estribo narrativo se relevam inconsequentes, mas nem por isso são rasas ou menos interessantes.

Criada por Joe Weisberg (um antigo funcionário da CIA) e por Joel Fields,The Americans começa com um ritmo ligeiro, que vai acelerando ao longo das temporadas, sem nunca perder a sobriedade que nos faz esquecer que se trata apenas de ficção. É uma série tão discreta quanto notável, e aqui sim faz jus aos espiões de Greene e Le Carré. Os dilemas morais que as séries contemporâneas exploram à saciedade são tratados sem exageros ou frivolidades dramáticas. A instabilidade moral é, em The Americans, uma parte grave mas normal na vida de um espião.

Com a chancela da FX, The Americans vai na quarta temporada e terminará com a sexta entrega, a emitir em 2018. Portanto, os interessados vão mais do que a tempo para meter os episódios em dia. Vale a pena.

 

NOTA: O ano ainda não terminou, mas em matéria de séries televisivas já é possível fazer um balanço. Durante as próximas semanas, à terça-feira, trarei ao DELITO as séries que, para mim, foram as melhores de 2016.

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4 comentários

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De Pedro Correia a 20.09.2016 às 17:02

Esta série sobre séries promete, Diogo.
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De Diogo Noivo a 20.09.2016 às 19:19

Agora vamos ver se o tosco do escriba que faz a série é capaz de corresponder às expectativas.
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De José António Abreu a 20.09.2016 às 18:25

Ainda só vi a primeira temporada. Gostei mas não achei excepcional. Já lera que as seguintes conseguem subir a fasquia. Depois deste teu texto, resta-me arranjar um bocadinho mais de tempo livre. Talvez deixando de escrever comentários em posts alheios... :)
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De Diogo Noivo a 20.09.2016 às 19:23

Acho que fazes bem encontrar tempo para ver a série, mas não deixes de passar por cá e de comentar! Para além de bem-vindo, já percebi que é tema que te interessa.
Quanto a “The Americans”, depois da primeira temporada, de facto, a fasquia sobe. Não é a série do ano, mas é boa, consistentemente boa, temporada após temporada.

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