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Sempre ao lado da liberdade

por Pedro Correia, em 02.06.14

"Saber calar é tão difícil como saber falar. Ao que sabe calar, todos o entendem."

Rei Juan Carlos, em carta ao seu filho, o novo Rei Felipe de Borbón, citada no livro El Príncipe y el Rey, de José García Abad

 

O anúncio da abdicação do Rei Juan Carlos encerra uma etapa singular na história de Espanha: o seu reinado coincidiu com o mais longo período de paz e prosperidade alguma vez experimentado pelos espanhóis.

"O periodo mais fecundo", como justamente o qualificou o então chefe do Governo Rodríguez Zapatero em depoimento publicado no El País, em Janeiro de 2008, quando se assinalava o 70º aniversário natalício do monarca.

O primeiro-ministro socialista expressava justamente a satisfação da generalidade dos espanhóis, incluindo aqueles que se proclamam republicanos: Juan Carlos conduziu o país a uma exemplar transição para a democracia, colocando-se sempre ao lado da liberdade. É verdade que Espanha enfrenta diversos problemas, com destaque para a actual crise económica e a ameaça de desagregação territorial. Mas, num país onde ainda não cicatrizaram por completo as cicatrizes da mais devastadora guerra civil de que há memória, sem o monarca tudo teria sido muito pior ao longo destas quatro décadas. Para os espanhóis e também para nós, pois somos cada vez menos imunes ao que se passa aqui ao lado.

O Rei pôs fim à ditadura franquista em estreita articulação com o primeiro-ministro Adolfo Suárez, instituiu um regime constitucional exemplar a vários títulos que fez validar por referendo, restabeleceu o prestígio internacional do seu país e devolveu a plena cidadania a todos os espanhóis. Sem distinção de credos, ideologias ou origem regional. 
Sai de cena no momento que livremente escolheu, orgulhoso por legar ao seu filho Felipe, ainda nas palavras de Zapatero, "uma democracia viva, plenamente consolidada e com um futuro promissor".
Tenho a certeza de que a larga maioria dos espanhóis subscreve estas palavras. Com saudades antecipadas do monarca, que não teve como cognome "o Breve", como ironicamente o designava o antigo líder comunista Santiago Carrillo antes de se converter -- também ele -- ao juancarlismo. Um mandato irrepetível que Espanha lembrará num futuro próximo com inevitável nostalgia: Juan Carlos tem já lugar de honra garantido nos futuros manuais de História.

 

Imagem: Juan Carlos e Adolfo Suárez, os dois artífices da transição espanhola

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20 comentários

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De Luís Lavoura a 02.06.2014 às 12:14

coincidiu com o mais longo período de paz e prosperidade alguma vez experimentado pelos espanhóis

(1) Trata-de de uma mera coincidência.

(2) A ditadura franquista também foi um longo período de paz e prosperidade.
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De Luís Lavoura a 02.06.2014 às 12:15

um regime constitucional exemplar

Os catalães que querem referendar a sua independência talvez não concordem.
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De Maria Dulce Fernandes a 02.06.2014 às 12:32

Juan Carlos definiu a História duma época, criando uma nova época na história.
A família não foi exemplar, nem o homem o foi. O Rei, creio que sim.

"Cada época é definida pelo que apresenta de novo, de especificamente seu. Pode não ser um alto pensamento filosófico, uma grande reforma moral, uma arte requintada, uma ciência generosa. Mas há-de ser a dádiva de qualquer uma dessas manifestações humanas, ou todas, numa concepção inteiramente inédita, original, inconcebível noutro tempo da história." MT
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De Luís Lavoura a 02.06.2014 às 15:50

Porque é que Juan Carlos não foi exemplar como homem? Por ter tido uma amante? Isso nada tem de mal. Ele foi um bom marido e um bom pai, que honrou e apoiou a sua esposa e educou e protegeu os seus filhos.
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De Maria Dulce Fernandes a 02.06.2014 às 17:51

Bem, homem sabia que não era um homem qualquer. A carne é fraca e etc., pois...
Se ter uma amante é honrar a mulher, oh diabo, que estes valores andam muito alterados.
Acredito que foi (e é) bom pai e bom avô.
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De Teresa Ribeiro a 02.06.2014 às 22:49

Eu diria, Maria Dulce, o contrário: estes valores não há meio de mudarem.
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De Luís Lavoura a 03.06.2014 às 09:17

sabia que não era um homem qualquer

Pois não. Era um príncipe que foi, mais ou menos, forçado a casar com uma princesa (Sofia era princesa da Grécia), e não com uma mulher que amasse. E a quem o divórcio estava, mais ou menos, vedado (até por ser de uma outra geração, na qual o divórcio era pessimamente visto).

Os homens que, hoje em dia, deixam de amar a sua mulher e passam a gostar de outra, divorciam-se. Montes de homens e de mulheres hoje em dia fazem isso. A Juan Carlos isso estava vedado. Portanto, o que lhe restava era ter a sua amante, mas continuando a honrar, isto é, a respeitar, a sua mulher e mãe dos seus filhos. Coisa que muitos homens, diga-se de passagem, hoje em dia não fazem - não só se divorciam como atiram com os filhos para cima da ex-mulher e/ou fazem intriga contra ela junto deles.

Continuou a proteger a sua mulher, a tê-la à sua mesa e a dar-lhe sustento e (alguma) companhia. Muitos homens que hoje se divorciam deixam a sua ex-mulher sozinha, sem proteção e financeiramente debilitada. Acha melhor?
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De rmg a 02.06.2014 às 23:59


A expressão "honrar" não será decerto a mais indicada .
Em todo o caso não me parece que a tenha "desonrado" .

Curiosamente este é um assunto em que continua muitas vezes a parecer que os homens são sempre os maus da fita como se , do outro lado , não estivesse (habitualmente) uma mulher.

Ainda não há muito tempo a nossa cara Drª Helena Sacadura Cabral respondeu a um comentador do seu blog sobre isto com o seu enorme sentido de humor e da realidade.

PS - Sou casado há muitíssimos anos (os netos já namoram) e bom rapaz .
E a minha mulher vem aqui ler o que escrevo ...

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De Maria Dulce Fernandes a 03.06.2014 às 10:34

Quantos homens não terão outras mulheres e vice versa ?

Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades e o microscópio público.
( atenção que não foi o tio Ben quem o disse ao PP).
Saber que o marido tem uma amante deve ter feito misérias pelo ego da Rainha Sofia, que decerto ficou bastante honrada com o facto...
Penso cá para com os meus botões que se Doña Sofia tivesse uma ligação sentimental extra-conjugal, o quão honrado se sentiria o marido ....
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De Luís Lavoura a 02.06.2014 às 13:15

Sempre ao lado da liberdade

Agora, que liberta os espanhóis das figuras tristes que vinha fazendo, está finalmente ao lado dela. Já devia ter abdicado há uma boa data de anos.
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De Duda metódica a 02.06.2014 às 13:37

Os casos em que ultimamente a família real de Espanha e ele próprio têm estado envolvidos não me parece que lhe proporcionem saída de cena pela porta grande.
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De Pedro Correia a 02.06.2014 às 22:33

Um reinado de 39 anos não pode medir-se por algo ocorrido em três ou quatro. O balanço tem de ser global. Devemos comparar a Espanha de 1975, o ano em que ele subiu ao trono, com a Espanha actual.
Ninguém de bom senso dirá que Portugal lucrou mais do que os espanhóis pelo facto de, precisamente no mesmo período, termos conhecido por cá cinco presidentes da república.
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De da Maia a 02.06.2014 às 16:15

23-F (1981) é a prova de fogo da democracia espanhola.
Quem não se esconde?
Adolfo Suarez, Santiago Carrillo.
Mas... especialmente um velhote de 70 anos, Gutierrez Mellado, que se levanta e sozinho desafia os militares:
https://www.youtube.com/watch?v=Pcc0_8i0CYs

Certo, mas depois os golpistas queriam a aprovação de Juan Carlos, vá se lá saber porque achavam que ele a daria... e ele não deu. Bravo. Tinha sido mais fácil perguntarem-lhe antes, digo eu.
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De rmg a 02.06.2014 às 17:27


E perguntaram-lhe antes .
Mas ou não perceberam ou não quiseram perceber a resposta .


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De da Maia a 02.06.2014 às 23:01

Os EUA tinham sido contactados e lavado as mãos da golpada.
Quem os contactou foi um general, secretário da Casa Real, próximo do rei:
http://es.wikipedia.org/wiki/Alfonso_Armada
... que ainda tentou formar governo em nome do rei.
Foi Tejero que não quis, porque queria acabar com partidos políticos, em especial os comunistas. A posição de Juan Carlos só apareceu depois de Tejero recusar a proposta de Armada em seu nome...
Esse timing não foi bom, acho eu.
Ainda que tivesse que jogar com as diversas rebeliões dos comandos militares, acho que teria ficado mais claro se ele não se tem pronunciado só de madrugada. Porque assim que ele se pronunciou, o golpe terminou...

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De rmg a 02.06.2014 às 23:45


"da Maia" , exactamente como diz , os EUA até lavaram mais que as mãos , lavaram-se todos e fizeram muito bem ...

Armada tentou formar Governo e chegou a formá-lo (ainda que não a "formalizá-lo") e diversos rapazes que depois foram governo estavam lá .

Armada ainda foi tentar negociar pessoalmente e "in extremis" com Tejero ainda nas "Cortes" e foi aí que aparentemente se lixou : alguma coisa fez soar campaínhas e acabou por apanhar 30 anos de cadeia (acabou por só cumprir 5 anos por razões de saúde) .

Portanto estou totalmente consigo nos "timings" mas só com muita sorte eles alguma vez são perfeitos .

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De cristof a 02.06.2014 às 21:13

um senhor sem duvida, que se fosse candidato a eleição votaria nele; isto antes de andar a caçar elefantes - que foi imperdoavel as despesas que dava nessas farras, despresando os sacrificios de quem não tem quem lhes pague as facturas.
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De Pedro Correia a 02.06.2014 às 22:29

O balanço do reinado de Juan Carlos não pode fazer-se por uma caçada aos elefantes. Faz-se essencialmente pelos factores que apontei. Espanha era um país isolado politicamente, com uma das ditaduras mais retrógadas do mundo ocidental, níveis socio-económicos muito abaixo da média europeia e divisões que pareciam insanáveis entre os herdeiros dos dois grupos que combateram na guerra civil. Em todos estes parâmetros é hoje um país incomparavelmente melhor. Dotado com a Constituição de 1978, que foi e ainda é um marco civilizacional - que já garantiu o maior período de vida democrática desde sempre existente no país.
Juan Carlos fez mais do que qualquer outra personalidade para unir os espanhóis. Trabalhou com governos de diversas cores politicas de forma institucionalmente irrepreensível. Por isso é elogiado pela larga maioria da sociedade espanhola - e desde logo pelos principais partidos, PP e PSOE: nenhum deles põe em causa o sistema monárquico, referência ímpar de estabilidade e concórdia.
O Rei tem lugar garantido na História de Espanha. E será recordado, sem qualquer dúvida, como um dos melhores estadistas que o país vizinho já conheceu.
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De rmg a 03.06.2014 às 00:40


Lembro-me bem de ír a Espanha com meus Pais no fim dos anos 50 , princípio dos anos 60 e de como o país era .

De uma das vezes que regressávamos de Madrid fômos "apanhados" pelas barragens policiais montadas na noite do "Golpe de Elvas" , teria eu 15 anos , grande susto para mim pois nesse tempo estas coisas não estavam banalizadas aos olhos da miudagem como entretanto ficaram .
Felizmente os meus irmãos mais novos não tinham ido , ainda guardo na memória aquela imagem tenebrosa de uma estrada de há mais de 53 anos e da inspecção do carro às tantas da manhã .

No entanto e ainda que nem PP nem PSOE ponham em causa a monarquia em Espanha chamo a atenção para um ponto .
Com amigos a residir em Espanha durante muitos anos fui lá algumas vezes com "estadia paga" e é comum ouvir-se na rua que os cidadãos são "Juan-Carlistas mas não necessáriamente monárquicos" .

A dívida é toda para com ele , de facto .
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De Pedro Correia a 04.06.2014 às 14:26

Sem dúvida. Uma monarquia conquistada a pulso, contra tudo e contra todos. Contra a vontade do próprio pai, o Conde de Barcelona. E contra os primos, que lhe cobiçavam o trono (um deles casou até com a neta primogénita de Franco, para lá chegar mais depressa). E contra a clique franquista, que preferia outros. E contra os "ventos da história". E contra a esmagadora maioria da "opinião pública", dama mais volúvel do que Madame Bovary.

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