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Sem lei nem roque

por Rui Herbon, em 08.10.17

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Uma das dificuldades para visualizar o que pode ocorrer nas próximas semanas ou meses na Catalunha é a incerteza de uma sociedade em que a lei deixou de ser o árbitro final das decisões públicas. Quando perguntaram a Cícero em que consistia a ordem, respondeu: no facto de o povo obedecer aos governantes e destes obedecerem às leis. O que ocorre neste momento na Catalunha é que se instalou uma legislação paralela num tema tão importante como a lei fundamental do país. O governo rompeu unilateralmente com Espanha por uma via ilegal sem qualquer esperança de vir a ser reconhecido internacionalmente, desde logo pelos vizinhos e principais parceiros comerciais e financeiros, e sem dispor das infra-estruturas básicas que suportam um Estado, como reconhece o próprio Artur Mas. Puigdemont tem sido abundante em improvisação e astúcia, e escasso em inteligência política. 

 

Actuando à margem da lei, o presidente da Generalitat propõe-se proclamar a independência unilateral sem uma maioria social (mesmo acreditando nos resultados anunciados, tão fiáveis quanto os das eleições durante o Estado Novo, 38% do universo dos eleitores num escrutínio manipulado é um fraco começo para um aprendiz de caudilho, isto apesar do recurso dos seus apoiantes a métodos dignos das hostes de Trump) e sem um debate amplo e aberto sobre uma questão tão relevante. Por outro lado, Rajoy tem imposto a legalidade com excesso de zelo, como se o problema não fosse também político e a lei resolvesse tudo. A Europa pôs-se do seu lado, mas indicou-lhe que tem de buscar uma saída negociada.

 

Aqueles que confundem os seus desejos com a realidade já vaticinam a queda da monarquia espanhola e do governo de Rajoy, mas neste processo os perdedores certos serão Puigdemont e os catalães, com ou sem declaração de independência. O simples facto dessa possibilidade ter estado perto de ocorrer afastará nos tempos mais próximos investimentos e provocará uma fuga de capitais e de empresas: ninguém quer ficar num estado pária fora da União Europeia e da Zona Euro. Um dos argumentos dos independentistas é que a Catalunha paga para o resto da Espanha, mas em economias dominadas pelos serviços e a finança, a riqueza é muito volátil e, portanto, ilusória: quanto representam em termos de PIB e receitas fiscais os dois principais bancos da Catalunha que transferiram as respectivas sedes? Note-se que Artur Mas, o outro pateta da equação, dizia em 2015 que ninguém acreditasse nos que vaticinavam, face a uma potencial independência, a saída dos grandes bancos da Catalunha.

 

O presidente da Generalitat, com uma mão fraca, apostou tudo no bluff, mas Rajoy, já se viu, paga para ver. A questão agora é se Puigdemont pára a tempo, assinando a sua morte política, até porque o entusiasmo independentista está em queda livre (já houve um princípio de corrida aos bancos e aos supermercados), ou se vai arrastar a Catalunha para uma situação extremamente negativa para a população, tanto do ponto de vista económico como abrindo uma fractura social talvez irreparável, e provocando também um período de instabilidade na economia espanhola e, por arrasto, na nossa, que depende daquela em grau não despiciendo (grosso modo, 20% das exportações de bens e 15% das exportações de serviços).

 

Mas dúvidas houvesse quanto ao lado justo da barricada, basta ver de que lado se unem a extrema direita e a extrema esquerda, de que lado estão aqueles que querem, sem qualquer preocupação com os interesses dos catalães, minar a construção europeia, de que lado enchem a boca com Democracia usando metodologias totalitárias, de que lado se adjectiva qualquer cidadão que exprima qualquer dúvida de fascista mas se evita olhar para o espelho, de que lado se valoriza mais a minoria que sai à rua para se manifestar e votar num referendo de vão de escada do que a maioria que não quer tomar parte num processo anti-democrático. Esse nunca será o meu lado.   

 

A ler: Lembro-me tão bem dos JO de Madrid, de Ferreira Fernandes no DN. 

 

A ver e ouvir: Discurso de Guy Verhofstadt (um político em que votaria com convicção) no Parlamento Europeu, que subscrevo na íntegra.

 

 

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30 comentários

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De Alain Bick a 08.10.2017 às 10:42

Infante D. Pedro
«Do seu casamento com D. Isabel de Urgel, filha do conde Jaime II de Urgel e da infanta Isabel de Aragão e Fortiá, teve os seguintes filhos:
Pedro de Coimbra (1429-1466), 5º Condestável, de 1463 a 1466 foi aclamado Conde de Barcelona (Pedro IV, rei Pedro V de Aragão, Pedro III de Valência).»

a Catalunha é portuguesa
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De Rui Herbon a 08.10.2017 às 10:47

E se mete Urgel, Andorra também.
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De Pedro Correia a 08.10.2017 às 12:25

Os separatistas catalães não querem apenas a "independência": visam bastante mais longe. Anexar outras parcelas de Espanha, também um pedaço de França e um bocadinho de Itália. Além de Andorra, claro.
https://cronicaglobal.elespanol.com/politica/erc-preve-la-anexion-de-valencia-baleares-y-el-sur-de-francia-a-cataluna-tras-la-secesion-en-su-programa-electoral-para-las-europeas_7388_102.html
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De Rui Herbon a 08.10.2017 às 12:31

O céu é o limite.
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De jpt a 08.10.2017 às 10:53

Saudando o texto e agradecendo as ligações - o discurso diz o que é preciso.
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De Rui Herbon a 08.10.2017 às 10:54

Sim, é um bom resumo.
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De Alain Bick a 08.10.2017 às 11:40

El País
Masiva manifestación en Barcelona a favor de la Constitución y la unidad de España

Vargas Llosa y Borrell pronunciarán sendos discursos al término de la marcha
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De Anónimo a 08.10.2017 às 12:02

Votava nele para quê? Para se sentir bem?

Eurodeputados não podem propor nem vetar Leis, você já não vota para coisa nenhuma. A Legislação nos Parlamentos europeus, com as Dívidas, têm de aprovar as Leis impostas pelo credor o BCE, um Banco privado como o FED que também é uma instituição privada. Imprimem dinheiro à vontade porque até acabaram com o Padrão ouro. Emprestam algo a custo zero para endividar países, não para você votar mas, apenas, para pagar.

Os discursos podem ser muito bonitos mas, a Realidade, em pouco mais de dois anos, de 124% já estamos a dever 138,19% do PIB ou seja, toda a riqueza que Portugal produz em quase ano e meio, já não chega para pagar a Dívida e quanto aos juros (que, maliciosamente, chamam de dívida anual) dizem ter diminuído, pela simples razão de ter juros negativos, são mais 7,642,598,437€ ao ano portanto, entre Dívida e a perda de Liberdade que ela implica, acabará por perceber a irrelevância de gostar de discursos, especialmente, quando resolverem aumentar os juros e estiver tudo aprovado, o que alguém "algures" decidiu e em quem você nunca votou.
A Realidade é como uma parede de cimento onde, mais cedo ou mais tarde, se acaba esborrachado e nem discursos bonitos servem para almofadar a dor.
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De Pedro Correia a 08.10.2017 às 12:26

Subscrevo na íntegra, Rui.
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De Vlad, o Emborcador a 08.10.2017 às 13:11

Ao contrário da nossa,vendida e manipuladora comunicação social, que sobre a Catalunha, menciona apenas líderes das extremas direitas/esquerdas como contemporizadores do problema catalão, eis alguns exemplos que a contradizem :

No Twitter, o primeiro-ministro belga, Charles Michel, frisou que "a violência não é a resposta" e reiterou o "apelo ao diálogo político".

Por sua vez, o ministro-presidente independentista da Flandres, Geert Bourgeois, exortou Madrid a envolver no diálogo "os dirigentes legítimos de um povo pacífico".

Na mesma rede social, a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, favorável à independência da Escócia, condenou "as cenas" de violência, considerando que os catalães devem poder "votar em paz".

O ex-presidente do Parlamento Europeu e atual líder do Partido Social-Democrata alemão (SPD), Martin Schultz, referiu que "a escalada [de violência] em Espanha é inquietante" e que Madrid e Barcelona "devem baixar as tensões e procurar o diálogo".

O lider do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, classificou como chocante a carga policial sobre os catalães, instando a primeira-ministra britânica, Theresa May, do Partido dos Conservadores, a "apelar diretamente a Rajoy para que ponha fim à violência na Catalunha e encontre uma solução política para a crise constitucional".

Em comunicado, a líder dos socialistas no Parlamento Europeu, Gianni Pittella, sustentou que "a solução" para a Catalunha "só pode ser política, não policial".

Perante os tempos de antanho em que os assuntos de independência se resolviam com punhaladas e masmorras, com a benção papel, por hoje as independências combatem-se através do terrorismo económico. Mais limpo, mas indizivelmente mais cobarde e mais hipócrita.

Que a Catalunha se torne um paraíso fiscal e é vê -los, aos que fogem, tornarem a casa como bons filhos pródigos
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De Anónimo a 08.10.2017 às 13:20

Se, além-Caia, as coisas continuarem a ser o que sempre têm sido, lá que se pode visualizar, ai isso pode...mas tem de se arranjar outro galego, que não este...
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De Vlad, o Emborcador a 08.10.2017 às 13:46

Um dia destes antes de falarmos sobre algo, ou os jornais decidirem o que publicar ,teremos de consultar o Grande Censor para evitarmos assustar os mercados.

Relembrando D. Cavaco e Silva, Conde de Boliqueime , há que ter cuidado com o que os jornais publicam e os polticos dizem para não amedrontar os assustadiços mercados. Bico calado que os tempos não são de ideologias ou princípios, mas de lucros/prejuízos. Democracia e Liberdade estão por hoje cotadas em bolsa. A democracia e a liberdade são hoje como produtos derivados.
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De Rui Herbon a 08.10.2017 às 16:12

Como escrevia o Zygmunt Bauman: hoje não temos cidadãos, temos consumidores.
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De Vlad, o Emborcador a 08.10.2017 às 17:51

E quem não consome? Deixa de existir?
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De Rui Herbon a 08.10.2017 às 17:57

Não, é livre. Falando de consumismo e não de consumo para satisfazer as necessidades básicas.
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De Vlad, o Emborcador a 08.10.2017 às 19:21

O problema é confundirem-se hoje as necessidades básicas. Ter dois teleles, 2 TVs, dois popós, etc e tal....e depois ui cuidado com o ambiente. Há que separar o lixo.....para uns se vestiram muitos outros andam desnudados.. ...

O consumidor de hoje é um saco cheio de nada. Uma mercadoria como outra qualquer. E perante o vazio de ser ri-se de nada saber o que é. Apenas sabe o que tem.
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De Rui Herbon a 08.10.2017 às 21:03

Comigo lixam-se. Tenho um Nokia 3330.
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De Vlad, o Emborcador a 08.10.2017 às 21:45


Lixou-me!
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De jo a 08.10.2017 às 13:55

Eu não diria que os independentistas perderam tudo. A questão da independência foi posta definitivamente na agenda e dificilmente Madrid se pode recusar a criar condições para uma consulta no futuro. A reação de Rajoi deu legitimidade acrescida ao referendo, os independentistas devem estar-lhe agradecidos.

O texto de Ferreira Fernandes é interessante, mas nem o desejo de independência deixa de ser legítimo porque não houve violência, nem a realização de Jogos Olímpicos aqui ou ali prova coisa nenhuma.
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De Rui Herbon a 08.10.2017 às 16:13

O desejo é legítimo, mas duvido muito que seja maioritário.
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De am a 08.10.2017 às 14:26

Por este andar:

" Nem mais um soldado para a Madeira.!

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