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Ruanda 2020

por Rui Herbon, em 14.04.14

Por estes dias cumpriram-se 20 anos sobre o genocídio ruandês. Cerca de 800.000 pessoas da etnia tutsi foram massacradas pelos hutus então no poder. Uma circunstância que teve muito que ver com o processo de colonização europeu. Os hutus povoaram o Ruanda procedentes da região do Chade, quando a população autóctone, os twa, foi deslocada. Eram essencialmente agricultores e distribuíam-se em pequenos reinos. Depois chegaram os tutsi, oriundos da Etiópia. Tratava-se de uma população de pecuários que, com o tempo, se transformaram no grupo dominante. Não era uma etnia muito diferente, como foi usado para justificar a matança de há 20 anos, já que, aparte das suas diferenças de classe, ambos os grupos levavam séculos realizando casamentos entre si, falavam a mesma língua e tinham evidentes semelhanças culturais. Foi com a chegada dos europeus no século XX quando as diferenças se marcaram. De facto, segundo se conta, foram os europeus que dividiram as duas etnias de acordo com o número de cabeça de gado que possuíam: os proprietários de dez ou mais vacas eram associados aos tutsi, enquanto que os outros era classificados de hutus. O desastre humanitário vinha a desenhar-se desde a independência do país em 1957. Por então surgiu o Manifesto Hutu, que exigia liberdade e democracia face à opressão que, segundo parece, era exercida pelos tutsi. Isto levou às importantes revoltas de 1959, que conduziram a um novo governo hutu em 1962, depois de dezenas de milhares de tutsi terem sido assassinados e cerca de 160.000 terem fugido do país. O que se repetiu em 1964, já que uma pessoa de etnia hutu podia matar o seu vizinho tutsi sem nenhum temor de represálias governamentais.

 

Hoje, esquecida a matança de 1994, o Ruanda é o exemplo de uma nova África que abre caminho. Um país que, com o actual presidente, Paul Kagame, pôs em marcha o programa Rwanda Vision 2020, com o objectivo de transformar um país de economia agrícola noutro virado para a sociedade do conhecimento, mantendo o crescimento anual do PIB em redor dos 7% e prevendo no final do período uma população de 16 milhões. Prevê também que o rendimento per capita atinja os 900 dólares (220 em 2000), a taxa de pobreza se reduza para 30% (60% em 2000) e que a esperança média seja de 55 anos, contra 49 em 2000. Pensar-se-á que é muito pouco para o nosso standard. No entanto, será muito em termos relativos, especialmente porque o que se pretende é o salto de uma economia agrícola em muitos casos de susbsitência para uma sociedade de conhecimento, sem ter passado, como nós, pelos estádios intermédios.

 

Trata-se de um fenómeno que, de modo similar, ocorrerá noutros países africanos, com o que tem de novidade histórica e de potencial económico ao longo do presente século, no fim do qual África terá alcançado os 2000 milhões de habitantes, na sua maioria jovens. E é neste esforço que o Ruanda construiu uma torre de vinte pisos – a Kigali City Tower – na sua capital, onde se instalou um hub de alta tecnologia que oferece avançados serviços financeiros. Uma infra-estrutura tecnológica com dezenas de terminais e um sofisticado software fornecido pelo Nasdaq, que vem explicar como de maneira rápida um pequeno país africano sem recursos naturais pôs em marcha uma nova e moderna economia cujos frutos não se farão esperar. Simultaneamente o país está imerso na instalação de uma moderna rede de fibra óptica de mais de mil quilómetros e tem em marcha a instalação de uma infra-estrutura 4G que cobrirá 95% do país. Estes passos transformarão o Ruanda num dos países africanos mais atraentes para os investidores. Seria importante que os empresários e investidores nacionais não reduzissem África aos PALOP e ao Magreb, caso contrário o chamado continente negro pode ser, a médio e longo prazo, uma oportunidade em grande parte perdida.

 

[Imagem: Kigali City Tower Complex]

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7 comentários

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De Vento a 14.04.2014 às 13:14

África tem vindo a ser pressionada para se transformar em mera exportadora de matérias primas.
Todos esses investimentos tecnológicos que têm vindo a ser feitos em alguns países africanos nada mais representam que o novo riquismo de uma classe emergente que aí se instalou e que não traduz a realidade africana. Encapotam a verdadeira realidade e demonstram que a estratégia do sector financeiro mundial tem olhos para outros horizontes.
E mesmo os investimentos que têm vindo a ser feitos em algumas infraestruturas não contemplam os custos de manutenção, o que se traduzirá em poeira a média prazo.

A chave para a estabilidade é a distribuição dos ganhos por toda a sociedade, e isto só se alcançará com uma profunda renovação e reforma das actuais "elites" políticas.
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De lucklucky a 14.04.2014 às 15:55

"Uma circunstância que teve muito que ver com o processo de colonização europeu."

Típica visão racista.
Entãos os africanos não têm capacidade para decidir?
As armas não são limpas, não se tem de pegar num cutelo para matar e não se teve de ter primeiro que tudo uma doutrina de limpeza étnica?
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De Rui Herbon a 14.04.2014 às 16:58

Quem definiu fronteiras a régua e esquadro? Quem deslocalizou populações autóctones para colocar outras? Quem, para uma população que estava em grande parte miscigenada, resolveu repescar velhas divisões?
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De jj.amarante a 14.04.2014 às 19:24

Mas os Europeus não conseguiram colonizar a Tailândia e o caos que se instalou na China no século XX não levou ao estabelecimento dum governo colonial. Os Europeus certamente que explorararam divisões existentes mas considerá-los como principais responsáveis corresponde a uma menorização das sociedades não-europeias.
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De lucklucky a 15.04.2014 às 17:03

jj amarante respondeu basicamente que eu penso. O facto de as fronteiras terem sido desenhadas pelos Europeus não muda. Para começar é fazer de conta que em África nunca houve deslocações, ou nunca existiram guerras - não só entre tribos, mas intra tribos e intra reino. Ou pensar que as diversas sociedades em África foram sempre puramente tribais e nunca houve Reinos com várias étnias.
Por ex: nós portugueses aproveitou muito as constantes guerras pelo poder no Reino do Congo.
África teve sociedades complexas antes da chegada dos Europeus e
o interior de África teve sempre muito poucos europeus, só nos Séc.XIX e XX com o colonialismo ideológico da civilizção é que os Europeus começaram a controlar mais de território.
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De Pedro Correia a 14.04.2014 às 22:00

É bom que casos como o do Ruanda sejam destacados. Para desfazer uma ideia tornada quase obrigatória pelos coleccionadores de clichês - a ideia de que África se tornou um continente irremediavelmente perdido.
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De Rui Herbon a 19.04.2014 às 11:02

Eu ando sempre de olho em África. Até porque se o ar por aqui se tornar irrespirável convém ter um plano de fuga

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