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Robert B. Silvers

por Diogo Noivo, em 31.03.17

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Uma greve, trabalho voluntário e um parágrafo. Eis a génese da New York Review of Books. O parágrafo, intitulado "To the Reader", é notável pois mostra que não foi preciso escrever muito para definir as baias de uma das publicações literárias e políticas mais relevantes de sempre. O âmago do pequeno texto, publicado a 1 de Fevereiro de 1963, vive em duas frases: "This issue of The New York Review of Books does not pretend to cover all the books of the season or even all the important ones. Neither time nor space, however, have been spent on books which are trivial in their intentions or venal in their effects, except occasionally to reduce a temporarily inflated reputation or to call attention to a fraud". Simples, despretensioso, e apostado no escrutínio de um mundo onde as vaidades e os nepotismos sempre encontraram solo fértil.
Submetida ao impiedoso teste do tempo, a NYRB modernizou-se sem perder o rigor, o espírito crítico e os critérios nos quais se fundou. O mérito é produto de um trabalho conjunto, mas o timoneiro tem nome: Robert B. Silvers. Editor da publicação desde o momento em que foi criada, Silvers mostrou, como escreve Luis Gago no Babélia, que é possível exercer uma influência indelével em várias gerações de leitores sem escrever ou editar livros. A aversão a entrevistas e a aparições em eventos públicos deveu-se a um entendimento zeloso da missão de editor. “The editor is a middleman. The one thing he should avoid is taking credit. It’s the writer that counts”, disse numa das raríssimas entrevistas que concedeu e que o New York Times citou recentemente.
Para Silvers, a NYRB foi, entre outras coisas, um instrumento para espantar as matilhas unipensantes que vagueiam pelo milieu cultural e político, sem nunca se preocupar em demasia com a reacção dos leitores. Aliás, compaginar a adaptação aos tempos que chegam com o respeito pelos princípios fundadores da publicação é, sem dúvida, uma das características mais louváveis, porque é rara, do lendário editor da NYRB. Outra merecedora de destaque, porque também invulgar, foi a constante preocupação de ter textos legíveis, acessíveis a qualquer leitor, embora nunca permitindo que o trabalho de edição ofusque a complexidade dos temas abordados.
Robert B. Silvers morreu no passado dia 20 de Março. Daniel Mendelsohn refere que Silvers trabalhou até ao fim, com a bonomia e a erudição intactas, ainda que a energia já fosse faltando. “I admire great writers, people with marvelous and beautiful minds, and always hope they will do something special and revealing", disse Silvers. O que ele admirava nos outros fez da NYRB aquilo que é.

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6 comentários

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De V. a 31.03.2017 às 10:32

Para também termos textos mais rigorosos, gostava que as pessoas por cá deixassem de usar a "aparição" quando alguém aparece em público — um tique jornalístico que me deixa os cabelos em pé. A admiração pela excelência começa em casa, caraças.
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De Diogo Noivo a 31.03.2017 às 10:55

Tão raras que eram e, por outro lado, tendo em conta a imagem lendária da figura, nada me parece mais adequado que "aparição". Mas registo e respeito a irritação, V.
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De V. a 31.03.2017 às 10:37

Acrescento aliás que a ideia de "aparições em eventos públicos" só se aplica a casos do tipo José Sócrates. Já está morto, mas continua a aparecer.
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De Pedro Correia a 31.03.2017 às 10:50

"The editor is a middleman. The one thing he should avoid is taking credit. It’s the writer that counts."
Tanta sabedoria evidenciada nesta declaração. Totalmente à revelia do ar deste tempo.
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De Diogo Noivo a 31.03.2017 às 10:59

Editores que cedem o palco a escritores e escritores que cedem o palco às histórias - como Eduardo Mendoza http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/as-historias-que-venceram-o-premio-8959683.
De facto, à revelia do ar deste tempo, Pedro.

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