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Reviver o passado em Caminha

por Pedro Correia, em 15.06.17

DSC07225[1].JPG

 

Devido à profissão dos meus pais, ambos professores, passei a infância a saltitar de terra em terra. Quando fiz 12 anos vivia já na oitava casa onde morei, em cinco terras muito diferentes.

Na altura, como julgo ser normal acontecer com qualquer miúdo nas mesmas circunstâncias, isso entristecia-me. Porque me sentia incapaz de cultivar amizades de infância que perdurassem para a vida. Hoje, pelo contrário, considero que esta constante itinerância produziu efeitos muito mais positivos do que negativos. Graças a ela, posso gabar-me de ter várias terras em vez de uma só.

 

Há quem não valorize isto, mas eu gosto de sentir que fui dispersando raízes por diversos quadrantes a que de algum modo posso chamar meus. Mesmo quando estou muitos anos sem visitá-los. Tem-me acontecido por estes dias, aproveitando as férias de Junho. Passei toda a semana anterior numa das minhas terras adoptivas: Tavira, que frequento com raras intermitências desde há vinte anos.

De um dia para o outro, no entanto, decidi rumar do extremo sudeste ao extremo noroeste do País. Confirmando que bastam oito horas para atravessarmos Portugal de lés a lés. E cá estou em Caminha, onde não pousava há três décadas. Não por falta de vontade mas por falta de oportunidade.

 

Ainda bem que voltei. Porque esta é uma das paisagens da minha infância. Vivi três anos em Viana do Castelo e fazíamos praia um pouco onde calhava, ao longo da estrada nacional 13: Carreço, Afife, Vila Praia de Âncora. Há poucas horas passei defronte da antiga Pensão Meira, hoje um orgulhoso hotel de Âncora, onde a família se alojava durante parte da estação estival.

Mas as minhas melhores memórias infantis de Verão são daqui, da foz do Rio Minho que tenho neste preciso momento defronte dos meus olhos. Do areal de Moledo, onde pela primeira vez vi pára-ventos, presença obrigatória nas praias minhotas batidas pela nortada. Das águas plácidas do rio, que frequentávamos quando o oceano ficava mais agitado. Da aprazível mata do Camarido, com o seu parque de campismo e os seus aromas a flores silvestres. Das caldeiradas em família no entretanto desaparecido Pirata, situado junto ao posto da velha Guarda Fiscal

 

P1010739[1].jpg

 

Regressei. E fiz bem. Calcorreando no presente os trilhos do passado quase como se não houvesse décadas de permeio. Eis-me de volta à marginal, que acompanha o vasto rio fronteiriço - semelhante aos cenários que transplantámos para todas as paragens onde deixámos marca, do Rio de Janeiro a Díli, de Luanda a Macau, de Goa a São Tomé.

A paisagem do passado ecoando no presente: a muralha seiscentista, a matriz, as tílias na praça central, a torre do relógio, o Coura desaguando no Minho, a silhueta tutelar da Serra d' Arga e a massa imponente do Monte de Santa Tecla, na Galiza, atraindo-nos para o outro lado da foz.

Sinto-me miúdo outra vez enquanto cruzo estas ruas. Quando cá vínhamos, abancávamos por vezes na Adega do Chico, típico restaurante familiar. Nunca mais soube dele até há dois dias, quando deparei com ele quase por acaso. Está praticamente na mesma: só deixou de haver serradura no chão, como era habitual nas adegas daquele tempo.

Até o prato mais emblemático ainda é o célebre bacalhau à Chico.

 

É o que peço, sentado na esplanada, enquanto escrevinho estas linhas, acompanhadas de goles de um fresquíssimo verde de Ponte de Lima - outra paisagem da minha infância que quero revisitar.

Cada vez mais me convenço que a felicidade em abstracto não passa de uma utopia: existem, isso sim, múltiplos momentos felizes.

Este é um deles. E há que aproveitá-los todos: cada qual é um pedaço de eternidade.

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12 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 15.06.2017 às 00:03

Conheça o a sensação e partilho a paixão. Eu que sou alfacinha, não tenho terra... sou de Lisboa, não é normal poder dizer que vou à terra, porque vivo nela.
Adorei de coração Vila Verde, terra que vinha no dote do noivo, que adoptei de imediato e onde me sinto sempre imensamente feliz.
Caminha é lindo. O Minho é lindo. E nestes dias de total desgaste, pensar no fresquinho das águas das ribeiras transparentes incentiva a não baixar os braços... afinal falta pouco menos de três meses.:)
Boas férias Pedro.
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De Pedro Correia a 15.06.2017 às 21:01

Esta é a minha segunda incursão do ano ao Minho, Dulce. Mas aqui a Caminha já não vinha há muito. Trinta anos fora e é como se tivessem passado trinta dias. Continuo a sentir-me daqui também. As paisagens da nossa infância acompanham-nos sempre vida fora.
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De Luís Menezes Leitão a 15.06.2017 às 05:37

Adoro Caminha. Os meus avós tinham uma quinta a 20 km, na escondida aldeia de Covas, nas margens do rio Coura, pelo que passei aí grande parte da infância. Como os meus outros avós viviam em Coimbra, alternava períodos de férias no Minho e em Coimbra com a vida em Lisboa. Que país magnífico nós temos.
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De Pedro Correia a 15.06.2017 às 20:59

É como dizes, Luís: temos de facto um magnífico país, que infelizmente tanta gente conhece ainda muito mal.
Hoje reconheço que ter vivido em diversas partes do País e conhecê-lo em grande parte ainda em criança foi uma extraordinária aprendizagem. Estou a gostar imenso deste regresso ao Alto Minho.
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De Einzturzende nebauten a 15.06.2017 às 09:43

Também costumo ir a Caminha e fazer praia na Foz do Rio Minho. Sobretudo no lado espanhol que me parece mais abrigado, por causa do magnífico Pinhal daquelas bandas. E depois costumamos ir a La Guardia para uma bela mariscada, ou uma paella supimpa e saciar o corpo. E em seguida penitênciamo-nos pelos excessos e fazemos as pazes com a alma no Mosteiro de Santa Maria de Oia, junto a um mar peregrino. Sim, Ponte de Lima é magnífica e come-se muito bem no restaurante Açude. Também conheço a aldeia de Arga, e a sua magnífica ponte romana. Enfim....
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De Anónimo a 15.06.2017 às 11:10

Aí aí
Assim torna-se TÃO difícil aguentar pouco menos de 3 meses... :)
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De Pedro Correia a 15.06.2017 às 21:04

Pois, calculo. Também pela gastronomia: polvo à galega, bacalhau à minhota, cabrito à Serra d' Arga...
Tudo acompanhado com verde fresquinho de Monção ou Ponte de Lima - mesmo a calhar com estas temperaturas elevadas. O Minho, por estes dias, parece o Algarve (com bastante menos gente).
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De Maria Dulce Fernandes a 15.06.2017 às 23:54

Já não se faz vinho particularmente, agora é tudo tratado através das Cooperativas, mas o meu cunhado ainda dá um jeito ao produto de uma vinha do meu sogro num terreno que dizem que têm ouro ( verde claro). Pessoalmente não sou fã de verde tinto... é um gosto que se vai apreciando e adquirindo com o tempo, mas aquele vinho é brutalmente bom.
Ponte da Barca (maravilha atravessar a ponte a comer um gelado e adormecer no jardim... Esposende, Amorosa...
E Lá Guardia para o peixinho... :) :)
Há quase quarenta anos que não falho lá uma semana , mais na Páscoa... coisas de famílias do Norte :) :) :)
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De Pedro Correia a 16.06.2017 às 00:24

Em La Guardia estive há duas dias. Subi ao castro de Santa Trega - limpo, bem cuidado, impressionante lição de história ao ar livre. Gostei de ver as cruzes celtas, de que tanto gosto, acompanhando a subida. E lá do alto, de território galego, vemos um dos mais belos panoramas que é possível avistar de Portugal.
De facto, para comer bom marisco é lá em baixo, na povoação. E depois percorrer a costa até Vigo: Baiona, Nigrán, Panxón.,, E admirar a ria, com Cangas do outro lado e as ilhas Cies mais além.
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De Pedro Correia a 15.06.2017 às 21:06

Eu adoro rios. Ontem tive um magnífico banho (visual) de rio em Cerveira, à beira-Minho. E outro no Coura, em Vilar de Mouros. Já quase a postos para o festival deste ano. Com The Jesus and Mary Chain a encabeçar o cartaz.
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De Cristina Torrão a 19.06.2017 às 12:49

Caminha e Vila Nova de Cerveira fazem parte das férias da minha juventude. Foi em Caminha que fiz pela primeira vez campismo com amigos, sem ser com a família. Também lá regressei passadas mais de duas décadas, há uns anos. É um sítio fantástico, tanto a foz do rio Minho (onde se situa o parque de campismo), como a própria vila.
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De Pedro Correia a 19.06.2017 às 21:55

Continua tudo fantástico, Cristina.

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