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Reflexões europeístas (4)

por Pedro Correia, em 15.05.14

 

É impossível usufruirmos do melhor de dois mundos. Não há benefícios sem sacrifícios.

Do qual estamos afinal, nós, europeus, dispostos a abdicar?

Não podemos fechar as fronteiras nem travar a torrente globalizadora. Já não vivemos no tempo dos amplos mercados coloniais, nem das matérias-primas a desaguar na Europa a baixos preços, nem da natalidade elevadíssima, nem dos níveis de crescimento económico superiores a 5% que serviram de base a três décadas de contínua prosperidade, fazendo do nosso continente o que é, no período subsequente à II Guerra Mundial, e permitiram que o Estado-providência se tornasse no que se tornou.

Temos graves problemas estruturais numa zona euro sob ameaça de estagnação económica. Entretanto, outras parte do globo crescem: enfrentamos a concorrência imparável dos mercados emergentes.

O Plano Marshall, que entre 1948 e 1952 fez desaguar no Velho Continente uma quantia equivalente a 148 mil milhões de dólares (ao câmbio actual), em assistência técnica e económica, é irrepetível. E, se o não fosse, apontaria noutras direcções, hoje muito mais carenciadas. Porque a guerra na Europa terminou há 69 anos.

Imaginar que nada disto beliscaria as políticas de redistribuição e que o estado-providência permaneceria inalterado é acreditar que existe um pote de ouro no fim de cada arco-íris.

De que parcela deste Estado-providência estamos dispostos a abdicar?

Que nível fiscal estamos dispostos a suportar?

Aceitaremos a redução das pensões de reforma para adequar os pagamentos ao nível de contribuições existente quebrando um pacto intergeracional  devido às novas imposições da demografia?

Ou, em alternativa, deverão cada vez menos cidadãos suportar contribuições cada vez maiores? E estas perguntas não são retóricas. São cruciais. Iludi-las não nos conduzirá a lado nenhum. Ou antes: conduzirá ao progressivo definhamento da Europa, que vista de outras paragens se arrisca a parecer uma senhora parada no tempo, alimentando-se da difusa nostalgia de um passado que não regressa.

Uma espécie de Gloria Swanson em Sunset Boulevard.

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26 comentários

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De Comercial de Lisboa a 15.05.2014 às 19:29

José Gomes Ferreira não seria mais claro.

PS - Sou fã de JGF, e há muito tempo - um dos poucos que pensam pela sua cabecinha e não têm papas na língua.

E fico chateado, claro que fico chateado, quando ouço falar no Estado Social como se tal fosse clarinho como água e existisse um único modelo de Estado Social, que perpetuamente ficaria na mesma, ou então com cada vez mais benefícios, milagrosamente independentes dos efeitos da globalização, dos mercados emergentes (que não são apenas BRIC, obviamente) e da questão demográfica.
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De Pedro Correia a 16.05.2014 às 01:20

Não há estado social em Estados falidos. Disso tenho a certeza. Devíamos ter todos, aliás. Faz-me confusão haver quem imagine que possa ser de outra maneira.
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De Vento a 15.05.2014 às 21:34

Muito bem.

Vamos lá falar sobre o melhor dos dois mundos. Que melhor dos dois mundos se refere o Pedro: o da miséria (emergentes) ou o da pobreza (Europa e EUA)?
Só a partir desta clarificação poderemos avançar nesta matéria.

"Não podemos fechar as fronteiras nem travar a torrente globalizadora". Obviamente. Mas que regras são preconizadas para a moderação, moralização e interdependência desta globalização. Parece-me que o Pedro se coloca naquela posição de "vêm aí os marcianos" e deita-se para debaixo da mesa para não ser atingido.
O estado providência não é fruto do crescimento. Foi precisamente o conceito de estado providência que beneficiou o crescimento e a paz. E se quer um exemplo para isto eu refiro o caso da Finlândia, um dos países mais pobres da europa até há bem pouco tempo, que conseguiu um nível de crescimento e estabilidade depois que o seu primeiro-ministro e demais pares interpretaram o modelo de crescimento e bem-estar na seguinte fórmula: "Todos somos necessários". Iniciaram a sua política fazendo com que todas as crianças tivessem alimentação na escola e reformaram o seu sistema de ensino não contra os professores mas com os professores.
Aqui em Portugal, seguindo a tendência de alguns países europeus, baseia-se no pressuposto que muitos são dispensáveis para que outros sobrevivam. Vai daí, tal como Sócrates, inicia-se uma perseguição a desempregados, pensionistas, detentores do rendimento social de inserção, aos quais habilidosamente (aliás, habilidosos não faltam por aí) foram empurrando para fora do sistema de subsidiação por alteração de normas de atribuição e não porque não tivessem necessidade. Paralelamente, não melhoram as contribuições aos restantes e ainda por cima aquilo que devia ser canalizado para suas necessidades é desviado para IPSS´s e outras mais.
É disto que necessitamos de falar, Pedro. É sobre esta redistribuição que devemos reflectir a par das benesses que continuam a ser dadas a sectores que até dizem ser empregadores e convencem-se que este facto, o de empregar, que os benefícia, deve merecer ainda mais contrapartidas. É esta subsidiação encapotada que a sociedade faz que merece ser discutida também.
Veja esta aberração:
http://www.destak.pt/artigo/190266-rsi-cortado-de-forma-indevida-por-filhos-receberem-pensao-de-alimentos-observatorio

Mas veja também esta notícia:
http://sicnoticias.sapo.pt/economia/2014-04-28-prestacoes-de-desemprego-deixaram-de-fora-445-mil-desempregados-em-marco;jsessionid=506D4FB163116DE5C461DE305A27DCF5

É este tipo de sacrifícios que preconiza em favor de biliões para resgatar bancas, empresas e para gastar em formação que nada forma?

Afirma o Pedro que "temos graves problemas estruturais numa zona euro sob ameaça de estagnação económica".
Por favor, pode revelar que problemas estruturais são esses?

Afirma também que "outras partes do globo crescem". Que partes são essas que estão em crescimento? As que conheço, mesmo nos emergentes, começaram a entrar em queda há mais ou menos ano e meio, incluindo a China.

O plano Marshall foi um plano de reconstrução, a construção da Europa ocorre com Monnet e outros mais. Onde pretende chegar?

Que entende sobre a abdicação do estado social? Simplesmente deixar de apoiar desempregados como hoje ocorre, mais de 400 mil que não beneficiam de qualquer apoio estatal. É esta política do CDS com a conivência do PSD que preconiza?

Não, não é necessário menos cidadãos pagar mais, é necessário que os que mais têm paguem o que devem, e como até agora se vivia mais e melhor aumentava-se ainda mais a idade da reforma.
Só que a partir de agora, com estas políticas, continuará a haver menos nascimentos mas também as pessoas morrerão com menos idade.

Por isto, mais uma vez, refiro que tudo quando seja baseado em retóricas de economeses está aí para lançar o papão e não para discutir a questão de fundo: A Justiça e sua implementação. E esta Justiça não é a das leis é a da ÉTICA.
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De Pedro Correia a 16.05.2014 às 01:51

Faz demasiadas perguntas, e muito diversas, num comentário só.
A China cresceu 7,3% em 2013. A Malásia, 6%. A Índia cresce 5% ao ano. O Peru também. Chile e Colômbia crescem acima dos 4%. A Turquia, idem. A Coreia do Sul cresceu 3% em 2013. O Brasil, 2,7%.
Nada disto se compara com os índices europeus: é uma realidade que não podemos iludir.
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De Vento a 16.05.2014 às 01:59

Eu disse, e mantenho, que todos eles começaram a cair. Eu posso aguardar pelas respostas para chegar ao ponto crucial de nossa conversa.

O Vietnam também anda agora a queimar fábricas chinesas, e estes também estavam a crescer. Poucos falam desta realidade.

A pergunta que coloquei também foi esta: a miséria (que há) ou a pobreza (que não se nega)? Qual do melhor destes mundos refere? Não é o Pedro nque diz que a Europa contribui com 50% do valor para as causas sociais no mundo? Que pretende ela fazer consigo mesma?
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De Pedro Correia a 16.05.2014 às 13:21

O que digo - e reitero - é que o estado social não pode subsistir sem soluções que o financiem. Tão simples como isto. A economia é uma ciência simples. Alguns economistas é que persistem em complicá-la.
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De l.rodrigues a 16.05.2014 às 14:12

Se um país desvaloriza o trabalho em proveito do capital, a sustentabilidade do estado social é posta em causa não por questões de "simples economia" mas sim por escolhas políticas.
Num país desigual como o nosso há muito que fazer antes de decidir que este ou aquele não pode comer, ser tratado ou ir à escola, porque está acima das nossas possibilidades.
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De Pedro Correia a 17.05.2014 às 13:03

A questão, meu caro, é que não há "escolhas políticas" num país falido. O que, sendo dramático, tem pelo menos o mérito de clarificar o rumo a seguir.
Num país desigual, como o nosso, as desigualdades agravam-se em situações de colapso das contas públicas - que fatalmente lesam ainda mais os pobres do que os ricos.
Neste contexto, é inútil separar a economia das finanças. Porque a economia só adquire real autonomia num quadro de finanças sustentáveis.
Lamento ser tão linear, mas em situações destas devemos reconduzir-nos ao essencial. 'Back to basics', como dizem nos States.
Claro que alguns economistas gostam de complicar o que é simples introduzindo muitas variáveis nesta equação. Compreendo-os: se o não fizessem perderiam o lugar cativo em certas tribunas públicas.
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De Vento a 16.05.2014 às 14:52

Disse tudo, Pedro. O Pedro dá como eternamente adquiridas todas e quaisquer situações. E em vez de propôr uma transformação propõe única e exclusivamente uma adaptação passiva perante uma realidade.
O Pedro resume a sua postura a uma mera atitude contabilística, e eu debruço-me sobre a gestão que equilibra as contas.

A Europa que o Pedro apresenta transforma-se, assim, numa Europa irreformável cujos cidadãos devem passivamente deixar-se conduzir para um holocausto que lhes abrirá em definito as portas da liberdade, esquecendo que essa liberdade começa por se concretizar através de uma vida que não se resigna a uma mera atitude servil.

"Os chefes das nações governam-as com autoridade. Pois não seja assim entre vós". Este "entre vós" não se refere ao serviço de uma comunidade com características próprias, mas à Universalidade do serviço.
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De Pedro Correia a 17.05.2014 às 13:10

Eu julgo que isto nem é matéria de opinião, mas de facto: termos as contas públicas equilibradas é condição essencial para assumirmos verdadeiras escolhas políticas no plano económico. Tal como necessitamos de um sistema financeiro capitalizado e sustentável.

Apenas um reparo terminológico: se há palavra que não gosto de ver banalizada no discurso corrente é a palavra holocausto. Porque nada no mundo contemporâneo se compara ao Holocausto. E não me refiro ao de Hollywood ou das séries televisivas, mas ao real, ao verdadeiro, ao que provocou milhões de vítimas que eram seres humanos como qualquer de nós. Ao que existiu durante a barbárie nazi e ninguém deseja ver repetido.
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De Vento a 17.05.2014 às 15:15

Nada no mundo contemporâneo se compara à intenção sobre a Shoah, que é um significado diferente de holocausto. E holocausto, sim, tem várias formas de expressão e atitude. É que no holocausto, na vertente da oferta, usamos sempre intermediários para "purificar-nos". Nunca somos objecto de sacrifício. Fiz-me entender, Pedro?

E não, não existe um só holocausto nazi. Mas existe uma SHOAH nazi.

Já agora:
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/rc_pc_chrstuni_doc_16031998_shoah_po.html
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De Pedro Correia a 18.05.2014 às 00:35

Agradeço-lhe a pista de leitura que aqui deixa, meu caro.
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De William Wallace a 15.05.2014 às 23:30

Antes de mais devo dizer que os argumentos que até agora utilizou nos 4 postais que já escreveu dizem basicamente : ponham-se finos e votem nos do costume se não o caldo está entornado.

Na minha humilde opinião o caldo já entornou pois a CEE foi criada com o objectivo de diminuir as desigualdades na Europa para que assim se pudesse evitar a ganância e a opressão dos "fortes" sob os "fracos" mas a partir do momento em que passou a UE por decreto e com rectificações de tratados sob pressão tudo voltou para trás pois as especificidades culturais, económicas e humanas de cada Nação começaram a ser desrespeitadas mais fortemente com o habitual conluio dos Migueis de Vasconcelos de cada Nação.

No caso de Portugal são todos os que passaram até hoje (desde 1978 salvo erro) pelo poder, até o Dr. Portas que sempre ganhou votos á conta de uma posição contrária (moderada e a meu ver coerente) perante a CEE é agora um cristão novo.

Os Ingleses até agora têm sido os mais espertos, só estão dentro quando lhes convém, os Alemães, Holandeses, Dinamarqueses, Suecos, Finlandeses , Belgas e Franceses são os que mais têm lucrado ao conseguirem vender os produtos deles nos novos parceiros arranjados á pressão desde que a Espanha e Portugal entraram.

Agora os pontos que refere :

O plano Marshal foi feito para evitar uma Europa Vermelha do Pacifico ao Atlântico , um trade off para a instalação perpétua de tropas dos USA na Europa sem que as pessoas olhassem muito de lado para eles que não passavam fome nem frio e podiam tomar um duche todos os dias.

A falácia do Modelo Social Europeu resulta em parte directa do plano Marshal em que após a reconstrução era preciso dar aos povos algo que fosse melhor / similar ao modelo comunista em que educação , saúde e apoios sociais eram gratuitos e que só não vingou pois uma sociedade colectivista após um período de auge tende a estagnar e a desfazer-se facto aliás muito bem visto pela liderança chinesa a partir de meados dos anos 80 e que originou o actual modelo um país, 2 sistemas e que tem sido copiado por outros países com herança politica semelhante sendo o mais recente caso Cuba.

No fundo esta Europa é uma operação plástica e não resultou nunca da vontade unânime dos povos que dela fazem parte e só se aguentou (aguenta) enquanto lhe foram dadas vantagens competitivas aos quais os outros países agora podem aceder devido á Globalização.

Uma verdadeira estátua de Nabucodonosor é que esta Europa é pois "todos" sabemos qual é a verdadeira solidariedade alemã dos seus aliados mais próximos e não podemos levar a mal pois nós faríamos o mesmo porque é um negócio e ninguém neste mundo dá nada a ninguém.

O que importa saber é como iremos sair disto, a bem, através da consciencialização e respectiva acção dos políticos que estão no cargo AGORA ou a mal sem ser nada do outro mundo pois a Europa não é rica e viveu a crédito e acima das suas possibilidades e agora chegou a hora de pagar a conta e como habitualmente nestas situações de sociedades por quotas, os accionistas maioritários safam-se melhor por isso caro Pedro Correia tenha mais fé nos Povos e menos nos amanuenses que dizem ser seus representantes.
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De Pedro Correia a 16.05.2014 às 01:58

Estou de acordo com vários tópicos que anota no seu comentário. Quanto ao seu repto final: tenho certamente mais fé nos povos da Europa do que nos "amanuenses" que dizem respeitá-los. Por isso defendi que os sucessivos patamares da construção europeia deviam ter sido referendados em Portugal, tal como sucede noutros países (na Irlanda, por exemplo, o referendo é obrigatório).
A União Europeia precisa de saber ultrapassar o contexto histórico em que nasceu, fruto da Guerra Fria e do mundo bipolar. O capacete protector dos EUA vai desaparecendo: o eixo da política externa norte-americana tem vindo a transferir-se para a Ásia-Pacífico.
Essa é também uma consequência do facto de a Europa ter deixado de estar no centro do mundo.
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De da Maia a 15.05.2014 às 23:43

Havendo uma estagnação demográfica, a questão Malthusiana não se coloca.
Não há gastos de recursos acima do possível, ao contrário do que se tenta repetidamente fazer crer.
Convém distinguir economia de finança.
A economia é possível, a finança é insaciável.

A finança apesar de servir um meio de controlo, de poder, é também um catalisador da economia. É essa finança que vai puxando uns desenvolvimentos e matando outros, ao gosto de quem a controla.

O mundo ocidental fez a aposta de largar a economia e passar para o lado da finança. Foi na fábrica de ilusões financeira que construiu um império de castelos de cartas, mas com uma poderosa armada militar para quando o bluff da ilusão é desafiado.
Assim, ainda que toda a gente saiba que o dólar americano pode tender a valer o mesmo do que o do Zimbabué, quando o exército americano acha que não, quem somos nós para duvidar? Se Mugabe tivesse às ordens tal arsenal, também ninguém se teria atrevido a gozar com dólar zimbabuéano.

Por isso, não há nenhum problema com as reservas mundiais, seja lá do que for.
Para o que interessa para uma vida confortável, sobra duas ou três vezes, e por isso as pensões estariam mais que pagas.
São pagas pela economia, mas esse pagamento nunca satisfaz à finança, para manter a populaça dependente, com vontade de trabalhar, e não encostada à preguiça do estado social, ou a andar a fazer sabe-se lá o quê.

Assim, se a população não crescer acima de 10 mil milhões, discutir problemas económicos é uma falsa questão induzida pela especulação financeira.
A tecnologia actual permite tornar auto-suficiente qualquer comunidade.
Não estamos no tempo em que uma colheita azarada podia trazer fome e miséria.
No entanto, não permite que todos tenham o último Mercedes topo de gama.
Ainda que permitisse, o pessoal haveria de querer algo distintivo. Em tempos já chegou a ser a secreção do boi-almiscarado, só para impressionar as damas.
É tudo uma questão de faro, quanto não há farol.
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De Pedro Correia a 16.05.2014 às 02:03

Este seu texto arrisca-se a ser eleito comentário da semana, tal como já outros foram. Isso não significa necessariamente que esteja de acordo com tudo quanto afirma. É antes uma homenagem à sua capacidade de argumentação.
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De da Maia a 16.05.2014 às 10:56

Obrigado, Pedro. Quando aceitamos argumentos alheios é também uma demonstração de clarividência. Pena é que nunca se veja isso na Assembleia da República. A oposição ou alinhamento sistemático é na maioria dos casos um mero sintoma de cegueira confundida com fidelidade.
Quando se virem deputados aplaudirem discursos de oposição talvez algo mude, se for só para aplaudir os próprios, poderiam pôr daquelas cassetes, com risos e aplausos gravados, como se ouve nas séries cómicas.

Mas, note-se, que eu sou fã de uma Europa (aliás até de um Mundo,) sem fronteiras... mantidas algumas diferenças, a bem da riqueza cultural.
Não posso é ser fã do destino que tomou este projecto, e muito menos de termos a concurso neste Eurofestival electivo os protagonistas da sua degradação, dos partido populares aos socialistas.

Exemplo dessa desavergonhice despudorada são os cartazes do PS, que numa pseudo-sell-fish colocam personagens de longa data numa fotomontagem mal feita, com as palavras "confiança" e "mudança".
Mudança com as mesmas caras, e confiança em manipulações de fotos?
A política passou ao mero marketing de detergentes... para deter gentes, deter consumidores num produto.
Isto não é gozar com o pagode, é pior que isso, é só palhaçada mesmo.
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De Pedro Correia a 16.05.2014 às 13:34

De acordo com muito do que refere. Eu sou por um mundo cada vez com menos fronteiras. Mas defendo que essas fronteiras vão sendo derrubadas de forma natural, não por imposição arbitrária de directórios políticos nem de construtores de utopias que acabam por condenar os povos a novas servidões e novas grilhetas.
Defendo uma Europa cada vez mais construída de baixo para cima e não de cima para baixo. Com mais democracia, nunca com menos democracia.
"Mudança" é daqueles termos que se vão continuamente desvalorizando e perderam significado. Acabam por significar o seu oposto.
Este é, aliás, um dos problemas do nosso tempo: a desvalorização das ideias devido à perversão do significado das palavras que as exprimem.
Como escreve Mario Vargas Llosa no seu mais recente texto do 'El País' (segue trecho com a devida vénia ao grande Nobel peruano), "as palavras também se gastam com o uso. Liberdade, democracia, direitos humanos, solidariedade, vêm com frequência aos nossos lábios e já não significam quase nada porque as utilizamos para dizer tantas coisas ou tão poucas que se desvalorizam ao ponto de se converterem em mero ruído".
http://elpais.com/elpais/2014/04/30/opinion/1398870942_469895.html
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De da Maia a 16.05.2014 às 15:53

Sabíamos bem o peso de Estado da palavra irrevogável... agora já podemos brincar às irrevogabilidades: - "Paulo, fique descansado que este financiamento ao Estado português é irrevogável".
Sempre houve palavras com mais que um significado, mas actualmente nesta senda para o niilismo caótico, já se procura que nem tenham significado.

Quando a comunicação entre as pessoas deixar de ter significado, passar a ser ruído, termina a comunicação. Ficamos isolados.
É muito importante que o Pedro tenha focado essa citação de Llosa, vai ao ponto crucial, e segue na sua questa de frases sem significado proferidas ao longo dos últimos anos.
Merece mesmo um postal de destaque, eu diria... porque quando acabar a linguagem acaba a civilização. Ameaças à língua são ameaças ao entendimento. Essa sim é uma real ameaça à paz. Somos homens pela compreensão da palavra, deixaremos de ser quando as palavras deixarem de ter significado. Os que restam ficam isolados na sua compreensão individual, e no limite não há propósito em ensinar ruído à nova geração. Teriam eles próprios que inventar a sua linguagem.
Triste herança lhes deixaríamos.
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De Pedro Correia a 17.05.2014 às 13:15

Sublinho estas suas palavras, a que sou muito sensível: "quando acabar a linguagem acaba a civilização."
Verdade lapidar.

(O texto de MVL motivado pela situação na Venzuela merece destaque, sem dúvida. Desde que 'El País' não venha cobrar-me direitos de autor pela hiperligação...)
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De William Wallace a 16.05.2014 às 00:46

Só mais um pormenor em relação aos 148 mil milhões USD do Plano Marshall.


Plano da administração Bush para salvar bancos prevê 700 mil milhões de dólares

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=1015816


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De Pedro Correia a 16.05.2014 às 13:24

São tempos diferentes, com valores dificilmente comparáveis. De qualquer modo, o colapso do sistema financeiro não beneficiaria ninguém. Não tenha dúvida: os pobres seriam sempre os mais prejudicados num cenário desses, não os ricos.
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De Wlliam Wallace a 16.05.2014 às 19:44

Você é que referiu no seu postal o valor de 148 mil milhões USD, citando ser o valor ao Câmbio Actual daí a minha referência.
Quanto á insolvência da banca, mantenho a minha posição de defensor da economia de mercado que seleciona os melhores além de que seria sempre mais barato garantir os depósitos e não (como se fez) subsidiar a economia de casino vigente e que ainda perdura e cada vez mais refinada.

O Pedro Correia e muitos mais defendem essa "nova" "religião" que é a alta finança eu defendo as pessoas e as suas necessidades básicas.

Porque não pode falir um banco e uma exploração agricola ou fábrica pode ou até uma multinacional com dezenas de milhares de colaboradores ?

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De Pedro Correia a 17.05.2014 às 13:22

Eu defendo a "alta finança"???
Já me têm dito muita coisa, mas esta é inédita...

Eu defendo, isso sim, contas públicas controladas e ajustadas. Isto é, uma relação equilibrada entre as receitas que somos capazes de gerar e o nosso montante de despesa pública.
Defendo também, em consequência, um sistema financeiro capitalizado, que possa funcionar como suporte essencial das escolhas económicas.
E defendo isto precisamente porque acredito no primado da política nas opções de carácter económico. Acontece que não há opções políticas com finanças arruinadas.
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De am a 16.05.2014 às 17:34

Palavras leva-os o Vento...

fala do progresso da Finlândia. Bom exemplo. Por cá qualquer iniciativa governamental, por mais benéfica que seja, esbarra com um sindicatelho" a obstaculizar ...
Quando se noticia que "ene" médicos foram dados como corruptos...
A OM- insurge-se e rsponde com a "mesma moeda": "Não há Aspirina do Hospital Amadora Cintra"
Num país onde até os policias distribuem panfletos a avisar que isto por cá não é seguro...

Num país onde o presidente do sindicato dos professores, não dá uma aula há 20 anos...
etc, etc, etc
Dar a Finlândia como exemplo é criminoso!
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De Vento a 17.05.2014 às 15:21

Criminoso é quem fala e não dá o corpo ao manifesto para alterar o que está mal.
A que atitude governamental se refere?

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