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Reflexões europeístas (1)

por Pedro Correia, em 12.05.14

 

Nos dias que correm, suscitam aplauso generalizado as opiniões destinadas a contestar a construção europeia. Estas opiniões convergem, à esquerda e à direita, num balanço muito negativo das décadas de edificação do desígnio traçado pelos grandes europeístas do pós-guerra: Monnet, Schuman, Churchill, Spaak, De Gasperi e Adenauer.

Em tempo de crise à escala continental, torna-se demasiado fácil apelar às emoções de quem viu traídas genuínas expectativas de enriquecimento e mobilidade social. O problema destes discursos populistas que apontam o dedo à Europa como fonte principal dos nossos problemas actuais é, desde logo, a falta de modelo alternativo: de nenhum deles resulta nada de mais consistente e promissor.

Mas a questão central, além da falta de modelo, é também a falta de memória. O discurso anti-europeísta -- dominante nos media que preferem registar os ecos de quem grita mais alto do que de quem não precisa de elevar a voz para ter razão -- não resiste a um teste de elementar conhecimento histórico. A construção europeia é o único projecto de raiz utópica que trouxe prosperidade aos povos que dele beneficiaram enquanto lhes ampliava em simultâneo as fronteiras da liberdade no século XX, o mais sangrento e devastador de que há registo. Escamotear este facto, mais do que comprovado, é inquinar à partida qualquer debate sério, desviando-o do imprescindível rigor factual.

Não adianta iludir a questão: devemos aos sucessivos patamares da edificação do chamado "sonho europeu" que desembocaram na actual União Europeia o mais longo período de paz e crescimento económico neste continente, transformado ao longo de seis décadas numa referência universal de progresso e civilidade. Com apenas 7% da população do globo, a Europa produz cerca de 25% da riqueza mundial e sustenta 50% das despesas de carácter social no planeta.

É inútil tornear esta evidência, por mais que isso perturbe todo o discurso anti-europeu estribado em argumentos de carácter populista hoje tão em voga, seja por respeitável convicção seja por detestável critério de mero cálculo eleitoral.

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50 comentários

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De fernando antolin a 12.05.2014 às 17:20

Chapeau !!

Um abraço
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De Pedro Correia a 13.05.2014 às 15:47

Agradeço-lhe a chapelada, meu caro. Um abraço.
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De 25 anos de Portugal na UE a 12.05.2014 às 17:35

"Ao longo dos últimos 25 anos, Portugal recebeu nove milhões de euros por dia, provenientes de fundos comunitários (...)"
"As conclusões são de um estudo feito pelo antigo ministro da Economia, Augusto Mateus, para a Fundação Francisco Manuel dos Santos."
"Entre 1986 e 2011, Bruxelas injectou 80,9 mil milhões de euros de fundos estruturais e de coesão em Portugal (...)"

Não há dúvida que fora da UE estávamos muito melhor...
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De da Maia a 12.05.2014 às 19:02

Hmmm... então e a Troika só vinha cobrar 78 mil milhões?
Quer dizer que ainda querem arranjar maneira de cobrar mais 2,9 mil milhões?
Não chegam os juros, que ainda teremos que pagar?

Olhe, eu fui a Marrocos, não andei apenas pelos sítios turísticos, e vi uma economia a crescer, muita construção, com desenvolvimento a vários níveis. Imagine-se, há lá funcionários públicos a construirem vivendas com 4 andares, e como é óbvio não são ricos. Tem lá agora portugueses a trabalhar na construção.
Ali em Marrocos não há desculpa de petróleo.

Se olhar a diferença entre Portugal e Marrocos em 1986, e olhar a diferença agora... acho que a UE fez convergir Portugal a Marrocos.
Para os marroquinos parece-me bem.
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De da Lucidez a 13.05.2014 às 08:38

Foi a Marrocos e devia ter ficado por lá.
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De da Lucidez a 13.05.2014 às 09:20

IDH 2012

Portugal: . 816 (IDH muito alto)

Marrocos: .591 (IDH médio)

.816 / .591 = 1:38
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De da Maia a 13.05.2014 às 13:29

Sabe o que é uma comparação entre 1986 e 2014?
Não entram apenas os dados de 2014, consegue perceber isso, ou é demasiada informação para a sua "lucidez"?
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De da Lucidez a 13.05.2014 às 16:13

Se tivesse ido à China ainda tinha visto mais desenvolvimento. Dizem que hoje há camioneta para lá.
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De da Maia a 13.05.2014 às 20:55

Pois, deve ter sido graças aos fundos da CEE...
Já chegou aos fundos?
Então deixe lá a camioneta, homem, não tem mais sítio nenhum para onde ir.
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De l.rodrigues a 12.05.2014 às 18:11

Tudo isso que diz é verdade, mesmo que pintalgado por algum exagero. A verdadeira questão está na absoluta impreparação dos lideres europeus, e da europa que nos foram impingindo no combate a esta crise. Querer uma melhor liderança, melhores tratados, melhor Europa, não é ser Anti-EUropeísta, é exactamente o contrário. Acreditar que hoje é possível outro caminho é o que defendem muitos Europeístas críticos.

Essa confusão recorrente entre Europeísmo e submissão à ordem actual com todas as suas disfuncionalidades (bem patentes na recente entrevista do ex-conselheiro de Durão Barroso, Philippe Legrain), é no mínimo redutora.

QUanto ao papão da guerra, foram as escolhas dos lideres actuais na condução da resposta à crise que mais fizeram para exarcerbar os nacionalismos re-emergentes.
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De Pedro Correia a 13.05.2014 às 16:50

Não esqueçamos entretanto que os dirigentes actuais, bons ou maus, ocupam os cargos em função do sufrágio popular. Nesse sentido não nos foram "impingidos": resultaram de escolhas.
Quanto ao resto: não há construção europeia sem europeístas. O antieuropeísmo é legítimo. Mas está a ser contaminado pelos velhos nacionalismos, que se apropriam do descontentamento genuíno de muita gente para fazer regressar no fundo da bagagem os velhos vírus que dilaceraram a Europa e podem voltar a contaminá-la. Os sinais estão aí, à vista de todos quantos queiram ver.
O verniz da civilização é muito ténue, como a história nos ensina.
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De da Maia a 12.05.2014 às 18:19

A pax romana é o único projecto de raiz utópica que trouxe prosperidade aos povos que dele beneficiaram enquanto lhes ampliava em simultâneo as fronteiras da liberdade, no século VIII de Roma, o mais sangrento e devastador de que há registo.

Apart from the sanitation, the medicine, education, wine, public order, irrigation, roads, the fresh water system, and public health ... what have the Romans ever done for us?
- Brought peace!

https://www.youtube.com/watch?v=9foi342LXQE

Este pessoal nunca está contente com nada!
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De rmg a 12.05.2014 às 19:45


Meu caro Pedro Correia

Gostei como sempre de o ler , fala das coisas que são ou foram .
Essas coisas não são óptimas mas são boas .

Nunca nos devemos esquecer que foi na Europa que nasceram todos os "ismos" , nem sempre - e mesmo raramente - entusiasmantes .

Mas não é disso que a maioria dos comentadores gostam , preferem falar do que poderia ter sido e não foi ou , pior ainda , do que gostariam que um dia fôsse ainda que não façam a mínima ideia de como seria possível lá chegar .

É disso que se alimentam os que muito poucos ou mesmo nenhuns sonhos passaram alguma vez à prática , senão saberiam o trabalho do caraças que isso dá e como todo o tempo que se passa em declarações de intenção mais ou menos grandiosas é a mais completa perda de tempo .




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De Pedro Correia a 13.05.2014 às 16:44

Meu caro RMG, esquecemo-nos com excessiva frequência deste axioma: o óptimo é inimigo do bom. Quantas vezes deitamos o 'bom' pela janela na expectativa de que nos entre o 'óptimo' porta adentro numa qualquer aurora redentora.
O problema é que o 'óptimo' - seja em forma de nazismo, de comunismo, de fascismo, de nacionalismos de vários matizes - conduz quase sempre ao péssimo.
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De Carlos Faria a 12.05.2014 às 20:54

A UE parece-se cada vez mais com o final do império romano do ocidente, só que se este fora conquistado pela força da guerra, a UE pelo interesse pela paz... só que a ambição novamente não tem limites e é a maior faca para estabelecer divisões internas.
Enquanto Roma fazia acordo com os bárbaros para garantir as suas fronteiras e lhes dava poder económico, as fações internas digladiavam-se até chegar ao ano de 476 e até hoje.
Não sei quem será o Rómulo Augusto desta Europa... mas que os bárbaros de hoje sejam russos e chineses parece tornar-se cada vez mais evidente.
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De Pedro Correia a 13.05.2014 às 16:40

E apesar de tudo, Carlos, progrediu-se. Esta mesma Europa estava há 70 anos mergulhada na mais sangrenta guerra da história. Parte desta mesma Europa tinha há 40 anos sistemas ditatoriais de direita em Portugal, Espanha e Grécia. Quase metade desta mesma Europa tinha há 25 anos ditaduras de sinal contrário em países que são hoje democracias exemplares, como a Polónia, a República Checa, a Eslovénia e os estados bálticos.
Esquecemo-nos demasiadas vezes do caminho percorrido de então para cá.
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De Carlos Faria a 13.05.2014 às 17:29

O que disse mostra que não entendeu o meu comentário, fui um europeísta convicto, até adquiri a nacionalidade Portuguesa com a entrada de Portugal para a CEE e convicto da força do que seria esta União feita pela via da paz.
O problema começou perto da mudança de século, onde as ambições de muitos começaram a estabelecer divisões internas, a não saber aproveitar a queda do muro e ver a China a crescer sem saber se adaptar e a Rússia se tornava num monstro perigoso, desde então a Europa perdeu o norte e a união.
É esta de hoje, não a do passado... já foi mas não é que me faz lembrar o fim do império romano, que também já fora grande (mas então pela força das armas) mas deixou de ser como nós estamos a deixar de ser.
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De Pedro Correia a 14.05.2014 às 01:10

Não partilho desse pessimismo, que me parece ter demasiados paralelismos com a descrença sobre as virtudes da democracia que na década de 30 levou tantos milhões de europeus a render-se aos sistemas totalitários. Não existe nenhum sistema menos mau do que a democracia liberal europeia. Uma coisa é a necessidade de aperfeiçoar o sistema actual; outra, muito diferente, é considerar que está esgotado sem haver qualquer alternativa minimamente credível no horizonte.
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De Vento a 12.05.2014 às 22:06

Não me estranha, portanto, Pedro que o discurso anti-europeísta surja precisamente como reflexo de um modelo economocista que se sobrepõe ao bem-estar da génese da edificação Europeia, que se conheceu na prática de seus fundadores.
A Europa de Monnet e outros mais construiu-se fruto da constatação da desagregação social, económica e politica que ocorria no período que antecedeu a II guerra mundial. E foi esta a causa da guerra. Logo, a construção Europeia tem como princípio não a reconstrução da Europa mas, a partir de sua destruição, a construção desta, isto é, da Europa que não existia.

Iludir esta questão é simplesmente sobrepôr números ao interesse das pessoas e das comunidades. A Europa que hoje conhecemos é essa Europa.
A situação de crise que vivemos foi de igual forma criada por todos, mas nem todos querem ser parte na responsabilidade.
Pretende-se hoje comprar os europeus alegando as verbas comunitárias a estes destinadas, mas ninguém é capaz de dizer nas mãos de quem é que essas verbas estão, ou, em última instância, nas mãos de quem ficam.
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De Pedro Correia a 13.05.2014 às 16:36

Parafraseando o que disse Churchill sobre a democracia, esta Europa é o pior sistema existente no mundo exceptuando todos os outros.
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De xico a 12.05.2014 às 22:15

Assino por baixo. Há, por causa do nosso esquecimento, o perigo de em vez de tentarmos "vender" o nosso modelo, acabemos a comprar o modelo do mercado, dos outros.
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De Pedro Correia a 13.05.2014 às 16:34

Esse é um risco real, caro Xico. Devemos precaver-nos contra esse perigo. Porque é mil vezes mais fácil destruir algo de positivo, embora insuficiente para as aspirações de muitos, do que edificar um projecto alternativo, maravilhoso em teoria mas que só existe na imaginação de alguns.
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De Costa a 12.05.2014 às 22:40

Como já aqui se comentou, tem razão; como já aqui se comentou, os líderes de refere são um passado nobre e que desgraçadamente parece não ser dignamente sucedido. Parece até ser afinal, e robustamente, desconsiderado.

Eu sei que esta é uma invocação anacrónica, politicamente incorrecta e impossível de assumir por quem tenha ambições públicas. Mas eu não as tenho: a Europa de hoje, desde logo na sua exteriorização cultural popular, parece ser um qualquer circo oitocentista, exibindo bizarrias: até já tem a mulher barbuda.

Ora a atenção que na "europa" se lhe devotou - e antes dessa atenção, e sobretudo, essa necessidade de se afirmar, como se fez naquela ocasião, uma espécie de alternativa que se acha "imparável" - será apenas nobre tolerância? Uma forma de superior liberalismo intelectual e estético? A generosa certeza de um lugar para todos? Ou um sinal, no aparentemente inofensivo campo da música ligeira, mas ultrapassando-o, de bem pior na nossa Europa?

É fácil, muito fácil, quase uma forma de legítima defesa e higiénico desengano, ser-se hoje, em todos os campos, profundamente céptico perante essa coisa que já foi salvífica: a Europa. Mas, isso dito, é de facto terrível que assim seja.

Costa
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De Pedro Correia a 13.05.2014 às 16:32

Identifico-me com muito do que escreveu, meu caro. E sublinho em particular este raciocínio: "É fácil, muito fácil, quase uma forma de legítima defesa e higiénico desengano, ser-se hoje, em todos os campos, profundamente céptico perante essa coisa que já foi salvífica: a Europa. Mas, isso dito, é de facto terrível que assim seja."
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De Miguel a 12.05.2014 às 23:40

A história da UE é bonita, mas quando um homem tem a corda à volta do pescoço, ele não quer saber se as fibras que a compõem provêm de um arbusto que dava alvas e fofas bolas de algodão; ele só não quer morrer enforcado. E neste momento há muita gente pela Europa com a corda ao pescoço, perguntando-se como é que a utopia descambou nisto, e sem qualquer esperança de que a UE se consiga reformar sozinha, ou que o queira fazer sequer.

A UE está eivada por dentro, sofreu um assalto invisível às suas instituições e ideais, dos mais variados quadrantes: nacionalistas que só puxam a brasa à sua sardinha; tecnocratas e neoliberais encharcados com as doutrinas económicas da Escola de Chicago, e os habituais arrivistas que apenas querem um cargo chorudo sem esforço. Só porque a UE externamente transmite uma imagem de democracia, talvez devamos ser mais cuidadosos. William J. Dobson escreveu um excelente livro chamado 'The Dictator's Learning Curve,' onde argumenta que os ditadores modernos adaptaram-se à globalização e mudaram as suas estratégias. Hoje em dia, os ditadores mais perigosos não são aqueles que orgulhosamente se pavoneiam como tal - na Coreia do Norto, no Irão, na Guiné Equatorial, etc. -, são os que se insinuaram nas estruturas da democracia para as subverter por dentro, usando-as para atingir os seus desígnios com mais facilidade, sem que alguém perceba sequer que o golpe de estado já ocorreu.

A UE pode ser utópica, mas não ponho de parte que o que se passa no continente seja uma deliberada estratégia para desacreditar essa mesma utopia - o estado-providência, os sindicatos, os direitos laborais, os direitos civis, 2 folgas semanais, 8 horas por dia, licenças de maternidade, escolaridade gratuita, etc. - para produzir um retrocesso civilizacional cujo fito não é nada mais do que refazer o mundo à imagem do século XIX, com o mais desumano dos laissez-faires a servir de regra para tudo. E tenho sérias dificuldades em ver como é que isso já não está a acontecer na Europa, e tenho ainda mais dificuldades em acreditar que não está acontecer com o conluio e a protecção dos próprios líderes da UE. E não tenho qualquer esperança que esse ataque possa ser travado e invertido pelas eleições de 25 de Maio, porque os mesmos que já ocuparam as instituições seriam estúpidos se não tivessem criado mecanismos e entraves que se activarão automaticamente para destruir o primeiro que ouse parar a máquino do tempo com destino traçado a 1847.
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De Pedro Correia a 13.05.2014 às 16:31

Essa é a visão que está a fazer curso por estes dias: a da Europa em regressão civilizacional.
Mas é uma perspectiva que os factos não confirmam. A Europa, sendo um espaço territorial povoado por apenas 7% dos habitantes do planeta, é capaz de gerar um quarto da riqueza mundial e distribui metade dos benefícios sociais.
Estes dados, indesmentíveis, colam mal com o discurso tantas vezes catastrofista que escutamos.
Isto não invalida que várias das críticas que aponta tenham pleno cabimento: a apropriação das instituições comunitárias por uma brigada de funcionários e burocratas não sufragados pelo voto, a disparidade notória entre os objectivos dos fundadores da Comunidade Europeia e algumas das metas (não) alcançadas e sobretudo a mediocridade de muitos dirigentes europeus, incapazes de uma visão estratégica para enfrentar os novos desafios do continente.
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De Miguel a 13.05.2014 às 23:14

"Mas é uma perspectiva que os factos não confirmam. A Europa, sendo um espaço territorial povoado por apenas 7% dos habitantes do planeta, é capaz de gerar um quarto da riqueza mundial e distribui metade dos benefícios sociais."

Como Napoleão disse, a estatística é a arte de mentir com números. Só porque a Europa gera riqueza, não quer dizer que ela seja bem distribuída, pode apenas dizer que há empresas a facturarem 200 milhões por ano enquanto que pagam salários mínimos. E quanto aos benefícios sociais, seria preferível termos economias fortes e bons empregos do que muitas ajudas aos desempregados - o que também é duvidoso que haja. Sem contar que muitos desse benefícios são usados pelas empresas para benefício próprio. Como me dizia um formando novo no trabalho, as empresas gostam desses programas sociais dos centros de empregos, em que a segurança social paga quase todo o salário e a empresa apenas um valor simbólico.

Vá lá, Pedro, não me vai dizer que realmente acredita nesses números. Não conheço povo europeu que não se ande a queixar de menos dinheiro, mais abuso laboral, mais dificuldades, menos esperança. Até a Alemanha apenas vai escamoteando os índices de emprego graças aos famosos mini-jobs . Existe a estatística, e existe o sentimento à nossa volta, no dia-a-dia. Eu sei em qual prefiro acreditar.
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De Pedro Correia a 14.05.2014 às 01:15

Eu conheço o mundo. Já estive em todos os continentes. Já vivi 13 anos longe de Portugal. E sei que não existe, nem de perto, nenhum continente onde a distribuição dos rendimentos seja socialmente tão justa como o continente europeu. E sei que não existe nenhum outro espaço territorial no planeta onde vivemos onde exista algo que mereça ser chamado 'estado social'.
Muitas vezes os europeus falam de barriga cheia. Vista de outros quadrantes a Europa continua a ser terra de liberdade, a terra da promissão, a terra onde os sonhos se tornam possíveis, a terra onde a ascensão social com base no mérito não é um mito.
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De Miguel a 14.05.2014 às 14:44

Eu não conheço o mundo nem viajei pelos cinco continentes, apenas falo com conhecidos pela Europa, e não ouço de ninguém discursos sobre afluência. O Pedro, ao afirmar que "muitas vezes os europeus falam de barriga cheia," está a colocar-se ao nível daqueles que discursam sobre os piegas, dos que lançam lugares-comuns sobre viver-se acima das possibilidades, dos senadores vitalícios que sugerem aos desempregados que vejam o desemprego como um desafio estimulante, e afins. Uma das maiores críticas aos políticos é que eles já não ouvem as pessoas; ora, estar a gabar estatísticas impessoais enquanto se ignora as palavras das pessoas concretas, é fazer exactamente o mesmo. É o equivalente de "os portugueses pioraram mas o país melhorou." Isso é o que as estatísticas mostram.

Porém, esta pode ser a última geração em que essas estátisticas indiquem tais benesses. Com a vaga de neoliberalismo a afligir a Europa, a tendência dos benefícios sociais será para descer e o estado-providência poderá mesmo deixar de existir. Essas estatísticas em breve serão uma relíquia, um artefacto histórico.
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De Pedro Correia a 14.05.2014 às 15:06

Essa é a visão de um pessimista. Mas não é a minha interpretação da História europeia do último século.
Há cem anos, começava a I Guerra Mundial, provocada pelo confronto dos diversos imperialismos europeus num breve apogeu que só acelerou o seu declínio. A guerra alastrou para além das fronteiras do continente e provocou mais de 35 milhões de vítimas. Saldando-se também, em termos políticos, pela derrocada da generalidade dos impérios - otomano, austro-húngaro, alemão e russo.
Há 75 anos, começava a II Guerra Mundial, que marcou o breve apogeu e rápido declínio dos regimes totalitários de direita. Ultrapassou largamente as fronteiras europeias: foi o primeiro conflito à escala planetária. Saldou-se em mais de 60 milhões de mortos, marcando o fim do último império europeu (o britânico) e do maior império extra-europeu (o nipónico).
Há 70 anos, iniciava-se o domínio totalitário soviético sobre a Europa de Leste com o seu cortejo de atrocidades - censura, polícia política, tortura, perseguições de toda a espécie, deportações compulsivas e mortes - que vigorou durante quase meio século.
Há 40 anos, três países europeus - Portugal, Espanha e Grécia - viviam ainda sob o jugo ditatorial da direita.
Há 25 anos, 21 países europeus - Rússia, Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Alemanha (de Leste), Estónia, Letónia, Lituânia, Bulgária, Roménia, Albânia, Eslovénia, Croácia, Sérvia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro, Macedónia, Moldávia, Ucrânia e Bielorrússia - viviam ainda sob o jugo ditatorial da esquerda.
No último século, a Europa esteve sujeita a todos os males: guerras, epidemias, deportações forçadas, atentados, massacres, perseguições políticas de todas a espécie.
No último século a Europa gerou o mal total: o Holocausto, emanado do totalitarismo nazi.
Os tempos que vivemos, com todas as dificuldades e todas as provações que bem conhecemos, são incomparavelmente mais benignos do que os tempos anteriores. A União Europeia deu um fortíssimo contributo na boa direcção.
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De Miguel a 14.05.2014 às 20:19

Bem, eu sou um cínico e esta é a minha interpretação: em 1945 nenhum país europeu estava em condições de começar uma guerra com ninguém. Os americanos estavam no continente e haviam tomado as rédeas da situação, até porque não podiam sair pois sabiam que os russos se preparavam para preencher o vácuo do poder; o destabilizador crónico da Europa, a Alemanha, estava desmilitarizada; os eternos inimigos, França e Inglaterra, estavam do lado dos EUA e não iam pôr em risco as relações com a nova super-potência começando uma guerra entre eles; a Itália tentava cair nas boas graças dos Aliados; a Península Ibérica também não estava em condições de chatear ninguém. Quem restava para começar uma nova guerra? Que fazer senão reconstruir a Europa e iniciar o processo de paz? Nem a América permitiria outra coisa, pois precisava do mercado europeu para exportar os seus produtos. Sem contar que o mercado comunitário era a melhor forma de tornar cada membro refém do outro, interligando a economia, ao invés do antigo modelo proteccionaista, que obrigava todos a estarem na mesma onda. O projecto europeu não nasceu de um genuíno amor dos países pelos outros; eles literalmente tiveram de criar mecanismos para se impedirem de matar, apesar de ser esse o desejo deles, através de uma economia que puniria quem ousasse fazer isso.

E desta paz periclitante, forçada, nasceram décadas de paz e estabilidade, mas também a ilusão de que esses ódios estavam terminados. Ora, como a actualidade demonstra, eles apenas dormitaram, à espera de um motivo para ressurgirem. Mas como a economia é mais forte do que o nacionalismo, duvido que o projecto esteja para cair, mas como também é a economia que manda, não acredito que os problemas sócio-económicos que animam estes nacionalismos venham a ser colmatados, pelo que cada vez mais o nacionalismo irá crescer em paralelo com medidas violentas para o reprimir, o que provocará uma escalada que não sei aonde irá parar, mas não penso que será a um bom desfecho.
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De Pedro Correia a 15.05.2014 às 00:39

Acentua a sua visão pessimista, Miguel. Mas não me parece nada que os factos sustentem essa tese. O que a Europa hoje enfrenta pela primeira vez é um choque económico provocado pela globalização que nasce do fim da Guerra Fria e do encerramento definitivo do ciclo colonial.
Terminou de vez o tempo em que a Europa ditava regras às outras parcelas do mundo. Esses tempos acabaram e não voltam.
A Europa não tem alternativa senão adaptar-se à concorrência global com as economias emergentes que tiram da pobreza e até da miséria dezenas de milhões de pessoas por ano, transformando-as num imensidão de novos consumidores da classe média em países como a China, a Índia, a Turquia, o México e o Brasil. E só conseguirá suplantar esse desafio unida, não fragmentada.

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