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Procurar razão

por Diogo Noivo, em 11.03.17

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Com apenas 16 anos de idade Gabriel Vidal “Baby” tornou-se o centro de todas as atenções em Espanha: foi o primeiro a ser condenado pela justiça daquele país na sequência da investigação aos atentados terroristas de 11 de Março de 2004, em Madrid.
Apodado “El Gitanillo” pelos órgãos de comunicação social, Gabriel pertencia à “trama asturiana”, um pequeno grupo de delinquentes de Avilês que se dedicavam ao tráfico de estupefacientes e a delitos comuns. Rufias de bairro que por ganância, por laxismo e por força de um habitual encolher de ombros acabaram por fornecer a jihadistas os explosivos que mataram 191 pessoas e feriram cerca de 1000 na capital espanhola. “Baby” foi quem transportou os explosivos das Astúrias até Madrid e os entregou à célula terrorista que cometeu o atentado.
Em Nos vemos en esta vida o en la otra, Manuel Jabois, jornalista e colunista no diário El País, usa a história de “Baby” como estribo para descrever os factos, os personagens e as ligações que culminaram no acto terrorista mais devastador ocorrido na Europa Ocidental. A partir de várias conversas com o jovem asturiano, as primeiras que “Baby” teve com um jornalista, Jabois mapeia o contexto difuso de uma rede composta por redes, destrinçando com clareza as fronteiras entre a pequena criminalidade e o terrorismo; ao mesmo tempo, expõe o papel crucial que a oportunidade, o acaso e a indiferença de gente que nada tem que ver com o terrorismo desempenharam neste atentado. Aqui como noutros casos, o fanatismo religioso é manifestamente curto para explicar a confluência de acontecimentos e de diferentes percursos de vida que acabam por desaguar em massacre.
O livro é um trabalho notável de reportagem, muitíssimo bem documentado e escrito, que faz as perguntas certas, mas que não se angustia quando as respostas são demasiado triviais ou mesmo estúpidas. Todos os ângulos da história, todos os intervenientes (o livro refere mais de 50), todos os momentos que antecederam o atentado são trabalhados com minúcia e talento para tentar explicar o que parece destituído de razão.
Hoje assinalam-se os 13 anos do atentado em Madrid. No ano passado, escrevi aqui no DELITO que "[h]abituada à chaga terrorista, Espanha combateu a barbárie sendo irredutível na defesa da normalidade democrática." Nos vemos en esta vida o en la otra é mais uma expressão dessa normalidade. Manuel Jabois investiga e escreve sem assumir as dores de ninguém, sem tomar partidos, mas sem esquecer que existem vítimas. O livro é um esforço intenso, mas sereno de compreensão de um marco nefasto na história contemporânea de Espanha. Foi uma das leituras mais interessantes e impressivas que fiz em 2016. Se há dia para o recomendar, e merece sê-lo, hoje é sem dúvida esse dia.

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1 comentário

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De Luís Lavoura a 13.03.2017 às 09:37

acabaram por fornecer a jihadistas os explosivos

1) Onde arranjaram esses rufias de bairro os explosivos?

2) Por que é que os jihadistas não conseguiram arranjar eles mesmos os explosivos? Por que tiveram que recorrer a pequenos rufias de bairro?

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