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Posto 12

por Patrícia Reis, em 19.12.15

 

Foi um momento mágico que durou apenas um segundo. A onda vinha a nascer ali, a cinco metros, talvez sete, quem mede o mar?, a crescer desengonçada, mais alta do lado esquerdo, mais elegante na direita e a mulher viu o arredondar e a espuma a espreitar no topo do movimento da água, e aí, três peixes, talvez quatro, corpos no formato imaginado em prata a compor a moldura do topo da elevação de água. A mulher mergulhou e os peixes voltaram ao seu exercício invisível de existir sem se dar conta. O mar estava quente.

Então, a gaivota não conseguia voar. Não era motivo de festa. Junto ao posto, os nadadores salvadores a rondar a ave grande, penas pretas, bico branco, sem saber. Ela a tentar voar, uns metros, a salvação. O que querem estes? Um deu a volta, ficou nas costas da ave, na presunção de que assim escaparia e, num gesto súbito, agarrou-a e o outro homem apertou o corpo e as patas dançantes, desesperadas. Precisa de ser vista por alguém competente. A praia parou para ver a manobra de salvação na areia meio molhada, famílias e casais olhando os dois homens. No céu, as outras gaivotas afastaram-se e um miúdo pediu um mate sem limão, um surfista de cabelo comprido seguiu para as ondas pequenas mas velozes. Era o meio da tarde. O homem pediu uma caipirinha. Limão.

A cláusula podia ser legal ou nem por isso. Advogado serve para saber essas coisas, e a mulher ia vendo os emails, feliz com o facto de ter wi fi na praia. Era sexta-feira e, a teoria rezava a história meio parva de estar numa reunião de trabalho, mas atendia o telemóvel e do outro lado ouviam-se as ondas a rebentar, o homem que grita para quem o quer atender que há empadas de frango e de camarão. O homem viu a sua mulher ao longe. Ela a fazer de mãe, um saco cheio de comida. Um sorriso pequeno e os óculos escuros cheios de areia.

Eram duas pranchas de surf a combater o sol da tarde. A fazer toldo. Enterradas na areia como totems de uma religião desconhecida, os miúdos precisavam de sombra, de ficar deitados com os cabelos derretidos de suor e de água do atlântico quente, apenas encaixados no buraco escavado, à sombra das pranchas, sem um tostão. A ver as ondas. As pessoas. Os vendedores. Sem vergonha pediram um copo de limonada a um vendedor e o homem riu-se, fez conta da enorme lata, percebeu a falta de dinheiro, pegou num copo de plástico e encheu para os surfistas profissionais chegados à adolescência há dois minutos. Riu-se e lembrou que no dia seguinte cobraria os seus serviços, afinal andar na areia para ganhar a vida não é para todos e eles, os miúdos, estão apenas descontraídos, leves-leves, com as mãos bronzeadas a acariciar as barrigas, miúdos de famílias que até podiam ter muito. Muito, fosse do que fosse.

O casal estava sentado a beber um caipirinha. Não era a melhor caipirinha de todas, era a possível e o que podia ser era, mais do que qualquer outra coisa, o silêncio de estarem na festa da praia sem terem de dizer nada. Apareceu uma jovem com cara pintada de azul, meias roxas, uma mini saia branca, luvas pretas e uma camisola inesperada, de gola alta, mangas compridas. A jovem falou em inglês e o casal riu-se, o português servia. Ela encolheu as mãos junto ao peito num gesto coquete e depois riu-se, um riso pequeno. Disse ao que vinha, garantiu que os achava americanos, qual Paris Hilton e uma mistura de Vin Diesel com Denzel Washington e o casal riu. Deram-lhe uma nota e ela agradeceu e recomendou: atenção aos paparazzi, que também os há.

Ler Caio Fernando Abreu sem cuidado. Sem estar preparada para tanta tristeza, a mulher esmagada com cada frase, com todos os repentes, conseguindo sentir o cheiro da droga, depois do suor e do fim do sexo. A mulher aflita na praia a ler sem conseguir parar, porque seria assim, a escrita não merece tanta mágoa, não precisa de ir tão fundo, pois não? Caio não respondeu. Talvez estivesse numa nuvem sentado. A ver a mulher. A perceber como lhe podia partir o coração.

Se estivesse a noite toda a desenhar na areia podia ser que acontecesse, a mulher entenderia que frequência e vibração, a água como condutor de som, a potencia do eco, a necessidade de barreiras, o espaço confinado ou aberto, podia ser que entendesse que era impossível existir som no espaço – excepto para as naves especiais dos filmes incríveis que ela preferia gostar para pertencer a um grupo determinado de pessoas que está pronta para o desconhecido. Podia ser John Williams. O homem desenhou na areia, o charuto terminado na mão, as luzes potentes a banhar a praia na noite quente. Passou uma camioneta desengonçada e havia uma criança que gritava, lá ao fundo. O som vinha da direita, mesmo lá ao fundo. A criança não gritava, ria. Ria alto.

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