Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Pós-eleitoral (5)

por Pedro Correia, em 28.05.14

1. Domingo, falaram as urnas: Passos derrotado. Segunda, falaram os "analistas": houve empate. Terça, falaram as pulsões autofágicas no PS: Passos venceu. Razão tinha o outro: o mundo muda muito em 48 horas.

 

2. 32% será resultado "frouxo". Mas o que diremos dos escassos 14% obtidos pelo Partido Socialista francês, de François Hollande, outrora proclamado por Soares e tutti quanti como um dos faróis da esquerda europeia?

 

3. A um ano das legislativas, e após ter andado a carregar o piano desde 2011, ninguém imagina Seguro a ceder um milímetro a solistas de violino. Mesmo que venham ungidos do Vau e aspergidos de Nafarros. Óbvio ululante, como dizia Nelson Rodrigues.

Autoria e outros dados (tags, etc)


34 comentários

Imagem de perfil

De Pedro Correia a 29.05.2014 às 08:45

Meu caro Sérgio: com os males dos outros podemos nós bem, sim. Mas o mal europeu é já o nosso mal também. Não adianta iludir-nos, olhando para a árvore viçosa enquanto a floresta está a arder.
O problema central, no PS como no PSD, não é hoje de personalidades. Esse era um problema que correspondia a uma fase diferente, já ultrapassada.
Há hoje uma crise profunda do sistema representativo na Europa. Uma crise que afecta os dois principais blocos políticos que construíram a Europa unida: o centro-esquerda e o centro-direita. Tal como na primeira metade do século XX, voltamos a ver as forças extremistas, eurófobas, a capitalizar o descontentamento popular invocando a seu favor o pior da natureza humana para fins políticos. Refiro-me aos egoísmos nacionais.
O que está hoje em voga não é ser moderado: é ser extremista. Uns tornam-se "radicais" porque sim, outros porque têm mesmo um projecto político incorporado, à esquerda e à direita.
Na Grécia o bipartidarismo tradicional vale hoje 30%. Em Espanha, não ultrapassa 48%. Chega aos 46% no Reino Unido. Em França nunca esteve tão baixo, rondando os 35%.
E em Portugal? Atinge os 48%, em linha com a tendência europeia, embora numa expressão ainda não tão dramática.
É certo que as eleições para o Parlamento Europeu potenciam como nenhumas outras o voto de protesto: uma grande parte do eleitorado que ficou em casa é moderado, não tenho qualquer dúvida. Resta ver se é resgatável para a democracia. Porque a trincheira hoje na Europa, como foi durante décadas no passado, volta a ser a da democracia contra as forças centrífugas que a desvalorizam a todo o passo invocando a falta de "carisma" dos dirigentes políticos. Sabemos bem onde nos conduziu esta pulsão carismática, mas persistimos em ignorar as lições da História.
Indo ao concreto. Concebo mal que 36 horas depois de uma vitória eleitoral (a segunda em oito meses) o político que triunfou seja contestado nas próprias fileiras apenas porque o achismo dos tudólogos com lugar cativo na TV entendem que outro é mais fadado para tais lides. Sobretudo num contexto em que a família política a que todos pertencem naufragou praticamente à escala continental.
Mais décima menos décima, ninguém teria feito melhor. Claro que é sempre mais fácil, num país de treinadores de bancada, imaginar que o paraíso mora ao lado. A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. Sugiro-te, a propósito, que ouças uma excelente entrevista que o Francisco Assis deu ontem à RTP, muito bem conduzida pelo Vítor Gonçalves: o essencial fica dito nesta entrevista, de que tenciono falar aqui mais demoradamente.
Também Assis - cuja 'sagesse' ninguém contesta - entende que a crise não é do PS: é do modelo socialista à escala europeia. E que a crise que vivemos é mais funda do que parece: é uma crise da democracia representativa. E que, no essencial, não se trata de nenhum problema de "liderança" que uma brisa messiânica possa resolver.
Outros poderão estar nos lugares dos actuais. Mas os problemas de fundo permanecem. E nunca como agora tivemos tanto a noção de como somos dependentes de terceiros para manter o estilo de vida a que nos habituámos - no plano político, económico, social e cultural. "Não quero que a democracia volte a ser um parêntesis na história de Espanha", disse o ex-primeiro-ministro espanhol Adolfo Suárez nas semanas dramáticas que antecederam o golpe de Estado de Tejero Molina que conduziu ao sequestro do Parlamento. Palavras que foram lapidares e são hoje ali recordadas com frequência.
Não queremos que a democracia volte a ser um parêntesis na história de Portugal - e da Europa. Olhemos para a floresta.

Um abraço amigo.

Comentar post



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D