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Por falar em vender a alma ao Diabo...

por Alexandre Guerra, em 15.01.18

O lendário pacto de Fausto com Mefistófeles, no qual entrega a sua alma ao demónio em troca do domínio pleno da técnica e do conhecimento, tem sido reinterpretado ao longo dos séculos, seja através da literatura, pintura, teatro ou cinema. Goethe imortalizou aquela lenda alemã e, provavelmente, a ele se deve o facto de algumas almas mais perdidas se sentirem tentadas a forjar um acordo com o Diabo para obterem, digamos, certos benefícios especiais.

 

Uma dessas almas terá pertencido a Robert Johnson, o misterioso e célebre músico de blues do Delta do Mississippi e que, em certa medida, foi o precursor do que mais tarde viria a ser o Rock&Roll e o inspirador de guitarristas como Muddy Waters, Jimi Hendrix, Eric Clapton ou Keith Richards, entre tantos outros. Johnson morreu em 1938, com apenas 27 anos, e para a posteridade deixou um conjunto de músicas gravadas em duas sessões no Texas (Novembro de 1936 e Junho de 1937). Essas gravações são uma espécie de Bíblia para quem vive a música, não apenas como entretenimento, mas como paixão, como um dos elementos da vida. Aquelas gravações contêm a alma do Delta, quer o sofrimento sentido nos campos de algodão, quer a euforia electrizante da comunidade negra nas tardes de Sábado naqueles lugarejos poeirentos perdidos nos confins do Mississippi e Lousiana.

 

Johnson tocou como ninguém, como se tivesse sido bafejado por forças do Além. E é aqui que a lenda de Robert Johnson se cruza com a de Fausto. Esta é aliás uma das histórias mais importantes do folclore da zona do Delta. Por volta de 1930, em Robinsonville, Mississippi, Robert Johnson era um “little boy”, que nem tocava mal harmónica, mas era um desastre com a guitarra, diria anos mais tarde Son House, um dos pais do blues do Delta e que conviveu com o jovem músico. Vários relatos históricos dizem, de facto, que sempre que Johnson tocava era um suplício para quem o ouvia. É por esta altura que Johnson deixa Robinsonville durante alguns meses para ir aprimorar a sua técnica com Ike Zimmerman, de quem se dizia que tocava a sua guitarra de forma sobrenatural durante as visitas nocturnas que fazia às campas dos cemitérios.

 

A lenda de Robert Johnson nasce nesta altura, aquando do seu regresso a Robinsonville meses depois, com uma técnica e domínio da guitarra inexplicáveis para tão pouco tempo de aprendizagem. Diz a lenda que nos meses em que esteve fora terá feito um pacto com o Diabo (na figura de Legba) num “crossroads” próximo da plantação de Dockery. Nunca foi possível identificar o local do encontro, havendo várias referências a uma intersecção de estradas em Clarksdale, sabendo-se apenas que terá sido num cruzamento entre quatro caminhos poeirentos no meio do nada. O encontro deu-se à meia-noite, com a chegada de um homem negro e alto ao entroncamento, que pegou na guitarra de Robert Johnson, afinou-a e tocou umas músicas. De seguida, devolve a guitarra a Johnson. Em troca da sua alma, Johnson estava agora em condições de criar e tocar os blues que lhe iriam trazer fama e glória.

 

Esta história perdurou no tempo, tendo o próprio Son House confirmado, numa entrevista mais tarde, a veracidade do pacto firmado entre Johnson e o Diabo. Ao longo dos anos muito se tem especulado sobre o maléfico encontro e as capacidades (quase sobrenaturais) de aprendizagem do guitarrista. A lenda de Robert Johnson continua a fascinar todos aqueles que vêem no blues uma música que, mais do que notas, mostra aquilo que vai na alma do seu intérprete.

 

Esta é uma das cenas do filme "Crossroads" dos anos 80, inspirado precisamente na lenda de Robert Johnson, mas numa versão mais moderna e que se tornou objecto de culto para os amantes do blues e da guitarra. Aqui, Willie Brown, um dos músicos mais importantes do Delta e que tocou com Son House, agora retratado ficticiamente numa idade já avançada, aguarda pelo Diabo no "crossroads" para poder recuperar a sua alma.  

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8 comentários

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De lucklucky a 15.01.2018 às 18:35

Sobre músicos e o Diabo há a história bem antiga de do sonho de Tartini onde o Diabo se sentou ao fundo da sua cama e lhe tocou a mais bela melodia que alguma vez ouviu.

https://www.youtube.com/watch?v=z7rxl5KsPjs


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De Vlad, o Emborcador a 15.01.2018 às 21:39

Não se esqueça da Paganini:

https://www.youtube.com/watch?v=oY9Dg-OlA3E
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De Vlad, o Emborcador a 15.01.2018 às 18:57

Agora percebo porque outrora se chamava ao jazz a música do diabo.

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De maria a 15.01.2018 às 20:10

Gostei muito, muito é dizer pouco, e gostei quer do post que li sem perder uma virgula sequer, quer da cena do filme. A cena do filme, o diálogo, fez com que a curiosidade de ver o filme seja muita. Desconhecia a lenda e não me lembro de ter ouvido falar de "Crossroads". Sempre a aprender...
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De Alexandre Guerra a 15.01.2018 às 21:11

Cara Maria, apenas mais um informação complementar. Naquela época era normal os guitarristas de blues colocarem-se nas esquinas de algumas cidades e lugares do Mississipi para chamarem a atenção dos transeuntes. Competiam entre eles, naquilo que ficou conhecido como "despique". O excelente documentário The Search for Robert Johnson fala disso. É precisamente um "despique" que o Legba propõe nesta cena. No final do filme, há um célebre despique entre o Ralph Machio e o guitarrista do Diabo interpretado por Steve Vai, o virtuoso guitarrista que ainda há um ano e tal esteve em Portugal. Aliás, foi o Steve Vai que compôs as guitarradas dos dois. São composições que fizeram história para os estudantes e entusiastas da guitarra eléctrica.
Cumprimentos,
Alexandre
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De Vlad, o Emborcador a 15.01.2018 às 21:44

Jazz Funeral procession

https://www.youtube.com/watch?v=cnoBr7kx5mQ

Música dos diabos...
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De Beatriz Santos a 15.01.2018 às 22:02

Já tinha lido a história num outro blogue. Suponho que no "escrever é triste", mas não tenho certeza. Aqui, mais pormenorizada e atractiva (as relações do humano com o divino, seja bom ou mau, cativam sempre). Não entendi se o guitarrista foi precursor ou percursor do rock.
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De Maria Dulce Fernandes a 15.01.2018 às 22:21

Entre gostar de blues e saber de blues vai um abismo de desconhecimento.
Fiquei a saber que nada sei de blues e também que "Crossroads" deve ser um excelente filme que vou procurar e seguramente encontrar num dos meus addons.
Excelente momento de leitura, música e conhecimento que nos proporcionou.

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