Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ponham-se a pau, Eça e Camões

por Pedro Correia, em 28.08.17

image[1].jpg

 

Era o que faltava à Porto Editora para se actualizar: após mais de sete décadas ao serviço da excelência do serviço público, passou a receber lições de pedagogia do poder político.

Pedagogia censória, passe o oxímoro, em nome de valores respeitáveis, como a igualdade e a liberdade. E com solene chancela oficial, que manda - utilizando o eufemismo "recomenda" - retirar duas publicações dos postos de venda. O fantasma do doutor Salazar deve emitir uns sopros irónicos lá entre os vetustos reposteiros de São Bento.

Com a diligente brigada dos bons costumes apostada em pôr multidões ordeiras e ululantes a entoar a novilíngua deste admirável mundo novo, condenando sem cuidar sequer do rigor dos factos, o vocabulário comum em democracia torna-se policiado como se vivêssemos em ditadura. E não tenhamos ilusões: esses patrulheiros não tardarão a exercer censura com carácter retrospectivo, pois só quem controla o passado é capaz de controlar o futuro. Atenção, misógino Pessoa. Toma cuidado, falocrático Eça - reles perpetuador de "estereótipos de género". Põe-te a pau, racista e islamófobo Camões.

Haja cuidadinho com as cores também. Os daltónicos, coitados, é que se tramam.

Autoria e outros dados (tags, etc)


74 comentários

Sem imagem de perfil

De G. Alves a 28.08.2017 às 12:42

De facto este país está a ficar perigoso. Será que se pode confiar naqueles que vomitam estes ditames?
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 13:13

Na dúvida, o melhor é usar-se sempre cor-de-rosa. Acho aliás que devia ser essa a nova cor das viaturas oficiais dos senhores ministros. Preto é cor misógina. Direi mesmo: falocrática.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.08.2017 às 16:15

Dos senhores ministros e das senhoras ministras, não seja machista ou vou fazer queixa á polícia do pensamento.
Sem imagem de perfil

De Jorg a 28.08.2017 às 13:41

Permita-me a crítica - "lições de pedagogia do poder politico" é demasiado eufemístico para a diligente diligência de ministro ("hélas" qualificado de adjunto ) que oferece ouvidos a uma parlapatice desenxabida de filha de um companheiro de partido e põe as "coisas á andar" com "panhache".
Estes fretes entre gentes do "Beau Monde", "adjuntados" por adjuntos do governo da nação que se comportam como amanuenses de intermitentes laicos "cleros" exorbitados pelo gerigonço "tempo novo" a parir "abades" e "abadessas" cheios de epifanias cuja frequência rivaliza com idas a "toilette" e com só trabalham em papel "couché" para a coisa, porque "glossy", aparecer séria e de "Alta-Definicão", é antes circo e muito vagar de gente que não tem grande coisa para fazer. Não são "pensadores", são comparsas d' Entretenimento de horários da manhã ou tarde, entre noticiários.

P.S: Ricardo Araújo Pereira, com quem eu raramente estou de acordo, e insuspeito de ser fidalgo da "reacção", mostrou o quanto é "much ado about nothing" este frete ministerial adjunto á filha do "camarada" - comprou os dois livros (o empregado ter-lhe-á replicado "os livros proibidos?!") e comparou-os para concluír o quanto pífio é correlacionar esta palhaçada com qualquer discussão sensata (e importante!) sobre "igualdades de género".
P.P.S. : Ontem na TV, o adjunto ministério manda para uma TV a senhora (ver link apeso), presidente (ou será "presidenta"?) explicar às maltas - afinal o problema é que os livros estão "(..) a reforçar (...) ideias que nós gostaríamos que fossem desconstruídas". Ainda me vou deliciar com a senhora a "recomendar" rever e anotar Hemingway por quaisquer Maria ou Manel Capaz....
http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2017-08-24-Nao-e-de-menor-importancia-o-tipo-de-imagens-que-transmitimos-as-nossas-criancas-1
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 14:14

Totalmente de acordo com a sua observação quanto ao RAP. Neste caso foi ele, humorista, a funcionar como jornalista. Pegou nas publicações, leu-as com atenção e formulou juízos próprios, assentes em factos - não em suspeitas ou boatos.
Isto revela até que ponto o jornalismo português está degradado.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 28.08.2017 às 13:55

Cambada de carneirinhos, a replicar notícias sem sequer ir à fonte. Depois cobrem-se de ridículo.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 14:10

Isto acontece, Teresa, porque os jornalistas deixaram de cumprir o essencial da sua missão: ir às fontes, verificar os factos.
Agora o que está a dar é a notícia com base no "parece que" e no "ouvir dizer". Correr atrás da primeira bacorada posta a circular numa rede social.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 28.08.2017 às 14:44

Caro Pedro Correia. Muito boa tarde. Não foi devido a mais esta cena que ando preocupado com muitas coisas que persistem no meu País. Permita breves exemplos. Em muitas farmácias, as caixas de medicamentos chegam ás mãos do farmaceutico como que expelidas, chegam de um tubo, o que me remete para qualquer coisa.......digamos, nojenta, ainda que existindo na natureza humana......Outro caso, marcadores, para lá de virem em muitas cores quando deviam ter uma cor neutra e a letras pequeninas indicando, azul, preto, vermelho etc, alguns têm um inacreditável simbolismo masculino - Stabilo Boss! Inacreditável. Isto para já não falar na vergonhosa organização de corredores e prateleiras de supermercados (e onde estão as supermercadas com prateleiros?), ou na pouca vergonha das lojas de roupas com separação de indumentárias para os géneros e idades. Uma vergonha escandalosa. Mas não há que perder a esperança. Creio estar quase a convencer o presidente da junta de freguesia aqui na aldeia a, retirar os urinóis e substitui-los por sanitas, retirar a vulgar e ordinária sinalética e substituir por indicação genérica - casas de banho comuns!
Além disso, e isso deixa-me muito contente, parece que ele vai publicar um edital com coimas para os donos de canídeos que se atrevam a levantar a perna para urinar, todos têm que se agachar. Aliás, para condizer com a generalidade que se vai agachando por tudo e por nada. Eu não me agacho, apenas porque me dói a coluna vertebral, mal que não atinge os que têm cartilagem em vez de vértebras. Cumprimentos.
António Cabral
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 15:00

Abaixo os urinóis, esses utensílios falocêntricos que perpetuam estereótipos de género.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 28.08.2017 às 14:46

Por alguma razão, a lista de avençados do BES nunca foi divulgada. Seria chato ficar a saber quantos pseudo-jornalitas não passam de paus mandados de interesses instalados.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 14:59

Cuidado com as discriminações de género.

avençados/avençadas
mandados/mandadas
instalados/instaladas
Sem imagem de perfil

De assunção arrabites a 28.08.2017 às 15:06

não sei se têm filhos, um rapaz e uma rapariga, se os tem gostaria de saber se dava o livro da Porto Editora de que se fala das meninas ao seu filho, ou vice-versa, tenham mas é juízo pois não quero ver esta editora ou outra a pedir dinheiro por má gestão, o governo fez bem e ponto final, à que virar a pagina do livro
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 16:26

Qualquer candidato a censor adora apregoar "juízo" ao comum dos mortais.
"O governo fez bem e ponto final" é uma frase que Salazar subscreveria.
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 28.08.2017 às 16:37

E mai nada!!!
Sem imagem de perfil

De Costa a 28.08.2017 às 18:27

"Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma". Cito de memória, mas julgo não errar na fórmula. E como está actual...

Costa
Sem imagem de perfil

De Costa a 29.08.2017 às 08:53

Precisamente, precisamente. A ver, pelos apoiantes da geringonça. Caso se queiram dar ao trabalho de pensar.

Costa
Sem imagem de perfil

De assunção arrabites a 08.09.2017 às 17:14

o salazar tambem dizia ao teu comentário "és um Asno" deixa lá o salazar em paz que já morreu faz muitos anos.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 08.09.2017 às 17:18

Já aprendeste a soletrar Kim Jon-un, camaradinha?
Imagem de perfil

De Psicogata a 28.08.2017 às 15:11

Tanto alvoroço por tão pouco, estes casos súbitos de histerismo coletivo são o melhor exemplo da hipocrisia e da falsa moralidade da sociedade em que vivemos, exaltam-se por causa de livros de exercícios e encolhem os ombros a propostas de emprego discriminatórias e ultrajantes. Um verdadeiro espelho dos nossos dias, onde só se reclama daquilo que é moda reclamar.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 15:18

É tão verdade isso, Psicogata...
Imagem de perfil

De Psicogata a 28.08.2017 às 15:20

Sinto vergonha alheia por estas situações.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 16:23

E no entanto nem é preciso sair desta mesma caixa de comentários para deparar com pelo menos um desses exemplos de "histerismo colectivo"...
Imagem de perfil

De Psicogata a 28.08.2017 às 16:45

Claro que não é preciso ir longe, o meu blog bem menos conhecido que o Delito de Opinião, sempre que tem a honra de ser divulgado pelo portal Sapo é invadido por exemplos desses.
Muitas vezes leio os posts destacados para depois ler os comentários, são um excelente objeto de estudo social.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 23:04

Daria um excelente estudo, sim. Há sempre gente disposta a defender o indefensável.
Imagem de perfil

De Edmundo Gonçalves a 28.08.2017 às 16:00

Olha, já tive oportunidade de escrever algo sobre o tema.
Não tão incisivo como este teu postal, Pedro, mas que reflecte o que penso sobre o assunto.
Com a tua permissão, aqui vai o link: http://seainessabedisto.blogs.sapo.pt/e-pro-menino-e-pra-menina-81040
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 16:22

Escreveste bem, Edmundo.
Sublinho este trecho: « O que me incomoda nesta onda do politicamente correcto é que se seja tão fundamentalista que um dia destes temos uma sociedade composta apenas por hermafroditas.»
Todas as ideologias têm os seus fundamentalismos. A ideologia de género não foge à regra. O que não se compreende de todo - nem pode aceitar-se - é que um ministro "recomende" a retirada de livros do mercado, a reboque precisamente de meia dúzia de fundamentalistas vociferantes nas redes sociais.
Num mercado onde o repulsivo 'Mein Kampf', do Hitler, está em exposição em qualquer livraria, alguém se lembrou de abrir fogo contra duas inócuas publicações da prestigiada Porto Editora.
Fica aberto um péssimo precedente em democracia.
Imagem de perfil

De Edmundo Gonçalves a 28.08.2017 às 16:24

E eu sublinho o teu último parágrafo, Pedro!
O que posso dizer é que é lamentável.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 16:33

E atenção a esses títulos politicamente incorrectos, Edmundo:
"É p’ró menino e p’rá menina"
Os/as patrulheiros/as não toleram essa fuga ao uniforme.
Sem imagem de perfil

De Costa a 28.08.2017 às 18:38

Eu diria que há aqui cristalina coerência. A Porto Editora, desde o primeiro momento, uma espécie de impiedosa tropa de assalto da blitzkrieg do acordês, demonstra a sua completa obediência acrítica à hierarquia do regime que recusa tocar nessa obscenidade.

Costa
Imagem de perfil

De Rui Herbon a 28.08.2017 às 16:00

Mal vão o jornalismo e a democracia quando dependemos de um humorista para nos dar factos em vez de enganos propositadamente (não tenho dúvidas) urdidos.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 16:11

É isso, Rui. Chocante mesmo.
Imagem de perfil

De CFHM a 28.08.2017 às 16:22

Qualquer dia escolhem-nos os livros para ler. Os livros para comprar. Até tenho medo se saber quais serão, quando as palavras são tidas de forma tão literal, quando a mensagem principal é atropelada, quando livros como o «Mataram a cotovia» são considerados desaconselhados por conter uma palavra que, no contexto, denuncia o racismo. Quando um livro de Valter Hugo Mãe é alvo de polémica por uma página ou duas.
Assusta-me que se recomende a subtração de livros, mas arrepia-me a quantidade de pessoas que, sob a alçada da liberdade de expressão, abertamente concorda.

E lá está, nem vamos falar de cores, qualquer diz dizem-me que, por ser mulher, não posso preferir o rosa ao azul.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 16:36

Sublinho estas suas palavras, Cátia:
«Assusta-me que se recomende a subtracção de livros, mas arrepia-me a quantidade de pessoas que, sob a alçada da liberdade de expressão, abertamente concorda.»
De recuo em recuo, vamos tolerando e até aplaudindo contínuas supressões da liberdade individual em nome de uma suposta cartilha colectiva.
Imagem de perfil

De CFHM a 28.08.2017 às 17:00

Falta pouco para pensar ser pecado. Falta pouco para que se aplauda a esta conclusão. São demasiadas as pessoas que falam sem refletir.
Estive uns dias a digerir o tema destes livros. Há tanto para dizer e ao fim ao cabo tão pouco que se consiga explicar a quem não quer entender.
Escrevi sobre o tema, ou se calhar algaraviei sobre o tema. A minha abordagem é mais humorística, mais irónica, porque a mim, face ao que ouvi, enquanto mulher e enquanto mãe de um rapaz, enquanto pessoa que assume ser de um género, que quer manter o seu género, ainda que procure igualdade de direitos (coisas que as pessoas tantas vezes confundem); resta rir para não chorar.
Deixo-lhe aqui o link do meu texto e faço notar que, se entender ler, não pode esperar a qualidade da sua escrita Pedro:
http://embuscadafelicidade.blogs.sapo.pt/o-mundo-em-formato-unissexo-ou-melhor-230476
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 28.08.2017 às 23:08

Muito bem, Cátia. O meu aplauso.

Comentar post


Pág. 1/2





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D