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Perspectivas

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.01.17

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(Doug Mills, The New York Times) 

"A bill decriminalizing domestic violence passed its first reading of the Duma on Wednesday, with 368 votes in its favor (one parliamentarian voted against it, and one abstained). Should the bill pass its second reading, now under preparation, domestic violence will only be a criminal offense if it’s considered an act of “hooliganism” or borne out of hatred."

 

Com as audições de ontem em Capitol Hill, em especial com as respostas dadas a Marco Rubio por mais uma das bizarras escolhas de Donald Trump para a sua equipa governativa, Rex Tillerson, o presidente e ex-CEO da Exxon Mobil Corporation, ficou ainda mais patente a impreparação, o comprometimento e a incompetência do escolhido para o cargo de Secretário de Estado, assim como a falta de senso de quem o indicou. Até um canal como a Fox News esclareceu os seus telespectadores que Rubio "grelhou" (sic) Tillerson. De facto, Tillerson revelou-se incapaz de dar as respostas que todos os estado-unidenses esperavam ouvir, nomeadamente quanto à futura relação com os russos, e deixou no ar muitas dúvidas sobre a futura mancebia da Casa Branca com a Rússia.

Rússia onde, por seu turno, a Duma se prepara para descriminalizar a violência doméstica, dando assim mais um passo  em direcção à idade das trevas e elementos acrescidos para o estudo do "putinismo".

Se os deputados da Duma e Putin consideram normal que as mulheres russas, as suas próprias mulheres, levem uns estaladões e uns abanões entre uns tragos de vodka nos intervalos do jogos de hóquei no gelo, desde que esse comportamento não seja interpretado como um acto de holiganismo, no ar ficará a dúvida sobre o modo como interpretarão a violência que seja exercida pelos militares e ocupantes russos sobre os "estrangeiros" e as mulheres dos outros em cenários de guerra, ocupação militar ou conflito latente, como por exemplo na Síria, na Crimeia, na Chechénia ou na Geórgia.

É claro que a preocupação de Donald Trump em matéria de conflitos de interesses ou direitos humanos é igual a zero. Como é também a de Putin, comprovada ainda recentemente no aprofundamento da sua relação com as Filipinas de Duterte, onde é o próprio presidente quem estimula uma justiça tribal contra traficantes de droga, consumidores, simples suspeitos ou qualquer cidadão que se incompatibilize com o vizinho por causa das galinhas e seja por este denunciado e morto à paulada como potencial traficante.

A Rússia prepara-se, e já mostrou toda a sua disponibilidade, para vender submarinos, aviões, tanques e armas pesadas e ligeiras a Manila. Os seus almirantes são recebidos pelo Presidente Duterte, o qual lhes deu as boas-vindas e disse que ali os militares russos serão sempre bem recebidos, podendo lá ir quando quiserem e muitas vezes com os seus vasos de guerra, nem que fosse só para "se divertirem", convite enfatizado pelo Presidente das Filipinas entre gargalhadas. Afigura-se, pois, como previsível um aumento da circulação de panças e de rublos em Makati e na infame Mabini Street, onde desaguam as adolescentes filipinas que fogem da miséria no interior e vão em busca de melhores condições de vida na capital, gente que perante o convite de Duterte aos militares, depois de ter estado ao serviço da satisfação das pulsões e bebedeiras dos tropas dos EUA estacionados em Subic Bay, poderá agora passar a servir de objecto de divertimento da armada russa com o beneplácito presidencial. 

Enquanto nos EUA o presidente eleito dá uma conferência de imprensa surreal, de tal forma que o antigo campeão mundial de xadrez Gary Kasparov afirmou que o que por lá aconteceu lhe fazia lembrar as conferências de imprensa de Putin, na Europa, que acabou de perder Zygmunt Bauman, aguarda-se o resultado do Brexit e teme-se pelo que sairá das eleições que aí vêm em França, na Holanda e na Alemanha. Ou pelo que irá acontecer durante 2017 em Israel, na Síria, no Irão, na Turquia, na África subsariana e na bacia do Chade, no Congo, no Brasil, na Venezuela, na Birmânia ou na Argentina, ou, ainda, o que sucederá com aquele urso esquizofrénico da península coreana.

O que actualmente se passa em Washington e Moscovo não pode deixar de nos levar a questionarmo-nos sobre a sanidade e seriedade desta gente que se prepara para tomar conta do mundo à custa da liberdade, da democracia, do respeito e da tolerância para com o outro. E, em especial, sobre aquele que tem sido o trabalho das elites mundiais para a sua defesa, bem como da paz e dos padrões civilizacionais que pelos menos desde o pós-II Guerra se tem procurado preservar.

As perspectivas de dentro de alguns meses o mundo ser dominado por ignorantes misóginos, mais preocupados com os vídeos que possam aparecer com as suas proezas sexuais do que com a paz mundial, por mentirosos, líderes religiosos ortodoxos, corruptos, ditadores autocráticos ou simples mentecaptos são hoje bastante elevadas e colocam já o último discurso de Obama proferido em Chicago numa espécie de museu da civilização.

Não admira que com este cenário Charles M. Blow escrevesse ontem no New York Times que ao escutar o discurso de despedida tivesse sido tocado pelo violentíssimo golpe de decência e dignidade, solenidade e esplendor, sobriedade e literacia que Obama trouxe consigo para o exercício da função presidencial, o que em seu entender será de tal forma anómalo e extraordinário que cada geração só pode aspirar a ter isso uma única vez num presidente.

o que Obama fez em matéria ambiental já o guindaria a um lugar único na história dos EUA, mas saber que se vai embora e nos vai deixar a todos entregues a essa fauna que se perfila no horizonte não é coisa que nos tranquilize.

Não quero aqui assustar ninguém, mas apenas recordar que este cenário reforça a expectativa no trabalho do novo secretário-geral das Nações Unidas. Estará, pois, na hora de António Guterres, lá no seu pedestal de Nova Iorque, se quiser com a ajuda do padre Melícias e das suas orações, isso é lá com ele, nos mostrar que Deus ainda existe. E que não dorme.

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17 comentários

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De Luís Lavoura a 12.01.2017 às 09:33

Muito pior do que a Rússia vender armas às Filipinas, país que não faz mal a ninguém, é os EUA e o RU venderem armas à Arábia Saudita, país que leva a cabo uma nojenta guerra no Iémen, para além de fornecer um saudável apoio aos extremistas islâmicos na Síria.
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De Delirium tremens a 12.01.2017 às 10:44

O exemplo do Presidente das Filipinas, país que não faz mal a ninguém:

"Fiquei furioso por ela ter sido violada, mas era tão bonita. Pensei que o presidente da câmara deveria ter sido o primeiro [a violá-la]", disse.

Hitler massacrou três milhões de judeus. Agora, há aqui três milhões de viciados. Gostaria de matá-los a todos”


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De Luís Lavoura a 12.01.2017 às 09:34

Se as adolescentes filipinas vão para Manila procurar melhorar a sua vida, e se o meio para a melhorarem passar pelos militares russos (ou americanos, ou seja quais forem), pois tanto melhor para elas que esses militares estejam disponíveis. Mais vale viver a prostituir-se a militares russos do que morrer de inanição.
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De Delirium tremens a 12.01.2017 às 10:23

"Mais vale viver a prostituir-se a militares russos do que morrer de inanição"

Se a sua filha, sobrinha, prima, um dia lhe vier pedir conselho, pois não arranja pão, o Luís não terá pejo em lhe dizer, carinhosamente e de mão no ombro:

Já pensaste em seres puta?

Aliás se dia houver em que o Luís não tenha sustento, como pode suceder a qualquer um de nós, imagino que não terá nenhum problema em matar pois afinal o que importa é estar vivo.

Mais importante que a Vida é a modo que escolhemos para nos mantermos vivos. Em verdade, em bondade, na honra. Essa honra que temos dentro e que nos manterá sempre livres de sermos quem somos. Que nos distingue do verme. Desse verme que apenas quer manter-se vivo.
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De Delirium tremens a 12.01.2017 às 10:06

Muitos vêm no presidente Trump a vitória de um homem politicamente incorreto, que diz o que pensa, não se importando com as convenções vigentes da hipocrisia do politicamente correcto.

Pessoalmente julgo-o como alguém que diz demais e pensa de menos. Ou seja alguém com grandes probabilidades de errar. Alguém sem sentido de Estado, ou Ética Republicana (compare-se com o discurso de despedida de Obama. Esse foi Sublime, Pastoral. Humano).

Apesar de nos primeiros dias Trump, nas conferências que deu, ter sido um pouco mais moderado nos comentários, voltou ontem, noutra conferência de imprensa, a demonstrar a sua impreparação total para o cargo que ocupa, assemelhando-se não a um presidente da uma das democracias republicanas mais antigas do mundo, mas sim de um qualquer pais sul americano ditatorial.

Trump assemelha-se a um miúdo mimado do quero, posso e mando. A politica de Trump será uma politica de força, coação, intolerância. Trump não é assim nem democrata, nem republicano. Trump não é o Presidente dos EUA. É o seu patrão.

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De tiago a 13.01.2017 às 15:55

Diz-se que o discurso do Presidente Obama foi directamente inspirado por Deus.
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De Vento a 12.01.2017 às 12:26

Ainda agora iniciámos a celebração do Natal e já duvida da existência de Deus. Para mover montanhas é necessária a fé. Não peça que Deus faça o que lhe compete.

Sobre Obama.
Obama, após o caos que se viveu com Clinton e Bush, foi o homem capaz de trazer à América os ideais que a Europa de há muitos anos soube construir. Mais, conseguiu ser alento num mundo onde a Europa, já definhada e caquética, deixou putos ainda vestidos de cueiros fazer experiências com a sociedade como se se tratasse de uma brincadeira com panelinhas lá no quarto dos fundos.
Fez uma grande obra social e na economia. Herdou uma guerra estúpida no Iraque e no Afeganistão e soube controlar os danos.
Porém, esqueceu-se da história recente e do que já não se podia fazer no futuro. Ao invés de ter apostado em Sanders ficou nas mãos de Hillary que é uma figura idêntica àqueles que, na sua grande maioria, a apoiavam pelo mundo, isto é, parecem ser o que na realidade não são.
Obama deixou marcas na história dos EUA e do mundo, apagou-as temporariamente com o apoio dado a Clinton.

Trump é um gestor agressivo. Compreendeu que as corporações financeiras e também algumas na área da indústria tinham tomado o poder no mundo, e até usavam muitos líderes eleitos como procuradores para suas estratégias. Também compreendeu a insatisfação das gentes, a morte do orgulho pátrio, a grandeza que representa para qualquer humano poder ser parte na construção do seu próprio destino, de sua família e de seus semelhantes, e ter meios para o fazer.
Portanto, sob um ponto de vista económico, Trump é o homem certo no lugar certo. Ele não pretende acabar com o care, pretende antes fazer um Trumpcare. Diz ser menos dispendioso. Deixá-lo provar que é assim.
Por um outro lado, após os garotos terem desafiado Putin na Ucrânia, a tentativa de levar o escudo anti-míssil às portas de Moscovo e tentar isolar a Rússia com a derrocada da Síria, Trump, após a legitima reacção da Rússia, compreende que o melhor cenário será o da coexistência pacífica. A alternativa seria uma guerra generalizada.

O modelo de desenvolvimento social que a Europa e os EUA da senhora Clinton pretendiam oferecer era para meninas. Porém, neste mundo também existem homens, e alguns deles com barba rija. Também têm o seu lugar na vida e na sociedade.
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De Delirium tremens a 12.01.2017 às 13:26

"Trump, após a legitima reacção da Rússia, compreende que o melhor cenário será o da coexistência pacífica"

A coexistência com Trump não será pacifica, nem empática (no sentido de compreender a justiça, ou não, da exigência do Outro)ou dialogante. Nunca será uma coexistência de compromisso, baseada na justiça. Antes será uma coexistência ganha sob a ameaça do conflito nuclear. Um compromisso assente no medo. Não no respeito, na justiça ou na legalidade.

"Compreendeu que as corporações financeiras e também algumas na área da indústria tinham tomado o poder no mundo"

E foi precisamente por isso que a Europa definhou, assim como a moralidade na politica. E é por essa gente mandar hoje que a moral deixou de ter lugar. Pois a moral, para esses senhores, não serve para nada. Não tem utilidade.
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De Vento a 12.01.2017 às 21:49

Na realidade, na guerra fria, a paz também estava na ponta do fuzil. Portanto, nada de novo debaixo do Sol. Por isso mesmo referi coexistência pacífica.

Mas a questão da paz tem outras envolvências. Se existir oportunidade referirei algumas delas.

Sim, definhou também por isso e pela acção dos referidos procuradores.

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De Vento a 13.01.2017 às 00:43

Sérgio, lembrei-me de si. Quero deixar aqui duas ligações, pois a TV Brasil vai prestar tributo a Zygmunt Bauman num programa, que será o início de uma série de 12 episódios, que irá para o ar hoje às 23H30m (hora brasileira). Poderá vê-los ao vivo na internet.

http://tvbrasil.ebc.com.br/

http://tvbrasil.ebc.com.br/noticia/2017-01-11-tv-brasil-homenageia-zygmunt-bauman-nesta-sexta-131
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De Daniel Marques a 12.01.2017 às 12:51


Foi Putin quem criminalizou pela primeira vez a violencia domestica em Julho de 2016. A revogacao de esta lei, se aprovada, nao e um passo para a idade das trevas mas simplesmente a manutencao de um status quo. Nao penso que esta situacao tenha alguma coisa a ver com Putinismo.

Durante a presidencia de Obama os EUA tiveram um dos maiores booms de produccao de petroleo o que me faz suspeitar da capacidade e influencia da presidencia nesta questao. Dificil parar o capitalismo a funcionar.
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De Anónimo a 12.01.2017 às 16:18

Trump é um produto do politicamente correto (que é humanamente muito incorreto).
Por reação.
Representa tudo aquilo que os americanos sabem que não querem.
Mas será que sabem se Trump é o que querem?
João de Brito
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De lucklucky a 12.01.2017 às 21:01

Só o comentário sobre o venal Obama é suficente para perceber o mundo virtual onde o autor vive.

O resultado de Obama, o primeiro Presidente Anti-Americano é .... Donald Trump.

Obama provocou clivagens raciais e consequente aumento de crime nos EUA, Obama destruíu a confiança nos EUA em vastas áreas do Mundo provocando milhares de mortos pelo caminho. E os mortos que aí vêm com o que destruiu da capacidade de dissuasão dos EUA.


Mas claro quando as fontes de informação é o jornalismo neo-marxista não se pode esperar mais, temos a asneira em ponto grande quando o mundo acelera.

E claro temos a esperada vaidade pelo miserável discurso de Obama, já os discursos de Obama sobre redlines não contam não é?
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De Octávio dos Santos a 12.01.2017 às 21:33

«Muitas dúvidas sobre a futura mancebia da Casa Branca com a Rússia»?

Mas quem é que em 2012 garantiu a Vladimir Putin que, se e depois de ser reeleito, teria mais «flexibilidade» (e assim como que «autorizando» a posterior invasão da Ucrânia e anexação da Crimeia)? Foi Donald Trump?

«A preocupação de Donald Trump em matéria de conflitos de interesses ou direitos humanos é igual a zero»?

Agradeço a indicação de ligações para fontes informativas credíveis que demonstrem esta afirmação.

«Só o que Obama fez em matéria ambiental já o guindaria a um lugar único na história dos EUA»?

Sem dúvida: condicionou praticamente toda a actuação do governo federal a uma fraude - «aquecimento global» - e considerou-a uma prioridade maior do que o terrorismo islâmico.

Definitivamente, há adultos tão crédulos que se diria continuarem a ser crianças. Se assustam alguém é só pela parvoíce.
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De zé p. a 13.01.2017 às 15:52

Li com um crescente espanto até que me lembrei que o autor é este: https://www.youtube.com/watch?v=J_nG9IYQwyk
Tudo bate certo.
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De Sérgio de Almeida Correia a 13.01.2017 às 19:13

E o espanto deriva de quê?
O que tem uma coisa a ver com a outra?
Há aldrabões e aldrabilhas. E quem compra castanhas assadas ... sujeita-se ao que lhe põem no pacote.

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