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Penso rápido (85)

por Pedro Correia, em 09.08.17

Os 222 milhões de euros pagos pelo Paris Saint-Germain (nome de santo ironicamente patrocinado por um país islâmico) para desviar Neymar do Barcelona cavam ainda mais fundo o fosso que separa o futebol enquanto actividade económica da genuína competição desportiva: deixaram de ser mundos complementares para se tornarem realidades antagónicas.
Este inédito montante adultera os princípios de transparência do mercado desportivo cotado em bolsa e transforma os jogadores em mera mercadoria à mercê dos capitães da fortuna fácil. Desde logo, parece colidir com as normas da concorrência vigentes na União Europeia e as regras de fair play financeiro da UEFA: qualquer resquício de equidade evapora-se de vez quando os Estados começam a investir em força nos clubes - neste caso o do Catar, com base nos seus lucros petrolíferos. E provoca um sério choque inflacionário na indústria do futebol: os preços vão disparar, a espiral da dívida aumentará em flecha, avizinham-se as mais desvairadas loucuras financeiras no horizonte.
Convém entretanto seguir em pormenor a origem e o rasto desta verba astronómica, que faz subir para 700 milhões de euros o orçamento anual do PSG para o futebol. À atenção das autoridades jurisdicionais - do desporto e não só.
Finalmente, está por demonstrar que um único jogador - e desde logo Neymar, com desempenho em campo inferior a Cristiano Ronaldo ou Messi - justifique estas cifras galácticas. O dinheiro pago por ele para o transformar em emblema de um clube sem tradição na alta-roda do futebol duplica o seu justo valor, nada tendo a ver com genuínos "preços de mercado". 
Ao dar este passo, o futebol de alta competição transforma-se num jogo de fortuna e azar - uma espécie de roleta russa para usufruto de caprichos milionários. O desporto, digam o que disserem, nada tem a ver com isto.

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6 comentários

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De Pedro Correia a 09.08.2017 às 14:54

Não percebeu o essencial do meu texto, que critica não a economia de mercado mas a sua perversão, ditada nomeadamente pela contaminação dos negócios pela política. E que conduz a situações de abuso da posição dominante, pervertendo a concorrência limpa que enquadra as competições desportivas e violando muito provavelmente as normas de 'fair play' financeiro da UEFA.
Aqui tudo tresanda a política. Desde logo pelo facto de o PSG ser propriedade da Autoridade do Investimento do Catar - um fundo soberano que pertence ao Governo do emirado. De resto, o presidente do clube parisiense é uma figura muito próxima do próprio emir.
Esta operação financeira paga pelos petrodólares de um regime pouco ou nada liberal é afinal uma das componentes da mega-operação de propaganda que culminará com o Mundial de Futebol de 2022, a realizar no Catar. Outras irão seguir-se, certamente tão pouco recomendáveis como esta.

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