Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Penso rápido (23)

por Pedro Correia, em 13.07.14

Mania tão nossa esta, muito nossa, de alterar os nomes às coisas. Como sucedeu com Uma Agulha no Palheiro, de Salinger, entretanto crismada com um título horrível, À Espera no Centeio. E com a já clássica Cabra-Cega de Roger Vailland, que passou a um insípido Jogo Curioso. Ou - pior ainda - com o magnífico Monte dos Vendavais, de Emily Bronte, transformado, sucessivamente e estupidamente, em O Monte dos Ventos Uivantes e O Alto dos Vendavais.
Ou até com uma obra de Agatha Christie, Ten Little Niggers, que já mereceu entre nós títulos tão diversos como Convite para a Morte e As Dez Figuras Negras. Se fosse hoje, Citizen Kane, de Orson Welles, seria distinguido como Cidadão Kane a título português, em obediência à rígida normal da tradução literal: O Mundo a Seus Pés, o excelente nome que recebeu na época entre nós, seria banido. E Tudo o Vento Levou - título poético como poucos - passaria a Levad@ pelo Vento, em obediência à estrita versão original (Gone With the Wind) e às novas convenções de género neutro impostas pela correcção política.

Mania de mudar por mudar. E para pior.

Autoria e outros dados (tags, etc)


8 comentários

Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 13.07.2014 às 20:09

Eu sou suspeita a comentar sobre traduções. Acho que estamos muito mal servidos de tradutores e os que temos sabem pouco acerca dos idiomas que traduzem e das suas subsequentes expressões idiomáticas, que não podem de modo algum ser tradutíveis à letra, como acontece nas empresas mercantilistas de traduções em série. É completamente laisser faire laisser passer.
Nunca concordei que os nomes próprios tivessem que ser reduzidos à sonoridade e pronuncia de outra língua. Odiava que a minha professora de inglês ( uma excelente educadora) me chamasse Dâlci, por exemplo.
Não posso estar mais de acordo com tudo o que o Pedro escreveu.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.07.2014 às 11:37

A tradução (sei por experiência própria) é uma actividade incompreendida e mal remunerada. Há felizmente boas e notórias excepções, mas muitas vezes as traduções ficam a cargo de quem não tem preparação para o efeito. Não falo em termos estritamente técnicos, mas estéticos, literários. Como bem diz, traduzir uma obra literária exige mais do que sólidos rudimentos linguísticos: exige também uma adequada preparação literária. Que transcenda a simples tradução literal. Para não vermos a expressão idiomática "it's raining cats and dogs" traduzida por "chovem gatos e cães".
Não por acaso, durante décadas algumas das mais celebradas traduções em Portugal estiveram a cargo de conceituados escritores. E nem preciso referir o exemplo já histórico de Eça de Queirós, tradutor d' As Minas de Salomão. Basta mencionar - no século XX - Rodrigues Miguéis, Casais Monteiro, Jorge de Sena Saramago e Cardoso Pires.
Sem imagem de perfil

De jo a 14.07.2014 às 16:25

Mudar os nomes sempre ajuda a vender.
Já me aconteceu comprar duas traduções do mesmo livro que foram editadas com nomes diferentes.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 14.07.2014 às 16:34

Não tinha pensado nisso. E, agora que pensei, ainda estou mais contra esta estúpida tendência de alterar nomes já consagrados.
Imagem de perfil

De João Paulo Palha a 14.07.2014 às 20:00


O problema, caro Pedro, parece-me estar no regime jurídico de protecção dos direitos de autor, ao qual estão sujeitos os títulos, como decorre do artº4º do respectivo código. Salvas as excepções formuladas no nº 2 do mesmo artigo, a protecção da obra é extensível ao título, desde que este seja original e não possa confundir-se com o título de qualquer outra obra do mesmo género de outro autor anteriormente divulgada ou publicada. O acréscimo de originalidade, já que marca mais a tradução pela qual a obra é conhecida e não oferecerá dúvidas quanto ao reconhecimento dos direitos autorais, será assim inimigo da estabilidade a que se refere. Wuthering Heights por O Monte dos Vendavais é suficientemente original para que o autor da tradução reclame a protecção ao abrigo da disciplina dos direitos de autor. The Catcher in the Rye por Uma Agulha no Palheiro é, também, talvez, de uma grande originalidade, sendo difícil admitir a possibilidade de não se tratar, no espírito da lei, de uma criação passível de protecção. O “talvez” que usei deriva do facto de existir já um romance de Camilo intitulado Agulha em Palheiro, o que me faz levantar algumas dúvidas sobre essa originalidade. Para não falar no "Monkey Business", dos Irmãos Marx, que, no nosso país, também foi traduzido por "Agulha em Palheiro".
Repare, ainda, num exemplo mais radical. O clássico “negro” de Horace McCoy “They Shoot Horses Don’t They?” teve a tradução portuguesa “Os Cavalos Também Se Abatem”. É difícil imaginar algo mais original, principalmente se notarmos que o autor conseguiu, mantendo com rigor o sentido do título em inglês, empregar uma fase afirmativa para traduzir uma interrogativa. E já que estamos no “negro”, o que dizer de “ The Postman Allways Rings Twice”, de James M. Cain, que, na edição da Colecção Miniatura, foi traduzido por “ O Destino Bate à Porta”?. Que eu conheça, há dois filmes com argumento baseado nesta obra, um, dos anos 40, de Tay Garnett, com Lana Turner e John Garfield, cujo título em português é também “O Destino Bate à Porta”, e outro, mais recente, de Bob Raffelson, com Jessica Lange e Jack Nicholson, mais conhecido actualmente, ao que suponho, a que foi dado o título português “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”. Principalmente no primeiro caso, o título, goste-se ou não – eu não gosto mesmo nada – preenche os requisitos legais, pelo que, enquanto o mesmo não cair no domínio público, será muito difícil negar ao autor a protecção que o Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos lhe confere.
A consequência desta protecção é que o autor da tradução, como qualquer autor, passa, entre mais direitos, patrimoniais e morais, a ter o de autorizar ou negar a autorização para a utilização da sua obra. Nos casos que menciona, a par de outras razões concebíveis – não conheço o meio editorial, não podendo, por isso, pronunciar-me – é possível que as editoras não tenham chegado a acordo com os titulares dos direitos, ou seja, os autores das traduções, pelo que, sem a autorização destes, lhes terá ficado vedada a utilização dos títulos de que fala.
Não posso ter a certeza, já que não conheço todos as circunstâncias, mas parece-me que poderá radicar nesta questão o problema a que se refere. Poderemos contestar a legislação relativa aos direitos de autor e considerar, como acontece comigo - embora seja praticamente leigo na matéria - que estes, nalguns aspectos, conferem uma protecção excessivamente generosa ou, mesmo, incompreensível. Mas, enquanto o enquadramento jurídico a que muito sinteticamente me referi estiver em vigor, será difícil contestar situações como as que relata. Muito mais ainda, se tivermos em conta que grande parte desta matéria se encontra disciplinada a nível do ordenamento jurídico europeu.
Um abraço,
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.07.2014 às 17:12

Caro João Paulo,

Muito lhe agradeço o seu contributo, pela informação que nos traz. É bem provável que a resposta à questão que aqui foco tenha justificação, cabal ou parcial, na protecção jurídica dos títulos "especiais". Confesso que desconhecia este pormenor, mas faz sentido que seja assim.
Entre outros exemplos, menciona o clássico de Horace McCoy “They Shoot Horses Don’t They?” que em português (livro e filme) originou o título muito pouco (ou nada) literal 'Os Cavalos Também se Abatem'.
Fez-me lembrar um outro caso, que se tornou clássico, passado com a tradução portuguesa do clássico de Hemingway 'For Whom the Bell Tolls'. Encarregou-se dela - com direitos extensivos a Portugal - o célebre escritor brasileiro Monteiro Lobato que decidiu adulterar ligeiramente o original, porventura devido a uma compreensível ilusão de óptica: onde estava 'bell tolls' ele leu 'bells toll'.
E ficou portanto, desde o início dos anos 40 até hoje, no nosso idioma, 'Por Quem os Sinos Dobram'. Quando a tradução correcta seria 'Por Quem o Sino Dobra'.
Mas passou assim, sem que ninguém corrigisse o que viera da pena do escritor-tradutor. E tornou-se até numa espécie de expressão idiomática que muitos utilizam fora do contexto da obra. Até porque, tanto quanto sei, não existe nenhuma outra tradução deste romance para português.

Um abraço.
Imagem de perfil

De João Paulo Palha a 14.07.2014 às 23:13

Caro Pedro, esqueci-me, no meu comentário, de aludir a uma circunstância sem o conhecimento da qual as considerações que efectuei correm o risco de fazer menos sentido. Refiro-me ao facto de, em conformidade com a lei aplicável, as traduções serem equiparadas a originais, estando, portanto, sujeitas à mesma disciplina - quanto à questão do título, aquela que procurei muito rapidamente descrever.
Um abraço
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.07.2014 às 17:15

Pois, João Paulo, estava subjacente. Mas fica mais claro ainda com esta precisão.
Abraço.

Comentar post



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D