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Outra vez a Feira

por Pedro Correia, em 08.06.14

 

Faz agora um ano, frequentei a Feira numa perspectiva diferente: como autor. Promovendo e autografando o meu próprio livro. Desta vez volto a calcorrear as alamedas do Parque Eduardo VII, novamente juncadas de pavilhões, apenas na qualidade de leitor. Revivendo um fascínio antigo, que vem dos confins da adolescência, por este mesmo certame - agora na 84ª edição.

Feira do Livro de Lisboa: ocasião única para escritores e leitores conviverem no mesmo espaço.

Neste aspecto, a tradição ainda é o que era. Ontem regressei lá: a tarde estava soalheira, havia imensa gente. Folheando títulos, bebendo café, conversando com amigos, transportando bebés, algumas carregadas com sacos, outras de mãos a abanar. Mas todos os caminhos, por esta altura, voltam a dar ao Parque.

 

No espaço Leya, autêntica feira VIP das letras lusófonas: os utentes de literatura acotovelam-se em busca de mais um livro, à cata de um novo autógrafo. Lá estão Mia Couto, Gonçalo M. Tavares, Pepetela, Nuno Júdice, Inês Pedrosa, Maria do Rosário Pedreira, Gabriela Ruivo Trindade. Duas japonesas, derramando sorrisos, parecem idolatrar António Lobo Antunes como se estivessem perante um astro de Hollywood, Clint Eastwood recém-regressado de Madison County ao volante de um Gran Torino.

Há editoras de que gosto muito, outras nem por isso. Entre as primeiras, destaco a Guerra & Paz (et pour cause), a Gradiva, a Cavalo de Ferro, a Antígona, a Relógio d'Água, a Bizâncio e a Tinta da China. Entre as segundas, aquelas que abraçaram com mais entusiasmo o acordês, como a Caminho, a D. Quixote e a Civilização - esta última dói-me ainda mais porque chegou a ser uma das minhas favoritas (um dia falarei disso aqui).

Um senhor do Círculo de Leitores pretende oferecer-me a revista na esperança de que me torne cliente. Já fui, deixei de ser. Explico ao senhor: enquanto mutilarem consoantes ao sabor de conveniências políticas de ocasião não voltarão a contar comigo.

 

Nem só de livros vive o homem: o pão também faz falta. Este ano a Feira está mais bem servida de comes e bebes, com amostras de produtos regionais - da ginjinha de Óbidos aos pregos com carne mertolenga.

Cumprimento Francisco Louçã, que sobe em passada larga: custa-me ver tantos políticos competentes, à esquerda e à direita, contentarem-se hoje em dia com as mensagens que vão predicando nas tribunas televisivas. É o caso do fundador do Bloco de Esquerda, um dos melhores deputados de que me recordo em São Bento.

Mais escritores, de diversos géneros: Ana Maria Magalhães, Nuno Costa Santos, Onésimo Teotónio Almeida. Revejo o professor Galopim de Carvalho. Mário Mesquita apresenta um livro com o padre António Rego ao lado. José Gil, acompanhado do editor Francisco Vale, aguarda caçadores de autógrafos. Também Paulo Morais, da associação Transparência e Integridade. Eduardo Lourenço, com os seus joviais 91 anos, muito cumprimentado por quem passa.

 

 

O que trago?

Ensaios Escolhidos, de Virginia Woolf (Relógio d'Água, 2014). O Pátio Maldito - novela de Ivo Andric, Nobel da Literatura 1961 (Cavalo de Ferro, 2008). O Visitante Real - romance de Henrik Pontoppidan - Nobel da Literatura 1917 (Diário de Notícias, 2004). Em Queda Livre - romance de William Golding, Nobel da Literatura 1983 (Texto, 2008). Filhos e Amantes - romance de D. H. Lawrence com tradução de Cabral do Nascimento (Público, 2011). A História não Acaba Aqui - textos políticos de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor, 2012). E Puedo Prometer y Prometo, de Fernando Ónega - biografia de Adolfo Suárez, um dos políticos que mais admirei desde sempre (Plaza Janés, 2013). Além de vários exemplares da inesquecível revista Tintin que descubro no pavilhão de um alfarrabista. Regressando por momentos a alguns dos melhores dias da minha infância.

Vejo dondocas mirando as demais com estudado desdém do topo desses himalaias do calçado que são os saltos-agulha: não cesso de me espantar com os milagres de equilíbrio operados por estas donzelas cuja obsessão pela elegância as leva a tratar tão mal os próprios pés. Um velhote risonho diz para uma jovem: "Eu, com a minha mulher, a dançar a valsa e o tango, ganhávamos os prémios todos."

 

A Feira de ontem, a Feira de hoje, a Feira de sempre. Um dos momentos do ano em que sinto até que ponto Lisboa pode ser uma cidade feliz.

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18 comentários

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De Anónimo a 08.06.2014 às 13:27

Foi bom passear pela Feira na sua companhia, Pedro.
E que belas compras!
Desconheço completamente esse Nobel de 1917. No fim do Verão contabilizamos os autores lidos, ok?
Será que o Miguel já comprou o Platero?
Antonieta
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De Pedro Correia a 08.06.2014 às 13:37

Boa ideia, Antonieta. No final do Verão faremos novas comparações.
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De Maria Dulce Fernandes a 08.06.2014 às 13:30

Está combinado ir hoje, mal saia da Guerra.
Excelentes , todos os títulos, mas os Tintin... eu sou louquinha por BD e entre mim e o meu irmão temos uns 5 volumes de fascículos encadernados e alguns nºs em falta. Vou fazer Tintincatching no Parque.
No fim do ano passado consegui comprar os 4 volumes do 3ª testamento em bom estado. Excelente BD. Fiquei radiante.
Bom Domingo, Pedro.
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De Pedro Correia a 08.06.2014 às 13:36

Tenho a colecção quase completa do 'Tintin', mas faltam-me alguns exemplares que procuro ir reconstituindo. Sem pressa. Assim mantenho um duplo prazer: o de leitor de BD e o de coleccionador.
Também encontrei diversos exemplares do 'Cavaleiro Andante', uma revista da geração dos meus pais.
Este é o sector da Feira de que mais gosto: o dos alfarrabistas.

Bom domingo também, Dulce.
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De Mau Feitio a 08.06.2014 às 14:36

A mim chateia-me especialmente ver dondocas de saltos agulha em locais onde vai quem está doente... Quem se queixa de alguma coisa e se vai empoleirar num par de andas assim ou não se queixa de nada ou não regula bem da bola...
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De Pedro Correia a 08.06.2014 às 15:35

A mim diverte-me ver essas dondocas que não largam o salto agulha virem queixar-se depois que a culpa das quedas e entorses é da "famigerada" calçada à portuguesa.
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De M F a 08.06.2014 às 15:44

E depois aquilo é tão exagerado que a elegância do andar que proporciona fica completamente arruinada...
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De Pedro Correia a 08.06.2014 às 21:41

Calcorrear a Feira do Livro com aquilo calçado será porventura um tributo à elegância. Mas interrogo-me se não será também um tributo à estupidez.
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De Miguel R a 08.06.2014 às 15:29

Fui na terça ao final da tarde, ontem à tarde e hoje ao final da manhã. Detestei a confusão da Leya, passei autenticamente a correr, não fossem os preços tão pouco atractivos... Confesso que me desencanta ver pessoas que ali vão só para passear. Daí que tenha voltado hoje de manhã para evitar confusões e pisadelas. Quero elogiar a Relógio D' Água, aquela que mais vi com reais preços de feira, mas concordo com a lista formulada.
A minha lista: (1) «O Estrangeiro» de Albert Camus; (2) «As Vinhas da Ira» de John Steinbeck; (3) «Martín Eden» de Jack London; (4) «As Aventuras de Tom Sawyer» de Mark Twain; (5) «Fome» de Knut Hamsun; (6) «Gente Independente» de Halldór Laxness; (7) «O Nome da Rosa» de Umberto Eco; (8) «D. Quixote de la Mancha» de Miguel Cervantes; (9) «A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson Através da Suécia» de Selma Lagerlof; e (10) «1984» de George Orwell.

Teve pena de ter deixado vários dos livros da Relógio D'Água de fora. E um ou outro da Tinta da China e da Cavalo de Ferro.
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De Pedro Correia a 08.06.2014 às 15:36

Grande lista, Miguel. Aí estão pelo menos seis livros da minha vida.
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De Maria Dulce Fernandes a 08.06.2014 às 15:48

Muito boas escolhas. Sete desses conheço Bem !
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De Pedro Correia a 09.06.2014 às 23:08

Espero escrever em breve, aqui no DELITO, sobre alguns desses livros.
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De Carlos Faria a 08.06.2014 às 17:55

Efetivamente após mais de 20 anos sem feira devido à distância, foi no ano passado que nos falámos ao vivo, eu como leitor e o Pedro lá estava como autor.
Curiosamente temos quase as mesmas preferências de editoras e como eu tenho a tal indiferença pelo acordês, vou sobretudo pelo que editam e assim incluo as 3 que considera "nem por isso"... possivelmente as que não mencionámos são mesmo aquelas que não gostamos tanto.
Fico contente por saber que a feita continua como era antigamente, foi assim que também a senti em 2013
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De Pedro Correia a 08.06.2014 às 21:43

É verdade, Carlos: lá nos encontrámos há um ano. Fez agora, no dia 2.
Passei três vezes pela Feira nesta 84ª edição. Continua bem e recomenda-se sempre.
Um abraço.
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De Teresa Ribeiro a 08.06.2014 às 22:13

É o meu mais querido ritual lisboeta, de tal forma que serve de referência no meu calendário a par das férias do Verão e do Natal.
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De Pedro Correia a 09.06.2014 às 23:04

Todos os meses tenho referências que se renovam ano após ano, Teresa. A de Junho é a Feira do Livro.
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De JSP a 09.06.2014 às 19:02

Parabéns pelo extraordinário " aldeano de Lugo", D.Fernando Ónega.
Atrevo-me a sugerir a leitura das crónicas que esse grande jornalista publica em "La Voz de Galicia" , on line ( se é que já não o faz...).
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De Pedro Correia a 09.06.2014 às 23:06

Obrigado pela nota que aqui deixa, meu caro. Devo dizer que o livro me está a interessar tanto que foi o primeiro que comecei logo a ler: já vou na página 130. Em dois dias...
É um prazer redobrado ler livros de história narrados por quem foi testemunha presencial dos acontecimentos.
(Desconhecia que Ónega escrevia regularmente nesse jornal que tanto aprecio. Sendo galego, é nosso primo. Ou nosso irmão.)

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