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Os rendimentos e a revolução tecnológica

por João André, em 21.01.14

A Economist desta semana traz um trabalho sobre o impacto da tecnologia no trabalho e nos rendimentos. O impacto em questão é o do poder dos computadores e da forma como vão tomando conta de tarefas que sempre vimos como sendo do domínio humano. No artigo,e ste impacto é equiparado ao da Revolução Industrial, sendo que a comparação mais comum é com a do desaparecimento dos tecelões em favor dos teares mecânicos.

 

O artigo aborda, do ponto de vista dos trabalhadores, dois aspectos: o primeiro é o desaparecimento (ou pelo menos redução drástica) de alguns postos de trabalho tradicionais; o outro é o impacto desta nova revolução tecnológica nos rendimentos dos trabalhadores. Sobre o segundo ponto, o artigo faz referência à dinâmica da Revolução Industrial, a qual indica que os primeiros ganhos do impacto da tecnologia são favoráveis às pessoas com rendimentos mais elevados, mas que depois os trabalhadores de rendimentos mais baixos tendem a ser favorecidos. Isto faz perfeitamente sentido na lógica que o artigo apresenta: quem tem rendimentos mais elevados são pessoas habitualmente com educação superior e como tal mais capazes de responder de imediato ao novo paradigma. Mais tarde, com a educação das pessoas de rendimentos mais baixos, também estas ganham. Simples e claro.

 

Há, contudo, um aspecto que me parece desprezado e esquecido nesta história. Aquando da Revolução Industrial, os trabalhadores deixaram o campo e migraram em massa para as cidades para poder trabalhar na indústria. Ou seja, saíram de zonas pouco povoadas e mudaram-se para zonas de elevada densidade populacional (e acabaram por a aumentar ainda mais). Dadas as condições miseráveis que estes trabalhadores inicialmente conheceram (salários baixos, insalubridade, sobrelotação, etc), os trabalhadores uniram-se e começaram a criar sindicatos para lutar pelos seus direitos. Isto não será "conversa de comunista", mas um facto histórico. Com o tempo, essa luta (que incluíram naturalmente melhor educação para os trabalhadores) acabou por melhorar as condições dos trabalhadores, nomeadamente os seus salários (o artigo faz uma pequena referência acerca dos movimentos sociais e políticos).

 

E é este o ponto que me parece falhar no artigo da Economist: a melhoria dos rendimentos não adveio apenas e só porque a educação melhorou ou porque faça parte da dinâmica natural de novos paradigmas. Adveio como resultado de um conjunto de circunstâncias, entre as quais a emergência dos sindicatos não foi - de longe - a menor. Ora, no presente caso as coisas provavelmente não se passarão da mesma forma. A tecnologia que permite esta nova revolução também impõe a separação física entre as pessoas. Se a Revolução Industrial colocou os trabalhadores em contacto uns com os outros, esta nova revolução promove essa separação. Seja porque é possível fazer o trabalho a partir de outras localizações, seja porque as empresas promovem a mobilidade, a verdade é que os trabalhadores cada vez passam pouco tempo uns com os outros. O resultado disto é que os laços de amizade, camaradagem ou simples confiança não são estabelecidos.

 

E a verdade é que sem confiança nenhuma luta do tipo sindical terá sucesso. Um trabalhador vê-se essencialmente perante o Dilema do Prisioneiro: sem confiança que os seus colegas tomem parte, terá menos incentivos para lutar por direitos. Os sindicatos poderão beneficiar da tecnologia no que diz respeito ao número de adesões, mas a separação física não ajuda à organização de uma greve (por exemplo, uma vez que continua a ser a principal arma negocial de um sindicato). Sem esta forma de pressão, é improvável que os rendimentos dos trabalhadores beneficiem a prazo, pelo menos ao nível do que se passou após a Revolução Industrial. Certamente que a educação ajudará e não há dúvida que o talento será sempre bem remunerado, mas a esmagadora maioria dos trabalhadores não é talentosa: é simplesmente mediana.

 

O resultado, a meu ver, será um aprofundar do fosso entre ricos e pobres. Poderão existir mecanismos inovadores que os sindicatos (ou seus sucedâneos facebookianos) criem, mas do meu ponto de vista está tudo dependente das relações interpessoais de confiança. Estas, ao invés das tecnologias, dos métodos de trabalho ou das fábricas, não mudam facilmente: existem como resultado de evoluções biológicas e sociais ao longo de muitos séculos e possuem inércia a mais.

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12 comentários

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De Rui Rocha a 21.01.2014 às 22:03

Excelente ponto, João André. A mesma tendência parece estar a verificar-se no ensino, aqui por efeito da disponibilização de conteúdos online.
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De João André a 22.01.2014 às 19:28

Muito bem lembrado Rui. Os MOOCs são de facto outra resultado das novas tecnologias. Pessoalmente gosto muito da ideia de usar as tecnologias para melhorar o ensino (superior ou não) e até para permitir o acesso de muitas outras pessoas ao ensino superior, mas Os MOOCs irão destruir o ensino superior como o conhecemos. Talvez venha aser melhor, mas não numa fase inicial. A falta de contacto pessoal irá criar profissionais com algumas deficiências em comparação com os actuais.
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De da Maia a 22.01.2014 às 01:01

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De Carlos Duarte a 22.01.2014 às 09:29

Caro João André,

Não discordando do seu post, permita-me só um comentário:

Existe a ideia (errada, talvez fundada num misto de idilicismo e ludismo) que os trabalhadores que se deslocaram do campo para a cidade durante a Revolução Industrial foram encontrar um modo de vida pior. Não é verdade. Por pior que a vida no campo fosse, a cidade apresentava melhorias (especialmente a nível da alimentação, que era mais regular).

Um bom exemplo comparativo seria dizer que os nossos emigrantes da década de 60 do século passado foram viver para condições miseráveis em França, na Suiça ou na Alemanha. Poderia ser verdade em termos absolutos, especialmente se visto da nossa perspectiva. No entanto, para a maioria dos próprios, representou uma melhoria em relação ao local de origem.
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De João André a 22.01.2014 às 19:33

Até pode discordar, isso por si não me incomoda :).

Tem razão, fui simplista. Se as pessoas não fossem para melhor não mudavam, diria. Apenas me parece que, tal como em relação aos rendimentos, a mudança terá sido progressiva. Os "pioneiros" (à falta de melhor termo) terão beneficiado. Os que os seguiram talvez tenham ido para pior. Decidiram migrar para fugir às más condições mas poderão ter sofrido dos problemas que menciono no texto. Há apenas um aspecto que convém mudar: quem mudou nesses tempos (e até durante a emigração portuguesa de 60 e 70) foi com bilhete de ida. Queimaram muitas pontes que teriam nos locais de origem e, mesmo que as coisas não resultassem, acabavam por não ter para o que voltar. Não terá sido assim com toda a gente, é evidente, mas terá havido muitos casos desses.
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De Luís Lavoura a 22.01.2014 às 09:58

Eu não acredito nestas comparações históricas. Nem na do Economist, nem na do João André. Tenho para mim que o futuro será, em princípio, diferente do passado.
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De João André a 22.01.2014 às 19:35

Completamente errado Luís. Vai ver, mais meia dúzia de anos e veremos mamutes a conviver com neandertais e dinossauros enquanto o Rei Artur sobe ao trono em Camelot com a benção de Afonso Henriques. Não só o futuro vai ser como o passado, como vai ser como todo o passado ao mesmo tempo. Um monumental potpourri histórico ;).
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De Teresa Ribeiro a 22.01.2014 às 11:01

Muito bom.
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De lucklucky a 22.01.2014 às 17:16

Parece que os media acordaram para falar de tecnologia...
Outro exemplo:
http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2542113/Will-robot-jobocalypse-make-YOU-obsolete-2014-year-droid-takes-job-say-experts.html
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Apresentado claro como um desastre.
Já para falar do impacto de como um computador hoje de 500 euros faz mais que um de 1800 euros há 10 anos atrás , e como tal reduz a pobreza, não.
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"Dadas as condições miseráveis que estes trabalhadores inicialmente conheceram (salários baixos, insalubridade, sobrelotação, etc), os trabalhadores uniram-se e começaram a criar sindicatos para lutar pelos seus direitos. Isto não será "conversa de comunista", mas um facto histórico."

Não é facto histórico algum. O facto histórico é que condições miseráveis era o que existia em praticamente todo o lado. Só com o crescimento exponencial de revolução industrial é que se pode mudar.

"quem tem rendimentos mais elevados são pessoas habitualmente com educação superior e como tal mais capazes de responder de imediato ao novo paradigma."
Mais uma vez não é verdade.Se assim fosse Portugal teria crescido exponencialmente com a expansão do ensino.
Boa parte de empresas com sucesso foi criada por pessoas que abandonaram os estudos.
Em Portugal é aliás notório o desprezo da aristocracia socialista - maior parte universitários - por quem cria empresas.
A Educação como é, está obsoleta.

Quanto aos sindicatos não concordo com alguma das premissas.
Para começar a pobreza. Se a produtividade aumentar a pobreza vai diminuir.
Não estou a falar de desigualdade, estou a falar de pobreza. Não é a mesma coisa. Por exemplo um professor hoje tem a mesma produtividade que um professor de há 40 anos atrás - devido à natureza do trabalho e ao totalitarismo da educação actual - um professor ensina praticamente o mesmo número de alunos logo não houve aumento de produtividade da sua parte. No entanto o professor ganha bem mais que há 40 anos atrás. Porque existiu um aumento de produtividade generalizado.

O poder dos sindicatos dependerá se haverá muitas empresas ou poucas+monopólios. Com muitas empresas o poder negocial de um trabalhador aumenta, mas o dos sindicatos diminui. Os sindicatos têm muito mais poder se o trabalhador tiver pouco poder negocial. Quanto mais o mercado é restrito, menos poder tem o trabalhador e mais o sindicato. Por isso é que não se vê nenhum sindicato a estimular o empreendedorismo seja dos seus sócios ou na sociedade.
É por ex. possível que a multi-nacionalização de sindicatos seja generalizada se o mercado for global e as barreiras regulatórias sejam derrubadas. Se a sociedade ficar mais liberal, mais flexível também os contactos entre pessoas aumentarão. Na natureza do trabalho irão existir ainda muito mais casos de uma pessoa estar dos dois lados. Ser trabalhador e ser empresário conforme as oportunidades. Julgo ainda que sindicatos de accionistas tornar-se-ão uma realidade. Com o capital a crescer é natural que todos tenham poupanças.

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De João André a 22.01.2014 às 19:44

Caro lucky, antes de mais não antevi um desastre. Apenas apontei para uma falácia na lógic do artigo.

Quanto aos seus comentários, seja qual for a razão que tenha, acabam por se derrotar a si mesmos.

«condições miseráveis era o que existia em praticamente todo o lado» Então concorda que os trabalhadores que migraram para trabalhar nas fábricas viviam em condições miseráveis.

«Se assim fosse Portugal teria crescido exponencialmente com a expansão do ensino». Talvez, mas você confunde causa com efeito. Eu disse que os trabalhadores mais bem pagos são aqueles que têm mais educação. Nunca escrevi que por terem mais educação seriam automaticamente bem pagos. Por outro lado está mais que documentado que quanto mais escolarizada for uma população, melhor o nível de vida, mas claro que haverá sempre países que desafiam a regra.

Em relação à pobreza, um ponto: um pobre de hoje, transplantado para há 100 ou 200 anos atrás não seria visto como tal. Seria visto como alguém que seria provavelmente rico. Alguém que poderia comer carne talvez uma ou duas vezes por semana, talvez tivesse um carro (mesmo que a cair aos pedaços), talvez tivesse algum acesso a cuidados de saúde, etc. Talvez não fosse rico em 1914, mas pobre certamente que não. Se formos portanto pela sua lógica, ainda há muito espaço para se empobrecer em Portugal.
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De Anónimo a 23.01.2014 às 09:55

"Então concorda que os trabalhadores que migraram para trabalhar nas fábricas viviam em condições miseráveis."

Sim, mas melhor de onde estavam.
Eu não tenho nada em teoria e em muitos caso na prática contra sindicatos. Tenho só quando se arrogam de privilégios de controlar os trabalhadores que não querem fazer parte ou são armas de partidos para manterem a divisão das pessoas em classes sociais.

"Talvez, mas você confunde causa com efeito. Eu disse que os trabalhadores mais bem pagos são aqueles que têm mais educação. Nunca escrevi que por terem mais educação seriam automaticamente bem pagos. Por outro lado está mais que documentado que quanto mais escolarizada for uma população, melhor o nível de vida, mas claro que haverá sempre países que desafiam a regra."

Não julgo que tenha confundido.
E não referi ser mais bem pago , eu falei de criar, inventar riqueza. Coisas que não existiam e passaram a existir.
Criar corre num caminho por vezes paralelo à educação muitas outras vezes contrário. Perde-se uma coisa muito importante na educação formal: tempo e não tem grande flexibilidade.








"Se formos portanto pela sua lógica, ainda há muito espaço para se empobrecer em Portugal."
Sim é isso que temo, ainda há muita riqueza para o socialismo explorar. Por isso é que as palavras de Margaret Thatcher não funcionam na prática. É sempre possível descer ao nível de Cuba.
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De lucklucky a 23.01.2014 às 11:03

Um post para indicar este artigo/entrevista sobre Educação:

"...We found that pretty satisfactory because that way we didn’t have to do the homeschooling. She was able to do it selectively. As an example of the kind flexibility that technology brings, her way to do a class was to spend three weeks nonstop on a class. She finished a year’s worth of work in one class in three weeks of intensive effort instead of little dribs and drabs along the year the way they do in public school. And that’s something you couldn’t do without a technological platform that lets you move at your own pace..."

http://www.theatlantic.com/education/archive/2014/01/kids-are-different-there-are-lots-of-different-ways-to-educate-them/283157/

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