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Os pregadores do modo de vida

por Inês Pedrosa, em 25.05.17

Em contraponto aos hábitos do islamismo radical, é comum ouvirmos a expressão “o nosso modo de vida”. Ora uma das alegrias fundadoras das sociedades democráticas e laicas é a de, ao contrário das ditaduras (de esquerda ou de direita, se é que esta distinção faz algum sentido prático para alguém), não definirem nenhum “modo de vida” – nem sequer, para raiva dos invejosos de serviço, “estilos de vida”. O estreitamento da democracia que temos vindo a sofrer nas últimas décadas, alegadamente por causa da crise financeira internacional, tem feito o seu caminho nos corredores mentais das pessoas, afunilando-os também. A ideia, milhões de vezes repetida, de que não há alternativa à austeridade, acabou por diminuir os sonhos e as expectativas de populações inteiras, empurrando-as para os caminhos da desistência – esse monstro que nos impede de criar verdadeiras alternativas.

 As ciências e as artes têm demonstrado, desde o início do mundo, que a vida é um mar de possibilidades. Da invenção da agricultura à luz eléctrica, da anestesia às viagens a Marte, a humanidade não parou de encontrar outros “modos de vida” diferentes dos estabelecidos. Há um problema de base quando quase metade da riqueza mundial está nas mãos de 1% dos seres humanos – e um estudo recente da Oxfam prevê o agravamento deste descalabro nos próximos dois. Garantir um equilíbrio mundial que passa por uma redistribuição da riqueza não é uma questão de “modo de vida”, mas de civilização. À medida que o conceito de “competição” se foi tornando central e obrigatório na cartilha económica e ética dos tempos modernos, descartou-se o termo “civilização” para abolir a ideia, tida por primária, de comparação. Interessante paradoxo, que entretanto faz muito mal a muita gente.

 Na sequência do massacre à redacção do Charlie Hebdo, esgotada a união inicial em torno do choque, entrou-se no tempo do “mas” com o seu cortejo de elucubrações filosóficas escapistas – incluindo aquela, aventada por boas e cultas almas, de que a “nossa liberdade de expressão”, descendente de Lutero e de especificidades europeias, deve parar à porta da não-liberdade dos outros, que não têm a mesma genealogia. É o esplendor do paternalismo condescendente (e cobardolas, pormenor pouco filosófico mas pertinente). Recordo que hoje mesmo (se nada mudar entre a terça-feira em que escrevo e a sexta em que este texto é publicado) será de novo chicoteado em praça pública, na Arábia Saudita, um homem que entendeu, apesar de árabe, ter direito a pensar pela sua própria cabeça. E que milhões de seres humanos são torturados e mortos apenas por quererem pensar e viver livremente. A liberdade não admite “mas” – e, sobretudo, não pode continuar a ter filhos e enteados, consoante as culturas. O terrorismo de Estado é tão terrorista quanto aquele que não tem sede nem nação.

 Um conjunto de opinadores supostamente liberais aproveitou o massacre para dizer que ele resulta da atenção da Europa às chamadas “causas fracturantes” em vez de se preocupar com a segurança e a economia. Como se a atribuição de direitos a mulheres e homossexuais impedisse os restantes aspectos da governação. A mensagem implícita é a de que a manutenção de sociedades mais “tradicionais” não excitaria tanto os radicais islâmicos. A eterna mensagem do medinho e da resignação. Não, isso é que não é modo de vida.

      

Publicado no jornal Sol,23.5.2015

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6 comentários

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De hclc a 25.05.2017 às 08:42

Que confusão.
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De Justiniano a 25.05.2017 às 10:08

Cara Inês Pedrosa, permita-me, apenas, um pequeno comentário a uma parte do seu texto.
Dizer-se que inexiste, por indefinição de substancia ou por limite substantivo, culturalmente "o nosso modo de vida" é dizer, também, por equivalente, que a europa, ou o ocidente, vivem, e aqui chegaram, sem matriz estética. É, fundamentalmente, clamar que os juízos estéticos, que são a densificação dos juízos éticos, são indiferentes ou irrelevantes na caracterização dos modos de produção da vida na Europa!
É, essencialmente, dizer que as leis que nos regem, do princípio da igualdade ao princípio da legalidade, das normas penais que nos proíbem de subtrair coisas da propriedade de outros até à postura municipal que nos proíbe de deitar lixo para a via pública, carecem de um substrato axiológico preciso e determinado!!
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De tric.Lebanon a 25.05.2017 às 10:35

o branqueamento ao terrorismo islâmico está em curso...é uma coisa impressionante!!!
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De Vento a 25.05.2017 às 11:58

Estou em absoluto acordo com a primeira parte da sua reflexão, até ao massacre na Charlie.
Sempre foi uma mentira a afirmação que a "liberdade termina onde começa a do outro". A liberdade expande-se e prolonga-se na liberdade dos outros.
E por ter como princípio esta extensão e prolongamento, considero que o fenómeno da globalização e do dito liberalismo económico é o embrião de toda a espécie de terrorismo e também ele um processo terrorista: quer na vertente económica, quer na vertente social, quer na vertente militar.

O prolongamento da liberdade individual e colectiva na liberdade dos demais significa conviver com a diferença e respeitar a diferença, qualquer que ela seja.
No primeiro fenómeno de globalização melhor documentado, que ocorre com os descobrimentos, encontramos os modelos que ainda hoje vigoram, isto é, nos navios mercantes e juntamente com os mercadores também seguiam homens e algumas mulheres de cultura, estas últimas mais apagadas na aparência mas não com menos efectiva influência.

Se é certo que na troca e/ou permuta das mercadorias, quando estas livremente ocorriam, o encontro agradou às partes, não menos certo foi o facto que as grandes clivagens e actos de terrorismo ocorreram quando surge a supremacia cultural, a imposição de uma sobre a outra, e a posse dos recursos de outrem pela via da coacção, do suborno e da força.
Portanto, assiste-se hoje à exacta reprodução deste modelo.

Significa isto também que os mercadores da actualidade, em particular aqueles que detêm a posse dos recursos estratégicos (económicos e energéticos) também noutras partes residentes, juntamente com muitos denominados homens e mulheres de cultura e ciência, em particular os ocidentais, continuam a viver e a agir segundo os modelos das cavernas.
Não se estranhe, portanto, que este comportamento se comprove também no acolhimento das diferenças, isto é, na acção cultural prosélita, na ridicularização da diferença (como ocorreu com os cartoons da Charlie Hebdo e outros), no insulto gratuito que ocorre em nome de um padrão cultural, e de uma liberdade que se confunde com libertinagem, que presunçosamente se entende superior.

E sim, tal como no passado verifica-se o imperialismo e a tentativa de dominação em nome de um dogma cultural/civilizacional.
Acontece que a única diferença que hoje existe reside no facto de esses outros habitarem o território do colonizador cultural. Se antes o dogma se exercia em território alheio hoje exerce-se na mesma na parte alheia e na que se considera sua, apesar da globalização e apesar de dizerem que a cultura é Universal.
E aqui encontramos as palavras e gestos de indignação dos "superiormente" cultivados que não são capaz de descer para poderem subir.
Mas desengane-se quem pensa que aqueles outros são modelos de virtudes; eles não são modelos de virtudes, são as acções da contraparte que os tornam virtuosos.

"Deus julga como Juiz; os homens julgam como judiciários; entre o Juiz e o judiciário há esta diferença, que o Juiz supõe o caso, o judiciário advinha-o. Quantos vemos hoje julgados, e condenados por adivinhação: não pelo que fizeram, senão pelo que se adivinha que haverão de fazer!"
Padre António Vieira

Está aberta a caça às bruxas!
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De Vento a 26.05.2017 às 22:59

O preconceito está em toda a parte:
https://www.youtube.com/watch?v=auWi71Xdp2o

A crueldade também:
https://www.youtube.com/watch?v=Heeg_4jEzYU

E mais esta, se tiver coragem de ver até ao fim:
https://www.youtube.com/watch?v=PZtoe2toJSc

Mais este outro exemplo, se alguém tiver coragem para iniciar a sessão própria para adultos:
https://www.youtube.com/watch?v=Pm67WKXzNvE

Finalmente, veja alguns cristãos serem queimados vivos:
https://www.youtube.com/watch?v=yUUYoxwWLiQ

E esta reportagem da Time:
https://www.youtube.com/watch?v=P6RSZIMVQfk

Os indignados não escrevem sobre isto.
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De lucklucky a 25.05.2017 às 12:51

Temos aqui o texto de uma especuladora - financeira, social - claro não poderia faltar o apoio à violência do Estado com o objetivo de aumentar o risco na sociedade por via do endividamento/inflação/impostos e do poder imenso dado a esse sistema político para o realizar.
E impor-lo a todos mesmo os que não concordam.

"Há um problema de base quando quase metade da riqueza mundial está nas mãos de 1% dos seres humanos."

Não não há problema algum. Nem vou ligar á estupidez dos números da esquerdista, marxista Oxfam.
O que você não tolera é a humanidade. Porque a Gioconda tem um valor incalculável mas uma pessoa não.
Ou porque quando convém já há choradinho de dinheiro para a "cultura".
Que pouco tem de cultura, aliás vê-se pelo estado da dita "cultura".
A França por exemplo teve cultura até ao momento em que a "cultura" apareceu.
O sistema político da democracia social cada vez mais totalitário.

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