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Os novos pelourinhos em papel

por Pedro Correia, em 09.11.17

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Ela era a estrela do momento nos ecrãs televisivos. Ele era o ministro em ascensão no firmamento político cá do burgo - culto, apessoado, bem falante. Tiveram os seus dias de glória na imprensa cor-de-rosa - a que dispõe de carteira profissional sem nunca se sujeitar ao severo controlo deontológico que baliza a conduta das restantes publicações.

Superado esse tempo de esplendor na relva, virou-se a página. Veio o estupor nas trevas, em total contraste com as soalheiras manhãs de outrora. A imprensa continuou atenta, mas já sem vestígios do tom rosado. Essa imprensa que só é cordata e amável para quem está sob o foco das luzes da ribalta. Aos outros, aos que estão na sombra e no silêncio, condena-os sem os escutar, sentenciando-os sem remissão a penas com efeitos perpétuos em forma de manchetes e capas de onde está ausente qualquer presunção de inocência dos visados.

 

Muito se tem escrito, em tons de justa indignação, sobre o apedrejamento mediático daquela profissional dos ecrãs televisivos que tem visto a sua vida indecorosmente devassada, sem o menor respeito pela reserva da intimidade garantida no texto constitucional a todos os cidadãos portugueses - ao ponto de até os seus dois filhos menores serem utilizados como arma de arremesso contra a própria mãe.

Falta sublinhar um dos aspectos mais lamentáveis deste triste caso: na primeira linha desse apedrejamento têm figurado as chamadas revistas femininas - escritas por mulheres, dirigidas por mulheres.

Questiono-me o que sentirão elas da mulher concreta que visam, em capas sucessivas, sem remorso nem piedade. Questiono-me se alguma vez farão esse imprescindível exercício intelectual inerente ao jornalismo responsável que nos manda colocar, ao menos por instantes, no papel dos visados pelos nossos textos e pelos nossos títulos.

 

Algum do pior machismo vem surpreendentemente de onde menos se espera. Mulheres contra mulheres - tolerantes com eles, inclementes com elas.

Tanto se fala agora em mudança de mentalidades, mas aqui não vejo qualquer sinal de maturidade cívica ou conquista civilizacional: só vislumbro retrocesso a um passado de má memória. Os velhos pelourinhos dos nossos tetravós ressurgem hoje em forma de papel impresso. E todos os dias reclamam novas vítimas.

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36 comentários

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De Weltenbummler a 09.11.2017 às 10:58

ele começa com a ajuda duma cagadeira

'elogio da MERDA' em alentejano
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De Luís Lavoura a 09.11.2017 às 11:01

o severo controlo deontológico que baliza a conduta das restantes publicações

Uau!!! Que "restantes publicações" são essas que exercem tão "severo controlo deontológico"? Dê exemplos sff.
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De Luís Lavoura a 09.11.2017 às 11:04

Algum do pior machismo vem surpreendentemente de onde menos se espera. Mulheres contra mulheres

Isso não é nada inesperado. É um facto corriqueiro, mil vezes observado, que as mulheres têm muito maior dificuldade em cooperar honestamente e consistentemente entre si do que os homens. É um facto mil vezes observado que as mulheres têm mais tendência a sabotar o trabalho de outras mulheres do que os homens têm de sabotar o trabalho de mulheres.

Não se trata de machismo da parte das mulheres, trata-se simplesmente de dificuldade em colaborar.
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De Cristina M. a 09.11.2017 às 12:47

mas foi observado (ou observados) mil ou mil e duas vezes? está devidamente documentada, presumo, essa conclusão proto-científica, pois sim?
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De Vlad, o Emborcador a 09.11.2017 às 13:29

"É um facto mil vezes observado que as mulheres "

Aposto que não conhece nem 10 mulheresl!!

Relembremos que a sua matéria é mais desta e não doutra:

"O que acho importante, isso sim, é que um homem tenha um bom pau."

Luís Lavoura, dixit.
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De Beatriz Santos a 09.11.2017 às 19:37

Não é machismo feminino, é falta de carácter e de isenção (se calha, sempre é machismo a tendência para defender o homem).

Foi um processo difícil para ambos, não é bom ver os nossos defeitos expostos. Para além da mágoa que causa (em algumas pessoas causa mesmo um rancor de morte), há a devassa. E os filhos. Porque também se sofre por eles. Hoje, a imprensa é um déspota irracional.
Tenho pena e respeito os quatro. Não li revistas nem notícias, mas os telejornais hoje também se fazem com este teor. Julgo que há-de haver um nó naquelas cabeças. E a mulher parece-me uma pessoa frágil e com poucos esquemas de sobrevivência psíquica.
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De Luís Lavoura a 09.11.2017 às 11:05

condena-os sem os escutar, sentenciando-os sem remissão a penas com efeitos perpétuos em forma de manchetes e capas de onde está ausente qualquer presunção de inocência dos visados

Refere-se a José Sócrates?
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De Anónimo a 09.11.2017 às 12:31

Acha que com Sócrates há algum problema em se proceder assim?
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De Luís Lavoura a 09.11.2017 às 14:42

Acho que há muito problema em proceder assim com seja quem fôr.
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De am a 09.11.2017 às 11:37

Texto magnifico. Os mesmos reparos para os programas televisivos de "fofoqueiras" (os) indecorosos.... até há um que tem uma "arbitra":--- mostra cartões às ditas famosas.
.....
Sr Luis Lavoura: - Três comentários em 5 segundos, a colheita irá ser bastante fértil !!!!
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De Pedro Correia a 09.11.2017 às 15:13

Hoje foi comedido. Deve estar num dia difícil.
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De Anónimo a 09.11.2017 às 16:31

Provavelmente estará muito ocupado com mais uma anál ise estatística essencial para a humanidade na feira técnologica (http://www.speakerscorner.org.pt/as-casas-de-banho).

PS: Escolheu muito bem o nome do blog! Nunca encontrei gente lúcida com discurso coerente em "speakers' corners". Felicitações Sr Luís Lavoura.
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De Vlad, o Emborcador a 09.11.2017 às 12:11

Condessa de Vinhó e de Almedina :

“Não fica mal a uma mulher sêr humilde para com o marido. Isso exalta-a em vez de a rebaixar. Não masses o teu marido com os detalhes do governo da casa. A vida externa pertence ao homem a vida interior á mulher. Se tivéres filhos faz-lhes sempre vêr que o pae é a primeira pessôa na casa.”

Mais recentemente fundada e apoiada por mulheres (sobretudo beatas e das classes ilustradas ):

Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN) de filiação voluntária, fundada para neutralizar as correntes femininas de oposição ao regime.
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De Pedro Correia a 09.11.2017 às 15:16

Bem achada, esta citação. A minha homenagem ao seu arquivo.
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De Vlad, o Emborcador a 09.11.2017 às 15:43

Dança dos Demónios - Intolerância em Portugal

https://www.wook.pt/livro/danca-dos-demonios-intolerancia-em-portugal-antonio-marujo/2695017

Nada que se compare com o seu! Só o Pacheco Pereira pode rivalizar com o Pedro.
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De Rão Arques a 09.11.2017 às 13:54

Sendo um dado adquirido que "é fácil bater num homem caído", saltem a terreiro as defensoras da igualdade de género.
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De Pedro Correia a 09.11.2017 às 15:14

Nas chamadas "revistas femininas" parecem estar de plantão só defensoras da desigualdade de género.
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De Anónimo a 09.11.2017 às 14:09

Tanto ela, a estrela dos ecrãs, como ele, o tal que até se previa estar em ascensão, não valem um tostão furado. Em português do mais vernáculo, não valem uma merda. À pessoa que escreveu este texto, agora em comentário, ficava bem se identificasse os ditos, o nelito e a babi.
Cuidado com o trânsito rodoviário.
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De Pedro Correia a 09.11.2017 às 15:15

Eis que salta um anónimo a pedir que eu identifique não sei o quê.
Tem graça.
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De Anónimo a 09.11.2017 às 16:28

Ora aí está o valor da colaboração dos anónimos. Um mundo (ou um blogue) sem graça não tem piada.
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De Makiavel a 09.11.2017 às 14:47

Andamos com falta de assunto para dar relevo a folhas de couve impressas?

Acordou agora para a ausência de presunção de inocência dos visados pela orda pasquinzeira?

Fale-nos da tentativa (falhada) da prisão de Puigdemont e das condições enviesadas em que as próximas eleições na Catalunha irão decorrer. Isso sim, é assunto que valha a pena abordar.

Agora dar relevo a revistinhas rancolhas, tenha dó.
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De Makiavel a 09.11.2017 às 15:50

Obrigado pela correcção.
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De kika a 09.11.2017 às 15:07


Assim mesmo que eu gostaria de saber escrever.
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De Pedro Correia a 09.11.2017 às 15:15

Vénia, Kika.

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