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Os mortos não são números

por Pedro Correia, em 24.07.17

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Trinta e cinco dias depois da tragédia de Pedrógão Grande, o semanário Expresso, cumprindo a sua missão jornalística, rompeu enfim o bloqueio oficial e divulgou ao País as identidades dos mortos já confirmados naquele dia fatídico. Anotando as circunstâncias dramáticas em que morreram e acrescentando uma vítima mortal ao número que tinha sido difundido pelos organismos do Estado.

O mais impressionante, desde logo, é que numa sociedade aberta como a portuguesa este tema, por contraste, tenha sido tão opaco.

Como se aquelas vítimas, ao confinarem-se a um dado estatístico, estivessem destinadas a morrer uma segunda vez.

Como se fossem apenas um número.

Como se tivessem perdido o direito ao nome.

Surpreende que outros órgãos de informação, aparentemente, se tivessem resignado todo este tempo à "verdade" oficial, aos números oficiais, a um pretenso "segredo de justiça" que impusesse aos mortos o anonimato post mortem.

 

As vítimas de Pedrógão eram pessoas concretas, de carne e osso, com identidade.

Não eram dados estatísticos.

Era fundamental pôr fim à "lei da rolha" também neste domínio. Foi o que o Expresso fez. Revelando, desde logo, que a contabilidade oficial deixara de fora as chamadas "vítimas indirectas".

Uma autêntica missão de serviço público.

«Para que a Comissão Independente não se perca no exercício académico, para que seja mais importante o Estado salvar do que os presumíveis responsáveis salvarem os seus empregos. Para que se saiba que entidades poderão ser acusadas pelo Ministério Público de homicídio por negligência, se for esse o destino das investigações. Para que as investigações apurem em vez de denegar.» Palavras do director do semanário, Pedro Santos Guerreiro, num  notável texto que merece leitura atenta e reflexão de todos.

O Expresso garante que continuará a investigar até ao limite do possível para esclarecer a opinião pública se houve mais vítimas mortais, conferindo o rigor de algumas  listas que circulam na Rede em evidente desmentido à contabilidade oficial.

 

Os familiares são os primeiros a queixarem-se da opacidade e da inacção dos organismos públicos. Familiares como Nádia Piazza, que perdeu um filho em Pedrógão e critica a ausência de informação útil, a burocracia, a não divulgação da lista oficial de mortos e a falta de apoio psicológico. O Estado falhou antes e volta a falhar depois. Daí estar em vias de criação a Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, que pode avançar com processos em tribunal contra instituições oficiais.

De uma vez para sempre, temos de saber quem e como morreu naquele fatídico 17 de Junho. Não pode haver "segredo de justiça" em torno desta informação fundamental num país que se orgulha de ser livre.

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42 comentários

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De Luís Lavoura a 24.07.2017 às 11:39

Mais vale tarde que nunca - a publicação desta lista dos mortos e das circunstâncias da sua morte.
Não li a lista toda mas, do que li, tirei as seguintes conclusões:
1) Com exceção de um punhado de pessoas, as circunstâncias das mortes estão apuradas para todas os mortos.
2) Com exceção de um punhado de pessoas, todos os mortos eram pessoas que se encontravam nas aldeias à volta da estrada 236-1 (ou porque residiam em permanência nessas aldeias, ou porque estavam lá a passar o fim de semana).
3) Essas pessoas morreram ou nas próprias aldeias, ou (na sua maioria) quando delas tentavam fugir de carro.
Na lista de mortos, não há registo de qualquer pessoa que tivesse acedido à estrada 236-1 por o IC8 ter sido cortado. Não há registo de qualquer pessoa que tivesse sido "encaminhada" para a estrada 236-1 pela GNR. Quase todos os mortos eram pessoas provindas das aldeias em volta da estrada, que foram para a "estrada da morte" por sua própria iniciativa. A GNR nada poderia ter feito para as salvar, nem em nada contribuiu para a sua morte.
(Li pelo menos um caso de uma vítima que vinha na estrada 236-1 desde Castanheira de Pera, a regressar à região de Lisboa. É uma das poucas vítimas que não vinha de uma aldeia em redor da estrada. Mas, mais uma vez, essa vítima nada tinha a ver com o fecho do IC8. Em todo o caso, essa pessoa poderia ter sido salva se a GNR tivesse decidido cortar a estrada 236 em Castanheira de Pera, coisa que era exequível.)
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De Javardoura a 24.07.2017 às 15:46

Quanto ao:

Ponto 1
Os mortos medem-se aos punhados, ou seja cabem numa mão fechada. Assim interrogo-me, de que mortos estamos a falar?

Ponto2
Todos os mortos eram pessoas. O que tendo em consideração o ponto1, levanta o paradoxo de os mortos caberem num punho fechado.

Ponto3
Tendo por lá havido um incêndio é de espantar que nenhum morto, pessoalmente, tenha morrido afogado.

E são estas as forças do pensar


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De rão arques a 24.07.2017 às 11:50

Apetecia-me dizer a Costa que se ainda não se sente suficientemente chamuscado, vá torriscar-se num rescaldo atrasado do incêndio, que não contará como mais uma vitima da tragédia. E que diga aos bombeiros para calarem até ao fim da tarde o suicídio de alguém sem nome muito parecido com o 1º ministro.
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De rão arques a 24.07.2017 às 17:53

Obrigado. Pela conversa de Costa e seus servidores dá a impressão que já perceberam que o governo está a arder.
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De Pedro Correia a 24.07.2017 às 19:48

Portugal continua a arder, lamentavelmente. Neste preciso momento vejo imagens televisivas de casas a arder em Proença-a-Nova.
Apesar da "lei da rolha", os jornalistas - e muito bem - insistem em fazer o seu trabalho.
Por vontade de alguns, só havia imagens fofinhas de sol e praias e manjares em restaurantes da moda. Nada digno de perturbar o sono a Suas Excelências.
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De rão arques a 24.07.2017 às 21:23

Importante mesmo é continuar a desmontar as falácias Costanianas, que ele chegou a convencer-se que poderia perpetuar. Todos nunca serão de mais, mas permita-me sublinhar a sua notável contribuição não só pela objetividade da suas abordagens, mas também pela determinação informada e consciente com que faz despoletar o exercício de cidadania, não só em que possa estar menos atento.
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De Alain Bick a 24.07.2017 às 11:56

só se orgulham de ser
sociais-fascistas
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De Pedro Correia a 24.07.2017 às 16:43

O social-fascismo nunca existiu.
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De Maria Dulce Fernandes a 24.07.2017 às 12:27

"Como se aquelas vítimas, ao confinarem-se a um dado estatístico, estivessem destinadas a morrer uma segunda vez."

Ler sobre tragédias nunca me entusiasmou. Leio, pela informação e pelo rigor que é necessário conferir aos acontecimentos. Para que deles haja lembrança. Para que o horror não se resuma a números numa folha de excel ou numa apólice de companhia de seguros.
Ler o Expresso foi catártico. Ajudou a expurgar as dissimulações informativas encafuadas à pressão em notícias ocas e embuchadas . Fez-se luz por uma fresta que promete tornar-se uma janela aberta à luz que era absolutamente necessário fazer entrar.

Ler este seu texto foi ainda melhor. Parabéns .Obrigada.
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De Pedro Correia a 24.07.2017 às 17:29

Obrigado eu, Dulce. Excelente edição do 'Expresso' - mais uma. É consolador verificar que apesar de todas as dificuldades continua a praticar-se muito bom jornalismo em Portugal.
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De Vlad, o Emborcador a 24.07.2017 às 14:03

Já aqui escrevi parecer-me que o sucedido em Pedrógão e Tancos justificariam a demissão deste governo. Mostrou-se incapaz de garantir a primeira de todas as funções de um Estado /Governo. Proteger as vidas e bens dos seus cidadãos. Depois vêm as outras funções públicas e sociais como saúde , educação, etc. É claro que a responsabilidade não é exclusiva do governo e das instituições públicas. Mas para isso servem os inquéritos independentes para o apuramento das responsabilidades técnicas, mas a do Governos/Estados podendo ser técnicas são sempre políticas. O Governo não cumprindo o contrato subentendido com a nação deveria ser demitido.

Quanto ao Expresso aguardo ainda os nomes dos jornalistas implicados nos Papéis do Panamá e no Saco Azul do GES
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De Psicogata a 24.07.2017 às 15:09

Não estou totalmente convencida que haja apenas mais uma vítima "indireta", parece existir demasiada confusão no apuramento das vítimas e demasiada precipitação em calar com números oficiais e frases feitas.
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De Pedro Correia a 24.07.2017 às 15:38

O 'i' hoje vai um pouco mais longe, divulgando uma lista de 73 pessoas. Acho absolutamente chocante ainda haver dúvidas nesta matéria quase mês e meio depois. Quando há seguros por pagar e indemnizações por fixar e familiares próximos por ressarcir.
O Governo tem a estrita obrigação de divulgar a lista de vítimas mortais completa, rigorosa, actualizada e fidedigna. Para que não subsistam mais interrogações.
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De Psicogata a 24.07.2017 às 15:42

Quando li a notícia no jornal i fiquei boquiaberta, escrevi sobre isso hoje, mesmo existindo pessoas repetidas na lista como já foi alegado, parecem existir muito mais vítimas que as 64 confirmadas.

As seguradoras já fizeram saber que necessitam da lista para atribuir as indemnizações.

António Costa continua com a mesma conversa!
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De Pedro Correia a 24.07.2017 às 16:43

Depois da tragédia do fogo, o drama da informação sonegada. Como se óbitos de cidadãos portugueses fossem segredo de Estado. E andamos nisto há quase mês e meio.
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De Psicogata a 24.07.2017 às 16:48

Ridículo!
Estão todos preocupados em segurar os cargos, a verdade é essa.
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De Pedro Correia a 24.07.2017 às 22:07

Um comportamento totalmente inaceitável.
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De amendes a 24.07.2017 às 16:35

Quando nem a Companhias Seguradoras acreditam neste governo, está tudo dito...

Salazar, se atreveria a tanto...

Que é feito da justiceira Catarina e do impoluto Jerónimo?

Deus me perdoe:

Se se falasse de gays, lésbicas , pretos e ciganos mortos, os galambas as moreiras e mortáguas , já tinham A c o r d a d o!
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De rão arques a 24.07.2017 às 16:46

Dr. Costa, se o governo não contabiliza o numero de mortos também não os pode mandar esconder, mas mire-se na última miserável pérola vomitada pelo seu ministro da saúde.
Só um bandalho assumido pode criticar a senhora que se dispôs a apurar toda a verdade.
Também este ministro vez de andar a fazer figuras tristes que se dirija às autoridades policiais para a penalizar se for caso disso.
Respeitar a memória dos que partiram é o que o governo despreza quando usa a manha para os ignorar.
Será que meteram na cabeça que o governo inglês não considera vitimas do incêndio na torre habitacional de Londres as pessoas que se atiraram pelas janelas para fugir ao fumo e às chamas ?? Haja decoro.
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De Jo a 24.07.2017 às 18:16

Qual o ganho político em dizer que eram 64 mortos em vez de 65 ou mesmo 75?
64 é um número aceitável?
Se não é, porquê esconder os números?
Esta exploração de gente morta começa a parecer necrofilia.
Em política não pode valer tudo.
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De Pedro Correia a 24.07.2017 às 19:36

Sim, em política não pode valer tudo. Muito menos um governo em democracia imitar procedimentos da ditadura.
Trinta e cinco dias depois, o Governo Costa ainda não divulgou a lista nominal dos mortos nos trágicos incêndios dos concelhos de Pedrógão, Castanheira e Figueiró. Passado todo este tempo, tal lista permanece secreta. O que, obviamente, permite todas as especulações.
Alega-se "segredo de justiça", o que é absurdo. Uma lista de óbitos ocorridos num quadro de calamidade pública é secreta? Desde quando?
Insolitamente, repete-se em democracia o ocorrido com as cheias de Lisboa em 1967. Nessa altura a ditadura entendeu manter secreta a lista nominal e oficial dos mortos, que nunca chegou a ser divulgada.
Um escândalo antes. Um escândalo agora.
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De Jo a 24.07.2017 às 18:51

Qual o ganho político em dizer que eram 64 mortos em vez de 65 ou mesmo 75?
64 é um número aceitável?
Se não é, porquê esconder os números?
Esta exploração de gente morta começa a parecer necrofilia.
Em política não pode valer tudo.
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De Pedro Correia a 24.07.2017 às 19:43

Sim, em política não pode valer tudo. Muito menos um governo em democracia imitar procedimentos da ditadura.
Trinta e cinco dias depois, o Governo Costa ainda não divulgou a lista nominal dos mortos nos trágicos incêndios dos concelhos de Pedrógão, Castanheira e Figueiró. Passado todo este tempo, tal lista permanece secreta. O que, obviamente, permite todas as especulações.
Alega-se "segredo de justiça", o que é absurdo. Uma lista de óbitos ocorridos num quadro de calamidade pública é secreta? Desde quando?
Insolitamente, repete-se em democracia o ocorrido com as cheias de Lisboa em 1967. Nessa altura a ditadura entendeu manter secreta a lista nominal e oficial dos mortos, que nunca chegou a ser divulgada.
Um escândalo antes. Um escândalo agora.
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De Jo a 24.07.2017 às 21:55

Se me diz que há muito mais mortos além dos indicados o caso muda de figura. Embora me pareça difícil que isso aconteça. Nem temos os condicionantes de comunicação da ditadura nem a densidade de população é semelhante.
O facto é que esta indignação toda com uma morte não contabilizada tresanda a puxar a lágrima para fins de propaganda.
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De Pedro Correia a 24.07.2017 às 22:03

Recordo que a exigência da publicitação da lista nominal das vítimas é uma exigência dos próprios familiares. Até para efeitos de eventual contestação dos critérios que levaram as entidades oficiais a incluir ou excluir pessoas dessa categoria de vítimas, com os correlativos apoios - de ordem financeira e ordem psicológica - a que terão direito os sobreviventes mais próximos.
«Para nos organizarmos, para podermos conhecer-nos e trabalharmos juntos, temos de saber quem somos, quem são os familiares das vítimas», disse uma dessas pessoas, que está a organizar uma associação de vítimas das tragédias.
O caso só agora tornado público, graças à investigação do 'Expresso', da senhora atropelada quando abandonava a residência supostamente em pânico, apenas pode ser debatido porque o jornal o divulgou. E suscita desde logo a questão: por que motivo esta vítima foi excluída e o bombeiro vítima de um acidente rodoviário e falecido posteriormente, no hospital de Coimbra, consta da presumível lista?
É inaceitável que esta questão esteja a ser tratada como segredo de Estado.

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