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Os maus exemplos

por João Campos, em 19.01.17

Imagine que vai a um restaurante jantar com amigos. Senta-se à mesa, escolhe do menu a refeição, engana a fome com pão e manteiga, delicia-se com o prato escolhido e o vinho que o acompanha, e atreve-se ainda a uma sobremesa. No final, quando o empregado de mesa lhe traz a conta, paga e pede uma factura. "Dá jeito para o IRS", comenta de passagem. Ao que o empregado lhe responde que tem todo o direito à factura mas que não lha pode dar ali, no acto do pagamento. Pode, sim, dar-lhe um formulário postal que deverá preencher e enviar pelo correio, solicitando a dita factura. Ou, em alternativa, poderá, "a partir do conforto de sua casa" (diz isto como se estivesse a sugerir o prato do dia), aceder à página Web do restaurante e, após facultar alguns dados e seguir um formulário de sete etapas, e enfim obter a factura. Mas atenção: só poderá fazê-lo uma vez volvidas 48 horas sobre o pagamento, e apenas durante os cinco dias que se seguirem a essas 48 horas. 

"Mas não é obrigatório emitir uma factura se o cliente o solicitar?", pergunta, incrédulo. "É", responde o empregado, sempre a sorrir. "E emitimos. Basta enviar este formulário, ou aceder ao site."

. . .

 

Imagine que se dirige a uma loja de equipamentos electrónicos para comprar um telemóvel. Compara a oferta dos vários fabricantes dentro dos preços que estão ao seu alcance, pondera nas vantagens e desvantagens de uma mão-cheia de modelos, conversa um pouco com a técnica de serviço para esclarecer alguma dúvida, e por fim decide-se pelo aparelho que vai comprar. Dirige-se à caixa para pagar, e ao efectuar o pagamento solicita a factura. Enquanto lhe entrega o talão de pagamento e o recibo da garantia, a empregada diz-lhe que não é possível dar-lhe a factura ali, mas que poderá preencher o formulário que pode encontrar ali ao balcão para solicitar a factura pelo correio ou, em alternativa, poderá aceder à Internet, preencher o formulário de sete etapas que se encontra no site da loja, e descarregar a factura. "Até pode fazê-lo a partir deste telemóvel", graceja, sem no entanto deixar de o alertar que só poderá obter a factura por esta via 48 horas após o pagamento (nunca antes), e apenas durante os cinco dias que se seguem a essas 48 horas. 

"Mas se eu estou a pagar agora, por que motivo não posso ter já a factura?" pergunta, já sem conseguir disfarçar a irritação. 

"Porque o nosso sistema informático não permite a emissão de facturas imediatamente após o pagamento", esclarece a empregada, no tom exacto de quem está a repetir um matra pela enésima vez nos últimos dias. "Por isso poderá fazê-lo pelo correio, ou a partir do conforto de sua casa".

. . .

 

Será perfeitamente normal que o leitor ou a leitora considere qualquer uma das situações acima descritas como absurda. Nestes dias de voragem fiscal da Autoridade Tributária (o nome já é todo um programa), qualquer estabelecimento comercial privado legal que não tenha em funcionamento um sistema de emissão de facturas e que as emita a pedido do cliente teria o Fisco, a ASAE e sabe-se lá que mais Autoridades à perna para o habitual bullying tributário. Nestes tempos em que o Estado incentiva os contribuintes a solicitarem factura por tudo e mais alguma coisa (até podem ganhar prémios, veja-se bem), qualquer estabelecimento que se recuse à emissão da facturinha será decerto falado nas redes sociais pelos piores motivos. No entanto, e como não podia deixar de ser, o mau exemplo vem de cima: se o leitor ou a leitora for utente dos Transportes de Lisboa, que tanto quanto sei ainda é uma empresa pública, não poderá obter uma factura no acto do pagamento, seja este feito nas máquinas automáticas que encontramos nas estações do Metro ou nos balcões de atendimento do Metro ou da Carris: terá de preencher um formulário para solicitar a factura pelo correio, ou aceder a uma página Web, seguir um formulário de sete etapas e descarregar enfim a dita factura (mas só poderá fazê-lo 48 horas após o pagamento, e apenas durante os cinco dias que se seguirem). O motivo, conforme me explicou hoje um funcionário do Metro, é simples: em pleno 2017, ano em que todos transportamos no bolso aparelhos com maior capacidade de processamento do que a nave espacial que levou três astronautas à Lua em 1969, o software das máquinas automáticas e dos balcões de atendimento não está preparado para algo tão básico como... a emissão de facturas.

 

Que o Estado continue a permitir às empresas públicas aquilo que não permite às privadas dificilmente irá surpreender alguém nos dias que correm. O que espanta é que se ache isto normal

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20 comentários

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De Neocon a 17.01.2017 às 21:34

Em linha com:

"Funcionárias do Centro de Emprego e Formação Profissional (IEFP) do Porto revelaram nesta terça-feira que o Governo ignorou uma denúncia quanto ao facto de aí trabalharem há oito anos em condições ilegais, em situação de "falsos recibos verdes".

https://www.publico.pt/2016/10/11/economia/noticia/funcionarias-do-iefp-do-porto-em-situacao-de-falsos-recibos-verdes-1746927

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De João Campos a 17.01.2017 às 22:52

E com aquela reportagem de há alguns dias, que dizia ser proibido por lei exigir-se fotocópias do Cartão do Cidadão... quando são instituições públicas as primeiras a violar a lei, sabendo perfeitamente que o estão a fazer.
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De Carlos a 18.01.2017 às 14:09

Ponto prévio: está errado!

É fruto das políticas deste governo? Começou com este governo?

O portal Lisboa Viva, que permite, automaticamente, a geração da fatura, sim!

O pedido através de formulário nos 5 dias úteis seguintes num guichet, etc etc etc, começou com o regime de faturação eletrónica atualmente em vigor.
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De João Campos a 18.01.2017 às 19:25

Ponto prévio: nunca disse no meu texto que esta situação era fruto das políticas deste governo, ou que tinha começado com este governo. Se leu que o pretendido era um ataque ao governo do António Costa, talvez não seja má ideia começar a praticar essas leituras.

O portal não interessa para o caso. A esmagadora maioria das pessoas não compra o passe no portal - compra-o nas máquinas automáticas ou nos balcões de atendimento. E se paga nesses sítios, devia ter o direito a receber a factura nesse local e nesse momento. Só isso.
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De isa a 17.01.2017 às 22:41

"Que o Estado continue a permitir às empresas públicas aquilo que não permite às privadas dificilmente irá surpreender alguém nos dias que correm. O que espanta é que se ache isto normal."

Não espanta quem souber que vive numa Kakistocracia.

"A Kakistocracia é um conceito do historiador grego Políbio, que significa "governo dos piores", onde pior significa corrupto, imoral, inapto, etc."

"Em 1944, Frederick M. Lumley, resgatou o termo “Kakistocracia” e publicou sua definição no “Dictionary of Sociology”. Para Lumley, a Kakistocracia é um estado de degeneração das relações humanas em que a organização governamental é controlada e dirigida por governantes de todo tipo, desde ignorantes até a criminosos." Em nome da democracia, caminhamos rumo ao conformismo diante da mediocridade, de aceitar o pior."

"Michelangelo Bovero utilizou o conceito de Kakistocracia no seu livro "Contra o Governo dos Piores". Nele o autor defende que a Kakistocracia surge da combinação da tirania, da oligarquia e a demagogia, resultando em um péssimo governo, que é uma república dos piores."

"Quando um grupo ou um povo abre mão de ter os melhores, entra em um tobogã e passa dos medíocres aos piores."

Apenas parte de uma boa explicação que pode ler aqui:
http://kakistocraciabrasileira.blogspot.pt/
Kakistocracia e Kakoscracia no Brasil
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De João Campos a 17.01.2017 às 22:54

Isso é tudo muito bonito, mas tenho a sensação de que não só nunca conhecemos os "melhores", como também não tivemos a oportunidade de saber como seria ser governados por medíocres: nascemos e morremos no fundo do barril.
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De isa a 18.01.2017 às 05:23

É verdade que "Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada" -(Edmund Burke) mas, se reparar, alguém que queira fazer melhor, basta falar em dificuldades, para só ouvirem o que for agradável e só votar nos que façam mais promessas, por mais falsas que elas sejam. Com o tempo, especialmente, depois de entregarem a nossa soberania a entidades externas, foram secando qualquer possibilidade para a entrada dos melhores e, foi assim que, gradualmente, foram abrindo caminho para os piores entre os piores portanto, como povo, temos os governantes que merecemos e, se agora diz que nascemos e morremos no Fundo do barril, pelo andar da carruagem, as próximas gerações nem sequer vão ter barril ;)

Solução, talvez houvesse mas, se a grande maioria acredita que a austeridade acabou, não pode haver solução para um problema que pensam nem sequer existir.
O tempo está a esgotar-se mas, quem sabe, com um Brexit concretizado porque ainda nada mudou, com um Trump se, for real, não o comprarem ou matarem, talvez tenhamos um prolongamento mas, não vamos escapar à tempestade porque, se alguém pensa que passámos por austeridade, num Sistema de ciclos e, este, propositadamente atrasado para aumentarem as dívidas a nível global, ainda está para chegar a "mãe de todas as austeridade's" que até pode vir com outro nome, por exemplo, hiperinflação ou pior mas, essas entidades externas que, propositadamente, nos conduziram até aqui, vão culpar, precisamente, o Trump, Brexit, o que lhes apetecer.
Seja qual for, a tragédia que nos esteja reservada, talvez, depois dela, volte a haver opções mas, para mudar para melhor, só se um número razoável de pessoas estiver bem "acordada", para não voltar a cair em demagogias. Qualquer solução vai ter de partir de uma responsabilização individual porque, esta ideia de adultos precisarem de "paizinhos", desde que nascem até que morrem, só incentiva as piores características dos seres humanos mas, isso, são outros quinhentos e já falei disso noutros comentários.

Com tantas incógnitas, nem podemos fazer suposições sobre o Futuro porque, neste momento, a única coisa que podemos melhorar, será a nível individual, vivendo conscientemente ou seja, saber ver a diferença entre o que está bem e o que está mal, podendo usar o nosso livre arbítrio, para nunca colaborar em nada que traga mais mal ao mundo.

Se reparou, a nível global, estamos a entrar na fase do politicamente correto que não passa de censura portanto, ainda temos que falar ou escrever mais, expressando tudo o que nos vai no pensamento, especialmente, sobre tudo o que achamos estar errado (como no seu poste), sem nunca ter medo das consequências e, isso, só por si, é uma atitude libertadora porque, apesar de virem uns "trolls" tentarem fazer-nos calar ou achincalhar, os cães ladram, a caravana passa e há quem vá "acordando" para a realidade e, finalmente, veja a verdadeira matrix onde vive. Naturalmente, os instalados e os acomodados, não vão colaborar, bem pelo contrário.

Fora da net, na vida real, será onde as pessoas mais receiam as consequências de expressar a sua opinião, se não coincidir com a do "rebanho", seja por receio da desaprovação dos outros ou a perda de segurança financeira mas, caladas, apenas ajudam a alicerçar tudo o que estiver errado no sistema e, depois, queixam-se quando, elas próprias colaboraram naquilo de que se queixam.

Não haverá escapatória nem um D.Sebastião que nos venha salvar desta Kakistocracia se, cada um, individualmente, não perceber que faz parte do problema e que, conscientemente, podem passar a fazer parte da solução que, nunca poderá ser instantânea, devido ao estado a que isto chegou porque fomos educados para tolerar e obedecer, como fazendo parte de um rebanho e, nunca tratados como seres individuais que têm o direito de viver, sem ter alguém a dar ordens, como se uma sociedade não conseguisse funcionar sem milhares de Leis, Regulamentos, Decretos, Despachos, Deliberações, Avisos, Instruções Normativas, Portarias, Homologações... francamente, nem sei como conseguimos sobreviver, quanto mais viver, neste tão curto espaço de tempo que passamos neste Planeta... De ilusão em ilusão, vão-nos sempre enterrando mais um bocadinho para que, em vez de escravos locais, passemos a ser escravos globalizados.
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De V. a 18.01.2017 às 10:54

Já fiz uma vez uma reclamação para a Galp dado que têm a mania de "solicite factura antes do pagamento" e alguns funcionários patetas estrebucham e recusam passar factura depois de pagar (como se eu tivesse que acatar as instruções escritas numa folha A4 ranhosa pespegada na bomba de gasolina e nem sei quem pôs aquilo ali).

Coisa que é ilegal porque as normas da casa não se podem sobrepôr à Lei. Têm que passar factura antes ou depois e acabou a conversa. Na altura não ligaram nada ao princípio em questão: queriam apenas que eu indicasse o nome do funcionário deles provavelmente para o sacrificarem. Tudo muito rasca.

Mandei-os dar uma curva, obviamente. Até lhes respondi: "só não vos mando ir roubar para a estrada porque isso já vocês andam a fazer".
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De João Campos a 18.01.2017 às 19:29

Bem lembrado, V.. Essa do "solicite factura" antes do pagamento também tem muito que se lhe diga - e está longe de ser só a Galp a fazê-lo.

(E isso de querer arranjar um funcionário para culpar também não é exclusivo dela. Numa reclamação que fiz há uns anos num Pingo Doce acabei por escrever explicitamente que a culpa não era da funcionária mas da má organização do espaço e da cavalgadura que passava por gerente de loja)
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De V. a 18.01.2017 às 19:51

Sim, é prática generalizada. Normalmente nem tenho pachorra de dizer nada. Mas no caso, não vi o raio do papel porque além de sujo e com pingos de gordura das sandes de carne assada a folha A4 estava colada à cabine do multibanco do lado oposto ao meu. E o tipo vira-me a cabine do multibanco para me mostrar uma instruçãozeca da alta recreação lá dos chefes da espelunca. Passei-me. Galp nunca mais. Nem que tenha de passar a andar a pé.
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De Sérgio de Almeida Correia a 18.01.2017 às 14:00

O simples facto de existir uma situação desse tipo devia levar à demissão de toda a cadeia de comando. Enquanto não houver gente à ser punida pela estupidez esse país não irá a parte alguma.
Muito bem, João.
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De João Campos a 18.01.2017 às 19:20

Eles vencem toda a gente pelo cansaço, Sérgio. Neste país, essa estratégia dá para praticamente tudo.
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De Tiro ao Alvo a 22.01.2017 às 11:02

Não exageremos! Aceitando que os funcionários das empresas que apenas emitem factura se antes de efectuado o pagamento o sistema seja activado, estes devem avisar o cliente desse particular e, portanto, incorrem em infracção se assim não o fizerem, depois de devidamente instruídos pela entidade patronal. O certo é que na emissão de um simples "recibo" apenas é exigida uma via, um papel; no caso da emissão de facturas a lei exige duas vias, uma para servir de guia de acompanhamento da mercadoria comprada. O mesmo é dizer que se forem emitidas facturas desnecessariamente, temos desperdícios. E isso também conta.
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De lucklucky a 18.01.2017 às 15:16

Descobrem que o Socialismo cria Estados poderosos que não cumprem as próprias Leis e Constituição.

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De João Campos a 21.01.2017 às 23:09

Não lhe chamaria exactamente uma descoberta. Mas nunca é demais alertar para estas situações.
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De Teresa Ribeiro a 18.01.2017 às 16:00

Mais um a juntar a tantos exemplos inadmissíveis. Um jornal devia pegar no tema e fazer um levantamento destas aberrações.
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De João Campos a 18.01.2017 às 19:18

O problema, Teresa, é que este caso concreto até foi falado, e vários foram os jornais (em papel e online) que explicaram como obter a factura pelas indicações do portal... sem em momento algum se questionarem: mas é normal que isto seja assim?

Também não vamos longe se estamos à espera de ver a nossa comunicação social a colocar questões pertinentes.
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De D.O. a 18.01.2017 às 21:07

uma situação inadmissivel, como se todos os cidadãos tivessem acesso à internet e fossem ágeis com as tecnologias. Que há aqui uma certa má fé, não sei bem de quem, mas há!
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De João Campos a 21.01.2017 às 23:11

Pensei nisso mesmo. Pessoalmente, não me é especialmente difícil obter a factura através da Internet (ainda que insista nisto: paguei pelo serviço num local, não devia ter de me dar ao trabalho noutro). Mas conheço muita gente que teria de pedir ajuda para algo tão elementar como pedir uma factura, o que é no mínimo bizarro.

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