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Há poucas imagens mais poderosas do que essa dos proletários de Paris que, na Revolução de 1830, atiraram contra os relógios da cidade, em momentos próximos no tempo, aparentemente sem qualquer tipo de concertação entre eles. Está ali o essencial da revolução: o poder de pôr os contadores a zero e de saltar directamente para o futuro. Na divisão consensualizada da realidade de acordo com a qual a direita explora e a esquerda muda o mundo (para melhor, entenda-se), a generalidade dos intelectuais sempre teve claro de que lado da fronteira estava o terreno mais fértil para fazer germinar as suas ideias, quando não os seus ideais. Na verdade, falar em intelectual de esquerda tornou-se mesmo um pleonasmo. O intelectual é por definição de esquerda. E, por excepção, de direita. Com uma particularidade muito relevante. O intelectual (o de esquerda, entenda-se) não precisa de ter obra por aí além para que veja reconhecido o estatuto de intelectual. Em rigor, quase lhe basta ser de esquerda para ascender ao areópago dos portadores de ideias com enorme potencial de iluminação dos becos mais recônditos da humanidade. Depois, um livro de quadras bem esgalhado na alvorada da idade adulta, sete proclamações sobre a igualdade e a fraternidade, três participações em jornadas cívicas e a assinatura de doze petições, uma das quais sobre o aquecimento global, serão mais do que suficientes para gozar o estatuto de pleno direito. Já com os raríssimos intelectuais de direita a situação é diferente. A estes exige-se obra. Obra relevantíssima. Apenas depois lhes será reconhecido o acesso ao degrau da intelectualidade. Apesar de serem de direita. Sendo que o reconhecimento de que um intelectual de direita o é depende sempre da declaração abonatória de um intelectual de esquerda. Uma coisa do género apesar das suas ideias, Vasco Graça Moura deixou-nos uma obra notabilíssima. O intelectual de esquerda distinguir-se-ia assim por trazer de origem as suas ideias de esquerda e de vir equipado com ferramentas de tabelião que lhe permitem certificar, a título excepcional, a natureza intelectual de contadíssimos intelectuais de direita. O problema está em que os intelectuais de esquerda, os únicos genuínos, perderam, em algum momento recente, a capacidade de disparar contra os relógios. De sonhar com a revolução. Ei-los agora, num giro coperniciano, colados ao discurso dos direitos adquiridos. Já não lhes interessa derrubar os muros que nos separam do futuro, reescrevendo-o uma e outra vez. Interessa-lhes apenas perpetuar o presente ou, até, repristinar o passado mais recente. Temo-los assim ajoelhados perante a História, sem outra utilidade que não seja a de passar certificados aos pouquíssimos intelectuais de direita. E perante a História vão nus, ainda que levem um Iphone na mão. 

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11 comentários

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De da Maia a 26.05.2014 às 16:10

Muito bem.
Falta só dizer que a maior vitória de um intelectual de esquerda é na derrota, que o iliba de responsabilidades.
O crítico, inerte pela excelência da sua condição, alimenta-se dos erros dos outros.

Ora, a esquerda ao aceitar o convite para o palco político começou a perecer pelas mesmas contradições, e pelo desajuste das utopias com a realidade.

Isso, e a maçonaria ter apostado mais no capitalismo neo-liberal, algo que também não deu jeito nenhum.
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De Rui Rocha a 26.05.2014 às 19:11

Sim, parecem-me pontos muito pertinentes, da Maia.
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De Helena Sacadura Cabral a 26.05.2014 às 16:23

Excelente texto Rui!
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De Rui Rocha a 26.05.2014 às 19:12

Obrigado, Helena.
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De João Bugalhão a 26.05.2014 às 17:41

Muito Bom. Agora percebo porque, para a rapaziada de esquerda, sobretudo os comunistas, a virtude, estar sempre no passado! Em 1980 queriam voltar a 75; em 1990, diziam que em 80 é que era bom; em 2000, já não estavam apaixonados pelo que se tinha passado há 10 anos atrás; (...); em 2014, acreditam que o Sócrates sempre foi um filósofo marxista (senão mesmo Leninista); e em 2020? Hão-de estar a enaltecer Passos Coelho e Paulo Portas como líderes da classe operário...

A porra do relógio!!!
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De Rui Rocha a 26.05.2014 às 19:13

Sim, ainda os veremos a dizer no tempo do Passos é que era...
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De jo a 27.05.2014 às 13:16

Eu seria um grande intelectual se não fosse de direita. Assim não me reconhecem!
É uma injustiça!
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De Rui Rocha a 27.05.2014 às 13:37

De facto. Felizmente não tenho o mesmo problema. Sou de esquerda. Logo que fizer um livro de quadras vou poder emitir certificados de intelectualidade.
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De Maria Dulce Fernandes a 27.05.2014 às 20:51

Todos ou quase os Portugueses, um dia , já foram de esquerda.
Ou por convicção, ou por necessidade, ou porque sim...
Estive a ler sobre a primeira república, para poder dar apoio ( moral, neste caso) à execução dum trabalho de faculdade... O livro fez-me sorrir porque poderia ter sido escrito hoje. É como diz, os grandes pensadores da actualidade, perante a História vão nus, mesmo que carreguem um tablet topo de gama como se fosse a mais sagrada das bíblias.
Excelente texto.

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