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Os cálculos de António Costa.

por Luís Menezes Leitão, em 28.05.14

 

Conheço António Costa há mais de trinta anos, desde os tempos da Faculdade de Direito, e sempre verifiquei nele a existência de uma grande ambição política, que alia a um enorme calculismo, gerindo o seu percurso ao milímetro. No PS Costa soube sempre estar do lado do vencedor das eleições internas, fosse ele Soares, Constâncio, Sampaio, Guterres, Ferro Rodrigues ou José Sócrates. Precisamente por isso a sua ascensão no PS foi sempre imparável, tendo estado sempre muito próximo dos sucessivos secretários-gerais e atingido quase sempre elevados lugares no Governo. Foi Secretário de Estado e depois Ministro dos Assuntos Parlamentares no primeiro governo de Guterres, tendo depois passado para Ministro da Justiça no segundo. Se nos Assuntos Parlamentares demonstrou capacidade política e facilidade de relacionamento com o Parlamento, factores essenciais num governo minoritário, já na Justiça não deixou saudades. Ainda hoje o sector se ressente das reformas disparatadas que António Costa então lançou. Precisamente por isso nesse Governo o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Ricardo Sá Fernandes, resolveu intervir na área de Costa a propósito do caso Camarate, o que levou Costa a demitir-se com estrondo. A demissão só foi revogada depois de Guterres ter demitido Ricardo Sá Fernandes, o que demonstrou o peso político que Costa tinha.

 

O abandono de Guterres do Governo não perturbou a ascensão de Costa, que avançou logo para deputado europeu como nº2 da lista de Sousa Franco. A vitória de Sócrates em 2005 dá-lhe o lugar de nº2 do partido e do Governo, ainda que com uma pasta relativamente irrelevante, como a da Administração Interna. Com a defenestração de Carmona Rodrigues em Lisboa, António Costa vê a hipótese de encontrar um lugar que lhe permitiria posicionar-se para a sucessão de Sócrates, distanciando-se do seu governo, ou até para as presidenciais, à semelhança do percurso de Jorge Sampaio. A sua gestão de Lisboa tem sido um desastre, mas Costa tem um capital de simpatia e sempre teve boa imprensa, e os adversários que lhe apresentaram sempre foram muito piores que ele, o que tem levado os lisboetas a escolher o mal menor.

 

A vitória de António José Seguro no PS correspondeu, porém, à primeira vez em que Costa passou a ter como líder do seu partido um inimigo político. Por outro lado, os apoiantes de Sócrates desesperavam com o distanciamento de Seguro em relação ao seu antigo líder, pelo que naturalmente empurraram Costa para a liderança, no que pareceu um drama de Shakespeare. Mas o calculismo de Costa prevaleceu e não avançou contra Seguro. Não tinha a vitória assegurada e se avançasse corria o risco de perder o comboio das presidenciais, onde as sondagens o davam como a única alternativa da esquerda a Marcelo.

 

Esse comboio foi, porém, perdido há dias com o inesperado avanço de Guterres. Com o seu mandato na Câmara esgotado, Costa percebeu por isso que tinha que apear Seguro, para o que contribuiu o resultado decepcionante das eleições europeias. Se esses resultados fossem de legislativas Seguro seria amanhã Primeiro-Ministro num governo de bloco central com o PSD, projecto que anda a ensaiar há bastante tempo, que corresponde aos desejos de Cavaco, e parece ter pelo menos a complacência de Passos Coelho. Para a grande maioria dos militantes do PS isso seria, porém, um cenário de terror, só admitindo um governo à esquerda com o PCP, à semelhança de Sampaio em Lisboa, ou pelo menos com Marinho Pinto. Costa percebeu assim que tinha uma alternativa política a Seguro e decidiu apresentá-la aos militantes.

 

Se houver congresso, os militantes do PS vão votar assim entre duas alternativas: um governo PS+PSD liderado por Seguro ou um governo PS+PCP (ou Marinho Pinto) liderado por Costa. Quanto à actual maioria, os seus 27% representam em primeiro lugar o descalabro do CDS, a quem as sondagens dão pouco mais de 2% e corre o risco de desaparecer do mapa político. O PSD vai sair disto com cerca de 24% dos votos, destinado apenas a servir de muleta a Seguro, já que não o será seguramente de Costa. No fundo, estar-se-á a repetir agora do lado do PSD a sina do PS que depois de uma austeridade extrema ficou reduzido em 1985 a 20% dos votos, só vindo a recuperar 10 anos depois. Não sei é porque é que se insiste nesta deriva.

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14 comentários

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De Luís Lavoura a 28.05.2014 às 11:57

um governo PS+PCP (ou Marinho Pinto)

(1) Marinho Pinto é só um homem, não é um partido nem um grupo parlamentar.

Quem virá a ter nas próximas legislativas um grupo parlamentar capaz de apoiar o PS será o LIVRE. Que agora teve 2% dos votos (suficiente para um deputado por Lisboa) mas nas legislativas terá mais.

(2) O PCP é um partido de protesto e odeia o PS. Não vejo bem como se poderão aliar.
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De Luís Menezes Leitão a 28.05.2014 às 12:01

Pode ter a certeza que se aliarão. Já quanto ao Livre não dou nada por ele.
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De Carlos Silva a 28.05.2014 às 19:16

É mais fácil o MPT ter um bom resultado nas legislativas, do que o Livre.
O MPT tem uma estrutura que vai crescer e fortalecer.
Já o livre, dentro de 6 meses é um movimento de 1 homem com boas ideias, mas sem apoios.
O PCP será capaz de se coligar com António Costa. Quanto mais não seja para tomar posições para o futuro!
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De Nuno Barros a 28.05.2014 às 12:08

Concordo com o que diz, exceto no inimigo politico Seguro, que é, mas porque Antonio Costa na sua ambição o quer que seja.
E com todo respeito faça a questão ao seu amigo Costa porquê que não sucedeu a Socrates??
E espero que não seja traído pelo seu "enorme calculismo, gerindo o seu percurso ao milímetro" porque estamos a ficar sem paciencia para o jogo da politica
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 28.05.2014 às 12:11

Estou no geral de acordo com o seu post. Apenas discordo do último paragrafo por duas ou três razões: Costa não é o Cavaco de 1985; na sondagem que refere, a diferença entre o PSD e o PS está na margem de erro; como sempre o comentarismo politico "lesboeta" que inunda as tvs, tem atribuído a vitória miserável do PS no domingo a tudo e mais alguma coisa, menos à verdadeira razão: os portugueses também quiseram penalizar o PS pela sua acção quer no governo do Sócrates, quer na oposição onde tem tentado fazer dos portugueses parvos, desresponsabizando-se da vinda da troika. Também levou por tabela.
O Marinho não resiste a uma campanha eleitoral para legislativas porque não tem aparelho.
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De da Maia a 28.05.2014 às 13:00

Radiografia exemplar dos cálculos.
Aconselha-se acompanhamento do nefrologista.
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De Antonio Maria a 28.05.2014 às 14:03

Excelente análise.
Agora votem na personagem e depois não se queixem.
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De Jorge Milheiro a 28.05.2014 às 15:27

Estas dissertações e comentários só vêm dar razão a quem um dia disse:
"Os políticos são como os cogumelos: Usam chapéu (nos dias de hoje não usam) e vegetam na m----, (eu quero dizer estrume)".
Os parêntesis são meus.

Conclusão: os políticos são todos ...iguais (não era isto que queria dizer).
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De dc a 28.05.2014 às 16:24

Reflexões avulsas...

Cenário 1:

Seguro mantém-se líder do PS e é candidato a PM em 2015. Com projecções débeis, o PS concorre a liderar um governo de bloco central. Corre o risco de acabar num governo de bloco central liderado pelo PSD.

Chamo a atenção: estas eleições europeias tiveram vários efeitos. Lançaram um prognóstico perigoso sobre a possível evolução legislativa de diversos países da UE (caso a subida do voto nacionalista/populista corresponda a uma ascenção desses partidos no plano nacional, na Inglaterra, na França, etc). Mas as europeias tiveram um outro efeito, mais ignorado. Vou dizer em maiúsculas: OS VENTOS DA EUROPA ESTÃO A MUDAR. Não por convicção, mas por receio dos líderes europeus. Atentem na mudança de discurso do presidente do Eurogrupo, entre outros.

Esta mudança de orientação terá um efeito interno muito importante, que não deve ser desprezado. Vai ser favorável ao actual governo PSD+CDS. Vai permitir uma folga no domínio orçamental, que permitirá algum alívio (conjuntural) da austeridade sentida pelos portugueses. Por outro lado, os canais de financiamento que já estão em curso da UE vão ter repercussão interna - igualmente conjuntural, de expressão ligeira, mas que ainda assim irá repercutir um efeito positivo nos dados da economia portuguesa.

Estes factos serão repercutidos nos media económicos e alavancados pelos profissionais de opinião próximos do governo à exaustão. Terá expressão nos media. A mensagem será: a austeridade passou, foi difícil, mas vejam como as coisas já estão a aliviar. E tomem lá uma pequena baixa de impostos e um bocadinho mais de subsidio de volta.

Ou seja, este será um ano mais difícil para lidar com a demagogia governamental. Os números vão estar do lado do governo. Um ano mais difícil para o líder da oposição, portanto.

Um ano de trabalho dos "profissionais da opinião" nos media e nas redes sociais, e está lançada a possibilidade de "mais 4 anos" de governo Passos Coelho.

Cenário 2:

António Costa ascende à liderança do PS e é candidato a PM em 2015. Caso consiga gerar crescimento da base de voto socialista - o que passará por debelar a propaganda governamental e reduzir a sombra de Sócrates à insignificância (o que não será tarefa fácil) - o PS poderá sonhar com uma maioria expressiva. Não necessariamente absoluta, mas suficientemente expressiva para assegurar uma alternativa de governo.

Nesse caso, coloca-se a questão de uma coligação.

PCP, impossível. Todo o discurso do PCP, toda a sua relação com o seu eleitorado vive de um discurso onde é impossível a contemporização de uma relação com o partido em exercício do governo.

Resta o Livre. Crescerá? Talvez. Depende da transferência de votos do BE, e da capacidade do bloco resistir.

Mas há o outro elemento. O CDS. Sim, o CDS, curiosamente, e Paulo Portas é suficientemente hábil para comprender isso, pode beneficiar com a ascenção de um líder carismático no PS.

Porque perante um panorama de previsível ou garantido bloco central, os votos da direita juntar-se-hão em torno do PSD.

Mas perante a ascenção do PS, o CDS poderá fazer o discurso do fiel da balança, a alternativa responsável que viabilizará um governo por razões patrióticas, e com tal discurso capitalizar o voto útil do eleitorado PSD, em benefício do CDS.

Conclusão: muitas variáveis em jogo. E outro aspecto para reflectir. Em que estado estará o regime depois de uma legislatura de bloco central. Não falo sequer dos malefícios ou benefícios de uma tal solução de governo. Falo de outro problema em que ninguém parece pensar. A alternância democrática permite capitalizar o voto do descontentamento moderado no centro, no arco da governação. Após um governo bloco central, o voto de descontentamento irá expressár-se, ou por desmobilização/abstenção, ou fragmentando-se para as extremas. Será o princípio do fim de um quadro de relativa previsibilidade em que tem vivido a democracia portuguesa. Para o bem e para o mal.
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De Carlos Cunha a 28.05.2014 às 20:57

ao ler o título do seu post e ao ver a fotografia que o ilustra, pensei que ia dizer que o antónio costa sobre de cálculos renais.
afinal, é tudo muito mais simples, embora me pareça que a fotografia dava uma óptima ilustração para um anúncio de desodorizante axial.
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De Ermelinda Toscano a 29.05.2014 às 10:23

O comportamento de António Costa em relação à Assembleia Distrital de Lisboa (http://www.ad-lisboa.pt) só vem mostrar uma faceta deste autarca que se encaixa, na perfeição, no perfil que aqui fica traçado com este artigo de opinião:
António Costa não se coibiu, por capricho político pessoal, sem o aval dos órgãos do município em nome de quem, todavia, diz agir, de levar à falência (ao recusar, de forma ilegal, que desde janeiro de 2012 a CML pague as contribuições a que está obrigada nos termos e para os efeitos do artigo 14.º do DL n.º 5/91, de 8 de janeiro) uma entidade da Administração Pública, constitucionalmente prevista.
E com essa atitude ilícita e anticonstitucional, levou a que a ADL deixasse de ter condições para pagar os salários aos seus trabalhadores sendo que eu já estou sem receber vencimento há mais de sete meses consecutivos (e sou funcionária pública, com contrato de trabalho por tempo indeterminado e vínculo à administração local).
Pode um autarca que age desta forma ser considerado a pessoa certa para liderar o PS, ou um qualquer partido democrático? Na minha opinião, não!
Porque alguém que considera legítimo que se sobreponham interesses pessoais à Lei e ao Direito e subscreve que meras questões políticas se sobreponham à Justiça, só pode mesmo ter lugar cativo num regime ditatorial.
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De Torpedo a 29.05.2014 às 12:19

Só me dá razão. Que os palermas que votaram em Costa para a Câmara Municipal são também co-responsáveis pelo situacionismo da política portuguesa — onde estes grnadiosos artistas da maçonaria, todos eles predestinados para nos encravarem com o FMI, continuam a usar o poder local (o único formato legítimo desta embaraçosa República) para treparem na hierarquia das suas tribos e, no limite, deixarem pendurados os estúpidos eleitores que acreditaram neles. O que eu ouvi sobre as maravilhas de Costa como edil, como a cidade, agora, tinha um projecto e tudo. Vê-se. Vê-se o projecto que a cidade tem: nenhum. Já Sampaio usou a Câmara como trampolim e o problema disto é que os políticos usam as instituições para as suas ilusões de grandeza (porque todos eles são minúsculos) e atrasam por pares de anos (2 em 2, 4 em 4) o verdadeiro desenvolvimento urbano, que os dispensa bem. Aliás, autarcas socialistas e desenvolvimento urbano são noções incompatíveis. A prova está à vista em quem olha para a cidade sem o olhar superficial dos jornalistas e das televisões que acham que um miradouro, uma pista para bicicletas e um roteiro gay transformam o plano cultural de uma cidade. Só clichés e banalidades — e no entanto as rendas continuam demasiado altas para os serviços, a cidade envelhece e os jovens fogem dali, mesmo que não fujam do País. Um país que até trai a sua própria língua e não faz nada para corrigir esse erro monstruoso. Continuem a votar em sobredotados como estes e Lisboa continuará suja e feiosa com trampa nas ruas. A culpa é vossa.

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