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O que valeu a pena ver em 2014 - 1/3

por José Navarro de Andrade, em 29.12.14

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Scorsese na cama com os actores

 

Como estreou em 4 de Janeiro deste ano, começo logo por deturpar as regras protocolares do “filme do ano” elegendo “O lobo de Wall Street”, um original de 2013, entre os meus predilectos. Um Scorsese premium sem dúvida.

Tal como os grandes jogadores que sabem envelhecer em campo, Scorsese já não corre como outrora mas continua a imprimir velocidade no jogo. Os movimentos de câmara são agora menos ofegantes, a montagem é menos brusca, apostando não tanto no contraste (aquele espécie de “montagem de atrações” em que cada plano seria a antítese do anterior) como num constante incremento: o que vem a seguir precipita a potência do que ficou para trás; e toda a continuidade do filme já não tem a forma da típica montanha russa de Scorsese, mas faz-se numa espécie de “queda para cima”, em que o clímax coincide com o momento em que tudo e todos se estatelam. A duração das cenas permite entender “O lobo de Wall Street” como um filme de actores – em memória do confuso cinema dos sixties – com as alterosas dificuldades inerentes ao conflito entre uma ampla latitude de planos para especificarem as personagens mas sem qualquer margem para apontamentos digressivos e especulações histriónicas.

Que semelhantes e fatigantes propriedades estejam a cargo de um director de 72 anos e de uma montadora, a infalível Thelmas Schoomaker, de 73 anos, é obra de se lhes tirar o chapéu.

Só na vida real ou num filme de Scorsese poderia ser verosímil a história de um grupo de compinchas de infância, nados e criados num arrabalde proletarizado (Long Island, que no seu melhor será a Costa da Caparica de Nova Iorque…), de gosto e educação duvidosos, impostores e oportunistas, que exploram a cupidez da bolsa de capitais e de caminho comprovam que, nos métodos, haverá pouca diferença entre as gravatas de seda italiana dos correctores de Wall Street e os fatos de treino com grossa corrente de ouro que eles ostentam.

Desde que o calvinista Godard decretou que "os travellings são uma questão moral" ficou óbvio que a amoralidade (bem diferente da imoralidade) é uma perspectiva virtualmente inatingível em cinema. Está nisto o supino talento de Scorsese: gerar uma permanente sensação de alarme em cada enquadramento e em todas sequências, que nos arrasta para um estado de empatia com os escroques e nos suspende o juízo a pontos de darmos connosco do lado errado da ordem pública (sequer poderemos argumentar que seríamos inocent bystanders), emocionalmente envolvidos naquelas trapalhadas. Claro que isto é devastador, para nós, que estávamos tão agarradinhos aos nossos princípios, e para os sujeitos que Scorsese manipula, demonstrados desde o início como objetos à deriva na corrente do capitalismo financeiro, peças soltas da engrenagem, que a entopem e avariam mas não desmantelam – somos todos atirados para fora de pé sem bóia nem natação.

Gosto muito de filmes que se inclinam demasiado, em vias de desabarem a qualquer momento, sempre a pisarem o risco do grotesco e do burlesco – há lá coisa mais complicada em cinema? E esta arte de Scorsese, perfeitamente comandada em “O lobo de Wall Street”, só a vejo aproximada hoje em dia por David O. Russell, realizador dos magníficos e pouco estimados “Guia para um final feliz” (arriscada paráfrase do intraduzível “Silver lining playbook”) e “Golpada Americana”.

Por mim, estou em crer que apenas um jesuíta, e dos muito estufados, seria capaz de atravessar “O lobo de Wall Street” de sobrancelha franzida.

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2 comentários

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De José António Abreu a 29.12.2014 às 15:24

Caramba, tenho alinhavados três posts sobre três filmes de 2014... Mas acho que vou esperar que acabes a tua série. O mundo não deve acabar na passagem do ano. E entretanto até vou pensar num quarto, para não parecer que copiei o conceito... :)
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De José Navarro de Andrade a 29.12.2014 às 18:26

José António, se eu fosse tu, escrevia o que tinha a escrever e tanto melhor se fosse contraditório com estas minhas escolhas. Aqui não há ciências certas, só vontade de acertar. A seguir aos filmes ainda virá a música e, se tiver paciência, os livros.

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