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O meu patriotismo

por Rui Herbon, em 10.06.14

Sempre me custou muito entender o patriotismo. As proclamações do tipo «Amo Portugal» (ou Espanha, ou Inglaterra, tanto faz) sempre me soaram falsas e vazias, para além de inverosímeis, porque ninguém está capacitado para amar assim, em bloco, um país inteiro. Um indivíduo ama, quanto muito, algumas pessoas ao longo da sua vida, sem que lhe importem o seu local de nascimento nem a língua que falam. Quase sempre pertence-se ao um sítio por acidente. Acostumamo-nos a esse sítio, sim, e durante um tempo é o nosso mundo. Nele desenvolvemos os nossos primeiros afectos: criamos ligações fortes com algumas pessoas e paisagens, adquirimos hábitos que nos são gratos e que podem até chegar a ser-nos indispensáveis. Em geral sentimo-nos cómodos e bastaria que nos víssemos condenados ao exílio — como sucedeu a tantos portugueses ao longo da história — para que sentíssemos desmedidamente falta dessas pessoas, paisagens e hábitos. A maioria vive onde vive porque se encontrou ali ao nascer e juntou-se ao que já estava em marcha. Instalou-se naturalmente e não considera mudar-se, a não ser que sinta um profundo descontentamento ou fastio, ou seja inquieta e queira conhecer mundo, ou veja que o lugar não é o adequado para fazer carreira na sua profissão. Mas é tudo uma questão de costume; o amor tem pouco ou nada que ver. 

 

Isto é normal e compreensível, e também o é a provável simpatia que nutrimos por um lugar que conhecemos bem e que para nós, ao contrário da maioria, não equivale a um mero nome ou a uma visita de poucos dias. Conhecemos os seus habitantes ou parte deles, e se a equipa de futebol ganha uma partida alegramo-nos porque pensamos que eles estarão contentes. Tendemos a partilhar as alegrias e tristezas daqueles que nos são próximos. Mas nas proximidades costuma estar também o que mais detestamos, o que nos faz sofrer e torna a vida impossível. Não há ódio maior que o que tem destinatário concreto, visível. O ódio professado aos inimigos internos — aos do norte ou do sul, aos das ilhas ou do continente, aos do clube A ou do clube B — é muito mais feroz que o que nos é inculcado aos espanhóis, russos ou americanos. Estes são postiços, abstractos. Tal como esse amor que alguns declaram a Portugal mas não aos portugueses, que seria bem mais próprio. Jamais ouvi um português dizer semelhante coisa — que ama os portugueses —, porque ao virar da esquina encontraria um espécime que invalidaria a afirmação.

 

Também é difícil orgulhar-me da minha terra porque algum dos meus compatriotas se distinguiu em algo. Se Ronaldo ou qualquer desportista português ganha um prémio, não consigo sentir que isso me torne melhor em nenhum aspecto, e parecer-me-ia ridículo exclamar que somos os melhores no futebol quando nunca tive jeito para a modalidade. E mesmo que o tivesse, que relação teria isso com a habilidade ou a perícia de um rapaz que nunca me foi apresentado? Se um realizador português ganha uma Palma, um Leão ou um Urso, ou um escritor o Nobel, não me sinto de modo nenhum partícipe do seu reconhecimento particular. E não é por Saramago o ter recebido (o Nobel) e ser português que deixo de considerar a sua literatura rançosa.

 

Estranhamente só compreendo o patriotismo pela via negativa, isto é, há pessoas e factos e coisas com as quais nada tenho que ver e que no entanto, por serem do meu país, me envergonham. Por exemplo: a péssima gestão dos dinheiros públicos que conduziu a três resgates externos em trinta anos, ou a histeria em torno da selecção de futebol por oposição ao desinteresse na construção de um futuro colectivo minimamente decente, ou uma justiça que em demasiados casos não condena nem inocenta. Os méritos de outros (individuais ou colectivos) não me contagiam nem enobrecem, mas a estupidez, a mediocridade e as ignominias, sim, atingem-me. Não é que me console, mas estou seguro de não ser o único português que assim sente.

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15 comentários

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De Carlos Duarte a 10.06.2014 às 09:30

Caro Rui,

O patriotismo tem uma explicação muito simples: somos um ser gregário, de grupo e somos definidos pelas histórias que criamos e em que somos enredados, logo o que amamos não é uma noção "concreta" do País, mas uma noção abstracta, que nos dá um sentimento de pertença.

Podemos perfeitamente amar o nosso país e desprezar os nossos compatriotas - desde que achemos que os mesmos não representam ou não se encaixam na nossa noção de Portugal. Já o contrário, para ser honesto, é francamente mais díficil e é muito incomum encontrar pessoas que se encaixem no perfil (relembro que o Comunismo, que se considerava uma ideologia internacional com objectivos apátridas revertia quase sempre para nacionalismos exarcebados).

Da mesma forma que podemos olhar para os desvairados que por aí andam e bastar citar Pessoa: "Senhor, falta cumprir-se Portugal"
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De Anónimo a 05.10.2017 às 19:43

Portugal is the best!
Russia too!
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De Torpedo a 10.06.2014 às 09:42

Vc é o típico desligado, dominado pela vergonha que tem dos seus pares. É desta negação, na linha do nascemos todos em África, que nascem coisas como o acordo ortográfico.
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De Rui Herbon a 10.06.2014 às 10:25

Por acaso prefiro os ímpares aos pares, mas caso não tenha reparado não sou adepto do acordo ortográfico.
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De Maria Dulce Fernandes a 10.06.2014 às 10:08

Um País não é uma noção vaga. É um conjunto de pessoas com um passado comum, língua e tradições. Pode ser que por me ter sido imposto o conceito de Pátria Lusa, eu me sinta em união com Portugal, como berço, como nação, como pertença, desde tenra idade
Os homens passam, mas o País permanece e tal como o poeta diz muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa.
Já corri meio mundo, sempre com muito orgulho de dizer que sou portuguesa.
Bom feriado.
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De João André a 10.06.2014 às 11:22

Tenho uma sensação semelhante Rui, porquê ter orgulho de algo que não influenciamos (nascimento)? Talvez pudesse ter orgulho da nacionalidade se me tornasse, digamos, dinamarquês, ou sul-africano, ou brasileiro, já que eu teria de trabalhar para tal. Mas ter orgulho de ser português não faz, para mim, qualquer sentido.

isso não quer dizer que eu não tenha um sentimento de pertença a Portugal. Gosto de Ronaldo/Saramago/Pires não por quem ela/e é mas porque partilha comigo certos aspectos, características ou gostos (ou desgostos, porque não?). é essa partilha de experiências de vida que me une aos outros portugueses e que me leva a defender o meu país. Isso não faz de mim um patriota - mais depressa defenderei um amigo estrangeiro que o meu país - mas deixa-me sensível ao patrioteirismo.
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De Artur Alexandre a 26.09.2017 às 19:15

Desculpe, mas o seu "patriotismo" não tem sentido. Ser patriota é amar a pátria e procurar servi-lo da melhor forma possível. Pelo seu relato, não é patriota, Portugal não tem administração decente, mas eu protegeria a minha pátria que um amigo estrangeiro. Você pode dizer que isto é ser nazista, xenófobo, etc, o que você entender. Mas o patriotismo é um sentimento que une uma nação.
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De Manuel a 10.06.2014 às 12:13

A nossa cultura é a estirpe malfadada da espécie.
Desorientados são espertos mas tendem a ser pouco inteligentes. A prova é essa mesmo, a da nossa História, cheia de borrasca.
Nos últimos 30 anos, podemos afirmar em qualquer parte do mundo que ser português é ser "pedintês", uma espécie de desgraçado mendicante, mas com memoria curta. É sempre pode, convence-se de que é grande, realizando algo digno de um gigante, depois vai-se a ver e nada - não tem lá nada. E não aprende... Fazer o quê, se até os livros de História nos ensinam a assim ser.
Infeliz daquele que nem seu tamanho sabe ver.
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De xico a 10.06.2014 às 13:24

Compreendo-o mas não concordo. Também não sou dos que sentem orgulho em ser português, pois o sê-lo nada tem da minha vontade ou escolha. Mas aprendi a amar o país pelo que me falaram dele, pelos afectos. Nasci numa ex-colónia e vim adulto para Portugal e sempre senti, mesmo quando cá não vivia, como a minha verdadeira pátria. Tenho carinho pela terra que me viu nascer mas o meu afecto maior desde muito cedo é por Portugal. Não se explica. Senti sempre que tinha nascido num exílio.
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De da Maia a 10.06.2014 às 17:29

Portugal, como qualquer nação, é uma ligação à sua História e língua.
Tendo-se desvalorizado a sua história no panorama mundial, e procurando-se atacar a sua língua, essa nação que nos unia passou a um conjunto de indivíduos desunidos, que procuram mais o sucesso individual do que qualquer motivação colectiva.

Há ainda uma geração, a que pertenço, que foi educada para a nação.
Esse ideal foi construído com um objectivo, tal como foi desconstruído, com outro objectivo. Se o objectivo anterior permitia comandar soldados, o objectivo actual permite comandar ovelhas tresmalhadas.
Analisando os dois extremos perceberemos melhor o que nos une e o que nos separa. Mas para isso é preciso abandonar as histórias da carochinha... antigas e actuais.
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De atento a 10.06.2014 às 23:31

presumo que já não está no país ?!
se não, boa viagem.
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De Rui Herbon a 11.06.2014 às 12:01

Calma, porque primeiro tenho que sacar ao Estado o dinheiro dos meus impostos que não utilizei nem vou utilizar. Não o vou deixar para si, certamente.
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De Manuel a 11.06.2014 às 14:29

esganado!

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De atento a 11.06.2014 às 15:18

o melhor é fazer uma conta corrente!
impostos - instrução.

Ps: as minhas contas estão a ficar saldadas, não se preocupe.

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